sábado, 25 de setembro de 2021

Bolsonaro, criminoso confesso, deixa o brasileiro ao Deus-dará

Se a Coronavac não tem eficiência comprovada conforme o presidente Jair Bolsonaro disse três vezes só nesta semana, e outras tantas desde o final do ano passado, como o Ministério da Saúde do já distribuiu até agora 101 milhões de doses?

Isso não configura crime – dele por desacreditar a vacina, e do Ministério da Saúde por distribuí-la? Não é o caso de repetir o que o planeta Terra sabe: Bolsonaro é um mentiroso compulsivo, mas de ele ser punido pelas mortes dos que acreditam em sua palavra.

Há comprovação científica de que a vacina funciona – entre elas, a imunização com sucesso de mais de um bilhão de pessoas na China, o país mais populoso do mundo, e de milhões no Chile e em outros lugares. Ou então aqui mesmo no Brasil.

Logo, quando Bolsonaro sabota a Coronavac, porque foi João Doria (PSDB), governador de São Paulo, que a adotou e o Instituto Butantan que a produz, está longe de tratar-se de mera questão de opinião como ele dirá um dia se for processado por isso.

Bolsonaro sempre disse que não haveria o que fazer no combate à pandemia, que o brasileiro é tão resistente que é capaz de meter-se num buraco lamacento e sair de lá com saúde, e que morreriam afinal os que tivessem de morrer. “Não sou coveiro”, lembra?

Patrocinou o tratamento precoce, à base de cloroquina e outras drogas ineficazes, sabendo que era uma fraude. Se não sabia à época, sabe agora. E se sabe, por que insiste em defendê-lo como fez em Nova Iorque na abertura da Assembleia Geral da ONU?

Em sua live semanal na última quinta-feira, ele afirmou que não erra e que nunca errou. Se admitisse erros, abriria brecha para que lhe perguntassem que erros foram, e se o tratamento precoce e o atraso na compra de vacinas não foram alguns deles.

É um criminoso confesso, que no exercício do cargo não pode ser processado, mas que poderia ser impedido de continuar desgovernando o país. Isso não acontecerá porque falte povo na rua a gritar “fora, Bolsonaro” – povo há de sobra, e haverá mais.

Falta na Câmara dos Deputados, comprada por meio de emendas ao Orçamento, cargos no governo e outros expedientes sujos, uma maioria que de fato represente o povo.

sexta-feira, 24 de setembro de 2021

Pensamento do Dia


Alejandro Fajardo (Cuba)



 

O pior negacionismo

Na ressaca do descalabro que foi o discurso do presidente brasileiro na abertura da Assembleia Geral das Nações Unidas, na terça-feira, em Nova York, a gente se acabrunha. O grau do vexame extrapolou as piores expectativas. Em meio a mentiras ofensivas, distorções estúpidas e apologia de fármacos abstrusos, a saraivada de despautérios não convenceu ninguém e constrangeu o mundo inteiro. Aos conterrâneos do orador – dito mito, mas, de fato, mitômano – só restou engolir a humilhação. Vergonha – este foi o título do editorial do Estado em sua edição de ontem. Palavra bem aplicada.

Somos uma nação envergonhada, com as costas pensas sob o próprio fracasso. No ritmo em que as florestas deste país fumegam delirantemente, a esperança vira cinzas. O desastre ecológico e a tragédia sanitária se adensam num malogro político depressivo. Quando a autoridade máxima desta terra ardente (“qual fogueira de São João”) vai à ONU e pronuncia tudo o que pronunciou, em nosso nome, e nada lhe acontece, é sinal de que alguém aqui abdicou da dignidade.

Nestas horas, pouco adianta o sujeito sacar o celular e “postar” nas redes que o chefe de Estado é genocida. A inquietação lamurienta dos descontentes é seu triunfo. Cuspindo ácido sulfúrico, ele desfila sobre cadáveres de gente e de sonhos. Chamado de negacionista, mostra os dentes: negacionistas são vocês.

Talvez seja isso mesmo. Como já se percebeu, o pior negacionismo não é o dele, que rejeita a ciência, o saber e o diálogo, mas o daqueles que se negam a ver que estamos diante de um inimigo declarado da democracia, obcecado em preparar um golpe de Estado. O pior negacionismo é aceitar a permanência do governante que aí está e, nessa aceitação tácita, assinar um pacto de sangue com o projeto de ditadura que ele pretende pôr em prática.


O pior negacionismo vicejou (e ainda viceja) nas mesas de financistas sem princípios, que decidiram fazer vistas grossas para o que tinham recursos óticos para enxergar. Por uma fatalidade, mas não propriamente por acaso, o pior negacionismo encontrou meios de se disseminar à sociedade, contaminando até mesmo algumas artérias das redações profissionais.

A contaminação ficou evidente já na campanha de 2018. O presidente que aí está, então candidato, subia em palanques para idolatrar torturadores, amaldiçoar a liberdade de imprensa e elogiar a ditadura militar. Com essa postura, afrontou diretamente os fundamentos da nossa democracia. Embora cumprisse as formalidades jurídicas para obter o seu registro regular na Justiça Eleitoral, como se fosse um candidato normal, declarou guerra contra o Estado Democrático de Direito. Esse fato – rigorosamente um fato, não uma ilação opinativa – ficou sem o registro devido.

Sejamos mais precisos. A Constituição de 1988, o documento-base da frágil ordem democrática que este país foi capaz de estabelecer, pode ter suas contradições internas e seus acochambramentos mal costurados, mas está assentada sobre um consenso pétreo, ao qual todas as forças políticas devem lealdade. Esse consenso se materializa numa tripla recusa: a recusa da ditadura, da tortura e da censura. Ora, foi justamente para glorificar essas três formas de barbárie que aquele candidato se lançava em campanha e, não obstante, foi tratado em boa parte da cobertura da campanha eleitoral como se fosse, à parte seu destempero fascistoide, um candidato candidamente normal. Haja negacionismo. A vitória de Jair Bolsonaro está para a democracia brasileira como a vitória de um político declaradamente nazista estaria para a democracia alemã. Não foi e não é algo corriqueiro. Não é normal.

O mais aflitivo é constatar que, apesar de todas as provas em contrário, o negacionismo de pior tipo não cede. É repetidamente desmoralizado pelos acontecimentos, mas não cede. Seus estilhaços, como detritos ideológicos, ficam espalhados no chão da mídia e logo se reagrupam, em sucessivas e ridículas tentativas de dar crédito ao inacreditável. Uma das mais recentes veio na sequência dos atos golpistas de 7 de setembro.

No feriado, em comícios anabolizados por dinheiros estranhos, o presidente prometeu, aos brados, desobedecer às determinações do Supremo Tribunal Federal. No dia seguinte, para escapar aos processos que viriam, encenou mais um de seus recuos cínicos e assinou um texto mal escrito prometendo respeitar a separação e a harmonia entre os Poderes. Como de costume, ele se desdiz sem pejo, como se fôssemos uma nação de bobos. Mesmo assim, seu documento de rendição obteve calorosa acolhida em certos escaninhos do jornalismo. Sem memória e sem caráter, o negacionismo que beneficia o negacionista se restaura.

Quanto aos endinheirados alienados, que resolveram acreditar no fantasma do comunismo com o mesmo fervor que devotam ao lucro digital, não há o que fazer. O chefe de Estado, ao ler aquelas barbaridades na ONU, os representa fielmente. A imprensa, porém, que tem vida racional, poderia pensar um pouco mais a respeito, mesmo que seja tarde demais.

O rumo está na escola

Em coluna no Correio Brasiliense, Luiz Carlos Azedo, além da honra de colocar-me ao lado de Paulo Freire, Darcy Ribeiro e Anísio Teixeira, me provocou com o título “Onde perdemos o rumo”, na véspera do bicentenário da Independência: estancados na economia, com pobreza e violência nas ruas e democracia fragilizada.

