O brasileiro, que já se esqueceu do departamento de propinas da Odebrecht, vai acabar se esquecendo também dos 600 mil mortos.Diogo Mainardi
segunda-feira, 4 de outubro de 2021
O esquecimento é a borracha
A cobertura política que facilita a emergência de fascistas
Lavar a roupa suja do governo de Donald Trump tem sido uma bonança para a indústria editorial americana. A rotina começou cedo, com o republicano ainda na Casa Branca. Autores revelam um homem corrupto, desequilibrado, ignorante e um traidor dos interesses do próprio país.
O novo exemplo é o livro de uma trumpista de primeira hora, Stephanie Grisham. Ela foi assessora de imprensa da Casa Branca e chefe de gabinete de Melania Trump. Só saltou do navio no dia da invasão do Capitólio, quando a primeira-dama se recusou a interromper uma sessão de fotos de um tapete para se inteirar do ataque terrorista.
O título do livro de Grisham, “I’ll Take Your Questions Now: What I Saw at the Trump White House” (vou responder a suas perguntas agora: o que vi na Casa Branca de Trump), é uma referência ao fato de que Grisham nunca realizou sequer uma das entrevistas coletivas regulares na sala de imprensa da Casa Branca.
Como a maioria dos que servem a canalhas e depois tentam faxinar a reputação para não serem incomodados com vaias em restaurantes, a desculpa de Grisham para o blecaute com a imprensa é pífia: ela confirma que Trump mentia demais e não queria ser citada na imprensa proferindo absurdos.
As revelações vão da gravidade geopolítica à obsessão de Trump com o próprio pênis. No encontro com Vladimir Putin, na cúpula do G20, em 2019, o americano agiu como um vira-latas buscando aprovação do ditador russo e disse a ele: “Vou parecer meio durão com você por alguns minutos, mas é só para as câmeras, depois que saírem a gente conversa”.
Quando a atriz pornô Stormy Daniels ridicularizou o formato do pinto presidencial, Trump telefonou para Grisham do avião Air Force One para informar que seu pênis tinha forma e tamanho ideais.
O que os livros não cobrem em detalhes é o papel da imprensa política em facilitar a ascensão e o desgoverno de Trump. Sim, o jornalismo americano demorou, mas passou a classificar de “mentira” do presidente o que antes descrevia com eufemismos. Mas figuras grotescas como Trump ou Jair Bolsonaro não são simples exceções extremistas. Chegam ao poder, provocam caos e morte em massa a bordo de um sistema que boa parte da imprensa ainda cobre como um território de equivalentes.
Um ex-editor de dois outrora influentes jornais americanos admitiu com singeleza seu papel de cúmplice não intencional na emergência do “fascismo que ameaça a nossa democracia”. Mark Jacob é autor de livros de história e trabalhou nos jornais Chicago Tribune e Chicago Sunday Times.
Numa série de postagens no Twitter, ele lembra que, quando editava reportagens políticas, contava o número de citações de republicanos e democratas, para manter a suposta objetividade. Mas ele conclui que, se antes a corrupção era distribuída entre os dois partidos, nas últimas décadas a decadência ética do Partido Republicano provocou fadiga na mídia, o que ajudou a normalizar o inaceitável.
Afinal, argumenta Jacob, Hillary Clinton usar servidor privado para emails não é o mesmo que George W. Bush mentir para iniciar uma guerra catastrófica no Iraque.
Bolsonaro foi eleito com apoio de jornalistas que vomitam asneiras como “bolsopetismo”, um chocalho ideológico, não um fato. Pouco importa se hoje é criticado por arrependidos. A mídia deve ao público a defesa da democracia, não a neutralidade diante de fascistas.
O novo exemplo é o livro de uma trumpista de primeira hora, Stephanie Grisham. Ela foi assessora de imprensa da Casa Branca e chefe de gabinete de Melania Trump. Só saltou do navio no dia da invasão do Capitólio, quando a primeira-dama se recusou a interromper uma sessão de fotos de um tapete para se inteirar do ataque terrorista.
O título do livro de Grisham, “I’ll Take Your Questions Now: What I Saw at the Trump White House” (vou responder a suas perguntas agora: o que vi na Casa Branca de Trump), é uma referência ao fato de que Grisham nunca realizou sequer uma das entrevistas coletivas regulares na sala de imprensa da Casa Branca.
Como a maioria dos que servem a canalhas e depois tentam faxinar a reputação para não serem incomodados com vaias em restaurantes, a desculpa de Grisham para o blecaute com a imprensa é pífia: ela confirma que Trump mentia demais e não queria ser citada na imprensa proferindo absurdos.
As revelações vão da gravidade geopolítica à obsessão de Trump com o próprio pênis. No encontro com Vladimir Putin, na cúpula do G20, em 2019, o americano agiu como um vira-latas buscando aprovação do ditador russo e disse a ele: “Vou parecer meio durão com você por alguns minutos, mas é só para as câmeras, depois que saírem a gente conversa”.
Quando a atriz pornô Stormy Daniels ridicularizou o formato do pinto presidencial, Trump telefonou para Grisham do avião Air Force One para informar que seu pênis tinha forma e tamanho ideais.
O que os livros não cobrem em detalhes é o papel da imprensa política em facilitar a ascensão e o desgoverno de Trump. Sim, o jornalismo americano demorou, mas passou a classificar de “mentira” do presidente o que antes descrevia com eufemismos. Mas figuras grotescas como Trump ou Jair Bolsonaro não são simples exceções extremistas. Chegam ao poder, provocam caos e morte em massa a bordo de um sistema que boa parte da imprensa ainda cobre como um território de equivalentes.
Um ex-editor de dois outrora influentes jornais americanos admitiu com singeleza seu papel de cúmplice não intencional na emergência do “fascismo que ameaça a nossa democracia”. Mark Jacob é autor de livros de história e trabalhou nos jornais Chicago Tribune e Chicago Sunday Times.
Numa série de postagens no Twitter, ele lembra que, quando editava reportagens políticas, contava o número de citações de republicanos e democratas, para manter a suposta objetividade. Mas ele conclui que, se antes a corrupção era distribuída entre os dois partidos, nas últimas décadas a decadência ética do Partido Republicano provocou fadiga na mídia, o que ajudou a normalizar o inaceitável.
Afinal, argumenta Jacob, Hillary Clinton usar servidor privado para emails não é o mesmo que George W. Bush mentir para iniciar uma guerra catastrófica no Iraque.
Bolsonaro foi eleito com apoio de jornalistas que vomitam asneiras como “bolsopetismo”, um chocalho ideológico, não um fato. Pouco importa se hoje é criticado por arrependidos. A mídia deve ao público a defesa da democracia, não a neutralidade diante de fascistas.
Quanto vale o poeta
Sim, ele tinha de fato um olhar triste. Os olhos azuis, de um azul profundo, que vinha do fundo dos séculos. Da ancestral Escócia, ou de um afluente celta que passava pelo Portugal nortenho. Naquele remotíssimo ano, ali na avenida Afonso Pena, em Belo Horizonte, a gente via pela primeira vez, em carne e osso, o poeta. Seus versos entravam na conversa e dela saíam sem aspas. Palavras de passe, o código.
Perdi o bonde e a esperança, dizia um, enquanto passava o bonde. Havia bondes e havia esperança. Pouco importava o que diziam os jornais. Havia jardins, havia manhães naquele tempo. Volto páido para casa, dizia o outro. A tragédia lá fora, a guerra. Nossos ombros suportavam o mundo e ele não pesava mais do que a mão de uma criança. O amor não tem importância. Que é a velhice?
A cidade ainda cheirava a roça. E cheirava a tinta, novinha em folha. Todavia, velha cidade! Era ali mesmo, naquele cenário, que se situavam os versos tão repetidos. As árvores tão repetidas. Debaixo de cada árvore faço minha cama. Eu via a árvore, por que não veria a cama? Em cada ramo dependuro meu paletó. A avenida tinha muitas árvores, muitos ramos. E ali estava o poeta, com o seu paletó. Escovadíssimo, nos trinques. E os tristes olhos azuis.
Ao Paulo, o que impressionou foram os sapatos de camurça. Volta e meia, anos a fio, os sapatos voltavam à conversa. O poeta achava graça e ria. Um simples detalhe, desses que ficam para sempre. Como um cisco que se recusa a sair. Há três anos, desde março de 1989, a efígie do poeta está numa cédula que começou sendo de cinquenta cruzados novos. Hoje é de cinquenta cruzeiros. Não vale um caracol.
O raio dessa nota me persegue. Vira e mexe, tenho duas, três no bolso. Nem de óculos consigo ler os quatro versos da "Prece de mineiro no Rio". Fujo da "Canção amiga", que está inteira na cédula. Quanta coisa no anverso e no reverso de um papelucho que não vale nada. Está fiel o desenho. É a sua cara. Mas fechada demais. E ele ria, sabia rir. Aqui está tristíssimo, como nunca o vi. Deve ser o diabo dessa inflação. Fujo da efígie e reencontro, remoto, em Minas, o poeta Carlos Drummond de Andrade.
Otto Lara Resende, Folha SP 22/02/1992
Perdi o bonde e a esperança, dizia um, enquanto passava o bonde. Havia bondes e havia esperança. Pouco importava o que diziam os jornais. Havia jardins, havia manhães naquele tempo. Volto páido para casa, dizia o outro. A tragédia lá fora, a guerra. Nossos ombros suportavam o mundo e ele não pesava mais do que a mão de uma criança. O amor não tem importância. Que é a velhice?
A cidade ainda cheirava a roça. E cheirava a tinta, novinha em folha. Todavia, velha cidade! Era ali mesmo, naquele cenário, que se situavam os versos tão repetidos. As árvores tão repetidas. Debaixo de cada árvore faço minha cama. Eu via a árvore, por que não veria a cama? Em cada ramo dependuro meu paletó. A avenida tinha muitas árvores, muitos ramos. E ali estava o poeta, com o seu paletó. Escovadíssimo, nos trinques. E os tristes olhos azuis.
Ao Paulo, o que impressionou foram os sapatos de camurça. Volta e meia, anos a fio, os sapatos voltavam à conversa. O poeta achava graça e ria. Um simples detalhe, desses que ficam para sempre. Como um cisco que se recusa a sair. Há três anos, desde março de 1989, a efígie do poeta está numa cédula que começou sendo de cinquenta cruzados novos. Hoje é de cinquenta cruzeiros. Não vale um caracol.
O raio dessa nota me persegue. Vira e mexe, tenho duas, três no bolso. Nem de óculos consigo ler os quatro versos da "Prece de mineiro no Rio". Fujo da "Canção amiga", que está inteira na cédula. Quanta coisa no anverso e no reverso de um papelucho que não vale nada. Está fiel o desenho. É a sua cara. Mas fechada demais. E ele ria, sabia rir. Aqui está tristíssimo, como nunca o vi. Deve ser o diabo dessa inflação. Fujo da efígie e reencontro, remoto, em Minas, o poeta Carlos Drummond de Andrade.
Otto Lara Resende, Folha SP 22/02/1992
Um governo sem remédio
A inflação está de volta aos dois dígitos com seu efeito devastador sobre os mais pobres, num momento em que há um forte aumento da pobreza. Isso deveria estar no centro das atenções do governo, mas o presidente está ocupado em fazer campanha antecipada, em jogar a culpa dos problemas sobre os governadores. O Ministério da Economia não conseguiu formular uma boa proposta de combate à inflação, de redução da pobreza, e está num jogo de faz de conta fiscal.
Faz de conta que o teto de gastos está sendo respeitado, faz de conta que a Lei de Responsabilidade Fiscal está sendo obedecida. O teto fica onde está, mas muitas despesas vão sendo depositadas sobre ele. E quanto mais despesas sobem, mais fictícia se torna essa trava fiscal. A ideia de financiar um novo programa social com receitas ainda a serem criadas é delirante. E sim, fere a LRF. O secretário especial de Fazenda, Bruno Funchal, diz que se o projeto do Imposto de Renda não for aprovado não haverá o novo programa. Isso é de tranquilizar, por um lado, mas não resolve a outra questão. Há necessidade de mais dinheiro para as transferências de renda. E isso é necessário porque os pobres ficaram mais pobres, e há mais pobres no país.
Na visão do mercado financeiro o que está claro é que o governo não quer cortar despesas para compensar a ampliação da rede de proteção aos mais pobres. Espaço há, como as emendas bilionárias de relator, que só servem para comprar o apoio dos políticos do centrão. A saída, então, será através do velho truque do aumento de impostos. Por isso subiu o IOF e o governo quer urgência na aprovação do seu projeto de IR. Ainda assim, as contas não fecham, porque existe a limitação do teto de gastos. A proposta inicial era ruim, foi piorada na Câmara e empacou no Senado. Não há qualquer certeza de que ela de fato vai arrecadar mais. O governo diz que o projeto será neutro, mas que com o aumento da receita vai financiar o programa. Ou é neutro ou aumentará a receita. Mas vários economistas estão prevendo que, na verdade, haverá perda de arrecadação. Os estados sabem que perderão.
O que o Brasil não precisa? De inventar um programa de transferência de renda só para tirar a marca do PT do Bolsa Família. E foi exatamente o que governo fez. Ele baixou uma Medida Provisória extinguindo o programa e criando o novo Auxílio Brasil, mas não sabe ainda como vai financiar. Enquanto isso, cria-se o que já existiu, como o vale-gás. Ele foi extinto quando o governo Lula eliminou vários programas para concentrar no Bolsa Família, porque uma política potente é melhor do que a pulverização dos programas sociais.
Tempo para formular ideias melhores houve. E foi desperdiçado neste improviso constante que domina o governo Jair Bolsonaro. O negacionismo é ruim em si mesmo e por todos os efeitos colaterais. Ele impede que o governo tenha uma visão da sequência dos eventos e planeje a ação pública. Bolsonaro achou que a pandemia seria curta, negou a segunda onda, combateu as vacinas, brigou com os dados, desuniu o país e só agiu empurrado. Agora, unido ao Ministério da Economia, o presidente lança mão de medidas populistas para ver se consegue reverter a queda forte de popularidade.
A inflação vai atingir, com o dado de setembro, 10,2% segundo o Banco Central. As famílias estão endividadas, empobrecidas, e os juros terão que subir porque o BC tem que cumprir seu mandato de atingir a meta de inflação. Seria melhor se o presidente não atrapalhasse tanto a economia, com suas ameaças, mentiras e ataques.
O Brasil já reduziu tanto a sua expectativa em relação ao comportamento adequado de um presidente da República que comemora o fato de ele não falar de golpe desde o dia 7 de setembro. O país vai contando os dias como se, por decurso de prazo, Bolsonaro fosse deixar de ser o que é. Nesse meio tempo ele usou descaradamente o dinheiro público em campanha antecipada, atacou os governos estaduais por causa do preço do combustível, mentiu inúmeras vezes, fez apologia de armas colocando uma criança no ombro com um fuzil de brinquedo na mão, ameaçou as famílias dizendo que quem não se armar terá que atirar com balas de feijão quando invadirem sua casa. Não há o que salve esse governo. Ele não tem remédio.
