quinta-feira, 20 de agosto de 2020

Apagar o passado

A consciência demanda organizar o passado. Há muitas formas de lidar com o tempo. Em sociedades sem escrita, nas quais a morte de um velho seria equivalente à perda parcial de muitos fatos e mitos — algo próximo da destruição de uma biblioteca nacional —, trata-se de um desastre inafiançável. 

Será que um dia vamos conhecer nosso passado milenar? Ou existem passagens que simplesmente sumiram, como a poeira das galáxias e das nossas invisíveis almas?

O leitor pode se sentir incomodado pelo assunto. Eu, cronista enviesado, que, se não estou, devo ingressar na cavilosa lista dos antifascistas convictos, apenas reitero que muito do que fizemos é esquecido, senão propositadamente apagado, porque seria prova de incoerências, crimes, projetos hediondos e contradições incontornáveis, sobretudo em coletivos fundados na autoridade do pai, do rei, do supremo sacerdote ou do juiz.

Investigando nossas vidas, descobrimos coisas que apagamos e muitas outras que programamos esquecer. Quando esquecemos de boa-fé e eventualmente ferimos alguém, acertamos o mal-estar por meio de pedidos de desculpa ou perdão. No mundo jurídico-político anistiamos, formalmente suprimindo fatos passados. Reinterpretações desfazem e mudam o passado. Pedir desculpas, perdoar e anistiar “lavam a alma” e são passaportes para recomeços. Mas, para apagar ou esconder o passado debaixo do tapete, como é comum no Brasil, é necessário um penoso, discutível e complexo refazer histórico-social — tipo, como esquecer a ditadura militar. É preciso o autoritarismo forte presente para controlar, conforme sabia o Grande Irmão de George Orwell, o passado.

Eis dois episódios que agasalhei na memória. Ambos ocorreram com um professor, inglês até a alma, que havia programado um jantar de sexta-feira com a esposa e, ao chegar em casa, com ela desentendeu-se. Algo banal, como uma toalha suja, despertou ressentimentos e, com eles, um inesperado ódio expresso em memórias amargas e frases agressivas. Em meio à tempestade, porém, o marido abriu um parêntese similar a uma desculpa e denunciou o mal-entendido. “Querida”, disse, “isso não está acontecendo. Eu vou sair e entrar novamente em casa e nós vamos jantar conforme combinado”. E assim foi feito.



Um outro evento com o mesmo professor confirma, quem sabe, essa capacidade humana de desconstruir, cujo melhor e mais dramático exemplo é o elo entre paz e guerra. Depois de uma impecável conferência em impecável estilo britânico para uma plateia encantada numa universidade do sul dos Estados Unidos, fomos jantar com um colega que hospedou o conferencista. Na manhã seguinte, fui tomar café com o anfitrião, que perguntou ao professor num misto de curiosidade e provocação: “Eu acho”, disse, “que fui muito ofensivo ontem, não?” Ao que, com notável elegância, o professor retrucou: “O que ocorreu ontem foi tão desagradável, mas tão desagradável, que eu simplesmente apaguei da minha memória”.

Se fazemos, podemos desfazer. Democracias podem desandar em regimes policialescos que trazem do passado escravocrático um viés semelhante ao dos nazifascismos e estalinismos. 

Vivemos um momento no qual se acende um alerta de apagão político-moral que suspende o bom senso. A direita bolsonarista tem como simbólico um inacreditável terraplanismo — um contrassenso indicativo de uma postura, digamos o mínimo, radicalmente irracional. Na política, não há dúvida de que se quer um presidencialismo absolutista. Uma outra contradição que, ao lado de um patológico familismo presidencial, completa a negação de solenes promessas de campanha. 

Em suma: testemunhamos tentativas de apagar o dito que se transforma num não dito, incompatível com uma necessária estabilidade capaz de minar a autoestima e o respeito internacional, sobretudo em tempos de pandemia num mundo globalizado.

Se esquecemos as implicações morais da escravidão e as obrigações igualitárias da República, por que, como adverte o jornalista Carlos Alberto Sardenberg no GLOBO, não livramos, por meio de um apagão legal, o principal condenado da Lava-Jato, avocando que o magistrado foi parcial? 

Mas, se isso for admitido, como o plano da lei e o caráter dos magistrados ficam perante todos os condenados na mesma operação anticorrupção que ainda está em curso?