Nascemos sob o rumo insustentável da economia baseada no trabalho escravo para produção agrícola e mineradora, voltada para exportação. Atravessamos assim 350 dos 500 anos da história, e até hoje temos a economia semi-primária e semi-escravocrata. Fomos governados por populismo ou ditadura, com sistemático desrespeito ao equilíbrio fiscal, insensibilidade às necessidades sociais e urbanas, permanente concentração de renda, depredação ambiental. Tentamos rumo baseado em fazendas, minas, lojas, indústrias, estradas, hidrelétricas, uma nova capital, nunca em escolas.


Perdemos o rumo quando o quase Imperador gritou “Independência ou Morte” em vez de “Independência e Escola”; ou por esperarmos 350 anos para erradicar o escravismo e a Princesa assinar a Lei Áurea com o único artigo abolindo a escravidão, sem estes outros: “a terra pertence a quem nela produz” e “fica estabelecido um sistema nacional de educação para todos”. A bandeira republicana adotou o lema escrito “Ordem e Progresso”, em vez de “Educação é Progresso”, e até hoje não abolimos o analfabetismo: 12 milhões de adultos não reconhecem a própria bandeira.

Perdemos o rumo ao demorarmos 420 anos para criar nossa primeira universidade; ao implantarmos industrialização ineficiente, que tirou recursos da infraestrutura social e provocou inflação para cobrir custos do protecionismo; ao adotarmos o desenvolvimento sem sustentabilidade monetária, ecológica, fiscal, urbana, cultural ou política; e por até hoje não montarmos um Estado eficiente, democrático e republicano. Mas a causa principal do nosso descaminho tem sido o desprezo endêmico à educação em geral e a aceitação da desigualdade, conforme a renda e o endereço do aluno.

Chegamos ao terceiro centenário da independência, na Era do Conhecimento, sem uma população que leia e escreva bem português, fale outros idiomas, saiba matemática e ciências, conheça os problemas do mundo, use modernas ferramentas digitais e domine um ofício profissional. Perdemos o rumo ao imaginar que a boa educação é consequência do crescimento e da democracia, em vez de entendermos que crescimento sustentável e democracia sólida são consequências da educação.

A história de outros países mostra que a educação não ficou boa porque eles ficaram ricos, mas que ficaram ricos porque a educação era boa. Foi assim na Europa Ocidental e na América do Norte, desde o século XIX; na Irlanda, Coréia do Sul e Finlândia, desde meados do século XX. Foi a educação de qualidade que lhes deu base para elevar a renda social e distribuí-la com justiça, ainda que também graças à abertura comercial, finanças públicas equilibradas e instituições democráticas sólidas, capazes de liberar o talento das pessoas educadas. Cada vez mais a educação será o vetor do progresso econômico, a plataforma da distribuição de renda e da justiça social, a argamassa do regime democrático e o enlace para a sustentabilidade. Sem levar isso em conta, não encontraremos o rumo para o futuro que desejamos e para o qual temos potencial.

A educação é tão importante que, por falta dela, ainda não conseguimos perceber sua importância; agimos como pessoa perdida que não sabe para que serve o mapa que tem em mãos. Os traficantes usavam força para não deixar os escravos saltarem ao mar, porque os viam como mercadoria de valor, mas nós não damos condições para nossas crianças permanecerem em escola com qualidade até o fim do ensino médio, porque não as vemos como principal instrumento da criação de riqueza para o país.

Por isso, não aceitamos que o rumo está em escola de máxima qualidade para todos: não acreditamos que o Brasil pode ter uma educação das melhores do mundo, nem que seja possível no Brasil a educação ter a mesma qualidade para todos, independentemente da renda e do endereço da criança.

Temos recursos para implantar um Sistema Único de Educação de Base com qualidade. Não podemos adiar este rumo. É possível financeira e tecnicamente, também politicamente se entendermos que educação é o vetor do progresso, e moralmente, se percebermos a indecência e estupidez de não garantir que a qualidade seja a mesma para todos.

País feliz...


Para fazer o país feliz, precisamos despovoá-lo pela miséria
Lima Barreto, "Sátiras e outras subversões"

Por que o brasileiro não para de votar em corruptos?

Certas notícias despertam pouca atenção no Brasil por fazerem parte da normalidade deste país. Os brasileiros se acostumaram a elas, no fundo não esperam mais outra coisa. Mas são notícias que em mim continuam despertando incompreensão e cólera.

Quando as conto aos meus conhecidos na Alemanha, em geral me perguntam, cheios de perplexidade: "E essa gente está no poder, no Brasil? Eles não renunciam por conta própria, quando algo assim vem à luz? Ou são forçados a renunciar?" Aí eu sempre digo: "É pior ainda, porque essa gente é até eleita vez após vez. Parece que os brasileiros, de certa maneira, os admiram."


Mas cada coisa a seu tempo. O estopim imediato da minha indignação é Ciro Nogueira, atual ministro-chefe da Casa Civil do presidente "anticorrupção" Jair Bolsonaro. Quando ainda era senador, ele ganhou o questionável título de "campeão de gastos com locomoção, hospedagem, alimentação e combustíveis".

Nenhum senador gastou mais dinheiro de vocês, queridos leitores, para fins que, na minha opinião, deveriam ser pagos por ele mesmo. Entre janeiro e julho de 2021, o atual ministro gastou R$ 263.300 dos cofres públicos somente para abastecer seu jatinho, que costumava usar nas viagens para Brasília. O salário mensal de um senador da República é de R$ 33.763.

Quando Nogueira, hoje com 52 anos, foi nomeado ministro-chefe da Casa Civil, a mãe dele foi atrás, ocupando uma vaga de senadora. O que em democracias funcionais seria proibido como nepotismo é perfeitamente normal no Brasil. Aqui, os políticos fundam pequenos impérios familiares, empurram os cargos de um lado para o outro, dentro do clã. Em 2017, seis de cada dez parlamentares tinham parentes na política. O Congresso brasileiro, portanto, não representa o povo brasileiro: é um negócio de certas famílias.

Do avô ao neto, passando pelo filho, cargos políticos são herdados, e postos lucrativos, entregues a tios, tias, sobrinhas, sobrinhos e amigos íntimos da família – fazendo pensar mais em feudalismo do que em democracia. Em 2015 veio à tona o caso de Bonifácio de Andrada: em seu décimo mandato na Câmara, ele representava a quinta geração de um clã que, nos últimos 194 anos, já teve outros 14 representantes no órgão legislativo brasileiro.

E enquanto isso, os brasileiros se perguntam: por que nossa política nunca muda? Por que algumas famílias acumulam riquezas e terras inimagináveis, enquanto a maioria da população vive no limite da pobreza?

E assim voltamos à mãe de Ciro, Eliane Nogueira. Parece que o Senado não vai economizar muito com ela, que repete o hábito do filho de gastar o dinheiro dos brasileiros para o próprio conforto e já apresentou notas fiscais no valor de R$ 14.200 em combustível para o seu jatinho.

O caso é emblemático da arrogância de grande parte da classe política do Brasil. Aqui muitos não entram para a política com a intenção de melhorar algo para a população, fazer algo pela educação, justiça, proteção ambiental, segurança e saúde dos brasileiros, mas para usufruir pessoalmente dos privilégios que o disfuncional sistema político do país garante.

Na Alemanha, os políticos eleitos são também chamados representantes do povo. No Brasil, eles são representantes de si mesmos e de seu clã. Os únicos que poderiam mudar esse sistema são os próprios políticos, e estes não vão mover uma palha para limitar os próprios privilégios. Eles vivem como pinto no lixo, desfrutam de restaurantes, hotéis e viagens caros, pagos pelo contribuinte.

Um ótimo exemplo é o clã Bolsonaro. Perfeitos representantes do neofeudalismo brasileiro não são só os três filhos mais velhos – que estão sendo investigados por corrupção, e dos quais ninguém até hoje sabe o que é mesmo que fazem na vida, além de suas carreiras políticas – mas também o caçula, Jair Renan Bolsonaro.