Faz de conta que o teto de gastos está sendo respeitado, faz de conta que a Lei de Responsabilidade Fiscal está sendo obedecida. O teto fica onde está, mas muitas despesas vão sendo depositadas sobre ele. E quanto mais despesas sobem, mais fictícia se torna essa trava fiscal. A ideia de financiar um novo programa social com receitas ainda a serem criadas é delirante. E sim, fere a LRF. O secretário especial de Fazenda, Bruno Funchal, diz que se o projeto do Imposto de Renda não for aprovado não haverá o novo programa. Isso é de tranquilizar, por um lado, mas não resolve a outra questão. Há necessidade de mais dinheiro para as transferências de renda. E isso é necessário porque os pobres ficaram mais pobres, e há mais pobres no país.
Na visão do mercado financeiro o que está claro é que o governo não quer cortar despesas para compensar a ampliação da rede de proteção aos mais pobres. Espaço há, como as emendas bilionárias de relator, que só servem para comprar o apoio dos políticos do centrão. A saída, então, será através do velho truque do aumento de impostos. Por isso subiu o IOF e o governo quer urgência na aprovação do seu projeto de IR. Ainda assim, as contas não fecham, porque existe a limitação do teto de gastos. A proposta inicial era ruim, foi piorada na Câmara e empacou no Senado. Não há qualquer certeza de que ela de fato vai arrecadar mais. O governo diz que o projeto será neutro, mas que com o aumento da receita vai financiar o programa. Ou é neutro ou aumentará a receita. Mas vários economistas estão prevendo que, na verdade, haverá perda de arrecadação. Os estados sabem que perderão.
O que o Brasil não precisa? De inventar um programa de transferência de renda só para tirar a marca do PT do Bolsa Família. E foi exatamente o que governo fez. Ele baixou uma Medida Provisória extinguindo o programa e criando o novo Auxílio Brasil, mas não sabe ainda como vai financiar. Enquanto isso, cria-se o que já existiu, como o vale-gás. Ele foi extinto quando o governo Lula eliminou vários programas para concentrar no Bolsa Família, porque uma política potente é melhor do que a pulverização dos programas sociais.
Tempo para formular ideias melhores houve. E foi desperdiçado neste improviso constante que domina o governo Jair Bolsonaro. O negacionismo é ruim em si mesmo e por todos os efeitos colaterais. Ele impede que o governo tenha uma visão da sequência dos eventos e planeje a ação pública. Bolsonaro achou que a pandemia seria curta, negou a segunda onda, combateu as vacinas, brigou com os dados, desuniu o país e só agiu empurrado. Agora, unido ao Ministério da Economia, o presidente lança mão de medidas populistas para ver se consegue reverter a queda forte de popularidade.
A inflação vai atingir, com o dado de setembro, 10,2% segundo o Banco Central. As famílias estão endividadas, empobrecidas, e os juros terão que subir porque o BC tem que cumprir seu mandato de atingir a meta de inflação. Seria melhor se o presidente não atrapalhasse tanto a economia, com suas ameaças, mentiras e ataques.
O Brasil já reduziu tanto a sua expectativa em relação ao comportamento adequado de um presidente da República que comemora o fato de ele não falar de golpe desde o dia 7 de setembro. O país vai contando os dias como se, por decurso de prazo, Bolsonaro fosse deixar de ser o que é. Nesse meio tempo ele usou descaradamente o dinheiro público em campanha antecipada, atacou os governos estaduais por causa do preço do combustível, mentiu inúmeras vezes, fez apologia de armas colocando uma criança no ombro com um fuzil de brinquedo na mão, ameaçou as famílias dizendo que quem não se armar terá que atirar com balas de feijão quando invadirem sua casa. Não há o que salve esse governo. Ele não tem remédio.
sexta-feira, 1 de outubro de 2021
Tempo de validade expirando
Nesta segunda-feira, em Manaus, o ecologista americano Philip M. Fearnside, 74 anos, foi interpelado por um ativista bolsonarista ao denunciar, numa audiência pública, que o licenciamento ambiental para a pavimentação da rodovia Manaus-Porto Velho (BR-319) viabilizará a grilagem e o desmatamento de uma imensa área intocada da floresta. Segundo o repórter Fabiano Maisonnave, o ativista tumultuou a cena aos gritos de “Como é que pode vir um cara lá dos Estados Unidos dizer o que eu vou fazer na minha casa? Essa casa é nossa! Se a gente quiser derrubar todas as árvores, a gente derruba! É nossa!”.
Philip Fearnside é Prêmio Nobel da Paz em 2007. Reside na Amazônia há 45 anos. Tem mais tempo de Brasil do que o ativista, aos 41, tem de vida. Isso lhe dá uma autoridade sobre a região inalcançável pelo estafermo —aliás, paranaense e cujo currículo se resume a uma candidatura a vereador em 2020 pelo PRTB, partido do vice-presidente Hamilton Mourão, que lhe rendeu 42 votos. Segundo Fearnside, secundado por outros estudiosos, o desmatamento daquela área afetará o fornecimento de vapor d’água e diminuirá as chuvas no Sudeste. O interpelador não citou nenhum estudo. Seu argumento é a xenofobia.
O dito ativista é um exemplo típico de uma, literalmente, fauna de valentões que apoiam Jair Bolsonaro —machões, bombados, atiradores, selvagens da motocicleta e outros espécimes com adesão cada vez mais explícita ao nazismo. Sua xenofobia não surpreende. Vem juntar-se à fobia a tudo o que não pertence ao estreito círculo de convicções que querem impor ao país.
Ameaçar, ofender e agredir em turma é fácil. Se, hoje, se sentem tão à vontade para trovejar seus músculos e arrogância nos sindicatos, empresas, grotas sertanejas e redes sociais é porque seu líder e inspirador está sentado no trono.
Mas eles sabem que são só 15% da população —e que o tempo de validade do chefe está expirando.
Philip Fearnside é Prêmio Nobel da Paz em 2007. Reside na Amazônia há 45 anos. Tem mais tempo de Brasil do que o ativista, aos 41, tem de vida. Isso lhe dá uma autoridade sobre a região inalcançável pelo estafermo —aliás, paranaense e cujo currículo se resume a uma candidatura a vereador em 2020 pelo PRTB, partido do vice-presidente Hamilton Mourão, que lhe rendeu 42 votos. Segundo Fearnside, secundado por outros estudiosos, o desmatamento daquela área afetará o fornecimento de vapor d’água e diminuirá as chuvas no Sudeste. O interpelador não citou nenhum estudo. Seu argumento é a xenofobia.
O dito ativista é um exemplo típico de uma, literalmente, fauna de valentões que apoiam Jair Bolsonaro —machões, bombados, atiradores, selvagens da motocicleta e outros espécimes com adesão cada vez mais explícita ao nazismo. Sua xenofobia não surpreende. Vem juntar-se à fobia a tudo o que não pertence ao estreito círculo de convicções que querem impor ao país.
Ameaçar, ofender e agredir em turma é fácil. Se, hoje, se sentem tão à vontade para trovejar seus músculos e arrogância nos sindicatos, empresas, grotas sertanejas e redes sociais é porque seu líder e inspirador está sentado no trono.
Mas eles sabem que são só 15% da população —e que o tempo de validade do chefe está expirando.
O mistério da tevê que ninguém vê
A história de um dos maiores fracassos de comunicação e desperdício de dinheiro público de nossa história recente. Uma farsa permanente, que começa com Lula e vai até Bolsonaro, passando por Dilma e Temer. Às acusações de chapa branca, Lula respondia que a emissora seria plural e democrática, justamente o oposto do que foi desde o início. Totalmente aparelhada pelo PT, criou centenas de empregos e diretorias e chefias, sempre comendo verbas gordas e dando audiências esquálidas, ou traço, zero, para ser mais preciso. É audiência residual, o registro da fração de segundo em que o controle remoto passou pelo canal e saiu. Ou seja: ninguém viu. E é isso que justifica a existência de qualquer televisão, pública ou privada: de que servem as eventuais qualidades dos programas se ninguém os vê. Quem não se comunica se trumbica, já dizia o mestre Chacrinha.
Como uma alternativa pública aos canais comerciais, a TV Brasil foi um fracasso anunciado e retumbante, uma máquina de criar empregos e comer dinheiro: de nada valiam as mensagens se ninguém as recebia. Pena que eram pagas com nossos impostos. Imaginem quanto dinheiro a TV Brasil já torrou em 14 anos, dividam pelo número de espectadores que a assistiram, e terão uma das audiências per capita mais caras da história da TV. Se ninguém vê, então serve para quê? Para nada. Melhor seria ter jogado a dinheirama de um drone sobre o Complexo do Alemão ou a favela de Heliópolis.
Ou ter investido essa grana na TV Cultura, de São Paulo, que há décadas já exibia uma programação de qualidade, como uma real alternativa à TV comercial, assistida por uma audiência pequena e qualificada, mas ao alcance de todos, cumprindo sua missão pública e social, sempre com dificuldades financeiras, sem poder captar publicidade, dependendo de verbas públicas e da politicagem. Poderia ter crescido muito.
Mas não, a TV Brasil atravessou os governos Dilma e Temer devorando verbas e produzindo vento.
Uma das primeiras promessas de Bolsonaro eleito, com aquele seu jeitão autoritário e peremptório, foi “vou fechar a EBC e a TV Lula”. Mas não só a aparelhou com bolsonaristas como aumentou suas verbas na ilusão de ter um canal só seu para falar ao seu rebanho e para defender o governo. O problema é que ninguém vê, exatamente como nos tempos do PT.
A quem eles pensam que enganam ? E a que preço ? Qualquer live de Bolsonaro em seu canal do YouTube tem milhões de visualizações, mas quando fala na TV Brasil mal chegam a uns gatos pingados. Para quem tem redes sociais com milhões de seguidores de que serve um canalzinho de TV que ninguém vê? Autoengano, teu nome é TV Brasil. A melhor resposta é “me engana que eu gosto”.
Gostando ou não, a nós resta pagar a conta dessa farsa cara e inútil, enquanto não vem a privatização anunciada para o final de 2022. Se é que vem mesmo, já que foi Bolsonaro que prometeu.
| Apresentador Jair Messias no programa dos 1000 dias |
Como uma alternativa pública aos canais comerciais, a TV Brasil foi um fracasso anunciado e retumbante, uma máquina de criar empregos e comer dinheiro: de nada valiam as mensagens se ninguém as recebia. Pena que eram pagas com nossos impostos. Imaginem quanto dinheiro a TV Brasil já torrou em 14 anos, dividam pelo número de espectadores que a assistiram, e terão uma das audiências per capita mais caras da história da TV. Se ninguém vê, então serve para quê? Para nada. Melhor seria ter jogado a dinheirama de um drone sobre o Complexo do Alemão ou a favela de Heliópolis.
Ou ter investido essa grana na TV Cultura, de São Paulo, que há décadas já exibia uma programação de qualidade, como uma real alternativa à TV comercial, assistida por uma audiência pequena e qualificada, mas ao alcance de todos, cumprindo sua missão pública e social, sempre com dificuldades financeiras, sem poder captar publicidade, dependendo de verbas públicas e da politicagem. Poderia ter crescido muito.
Mas não, a TV Brasil atravessou os governos Dilma e Temer devorando verbas e produzindo vento.
Uma das primeiras promessas de Bolsonaro eleito, com aquele seu jeitão autoritário e peremptório, foi “vou fechar a EBC e a TV Lula”. Mas não só a aparelhou com bolsonaristas como aumentou suas verbas na ilusão de ter um canal só seu para falar ao seu rebanho e para defender o governo. O problema é que ninguém vê, exatamente como nos tempos do PT.
A quem eles pensam que enganam ? E a que preço ? Qualquer live de Bolsonaro em seu canal do YouTube tem milhões de visualizações, mas quando fala na TV Brasil mal chegam a uns gatos pingados. Para quem tem redes sociais com milhões de seguidores de que serve um canalzinho de TV que ninguém vê? Autoengano, teu nome é TV Brasil. A melhor resposta é “me engana que eu gosto”.
Gostando ou não, a nós resta pagar a conta dessa farsa cara e inútil, enquanto não vem a privatização anunciada para o final de 2022. Se é que vem mesmo, já que foi Bolsonaro que prometeu.
Mil e uma noites no poder
Os 1000 dias do governo Bolsonaro foram comemorados pelo governo sem muita pompa, não houve nenhuma entrega espetacular para marcar a data. Afinal, são 600 mil mortes por covid-19, 14 milhões de desempregados e 35 milhões de brasileiros na miséria. “Nada não está tão ruim que não possa piorar”, disse o presidente Jair Bolsonaro, agourento, durante a efeméride no Palácio do Planalto. Diante de ministros e parlamentares, arrematou: “Alguém acha que eu não queria a gasolina a R$ 4? Ou menos? O dólar R$ 4,50 ou menos? Não é maldade da nossa parte. É uma realidade. E tem um ditado que diz: ‘Nada não está tão ruim que não possa piorar’. Nós não queremos isso.”
Lembrei-me de uma passagem de um clássico da literatura universal, As Mil e Uma Noites (Editora Brasiliense), uma coletânea de histórias de origem persa narradas por sua principal personagem, a princesa árabe Xerazade, esposa do rei Xariar. “Você vai morrer!”, disse o monarca, “você morreria nem se fosse apenas para eu ouvir sua cabeça falar depois de separada do corpo”.
Suspeito de espionar, o médico Dubane fora condenado à morte, porém, antes da execução, desafiou o monarca a ler um livro que faria sua cabeça decapitada falar. O rei caiu na armadilha e começou a ler as páginas do livro, molhando o dedo na própria saliva para separá-las. A cabeça amaldiçoada esperou o veneno fazer efeito e, antes do rei o morrer, declamou:
Eles julgaram a seu modo
E se acumpliciaram nesse trabalho
Dentro em pouco, seu poder parecerá que
nunca existiu
Poderiam ter permanecidos justos e puros
mas abusaram do poder
e o mundo por seu turno os oprimiu
assim como a adversidade e a provação
Ei-los vivendo na miséria. Seu presente
É tão-somente o fruto do seu passado.
Quem censurará o mundo
Por tratá-los assim.
O poema ajuda a entender a derrocada de governos, regimes e até civilizações. Não é o caso ainda do governo Bolsonaro, ao completar 1.000 dias, mas é o seu rumo atual. Na última sexta-feira, o preço médio da gasolina era R$ 6,09, mesmo subsidiada pela Petrobras. Ontem, o dólar estava cotado a R$ 5,37. O Imperador brasileiro Dom Pedro II soube bem o que é isso. Foi o primeiro a traduzir diretamente As Mil e Uma Noites para o português, com rigor raro para a época. Aos 62 anos, pouco antes da Abolição e da Proclamação da República, começou o trabalho. O último registro de texto traduzido é de novembro de 1891, um mês antes de sua morte em Paris, no exílio. Não conseguiu concluir a obra.
Entretanto, ninguém pense que Bolsonaro está jogando a toalha. Apesar das dificuldades eleitorais, não se sente estrategicamente derrotado. O seu discurso de ontem, ao se referir à facada que levou na campanha de 2018, constrói um cenário imaginário no qual a eventual vitória de seu adversário principal nas eleições de 2018, o ex-ministro da Educação Fernando Haddad (PT), faria com que a situação fosse muito pior: “É só imaginar quem estaria no meu lugar. O perfil dessa pessoa, o seu alinhamento com outros países do mundo, em especial aqui na América do Sul. Onde nós estaríamos agora?”, indagou. Obviamente, a comparação é com a Venezuela: “Você já sabe qual o filme do futuro porque você viveu 14 anos passados esse filme. E pode ter certeza, não serão apenas mais 14 anos. Serão no mínimo 50. É isso que queremos para a nossa pátria?”