Para quem duvida que o autoritarismo protofascista nacional é avesso ao igualitarismo, seria cabível livrar somente o ex-presidente, quando todos os seus asseclas foram investigados por um mesmo magistrado? Para os leigos em jurisprudência, tal livramento seria mais um “Você sabe com quem está falando?” na área criminal. Sabemos que a realidade pode ser manipulada, mas, por isso mesmo, temos consciência de limites. Um deles é a morte ou, no caso, o supremo suicídio da estrutura jurídica nacional. Esse instrumento que sustenta o regime republicano num simples ideal: o de que todos são iguais perante a lei, no caso, os julgados e condenados...

Resta candidamente avisar que apagar passados impede construir futuros.
Roberto DaMatta

Pensamento do Dia

 

Sem caráter, como toda nuvem

A frase é conhecida: “Política é como nuvem —você olha e ela está de um jeito; olha de novo e já mudou”. Deve ter sido inventada na Europa do século 18, mas, no Brasil, é atribuída ao mineiro Magalhães Pinto (1909-1996). Em março de 1964, como governador de Minas Gerais, ele se passava por aliado do presidente João Goulart. No dia 31, sentindo a mudança na nuvem, partiu para derrubá-lo. Mas, ao contrário do que esperava, não ganhou nada com isso. Bem feito, quem o mandou estar com a cabeça nas nuvens?



Há políticos que mudam tanto que nem as nuvens os acompanham. Vide Jair Bolsonaro. Só os papalvos o acreditavam diferente, mas de hora em hora se parece mais com os políticos que fingia combater. Ao sentir, por exemplo, que suas bravatas o estavam isolando, fez como todos os governos antes dele —comprou o centrão, com ministérios, bancos e verbas. Uma das moedas dessa compra foi passar o pano em Michel Temer e mandá-lo oficialmente ao Líbano.

A Lava Jato, em nome da qual Bolsonaro se elegeu, tornou-se a inimiga a destruir, no que ele se juntou a Lula, José Dirceu, Gleisi Hoffmann, Temer, Eduardo Cunha, Sérgio Cabral, Renan Calheiros, Romero Jucá e, agora, Aécio Neves, Geraldo Alckmin e José Serra, todos, por acaso, políticos cujas contas não fecham.

Há dias, José Sarney insinuou que deseja uma aproximação —que Bolsonaro, se for esperto, aceitará. Sarney é indispensável para qualquer governo que queira se garantir, motivo pelo qual Lula e Dilma Rousseff se deram tão bem com ele durante 14 anos. Bolsonaro, aliás, refreou seu desprezo pelo Nordeste e, como Lula, também decidiu garantir lá os votos para sua reeleição. Mas, para isso, terá de gastar dinheiro que não tem, no que ameaça ser acusado de irresponsabilidade fiscal, como Dilma.

Os bolsonaristas não elegeram um mito, como eles acreditam, mas uma nuvem —sem caráter, como toda nuvem.

A guilhotina do cancelamento

Devemos ao iluminismo do século 18 o direito ao dissenso e ao livre pensamento. Antes, as divergências de ideias eram resolvidas pela via da eliminação física. Basta lembrar os tempos da Santa Inquisição em que os hereges iam para a fogueira. Ou que em 1616 Galileu Galilei, cientista, físico, matemático, astrônomo e filósofo italiano, entrou para o index da Congregação do Santo Ofício e foi ameaçado de pena de morte ao comprovar e defender a teoria heliocêntrica de Nicolau Copérnico, segundo a qual a Terra e os planetas giravam em torno do sol. Teve de se desdizer publicamente, mas não deixou de estar certo.

A Revolução Francesa, com seus valores de liberdade, igualdade e fraternidade, abriu uma nova era, a idade da razão, produto do século das luzes. Os pensadores do iluminismo, John Locke, Montesquieu, Rousseau, Adam Smith, nos deixaram um legado inestimável.

Nem por isso, a sociedade moderna deixou de viver momentos de supressão das discordâncias das ideias pela via da violência, da eliminação física e da destruição de reputações. O nazismo alemão, a ditadura soviética, a revolução cultural chinesa, o macarthismo dos anos 50 nos Estados Unidos são exemplos disto. Ao final do século 20, com a derrocada do “socialismo real”, o ciclo do totalitarismo parecia ter se encerrado e os valores liberais pareciam ser os grandes vitoriosos.