As escapadas dele mostram de forma exemplar como o poder deforma certos indivíduos. "Há uma fera em cada ser humano, quando se coloca uma espada na mão dele" – é como dizem na série Game of Thrones.

No Twitter, Jair Renan descreveu o que considera um dia perfeito. "Bom dia rapaziada. Então, com vocês aí, melhor jeito de acordar: tomando um suquinho, comendo um pão de queijo, visitando a loja de um grande amigo meu aqui: Júnior. Sabe o que o cara vende? Arma, brinquedo." O rapaz, ao que tudo indica, não estuda, não trabalha, apenas aproveita a vida com o dinheiro e os contatos proporcionados pelo pai e os irmãos mais velhos. Assim se criam monstros.
Decadência moral generalizada

Tenho certeza de que no próximo pleito os brasileiros vão reeleger Aécio Neves, Fernando Collor, Eliane Nogueira, o palhaço Tiririca e os cerca de 35% dos deputados e senadores que já elegeram em 2018 embora a Justiça os esteja processando por corrupção, lavagem de dinheiro, assédio sexual, fraude e numerosos outros delitos. Trata-se de 160 parlamentares e 38 senadores. Quem sabe também Michel Temer e Eduardo Cunha voltem a ocupar cargos na política.

E é o próprio governo Bolsonaro que contribuiu, através de seu próprio exemplo, para a banalização da corrupção e do nepotismo.

Um dos financiadores dos atos bolsonaristas do Sete de setembro, Antônio Galvan, presidente da Associação Brasileira dos Produtores de Soja (Aprosoja Brasil). já foi multado por desmatar 500 hectares de vegetação nativa e vender soja sem nota fiscal. Também responde na Justiça por plantio clandestino de grãos e por uma tentativa de invasão de terra numa fazenda vizinha à sua.

Essa é a gente de bem do bolsonarismo. Gente que representa a suposta elite política e econômica deste país. E os brasileiros a elegem. Repetidamente, a cada quatro anos. Já há décadas.

Por isso acho que muitos se identificam com eles. Também gostariam de enriquecer à custa da coletividade e de burlar a Justiça. Como nenhum outro, o atual governo contribuiu com seu nepotismo, suas mentiras e sua moral dupla para essa decadência moral generalizada.
Philipp Lichterbeck

Crônica de mortes anunciadas?

Muita gente fica horrorizada – com razão, evidentemente – ao ver o Talibã impondo seus costumes, fé e ideologia à população afegã em geral. Por outro lado, naturaliza a ideia de impor aos povos tradicionais os modos ocidentais. Essas pessoas muitas vezes são movidas pelas melhores intenções; acreditam piamente que não exista modo de vida melhor que o seu. Só que desde que foi promulgada a Constituição de 1988, os indígenas têm os mesmos direitos e deveres que qualquer cidadão brasileiro. Isso inclui liberdade de escolha. Se eles vivem como vivem, é porque assim desejam. E esta mesma Constituição prevê que o Estado brasileiro tem a obrigação de proteger seus cidadãos, estejam eles dentro ou fora das terras indígenas. No caso de povos isolados ou de recente contato, essa responsabilidade deveria ser redobrada – assim como são as ameaças.

Philippe Echaroux

O dicionário define genocídio como “extermínio deliberado, parcial ou total, de uma comunidade, grupo étnico, ou religioso”. Jamais saberemos quando se deu o início do fim dos Piripkura, por exemplo. É uma história cheia de lacunas, que jamais serão preenchidas: oficialmente, só foram contatados nos anos 1980; mas já no fim do século XIX, começaram a ser caçados por seringueiros, e na década de 1940 o território deles, que fica no noroeste de Mato Grosso, foi invadido por grileiros e madeireiros. Rita Piripkura, a última mulher de seu povo, deixou há cerca de 40 anos seu território ancestral, a contragosto. Hoje, vive numa aldeia Karipuna, em Rondônia. Ela conta que o último grande massacre aconteceu entre os anos 1960 e 1970, quando restavam apenas 20 indivíduos. Atualmente, só se tem notícia de dois: seu irmão, Baita (ou Monde’i), e um sobrinho, Tamandua (sem acento mesmo, ou Tikum). E seus dias podem estar contados. Com eles, podem desaparecer sua língua, derivada do tupi primitivo, e saberes que têm garantido a sua sobrevivência.

Se não podemos afirmar quando começou o genocídio Piripkura, aquele que pode ser o seu último suspiro tem data conhecida: 18 de março de 2022. Até semana passada essa data era 18 de setembro, mas a pressão de órgãos indigenistas levou o governo brasileiro a adiar esse momento em seis meses – mas não a eliminar de vez a ameaça. Este marco só torna legal um crime em andamento. Segundo a Funai, atualmente há 237 processos de demarcação de terras indígenas que dependem apenas da homologação presidencial. Como os processos de demarcação se movem a passos de cágado, a entidade baixou uma norma em 2008, que restringe a entrada de estranhos nesses territórios.

Essa proteção deveria ser renovada por tempo suficiente para a conclusão desses trabalhos; a última vez que isso aconteceu foi em 2018. Conseguirá, agora, o governo brasileiro fazer, em apenas seis meses, o trabalho de identificação e demarcação que não conseguiu concluir em três anos – ou 41, se considerarmos o primeiro registro do povo, em 1980? Sem a proteção integral do território até a identificação e homologação da TI, Baita e Tamandua – e outros Piripkura que porventura estejam escondidos na mata – serão abandonados à própria sorte.

A Funai foi criada em dezembro de 1967, em plena ditadura, com o objetivo de “promover e proteger os direitos dos povos indígenas do Brasil”. O atual governo entregou as rédeas dela para ruralistas e religiosos fundamentalistas. E ela se tornou a maior inimiga de quem devia defender. Por exemplo, em fevereiro deste ano a fundação baixou a Instrução Normativa 9, que escancarou as portas para invasores em áreas em processo de demarcação. Mas nem precisava, pois a Terra Indígena (TI) Piripkura, que tem 243 mil hectares de área, já tinha sido a mais devastada em 2020, entre as que vivem isolados: 962 hectares foram abaixo, 95% deste total somente entre agosto e dezembro. Em junho e julho deste ano, ela perdeu mais 220. Porém, a maior ameaça para os indígenas está no subsolo.

Em dezembro de 2020, o governo federal lançou o primeiro de uma série de estudos, elaborado pelo Serviço Geológico do Brasil, que indica áreas onde há mais possibilidades de haver metais preciosos no norte do Mato Grosso. E deu a largada para mais uma corrida do ouro. Entre 1994 a 2020, havia 119 requerimentos de mineração na área; depois da divulgação dos estudos, houve mais 202, um aumento de 70% em oito meses. Um levantamento da Operação Amazônia Nativa (Opan) apontou que os pedidos de lavra de garimpo no entorno da TI passaram de 21 processos, que abrangiam 64 mil hectares, em 2017, para 34 em junho de 2021. Isso fez a área total pular para 143 mil hectares, um aumento de 123% em três anos e meio.

Oficialmente, existem 28 povos isolados no Brasil, mas este número pode chegar a 86. As TIs Pirititi (que fica em Roraima), Jacareúba/Katawixi (no Amazonas) e Ituna/Itatá (no Pará) também vão perder a proteção em breve: a da primeira, que tem quase metade de sua área (47%) ameaçada pela grilagem, expira em 5 de dezembro; a última, que foi a terra indígena mais desmatada em 2019, primeiro ano do governo Bolsonaro, fica ao deus-dará em 9 de janeiro de 2021. Afora a perda do conhecimento único que esses povos guardam, nossa geração vai carregar esses genocídios em sua consciência?

quinta-feira, 23 de setembro de 2021

Exemplo de Brasil

 


Mãos irresponsáveis

A condescendência das autoridades da Organização das Nações Unidas (ONU) com o presidente Bolsonaro, permitindo que assumisse o púlpito para fazer o discurso de abertura da sessão inaugural sem estar vacinado, não se justifica, pois, como ficou comprovado, ainda não há segurança de que quem já teve Covid-19 esteja protegido de ser infectado novamente ou de infectar alguém.

