quinta-feira, 7 de janeiro de 2021

O grande recomeço

Se 2020 foi o ano da destruição de vidas e de empregos pela pandemia, 2021 pode ser o ano do grande recomeço da humanidade. A última vez que vivemos momento semelhante foi após a Segunda Guerra Mundial, quando o mundo teve de ser reconstruído e foi gerada uma nova ordem civilizatória, com o fortalecimento do multilateralismo e o avanço da democracia. Naquele momento da História economias tiveram de ser reconstruídas e em novas bases, propiciando, assim, um desenvolvimento da ciência e da produção de riquezas em escala nunca vista.


A rigor, os desafios do pós pandemia tem muito a ver com os daquela época. O coronavírus provocou uma queda do PIB mundial de 3%, desorganizou economias poderosas como a dos Estados Unidos e da União Europeia, jogou milhões e milhões de pessoas no desemprego – só nos EUA um em cada quatro trabalhadores tiveram de recorrer ao seguro desemprego. Segundo a ONU, 235 milhões de pessoas necessitarão de ajuda humanitária em 2021. Não basta apenas recomeçar. É preciso recomeçar em novas bases, por meio de um modelo baseado na cooperação para gerar um mundo justo e sustentável, social e ambientalmente.

Não por coincidência o tema da edição de 2021 do Fórum Econômico Mundial – a ser realizada no verão europeu – terá como tema ”The Great Reset” (O Grande Recomeço). Davos preconiza que o capitalismo seja reinicializado, com uma profunda transformação em todos os setores, “desde petróleo e gás, até tecnologia”. Com a pandemia ainda longe de terminar, seus impactos se dão em todas as áreas, na saúde, na educação, na dívida pública, no bem estar das pessoas.

O mundo está diante de dois caminhos. O primeiro adotado por alguns países (e lamentavelmente o Brasil faz parte desse time) de usar a Covid-19 como pretexto para “passar a boiada” e enfraquecer conquistas importantes, como as ambientais. Nesse modelo, estabelece-se a lei da selva, por meio de um darwinismo social, que levará ao aumento da desigualdade entre países e regiões e entre pobres e ricos.

Basta citar que até nos Estados Unidos a desigualdade aumentou com a pandemia. A face mais perversa do avanço da desigualdade será entre povos e países com acesso à vacina contra o coronavirus e os sem acesso.

A outra alternativa é enxergar nos desafios colocados uma oportunidade para criar uma sociedade sustentável e socialmente mais justa, por meio da oferta de serviços públicos de qualidade, particularmente nas áreas de saúde, educação e segurança.

Como na Depressão dos anos 30 e na reconstrução pós Segunda Guerra, o Estado deve ter papel ativo na retomada das atividades econômicas e na oferta de serviços públicos. A União Europeia já criou um fundo de 750 bilhões de euros para investir na recuperação da economia dos países do bloco. Joe Biden anunciou que irá pelo mesmo caminho, injetando recursos públicos na economia americana. Japão e China também vão na mesma direção.

O mundo ingressa em 2021 com esperanças renovadas. Com a posse de Biden, os Estados Unidos deixaram de lado o isolacionismo, a polarização e o negacionismo e marcham para assumir o seu papel na cabeceira da mesa, de liderar o mundo pela força de seu exemplo. Foi assim no pós guerra, com o Plano Marshall. O retorno ao Acordo Climático de Paris, a retomada do acordo nuclear com o Irã e das relações com Cuba nos colocarão diante de um mundo mais cooperativo, com o fortalecimento do multilateralismo.

No apagar das luzes de 2020, a humanidade alcançou feito extraordinário. A fabulosa mobilização da ciência em uma escala jamais imaginada levou à resposta mais eficiente à pandemia, com a descoberta de várias vacinas eficazes. O desafio agora é a vacinação em massa, já iniciada na Inglaterra e nos Estados Unidos, de forma que se estenda a todos os povos e classes. Só assim se evitará o aumento da desigualdade.

Iniciamos 2021 em condições de estabelecer um “Novo Acordo”, como preconiza o Fórum Econômico Mundial. A escolha do termo por Davos não foi por acaso. Ele remete ao “New Deal” de Franklin Delano Roosevelt, quando os Estados Unidos superou a depressão dos anos 30 e se transformou na maior liderança mundial.

Qual será o papel do Brasil no “Novo Acordo” e qual será seu assento na mesa?

As expectativas são desanimadoras. O negacionismo, o isolacionismo, o rotundo fracasso da estratégia de Bolsonaro no enfrentamento da pandemia, a antipolítica ambiental, os atritos com a China, a União Europeia e com os Estados Unidos, nos condenarão a sequer ter lugar à mesa do concerto das nações. Tudo isso, ao lado da crise econômica, fará do Brasil uma nação em declínio, que perde relevância inclusive na América Latina, região da qual já foi líder.

Não é possível ter ilusões quanto a um governo cujo ministro do Exterior vê o Grande Recomeço como uma imensa conspiração do globalismo. Vejam a pérola de Ernesto Araújo, publicada em redes sociais:


“A pandemia não pode ser pretexto para o controle social totalitário violando, inclusive, os princípios das Nações Unidas. As liberdades fundamentais não podem ser vítimas da Covid. Liberdade não é ideologia. Nada de Great Reset”.

Sem comentários.
Hubert Alquéres

IDH: A culpa é nossa

O atual Presidente da República é o menos dotado de inteligência, capacidade gerencial, empatia social, espírito de tolerância e gosto pelo diálogo entre todos os que foram eleitos ao longo dos 130 anos de República; isto não justifica jogar sobre ele a responsabilidade pela queda da classificação do Brasil na escala do IDH. Ignorar a responsabilidade dos governos anteriores é uma forma de negacionismo, mentira que impede conhecer a realidade e aprender com os erros.

O IDH de cada país foi definido por dados de 2019, mas resultantes de anos e até décadas de descasos anteriores. A culpa, portanto, é dos governos precedentes ao longo de toda a República, especialmente nos 33 anos da nova democracia, dos quais 26 por governos progressistas, 13 dos quais de esquerda. A piora na renda per capita entre o IDH anterior e o atual não ocorreu por causa de 2019, mas devido a recessão iniciada em 2014. Os efeitos do período Bolsonaro serão vistos no futuro, e tudo indica que teremos quedas ainda maiores. Mas esta queda foi culpa nossa, não dele. Até porque nosso IDH melhorou ligeiramente, outros cinco países melhoraram mais e nos superaram.



Nisto está nossa falta: melhoramos ficando para trás, sobretudo em educação. Depois de quase 50 anos de medidas paliativas, avançamos piorando ao ampliar três brechas: avançamos, mas os outros países avançaram mais; a educação dos pobres melhorou, mas a dos ricos mais; estudamos mais, entretanto, o que ensinamos aumentou menos do que o que o mundo moderno exige.

Tudo indica que os países vizinhos, inclusive mais pobres, erradicarão o analfabetismo de adultos antes do Brasil. Os que se preocupam com a educação investem em escolas privadas para resolver o problema de seus filhos, não do país. Não têm educação de qualidade como propósito nacional, apenas para seus filhos, ignoram a educação de todos que é utilizada para calcular o IDH. Não vemos a necessidade de executarmos uma estratégia nacional consistente a longo prazo, para termos educação de qualidade para todos, sem o que o IDH não sobe em relação aos outros países.

A resistência à essa estratégia decorre, em primeiro lugar, de que não e gostarmos de longo prazo, preferimos as ilusões dos pequenos passos – Fundef, Fundeb I e II, Piso Salarial do Professor, Merenda, Livro Didático, PNE-I e II, IDEB, ENEM. Tudo certo e tudo insuficiente. Em segundo lugar, porque educação com a máxima qualidade pelos padrões internacionais não é um sonho brasileiro, ainda menos a crença de que a escola deve ter a mesma qualidade independente da renda e do endereço da família. Preferimos nos comparar pelo padrão FIFA do que pelo padrão PISA ou IDH. Nestas condições, dificilmente vamos ter uma estratégia de longo prazo para o governo federal adotar a educação de base nas cidades pobres. o apego municipalista prefere sacrificar as crianças das cidades pobres a entregar as escolas municipais ao governo federal.

Por isto, daqui a dois anos teremos novas surpresas tristes com o PISA e com o IDH e jogaremos a culpa no governo do momento, esquecendo os erros de todos nós no passado e relegando a tragédia no futuro.

Por que chegamos a Jair Bolsonaro?

Temos que tentar pensar por nós mesmos e nos perguntar numa atitude filosofante, vale dizer, que busca causas mais profundas que aquelas meramente analíticas das ciências: "Por que o Brasil chegou a este sinistro personagem histórico que contradiz qualquer racionalidade ética e política?”





Há um sem número de excelentes análises do anti-fenômeno Jair Messias Bolsonaro, predominando as de ordem sociológica, histórica e econômica. Creio que devemos cavar mais a fundo para captar a irrupção deste Negativo em nossa história.

A reflexão ocidental, devido aos limites culturais de nosso arraigado individualismo, quase não desenvolveu categorias analíticas para analisar totalidades históricas. A de Hegel, em sua Filosofia da História, vem eivada de preconceitos, inclusive sobre o Brasil, e dispõe de poucas categorias aproveitáveis. Arnold Toynbee, em seus 10 volumes sobre a história mundial, trabalha com um esquema fecundo mas limitado: desafio e resposta (challenge and response) com o inconveniente de não conferir relevância aos conflitos de todo tipo, inerentes à história. A Escola francesa dos Annales, em suas variações (Lefebvre, Braudel, Le Goff) incluiu várias ciências mas não nos ofereceu uma leitura da história como totalidade. Não deixam de ser inspiradoras as categorias desenvolvidas por Ortega y Gasset no seu famoso estudo sobre Esquemas das crises y otros ensaios.