Bolsonaro administra mal o próprio tempo, o recurso mais escasso de seu mandato. Governa para os seus, olhando sempre para trás. Constrói um cenário político que lembra um pouco a disputa de 1950, na qual Getulio Vargas voltou à Presidência pelo voto. Naquela campanha, o líder da UDN, Carlos Lacerda, que mais tarde seria governador da antiga Guanabara, dizia que Vargas não poderia ser candidato; se fosse candidato, não deveria ganhar; se ganhasse, não deveria tomar posse; se tomasse posse, deveria ser derrubado.
Lacerda foi um opositor implacável, mas sofreu um atentado, na Rua Tonelero, em Copacabana, onde morava, sendo ferido na perna. No episódio, morreu o major Rubens Vaz, seu amigo, que cuidava da sua segurança. O envolvimento de Gregório Fortunato, chefe da segurança pessoal do presidente, no crime, e de Benjamin Vargas, seu irmão, encurralou e levou Vargas ao suicídio, em 24 de agosto de 1954. A analogia serve para mostrar que a atual polarização política não se resolverá na eleição. Deixou de ser eleitoral: é mais profunda e, tudo indica, veio para ficar.
Lembrei-me de uma passagem de um clássico da literatura universal, As Mil e Uma Noites (Editora Brasiliense), uma coletânea de histórias de origem persa narradas por sua principal personagem, a princesa árabe Xerazade, esposa do rei Xariar. “Você vai morrer!”, disse o monarca, “você morreria nem se fosse apenas para eu ouvir sua cabeça falar depois de separada do corpo”.
Suspeito de espionar, o médico Dubane fora condenado à morte, porém, antes da execução, desafiou o monarca a ler um livro que faria sua cabeça decapitada falar. O rei caiu na armadilha e começou a ler as páginas do livro, molhando o dedo na própria saliva para separá-las. A cabeça amaldiçoada esperou o veneno fazer efeito e, antes do rei o morrer, declamou:
Eles julgaram a seu modo
E se acumpliciaram nesse trabalho
Dentro em pouco, seu poder parecerá que
nunca existiu
Poderiam ter permanecidos justos e puros
mas abusaram do poder
e o mundo por seu turno os oprimiu
assim como a adversidade e a provação
Ei-los vivendo na miséria. Seu presente
É tão-somente o fruto do seu passado.
Quem censurará o mundo
Por tratá-los assim.
O poema ajuda a entender a derrocada de governos, regimes e até civilizações. Não é o caso ainda do governo Bolsonaro, ao completar 1.000 dias, mas é o seu rumo atual. Na última sexta-feira, o preço médio da gasolina era R$ 6,09, mesmo subsidiada pela Petrobras. Ontem, o dólar estava cotado a R$ 5,37. O Imperador brasileiro Dom Pedro II soube bem o que é isso. Foi o primeiro a traduzir diretamente As Mil e Uma Noites para o português, com rigor raro para a época. Aos 62 anos, pouco antes da Abolição e da Proclamação da República, começou o trabalho. O último registro de texto traduzido é de novembro de 1891, um mês antes de sua morte em Paris, no exílio. Não conseguiu concluir a obra.
Entretanto, ninguém pense que Bolsonaro está jogando a toalha. Apesar das dificuldades eleitorais, não se sente estrategicamente derrotado. O seu discurso de ontem, ao se referir à facada que levou na campanha de 2018, constrói um cenário imaginário no qual a eventual vitória de seu adversário principal nas eleições de 2018, o ex-ministro da Educação Fernando Haddad (PT), faria com que a situação fosse muito pior: “É só imaginar quem estaria no meu lugar. O perfil dessa pessoa, o seu alinhamento com outros países do mundo, em especial aqui na América do Sul. Onde nós estaríamos agora?”, indagou. Obviamente, a comparação é com a Venezuela: “Você já sabe qual o filme do futuro porque você viveu 14 anos passados esse filme. E pode ter certeza, não serão apenas mais 14 anos. Serão no mínimo 50. É isso que queremos para a nossa pátria?”
Bolsonaro administra mal o próprio tempo, o recurso mais escasso de seu mandato. Governa para os seus, olhando sempre para trás. Constrói um cenário político que lembra um pouco a disputa de 1950, na qual Getulio Vargas voltou à Presidência pelo voto. Naquela campanha, o líder da UDN, Carlos Lacerda, que mais tarde seria governador da antiga Guanabara, dizia que Vargas não poderia ser candidato; se fosse candidato, não deveria ganhar; se ganhasse, não deveria tomar posse; se tomasse posse, deveria ser derrubado.
Lacerda foi um opositor implacável, mas sofreu um atentado, na Rua Tonelero, em Copacabana, onde morava, sendo ferido na perna. No episódio, morreu o major Rubens Vaz, seu amigo, que cuidava da sua segurança. O envolvimento de Gregório Fortunato, chefe da segurança pessoal do presidente, no crime, e de Benjamin Vargas, seu irmão, encurralou e levou Vargas ao suicídio, em 24 de agosto de 1954. A analogia serve para mostrar que a atual polarização política não se resolverá na eleição. Deixou de ser eleitoral: é mais profunda e, tudo indica, veio para ficar.
A mais degradante das crises
Geisa Sfanini, 32 anos, moradora de Osasco (SP), teve 90% do corpo queimado porque, sem gás nem dinheiro, usou etanol para cozinhar. Ela morreu na última segunda-feira, deixou órfão um bebê de 8 meses. Duas vezes por semana, Denise da Silva, 51, viúva, cinco filhos, 12 netos, vai de São João de Meriti, na Baixada Fluminense, até a Glória, na Zona Sul carioca, para garimpar num caminhão fragmentos de carne bovina em pedaços de ossos e pelanca, mostraram Rafael Nascimento de Souza e Gabriel Sabóia em reportagem no Extra. Os restos descartados por supermercados tinham como destino fábricas de ração e sabão, até a fome levar a população ao desespero e o país ao patamar de miséria do século passado. Dezenove milhões de brasileiros, a maioria negros, estão à míngua, enquanto autoridades dormem, e o presidente da República, impopular como nunca, gasta tempo em campanha antecipada à reeleição.
Nada numa sociedade é mais degradante que a fome. O Brasil soma dois Portugais de famintos, mas não tem política social de enfrentamento à insegurança alimentar. Jair Bolsonaro foi a Nova York (EUA) e Boa Vista (RR) dizer que acredita em Deus, respeita a Constituição, defende a família tradicional (em evidente referência homofóbica) e é leal ao povo. Mentiu à quarta potência. Qualquer líder que conjugue fé, respeito às leis, defesa dos lares e lealdade à população agiria pela vida, não em prol da morte. Em ano e meio de pandemia, o chefe do Executivo pregou desobediência ao protocolo de proteção contra a Covid-19, recomendou medicamentos ineficazes, não visitou um hospital, jamais se ocupou da urgência alimentar. Age diuturnamente ora para proteger parentes e aliados investigados por um leque de crimes, ora por mais uma temporada no Planalto.
Nesta semana, o coletivo Movimentos, de jovens moradores de favelas, apresentou resultados de uma pesquisa sobre os impactos da pandemia na Maré, no Complexo do Alemão e na Cidade de Deus. Metade dos entrevistados precisou de ajuda para sobreviver à temporada; um terço recolheu ou fez doações. O Estado despreza, a sociedade civil acolhe. A Coalizão Negra por Direitos vai estender a campanha Tem Gente Com Fome, que em seis meses arrecadou R$ 18,9 milhões, distribuiu cestas básicas a mais de 100 mil famílias, alimentou meio milhão de brasileiros. Nesta semana, por iniciativa da subprocuradora aposentada Deborah Duprat, um Tribunal Popular da Fome acusou e julgou o governo por violação ao direito humano à alimentação e nutrição adequadas.
A pedido da Ação da Cidadania, a OAB Nacional ajuizou no STF ação para obrigar o governo Bolsonaro a implementar políticas públicas de combate à fome, em aliança com estados e municípios. A ONG, fundada pelo sociólogo Herbert de Souza, o Betinho, morto em 1997, atua desde os anos 1990 em campanhas contra a miséria. Em 2007, chegou a suspender por uma década a doação de alimentos, em decorrência da política social, Bolsa Família à frente, que tirou o Brasil do Mapa da Fome da ONU. A mobilização foi retomada em 2017, com o agravamento da crise social após a recessão aguda do período 2014-2016. No ano passado, com a pandemia, a demanda foi inédita.
— Desde março de 2020, arrecadamos R$ 150 milhões, suficientes para distribuir 30 mil toneladas de alimentos ou 150 milhões de pratos de comida a 12 milhões de brasileiros — informou Kiko Afonso, diretor executivo da entidade.
Na ADPF 885, a OAB aponta violação de direitos constitucionais pelo governo no enfrentamento à fome. Solicita ao STF retomada e ampliação do auxílio emergencial de R$ 600, reativação do Conselho Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional (Consea) e das demais instâncias de participação social extintas, recomposição orçamentária, aplicação de R$ 1 bilhão no Programa de Aquisição de Alimentos, formação de estoques públicos de alimentos da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) para aplacar escassez de oferta e disparada dos preços. O relator, ministro Dias Toffoli, deu dez dias para o governo se pronunciar.
Enquanto isso, o presidente age para desmontar política social consolidada, e o ministro da Economia, Paulo Guedes, avaliza gambiarras fiscais com objetivo eleitoral. A Medida Provisória do Auxílio Brasil, que rebatizará o Bolsa Família, alerta o economista Francisco Menezes, da ActionAid, não traz dotação orçamentária, número de beneficiários nem valor do repasse, e insiste na inscrição por aplicativo de smartphone, em detrimento do sistema de assistência social capaz de alcançar os mais vulneráveis. A Petrobras, que lucrou R$ 42,9 bilhões no segundo trimestre e pagará R$ 31,6 bilhões em dividendos a acionistas, União incluída, separou R$ 300 milhões para subsidiar gás de cozinha para famílias pobres. De Band-Aid para aplacar hemorragias, vive o governo brasileiro.
Nada numa sociedade é mais degradante que a fome. O Brasil soma dois Portugais de famintos, mas não tem política social de enfrentamento à insegurança alimentar. Jair Bolsonaro foi a Nova York (EUA) e Boa Vista (RR) dizer que acredita em Deus, respeita a Constituição, defende a família tradicional (em evidente referência homofóbica) e é leal ao povo. Mentiu à quarta potência. Qualquer líder que conjugue fé, respeito às leis, defesa dos lares e lealdade à população agiria pela vida, não em prol da morte. Em ano e meio de pandemia, o chefe do Executivo pregou desobediência ao protocolo de proteção contra a Covid-19, recomendou medicamentos ineficazes, não visitou um hospital, jamais se ocupou da urgência alimentar. Age diuturnamente ora para proteger parentes e aliados investigados por um leque de crimes, ora por mais uma temporada no Planalto.
Nesta semana, o coletivo Movimentos, de jovens moradores de favelas, apresentou resultados de uma pesquisa sobre os impactos da pandemia na Maré, no Complexo do Alemão e na Cidade de Deus. Metade dos entrevistados precisou de ajuda para sobreviver à temporada; um terço recolheu ou fez doações. O Estado despreza, a sociedade civil acolhe. A Coalizão Negra por Direitos vai estender a campanha Tem Gente Com Fome, que em seis meses arrecadou R$ 18,9 milhões, distribuiu cestas básicas a mais de 100 mil famílias, alimentou meio milhão de brasileiros. Nesta semana, por iniciativa da subprocuradora aposentada Deborah Duprat, um Tribunal Popular da Fome acusou e julgou o governo por violação ao direito humano à alimentação e nutrição adequadas.
A pedido da Ação da Cidadania, a OAB Nacional ajuizou no STF ação para obrigar o governo Bolsonaro a implementar políticas públicas de combate à fome, em aliança com estados e municípios. A ONG, fundada pelo sociólogo Herbert de Souza, o Betinho, morto em 1997, atua desde os anos 1990 em campanhas contra a miséria. Em 2007, chegou a suspender por uma década a doação de alimentos, em decorrência da política social, Bolsa Família à frente, que tirou o Brasil do Mapa da Fome da ONU. A mobilização foi retomada em 2017, com o agravamento da crise social após a recessão aguda do período 2014-2016. No ano passado, com a pandemia, a demanda foi inédita.
— Desde março de 2020, arrecadamos R$ 150 milhões, suficientes para distribuir 30 mil toneladas de alimentos ou 150 milhões de pratos de comida a 12 milhões de brasileiros — informou Kiko Afonso, diretor executivo da entidade.
Na ADPF 885, a OAB aponta violação de direitos constitucionais pelo governo no enfrentamento à fome. Solicita ao STF retomada e ampliação do auxílio emergencial de R$ 600, reativação do Conselho Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional (Consea) e das demais instâncias de participação social extintas, recomposição orçamentária, aplicação de R$ 1 bilhão no Programa de Aquisição de Alimentos, formação de estoques públicos de alimentos da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) para aplacar escassez de oferta e disparada dos preços. O relator, ministro Dias Toffoli, deu dez dias para o governo se pronunciar.
Enquanto isso, o presidente age para desmontar política social consolidada, e o ministro da Economia, Paulo Guedes, avaliza gambiarras fiscais com objetivo eleitoral. A Medida Provisória do Auxílio Brasil, que rebatizará o Bolsa Família, alerta o economista Francisco Menezes, da ActionAid, não traz dotação orçamentária, número de beneficiários nem valor do repasse, e insiste na inscrição por aplicativo de smartphone, em detrimento do sistema de assistência social capaz de alcançar os mais vulneráveis. A Petrobras, que lucrou R$ 42,9 bilhões no segundo trimestre e pagará R$ 31,6 bilhões em dividendos a acionistas, União incluída, separou R$ 300 milhões para subsidiar gás de cozinha para famílias pobres. De Band-Aid para aplacar hemorragias, vive o governo brasileiro.
A reinvenção do futuro
“Roma, lá fora, é uma cidade muito triste. Noite após noite, o país dorme desolado com a contagem, ainda às centenas, dos mortos, as cenas de terror se repetem nos hospitais”. O comentário é parte de um texto da escritora brasileira, Juliana Monteiro, radicada com sua família na capital italiana. Ela escrevia e descrevia o auge do primeiro confinamento vivido pela Itália, país que foi o primeiro epicentro da pandemia da covid-19 na Europa. “Que triste tantos italianos enterrando seus avós, aqui, onde são tão amados”, constatou, ainda nos primeiros meses de 2020.
O que a escritora de uma sensibilidade ímpar presenciava de seu balcão não era apenas uma impressão da dor que atravessava um continente. Mais de um ano depois daquele primeiro lockdown, dados confirmam o que ela sentia: a pandemia gerou a maior queda de expectativa de vida desde a Segunda Guerra Mundial.