Bolsonaro, do alto de sua ignorância prepotente, disse ao primeiro-ministro do Reino Unido, Boris Johnson, que “ainda” não havia se vacinado, mas que sua imunidade estava bastante alta. Não se sabe se o ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, “já saiu com o bichinho” do Brasil, como disse o vice-presidente Hamilton Mourão, ou se o apanhou por fazer parte da comitiva de um presidente que menospreza os cuidados básicos e trabalha contra a vacinação, embora a defenda da boca para fora nos fóruns internacionais.

O Brasil levou uma comitiva enorme, mas completamente inútil para a reunião da ONU em Nova York. Não havia nada marcado para ninguém, a não ser passear de avião e ouvir o discurso do presidente Bolsonaro. É impressionante que ainda nos comportemos dessa maneira, reafirmando nossa regressão atual a republiqueta de bananas.

Além do mais, tanta gente junta acaba disseminando o vírus, e dois componentes da comitiva pegaram Covid-19, uma resposta do destino aos negacionistas. Queiroga foi também muito irresponsável ao replicar um post sugerindo que a vacina CoronaVac não tem efeito, sendo ela a mais usada no país.


O quarto ministro da Saúde na pandemia parecia ter encontrado um equilíbrio entre o respeito à ciência e o negacionismo de Bolsonaro, mas vê-se agora que o presidente é muito mais resiliente que seu ministro, que aderiu ao comportamento bárbaro da tribo que no momento ocupa o governo brasileiro. O gesto obsceno que fez aos que protestavam na porta do hotel em Nova York não se justifica, a não ser como demonstração de lealdade ao presidente, que gosta desses arroubos.

A decisão de suspender a vacinação de adolescentes, numa atitude aparentemente de precaução, mas que na prática demonstrou sua subserviência às manias de Bolsonaro, foi o ponto de não retorno de Queiroga à normalidade. Resolveu aderir de corpo e alma ao negacionismo, e o único gesto de sensatez que ainda mantém é o uso de máscara.

O retorno à política de vacinação de adolescentes, que será determinado pelo presidente Bolsonaro, é apenas mais uma humilhação das muitas que os ministros da Saúde têm enfrentado. Os que, como Luiz Henrique Mandetta e Nelson Teich, tinham uma reputação a preservar pularam fora do ministério. Os que, como o general Pazuello e o atual Queiroga, prezam mais o cargo que a reputação permanecem engolindo sapos.

A Anvisa determinou quarentena para todos os integrantes da comitiva, e o presidente estará isolado nos próximos dias. Se fosse possível fazer a medição de quantas pessoas foram contaminadas pelas mãos irresponsáveis de Bolsonaro, teríamos uma avaliação real da consequência direta desastrosa de sua irresponsabilidade. Não apenas nos “cercadinhos”, mas também na sua passagem por Nova York, disseminando o vírus.

O que temos até agora, porém, já é suficiente para que a CPI da Covid possa apresentar um relatório tenebroso. O que era um exagero de retórica política, chamá-lo de genocida, passou a ser uma acusação baseada em fatos e apoiada por uma comissão de juristas, pois os experimentos médicos feitos sob inspiração do governo estão comprovados, como no depoimento do diretor-presidente da Prevent Senior.

Quando, no início da gestão de Pazuello, o governo resolveu alterar a metodologia da contagem de mortos na pandemia por imaginar que havia supernotificação da doença, já tinha em mente manobras como as da Prevent Senior, que registrava pneumonia em vez de Covid-19 para reduzir o número de óbitos. Vemos agora que havia uma subnotificação, como os organismos médicos suspeitavam, não apenas pelas mortes não registradas nas regiões mais pobres do país, mas, com requinte de crueldade, em hospitais que, sob os auspícios do governo, maquiavam para baixo a taxa de mortalidade.

Ouvidos moucos

Estou aqui para soar o alarme: o mundo precisa acordar. Uma onda de desconfiança e desinformação polariza as pessoas e paralisa as sociedades. Os direitos humanos estão sob ataque. O apoio econômico para os mais vulneráveis é pouco
António Guterres, Secretário-Geral da ONU

O gesto obsceno que nos fazem todos os dias

Tudo o que foi dito e escrito sobre Jair Bolsonaro em Nova York — inclusive neste site — é redundante e inútil. O presidente Jair Bolsonaro não é persona do cidadão Jair Bolsonaro. Ele é invariavelmente a mesma criatura tosca, com viés sociopático, não importa se no seu gabinete, no cercadinho com os seus apoiadores, em viagem presidencial ou na cozinha do Palácio do Alvorada. Não há ser mais autêntico a ter ocupado o cargo de supremo mandatário da nação — nem o general João Batista Figueiredo, conhecido por suas declarações grosseiras, foi tão longe –, numa prova de que a autenticidade pode ser mais defeito do que qualidade.


A questão não é ser ou não ser Jair Bolsonaro, mas por que mantê-lo no Palácio do Planalto. Mais uma vez, é preciso que se diga: o atual presidente da República é, ele próprio, a pior crise que poderia ocorrer no Brasil neste momento. Jair Bolsonaro é a maior causa das quase 600 mil mortes por Covid no país, de termos chegado atrasados à compra de vacinas e da desinformação em relação a remédios ineficazes contra a doença. Ele também é o motivo dos desgovernos na economia, na educação e no meio ambiente, pelos quais pagamos o preço da inflação crescente e do aumento da miséria, da piora no nível escolar das nossas crianças e jovens, que já era abissal, e do crescimento da destruição de ecossistemas vitais.

Tudo sempre esteve ruim no país, sob qualquer governo, que ninguém se engane com os mentirosos, mas quase tudo piorou ainda mais sob Jair Bolsonaro. O que foi adiante na direção positiva deve-se ao empenho teimoso de abnegados que conseguiram avanços na legislação trabalhista (que os sindicalistas de toga já torpedeiam) e no marco legal do saneamento, para ficar em dois dos escassos exemplos dignos de nota. Tirá-lo do Palácio do Planalto, por meio do instrumento constitucional do impeachment, representaria um alívio para todos os cidadãos de bem e uma ótima sinalização para os agentes econômicos, aí incluído o mercado assustadiço, que logo perceberia a vantagem de não ter um doido no que ainda resta de comando do espetáculo. Fernando Collor de Mello e Dilma Rousseff se fizeram merecedores de perder o mandato por muito menos.

Por que, então, preservar Jair Bolsonaro na presidência da República até o final de 2022? Porque tem muita gente faturando com isso. Desde o notório Centrão, com a sua sanha fisiológica e corrupta, até os vampiros eleitoreiros que se alimentam do sangue dos brasileiros, ao deixar Jair Bolsonaro sangrando na cadeira presencial. Passando pelos liberticidas no Judiciário que, a pretexto de defender a democracia contra os arroubos bolsonaristas, solapam-na em benefício próprio — e, dado assustador, com o apoio de jornalistas ingênuos, que não percebem a arapuca que se arma lá adiante contra a liberdade de expressão.

Quem decidiu manter Jair Bolsonaro na presidência da República é uma gente tão ou mais perigosa que a criatura tosca, com viés sociopático, que nos desgoverna e envergonha. Eles nos fazem o gesto obsceno de Queiroga todos os dias.

ONU e o mundo se ridicularizam diante de Bolsonaro

Ao comparecer a Nova York e abrir a Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas, Jair Bolsonaro foi apresentado no noticiário brasileiro e internacional como um pária do mundo, que comia pizza em pé na calçada porque não estava vacinado. Estou na contramão desta análise. O ultradireitista que governa o Brasil não envergonhou nem a si mesmo nem ao país. Me parece exatamente o oposto. Bolsonaro debochou da democracia em palco global, teve suas mentiras traduzidas em várias línguas e voltou para casa aclamado por seus seguidores pela sua autenticidade e coragem de afrontar a parte do planeta que despreza.