Temos que tentar pensar por nós mesmos e nos perguntar numa atitude filosofante, vale dizer, que busca causas mais profundas que aquelas meramente analíticas das ciências: por que o Brasil chegou a este sinistro personagem histórico que contradiz qualquer racionalidade ética e política?

De antemão devemos dizer que todo existente não é fortuito, pois é fruto de um preexistente, de larga duração, que cabe à razão desentranhar. Ademais há que pensá-lo sempre dialeticamente: junto ao negativo e sombrio acompanham sempre como acólitos as dimensões positivas e portadoras de alguma luz. Não nos é concedido ter apenas luz ou trevas. Todas as realidades são crepusculares, mesclando luz e sombras. Mas o nosso foco nesta reflexão se concentra nas sombras.

Vou lançar mão de algumas categorias: a das sombras recalcadas, a teoria do caos destrutivo e generativo, a compreensão ampliada do karma no diálogo entre Toynbee e do filósofo japonês Daisaku Ikeda e os princípios do thánatos e do eros, associados à condition humaine de seres sapiens e simultaneamente demens.

A consciência brasileira é dominada por quatro sombras que nunca até o presente foram reconhecidas e integradas. Entendo a categoria “sombra” no sentido psicanalítico da escola de C.G. Jung e discípulos, tornada categoria amplamente aceita pelas demais escolas. Sombra seriam os conteúdos nefastos que uma cultura com seu consciente/inconsciente coletivo se recusa a assimilar e assim os recalca e se esforça por afastá-los da consciência coletiva. Tal repressão impede um processo de individuação nacional coerente e sustentado.

A primeira comparece à sombra do genocídio indígena. Segundo Darcy Ribeiro haveria uma população de cerca 5-6 milhões de indígenas de centenas de línguas, fato único na história mundial. Eles foram praticamente dizimados. Restaram os 900 mil atuais. Lembremos o massacre de Mem de Sá em 31 de maio de 1580, que liquidou com os Tupiniquim da Capitania de Ilhéus. Por um quilômetro e meio ao longo da praia numa distância de alguns metros uns de outros, jaziam centenas de corpos de indígenas assassinados, relatados como glória ao rei de Portugal.

Pior ainda foi a guerra declarada oficialmente por D. João VI em 13 de maio de 1808, que dizimou os Botocudos (Krenak) no vale do Rio Doce, por acharem que eram incivilizáveis e incatequisáveis. Essa guerra oficial manchará para sempre a memória nacional. Ailton Krenak, cujos antepassados sobreviveram, nos lembra essa vergonhosa guerra oficial de um imperador impiedoso, tido por bom.

O atual governo, de uma ignorância supina em antropologia, considera os povos indígenas originários como sub-humanos que devem ser forçados a entrar nos nossos códigos culturais para serem humanos e civilizados. O descuido que mostrou por suas terras invadidas e pelo abandono face à Covid-19 beira um genocídio, passível de ser levado ao Tribunal Internacional Penal por crimes contra a humanidade.

A segunda sombra é nosso passado colonial. Não ocorreu uma descoberta do Brasil mas uma pura e simples invasão, destruindo o Idílio inicial pacífico descrito por Pero Vaz de Caminha. Deu-se um encontrão profundamente desigual de civilizações. Logo se iniciou o processo de ocupação e violência em função das riquezas aqui existentes. Todo processo colonialista é violento. Implica invadir terras, submeter os povos, obrigá-los a falar a língua do invasor, incorporar suas formas de organização social e a completa submissão desumanizadora dos dominados. Desse processo de submetimento surgiu o complexo do vira-lata, achar que é bom só o que vem de fora ou de cima, de abaixar sempre a cabeça e abandonar qualquer veleidade de autonomia e de projeto próprio.

A mentalidade de boa parte dos estratos dirigentes se consideram ainda de certa forma coloniais, por mimetizarem os estilos de vida e assumirem os valores de seus patrões que foram variando ao longo de nossa história. Hoje se constituiu uma expressão humilhante para toda a nação, o fato do atual chefe de Estado fazer uma viagem especial aos USA, saudar a bandeira norte-americana e prestar um rito explícito de vassalagem ao presidente Donald Trump, extravagante, egocentrado e tido por notáveis analistas estadunidenses como o mais estúpido da história política.

A terceira sombra, a mais perversa de todas, foi a da escravidão. O jornalista e historiador Laurentino Gomes em seus dois volumes sobre A Escravidão (2019/2020) nos narra o inferno desse processo de inumanidade. O Brasil foi campeão do escravagismo. Só ele importou, a partir de 1538, cerca de 4,9 milhões de africanos que foram escravizados aqui. Das 36 mil viagens transatlânticas, 14.910 destinavam-se aos portos brasileiros.

Estas pessoas escravizadas eram tratadas como mercadorias, chamadas “peças”. A primeira coisa que o comprador fazia para “trazê-las bem domesticadas e disciplinadas” era castigá-las, “haja açoites, haja correntes e grilhões”. A história da escravidão foi escrita pela mão branca, apresentando-a como branda, quando, na verdade, foi crudelíssima e vem prolongada hoje contra a população negra, mulata (54,4% da população) e pobre, como o tem mostrado irrefutavelmente Jessé Souza em A Elite do Atraso: da escravidão a Bolsonaro (2020). Feita a abolição em 1888 não se lhes fez aos escravos nenhuma compensação, foram largados ao deus-dará e compõem hoje a maioria das favelas. Nunca se lhes reconheceu a mínima humanidade. A classe dominante, transferindo o ódio aos escravos, se acostumou a humilhá-los, a ofendê-los até perderem o senso de sua dignidade.

Essa sombra pesa enormemente na consciência coletiva e é a mais recalcada, na afirmação mentirosa de que aqui não há racismo nem discriminação. No atual governo isso foi desmascarado pela violência sistemática contra esta população estimulada pelo próprio chefe de Estado que tem conduzido uma política necrófila. Esta sombra por sua desumanidade evocou pessoas sensíveis como o poeta Castro Alves. Ressoarão para sempre seus versos em Vozes d’África:

“Ó Deus, onde estás que não respondes? Em que mundo, em qu’estrela tu t’escondes/ Embuçado nos céus? Há dois mil anos te mandei meu grito/ Que embalde, desde então, corre o infinito… /Onde estás, Senhor Deus”

Esse grito continua hoje tão lancinante como outrora.

Jessé Souza, em sua obra já referida, mostrou de forma convincente como a classe dominante, para impedir qualquer avanço das maiorias marginalizadas, projetou sobre elas toda a carga de negatividades que acumulou face aos escravos a essa “massa damnata” com requintes de exclusão, discriminação e verdadeiro ódio que nos espanta e nos revela níveis inacreditáveis de desumanização.

A quarta sombra é a constituição de um Brasil só para poucos. Raymundo Faoro (Os donos do poder) e o historiador e acadêmico José Honório Rodrigues (Conciliação e reforma no Brasil, 1982) nos têm narrado a violência com que o povo foi tratado para estabelecer uma ordem, fruto da conciliação entre as classes opulentas sempre com a exclusão intencionada do povo.

Escreve José Honório Rodrigues: “A maioria dominante foi sempre alienada, antiprogressista, antinacional e não contemporânea. A liderança nunca se reconciliou com o povo; negou-lhe seus direitos, arrasou sua vida e tão logo a viu crescer ela lhe negou pouco a pouco sua aprovação, conspirou para colocá-la de novo na periferia, no lugar que julga que lhe pertence” (Conciliação e reforma no Brasil, 1982, p.16). Não foi o que exatamente a maioria dominante e seus aliados fizeram com Dilma Rousseff primeiro e depois com Lula? Mudam as estratégias mas nunca seus propósitos de um Brasil só para eles.

Nunca houve um projeto nacional que incluísse a todos. Projetou-se um Brasil para poucos. Os outros que se lasquem. Assim surgiu não uma nação, mas como mostrou detalhadamente Luiz Gonzaga de Souza Lima, num livro que seguramente será um clássico, A Refundação do Brasil: rumo a uma civilização biocentrada (2011), foi fundada a Grande Empresa Brasil, desde os inícios internacionalizada em função de atender aos mercados mundiais ontem e até os tempos atuais. Assim temos um Brasil profundamente cindido entre poucos ricos e as grandes maiorias pobres, um dos países mais desiguais do mundo, o que significa um país violento e cheio de injustiças sociais. Machado de Assis já havia observado que há dois Brasis, o oficial (este de poucos) e o real (das grandes maiorias excluídas).

Uma sociedade montada numa bifurcação, sobre uma injustiça social perversa nunca criará uma coesão interna que lhe permitirá um salto rumo a formas mais civilizadas de convivência. Aqui imperou sempre um capitalismo selvagem que nunca conseguiu ser civilizado. E quando os filhos e filhas da pobreza conseguiram acumular uma força de base suficiente para chegarem ao poder central e atenderem demandas básicas das populações humilhadas e ofendidas, logo os descendentes da Casa Grande e a nova burguesia nacional se organizaram para impossibilitar este tipo de governo de inclusão social. Deram-lhe um golpe vergonhoso, parlamentar, mediático e jurídico para desta forma garantirem os níveis de acumulação considerados dos mais altos do mundo e manterem os pobres no lugar que lhes cabe, na periferia e na marginalizada de pobre e miserável.