Como a história não é linear, voltamos a viver novos retrocessos no século 21. A fogueira onde os “hereges” contemporâneos são queimados não é mais a do Santo Ofício. Nem a guilhotina que serviu para decapitar "inimigos da Revolução" em Paris. Hoje quem desempenha este papel são as redes sociais, onde o fenômeno da cultura do cancelamento reina livre, leve e solto.

Por meio dele, ataca-se a sobrevivência econômica de empresas e pessoas, destrói-se reputações de forma irreversível. Pratica-se um revisionismo histórico que ignora as circunstâncias de cada era, como se fosse possível analisar fatos acontecidos há mais de cinco séculos com a métrica e valores de hoje. Figuras históricas como Cristóvão Colombo, Monteiro Lobato e Princesa Isabel são submetidas ao crivo da nova inquisição.

Do ponto de vista ideológico, a cultura do cancelamento é pluralista. Identitaristas de esquerda e de direita a praticam exaustivamente. Um artigo da antropóloga Lilia Schwarcz sobre o álbum visual Black is King, da cantora Beyoncé, foi o suficiente para uma campanha de difamação deflagrada por movimentos negros, furibundos porque a antropóloga criticou o álbum por glamourizar a negritude. Levada ao pelourinho, teve de fazer o “mea culpa”, muito embora não haja uma só vírgula de racismo em sua análise.

Caso semelhante aconteceu com a autora da série Harry Porter, J.K Rowling, execrada nas redes sociais por ter dado uma declaração na qual dizia que havia diferenças biológicas entre o homem e a mulher. Não deu outra, foi acusada de machista e teve de se explicar publicamente.

A tática de atacar a sobrevivência das pessoas tem se mostrado eficaz. A influenciadora digital Gabriela Pugliesi teve prejuízo de 2 milhões de reais depois de ser cancelada por ter dado uma festa durante a pandemia. Nos Estados Unidos, um pesquisador contratado por uma consultoria progressista foi demitido por ter divulgado no twitter um estudo no qual mostrava que, nos anos 60, protestos antirracistas violentos aumentavam o percentual de votos nos candidatos republicanos e quando aconteciam de forma pacífica favoreciam os democratas nas eleições.



Em vez de refletir sobre o estudo, militantes da causa antirracista usaram as redes sociais para exigir a demissão do pesquisador, por ver em seu estudo uma crítica às manifestações em protesto ao bárbaro assassinato de George Floyd.

Uma frase infeliz, um gesto mal interpretado, são motivos para destruir reputações construídas ao longo de toda uma vida. O médico Drauzio Varella deveria ser uma unanimidade nacional. Em vez disso, foi vítima de uma campanha difamatória por ter dado um abraço numa transexual presa por assassinar e estuprar uma criança.

A cultura do cancelamento reproduz o que o macarthismo fazia nos anos 50. O clima de intolerância, de supressão do contraditório, tornou-se irrespirável. É preciso abrir as janelas para os ventos da liberdade reoxigenar a humanidade.

A carta de 150 intelectuais americanos das mais variadas tendências políticas, divulgada no mês passado, foi um sopro de esperança. Entre seus signatários estão personalidades de esquerda como o linguista Noam Chomsky, escritores como o consagrado Salman Rushdie, autor de Os Versos Satânicos e vítima da intolerância do fundamentalismo islâmico, ou a autora e roteirista de Harry Porter, J. K. Rowling.

Diz a Carta: “A livre troca de informações e ideias, força vital de uma sociedade liberal, tem diariamente se tornado mais restrita. Enquanto esperávamos ver a censura partir da direita radical, ela está se espalhando também em nossa cultura: uma intolerância a visões opostas, um apelo à vergonha pública e ao ostracismo e a tendência de dissolver questões políticas complexas com uma certeza moral ofuscante".

Os autores tocam num ponto nevrálgico. Não está em questão a justeza da causa dos direitos da mulher, dos negros, da diversidade de gênero, dos índios. Mas uma visão distorcida dessas causas findam por desservi-las ao segregar, em vez de unir. De certa forma, essa crítica já foi feita por Mark Lilla, em seu livro “O progressista de ontem e o de amanhã”. O antropólogo e historiador Antônio Risério também pôs o dedo na ferida ao apontar que movimentos que nasceram inclusivos se tornaram excludentes ao caírem no identitarismo.