Ao receber um mandatário que ostenta o fato de não ter tomado vacinas como um troféu, e isso quando os Estados Unidos enfrentam uma piora na pandemia devido à variante delta, a vergonha é dos Estados Unidos de Joe Biden e da Nova York de Bill de Blasio. A vergonha é, principalmente, da ONU. Bolsonaro afronta o combate à pandemia com atos e fatos e atravessa a fronteira americana todo serelepe porque a ONU se mostrou incapaz de riscar o chão diante da Rússia de Vladimir Putin, que se contrapôs com veemência à intenção de barrar quem não estivesse vacinado. Bolsonaro também vai rir por muito tempo pela façanha de abrir a assembleia do mais simbólico pilar da ordem mundial após a Segunda Guerra disseminando mentiras explícitas. Aplicou na ONU um deboche em nível planetário.

De nada adianta estampar no noticiário um Bolsonaro patético, objeto de piadas e de charges na imprensa. Bolsonaro entrou nos Estados Unidos sem vacina e este é o fato principal. Também pouco adianta fazer matérias e análises provando que ele mentiu sobre quase tudo. Seus seguidores, assim como uma parcela de não seguidores, considera tudo o que a imprensa afirma como fake news e nem sequer a lê, assiste ou escuta. Parte do planeta, e não só do Brasil, acredita que pode escolher o que é a verdade se a mentira lhe convém. Também não está fácil, é necessário dizer, ouvir, assistir e ler setores da imprensa repetindo coisas como “contrariando a expectativa da ala moderada do governo, Bolsonaro não moderou o tom no discurso na ONU”. Sério que ainda tem gente para afirmar expectativas do gênero como se acreditasse nisso?

É assim que ditadores eleitos como Bolsonaro destroem a democracia desde dentro. Se os instrumentos democráticos e as instituições que os representam são incapazes de impedir alguém como Bolsonaro de discursar sem vacina, presencialmente, na ONU, para que servem? Do mesmo modo, se tudo o que as instituições brasileiras conseguem produzir são (mais) discursos sobre como Bolsonaro envergonha o país, em vez de usar os instrumentos democráticos previstos na Constituição para impedi-lo de seguir governando, para que servem, então?

Gostaria de afirmar que esse pesadelo acontece porque a democracia e suas instituições não previram criaturas como Bolsonaro, mas seria inaceitável ingenuidade sob qualquer ponto de vista, inclusive o histórico. Bolsonaro é produto das deformações de uma democracia que nunca alcançou as camadas mais desamparadas da população e é produto do cinismo do capitalismo liberal. A cena com Boris Johnson é um exemplo disso. Supostamente o primeiro-ministro britânico, um direitista caricato, teria dado um “puxão de orelhas” em Bolsonaro por não tomar vacina, mas é só jogo de cena. O que importa é que um sorridente BoJo apertou a mão de um sorridente Bolsonaro às vésperas da Cúpula do Clima de Glasgow, apesar de o presidente brasileiro estar levando a maior floresta tropical do planeta ao ponto de não retorno.

Bolsonaro está onde está porque as corporações e os governos que as representam ainda faturam e têm vantagens com ele na presidência. Bolsonaro está onde está porque grande parte do empresariado brasileiro, assim como dos especuladores, acredita que ainda pode obter mais lucro com ele no poder do que fora dele. Ao mostrar o dedo médio aos manifestantes contra Bolsonaro, Marcelo Queiroga afirmou a verdade mais profunda da Assembleia Geral da ONU. E agora o ministro da Saúde do país que beira os 600 mil mortos por covid-19 descansa em um hotel de luxo de Nova York enquanto faz quarentena por, claro, ter testado positivo para o vírus.

Assim caminha a democracia e seus pilares globais. E ainda há quem se surpreenda que morram, esquecendo-se que para morrer é necessário primeiro estar vivo.

Viagem de Bolsonaro deixou ainda mais clara sua irrelevância

Bolsonaro não existe mais. Depois da tentativa de golpe do dia 7 de setembro, quando ficou claro que o Brasil consegue funcionar a despeito do que ele, as milícias e os caminhoneiros propõem, deixou de ter qualquer importância. Vai continuar esbravejando e causando, vai continuar fabricando Medidas Provisórias e PLs cheios de más intenções, mas o seu show acabou. Morreu. Se vai ser enterrado nas urnas ou antes disso só importa porque há muito a reconstruir no Brasil, e cada dia perdido é mais um prejuízo.

Bolsonaro juntou o que tinha e o que não tinha para a sua cartada golpista. Ao longo dia 7, mas sobretudo na noite tenebrosa do dia 6, o bolsonarismo veio com tudo. Felizmente havia adultos em Brasília, e eles tomaram providências. O tudo se fez nada muito rápido porque era nada desde o começo: onde o Messias se via como um leão rugindo, foi fácil perceber o pato, manco das duas patas.

A carta de Temer afastou o impeachment da fervura para o banho-maria, mas cortou as asas do pato e reduziu-o à sua devida dimensão.

Agora, a viagem a Nova York deixou ainda mais clara a sua irrelevância.


Não há político que já não tenha tentado passar a impressão de ser um sujeito humilde comendo na rua, mas até aqui não se tinha notícia de político comendo na rua por não cumprir normas sanitárias universais.

Bolsonaro não entende a liturgia do cargo, não compreende o que significa ser presidente.

Poderia comer até debaixo da ponte se estivesse com os papéis em dia, mas quando optou por se dizer não-vacinado se pôs no lugar do pária, aquele que ninguém quer por perto. A sua foto comendo pizza em pé na calçada, cercado de basculhos, vai entrar para a História como um dos pontos mais baixos da iconografia brasileira, páreo duro para a clássica farra dos guardanapos.

O país parece destinado a passar vergonha, seja em restaurante estrelado em Paris, seja em calçada de Nova York.

Como já era esperado, o discurso do presidente não fez o menor sentido, mas também não fez (ou faz) qualquer diferença. Não quer dizer nada.</p><p>Tanto faz o que ele diga ou o que deixe de dizer.

Discordo de quem acha que perdeu uma oportunidade de ouro para discutir grandes questões. Não se perde o que não se tem.

Bolsonaro não só não sabe separar os problemas do mundo das picuinhas domésticas, como já deixou de ser levado a sério como interlocutor no cenário internacional há bastante tempo. Ninguém mais presta atenção às suas palavras.

A única coisa que lhe restava a fazer era mesmo o que fez: usar o discurso de abertura da ONU como palanque para se dirigir aos seus fiéis, os únicos que ainda lhe dão ouvidos.

Nós jornalistas estamos falando e escrevendo sobre esse discurso desde terça-feira, mas estamos perdendo tempo. Um ex-deputado que passou 30 anos embromando, mas que, numa pandemia, acredita que entende mais de imunologia do que os melhores imunologistas, não é caso de análise política, é caso de hospício.

O mundo já percebeu isso, e aponta para o Brasil como uma piada que deu errado.

quarta-feira, 22 de setembro de 2021

Pensamento do Dia

 


Cara de um...


O presidente apresentou dentro da nossa visão, a visão do nosso governo, a situação que o Brasil vive 
Hamilton Mourão

Faça por merecer

Uma das cenas de guerra mais marcantes da filmografia contemporânea foi representada pelo ator Tom Hanks ao incorporar o capitão John Miller na obra “O resgate do soldado Ryan”.

O último filho vivo da família Ryan, combatendo na França após o desembarque na Normandia, precisava ser poupado.

Tendo recebido a tarefa, o capitão Miller reúne um grupo de sete homens e segue para a linha de frente a fim de cumprir a missão.

Ao longo das jornadas, a patrulha se depara com emboscadas, famílias desesperadas, alemães ainda prontos a matar para não morrer.

Os soldados vão ficando pelo caminho. Quando Ryan é encontrado, Miller é atingido de morte. Sabendo que o fim se aproxima, sussurra ao ouvido de Ryan: faça por merecer.