O escritor Luis Fernando Verissimo num twitter de 6 de setembro de 2020 bem resumiu: “O ódio está no DNA da classe dominante brasileira, que historicamente derruba, pelas armas se for preciso, toda ameaça ao seu domínio, seja qual for sua sigla”. É esta classe de abastados que nem elite é, porque esta supõe certo cultivo de humanidade e de cultura, que sustenta o atual governo ultradireitista e fascistoide por não lhes ameaçar a forma abusiva de acumulação; antes, através de seu ministro da Fazenda, discípulo da escola de Viena e Chicago, comparece como o grande demolidor da soberania nacional. O presidente nada sabe e entende o que seja soberania nacional.
O caos destrutivo e generativo

Outra categoria que nos poderá fazer entender melhor nossa atual situação sombria é aquela do caos em sua dupla função destrutiva e construtiva.

Tudo começou com a observação de fenômenos aleatórios como a formação das nuvens e particularmente o que se veio chamar de efeito borboleta (pequenas modificações iniciais, como farfalhar das asas de uma borboleta no Brasil que pode, no fim, provocar uma tempestade em Nova York porque tudo está relacionado com tudo em todos os momentos e circunstâncias, constituindo uma constante cosmológica). Além disso faz-se a constatação da crescente complexidade que está na raiz da emergência de formas de vida cada vez mais altas (cf.J. Gleick Caos: criação de uma nova ciência, 1989). O universo se originou de um tremendo caos inicial, o big bang. A evolução se fez e se faz para colocar ordem neste caos.

O sentido originário é o seguinte: o caos possui uma dimensão destrutiva: põe fim a um certo tipo de ordem que chegou ao seu clímax. Mas por detrás do caos destrutivo se escondem dimensões construtivas de uma nova ordem. E vice-versa, por detrás da ordem se escondem dimensões de caos de tal forma que a realidade é dinâmica e flutuante sempre em busca de um equilíbrio. Ilya Progrine (1917-2003), prêmio Nobel de Química em 1977, estudou particularmente as condições que permitem a emergência da vida. Segundo este grande cientista, sempre que existir um sistema aberto, sempre que houver uma situação de caos (longe do equilíbrio) e vigorar uma não-linearidade dos fatores é a conectividade entre as partes que gera uma nova ordem (cf. Order out of Chaos, 1984). Foi neste contexto que irrompeu a vida como um imperativo cósmico.

Inegavelmente vivemos no Brasil uma situação de completo caos. No contexto do Covid-19 que está dizimando quase 200 mil vidas, temos um presidente totalmente omisso e sem qualquer preocupação com o destino cruel de seu povo, um negacionista com uma estupidez e arrogância, própria de pessoas autoritárias com sinais de insanidade mental.

As autoridades que têm poder como o Congresso Nacional, o MPF, o STF e outras revelam-se omissas, assistindo inertes e irresponsáveis o genocídio que está ocorrendo. Creio que a história será implacável para com as omissões destas autoridades que nada fizeram face a tanto descaso do destino de milhões de famílias que choram seus mortos. O atual presidente cometeu tantos casos de grave irresponsabilidade que mereceria jurídica e eticamente um impeachment ou uma pura simples destituição por um acerto de lideranças apoiadas por multidões nas ruas.

Consola-nos o fato de que há oculto dentro desse caos humanitário uma ordem mais alta e melhor. Quem vai desentranhá-la e fazer superar o caos?

Precisamos constituir uma frente ampla de forças progressistas e opostas às privatizações e da neocolonização do país para desentranhar a nova ordem, abscôndita no caos atual mas que quer nascer. Temos que fazer esse parto mesmo que doloroso. Caso contrário, continuaremos reféns e vítimas daqueles que sempre pensaram corporativamente só em si, de costas e, como agora, contra o povo.

Por fim valho-me de uma categoria, oriunda do Oriente, que relida à luz das novas ciências da Terra e da vida nos podem trazer elementos esclarecedores. Trata-se da categoria do Karma, objeto de um longo diálogo de três dias entre o historiador Arnold Toynbee e o filósofo japonês Daisaku Ikeda (cf. Elige la vida, Emecé, B. Aires, 2005).

O karma é um termo sânscrito originalmente significando força e movimento, concentrado na palavra “ação” que provoca sua correspondente “re-ação”. Este aspecto coletivo parece importante, porque, como já assinalei acima, não dispomos no ocidente de categorias conceptuais que deem conta de um sentido de devir histórico, de toda uma comunidade e de suas instituições nas suas dimensões positivas e negativas.

Cada pessoa é marcada pelas ações que praticou em vida. Essa ação não se restringe à pessoa mas conota todo o seu ambiente. Trata-se de uma espécie de conta-corrente ética cujo saldo está em constante mutação consoante as ações boas ou más feitas, vale dizer, os “débitos e os créditos”. Mesmo depois da morte, a pessoa, na crença budista, carrega esta conta por mais renascimentos que possa ter, até zerar a conta negativa.

O grande historiador e pensador Toynbee dá-lhe outra versão, nos quadros do paradigma ocidental, que me parece esclarecedora e nos ajuda a entender um pouco também a nossa história. A história é feita de redes relacionais dentro das quais está inserida cada pessoa, ligada com as que a precederam e com as presentes. Há um funcionamento kármico na história de um povo e de suas instituições consoante os níveis de bondade e justiça ou de maldade e injustiça que produziram ao largo do tempo.

Este seria uma espécie de campo mórfico que permaneceria impregnando tudo. Não se requer a hipótese dos muitos renascimentos, como na tradição oriental pressupõe, porque a rede de vínculos garante a continuidade do destino de um povo (p.384). As realidades kármicas impregnam as instituições, as paisagens, configuram as pessoas e deixam seus sinais na cultura de um povo. Esta força kármica atua nos processos sócio-históricos, marcando os fatos benéficos ou maléficos. C.G. Jung em sua psicologia arquetípica notara, de alguma forma, tal fato.

Apliquemos esta lei kármica à nossa situação sob a regência nefasta de Bolsonaro. Não será difícil reconhecer que somos portadores de um pesadíssimo karma, em grande escala, derivado do genocídio indígena, da superexploração da força do trabalho escravo, pela colonização predatória, das injustiças perpetradas contra grande parte da população, negra, mestiça e pobre pela burguesia endinheirada e insensível, jogada na periferia, com famílias destruídas e corroídas pela fome e pelas doenças.

Tanto Toynbee quanto Ikeda concordam nisso: “a sociedade moderna (nós incluídos) só pode ser curada de sua carga kármica, através de uma revolução espiritual no coração e na mente (p.159), na linha da justiça compensatória e de políticas sanadoras com instituições justas como vem apregoando insistentemente o Papa Francisco em suas encíclicas sociais e ecológicas, Laudato Si e Fratelli tutti. Sem esta justiça mínima a carga kármica não se desfará.

Mas ela sozinha não é suficiente. Faz-se mister o amor, a solidariedade, a compaixão e uma compaixão universal, especialmente para com as vítimas. É a proposta central e paradigmática da Fratelli tutti. O amor será o motor mais eficaz porque ele, no fundo, “é a última realidade” (p.387). Uma sociedade incapaz de efetivamente amar e de ser menos malvada, jamais desconstruirá uma história tão marcada pelo karma negativo e desumano, realizado, estranhamente, dentro de uma cultura cunhada pelo cristianismo, diuturnamente traído. Eis o desafio que a atual crise sistêmica nos suscita.

Não apregoaram outra coisa os mestres da humanidade, como Jesus, Buda, Isaías, São Francisco, Dalai Lama, Gandhi, Luther King Jr e o Papa Francisco? Só o karma do bem redime a realidade da força kármica do mal. E se o Brasil não fizer essa reversão kármica permanecerá de crise em crise, destruindo seu próprio futuro como o está fazendo, entre mentiras, fake news, ironia e zombaria, o necrófilo e insano presidente deste país.

Estas são expressões bem conhecidas no Ocidente e não se necessita de maiores explanações. Vale lembrar que se trata de princípios e não simplesmente de dimensões acidentais. Princípio é aquilo que faz ser todos os seres ou sem o qual os seres não irrompem na realidade. Assim foi desenvolvido por Sigmund Freud o princípio do thánatos que acompanha o eros que convive em cada ser humano. O thánatos emerge como aquela pulsão que leva à violência, à destruição e, no termo, à morte. Temos a ver com o Negativo na condição humana ao lado do Positivo e do Luminoso que, assim o cremos, irão finalmente triunfar.

É conhecida a troca de cartas entre Freud e Einstein sobre a possibilidade da superação da violência e da guerra, ainda nos idos de 1932. Freud respondeu que é impossível diretamente superar o thánatos somente reforçando o princípio do eros através de laços emocionais e pelo trabalho humanizador da cultura (cf. Obras completas III:3,215). Mas termina com uma frase desoladora: ”esfaimados pensamos no moinho que tão lentamente mói que podemos morrer de fome antes de receber a farinha”.

Ambos os princípios para Freud possuem algo de eterno e deixa em aberto qual princípio escreverá a última página da vida. Mas o princípio do thánatos pode em momentos da história impregnar todo um povo e inundar a consciência de seus líderes produzindo tragédias histórico-sociais.