O grande mal da cultura do cancelamento é seu reducionismo. O mundo é bem mais complexo do que o simplismo das redes sociais e suas guilhotinas.

O projeto conservador

Há 100 anos, o livro de um autor até então desconhecido, com 37 anos, fez estrondoso sucesso literário e político: Populações Meridionais do Brasil, de Oliveira Viana. Escrito entre 1916 e 1918, levou dois anos para ser publicado, pela livraria José Olympio. Somente um intelectual da época ousou contestá-lo, Astrojildo Pereira, um dos grandes biógrafos de Machado de Assis, jornalista, crítico literário e anarquista, que se converteria ao marxismo e, dois anos depois, fundaria o Partido Comunista. O que dizia Viana? Ele definia três arquétipos para o povo brasileiro: o sertanejo, o matuto e o gaúcho, os quais pretendia analisar, desenvolvendo um projeto de pesquisa ambicioso, ao qual deu sequência com a publicação meteórica de mais quatro ensaios: O Idealismo da Constituição (1920), Pequenos Estudos da Psicologia Social (1921), Evolução do Povo Brasileiro (1923) e O Ocaso do Império (1924). O primeiro volume de Populações Meridionais do Brasil dedicou aos paulistas, fluminenses e mineiros; o segundo, ao campeador rio-grandense. Partia do homem para criticar as instituições da época.

“O sentimento das nossas realidades, tão sólido e seguro nos velhos capitães gerais, desapareceu, com efeito, das nossas classes dirigentes: há um século vivemos praticamente em pleno sonho. Os métodos objetivos e práticos de administração e legislação desses estadistas coloniais foram inteiramente abandonados pelos que têm dirigido o país depois da independência. O grande movimento democrático da Revolução Francesa; as agitações parlamentares inglesas; o espírito liberal das instituições que regem a república americana, tudo isto exerceu e exerce sobre nossos dirigentes, políticos, estadistas, legisladores, publicistas, uma fascinação magnética que lhes daltoniza completamente a visão nacional dos nossos problemas. Sob esse fascínio inelutável, perdem a noção objetiva do Brasil real e criam para uso deles um Brasil artificial e peregrino, um Brasil de manifesto aduaneiro, made in Europa, sorte de Cosmorama extravagante. Sobre o fundo de florestas e campos, ainda por descobrir e civilizar, passam e repassam cenas e figuras tipicamente europeias.”


Oliveira Viana faz um ataque frontal aos liberais brasileiros, corroborado pela iniquidade social que havia sido desnudada por Euclides da Cunha, ao descrever a Guerra de Canudos, n’Os Sertões. Concluía que era preciso “coragem infinita” para “contravir ostensivamente às ideias de liberdade e construir um poderoso Estado centralizado, capaz de impor-se a todo o país pelo prestígio fascinante de uma grande missão nacional”. Ao dizer que era impossível reproduzir aqui no Brasil o parlamentarismo inglês, o liberalismo democrático à francesa, ou o federalismo e descentralização republicana ao estilo americano, como lembra o falecido jornalista e cientista político Gildo Marçal Brandão, em Linhagens do Pensamento Político Brasileiro (Hucitec), Oliveira Viana recomendava uma intervenção radical pelo Estado, destinado a promover a industrialização e criação de bases sociais aptas a sustentar governos liberais, o que alguns viram como uma espécie de “autoritarismo instrumental”.

Música para a jovem oficialidade do Exército, que daria início às rebeliões tenentistas, e para o castilhismo gaúcho, o suprassumo do nosso republicanismo positivista mais autoritário, que desaguariam na Revolução de 1930. A consagração das ideias antissistema de Oliveira Viana viria com o Estado Novo, do qual foi o grande ideólogo, e a “Polaca”, a Constituição de 1937, redigida por Francisco Campos e outorgada pelo ditador Getúlio Vargas. Ironicamente, Jorge Caldeira, em História da Riqueza no Brasil (Estação Brasil), destaca que o colapso político da República Velha interrompe mudanças importantes que estavam em curso, alavancadas por nosso mercado interno e a economia do sertão, como o aumento de rentabilidade da exportação de café, a grande acumulação de capital dos cafeicultores paulistas, que apostaram na industrialização, e não no patrimonialismo, ao contrário das oligarquias rurais que Viana enaltecera.