Assistir à epopeia renova a fé na importância de passar pela vida e deixar uma semente. Não importa se esta semente é de tâmara, uma árvore que leva anos para que o fruto possa ser apreciado. Plante-a.

O soldado Ryan fez por merecer. Ao final do filme, no Cemitério Militar da Normandia, diante da sepultura do capitão Miller, o velho paraquedista se apresenta com o relatório de sua vida. “Capitão, eu creio que fiz por merecer, missão cumprida.”


A sociedade e suas lideranças precisam fazer por merecer. Precisam assumir suas tarefas e persegui-las até sua concretização. Precisam vencer o mal que subsiste nos ambientes conflagrados do século 21. Precisam fazer valer a verdade sobre a hipocrisia da mentira montada por tijolos da insensatez e sanha pelo poder.

No campo da realidade palpável, um exemplo desse mundo distópico foi-nos revelado ontem nos discursos proferidos por ocasião da abertura da Assembleia Geral das Nações Unidas.

Líder a líder, todos subiram ao palco e do púlpito discursaram tão somente para os seus. Quantos foram convencidos? Quantos pela retórica daqueles próceres – treinados para leitura em teleprompter de textos pautados na sugestão de seguidores – mudaram de opinião? Poucos, nenhum.

O discurso do secretário-geral da ONU, António Guterres, teve o dom de iluminar os desafios globais e propor estímulos aos países assentados naquele organismo.

Estímulos, pois ações exigem vontade de agir, que não é tempero fácil de ser agregado aos projetos de governos com interesses fricativos políticos e pessoais.

Meio ambiente, clima, fome, desigualdade social, migração, pandemia, vacina, guerras foram temas tratados por Guterres. Em cada um deles, há pontos de vista distintos a se observar.

A agenda mundial carece de uma discussão ampla e desarmada na tentativa de colimar os interesses nacionais aos interesses nacionais dos outros.

É ingênuo acreditar na possibilidade de entendimento quando algumas lideranças de países importantes não o veem como solução.

A confrontação Globalismo versus Nacionalismo emergiu em força. Quiçá, como cortina de fumaça para toldar as frustrações pós-guerra fria, fim da história e, recentemente, a reacomodação da balança geopolítica do poder mundial.

Os atuais “príncipes” precisam incorporar o figurino da boa liderança, apresentando suas soluções aos desafios vigentes. Não se espera atitudes arrogantes e amadoras como remédio a problemas profissionais.

É mandatório, entretanto, que a comunicação dessa liderança se faça de forma genuína, sobre o suporte da verdade, não da desinformação. Ao escutar a fala do chefe de governo brasileiro, pairaram dúvidas sobre a intenção e oportunidade do discurso. Não reflete a realidade, é o que se comenta em vários fóruns da sociedade.

Pareceu a confirmação de que a tribuna da ONU foi mero ambiente para enviar recados para o quintal da casa em algaravia permanente. Sejamos justos, ele não foi uma exceção. Outros a usaram de igual forma.

O mundo já se apercebeu desencaixado do espírito proposto pela carta das Nações Unidas. Aqueles valores ficaram ao costado nos velhos caminhos. Que fazer? Aceitar a perda da liberdade entre indivíduos, a nome de resultados duvidosos?

É hora de meditar. Validar narrativas. Amorfo emocionalmente, o sujeito não se inquire sobre o que ocorre à sua volta. Incorporado à massa, cria uma sensação de ser isento de responsabilidade. Bloqueia o seu grilo falante – a voz da consciência – e faz o que todo mundo faz.

É preciso fazer mais. Muito mais. “Ler e agir” para suplantar o mal, como assevera a professora Heloisa Starling na conclusão da biografia de Hanna Arendt, escrita por Ann Heberlein.

Se o que se busca é paz e harmonia para a colheita de boas tâmaras pela sociedade, os beneficiados, todos nós, precisam fazer por merecer. Regar, arrancar ervas daninhas e podar até que flores e frutos se fortaleçam sozinhos.

Caráter e liderança

Montesquieu dizia que “a indiferença pelo bem comum é a causa da ruína das repúblicas”. Ruína que começa com a indiferença do presidente da República em honrar suas promessas ao povo brasileiro. Prometeu abrir a economia, privatizar estatais e aprovar reformas liberais para desidratar o Estado intervencionista que estrangula os brasileiros que trabalham e produzem riqueza, mas se rendeu à agenda do corporativismo que destrói a produtividade e a competitividade do Brasil e ainda criou mais estatais, como a ENBPar, que recebeu um aporte de R$ 4 bilhões dos cofres públicos.

Prometeu combater a “velha política” e a corrupção, mas se aliou ao Centrão, sepultou a Lava Jato, e pululam escândalos de superfaturamento de vacinas e de seus familiares. Por fim, Bolsonaro prometeu honrar os valores cristãos, mas na hora da pandemia demonstrou falta de misericórdia e de compaixão com milhares de brasileiros que padeceram da covid. Menosprezou a importância da vacina e repudiou o uso de máscara. Ademais, o presidente mostra-se indiferente aos reais problemas que afetam a vida dos brasileiros, como a queda da renda e o aumento do desemprego e da inflação, que vem encarecendo o preço do gás de cozinha, da carne, do arroz e feijão.

Evidentemente, o presidente da República culpa os infortúnios do seu governo à pandemia, à imprensa “esquerdista” e às decisões do Supremo Tribunal Federal e do Congresso. Essa visão infantil de que o problema está sempre nos outros revela sua incapacidade de reconhecer as incompetências política e administrativa do seu governo.

A questão crucial é como atravessar o vale do desgoverno e das crises institucionais até a eleição de 2022. O Brasil tem hoje um caminho e dois desvios. O caminho é a construção de um plano de ação para defendermos a democracia e nos unirmos em torno de uma candidatura presidencial competitiva, capaz de vencer os dois desvios – Bolsonaro e Lula. O primeiro representa a maior ameaça à democracia desde o golpe militar de 1964; o segundo retrata a volta ao pesadelo do passado em que se semeou a desgraça do presente – o sectarismo político, a corrupção sistêmica que corroeu a credibilidade das instituições e a gênese do nefasto governo Dilma, que nos brindou com recessão econômica, 13 milhões de desempregados e a atuação irresponsável de um Estado intervencionista que debilitou a economia.

A união dos defensores da democracia tem de ser construída em torno de dois pilares. Primeiro, é vital restabelecer os canais de diálogo cívico e de articulação política entre as principais lideranças do País em torno da defesa da democracia. Trata-se de uma tarefa imperiosa para combater o radicalismo político e os rompantes autoritários nas redes sociais, na imprensa, no Parlamento e nas cortes. Essa missão requer verdadeiro espírito público para sobrepor as divisões políticas que fragmentaram famílias, partidos, instituições e a Nação. Demanda disposição de conversar com antigos adversários para construir o entendimento em torno de prioridades urgentes para derrotar Lula e Bolsonaro. Exige restabelecer laços de confiança que tecem o consenso social para transformar ideias em apoio popular e votos no Congresso e nas urnas. Foi justamente essa amálgama de objetivos claros, mobilização cívica e resolução política que permitiu o País superar três crises: a eleição de Tancredo Neves em 1985, a destituição do presidente Collor em 1992 e o impeachment de Dilma em 2016.

Segundo, é preciso racionalidade e objetividade para colocar as prioridades do Brasil acima das disputas políticas. O Centro de Liderança Pública (CLP), em parceira com várias instituições da sociedade civil, criou em setembro de 2020 o Unidos pelo Brasil, um movimento para pressionar o Congresso a votar uma agenda mínima de projetos que ajudem a impulsionar a retomada da economia e a modernização do Estado. Ao unir pessoas determinadas a trabalhar por uma agenda de país e capaz de mobilizar a sociedade civil e o Parlamento, o Unidos pelo Brasil exerceu um papel protagonista na aprovação de projetos, como o marco do saneamento básico, a autonomia do Banco Central, a nova Lei do Gás e o projeto que acaba com os supersalários da elite da administração pública. A iniciativa prova que, mesmo em momentos turbulentos da política, é possível avançar com a agenda modernizadora do País, unindo esforços da sociedade civil e das lideranças políticas em torno de objetivos comuns.