Estimo que estamos assistindo à emergência terrível do thánatos em estratos importantes da nossa sociedade que ganhou corpo numa figura histórica que exalta a tortura, os ditadores ferozes, distribui armas e se mostra insensível à morte de milhares de seus compatriotas, incapaz de palavras e gestos de solidariedade às milhares de famílias que veem seus entes queridos sendo levados, anônimos, sem os ritos sagrados da despedida e do velório. Nossa sociedade atual possui elementos claros demenciais, em pessoas e em largos estratos da sociedade, afeitos às calúnias, às difamações, inclusive montadas em igrejas que usam e abusam do nome de Deus. Mas tudo isso ganha exemplaridade da figura sinistra e, não raro, ridícula do atual chefe de Estado.

Estes comportamentos mostram igualmente o princípio demens presente junto com o sapiens no ser humano. Vivemos numa civilização mundializada que está sob o domínio do demens. Basta lembrar os 200 milhões de mortos nas guerras dos últimos dois séculos e do princípio de autodestruição já montado com armas nucleares, químicas e biológicas, capazes de pôr fim à vida humana e à nossa civilização, tornadas tais armas ineficazes e ridículas pelo Covid-19.

Esse princípio de demência se mostra claro pelos assassinatos intencionados de negros, pobres e outros com outra opção sexual e um nefasto feminicídio. Tudo isso é chancelado por um presidente com claros sintomas de psicopatia, vergonhosamente tolerado por aquelas autoridades que poderiam e deveriam por crimes de responsabilidade social, denunciá-lo, fazê-lo renunciar ou democraticamente submetê-lo a um impeachment jurídico. Talvez elas mesmas sejam já infectadas pelo vírus do demens, o que explicaria sua leniência e culposa omissão.

O sentido de nossa disquisição possui este significado: tudo o que estava oculto e reprimido em nossa sociedade saiu dos porões onde por séculos se havia ocultado na vã tentativa de negá-lo ou torná-lo aceitável socialmente, até de pintá-lo roseamente, como o fazem vários ministros mentirosos que chegam a ver um ganho na escravidão e no estado colonial. Mas basta um pouco de luz para desfazer esta densa escuridão. Agora se tornou visível e solar. Não há mais como escamoteá-la.

Somos uma sociedade contraditória onde encontramos, ao mesmo tempo, brilhantismo na ciência, na literatura, nas artes plásticas, na música e na riquíssima cultura popular, geralmente feita à revelia de toda a opressão e do mainstream e em tantos outros campos. E ao mesmo tempo, somos uma sociedade que internalizou o opressor, se fez eco da voz dos donos, conservadora e até atrasada quando comparada com países semelhantes ao nosso. Num certo sentido somos cruéis e sem piedade para com nossos compatriotas atingidos pelas maldades perpetradas pelos estratos ultraendinheirados e faltos de qualquer sentido de compaixão para com os milhões caídos na estrada sem nenhum samaritano que se compadeça deles. Passam ao largo sem vê-los e o que é pior, desprezando-os como se não fossem da mesma nação ou da mesma família humana.

Esses ainda se confessam cristãos sem terem nada a ver com a mensagem do Mestre de Nazaré. Os ateus éticos e humanitários estão maia próximos do Deus de Jesus, da ternura dos humildes e defensor dos humilhados e ofendidos, do que estes cristãos meramente culturais que usam o nome de Deus para defender suas nefastas políticas individualistas ou corporativas de um Brasil só para eles. Eles estão longe de Deus por negarem os filhos e filhas de Deus, chamados pelo Juiz supremo de “meus irmãos e irmãs menores” sob os quais ele mesmo se escondia e que serão feitos juízes.

Tem muito de verdade o que escreveu a filósofa Marilena Chaui: “A sociedade brasileira é uma sociedade autoritária, uma sociedade violenta, possui uma economia predatória de recursos humanos e naturais, convivendo com naturalidade com a injustiça, a desigualdade e a ausência de liberdade e com os espantosos índices das várias formas institucionais – formais e informais – de extermínio físico e psíquico e de exclusão social e cultural” (500 anos – Cultura e política no Brasil, n.38, p.32-33). O sonho idílico de Darcy Ribeiro de o Brasil se tornar a Roma tardia e tropical se esvanece nas “vastas sombras”, como diz o Papa Francisco na Fratelli tutti (cap. I). Celso Furtado, entristecido, no final da vida escreveu todo um livro: Brasil: a constrção interrompida (1993).

Todas estas nuvens escuras se condensaram nos últimos anos e ganharam seus sacerdotes e acólitos que as assumem conscientemente, querendo levar o Brasil aos tempos pré-modernos. Se os levassem pelo menos à Idade Média, que tinha suas grandezas desde as majestosas catedrais às grandes sumas teológicas. O Brasil deste projeto retrógrado e irrealizável se tornou uma grotesca farsa e uma irrisão internacional.

O conjunto destas sombras vastas e o domínio do Negático se adensaram na figura do atual chefe de Estado e de seu governo, associado ao seu projeto. Ele é a consequência desta anti-história e sua mais perversa corporificação. Representa o que de pior ocorreu em nossa história e consciente ou inconscientemente tenta dar-lhe o acabamento final. Mas não o conseguirá porque jamais na história os mecanismos de morte e de ódio lograram realizar seu intento, sequer Hitler com todo o seu poderio militar e científico conseguiu lançar ao fundamentos de um Reino de Mil Anos.

Mais vigora um lado positivo desta minha leitura de nossa história. A irrupção destas sombras coletivas nos trouxe claramente o desafio de rejeitar a dependência e concluir a refundação já iniciada há décadas por uma plêiade de políticos patrióticos, por uma gama de intelectuais de primeira grandeza e por dezenas de movimentos sociais de todo tipo. Se não aproveitarmos a presente situação da pandemia que nos colocou a todos na reclusão de um retiro existencial, social e político para pensarmos que Casa Comum queremos construir para habitarmos juntos nela e qual é o lugar do Brasil nessa emergente fase da planetização, seremos condenados a nos tornarmos um país de párias, omitindo-nos na missão de contribuirmos poderosamente na configuração desta Casa Comum, graças à nossa incomensurável riqueza de bens e serviços naturais, necessários para a subsistência da humanidade e da continuidade de nossa civilização.

Os processos históricos não são cegos e sem destino. Eles guardam um Logos secreto que vai conduzindo o rumo das coisas em consonância com o processo da cosmogênese e gera, do meio do caos, ordens superiores com novas possibilidades e horizontes insuspeitados. Qual será nosso lugar, como povo e como nação, no conjunto de todos esses processos? Eles marcam a direção mas quem tem que percorrê-la e construí-la somos todos nós. Não nos é permitido preguiçosamente pisar nas pegadas já feitas. Temos que fazer as nossas pegadas.

Oxalá estejamos atentos ao que a história, apesar do reacionarismo e neofascismo de Bolsonaro e de seus seguidores, nos exigirá. Como outrora dizia Platão: “todas as coisas grandes procedem do caos”. As nossas poderão ter a mesma origem.

quarta-feira, 6 de janeiro de 2021

Bolsonaro e Mourão são a quintessência da maldade

Balanço do Conselho Nacional de Secretários de Saúde (Conass) aponta que, até 21 de novembro de 2020, foram registradas no Brasil 200 mil mortes, 24% mais do que era estimado para o ano findo. Naquela data, as perdas em decorrência da covid-19 chegavam a 168.989, conforme dados divulgados pelo consórcio dos meios de comunicação, já que o Ministério da Saúde se recusa a fornecer dados confiáveis. A coincidência levanta a hipótese de que, mesmo com aumento da população, a pandemia, maior causa de óbitos do País no ano, está muito longe de poder ser definida como mera “gripezinha”. Os números nunca mentem, mas isso não comoveu quem cruzou o marco do calendário gregoriano facilitando a contaminação pelo novo coronavírus.

Alguns brasileiros ilustres agiram como agentes desse contágio. O craque Neymar promoveu festa para 500 convidados em Mangaratiba, aviltando o tema do sucesso de Luiz Gonzaga. O influenciador em redes sociais Carlinhos Maia aglomerou centenas no Natal da Vila, resultando em 47 contaminados. Outro ídolo de crianças e adolescentes nas redes sociais, Felipe Neto, criticou-o, mas foi filmado jogando futebol. O governador de São Paulo, João Doria, jura adesão à ciência, mas fez um bate-volta para Miami a pretexto de “merecido” repouso de guerreiro. Outro tucano, Bruno Covas, festejou a reeleição para a Prefeitura de São Paulo num “covidão” que lembrou bailes funk da periferia, e ainda promoveu um bonde da alegria com aumento de 46% para si, o vice, vereadores e servidores. Merval Pereira definiu-os como “sem noção” em sua coluna no Globo.

Dentre eles, Jair Bolsonaro é hors-concours. Ganhou menção especial porque passou o Natal num forte militar em São Francisco do Sul (SC), pertinho de Presidente Getúlio, no Vale do Itajaí, onde 21 brasileiros morreram afogados numa enchente. Na companhia de um magote de bajuladores, deixou em Brasília a mulher, Michelle, que usufruiu o feriadão rodando de kart com o maquiador Agustin Fernandez no Ferrari Kart do Autódromo Nelson Piquet. Madame pode ser adicionada ao rol.

Depois, o presidente cometeu insanidades tentando desviar sua responsabilidade no combate à vacinação, com exigência de imagens do calo ósseo na mandíbula de Dilma, torturada no regime militar. E na grotesca exposição de sua barriga pseudoatlética ao se jogar de um barco ao mar para nadar até um grupo previamente reunido de apoiadores, que insultaram adversários aos berros e o chamaram de “mito”. Aglomerados e jorrando perdigotos, como só convém ao vírus.