Segundo Caldeira, em 1920, o Brasil tinha 30 milhões de habitantes, 13,3 mil indústrias, 275 mil operários, produzia 775Gwh de energia elétrica. O Correio transportava 642 milhões de itens. Havia 28,5 mil quilômetros de ferrovias, que transportavam 16,5 milhões de toneladas. Os investimentos, estagnados durante a guerra, eram de 1,1 milhão de libras esterlinas e chegariam a 2,8 milhões, em 1929. Exportava-se 11,5 milhões de sacas de café, cujo rendimento era de 40,4 milhões de libras esterlinas. O percentual da população alfabetizada chegava a 28,8%. Era uma época em que o Estado arrecadava 6% do PIB, ou seja, o setor privado ficava com 94%. A União era responsável por 3,5% desse montante, os Estados com 2,% e os municípios com 0,5%. O país crescia graças ao desenvolvimento capitalista, a conexão entre a economia do sertão e a economia de exportação financiava a industrialização.

Entretanto, o Centenário da Independência desencadearia o questionamento de quase tudo, com a Semana de Arte Moderna, a criação do Partido Comunista, as rebeliões tenentistas, como a Revolta Paulista de 1924 e a Coluna Prestes, no mesmo ano. Qual seria o projeto de país para os 100 anos seguintes? À época, esse debate foi hegemonizado pelas ideias de Oliveira Viana, que tiveram sua grande recidiva após o golpe de 1964, no Sesquicentenário da Independência, no auge “milagre econômico” do regime militar. Agora, no governo Bolsonaro, a dois anos do bicentenário da independência, elas parecem renascer das cinzas, como fênix, diante da grande interrogação: que país seremos daqui a 100 anos?

'A revolução dos bichos' de Orwell: quem são os porcos?

A fábula de George Orwell se passa numa fazenda: "O Sr. Jones, proprietário da Granja do Solar, fechou o galinheiro à noite, mas estava bêbado demais para lembrar-se de fechar também as vigias".

É com palavras simples que o britânico George Orwell (1903-1950), cujo nome verdadeiro era Eric Arthur Blair, começa sua narrativa sobre os animais de uma fazenda que planejam uma revolução contra o proprietário explorador. O mestre da crítica social jamais poderia imaginar que A revolução dos bichos se tornaria um clássico da literatura política.

Orwell escreveu o livro entre fins de 1943 e 1944. Em seu país natal, porém, ele não encontrou nenhuma editora que o publicasse, pois o que a princípio parecia uma história infantil inofensiva era, na verdade, uma sátira sombria e uma dura acusação contra a ditadura de Stalin na União Soviética.

E como a URSS era aliada do Reino Unido contra a Alemanha nazista na Segunda Guerra Mundial ainda em curso, a publicação de tal história não parecia nada oportuna. Em 1945, Animal Farm foi finalmente lançada pela Secker & Warburg.

E de que trata a fábula? Com um discurso impressionante, o idoso e respeitado javali Velho Major abre os olhos dos animais da fazenda para a incompetência do proprietário Sr. Jones, um fazendeiro constantemente bêbado, e classifica os humanos como exploradores que precisavam ser expulsos por uma revolução. Mas ele também adverte sobre o risco de se tornar igual aos humanos: "Todos os animais são iguais, independentemente de sua força ou inteligência."

Quando o Velho Major morre logo após o discurso, os animais aproveitam a oportunidade para expulsar o fazendeiro Jones da fazenda, sob a liderança dos porcos Napoleão e Bola de Neve. No começo, todos os animais governam juntos e tudo fica melhor: eles trabalham duro porque trabalham para si próprios e são solidários uns com os outros.

A Granja do Solar é então rebatizada Granja dos Bichos. Os espertos porcos, porém, logo assumem o comando e gradualmente transformam sua supremacia em ditadura, ofuscando tudo aquilo de que os animais queriam se livrar. Os porcos justificam seu poder com o slogan: "Todos os animais são iguais, mas alguns são mais iguais que os outros".

As diferenças entre humanos e porcos como governantes se diluem no final do romance – também de forma visual. Os outros animais da fazenda não conseguem mais reconhecer quem é gente e quem é porco, ou quem é capitalista e quem é socialista.