O Brasil precisa apaziguar os ânimos, focar sua atenção numa agenda de país e olhar para o futuro. Não há futuro promissor se continuarmos a insistir nas escolhas erradas do passado que pavimentaram o caminho do radicalismo político, da recessão econômica, do desemprego e da maior crise social no País. A construção do Brasil que queremos começa pelas escolhas que faremos em 2022. O futuro presidente precisa ter dois atributos para tirar o País do lamaçal do patrimonialismo, do corporativismo e do clientelismo: caráter e liderança.
Luiz Felipe D'Ávila, autor do livro "10 mandamentos – do Brasil que somos para o país de queremos"

Banana de dinamite

Durante a ditadura militar, havia um governo autoritário, cujo poder estava com as Forças Armadas e a administração a cargo de tecnocratas civis. Atualmente vivemos um período em que se mantiveram, pelo menos formalmente, as instituições da democracia-liberal, mas conjugada a um projeto de destruição
Jorge Ferreira

É preciso combinar com a lei

A lei, a regra, a norma ou o habitual estão fora de nós. Quando um desejo nascido no fígado ou no coração nos assalta, temos de combinar com os costumes. Sem um acordo entre interesses egocêntricos e leis sociocêntricas não há jogo.

O coletivo é governado por normas fora dele que, no entanto, são parte dele ou feitas para ele. Não é por acaso que mandamentos e leis foram entregues a deuses encarnados, patriarcas, visionários e profetas – a seres extramundanos, como dizia Max Weber – em montanhas mediadoras entre céu e terra, ou em situações dramáticas como tempestades, humilhações, extrema solidão e doenças mortais.

Por mais, entretanto, que as leis sejam sagradas, somos nós que as honramos com nossa lealdade ou desonestidade. Mesmo vindo do “outro mundo”, não há quem não saiba que as regras mudam e são mudadas.

Tudo isso para dizer algo simples, mas pouco discutido no Brasil. Nas monarquias e aristocracias, os soberanos e os nobres que são parte de sua corte ou família (pessoas especiais, “cortadas” ou removidas das gentes comuns) não precisam pensar no futuro, pois sua posição social é dada ao nascer.

Nobres são estruturalmente diferenciados (têm, reza a lenda, sangue azul) e imutáveis. O clero tem uma dinâmica singular porque ninguém nasce padre, bispo ou papa. Mas o “povo” (os membros do chamado “terceiro estado”) tem de construir o seu futuro e esse futuro, como o dos escravos, é preestabelecido. Uma pessoa comum morre como nasce.


A ideia democrática de mobilidade social vertical – de nascer pobre, mas morrer rico, de ser ninguém e virar alguém – é parte de uma intrusão individualista ou, como se diz, de um apadrinhamento, de sorte ou malandragem. Trata-se de uma mudança formidável que, obviamente, depende de transformações radicais de leis e costumes.

É preciso não esquecer que a igualdade perante a lei é algo complexo e difícil mesmo em sociedades que nasceram republicanas, como faz prova o caso americano. Leis justas enfrentam desejos, projetos, paixões e interesses que promovem injustiça por origem familiar, cor da pele, trabalho, gênero, idade e mais o que o leitor ou leitora quiser acrescentar.

Se republicanos natos têm problemas com suas inevitáveis esferas privilegiadas (os cargos governamentais, por exemplo) – os ultrarricos ou suas “classes dominantes” –, imagine o Brasil, que nasceu escravagista e dividido em vice-reinados aristocráticos, reforçados pela fuga da Corte portuguesa para o Rio de Janeiro, em 1808. E, algumas décadas depois, com a República, a separação do Estado e da Igreja Católica e a Abolição (bem como o jogo do bicho).

A questão que não se cala é a seguinte: como não continuar com privilégios aristocráticos na República, a menos que se combine com os barões, os altos funcionários e os comuns? Como não ter foros privilegiados e reversões jurídicas brutais se os ditos republicanos não enxergam os seus vieses aristocráticos?

Pergunto: o populismo que resolve tudo no discurso, mas agrava tudo na prática, não seria um modo de tentar combinar uma nobreza soberana com plebeus sujeitos da lei? Questiono: os foros privilegiados conferidos aos representantes do povo não seriam emblemas de delegação, de uma entrega política que embarga a representatividade democrática, conforme sugeria o cientista político Guillermo O’Donnell?

Meu saudoso mentor, Roberto Cardoso de Oliveira, dizia que não se passa de pato para ganso impunemente. Não pense o leitor que estou aqui propondo o absurdo de um retorno à monarquia. Não! Meu propósito é deslindar essas intrusões jurídicas nobres, parte e parcela de certos cargos, que recriam leis privadas ou especiais num campo jurídico igualitário. Infecções sociais que explicam o “Você sabe com quem está falando?”, esse rito pessoal que reafirma superioridades sociais e, obviamente, vira um “golpe” quando é articulado por um presidente.

Em suma, não se passa de monarquia escravocrata a República sem combinar com os golpistas, os coronéis, os barões, os autoritários reacionários dos dois lados, o machismo, os corruptos e os racistas estruturais. Os que querem levar vantagem em tudo...

PS: A desmontagem está quase no fim e, depois, virão outras montagens e mais desmontagens. Os jornalistas Merval Pereira e Carlos Alberto Sardenberg chamam atenção para esses absurdos e abusivos desmanches. Afinal, como diz um velho filme de Frank Capra, as causas perdidas são, paradoxalmente, as causas que valem uma luta. No caso brasileiro, a da igualdade democrática e, com ela, a da coerência legal. Cedo ou tarde o nosso lado republicano vai ter de combinar com o nosso poderoso viés aristocrático – esse mantenedor de privilégios.

Aqui ó, Brasil

 


Em discurso na ONU, Bolsonaro mostra que odeia o Brasil

Nenhuma surpresa de que o Jair Bolsonaro que deu as caras na Assembleia-Geral da ONU é aquele que conhecemos desde sempre: canalha e ególatra. Pelo terceiro ano consecutivo, o presidente fez o que faz cada vez melhor: mentiu.

Quem achou que seria diferente não entendeu nada sobre o seu caráter. Bolsonaro não é um sujeito moderado, jamais será. Seus raros recuos não significam mudança nenhuma em sua forma de fazer política e de nos representar. Tal qual a parábola do sapo e do escorpião, ele é capaz de morrer afogado, mas nada o fará trair suas convicções e transformar sua natureza autoritária.

O que ainda me surpreende é que o país continue mais um ano e três meses refém desse mitômano, que usou o palco da ONU apenas para reafirmar o que já sabemos: é um presidente que fala e governa apenas para uma pequena parte da população, aquela que acredita nesse Brasil utópico criado em sua cabeça.


Se existisse, esse país descrito na ONU seria quase um paraíso. Só não digo que gostaria de morar lá porque seria um paraíso habitado por zumbis idiotizados, que aplaudem o rosário de delírios desfiado por Jair. Um lugar sem corrupção, com florestas preservadas, economia bombando, onde família é mamãe, papai e filhinho e todos são mais espertos que o resto do mundo e tomam cloroquina.

Bolsonaro, em seu discurso, ignora não apenas a realidade como também os milhões de brasileiros que não se encaixam no conto de fadas que ele insiste em repetir sobre o país. Despreza a diversidade cultural, sexual, política e religiosa que sempre nos fez um caldeirão invejado pelo mundo, apesar dos pesares.

Não temos presidente. Bolsonaro odeia o Brasil. Não à toa, vem do ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, o gesto que melhor traduz o discurso mentiroso do presidente, em Nova York: um dedo do meio na cara de cada um dos brasileiros que ele não representa.