No show de indiferença ao risco de morte de 212 milhões de vítimas desgovernadas por ele, destacou-se sua crítica desastrada à decisão do Congresso argentino de descriminalizar o aborto. Nem isso alterou o sono perpétuo decretado por seu pretenso adversário, Rodrigo Maia, presidente da Câmara, a mais de 40 processos de impeachment. Parte dessa expressão de inércia se deve ao fato de seu substituto eventual, o vice Hamilton Mourão, ser, como ele, admirador confesso do torturador e assassino Brilhante Ustra, acusado por Dilma de lhe haver fraturado a mandíbula. A tortura, reconhecem os “mansos de coração” do sermão das bem-aventuranças Daquele que ele diz adorar, Jesus Cristo, é a máxima covardia. Só poltrões como Bolsonaro e seu vice podem considerar esse oficial “herói” e “homem de honra”. Covardia é o contrário de bravura, qualidade que dá medalhas a militares em ação nos campos de batalha. E só pode ser pior do que um torturador quem o admire sem coragem de imitá-lo, só por faltar ocasião.

O desgovernante que torna inviável a vacinação, sonhada pelo povo real (e não o fictício na Praia Grande e no “chiqueirinho” do Alvorada) como sopro de sobrevida, não é, contudo, um ponto fora de curva na história dessa “Pátria Amada” ideal de comerciais de promoção da Secretaria de Comunicação. Bolsonaro e Mourão são a quintessência da maldade de momentos abjetos de nossa História. O Brasil foi a última Nação do Ocidente a abolir a escravidão de africanos transportados em brigues imundos através do Atlântico, e da qual se livrou em doses homeopáticas e condições indignas, denunciadas pelo abolicionista Joaquim Nabuco. A República cega e surda não enxergou a ignomínia do massacre dos crentes sertanejos em Canudos, comandado por covardes arrogantes como Moreira César, apesar do relato do gênio Euclydes da Cunha. Nem ouviu os gemidos dos dissidentes no Estado Novo de Getúlio, relatados em Memórias do Cárcere, de Graciliano Ramos;

A encenação da grosseria contagiosa nas areias de Praia Grande, a cargo de agentes da morte treinados nas “milícias populares” do capitão terrorista em Polícias Militares (PMs), celebrou a agonia anunciada pelo combate ao uso da máscara, ao isolamento social e à imunização, condizentes com as melhores conquistas civilizatórias do honrado Brasil real. A farsa fúnebre nada tem que ver com a definição de amor, verdade e vida do Deus manso, ao Qual reza o facínora-mor. Só propicia safras malditas de ódio, mentira e dolorosa tortura da morte antecipada.

Brasil, cemitério de mentiras

 


Perdido na pandemia

“O Brasil está quebrado. Não consigo fazer nada” — disse, com todas as letras, o presidente Jair Bolsonaro, ontem, queixando-se da situação em que se encontra o governo federal. Para não variar, culpou a imprensa e se fez de vítima, mas o estrago está feito. Além de terem virado piada pronta nas redes sociais e motivo de chacota nos meios políticos, suas palavras são um desastre para a economia. O impacto de uma afirmação dessa natureza junto aos agentes econômicos e investidores estrangeiros pode ser avassalador.

Poderiam ser ditas por qualquer empreendedor em dificuldades financeiras ou trabalhador desempregado, porém, na boca do presidente da República, essas afirmações funcionam como uma mensagem de desesperança. Revelam que Bolsonaro não sabe o que fazer em meio à pandemia do novo coronavírus, pois nem crise sanitária nem recessão se resolvem com negacionismo, mas com ações governamentais. Não chega a ser uma novidade, porque o presidente da República sempre disse que não entende de economia e que, nesse métier, quem daria as cartas seria o ministro da Economia.



Entretanto, o Ministério da Economia passou recibo de que não tem dinheiro em caixa. O governo brasileiro não honrou o pagamento da penúltima parcela de US$ 292 milhões para o aporte de capital no Novo Banco de Desenvolvimento (NDB), a instituição financeira criada pelos cinco países do Brics (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul). O prazo para a quitação da parcela terminou no último dia 3. Agora, o Brasil está inadimplente com o banco que ajudou a fundar e é um dos acionistas.

Por incompetência do Palácio do Planalto, o dinheiro para o pagamento da parcela da dívida com o Banco do Brics e outros compromissos com os bancos multilaterais ficou fora do projeto de lei que foi votado no fim do ano para remanejar despesas do Orçamento de 2020 e atender a demandas de obras de interesse do governo e emendas de parlamentares aliados. É um vexame: ficamos inadimplentes justamente no ano em que o brasileiro Marcos Troyjo assumiu a presidência da instituição por indicação do governo Bolsonaro, com US$ 3,5 bilhões em financiamentos aprovados para o Brasil, em 2020.

No fim do ano, o argumento para votar correndo o texto de remanejamento das verbas do Orçamento do ano passado, na frente de votação de outros projetos importante — como o aumento do Bolsa Família ou a revisão da tabela do Imposto de Renda — foi o de que o governo precisava honrar os seus compromissos com organismos multilaterais e não podia ficar com a imagem arranhada na comunidade internacional.

Não à toa, o presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), subiu nas tamancas ontem. O Ministério da Fazenda tentou responsabilizar o Congresso, mas foi a própria base do governo que manobrou para que não houvesse convocação extraordinária durante o recesso parlamentar. A prioridade do Palácio do Planalto é a disputa pelo controle das Mesas da Câmara e do Senado e, para os candidatos governistas, reunir o Congresso daria palanque para a oposição.

Mesmo assim, Bolsonaro se faz de vítima: “Queria mexer na tabela de Imposto de Renda. Esse vírus potencializado pela mídia que nós temos, essa mídia sem caráter que nós temos. É um trabalho incessante de tentar desgastar para retirar a gente daqui para voltar alguém para atender os interesses escusos da mídia”, disse. Assim, o presidente passou recibo de que não está fazendo as entregas que deveria, depois de dois anos de mandato.

Talvez por isso tenha sido organizada a sua “visita técnica” ao Ministério da Saúde, que durou quase duas horas. Segundo o ministro Eduardo Pazuello, Bolsonaro se inteirou das providências que estão sendo tomadas para comprar vacinas, agulhas e seringas para a campanha de vacinação contra a covid-19. O presidente da República saiu da reunião sem dar entrevistas. Moral da história: continuamos sem saber quando começará a campanha de vacinação.

O Brasil não quebrou. Bolsonaro é que não tem conserto

No seu primeiro dia de aparente trabalho em Brasília depois de oito a navegar atrás de golfinhos e a provocar aglomerações sem máscaras em praias paulistas, o presidente Jair Bolsonaro brindou o país com desabafos tão desastrosos que alguns dos seus auxiliares se viram obrigados a tentar consertá-los.

O primeiro deles foi feito diante de um grupo de devotos à entrada do Palácio da Alvorada: “O Brasil está quebrado, chefe. Eu não consigo fazer nada. Eu queria mexer na tabela de imposto de renda. Tem esse vírus potencializado por essa mídia que nós temos aí. Essa mídia sem caráter que nós temos”.

O segundo desabafo veio na sequência e na mesma ocasião: “Então, [o Brasil] é um país difícil de trabalhar. Quando se fala em desemprego, né, [são] vários motivos. Um é a formação do brasileiro. Uma parte considerável não está preparada para fazer quase nada. Nós importamos muito serviço”.

No fim da tarde, no mesmo lugar e em resposta a um devoto que lhe cobrou a promessa de reajustar a tabela do Imposto de Renda para beneficiar os que ganham menos, Bolsonaro disse: “Eu queria mexer na tabela. Mas não esperava esta pandemia. Temos uma dívida de aproximadamente R$ 700 bilhões”.

Se Bolsonaro nada consegue fazer uma vez que o país quebrou no seu colo, por que ele não pede as contas? No começo do seu desgoverno, reconheceu que não nascera para ser presidente. De fato, ao examinar-se sua biografia, pelo visto não nasceu para fazer grande coisa. Não faria falta se renunciasse.

Como militar, Bolsonaro destacou-se como um bom corredor de longas distâncias, acumulando elogios. Mas consta do seu prontuário que acabou afastado do Exército por má conduta. Como deputado federal por quase 30 anos, passou em branco. Uma vez eleito presidente, o que fez até agora que prestasse?

De quem é a culpa pelos problemas que enfrenta e por não saber combatê-los? A acreditar-se no que diz, é da imprensa que só o critica. É da justiça que o tolhe. É do Congresso que não o apoia. Pode ser de parte dos seus ministros, embora ele os tenha escolhido. É da pandemia. Mas dele e dos seus filhos não é.

Ao afirmar que o Brasil está quebrado, o que é uma mentira, Bolsonaro se desculpa pelo que gostaria de fazer, mas não pode. O que não gostaria ou o que não admite como necessário é justamente o que o aconselham a fazer. Como não sabe administrar nem para onde seguir, sua vida é um inferno.

Faltam-lhe conhecimentos para governar. Falta-lhe perfil para ser presidente da República. Falta-lhe disposição para pegar no pesado. Falta-lhe grandeza para reconhecer suas limitações e cercar-se de uma equipe competente. Jamais imaginou que se elegeria, salvo depois da facada. Para completar então…

Põe os problemas dos filhos, educados para ser um espelho do pai, acima dos problemas do país. E por deficiência sua, enxerga o mundo pelos olhos deles. Se os filhos fossem pelo menos os gênios que ele nunca foi, mas não são. O pai nunca os estimulou a estudar e a pensar com liberdade. São bonecos de ventríloquo.