A revolução dos bichos descreve o curso de uma revolução condenada ao fracasso. Orwell acreditava que as revoluções são capazes de mudar o poder de mãos. As estruturas sociais básicas, entretanto, permanecem intocadas: os poucos poderosos continuam a explorar uma maioria sem direitos.



A revolução dos bichos foi estritamente proibida na União Soviética e seus Estados-satélites. E no entanto George Orwell era um esquerdista convicto: membro do Partido Trabalhista Independente inglês, que na Guerra Civil Espanhola chegou a lutar nas fileiras do Partido Operário de Unificação Marxista (POUM), um grupo comunista visto como concorrência pelo stalinismo soviético.

A primeira tradução alemã do livro apareceu em 1946. Na República Democrática da Alemanha (RDA), no entanto, o livro extremamente desconfortável permaneceu censurado até a queda do Muro de Berlim e a dissolução da Alemanha Oriental, em 1989, assim como outra obra de Orwell, 1984.

Após a morte de Orwell, em 1950, o serviço americano de inteligência CIA comprou os direitos do filme para ganhar vantagem contra a União Soviética na Guerra Fria. O desenho animado A revolução dos bichos foi produzido no Reino Unido entre 1951 e 1954 por John Halas e Joy Batchelor.

Embora guiando-se basicamente pelo original, o enredo desemboca numa segunda revolução contra o domínio dos porcos. Afinal, em plena Guerra Fria, a CIA dificilmente deixaria capitalistas e socialistas em condição de pé de igualdade, como Orwell fez no final do romance.

Na adaptação cinematográfica de 1999, John Stephenson mudou o enredo consideravelmente ao incorporar o colapso da União Soviética em 1989 e terminar com um final feliz próprio para crianças: após anos sob o domínio dos porcos, novos humanos reassumem o controle da fazenda. Os animais gritam: "... e finalmente ficamos livres!"

Com seus livros, o jornalista e escritor britânico George Orwell queria chamar a atenção para as mazelas políticas, muitas vezes empregando para tal a forma de sátira. A revolução dos bichos e 1984, publicado em 1949, estão entre suas obras mais famosas. Neste último, ele também demonstrou o que significa viver num Estado autoritário em que há vigilância total e onde os cidadãos são manipulados pela propaganda.

A revolução dos bichos é uma fábula que se encaixa em qualquer sistema totalitário. E que, apesar de seus 75 anos de existência, permanece tristemente atual.

quarta-feira, 19 de agosto de 2020

Pensamento do Dia

 

Em defesa do livro

A proposta de incluir a taxação do livro na reforma tributária, como quer o ministro Paulo Guedes, encarecendo em até 20% o preço de capa do exemplar, continua provocando reações. Para Ricardo Ramos Filho, presidente da UBE (União Brasileira de Escritores), a medida conspira contra os objetivos de desenvolver e aumentar a competitividade do país no cenário internacional.

O êxito nessas metas depende substancialmente da formação cultural e técnica que é impossível sem o acesso amplo à leitura, que não deve ser um privilégio, mas uma prerrogativa de toda a população.


Mais grave do que a própria proposição é a justificativa do ministro, de que “livros são artigos para a elite”, e o governo “os dará de graça aos pobres”. Ricardo Ramos conclama o poder público em todas as instâncias e a sociedade a se conscientizarem de que o valor dos livros diz respeito também à construção da cidadania. Além disso, a aparente generosidade oficial traz embutida uma sutil forma de doutrinação: o governo doa não só os livros, como o que se deve ler.

Mas eis que o colunista Lauro Jardim descobriu que as editoras têm um aliado de peso para não deixar que a reforma tributária de Paulo Guedes acabe com a isenção de impostos dos livros — a bancada evangélica. Ele explica: “em suas várias versões, a Bíblia continua sendo um dos livros mais vendidos do país, ano após ano”.

Não por acaso, ele classificou essa ajuda de “divina”.

Já o documento oficial da União Brasileira de Escritores, depois de considerar essas questões, termina manifestando sua “indignação” ante a proposta de tributação dos livros, que ameaçaria de modo grave a sobrevivência do setor, afetando editoras, livrarias e gráficas, em especial as pequenas, atingindo de modo contundente o mercado de trabalho e a renda de autores e demais profissionais.

Trata-se de um governo coerente: assim como nega a ciência e despreza a cultura, valoriza as armas e taxa os livros.