A pesquisa, realizada pela Leverhulme Centre for Demographic Science, de Oxford, analisou dados de mortalidade em 29 países, incluindo Europa, EUA e Chile. Desse total, 27 deles registraram uma queda na expectativa de vida em 2020, numa escala que borrou o progresso objetivo durante anos na questão da mortalidade.
O que esses números revelam, no fundo, é uma enorme transformação na sociedade. Jamais, em épocas de paz, as mortes atingiram tais dimensões em economias ricas. A fome no mundo continua a matar mais que a covid-19. Mas, cinicamente, europeus consideravam essa outra pandemia como um problema distante e que, portanto, não merecia manchetes. E nem uma solução.
O que a pandemia revelou é que nada é inevitável, nem o futuro. Se as mortes atingiram níveis desconhecidos nesses países, algo parecido ocorreu com a taxa de natalidade. Os mais otimistas acreditavam que haveria um aumento de nascimentos nove meses depois do primeiro lockdown. Mas os números revelaram exatamente o oposto. Uma pesquisa na França e Alemanha em meados do ano passado indicou que 50% dos casais adiariam gravidezes.
Nos EUA, os números de queda começaram a aparecer de forma importante a partir de dezembro de 2020, nove meses depois da eclosão da crise. Segundo o CDC, a queda foi de 8% nos nascimentos no último mês do ano passado, uma tendência mantida em janeiro e fevereiro. Na Itália, a queda foi ainda maior, de 21%, contra 20% de redução na Espanha para o mês de dezembro. Já a França teve dezembro e janeiro com índices de natalidade mais baixos em 20 anos.
Não apenas a vida foi suspensa. Alianças foram desfeitas e a quantidade de casamentos que chegaram ao final explodiu. Só no Reino Unido entre julho e outubro de 2020, o escritório de advocacia Stewarts registrou um aumento de 122% em reuniões com indivíduos iniciando consultas sobre possíveis divórcios.
Agora, com as vacinas para uma classe privilegiada, os planos podem voltar a ser feitos. Tanto na Europa como nos EUA, os primeiros sinais literalmente de vida também começam a aparecer, com a volta de casais em busca de filhos. Ou pelo menos voltando a falar sobre o assunto. O Instituto Max Planck de Pesquisa Demográfica na Alemanha constata, por exemplo, que a busca no Google por termos relativos à gravidez deu um salto nas últimas semanas.
Mas para milhões de famílias mais pobres ou em luto, o futuro terá de ser reinventado. Mesmo na rica Europa, a era pós-pandemia também aponta que ninguém sairá ileso. Nas clínicas e hospitais, a onda de pacientes de covid-19 começa a ser substituída por outra: a de pessoas com sinais de depressão, stress e casos psiquiátricos.
Perguntas existenciais também ecoam pelas estruturas do poder nos corredores das grandes capitais. Como, apesar de toda nossa tecnologia e peso econômico, permitimos que tantos mortos se acumulassem? E o que garante a soberania: respiradores ou helicópteros militares de última geração? Até que ponto podemos comemorar um dia da independência e aplaudir um desfile militar enquanto nosso sistema de saúde não atende sua própria população?
O futuro também exigirá lidar com um prejuízo de 13 trilhões de dólares deixado pela pandemia. Mas de quem cobrar quando a obscenidade da desigualdade foi escancarada?
Nas entidades internacionais, os cálculos confirmam que a crise sanitária abalou 30 anos de progresso no índice de desenvolvimento humanos e que o planeta contará, ao final do ano, com um exército de 318 milhões de novos miseráveis.
Quem tinha oxigênio conseguiu evitar um colapso social. A UE, por exemplo, destinou 2,3 trilhões de euros em medidas de apoio para garantir a liquidez das economias. Isso impediu uma onda de falências e, de fato, os números de empresas fechadas foi o menor desde 1999. De acordo com a UE, sem esse dinheiro, 25% de todas as empresas do bloco teriam fechado suas portas ao final de 2020, após exaurir seus caixas.
Mas essa aparente estabilidade pode não durar. No mercado, o temor é de que “empresas zombis” – que de fato não tinham mais atividade – comecem a fechar. “Muitas insolvências foram adiadas, e não impedidas”, alertou a francesa Coface SA, uma empresa de seguro de crédito.
A tendência de austeridade deve marcar também outros setores. Das 1.600 discotecas existentes na França, 100 nunca voltarão a abrir suas portas, com milhares de postos de trabalho fechados. E milhares de beijos que talvez nunca ocorram.
Se há uma lição que a pandemia deixa ao mundo é de que o modelo está esgotado, inclusive moralmente. Ou como explicar que, em plena pandemia, bilionários façam viagens pornográficas ao espaço? Há algo de podre quando países ricos começam a pensar em jogar fora 100 milhões de vacinas que vencerão em dezembro, enquanto os pobres não sabem nem sequer quando vão receber a primeira dose.
Numa catástrofe ética, o planeta recupera sua lógica colonial mais crua. Desta vez com vacinas. Fábricas de imunizantes na África passaram meses sendo obrigadas a fornecer doses para os países ricos, enquanto a população do continente implorava por doses.
Mais de seis meses após o início da vacinação, economias ricas tinham obtido 61 vezes mais doses que os países mais pobres. Neste mês, 300 milhões de vacinas estarão sentadas em depósitos na Europa e EUA, sem saber como serão usadas.
Alguns deixarão explícita a indignação diante dessa realidade. Outros guardarão segredos impublicáveis sobre a crise que definiu uma geração. Um grupo ainda lutará para impedir a ruptura de um status quo que os garante fortunas e privilégios.
Mas, para todos, a era do mundo infinito acabou de vez. O futuro que muitos imaginavam que existia se provou insustentável, insuficiente e intolerável.
A história irá nos olhar sem compaixão. Se uma mudança não ocorrer, estaremos nos livros como a geração que não ouviu – ou optou por ignorar – o que pode ter sido o último sinal de alerta antes de uma crise climática e social de proporções inéditas.
Nosso único presente é a reinvenção do futuro. Retornar ao passado é suicida. Num planeta mais quente, mais improvável, mais hostil e mais desigual, reimaginar o que será da sociedade e da coexistência não é uma opção. Mas um ato de sobrevivência.
O que a escritora de uma sensibilidade ímpar presenciava de seu balcão não era apenas uma impressão da dor que atravessava um continente. Mais de um ano depois daquele primeiro lockdown, dados confirmam o que ela sentia: a pandemia gerou a maior queda de expectativa de vida desde a Segunda Guerra Mundial.
A pesquisa, realizada pela Leverhulme Centre for Demographic Science, de Oxford, analisou dados de mortalidade em 29 países, incluindo Europa, EUA e Chile. Desse total, 27 deles registraram uma queda na expectativa de vida em 2020, numa escala que borrou o progresso objetivo durante anos na questão da mortalidade.
O que esses números revelam, no fundo, é uma enorme transformação na sociedade. Jamais, em épocas de paz, as mortes atingiram tais dimensões em economias ricas. A fome no mundo continua a matar mais que a covid-19. Mas, cinicamente, europeus consideravam essa outra pandemia como um problema distante e que, portanto, não merecia manchetes. E nem uma solução.
O que a pandemia revelou é que nada é inevitável, nem o futuro. Se as mortes atingiram níveis desconhecidos nesses países, algo parecido ocorreu com a taxa de natalidade. Os mais otimistas acreditavam que haveria um aumento de nascimentos nove meses depois do primeiro lockdown. Mas os números revelaram exatamente o oposto. Uma pesquisa na França e Alemanha em meados do ano passado indicou que 50% dos casais adiariam gravidezes.
Nos EUA, os números de queda começaram a aparecer de forma importante a partir de dezembro de 2020, nove meses depois da eclosão da crise. Segundo o CDC, a queda foi de 8% nos nascimentos no último mês do ano passado, uma tendência mantida em janeiro e fevereiro. Na Itália, a queda foi ainda maior, de 21%, contra 20% de redução na Espanha para o mês de dezembro. Já a França teve dezembro e janeiro com índices de natalidade mais baixos em 20 anos.
Não apenas a vida foi suspensa. Alianças foram desfeitas e a quantidade de casamentos que chegaram ao final explodiu. Só no Reino Unido entre julho e outubro de 2020, o escritório de advocacia Stewarts registrou um aumento de 122% em reuniões com indivíduos iniciando consultas sobre possíveis divórcios.
Agora, com as vacinas para uma classe privilegiada, os planos podem voltar a ser feitos. Tanto na Europa como nos EUA, os primeiros sinais literalmente de vida também começam a aparecer, com a volta de casais em busca de filhos. Ou pelo menos voltando a falar sobre o assunto. O Instituto Max Planck de Pesquisa Demográfica na Alemanha constata, por exemplo, que a busca no Google por termos relativos à gravidez deu um salto nas últimas semanas.
Mas para milhões de famílias mais pobres ou em luto, o futuro terá de ser reinventado. Mesmo na rica Europa, a era pós-pandemia também aponta que ninguém sairá ileso. Nas clínicas e hospitais, a onda de pacientes de covid-19 começa a ser substituída por outra: a de pessoas com sinais de depressão, stress e casos psiquiátricos.
Perguntas existenciais também ecoam pelas estruturas do poder nos corredores das grandes capitais. Como, apesar de toda nossa tecnologia e peso econômico, permitimos que tantos mortos se acumulassem? E o que garante a soberania: respiradores ou helicópteros militares de última geração? Até que ponto podemos comemorar um dia da independência e aplaudir um desfile militar enquanto nosso sistema de saúde não atende sua própria população?
O futuro também exigirá lidar com um prejuízo de 13 trilhões de dólares deixado pela pandemia. Mas de quem cobrar quando a obscenidade da desigualdade foi escancarada?
Nas entidades internacionais, os cálculos confirmam que a crise sanitária abalou 30 anos de progresso no índice de desenvolvimento humanos e que o planeta contará, ao final do ano, com um exército de 318 milhões de novos miseráveis.
Quem tinha oxigênio conseguiu evitar um colapso social. A UE, por exemplo, destinou 2,3 trilhões de euros em medidas de apoio para garantir a liquidez das economias. Isso impediu uma onda de falências e, de fato, os números de empresas fechadas foi o menor desde 1999. De acordo com a UE, sem esse dinheiro, 25% de todas as empresas do bloco teriam fechado suas portas ao final de 2020, após exaurir seus caixas.
Mas essa aparente estabilidade pode não durar. No mercado, o temor é de que “empresas zombis” – que de fato não tinham mais atividade – comecem a fechar. “Muitas insolvências foram adiadas, e não impedidas”, alertou a francesa Coface SA, uma empresa de seguro de crédito.
A tendência de austeridade deve marcar também outros setores. Das 1.600 discotecas existentes na França, 100 nunca voltarão a abrir suas portas, com milhares de postos de trabalho fechados. E milhares de beijos que talvez nunca ocorram.
Se há uma lição que a pandemia deixa ao mundo é de que o modelo está esgotado, inclusive moralmente. Ou como explicar que, em plena pandemia, bilionários façam viagens pornográficas ao espaço? Há algo de podre quando países ricos começam a pensar em jogar fora 100 milhões de vacinas que vencerão em dezembro, enquanto os pobres não sabem nem sequer quando vão receber a primeira dose.
Numa catástrofe ética, o planeta recupera sua lógica colonial mais crua. Desta vez com vacinas. Fábricas de imunizantes na África passaram meses sendo obrigadas a fornecer doses para os países ricos, enquanto a população do continente implorava por doses.
Mais de seis meses após o início da vacinação, economias ricas tinham obtido 61 vezes mais doses que os países mais pobres. Neste mês, 300 milhões de vacinas estarão sentadas em depósitos na Europa e EUA, sem saber como serão usadas.
Alguns deixarão explícita a indignação diante dessa realidade. Outros guardarão segredos impublicáveis sobre a crise que definiu uma geração. Um grupo ainda lutará para impedir a ruptura de um status quo que os garante fortunas e privilégios.
Mas, para todos, a era do mundo infinito acabou de vez. O futuro que muitos imaginavam que existia se provou insustentável, insuficiente e intolerável.
A história irá nos olhar sem compaixão. Se uma mudança não ocorrer, estaremos nos livros como a geração que não ouviu – ou optou por ignorar – o que pode ter sido o último sinal de alerta antes de uma crise climática e social de proporções inéditas.
Nosso único presente é a reinvenção do futuro. Retornar ao passado é suicida. Num planeta mais quente, mais improvável, mais hostil e mais desigual, reimaginar o que será da sociedade e da coexistência não é uma opção. Mas um ato de sobrevivência.
Culpados por nascença
Imagine esta situação: uma criança incomodada, e talvez manhosa, desconfortável num espaço que não lhe pertence. A criança quer a mãe. A criança quer o seu afago, seu colo, sua referência maior no mundo. O que o mundo faz? Uma parte bem representativa deste mundo coloca a criança incomodada e sozinha num elevador. A criança tem 5 anos. Não lê e não escreve ainda. Mal alcança os primeiros botões do elevador. Ela está sozinha. Ela busca a mãe. O elevador para, a criança sai. Ela quer a mãe, ela quer seu lugar no mundo. A criança vê um buraco. O buraco mostra a mãe que ela tanto quer, lá em baixo. A criança cai do buraco. O buraco é fundo, acabou seu mundo...
Nove andares: esse é o tamanho do buraco. A criança morre, sozinha, aos 5 anos, querendo a mãe. Alguém imagina o medo dessa criança? Alguém imagina a dor dessa mãe?
Essa é a história da morte do menino Miguel. No dia 2 de junho de 2020, sua mãe, a doméstica Mirtes Renata, foi trabalhar na casa da patroa – primeira-dama da cidade de Tamandaré, Pernambuco. Mirtes não tinha com quem deixar o filho, pois o Brasil estava em pleno isolamento social em meio à luta contra a covid-19, e levou o filho para o trabalho. Mirtes saiu para passear com o cachorro da patroa, que enquanto isso fazia as unhas. A patroa não quis lidar com o descontentamento de um menino de 5 anos, filho da empregada. A patroa deixou o menino sozinho, e o menino morreu.
Um detalhe que faz toda a diferença: o menino que morreu e sua mãe são negros. Tudo muito triste, tudo desesperador, mas que ganhou contornos de fatalidade.
A história da morte do menino Miguel revela uma série de camadas do racismo que organiza a sociedade brasileira. A mãe, negra e pobre e que não tem onde deixar o filho, mas que também não pode faltar ao trabalho, mesmo numa pandemia. Uma trabalhadora cuja carteira de trabalho indica uma ocupação bem diferente daquela que ela executa diariamente na casa dos patrões, figuras públicas e políticas da região. A patroa que não quer aquele menino negro e pobre lhe incomodando. A mesma patroa que não vê problema algum em deixar um menino de 5 anos sozinho num elevador - afinal, ele não é apenas um menino, ele é um menino negro.
A patroa, Sari Corte Real, foi presa em flagrante por homicídio culposo, quando não se tem a intenção de matar. Conforme as leis nacionais, ela pôde pagar uma fiança de R$ 20 mil e responder ao processo em liberdade. A atuação rápida da polícia parece um alento em meio à dor. A Justiça, que se diz cega, parece estar atuando. Só que nessa história o racismo ultrapassou até mesmo a morte do menino Miguel e a dor de sua mãe. Sim, no Brasil o racismo pode matar quem já morreu.