“Alguns falam que ‘não sei quem’ não deixa eu governar. Quisera eu que fosse só um ‘não sei quem’, unzinho só”, queixou-se Bolsonaro no seu último desabafo do dia com a esperança de que seus devotos sintam pena dele. O Brasil não está quebrado, já teve. Seu presidente é que não tem conserto.

Confederação dos anões

Enfim, nenhum esforço para melhorar, nenhum impulso para a frente e para cima. Unifiquemos-nos na baixeza. Todos de rastros, ao nível dos excrementos
Aníbal Machado, "Cadernos de João"

Pandemia, comportamento e cura

O ano que formalmente acabou de acabar, mas está colado a este que se inicia, foi pródigo em assinalar nossa fragilidade diante de uma doença mortal e contagiosa. Este 2021 baliza, espero, a etapa da vacina e da cura. Uma vacina lamentavelmente politizada, sabotada, burocratizada e, por isso, irracional e desumanamente postergada entre nós. 

O mais doloroso numa doença contagiosa é que ela não coloca ninguém acima de qualquer suspeita e, com isso, sacode axiomas sociais pouco discutidos. Por exemplo: pode o amor de mãe contaminar? Nossa casa pode ser um ninho virulento? Como festejar sem o contato físico e o abraço amoroso? A vacina deve seguir a velha hierarquia social ou as necessidades médicas dos grupos de risco?

Doenças de contágio são fatos sociais totais: elas nos atingem biológica e culturalmente. Matam anônimos e entes queridos, em paralelo, condenam gestos e hábitos que fazem parte do nosso arsenal de carinho. O contágio maltrata o cerne de nossas vidas porque somos seres sociais e, como tais, dependemos e somos constituídos de relações. Sem elas, entramos no reino das orfandades, cujo lar é o espaço em que os elos se desfazem: o mundo da rua.

O traço distintivo da pandemia é a sua universalidade. A inusitada “democracia” da Covid (tal como ocorreu de modo ainda mais patente noutras epidemias) conturba pelo inesperado igualitarismo biológico. O vírus “pega”. Passa de uma pessoa a outra independentemente da posição dessa pessoa, o que, numa sociedade em que as relações pessoais têm enorme importância, é um escândalo e um contrassenso. 

Como não abraçar pai e mãe? Como estar com os amigos sem deles “chegar perto”, acariciá-los ou dar um “cheirinho de amor numa morena flor”, como cantam Toquinho e Vinícius? 

Se ignorarmos o protagonismo da “ética da casa”, jamais entenderemos o comportamento de nossos filhos e netos quando se aglomeram, infelizmente negligenciando as normas da saúde pública. 

O que faz um pai quando um filho tem embaraços com a Justiça? Ora, ele o defende, mesmo tendo que demitir o ministro da Justiça e reordenar todo um sistema. A ética das relações familiares, sendo costumeira e implícita, resiste à legislação positiva apropriada para a “rua” — para o mundo “público”. Já a “casa” — e as relações nela fabricadas, como sugeri no livro “A casa e a rua” (publicado em 1985) — deve ser vivida “aquém” das instituições públicas, conforme revelam nossas abusivas e recorrentes roubalheiras. 

Sobre isso, basta lembrar que, até anteontem, dizíamos que “em briga de marido e mulher, ninguém mete a colher”. Hoje há sinais de mudança, de modo que casa e rua estão mais próximas em matéria de direitos. A casa não mais exime seus “donos” de seguir regras universais.


Penso que a irritante resistência à regra do isolamento (e do uso de máscara) denuncia uma duplicidade. Existem leis universais, mas elas têm um alcance relativo a cargos, pessoas e espaços. Nosso ponto de partida histórico não foi o puritanismo messiânico, igualitário e individualista que tanto assombrou Tocqueville na América. Aqui, crescemos no patriarcalismo hierárquico católico, no escravismo negro e numa aristocracia situada à margem. Todo o sistema estava fundado exatamente na desigualdade. 

O que isso tem a ver com o isolamento? É simples. No Brasil, sabemos que os mandões e as autoridades relativizam as leis com seus foros privilegiados. O resultado é trivial: obedecer é um sinal de inferioridade social. O ideal é, lamentavelmente, desobedecer marginalmente, na base da malandragem. É o que vemos nas praias e festas.

Enquanto a lei impessoal não se tornar concreta — e o concreto no igualitarismo democrático é sua aplicabilidade para todos —, não há como seguir normas gerais, sejam elas jurídicas ou sanitárias.

Comportamentos diante da saúde, da sexualidade, da morte, da comida e dos elos de compadrio e parentesco estão livres das recomendações formais. É o que vemos na praia e nos infalíveis abraços, quando o gesto de afeto compete com as regras impessoais de higiene com trágicos resultados. 

Por tudo isso, é preciso, reitero, desburocratizar e acabar com a sabotagem política da vacina. Uma vacinação em massa seguindo critérios do bom senso é a maior prova de que podemos unir o formal e o costumeiro, o país com a sociedade, revelando a nós mesmos que eles podem andar juntos.

Pensamento do Dia

 


Bolsonaro disfarça incompetência na tese de país quebrado

A declaração do presidente de férias no Guarujá é tão irresponsável quanto todas as outras, porque com isso ele justifica a sua própria incapacidade administrativa, e seu pouco interesse em trabalhar e tomar decisões que possam melhorar a situação do país.

Bolsonaro disse que não pode fazer nada pois o país está quebrado. A função dele como presidente é administrar o país. Por que ficará mais dois anos no poder se acha que não há como agir? 



Um país com dificuldades fiscais e financeiras deve ajustar as contas, fazer escolhas. Por exemplo, em vez de colocar quase R$ 8 bilhões para capitalizar uma estatal do setor militar, ele poderia investir em algo que tivesse retorno para o país e os brasileiros. Por exemplo, trabalhar pela solução de vendas de empresas estatais que ele havia prometido na campanha, em vez de criar mais uma, a NAV, ligada ao Ministério da Aeronáutica.

O que Bolsonaro quer dizer com “país quebrado”? Se este déficit já estava antes de ele se candidatar, por que mesmo assim quis o cargo? O país está endividado, mas a dívida é junto aos brasileiros. O que quer dizer que os investidores brasileiros acreditam na capacidade de pagamento do governo e querem manter suas poupanças e riquezas em papéis da dívida pública.

Ao Deus dará


Não tem plano para sair da crise, não tem combate à pandemia, não tem vacina, nem emprego, nem auxílio emergencial. E agora, finalmente o presidente assumiu, não há governo, não há presidente! 
Randolfe Rodrigues (Rede)

Estamos próximos do ponto de não retorno para o clima global

À medida que os programas de vacinação contra a covid-19 vão sendo implementados, 2021 começa tendo à vista a esperança de um fim da pandemia. Precisávamos de liderança corajosa, decisões duras e financiamento direcionado para chegar até este ponto. Agora temos que aplicar o mesmo vigor para combater a mudança climática, ou arriscar ter pela frente muitos anos tão ruins quanto o passado.


O ano de 2020 – provavelmente o mais quente já registrado – trouxe tempestades, incêndios florestais, secas, inundações e o derretimento de geleiras. A desaceleração econômica ditada pela pandemia gerou uma queda temporária das emissões de dióxido de carbono, embora com efeito insignificante sobre as temperaturas, no longo prazo: nossas emissões passadas ainda estão na atmosfera, e nós estamos acrescendo-as.

Mesmo que os países aplicassem os comprometimentos incondicionais mais recentes – conhecidos como Contribuições Determinadas em Nível Nacional (NDCs, na sigla em inglês) – assumidos no Acordo de Paris sobre as mudanças climáticas, ainda estaríamos a caminho de um aumento de 3,2 ºC da temperatura global, neste século. Tal aquecimento traria dor, miséria e distúrbios muito piores do que tudo com que a covid-19 nos tem confrontado.

Estamos perto do ponto de não retorno.

Os líderes mundiais podem recuar da beira do abismo, investindo em soluções verdes, sustentáveis no contexto dos esforços para recuperação da pandemia. O Relatório sobre a Lacuna de Emissões 2020 do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma) nos disse que desse modo poderíamos reduzir 25% das emissões calculadas para 2030, colocando o mundo mais ou menos onde precisa para ter uma chance de alcançar a meta do Acordo de Paris, de limitar o aquecimento global a 2 ºC. Comprometimentos de emissão zero poderiam até mesmo nos aproximar da meta de 1,5 ºC.
Preparando-se para a maratona

Medidas de recuperação verdes e sustentáveis podem garantir esse corte, e ao mesmo tempo sustentar outras metas ambientais sociais e econômicas. Precisamos de apoio direto a tecnologias e infraestrutura de emissão zero: fim dos subsídios para o carvão mineral e combustíveis fósseis; politicas permitindo consumo com menor produção de CO2; soluções com base na natureza – incluindo restauração de paisagens e reflorestamento em grande escala, dentro da Década da ONU para Restauração dos Ecossistemas, que começa em 2021.

Até agora, foram poucas as nações que investiram em pacotes de estímulo verde. Isso tem que mudar.