Bolsonaro acertou em cheio ao falar na ONU para seu rebanho

Se um povo faz por merecer o governo que tem, o do Brasil é um governo de cafajestes, velhacos, farsantes e medíocres. Uma escória reunida em torno de um ex-capitão expulso do Exército por ser mal militar a ponto de planejar atentados terroristas a quartéis.

Supor que ele seria capaz de comportar-se como um estadista ou discursar como se fosse um na abertura da 76ª Assembleia Geral da ONU, é o mesmo que, há dois anos, ter considerado difícil a escolha entre o charlatão e Fernando Haddad no segundo turno.

Equivale também a dizer, como tantos já dizem, que daqui a 12 meses, se nenhum outro candidato se impuser até lá, a Presidência da República estará ao alcance de dois conhecidos extremistas – Jair Messias Bolsonaro e Luiz Inácio Lula da Silva.


Há motivos bastantes para que 38% dos brasileiros digam hoje que não votarão em Lula de jeito nenhum, e 59% digam o mesmo de Bolsonaro, segundo a mais recente pesquisa Datafolha. Mas Lula nunca foi um extremista nem governou como extremista.

Os mais afortunados deste país sabem muito bem disso e beijaram sua mão em apelo para que voltasse a se candidatar em 2014 no lugar de Dilma. Lamentaram porque isso não aconteceu. Os defeitos de Lula comprovadamente são outros, não esse.

Extremista sempre foi Bolsonaro desde que descobriu a política como um meio de vida para sustentar-se, e à sua família, rachando com ela dinheiro público desviado por meio de brechas oferecidas pelas leis, ou simplesmente ignorando as leis.

Jamais passou pela cabeça dele eleger-se presidente. Candidatou-se por estar cansado de sua insignificância como deputado. Seu propósito era garantir a reeleição dos seus três filhos zero, dedicando-se depois a desfrutar de uma gorda aposentadoria.

Somos uma vergonha

Na verdade, o Brasil inteiro é uma vergonha. Apesar de todos os crimes do sociopata, que acarretaram 600 mil mortes, falhamos miseravelmente como país, porque fomos incapazes de afastá-lo do cargo e trancá-lo na cadeia. A culpa é coletiva

O meu, o seu, o nosso dinheiro

Em abril de 2009, uma série de reportagens do site "Congresso em Foco" abalou o Congresso Nacional ao revelar que parlamentares faziam turismo com dinheiro público. A verba era de uma generosa cota para compra de passagens aéreas relacionadas às atividades do mandato.


Na prática, porém, cada congressista gastava o dinheiro a seu bel-prazer e sem dar satisfações a ninguém. Deputados e senadores ainda levavam a tiracolo parentes, amigos e cupinchas para destinos turísticos no Brasil e no exterior, como Nova York, Miami, Londres, Paris, Milão, Madri. Uma farra!

Doze anos depois, os repórteres Eduardo Militão, Eumano Silva, Edson Sardinha e Lúcio Lambranho revisitam o escândalo e trazem mais novidades no livro "Nas Asas da Mamata", recém-publicado. Eles descobriram agora, por exemplo, que o contribuinte bancou as passagens de Jair e Michelle Bolsonaro para a lua de mel em Foz do Iguaçu, em 2007.

A gastança era possível graças a regras extremamente permissivas adotadas por Michel Temer e Aécio Neves, quando exerceram a presidência da Câmara. No Senado, com José Sarney no comando, não era diferente. A falta de controle era de tal ordem que a cota aérea de dois senadores foi gasta depois da morte deles. Ao todo, 560 parlamentares foram investigados, e os gastos, em valores de hoje, seriam de R$ 105 milhões.

Para não esvaziar a surpresa da leitura, acrescento apenas que os autores reconstituíram as investigações oficiais para traçar a teia de impunidade que resultou em mais um crime sem castigo. O que fizeram Corregedoria, Conselho de Ética, Câmara, Senado, polícia, Ministério Público, Judiciário? Está tudo no livro, com nomes, datas, decisões.

Esse belo trabalho jornalístico põe em evidência um dos aspectos mais nefastos da mentalidade e da prática política no Brasil: o de que autoridades em geral não querem entender que têm a obrigação de prestar contas de cada centavo gasto do meu, do seu, do dinheiro suado dos nossos impostos.

Não é só culpa de Bolsonaro que o mundo zombe do Brasil

Além de triste, é injusto que o Brasil tenha passado de objeto de desejo fora de suas fronteiras a motivo de chacota, com todas as consequências que isso acarreta, como a grave crise econômica e moral que vive o país.


As patéticas imagens que chegam de Nova York, que mostram o presidente Jair Bolsonaro — na cidade para a Assembleia Geral da ONU — comendo um pedaço de pizza na rua, impossibilitado de entrar em um restaurante por não ter se vacinado, e também sua entrada no hotel pelas portas dos fundos por medo de encontrar jornalistas, já percorreram o mundo e são uma vergonha para o país.

Pouco importa o que Bolsonaro vai dizer em seu discurso inaugural na ONU. Essas imagens já disseram tudo e se relacionam mais a uma “República das Bananas” do que ao quinto maior país do planeta e coração econômico da América Latina.



Seria o caso de se perguntar: até quando as demais instituições do país continuarão a permitir que o Brasil continue sendo alvo de chacotas e ironias por manter no poder um presidente que é alvo de mais de 100 pedidos de impeachment no Congresso? As desculpas políticas para não abrir um processo contra o presidente, além de perigosas, são ridículas.

O fato de que as razões da baixa política prevaleçam para continuar a manter no poder um presidente rejeitado pela grande maioria da população — essa que apoia a abertura do impeachment— empobrece as demais instituições e os partidos.

A passividade das forças políticas diante das investidas do Governo contra a democracia e a palpável incapacidade do capitão de governar um país da envergadura do Brasil podem, um dia, cair nas costas de outros. Outros que, podendo fazer isso, não tiraram do poder um personagem mundialmente reconhecido não apenas como genocida, mas, também, como alguém que está destruindo as riquezas ambientais que afetam todo o planeta, e envenenando a coexistência de milhões de pessoas cada vez mais empobrecidas que buscam ossos de animais nos mercados — já que a carne ficou só para as classes abastadas. É uma vergonha e uma humilhação para um país que, além de tudo, exporta alimentos para meio mundo.

Hoje, o Brasil tem políticos preparados e capazes de presidir o país não só com competência, mas também com dignidade. Arrastar o país sem governo e sem prestígio internacional por mais um ano por causa das pequenas ou grandes intrigas da baixa política poderá contribuir para piorar ainda mais a grave crise econômica e para multiplicar no exterior a falta de credibilidade do Brasil.

Não podemos esquecer que a força do presidente da República no Brasil é muito expressiva e concentra muito poder, para o bem e para o mal. Portanto, a permanência no poder de alguém desacreditado dentro e fora de suas fronteiras e que está comprometendo o seu futuro implica responsabilidade das demais instituições.

A experiência nos lembra que, embora seja difícil construir um país com bases democráticas e econômicas sólidas, é muito fácil reduzi-lo a escombros pela incompetência ou arrogância de quem o governa. Que o Brasil se deteriora a cada dia que passa enquanto cresce a crise que o aflige e que poderia comprometer ainda mais seu futuro já não é mais um segredo. É uma evidência global.

Que quem tem o poder continua a fechar os olhos à deterioração do país e a tapar os ouvidos ao clamor da maioria, que segundo todas as pesquisas pede uma mudança de poder, poderia acabar sendo trágico para os pobres e os ricos, já que todos acabam perdendo com um presidente e um governo que claramente se mostram incapazes de tirar o país do inferno.

Agora, pouco importa o que o presidente brasileiro possa dizer na ONU, onde já é objeto de descrédito e de medo, visto como alguém que possa arrastar o nazifascismo à terceira maior democracia do mundo.

O simbolismo negativo do presidente e sua comitiva oficial comendo pizza na rua de NY e entrando no hotel pelos fundos, como um fugitivo, para escapar das perguntas dos jornalistas, anulam as palavras de seu discurso, que já perderam toda a força e o respeito.