A principal linha assumida pela defesa da patroa se concentra em culpabilizar o menino Miguel Otávio de Santana. Isso mesmo. Pouco mais de um ano depois, os advogados de defesa estão argumentando que uma criança de apenas 5 anos, que foi abandonada por um adulto, seja responsabilizada pela sua queda de um prédio de nove andares e pela morte decorrente dessa queda. E sabe por que os advogados de defesa tem a pachorra de desenvolver essa linha de raciocínio? Porque Miguel era um menino negro. E, no Brasil, meninos e meninas negros não são tão crianças quanto meninos e meninas brancos.
Quando lida assim, de supetão, a constatação de que existem infâncias e infâncias pode parecer desmedida. Um exagero de quem enxerga racismo em tudo – algo de que fui acusada recentemente numa dessas discussões de redes sociais. Sim, infelizmente eu enxergo racismo em tudo. E tanto a realidade quanto a história brasileiras me dão razão. Seria capaz de apostar que os advogados de defesa traçariam outro caminho caso Miguel fosse um menino branco. Na realidade, é bem possível que a própria Sari jamais deixasse um menino branco de 5 anos sozinho em um elevador.
Mas o menino era negro. O menino era pobre. O menino era o filho da empregada. O menino teve culpa.
O encadeamento dessas condições teve um desfecho funesto no caso de Miguel. A correlação entre ser negro e ser pobre parece suavizar ou diminuir o "ser criança", como se a infância fosse um lugar interditado para crianças negras e pobres, que têm que nascer sabendo por onde e com quem andar, quando e se podem brincar, cientes dos perigos do mundo, da culpa que carregam por serem quem são. Uma correlação que tem uma longa e violenta história no Brasil.
Nesta semana, foram comemorados no dia 28 de setembro os 150 anos da Lei do Ventre Livre. Promulgada em 1871, essa foi uma das mais importantes leis abolicionistas do Brasil. Uma lei que não só estabelecia o fim gradual para a escravidão, como também reconhecia que os escravizados tinham direito ao pecúlio, que a alforria era um direito, e que a partir de então haveria um fundo de emancipação para acelerar o processo de abolição da escravidão no país.
Todavia, essa mesma lei estava calcada em uma premissa: as crianças, que a partir de então eram filhas de ventres negros e livres, não eram assim, tão crianças. Elas eram filhas de mulheres negras e escravizadas. O nascimento continuava sendo uma espécie de mácula, que permitia que os proprietários das escravizadas pudessem escolher se a liberdade do recém-nascido seria paga por dinheiro ou pelo trabalho dessa criança, até que ela completasse os 21 anos. Essas crianças ainda eram vistas como propriedades, como bens, e por isso não tinham os mesmos direitos, não ocupavam o mesmo lugar das brancas. Essas crianças negras continuavam nascendo culpadas.
O que tornou possível que a vida dessas crianças fosse experimentada sob o signo da liberdade foram as ações de mães negras (por vezes escravizadas) que criaram diferentes estratégias, redes de afeto e de apoio, lutando incessantemente para que seus filhos não fossem culpados. Mulheres que, como Mirtes, queriam justiça, mesmo quando já não podiam embalar seus filhos.
Ynaê Lopes dos Santos
Nove andares: esse é o tamanho do buraco. A criança morre, sozinha, aos 5 anos, querendo a mãe. Alguém imagina o medo dessa criança? Alguém imagina a dor dessa mãe?
Essa é a história da morte do menino Miguel. No dia 2 de junho de 2020, sua mãe, a doméstica Mirtes Renata, foi trabalhar na casa da patroa – primeira-dama da cidade de Tamandaré, Pernambuco. Mirtes não tinha com quem deixar o filho, pois o Brasil estava em pleno isolamento social em meio à luta contra a covid-19, e levou o filho para o trabalho. Mirtes saiu para passear com o cachorro da patroa, que enquanto isso fazia as unhas. A patroa não quis lidar com o descontentamento de um menino de 5 anos, filho da empregada. A patroa deixou o menino sozinho, e o menino morreu.
Um detalhe que faz toda a diferença: o menino que morreu e sua mãe são negros. Tudo muito triste, tudo desesperador, mas que ganhou contornos de fatalidade.
A patroa, Sari Corte Real, foi presa em flagrante por homicídio culposo, quando não se tem a intenção de matar. Conforme as leis nacionais, ela pôde pagar uma fiança de R$ 20 mil e responder ao processo em liberdade. A atuação rápida da polícia parece um alento em meio à dor. A Justiça, que se diz cega, parece estar atuando. Só que nessa história o racismo ultrapassou até mesmo a morte do menino Miguel e a dor de sua mãe. Sim, no Brasil o racismo pode matar quem já morreu.
A principal linha assumida pela defesa da patroa se concentra em culpabilizar o menino Miguel Otávio de Santana. Isso mesmo. Pouco mais de um ano depois, os advogados de defesa estão argumentando que uma criança de apenas 5 anos, que foi abandonada por um adulto, seja responsabilizada pela sua queda de um prédio de nove andares e pela morte decorrente dessa queda. E sabe por que os advogados de defesa tem a pachorra de desenvolver essa linha de raciocínio? Porque Miguel era um menino negro. E, no Brasil, meninos e meninas negros não são tão crianças quanto meninos e meninas brancos.
Quando lida assim, de supetão, a constatação de que existem infâncias e infâncias pode parecer desmedida. Um exagero de quem enxerga racismo em tudo – algo de que fui acusada recentemente numa dessas discussões de redes sociais. Sim, infelizmente eu enxergo racismo em tudo. E tanto a realidade quanto a história brasileiras me dão razão. Seria capaz de apostar que os advogados de defesa traçariam outro caminho caso Miguel fosse um menino branco. Na realidade, é bem possível que a própria Sari jamais deixasse um menino branco de 5 anos sozinho em um elevador.
Mas o menino era negro. O menino era pobre. O menino era o filho da empregada. O menino teve culpa.
O encadeamento dessas condições teve um desfecho funesto no caso de Miguel. A correlação entre ser negro e ser pobre parece suavizar ou diminuir o "ser criança", como se a infância fosse um lugar interditado para crianças negras e pobres, que têm que nascer sabendo por onde e com quem andar, quando e se podem brincar, cientes dos perigos do mundo, da culpa que carregam por serem quem são. Uma correlação que tem uma longa e violenta história no Brasil.
Nesta semana, foram comemorados no dia 28 de setembro os 150 anos da Lei do Ventre Livre. Promulgada em 1871, essa foi uma das mais importantes leis abolicionistas do Brasil. Uma lei que não só estabelecia o fim gradual para a escravidão, como também reconhecia que os escravizados tinham direito ao pecúlio, que a alforria era um direito, e que a partir de então haveria um fundo de emancipação para acelerar o processo de abolição da escravidão no país.
Todavia, essa mesma lei estava calcada em uma premissa: as crianças, que a partir de então eram filhas de ventres negros e livres, não eram assim, tão crianças. Elas eram filhas de mulheres negras e escravizadas. O nascimento continuava sendo uma espécie de mácula, que permitia que os proprietários das escravizadas pudessem escolher se a liberdade do recém-nascido seria paga por dinheiro ou pelo trabalho dessa criança, até que ela completasse os 21 anos. Essas crianças ainda eram vistas como propriedades, como bens, e por isso não tinham os mesmos direitos, não ocupavam o mesmo lugar das brancas. Essas crianças negras continuavam nascendo culpadas.
O que tornou possível que a vida dessas crianças fosse experimentada sob o signo da liberdade foram as ações de mães negras (por vezes escravizadas) que criaram diferentes estratégias, redes de afeto e de apoio, lutando incessantemente para que seus filhos não fossem culpados. Mulheres que, como Mirtes, queriam justiça, mesmo quando já não podiam embalar seus filhos.
Ynaê Lopes dos Santos
A CPI, a impunidade e o nazismo
Ou eles são muito burros ou realmente acham que nós somos burros e eles têm razão e, pior, vão ficar impunes. É impressionante o que assistimos principalmente nas sessões da CPI. Além dos senadores de sempre, os bolsonaristas que repetem a mesma lenga- lenga, temos os depoentes que chegam com menos ou mais arrogância à bancada como se estivessem fazendo um enorme favor ao país e àquelas pessoas ali sentadas à frente. Alguns perdem a arrogância e saem até com o rabo entre as pernas, mas outros usam e abusam do direito que o STF que eles querem destruir concedeu ou então transformam a bancada numa arena de circo para que eles possam exercer seus papéis de animais não domesticados, mas servis ao senhor deles. Triste espetáculo.
O que vimos na sessão do Sr. Luciano Hang foi patético. Acho que foi bom, que serviu à CPI para mostrar quem são as pessoas que fazem parte da entourage do presidente. Foi bom aquele figurino papagaiado e aquela empáfia de botequim. Os senadores precisam só aprender a não cair em tantas provocações. Até entendo que pode ser difícil, mas seria mais eficaz. No dia seguinte ao Hang vai o Fakhoury, figura conhecida do gabinete do ódio, financiador dos sites de fake news, negacionista, homofóbico e que se diz cristão e de família. Eles são todos assim.
Apesar das respostas imediatas e um tanto quanto ingênuas dos senadores às colocações do depoente, também acho que funcionam. Os senadores e senadoras falam de amor, que um cristão como ele precisa falar de amor. Sim, aí está a ingenuidade em achar que eles estão preocupados com isso, mas é verdade. Não se vê o sentimento amor em nenhuma atitude que parta desse governo. Como não acredito em deus e sim no amor entre as pessoas isso me toca de perto. Sem amor, resta o conceito, no caso autoritário e ameaçador de deus, para manter a ordem unida. Esse deus que eles pregam é um deus estranho, um deus que serve aos interesses de quem prega justamente o contrário do que eles pregam.
Acho que por detrás desta história e de outras está o capitalismo, o bom e velho capitalismo na sua forma mais nefasta, o neoliberalismo. Não dá para dissociar este conceito econômico do autoritarismo político. Um precisa do outro para se manter de pé, porque sozinho, cai. Mas o capitalismo é como esse governo, não tem religião e nem sabe o que é o conceito de deus. No fim do dia eles se juntam para brindar à sobrevivência de seus valores.
Tem um documentário atualmente na Netflix chamado "O Homem Mais Perigoso da Europa" que mostra a trajetória do criminoso nazista Otto Skorzeny durante e depois da segunda guerra. Skorzeny fugiu para a Espanha e lá, obra do capitalismo, trabalhou como engenheiro e empreendedor, na construção das bases americanas no país. Todos amigos, franquistas, americanos e nazistas. Passa-se um pano e vamos em frente.
Depois disso, pasmem, na crise entre Israel e Egito, segundo o documentário, Skorzeny foi secretamente contatado pelo Mossad, serviço secreto de Israel, para agir contra os egÍpcios e conseguiu. Skorzeny tinha uma fama enorme porque tinha sido o homem encarregado por Hitler, de quem compartilhava a amizade, para resgatar o outro ditador fascista Benito Mussolini que estava mantido como prisioneiro num hotel nas montanhas. Mesmo com os aliados bombardeando o país Skorzeny chefiou um comando nazista e levou Mussolini para os braços do patrão maior na Alemanha.
E assim funcionava o mundo. Durante a guerra a Alemanha teve o aval da justiça do país para se manter. Depois da guerra o capitalismo unificou todas as diferenças responsável pela morte de milhões de pessoas sem se sensibilizar com isso e construiu mais bases para a solidificação dos seus princípios. No pós- guerra eram os aliados de um lado e os soviéticos de outro. Era um pega pra capar e os nazista, é claro, preferiram ficar do lado de cá. E se deram bem. Skorzeny morreu em 1975 na Espanha reafirmando sua ideologia nazista.
Essas mesmas pessoas que hoje estão no poder aqui no Brasil e aquelas que os apoiaram para chegar lá, como fizeram os alemães para eleger Hitler. Sim, ele foi eleito. Aqui também os votos brancos e nulos se juntaram aos votos bolsonaristas com medo do PT porque realmente a esquerda e o PT querem o oposto disso tudo. Mas, essa parcela da população que fechou os olhos hoje os arregala diante das barbaridades que ajudou a construir.
Repito, não sou cristão nem agnóstico. Sou ateu e só acredito na contingência cósmica e no feito mágico que nós conseguimos ao criar o amor para sobreviver.
Mas não podemos deixar de olhar pra trás e entender a História. Estão todos lá, os mocinhos e os bandidos e ainda há tempo para os bandidos irem presos e os mocinhos se abraçarem e festejarem no fim.
O que vimos na sessão do Sr. Luciano Hang foi patético. Acho que foi bom, que serviu à CPI para mostrar quem são as pessoas que fazem parte da entourage do presidente. Foi bom aquele figurino papagaiado e aquela empáfia de botequim. Os senadores precisam só aprender a não cair em tantas provocações. Até entendo que pode ser difícil, mas seria mais eficaz. No dia seguinte ao Hang vai o Fakhoury, figura conhecida do gabinete do ódio, financiador dos sites de fake news, negacionista, homofóbico e que se diz cristão e de família. Eles são todos assim.
Apesar das respostas imediatas e um tanto quanto ingênuas dos senadores às colocações do depoente, também acho que funcionam. Os senadores e senadoras falam de amor, que um cristão como ele precisa falar de amor. Sim, aí está a ingenuidade em achar que eles estão preocupados com isso, mas é verdade. Não se vê o sentimento amor em nenhuma atitude que parta desse governo. Como não acredito em deus e sim no amor entre as pessoas isso me toca de perto. Sem amor, resta o conceito, no caso autoritário e ameaçador de deus, para manter a ordem unida. Esse deus que eles pregam é um deus estranho, um deus que serve aos interesses de quem prega justamente o contrário do que eles pregam.
Acho que por detrás desta história e de outras está o capitalismo, o bom e velho capitalismo na sua forma mais nefasta, o neoliberalismo. Não dá para dissociar este conceito econômico do autoritarismo político. Um precisa do outro para se manter de pé, porque sozinho, cai. Mas o capitalismo é como esse governo, não tem religião e nem sabe o que é o conceito de deus. No fim do dia eles se juntam para brindar à sobrevivência de seus valores.
Tem um documentário atualmente na Netflix chamado "O Homem Mais Perigoso da Europa" que mostra a trajetória do criminoso nazista Otto Skorzeny durante e depois da segunda guerra. Skorzeny fugiu para a Espanha e lá, obra do capitalismo, trabalhou como engenheiro e empreendedor, na construção das bases americanas no país. Todos amigos, franquistas, americanos e nazistas. Passa-se um pano e vamos em frente.
Depois disso, pasmem, na crise entre Israel e Egito, segundo o documentário, Skorzeny foi secretamente contatado pelo Mossad, serviço secreto de Israel, para agir contra os egÍpcios e conseguiu. Skorzeny tinha uma fama enorme porque tinha sido o homem encarregado por Hitler, de quem compartilhava a amizade, para resgatar o outro ditador fascista Benito Mussolini que estava mantido como prisioneiro num hotel nas montanhas. Mesmo com os aliados bombardeando o país Skorzeny chefiou um comando nazista e levou Mussolini para os braços do patrão maior na Alemanha.