Em 2021 também transcorre a 26ª Conferência da ONU sobre a Mudança Climática (COP26), um encontro-chave dos países signatários do Acordo de Paris. Segundo o Relatório sobre a Lacuna de Emissões, 126 países adotaram, anunciaram ou estão considerando planos de emissão zero. Se o novo governo dos Estados Unidos se unir ao movimento, como prometido, os países responsáveis por mais de 63% das emissões globais de CO2 terão se comprometido com a neutralidade carbônica.

Contudo – assim como quem, no primeiro dia de janeiro, promete que vai correr uma maratona no fim do ano – precisamos tomar certas medidas, a começar já, a fim de estarmos prontos para a corrida. Esses compromissos precisam urgentemente se traduzir em políticas e ações de curto prazo, integradas a uma recuperação da pandemia de baixa emissão carbônica e incluídas em NDCs novas e mais fortes, antes do encontro de novembro. Senão, tudo não passará de promessas vazias.

Outra prioridade é ajudar os países e comunidades vulneráveis a enfrentarem os impactos crescentes das mudanças climáticas. O Relatório sobre Lacunas de Adaptação, a ser publicado pelo Pnuma nas próximas semanas, mostrará que ainda não estamos levando a sério a adaptação.

O financiamento permanece muito abaixo dos níveis necessários, e a maioria das iniciativas ainda se destina a minorar os riscos climáticos. Como comentou o secretário-geral da ONU, António Guterres, antes da COP26 precisamos de um comprometimento global para dedicar à adaptação a metade do financiamento climático total.

Este ano temos uma chance real de evitar a catástrofe climática. Empregando sabiamente os recursos de estímulo para dar partida a uma mudança sistêmica real, planejada e monitorada por NDCs mais fortes e compromissos de emissão zero, não só poderíamos alcançar a meta de 2 ºC do Acordo de Paris, como teríamos uma chance palpável de chegar ao 1,5 ºC.

Devemos aproveitar esta oportunidade para proteger nosso clima e natureza, e consequentemente a saúde, paz e prosperidade humanas, pelas próximas décadas. Esta pode ser uma das últimas oportunidades que teremos.
Inger Andersen, diretora executiva do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma)

Labirinto

Primeira semana da nova década. Continuamos perdidos. Como estivemos todo o ano de 2020. Sem leme, sem governo, sem presidente, sem plano de enfrentamento da pandemia.

Mais de 40 países já estão vacinando sua gente, enquanto Bolsonaro passou Natal e Ano Novo desrespeitando, como sempre, a grande maioria da população que teme o coronavirus.

Não compramos vacinas, não compramos seringas. Sabe Deus quando teremos o alivio dos vizinhos argentinos, que já começaram a receber as primeiras doses de antivirus.

Por lá, os hermanos ainda tiveram o conforto das palavras do presidente Alberto Fernandez. Em discurso contundente, na noite de 31/12, estendeu a quarentena, disse que continuará preservando a vida das pessoas e pediu mais participação dos empresários.



Que inveja dos vizinhos. Por aqui, nada novo. O Capitão aglomerou. Sem máscara. Deu barrigada no mar da Praia Grande para encontrar os fãs na praia, previamente avisados. Nada tão mal quanto administra o país.

Nesse labirinto de inação e desgoverno, inauguramos 2021. Loucos para deixar a peste para trás, nos vimos não só engolfados por cenas dantescas de Bolsonaro. Assistimos a um reveillon de babacas.

Em Trancoso, houve congestionamento de jatinhos de bacanas e grandes festas. Teve grandes festejos em outras praias, outras cidades, mansões, clubes. País afora.

E o Neymar? Com aquela roupa ridícula de papel alumínio, fez farra com centenas de pessoas em mansão alugada, em Mangaratiba, por sete dias. Vários músicos fizeram o regozijo de seus convidados. Antes de voltar a Paris fez foto com Flavio Bolsonaro, filho zero 01, envolvido com a justiça.

Nem o futebol de Neymar pode polir a imagem do moleque que faz pouco da pandemia e dos brasileiros. Bolsonarista, negacionista, deslumbrado, irresponsável, babaca. Nesse labirinto em que está metido o Brasil, Neymar não merece nem o espelho.
Mirian Guaraciaba

Se o presidente deixar, esse ano eu não morro

Na maioria dos lares onde vive quem têm os dois neurônios necessários para entender o que é uma pandemia, as comemorações de fim de ano foram reduzidas ao mínimo. O Natal não teve prima militante enfiando o dedo na cara de avô reaça, sobrinho anarquista apontando hipocrisias familiares e nem mesmo tio isentão fazendo discurso de autoajuda às duas da manhã. Um horror. O réveillon foi na mesma linha: mal deu meia-noite e já tinha acabado a festa, sem amigos e parentes para abraçar, gente para pegar e estranhos com quem tretar. Outro terror. Esse ano será diferente? Qual o plano deste brilhante, prodigioso e admirável presidente?

Orgulhoso da sua comovente incapacidade para governar qualquer coisa, inclusive a si próprio, o esfuziante gênio tomou no começo da pandemia uma decisão histórica: apostar no negacionismo mais torpe e obtuso. Morreriam milhares de brasileiros – fazer o quê, né? – mas ele salvaria a economia, que, na sua privilegiada visão, pode ser resumida a uma frase: “o de cima sobe, o de baixo desce”.

Para manter a, por assim dizer, tática, o presidente montou um show de diversionismo, apresentando como atração principal a própria ignorância, digna de picadeiro ou de manual de psiquiatria. A função do show era tanto atiçar sua matilha de descerebrados online como zurrar crendices e fakenews, guiando o gado cativo rumo ao precipício da estupidez. Deu no que deu: um contágio descontrolado.


A primeira temporada da pandemia no Brasil terminou com quase duzentos mil mortos.

O iluminado decidiu repetir a dose em 2021. Com as vacinas já disponíveis, todos os governantes do mundo, ao menos os não oligofrênicos, fizeram um cálculo óbvio: quanto mais cedo começar a vacinação, mais vidas se salvam e mais cedo se volta ao normal. O que concluiu sobre essa lógica cartesiana o nosso oráculo do Planalto central? Vacinação é para os fracos, vamos continuar boicotando todas as soluções, sejam testes, máscaras, distanciamento ou as próprias vacinas. A matilha online, que batia palmas furiosamente para os psicopatas e os robôs dançarem nas redes, começou a ficar desmoralizada: até os...hummm...menos inteligentes começaram a perceber que, se o governo é incompetente e imprestável, não faz a menor diferença se é de direita, esquerda ou centro. Acabam todos no mesmo brejo. Brigar para quê? No brejo dos inaptos qualquer ideologia é bem-vinda.

A vacinação, quando houver, será comandada por outro prodígio de farda, o ministro da saúde, a autointitulada divindade da logística. Esse mesmo que acabou de descobrir que vacinas não são aplicadas com colher e aviãozinho, e sim com agulha e seringa. Também foi só agora que o luminar de uniforme camuflado percebeu que precisava ter encomendado as tais seringas e agulhas meses atrás, mais ou menos na mesma época que deveria ter negociado a compra das vacinas. É esse ás da sabedoria e do planejamento que tem a saúde do país nas mãos.

A meta dessas sumidades é nos juntar de novo com o avô reaça, a prima militante, o sobrinho anarquista e o tio isentão. Não numa festa de Natal ou Ano-Novo, mas sim numa UTI. Não vão conseguir. Como cantou Belchior — e agora Emicida — "ano passado a gente morreu, mas este ano a gente não morre".

terça-feira, 5 de janeiro de 2021

Vencido pelo vírus, Bolsonaro quer ganhar a guerra da vacina

Credite-se a João Doria (PSDB), governador de São Paulo, a mudança de comportamento do presidente Jair Bolsonaro de sair às pressas em busca de vacinas contra o coronavírus, quanto mais não seja para poder dizer que não ficou para trás.

Doria promete dar início à vacinação no seu Estado antes do fim de janeiro nem que para isso tenha de apelar à justiça. O Ministério da Saúde havia falado em vacinar a partir de abril. Depois em março, em fevereiro, e agora, se tudo der certo, logo.

A vacina chinesa está sendo produzida em larga escala pelo Instituto Butantã, em São Paulo. Por ora, o governo federal não tem uma vacina para chamar de sua, daí o desespero. Precisa dispor de algumas doses para pelo menos tirar fotos.

Durante a 2ª Guerra Mundial, ganhou o nome de “Guerra de Mentira” o período entre 3 de setembro de 1939 e 10 de maio de 1940. A Alemanha nazista invadira a Holanda, Bélgica e França. A França e o Reino Unido declararam guerra à Alemanha.

Foram oito meses sem verdadeiros combates armados. Os dois lados se observavam à distância segura. Quem tinha a iniciativa era a Alemanha. E quando ela finalmente foi para cima derrotou com facilidade o Exército francês, o mais poderoso da época.



Bolsonaro perdeu a guerra contra a pandemia quando se recusou a travá-la, preferindo dar passe livre à Covid-19 para que matasse quem tivesse de morrer. Imagina ganhar a da vacina que não passará de fato de uma guerra de mentira.

O vencedor não será aquele que vacinar por aqui o primeiro brasileiro, mas o que vacinar o maior número possível de brasileiros em prazo regularmente curto. E, nesse caso, como foi mais previdente e acordou cedo, Doria deverá vencê-la.

Nesta quinta-feira, o governo de São Paulo pedirá à Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) a autorização para o uso emergencial da CoronaVac, a vacina chinesa. A Anvisa terá dez dias para autorizar ou não sua aplicação.