E assim funcionava o mundo. Durante a guerra a Alemanha teve o aval da justiça do país para se manter. Depois da guerra o capitalismo unificou todas as diferenças responsável pela morte de milhões de pessoas sem se sensibilizar com isso e construiu mais bases para a solidificação dos seus princípios. No pós- guerra eram os aliados de um lado e os soviéticos de outro. Era um pega pra capar e os nazista, é claro, preferiram ficar do lado de cá. E se deram bem. Skorzeny morreu em 1975 na Espanha reafirmando sua ideologia nazista.
Essas mesmas pessoas que hoje estão no poder aqui no Brasil e aquelas que os apoiaram para chegar lá, como fizeram os alemães para eleger Hitler. Sim, ele foi eleito. Aqui também os votos brancos e nulos se juntaram aos votos bolsonaristas com medo do PT porque realmente a esquerda e o PT querem o oposto disso tudo. Mas, essa parcela da população que fechou os olhos hoje os arregala diante das barbaridades que ajudou a construir.
Repito, não sou cristão nem agnóstico. Sou ateu e só acredito na contingência cósmica e no feito mágico que nós conseguimos ao criar o amor para sobreviver.
Mas não podemos deixar de olhar pra trás e entender a História. Estão todos lá, os mocinhos e os bandidos e ainda há tempo para os bandidos irem presos e os mocinhos se abraçarem e festejarem no fim.
quinta-feira, 30 de setembro de 2021
As armadilhas de dentro
A nossa tentação é quase sempre maniqueísta. A visão simples que separa os “bons” dos “maus” é sempre a mais imediata. Quanto menos entendemos, mais julgamos.
A cilada maior é acreditarmos que as armadilhas estão sempre fora de nós, num mundo que temos por cruel e desumano. Ora, por muito que nos custe, nós somos também esse mundo. E as armadilhas que pensávamos exteriores residem profundamente dentro de nós. Quebrar as armadilhas do mundo é, antes de mais, quebrar o mundo de armadilhas em que se converteu o nosso próprio olhar. Precisamos de passar um programa antivírus pelo nosso hardware mental.
A cilada maior é acreditarmos que as armadilhas estão sempre fora de nós, num mundo que temos por cruel e desumano. Ora, por muito que nos custe, nós somos também esse mundo. E as armadilhas que pensávamos exteriores residem profundamente dentro de nós. Quebrar as armadilhas do mundo é, antes de mais, quebrar o mundo de armadilhas em que se converteu o nosso próprio olhar. Precisamos de passar um programa antivírus pelo nosso hardware mental.
Mia Couto
Anatomia de um desastre na pós-graduação brasileira
Completados mil dias no Planalto, Jair Bolsonaro não conseguiu fazer o que mais queria: destruir a democracia. No mínimo, seu fracasso dá a esperança de que tenha perdido de vez o bonde que imaginava conduzir pela contramão da história.
Isso não apequena o desastre que seu desgoverno vem provocando com a mistura tóxica de ignorância, incompetência e má-fé. Os exemplos são muitos, nem todos visíveis a olho nu. É o caso do progressivo desmanche da Capes, a Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior. Subordinada ao Ministério da Educação, é peça central daquilo que o estudioso americano Jonathan Rauch chama “Constituição do conhecimento” —por fixar as instituições e normas da ciência.
Trata-se de um complexo sistema de criação de procedimentos compartilhados; avaliação e reconhecimento de credenciais acadêmicas; definição de agendas e distribuição de recursos; treinamento de novas gerações de profissionais da ciência.
Fundada há 70 anos, a Capes moldou a pós-graduação brasileira, estabelecendo suas regras, procedimentos de avaliação definidos pela comunidade acadêmica, incentivos na forma de bolsas de estudos e apoio a programas de formação pós-graduada. Hoje é responsável pela elaboração do Plano Nacional de Pós-Graduação e pela avaliação periódica e suporte permanente a 4.600 programas que oferecem 7.000 cursos de mestrado e doutorado em todas as áreas do conhecimento. Em parte graças à Capes, o Brasil dispõe de um respeitável sistema de produção de conhecimentos.
Nada disso, naturalmente, tem algum valor para um governo que despreza a ciência e promove o charlatanismo —vide o vexame da cloroquina. O orçamento da Capes, em queda livre desde 2016, encolheu cerca de 30% a partir de 2019.
A epidemia de mudanças no Ministério da Educação privou a agência de estabilidade e coerência na condução da reforma dos critérios da avaliação dos cursos, ora contestada na Justiça pelo Ministério Público Federal. Seu Conselho Superior, dissolvido no fim do ano passado, ainda não foi refeito. O mesmo ocorreu recentemente com o conselho que preside a avaliação (o CTC).
Mergulhada na sua pior crise, a Capes é hoje chefiada pela doutora Cláudia Toledo, formada em direito por um certo Instituto Toledo de Ensino, do qual foi reitora quando este virou Centro Universitário de Bauru. Também têm diploma Toledo de direito o ministro da Educação, Milton Ribeiro, e seu colega da Justiça, André Mendonça, que Bolsonaro quer emplacar no STF. Em suma, os meandros da crise na Capes podem ser obscuros, mas as suas causas são claras –e o resultado, desastroso para o país.
Isso não apequena o desastre que seu desgoverno vem provocando com a mistura tóxica de ignorância, incompetência e má-fé. Os exemplos são muitos, nem todos visíveis a olho nu. É o caso do progressivo desmanche da Capes, a Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior. Subordinada ao Ministério da Educação, é peça central daquilo que o estudioso americano Jonathan Rauch chama “Constituição do conhecimento” —por fixar as instituições e normas da ciência.
Trata-se de um complexo sistema de criação de procedimentos compartilhados; avaliação e reconhecimento de credenciais acadêmicas; definição de agendas e distribuição de recursos; treinamento de novas gerações de profissionais da ciência.
Fundada há 70 anos, a Capes moldou a pós-graduação brasileira, estabelecendo suas regras, procedimentos de avaliação definidos pela comunidade acadêmica, incentivos na forma de bolsas de estudos e apoio a programas de formação pós-graduada. Hoje é responsável pela elaboração do Plano Nacional de Pós-Graduação e pela avaliação periódica e suporte permanente a 4.600 programas que oferecem 7.000 cursos de mestrado e doutorado em todas as áreas do conhecimento. Em parte graças à Capes, o Brasil dispõe de um respeitável sistema de produção de conhecimentos.
Nada disso, naturalmente, tem algum valor para um governo que despreza a ciência e promove o charlatanismo —vide o vexame da cloroquina. O orçamento da Capes, em queda livre desde 2016, encolheu cerca de 30% a partir de 2019.
A epidemia de mudanças no Ministério da Educação privou a agência de estabilidade e coerência na condução da reforma dos critérios da avaliação dos cursos, ora contestada na Justiça pelo Ministério Público Federal. Seu Conselho Superior, dissolvido no fim do ano passado, ainda não foi refeito. O mesmo ocorreu recentemente com o conselho que preside a avaliação (o CTC).
Mergulhada na sua pior crise, a Capes é hoje chefiada pela doutora Cláudia Toledo, formada em direito por um certo Instituto Toledo de Ensino, do qual foi reitora quando este virou Centro Universitário de Bauru. Também têm diploma Toledo de direito o ministro da Educação, Milton Ribeiro, e seu colega da Justiça, André Mendonça, que Bolsonaro quer emplacar no STF. Em suma, os meandros da crise na Capes podem ser obscuros, mas as suas causas são claras –e o resultado, desastroso para o país.
Energia verde é chance que o Brasil não pode deixar passar
Há dois anos, o presidente brasileiro, Jair Bolsonaro, é uma espécie de líder mundial dos pecadores ambientais. Isso se deve aos ataques dele contra as autoridades e leis ambientais nacionais, sua tolerância diante do desmatamento da Amazônia e seu ostensivo desinteresse na política climática global.
Por culpa de Bolsonaro, no exterior se ignora que o Brasil é um dos países de produção energética mais sustentável, com a maior parcela (43%) de fontes renováveis em seu consumo final de energia entre os membros do G20. Sua capacidade cumulativa de energias renováveis é de 150 gigawatts, atrás apenas da China e dos Estados Unidos.
Isso ocorre porque quase dois terços da eletricidade são gerados em usinas hidrelétricas, com baixa emissão de gases-estufa. Ao mesmo tempo, cresceu significativamente a participação do vento na matriz energética nacional. Depois da China e dos EUA, nos últimos sete anos o Brasil foi quem mais investiu na energia eólica, que hoje gera 11% de sua eletricidade. Essa expansão deverá também se registrar com a energia solar.
O Ministério de Minas e Energia conta com que, até 2040, 44% da eletricidade nacional possa ser obtida do vento e do sol.
Mas o país também já produz há décadas combustíveis como o biodiesel da soja e o etanol da cana-de-açúcar, cada vez mais também de segunda geração, em que é também transformado em combustível o restante da planta já utilizada, inclusive sua celulose, de difícil processamento.
O Brasil é o número três mundial da produção de bioeletricidade, sobretudo a partir do bagaço de cana, que é empregado nas usinas como combustível. Ganha igualmente importância na produção de energia o biogás, extraído de subprodutos da agricultura ou de depósitos de lixo urbanos. Com base nessa ampla oferta de eletricidade sustentável, em breve o país poderá oferecer fontes de energia verdes, como hidrogênio ou amoníaco, a preços bastante competitivos.
O hidrogênio "verde" é produzido através da fissão eletrolítica da água, usando eletricidade de fontes renováveis. A Europa e todas as nações que procuram reduzir suas emissões de gases do efeito estufa apostam no hidrogênio verde para alcançar suas metas ambientais, no entanto não podem produzi-lo em quantidades suficientes e terão que importar.
Brasil diante de chance histórica
No entanto o Brasil não deve ser primariamente fornecedor de combustível para as indústrias do mundo: melhor seria se as empresas integrassem o hidrogênio, amoníaco ou metanol verdes em sua própria cadeia de produção em solo brasileiro e elevassem assim a geração de valor nacional.
Um exemplo é o aço "verde", fabricado com hidrogênio de fontes renováveis – a indústria siderúrgica é um dos setores com a maior taxa de emissão de dióxido de carbono e outros gases-estufa. Ou o biometano poderia substituir o gás natural na indústria química, por exemplo, para a produção de fertilizantes.
Além disso, graças a seus biocombustíveis, o Brasil poderia executar com neutralidade carbônica toda a logística de suas indústrias de exportação. No caso do aço, o minério de ferro seria transportado em trens elétricos desde a mina, no interior do país, até a usina siderúrgica alimentada a hidrogênio, no litoral. Aí, navios cargueiros movidos a amoníaco verde levariam o produto final até os portos da Europa.
Assim, o país teria uma chance única de reaquecer sua indústria, que há anos vem minguando. As empresas reconheceram esse potencial, e estão investindo. Basta apenas esperar que o governo não se ponha no caminho dessa transformação da economia, pois isso significaria deixar passar uma chance histórica.
Alexander Busch
Por culpa de Bolsonaro, no exterior se ignora que o Brasil é um dos países de produção energética mais sustentável, com a maior parcela (43%) de fontes renováveis em seu consumo final de energia entre os membros do G20. Sua capacidade cumulativa de energias renováveis é de 150 gigawatts, atrás apenas da China e dos Estados Unidos.
Isso ocorre porque quase dois terços da eletricidade são gerados em usinas hidrelétricas, com baixa emissão de gases-estufa. Ao mesmo tempo, cresceu significativamente a participação do vento na matriz energética nacional. Depois da China e dos EUA, nos últimos sete anos o Brasil foi quem mais investiu na energia eólica, que hoje gera 11% de sua eletricidade. Essa expansão deverá também se registrar com a energia solar.
O Ministério de Minas e Energia conta com que, até 2040, 44% da eletricidade nacional possa ser obtida do vento e do sol.
Mas o país também já produz há décadas combustíveis como o biodiesel da soja e o etanol da cana-de-açúcar, cada vez mais também de segunda geração, em que é também transformado em combustível o restante da planta já utilizada, inclusive sua celulose, de difícil processamento.
O Brasil é o número três mundial da produção de bioeletricidade, sobretudo a partir do bagaço de cana, que é empregado nas usinas como combustível. Ganha igualmente importância na produção de energia o biogás, extraído de subprodutos da agricultura ou de depósitos de lixo urbanos. Com base nessa ampla oferta de eletricidade sustentável, em breve o país poderá oferecer fontes de energia verdes, como hidrogênio ou amoníaco, a preços bastante competitivos.
O hidrogênio "verde" é produzido através da fissão eletrolítica da água, usando eletricidade de fontes renováveis. A Europa e todas as nações que procuram reduzir suas emissões de gases do efeito estufa apostam no hidrogênio verde para alcançar suas metas ambientais, no entanto não podem produzi-lo em quantidades suficientes e terão que importar.
Brasil diante de chance histórica
No entanto o Brasil não deve ser primariamente fornecedor de combustível para as indústrias do mundo: melhor seria se as empresas integrassem o hidrogênio, amoníaco ou metanol verdes em sua própria cadeia de produção em solo brasileiro e elevassem assim a geração de valor nacional.
Um exemplo é o aço "verde", fabricado com hidrogênio de fontes renováveis – a indústria siderúrgica é um dos setores com a maior taxa de emissão de dióxido de carbono e outros gases-estufa. Ou o biometano poderia substituir o gás natural na indústria química, por exemplo, para a produção de fertilizantes.
Além disso, graças a seus biocombustíveis, o Brasil poderia executar com neutralidade carbônica toda a logística de suas indústrias de exportação. No caso do aço, o minério de ferro seria transportado em trens elétricos desde a mina, no interior do país, até a usina siderúrgica alimentada a hidrogênio, no litoral. Aí, navios cargueiros movidos a amoníaco verde levariam o produto final até os portos da Europa.
Assim, o país teria uma chance única de reaquecer sua indústria, que há anos vem minguando. As empresas reconheceram esse potencial, e estão investindo. Basta apenas esperar que o governo não se ponha no caminho dessa transformação da economia, pois isso significaria deixar passar uma chance histórica.
Alexander Busch
O que diz o vento
Para o Brasil chegar afinal ao Primeiro Mundo só falta vulcão. Uns abalozinhos já têm havido por aí, e cada vez mais frequentes. Agora passa por Itu esse vendaval, com tantas vítimas e tantos prejuízos a lastimar. Alguns jornais não tiveram dúvida: ciclone. Ou tornado, quem sabe. Deve ser coisa do el niño, um fenômeno que vem pelo mar lá do Pacífico, bate nos Andes, provoca o degelo e uma sequela de cataclismos que passam pelo Brasil.
Não sei o que é pior, se furacão ou vulcão. Pior mesmo, porque conheço, é tremor de terra. Estava em Lisboa com o Vinicius de Moraes quando aconteceu o terremoto de 1968. Palavra que achei que era contra mim pessoalmente. Veio até com dois tt. Assim: terremOtto. Quando estive no Japão com o Cláudio Mello e Souza fomos perseguidos por um tufão. Mas japonês dá jeito em tudo. O voo atrasou e voltamos a Tóquio numa boa.
Shelley que me desculpe, mas vento me dá nos nervos. Desarruma a gente por dentro. Mas, em matéria de vento, poeta tem imunidades. Manuel Bandeira associou à canção do vento a canção da sua vida. O vento varria as luzes, as músicas, os aromas. E a
sua vida ficava cada vez mais cheia de aromas, de estrelas, de cânticos. O contrário do ventinho ladrão. Sabe como é que se chama vento? Com três assobios. Ou soprando num búzio. Também funciona se você invocar são Lourenço, que é o dono do vento.