Se autorizar, Doria terá largado na frente. Se não autorizar, ficará como vítima de Bolsonaro – e o presidente, como principal algoz de um país que se aproxima da marca de 200 mil mortos pelo vírus e de quase 8 milhões de infectados.

O Ministério da Saúde já quis ter o monopólio da vacinação. Como sequer conseguiu comprar seringas e agulhas, passou a admitir que poderá trabalhar em conjunto com clínicas privadas que as adquirirem e que disponham também de vacinas.

Como sempre, quem tiver dinheiro para pagar será vacinado primeiro. O ministério nega que isso possa acontecer. Mas você acredita?

Pensamento do Dia

 


A irresponsabilidade da divisão

O presidente eleito em 2018 surpreende sempre para pior. Nesta semana, foi o deboche para se referir à tortura sofrida por sua antecessora, a presidente Dilma Rousseff, quando jovem militante contra a ditadura. Só este gesto demonstra sua psicologia política doentia. Mas na mesma semana, disse “estar nem aí” para a demora em aprovar e distribuir a vacina contra o corona vírus, debochando também do sofrimento de milhões e da morte de 200 mil pessoas, que o elegeram para gerenciar nossa saúde. Bolsonaro já provou seu despreparo técnico e psicológico para cuidar do presente e conduzir ao futuro, mas também provou estar preparado para a politicagem que elege os populistas irresponsáveis. Devido a este preparo cínico, ele pode se reeleger apesar do péssimo desempenho de seu governo em todas setores, até mesmo com a possível volta da inflação, se as forças democráticas não se unirem com uma alternativa e um nome que não sofra maior rejeição que ele.

Com seu despreparo e maldade, Bolsonaro foi eleito sobretudo pelos democratas-progressistas que estiveram no poder por 26 anos. Por nossos erros, especialmente pelo PT, o eleitor queria “outro”, qualquer que fosse. Bolsonaro conseguiu usar uma máscara de “outro”. E por nossa divisão que permitiu colocar no segundo turno um nome que seria melhor presidente do que o eleito, mas que provocava rejeição no eleitor.


O Brasil e seus eleitores não merecem que as lideranças democráticas, de direita ou esquerda, repitam os erros da divisão que leve ao segundo turno um nome com rejeição maior do que o presidente com apesar de sua psicológica política doentia. Bolsonaro contará com um núcleo duro de simpatizantes que o colocarão no segundo turno.

Seria uma traição, que os democratas apresentem tantos nomes, que leve um núcleo duro de simpatizantes colocar no segundo turno um nome contrário ao Bolsonaro, mas que o elegerá na disputa entre os graus de rejeição e não de esperança. Não temos o direito de correr o risco de facilitar sua eleição pela rejeição ao seu concorrente. As lideranças democráticas lúcidas e responsáveis precisam se unir para construir uma alternativa capaz de chegar ao segundo turno e barrar a reeleição de Bolsonaro. Promover uma aliança com base em compromissos para um governo de transição que deixe as diferenças aflorar em 2026. Fizemos isto com Tancredo em 1985. Em 2022, temos a obrigação de repetir aquela unidade. Podemos exigir que o nome escolhido assuma o compromisso de não tentar a reeleição, que seu governo seja uma espécie de frente com compromissos básicos em comum.

Até aqui, a aliança para eleger o novo presidente da Câmara dos Deputados, a unidade na defesa do uso da ciência e a solidariedade à ex-presidente Dilma nos permitem esperança na possibilidade de uma unidade por uma presidência com sanidade mental e valores democráticos.
Cristovam Buarque 

Que o governo cumpra seu dever

Tudo é relativo na área dos costumes e das circunstâncias. O que é bom para uns, não o é para outros. Daí a divergência que existe quando o assunto é, por exemplo, política, religião e esportes. Cada qual tem sua opinião. O ditado é conhecido: no Brasil, há 100 milhões de técnicos de futebol. Mas só mesmo os fanáticos e lunáticos discordam diante de evidências cristalinas resultantes dos fatos vistos, apurados e medidos estatisticamente.

Estamos iniciando o ano de 2021 com uma conta exibida todos os dias pelos meios de comunicação: cerca de 200 mil mortos pela Covid 19. Há quem duvide disso? Há, alguns abestalhados que vivem às margens da realidade.

Esse número poderia ser bem menor? Sim, se o nosso governo federal estivesse bancando, desde o início da pandemia, a luta contra o vírus. Mas o que vimos e continuamos a ver é um governo insensível à morte de milhares de brasileiros, atribuindo esse morticínio a governos estaduais, prefeitos e até ao Supremo Tribunal Federal, que delegou a Estados e Municípios o poder para organizar as ações de combate ao coronavírus.


E o que faz nosso presidente? Continua a desprezar os números e, pior, a descumprir as normas de segurança sanitária, como se viu nesta sexta ao nadar até a praia para abraçar correligionários, sem usar máscara, ou em outros termos, promovendo a desobediência civil. Até parece que Bolsonaro tem interesse na meta de o Brasil bater o recorde de mortes no mundo. A absurda hipótese abre outras ideias amalucadas: quanto mais mortos, principalmente de velhos, menor peso na balança da previdência. Assim, se a população brasileira está indo para o buraco, melhor para as contas do governo. O curioso é que as estapafúrdias hipóteses estão se espalhando sob o olhar de um entorno composto por altos perfis das Forças Armadas.

Um grupamento profissional que garante a segurança e a soberania da Nação, dessa forma, começa a ver sua imagem corroída por atos do presidente, atos que desafiam a ciência, o bom senso e os valores da dignidade, decência, zelo, disciplina e moral, inerentes aos sistemas democráticos. Há, então, alguma razão para isso? Sim, a causa se ancora no populismo, essa doença que desmantela as democracias, principalmente as latino-americanas, e que objetiva atrair para os governantes o apoio das massas, principalmente os contingentes incultos.

O pior é o que populismo, ao fim e ao cabo, acaba se tornando uma barreira ao avanço civilizatório, na medida em que a racionalidade, os bons costumes e os padrões de uma política sem ismos( caciquismo, familismo, nepotismo, grupismo, coronelismo, fisiologismo) são jogados no lixo. O resultado de todo esse processo é a corrupção, que, sob formas variadas, grassa na administração. Conclusão: o governo Bolsonaro, eleito sob a bandeira anti-corrupção, acaba ele mesmo endossando sua expansão. O fatiamento da estrutura é o preço. Triste Brasil.

2021 abre-se sob a continuidade da pandemia, cujo recrudescimento é geral em todas as regiões do país, e ainda com a imagem de um presidente que fomenta aglomerações e quebra da ordem sanitária pelos lugares que frequenta. Onde está o bom senso? Como será o terceiro ano de um governo que ostenta desprezo pela saúde dos brasileiros? Onde está o ministro da saúde, um general especializado em logística? O que dizem os oficiais renomados de nossas Forças? O sistema político cooptado não tem vergonha de ir ao balcão de recompensas? Quando teremos a vacina para imunizar pelo menos 170 milhões de brasileiros? Que imagem o Brasil construiu no mundo nesses desvairados tempos?

O governo Bolsonaro não tem mais desculpas a fazer. O Brasil espera que ele cumpra seu dever.
Gaudêncio Torquato

Brasil tem muito a desaprender com Bolsonaro

Governar é como desenhar sem borracha. Impossível apagar os erros. Mas pode-se corrigir o traçado. O ano novo se apresentou para Bolsonaro como uma folha de papel em branco. Depois de empurrar o Brasil para um mato sem vacinas, o capitão teve a chance de traçar novas coordenadas para sua administração. Preferiu renovar para 2021 todas as resoluções que conduziram o país para o descalabro sanitário de 2020.

Em plena noite de Réveillon, Bolsonaro levou ao ar, nas redes sociais, a última live presidencial do ano. Nela, reiterou: "Não vou tomar a vacina." Estimulou: "Não tem que ter medo dá hidroxicloroquina. Comigo deu certo." Desaconselhou: "A máscara não protege de nada, isso é uma ficção." Receitou: "Uma forma de blindar a Covid é a vitamina D. Então, você pega sol."



Bolsonaro aproveitou para justificar a dificuldade que o Ministério da Saúde enfrenta na compra de seringas para injetar no braço dos brasileiros as vacinas ainda indisponíveis no país: "Vocês sabem para quanto foi o preço da seringa no Brasil? O preço foi lá para cima.".

O presidente não explicou por que seu governo esperou que o preço das seringas escalasse as nuvens. Alheio à lei da oferta e da procura, Bolsonaro falou sobre a compra de vacinas como se planejasse adquirir bananas na feira: "Além da vacina da Pfizer, temos uma outra agora, da Moderna, que poderá ser adquirida para o Brasil. O que falta? Falta decidir quem vai tomar e quem não vai tomar a vacina."

Há um clima de novidade burlesca e didática na insistência com que Bolsonaro reincide nos equívocos. É como se o presidente planejasse com esmero cada erro. Num instante em que o Brasil está prestes a amargar 200 mil mortos por Covid, já não faz sentido tentar compreender o capitão à luz do bom senso.

Bolsonaro deixou de ser um presidente. Virou uma caricatura. Parece decidido a desvendar a irresponsabilidade sanitária, praticando-a. O Brasil tem muito a desaprender com o mito. Sob Bolsonaro, o Planalto convive com uma crise de sanidade. Não é que o presidente sofre de insanidade. A questão é que ele desfruta dela. Bolsonaro nunca deixará a presidência, terá alta.