Fúria dos elementos, símbolo da instabilidade, o vento é ao mesmo tempo sopro de vida. Uma aragem acompanha sempre os anjos. E foi o vento que fez descer sobre os apóstolos as línguas de fogo do Espírito Santo. Destruidor e salvador, com o vento renasce a vida, diz a “Ode to the West Wind”, de Shelley. No inverno só um poeta romântico entrevê o início da primavera. Divindade para os gregos, o vento inquieta porque sacode a apatia e a estagnação.
Com esse poder de levar embora, suponhamos que uma lufada varresse o Brasil, como na canção do Manuel Bandeira. Que é que esse vento benfazejo devia levar embora? Todo mundo sabe o mundo de males que nos oprime nesta hora. Deviam ser varridos para sempre. Se vento leva e traz, se vento é mudança, não custa acreditar que, passada a tempestade, vem a bonança. E com ela, o sopro renovador — garante o poeta. A casa destelhada, a destruição já começou. Vem aí a reconstrução.
Não sei o que é pior, se furacão ou vulcão. Pior mesmo, porque conheço, é tremor de terra. Estava em Lisboa com o Vinicius de Moraes quando aconteceu o terremoto de 1968. Palavra que achei que era contra mim pessoalmente. Veio até com dois tt. Assim: terremOtto. Quando estive no Japão com o Cláudio Mello e Souza fomos perseguidos por um tufão. Mas japonês dá jeito em tudo. O voo atrasou e voltamos a Tóquio numa boa.
Shelley que me desculpe, mas vento me dá nos nervos. Desarruma a gente por dentro. Mas, em matéria de vento, poeta tem imunidades. Manuel Bandeira associou à canção do vento a canção da sua vida. O vento varria as luzes, as músicas, os aromas. E a
sua vida ficava cada vez mais cheia de aromas, de estrelas, de cânticos. O contrário do ventinho ladrão. Sabe como é que se chama vento? Com três assobios. Ou soprando num búzio. Também funciona se você invocar são Lourenço, que é o dono do vento.
Fúria dos elementos, símbolo da instabilidade, o vento é ao mesmo tempo sopro de vida. Uma aragem acompanha sempre os anjos. E foi o vento que fez descer sobre os apóstolos as línguas de fogo do Espírito Santo. Destruidor e salvador, com o vento renasce a vida, diz a “Ode to the West Wind”, de Shelley. No inverno só um poeta romântico entrevê o início da primavera. Divindade para os gregos, o vento inquieta porque sacode a apatia e a estagnação.
Com esse poder de levar embora, suponhamos que uma lufada varresse o Brasil, como na canção do Manuel Bandeira. Que é que esse vento benfazejo devia levar embora? Todo mundo sabe o mundo de males que nos oprime nesta hora. Deviam ser varridos para sempre. Se vento leva e traz, se vento é mudança, não custa acreditar que, passada a tempestade, vem a bonança. E com ela, o sopro renovador — garante o poeta. A casa destelhada, a destruição já começou. Vem aí a reconstrução.
Otto Lara Resende, Folha SP 07/10/1991
quarta-feira, 29 de setembro de 2021
Orgulho de ser Brasileiro
Não há do que se orgulhar de um presidente que incita continuamente a quebra da ordem institucional em pleno ambiente de normalidade democrática, sem que haja qualquer ameaça interna ou externa ao país, após o extremo fracasso da política econômica e de suas políticas sociais. O episódio de 7 de setembro e a passagem de Bolsonaro por Nova Iorque com seu discurso na ONU, diametralmente oposto e desconectado da realidade, são vexames mundiais.
Em Pesquisa Nacional da Sensus, 90% apontam os motivos para se ter e não ter orgulho de ser brasileiro. Dentre os motivos positivos, estão as “riquezas naturais” com 26%, as “praias e belezas naturais” com 10%, o “futebol e os esportes” com 6%. Dentre os motivos negativos, estão a “corrupção” com 41%, a “violência” com 17%, e a “pobreza e miséria” com 13%. Ou seja, os motivos de orgulho são os culturais e de nossas belezas naturais, e os motivos para não se orgulhar são os das atitudes e situação social.
Os indicadores econômicos e sociais do Brasil não são muito alentadores. Na economia, a renda per-capita é de US$ 8.900,00 anuais, abaixo da média mundial, de US$ 10.600,00. Na educação secundária, o Brasil ocupa a 59ª colocação no PISA dentre 79 países do mundo. Na segurança pública, o índice anual de homicídios por 100 mil habitantes é de 27, China com 0,5, Europa 1, Estados Unidos 5. Adicione-se o completo descaso para com o meio ambiente.
Adicionalmente, o Brasil apresenta aspectos pouco imagináveis no mundo moderno de hoje. Recentemente, o mais significativo é a esdrúxula e mal fundada discussão sobre o tratamento precoce para o Covid por meio de hidroxicloroquina, medicamento cientificamente comprovado como ineficaz para o vírus, defendido por Bolsonaro na ONU, motivo de galhofa em todos os países do mundo. Adicione-se a desinformação de que a OMS não recomendaria a vacinação para Covid dos adolescentes, agora revogada.
Roberto DaMatta, em sua maestria, sintetiza os símbolos e motivos que agregam o povo brasileiro. Se me permitam fazer uma leitura livre, em Carnavais, Malandros e Heróis, DaMatta discorre sobre os símbolos de nosso povo, o carnaval com a inversão antropológica das classes, o malandro que dá um jeitinho para navegar na sociedade autocrática, e o herói que simboliza a ordem e a hierarquia. Em O que faz o brasil, Brasil?, o primeiro Brasil com b minúsculo, o das dificuldades econômicas na sociedade autocrática, e o segundo Brasil com B maiúsculo, o do ufanismo de nosso país e de nossa gente, no futebol, na comida, na música, da gargalhada fácil em condições adversas, onde a feijoada une os diferentes polos em um amplo congraçamento social, DaMatta em muito resume o que poderíamos livremente chamar de o jeito brasileiro de ser.
Este é o nosso país, bom e ruim ao mesmo tempo. Que Bolsonaro não nos tire a graça, com nada a oferecer, ou a substituir, nem na economia nem na cultura, sem moeda de troca.
Em Pesquisa Nacional da Sensus, 90% apontam os motivos para se ter e não ter orgulho de ser brasileiro. Dentre os motivos positivos, estão as “riquezas naturais” com 26%, as “praias e belezas naturais” com 10%, o “futebol e os esportes” com 6%. Dentre os motivos negativos, estão a “corrupção” com 41%, a “violência” com 17%, e a “pobreza e miséria” com 13%. Ou seja, os motivos de orgulho são os culturais e de nossas belezas naturais, e os motivos para não se orgulhar são os das atitudes e situação social.
Os indicadores econômicos e sociais do Brasil não são muito alentadores. Na economia, a renda per-capita é de US$ 8.900,00 anuais, abaixo da média mundial, de US$ 10.600,00. Na educação secundária, o Brasil ocupa a 59ª colocação no PISA dentre 79 países do mundo. Na segurança pública, o índice anual de homicídios por 100 mil habitantes é de 27, China com 0,5, Europa 1, Estados Unidos 5. Adicione-se o completo descaso para com o meio ambiente.
Adicionalmente, o Brasil apresenta aspectos pouco imagináveis no mundo moderno de hoje. Recentemente, o mais significativo é a esdrúxula e mal fundada discussão sobre o tratamento precoce para o Covid por meio de hidroxicloroquina, medicamento cientificamente comprovado como ineficaz para o vírus, defendido por Bolsonaro na ONU, motivo de galhofa em todos os países do mundo. Adicione-se a desinformação de que a OMS não recomendaria a vacinação para Covid dos adolescentes, agora revogada.
Roberto DaMatta, em sua maestria, sintetiza os símbolos e motivos que agregam o povo brasileiro. Se me permitam fazer uma leitura livre, em Carnavais, Malandros e Heróis, DaMatta discorre sobre os símbolos de nosso povo, o carnaval com a inversão antropológica das classes, o malandro que dá um jeitinho para navegar na sociedade autocrática, e o herói que simboliza a ordem e a hierarquia. Em O que faz o brasil, Brasil?, o primeiro Brasil com b minúsculo, o das dificuldades econômicas na sociedade autocrática, e o segundo Brasil com B maiúsculo, o do ufanismo de nosso país e de nossa gente, no futebol, na comida, na música, da gargalhada fácil em condições adversas, onde a feijoada une os diferentes polos em um amplo congraçamento social, DaMatta em muito resume o que poderíamos livremente chamar de o jeito brasileiro de ser.
Este é o nosso país, bom e ruim ao mesmo tempo. Que Bolsonaro não nos tire a graça, com nada a oferecer, ou a substituir, nem na economia nem na cultura, sem moeda de troca.
Os mil dias da Sodoma e Gomorra bolsonarista
Os mil dias do governo de Jair Bolsonaro foram comemorados com inaugurações de obras pífias e entrevistas a veículos chapa-branca, nas quais o vazio mental do presidente da República não conseguiu ser preenchido por jornalistas que estavam ali dispostos a colaborar para que o inquilino do Planalto tentasse passar a imagem de estadista. Numa das entrevistas, inclusive, diante do deserto de ideias que se estendia a perder de vista, Jair Bolsonaro foi perguntado sobre armas atômicas, uma das questões nacionais mais urgentes, como se sabe. Se bem entendi, queriam saber se, no caso de o Brasil voltar a investir em usinas nucleares, isso poderia levar à fabricação de bombas atômicas. O presidente da República garantiu que não. Fiquei aliviado.
Do governo de Jair Bolsonaro, consigo extrair duas coisas boas até agora, como já disse em outro artigo: a modernização das leis trabalhistas, que será solapada pelos sindicalistas de toga e sem toga, e a sanção do novo Marco Legal do Saneamento, que abre caminho para que empresas privadas possam universalizar a rede de água potável e de tratamento de esgotos até 2033. Para não ser injusto, lembro agora da Reforma da Previdência. Adiou bastante a explosão da bomba-relógio fiscal. Três aspectos bons, portanto. Se Jair Bolsonaro não tivesse feito nada de certo além disso, já teria sido medíocre o suficiente para entrar no panteão das glórias nacionais. O problema é que as coisas erradas suplantaram em muito as corretas.
Eu classificaria os mil dias de governo como os mil dias de Sodoma e Gomorra, nos quais a racionalidade e a estabilidade foram seguidamente violadas, em uma orgia que, iniciada pelo Palácio do Planalto, tomou conta da Praça dos Três Poderes. No livro Me Odeie pelos Motivos Certos, que reúne artigos que escrevi para a Crusoé e para O Antagonista e acaba de ser lançado em versão impressa pela Topbooks, fiz um balanço sucinto do atual governo:
“Uma vez no poder, Jair Bolsonaro açulou as suas hostes contra os poderes constituídos, dando pretexto a que manifestações legítimas de liberdade de expressão fossem misturadas às ilegítimas. Ele também flertou com o autogolpe, tentando cooptar militares. Como escrevi em outro artigo, ‘depois de explodir todas as pontes de tráfego decente com o Congresso — com a ajuda estimável do gabinete do ódio especializado em fake news, equivalente aos blogs sujos do petismo — e inviabilizar um diálogo político minimamente saudável com deputados e senadores, o presidente sem partido estabeleceu uma pinguela com o Centrão, para contornas as dificuldades que ele mesmo criou e, no limite, um processo de impeachment. Sob os aplausos dos seus cúmplices no parlamento (petistas incluídos), Bolsonaro chancelou a destruição da Lava Jato e atingiu o máximo da infâmia ao forçar a demissão de Sergio Moro do Ministério da Justiça, a fim de mudar o diretor-geral da Polícia Federal e, assim, tentar evitar que investigações conduzidas no Rio de Janeiro alcançassem os seus filhos ou até ele próprio. A demissão de Moro teve ainda outro motivo: o medo de que o ex-ministro da Justiça lhe fizesse sombra em 2022. Bolsonaro, ao contrário do que dizia na campanha, quer ser reeleito. Com a cabeça na reeleição e refém do Centrão, o presidente estoura os cofres públicos. Em meio à urgência sanitária mundial, ele ainda demonstra o mais sociopático desprezo pela perda de milhares de vidas dos seus concidadãos’. Como não poderia deixar de ser, declarou guerra aberta à imprensa independente, que aponta os desvios no seu governo e critica o seu comportamento abjeto e característico de um sociopata no enfrentamento a pandemia. Para tanto, usa da intimidação judicial. Enquanto bate no jornalismo independente, ele beneficia empresários amigos no setor de comunicação, a fim de obter noticiário favorável, quando não francamente propagandístico.
Desesperado com as consequências políticas e criminais do relatório da CPI da Covid, além da possibilidade cada vez maior de perder a eleição em 2022, passou a atacar com virulência o STF e o TSE, com xingamentos a ministros do Supremo, e a divulgar notícias falsas sobre a falta de segurança das urnas eletrônicas. O seu alvo principal é o ministro Luís Roberto Barroso, que ordenou a abertura da CPI no Senado, em obediência à Constituição e ao regimento da casa, e preside neste momento o TSE. O ministro é forte opositor da adoção do voto impresso, que virou cavalo de batalha de Bolsonaro, apesar de ter sido fonte de inúmeras fraudes em eleições em todos os níveis, o contrário do que o presidente apregoa. Qualquer discussão racional sobre o tema foi anulada pelo destempero do presidente e as suas ameaças de intervenção militar. Em reação inédita na história da República, o STF e o TSE abriram investigações sobre a conduta de Jair Bolsonaro, atribuindo-lhe a suposta prática de diversos crimes. Na economia, o seu discurso de campanha, em prol de uma agenda liberal, deu lugar ao fisiologismo, à perpetuação do inchaço da máquina estatal, ao assistencialismo eleitoreiro e à intervenção federal em estatais que eram para ser privatizadas. A política populista de juros baixos resultou em aumento exponencial do preço do dólar e, consequentemente, em aumento de inflação. Hoje é possível dizer que Jair Bolsonaro e Lula se equivalem como ameaças à democracia, cada um a seu modo. E as recidivas de ambos podem ser ainda piores para o país.”
O balanço foi feito antes de Jair Bolsonaro ser relativamente domesticado pelo ex-presidente da República Michel Temer, que visou a manter tudo isso aí, viu, e o ministro Alexandre de Moraes, a cujos ímpetos autoritários o presidente da República deu vazão, com seus ataques desmiolados ao STF. Mas se algo mudou, foi para não mudar.
Quando foi eleito, Jair Bolsonaro disse que governaria pelo exemplo. Faltou dizer que era pelo péssimo exemplo.
Do governo de Jair Bolsonaro, consigo extrair duas coisas boas até agora, como já disse em outro artigo: a modernização das leis trabalhistas, que será solapada pelos sindicalistas de toga e sem toga, e a sanção do novo Marco Legal do Saneamento, que abre caminho para que empresas privadas possam universalizar a rede de água potável e de tratamento de esgotos até 2033. Para não ser injusto, lembro agora da Reforma da Previdência. Adiou bastante a explosão da bomba-relógio fiscal. Três aspectos bons, portanto. Se Jair Bolsonaro não tivesse feito nada de certo além disso, já teria sido medíocre o suficiente para entrar no panteão das glórias nacionais. O problema é que as coisas erradas suplantaram em muito as corretas.
Eu classificaria os mil dias de governo como os mil dias de Sodoma e Gomorra, nos quais a racionalidade e a estabilidade foram seguidamente violadas, em uma orgia que, iniciada pelo Palácio do Planalto, tomou conta da Praça dos Três Poderes. No livro Me Odeie pelos Motivos Certos, que reúne artigos que escrevi para a Crusoé e para O Antagonista e acaba de ser lançado em versão impressa pela Topbooks, fiz um balanço sucinto do atual governo:
“Uma vez no poder, Jair Bolsonaro açulou as suas hostes contra os poderes constituídos, dando pretexto a que manifestações legítimas de liberdade de expressão fossem misturadas às ilegítimas. Ele também flertou com o autogolpe, tentando cooptar militares. Como escrevi em outro artigo, ‘depois de explodir todas as pontes de tráfego decente com o Congresso — com a ajuda estimável do gabinete do ódio especializado em fake news, equivalente aos blogs sujos do petismo — e inviabilizar um diálogo político minimamente saudável com deputados e senadores, o presidente sem partido estabeleceu uma pinguela com o Centrão, para contornas as dificuldades que ele mesmo criou e, no limite, um processo de impeachment. Sob os aplausos dos seus cúmplices no parlamento (petistas incluídos), Bolsonaro chancelou a destruição da Lava Jato e atingiu o máximo da infâmia ao forçar a demissão de Sergio Moro do Ministério da Justiça, a fim de mudar o diretor-geral da Polícia Federal e, assim, tentar evitar que investigações conduzidas no Rio de Janeiro alcançassem os seus filhos ou até ele próprio. A demissão de Moro teve ainda outro motivo: o medo de que o ex-ministro da Justiça lhe fizesse sombra em 2022. Bolsonaro, ao contrário do que dizia na campanha, quer ser reeleito. Com a cabeça na reeleição e refém do Centrão, o presidente estoura os cofres públicos. Em meio à urgência sanitária mundial, ele ainda demonstra o mais sociopático desprezo pela perda de milhares de vidas dos seus concidadãos’. Como não poderia deixar de ser, declarou guerra aberta à imprensa independente, que aponta os desvios no seu governo e critica o seu comportamento abjeto e característico de um sociopata no enfrentamento a pandemia. Para tanto, usa da intimidação judicial. Enquanto bate no jornalismo independente, ele beneficia empresários amigos no setor de comunicação, a fim de obter noticiário favorável, quando não francamente propagandístico.
Desesperado com as consequências políticas e criminais do relatório da CPI da Covid, além da possibilidade cada vez maior de perder a eleição em 2022, passou a atacar com virulência o STF e o TSE, com xingamentos a ministros do Supremo, e a divulgar notícias falsas sobre a falta de segurança das urnas eletrônicas. O seu alvo principal é o ministro Luís Roberto Barroso, que ordenou a abertura da CPI no Senado, em obediência à Constituição e ao regimento da casa, e preside neste momento o TSE. O ministro é forte opositor da adoção do voto impresso, que virou cavalo de batalha de Bolsonaro, apesar de ter sido fonte de inúmeras fraudes em eleições em todos os níveis, o contrário do que o presidente apregoa. Qualquer discussão racional sobre o tema foi anulada pelo destempero do presidente e as suas ameaças de intervenção militar. Em reação inédita na história da República, o STF e o TSE abriram investigações sobre a conduta de Jair Bolsonaro, atribuindo-lhe a suposta prática de diversos crimes. Na economia, o seu discurso de campanha, em prol de uma agenda liberal, deu lugar ao fisiologismo, à perpetuação do inchaço da máquina estatal, ao assistencialismo eleitoreiro e à intervenção federal em estatais que eram para ser privatizadas. A política populista de juros baixos resultou em aumento exponencial do preço do dólar e, consequentemente, em aumento de inflação. Hoje é possível dizer que Jair Bolsonaro e Lula se equivalem como ameaças à democracia, cada um a seu modo. E as recidivas de ambos podem ser ainda piores para o país.”
O balanço foi feito antes de Jair Bolsonaro ser relativamente domesticado pelo ex-presidente da República Michel Temer, que visou a manter tudo isso aí, viu, e o ministro Alexandre de Moraes, a cujos ímpetos autoritários o presidente da República deu vazão, com seus ataques desmiolados ao STF. Mas se algo mudou, foi para não mudar.
Quando foi eleito, Jair Bolsonaro disse que governaria pelo exemplo. Faltou dizer que era pelo péssimo exemplo.
A tática nazista da Prevent Senior
Já pode chamar Bolsonaro de genocida? Denúncias que vieram à tona na segunda-feira (27/9) acrescentaram elementos ainda mais tenebrosos às práticas da Prevent Senior. Acusada de promover ensaios usando medicamentos com ineficácia cientificamente comprovada para o tratamento contra a Covid-19, a rede hospitalar é agora suspeita de homicídio. “Eutanásia disfarçada”, responsabilizou o senador Otto Alencar.
A Prevent Senior tratou doentes como cobaias, nas barbas do Ministério da Saúde e do presidente Bolsonaro. O capitão e seus filhos replicaram, nas redes sociais, a “pesquisa” com cloroquina e outros bichos. E tinham intermediários como fontes. Dra. Nise Yamagushi, frequentadora da Prevent, era conselheira de Bolsonaro, entre outros negacionistas.
O que dirá agora o presidente da República diante de provas – literalmente – vivas dos expedientes desumanos utilizados pela rede hospitalar e por seu quadro profissional? Bolsonaro poderá alegar desconhecimento. Difícil acreditar. Impossível crer em qualquer palavra desse ser baixo e ignorante.
A GloboNews trouxe o chocante depoimento de Tadeu Frederico de Andrade, 65 anos, literalmente sobrevivente da Prevent Senior. No laboratório da morte, após um mês internado e intubado, Tadeu foi considerado caso perdido. Os médicos notificaram à família: Tadeu teria tratamento “paliativo para que morresse com dignidade”.
Seus filhos reagiram, contrataram um médico de outro hospital, e viram o pai reagir. O caso foi levado pelo próprio paciente à CPI da Covid e ao Ministério Público de São Paulo. Ontem mesmo, a Assembleia Legislativa de São Paulo anunciou a instalação da CPI da Prevent. Em Brasília, o caso ainda vai render. As graves denúncias tornam ainda mais necessárias novas investigações.
Senadores da CPI da Covid veem relação entre a Prevent Senior e o governo Bolsonaro. Suspeita-se que o Ministério da Saúde tenha usado protocolo da operadora para estimular a utilização de medicamentos sem comprovação científica por médicos e pacientes contra a doença. Não é pouca coisa. O chamado kit Covid pode ter causado milhares de mortes.
Nesta quarta-feira (29/9), estará na CPI o farofeiro Luciano Hang. Já autodenominado “Véio da Havan”, Hang é dono de muitas mentiras e confia na impunidade que reina nesse país – à exceção de uns poucos. Pode entregar alguns quilates à CPI. Ele fala. Provoca. Ficou seis meses suspenso das redes sociais e voltou mais atrevido.
Com fortuna de R$ 15 bilhões e quase 150 lojas físicas pelo Brasil afora, Luciano Hang chega mal na foto. Mensagens revelaram à CPI como esse empresário bilionário e bolsonarista de primeira hora financiou a disseminação de fake news e o funcionamento do “gabinete do ódio”. A intermediação foi do deputado Eduardo Bolsonaro.
Há quem ache um exagero a convocação de Hang. Senadores e alguns comentaristas políticos alegam que um dos assuntos é extremamente delicado: a morte de sua mãe por Covid-19. Estranho duvidar de seu poder de fogo. O próprio internou a mãe com Covid-19 num hospital da Prevent Senior e o atestado de óbito não traz a doença como causa da morte.
Hang vai render uma sessão interessante. Fanfarrão e loroteiro, o Véio da Havan lançou desafio ontem nas redes sociais. Postou um vídeo com algemas e debochou da CPI. “Terei todo o tempo do mundo para falar e, se não ficarem satisfeitos, me prendam.”
De onde menos se espera…
A Prevent Senior tratou doentes como cobaias, nas barbas do Ministério da Saúde e do presidente Bolsonaro. O capitão e seus filhos replicaram, nas redes sociais, a “pesquisa” com cloroquina e outros bichos. E tinham intermediários como fontes. Dra. Nise Yamagushi, frequentadora da Prevent, era conselheira de Bolsonaro, entre outros negacionistas.
O que dirá agora o presidente da República diante de provas – literalmente – vivas dos expedientes desumanos utilizados pela rede hospitalar e por seu quadro profissional? Bolsonaro poderá alegar desconhecimento. Difícil acreditar. Impossível crer em qualquer palavra desse ser baixo e ignorante.
A GloboNews trouxe o chocante depoimento de Tadeu Frederico de Andrade, 65 anos, literalmente sobrevivente da Prevent Senior. No laboratório da morte, após um mês internado e intubado, Tadeu foi considerado caso perdido. Os médicos notificaram à família: Tadeu teria tratamento “paliativo para que morresse com dignidade”.
Seus filhos reagiram, contrataram um médico de outro hospital, e viram o pai reagir. O caso foi levado pelo próprio paciente à CPI da Covid e ao Ministério Público de São Paulo. Ontem mesmo, a Assembleia Legislativa de São Paulo anunciou a instalação da CPI da Prevent. Em Brasília, o caso ainda vai render. As graves denúncias tornam ainda mais necessárias novas investigações.
Senadores da CPI da Covid veem relação entre a Prevent Senior e o governo Bolsonaro. Suspeita-se que o Ministério da Saúde tenha usado protocolo da operadora para estimular a utilização de medicamentos sem comprovação científica por médicos e pacientes contra a doença. Não é pouca coisa. O chamado kit Covid pode ter causado milhares de mortes.
Nesta quarta-feira (29/9), estará na CPI o farofeiro Luciano Hang. Já autodenominado “Véio da Havan”, Hang é dono de muitas mentiras e confia na impunidade que reina nesse país – à exceção de uns poucos. Pode entregar alguns quilates à CPI. Ele fala. Provoca. Ficou seis meses suspenso das redes sociais e voltou mais atrevido.
Com fortuna de R$ 15 bilhões e quase 150 lojas físicas pelo Brasil afora, Luciano Hang chega mal na foto. Mensagens revelaram à CPI como esse empresário bilionário e bolsonarista de primeira hora financiou a disseminação de fake news e o funcionamento do “gabinete do ódio”. A intermediação foi do deputado Eduardo Bolsonaro.
Há quem ache um exagero a convocação de Hang. Senadores e alguns comentaristas políticos alegam que um dos assuntos é extremamente delicado: a morte de sua mãe por Covid-19. Estranho duvidar de seu poder de fogo. O próprio internou a mãe com Covid-19 num hospital da Prevent Senior e o atestado de óbito não traz a doença como causa da morte.
Hang vai render uma sessão interessante. Fanfarrão e loroteiro, o Véio da Havan lançou desafio ontem nas redes sociais. Postou um vídeo com algemas e debochou da CPI. “Terei todo o tempo do mundo para falar e, se não ficarem satisfeitos, me prendam.”
De onde menos se espera…
Um brasileiro em Nova York
1.Nascido no gigante adormecido, Jair Bolsonaro foi à cidade que jamais dorme para fazer um discurso na ONU.
O resultado foi um discurso pífio e um patético flagrante do Supremo Mandatário e de sua comitiva desamparados, comendo pizza numa calçada. É claro, como já mencionei aqui, Bolsonaro se acha acima das normas e da biologia, embora tenha contraído a doença. Superiores não se vacinam e, irresponsavelmente, esquecem o caráter exemplar de seus cargos. Você pode ser individualista, mas o vírus é coletivista.
Bolsonaro é uma extremada ambivalência ambulante, essa marca dos poderosos nacionais. Pois — com raríssimas exceções — ter poder no Brasil é “ter a faca e o queijo nas mãos”, é ignorar normas. Seja porque os “superiores” não lhes obedecem; ou porque estão convencidos de que são seus donos. Afinal, eles as inventam e, se têm esse poder, não precisam segui-las. Elas são feitas para o “povo”. As elites legislativas (que estão em todo lugar) relativizam tudo com o “você sabe com quem está falando?”.
Só que, em Nova York, as regras valem para todos. Um presidente pode declarar uma guerra, mas não acaba com o ataque viral... Recusando fazer em Roma como os romanos, Bolsonaro viu sua teimosia virar pizza.
2. Seus defensores dizem que a implicância com a vacinação é um exercício de liberdade. Ignorantes, não sabem que o mais importante papel público da República restringe a vida pessoal. O preço do comando é a paradoxal submissão do comandante a seu papel. Poderes excepcionais roubam o prazer dos papéis comuns. O capitão de um navio tem medo da tempestade como passageiro, mas, como capitão, ele a enfrenta. É o preço do papel cerimonioso e sagrado, porque pertence ao povo, tem exigências.
Nosso “esquecido” viés aristocrático acentua os privilégios, ignorando suas responsabilidades. É nesse espaço que germinam a corrupção e a destruição institucional da má-fé golpista.
3. Então o presidente não tem direitos? Eis uma grave questão. Claro que ele decide sobre sua vida pessoal, mas com uma aguda consciência dos papéis que desempenha. Pode o Supremo Mandatário da nação fazer campanha contra a vacina tomando o partido da pandemia e da morte? Pode convocar o povo a apoiá-lo no desmonte dos Poderes da República?
4. É óbvio que — como cidadão — ele pode ser o que bem entender, desde que perceba que seu lugar como pessoa comum foi englobado pelo cargo para o qual foi eleito e que dele exigiu um juramento de lealdade. O juramento solene de lealdade ao papel torna o papel mais importante que o ator.
Numa democracia, talvez o mais espinhoso seja a exigência de que ele é um ocupante temporário do cargo — um cargo, aliás, interligado a outros poderes. Algo obviamente difícil para mandões, numa sociedade em que o “mandonismo” — como dizia a socióloga Maria Isaura Pereira de Queiroz — é parte inconsciente do poder no Brasil. Aliás, com esse viés absolutista, como resistir aos parentes, comadres, amigos, bem como às seduções do sicofantismo e, sem dúvida, da burrice teimosa que faz parte de todo papel de direção e é uma característica do governo Bolsonaro?
5. Numa Nova York pandêmica, essa consciência do papel foi aguçada. Um representante de um país tem o dever de exibir o bom senso desse país. Coisa ignorada pelo presidente, que, diante de uma pandemia, entende ser contra a vacina e se expõe ao ridículo de verbalizar isso numa cidade que impôs a regra sanitária da vacinação em lugares reservados.
O direito de não se vacinar é moralmente equivalente ao direito de pular de um abismo. Alguns direitos — os de matar, de cometer incesto ou de procurar adoecer — são interditos. Verbalizados, eles denunciariam a penúria ética da sociedade. É exatamente isso que está em jogo com as vacinas. Não é a liberdade do idiota que não se vacina, mas a ameaça que ele representa aos que com ele convivem.
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