Confissão do latifúndio

Por onde passei,
plantei
a cerca farpada,
plantei a queimada.

Por onde passei,
plantei
a morte matada.


Por onde passei,
matei
a tribo calada,
a roça suada,
a terra esperada…

Por onde passei,
tendo tudo em lei,
eu plantei o nada.
Pedro Casaldáliga 

O integralismo no poder

Culto à personalidade. Estímulo à compreensão messiânica da liderança. Forja de inimigos artificiais. Discurso autocrático, antiliberal e anticomunista, de fé nacionalista, embocadura cristã e musculatura miliciana para o confronto. Fetiche com a projeção fálica de uma intervenção militar. Constituição de uma máquina panfletária para difundir teorias conspiratórias. Críticas doutrinárias à democracia, propositalmente confundida com o (criminalizado) establishment e entendida mesmo como empecilho; sendo necessário — em nome de uma nova política — destruir os padrões viciados da atividade político-partidária.

A que me refiro? Estarei incorrendo em repetição, mais uma vez esmiuçando o caráter da revolução reacionária bolsonarista? Sim e não.

Sim; porque esses elementos compõem o sistema de crenças do bolsonarismo, com sua pulsão de morte e a incapacidade de lidar com a liberdade senão como condição para impor os próprios modos. E não; porque me dediquei a listar somente estandartes do “Estado integral” segundo a doutrina do integralismo — o maior movimento de extrema-direita da História do Brasil até hoje, cuja influência tem assento no governo Bolsonaro e integra o pensamento do dito grupo ideológico, que prefiro chamar de sectário, aquele, poderoso, olavista, que toca a tal guerra contra o tal marxismo cultural.



Integralismo em 1932: algo novo — atraente para a juventude — numa sociedade intolerante (pautada pelo autoritarismo de Vargas) e amedrontada; o clima de medo (o perigo vermelho) impulsionando a adesão e o financiamento ao movimento. O ideal “Deus, pátria e família” encarnado no chefe nacional Plínio Salgado; o líder para o exercício do que seria uma democracia orgânica — que prescindiria das intermediações da democracia representativa.

Bolsonarismo em 2018: algo novo — sedutor para os jovens — numa sociedade intolerante (condicionada pelo espírito do tempo lavajatista) e amedrontada; o clima de medo (o Foro de São Paulo à espreita) impulsionando a adesão e o financiamento ao fenômeno. O slogan “Brasil acima de tudo, Deus acima de todos” encarnado no mito Bolsonaro; aquele que fala diretamente ao povo, líder para o exercício do que seria uma democracia plebiscitária — que tornaria desnecessária qualquer mediação político-institucional.

Em 1969, o integralismo — obcecado pelo controle das formações individuais — seria o agente político que implementaria a disciplina de Educação Moral e Cívica no país. Em 2020, o integralismo domina — não à toa, como base estratégica para a reconstituição de uma fantasiosa civilização brasileira —o Ministério da Educação; e também a pasta dos Direitos Humanos.

O mais antigo alerta — ao menos para este escriba — sobre as semelhanças entre o bolsonarismo e a tradição integralista foi do publicitário Alexandre Borges, notável conhecedor da dinâmica política dos anos 1930, cuja natureza autoritária desaguaria na ditadura do Estado Novo. Ele me chamava a atenção para o caráter militarista do integralismo — aliás, muito aderente entre militares — e para a importância, no esquema do movimento, da milícia integralista, que conjugava serviço de informações e planejamento para operações policiais; que, na prática, resultaram em ações armadas tanto quanto nos fundamentos do que seria a Lei de Segurança Nacional.

Ainda no final de 2017, diante do fosso de oportunidades aberto pela depressão política que nutria discursos que costuravam elogio à autoridade e desprezo à atividade político-partidária, Borges informava que estudar apenas a emergência do nacional-populismo nos EUA e na Europa, embora necessário, não bastaria; e que seria mesmo preciso olhar para dentro, para a história do integralismo, a experiência fascista brasileira, com seu ímpeto para o golpismo, se quiséssemos compreender o conjunto de valores reacionários — cultura enraizada em quase século — que anima e lastreia o bolsonarismo. (E que não nos enganemos sobre a guinada circunstancial — com objetivo em 2022 —que leva Bolsonaro a uma quadra mais populista que autoritária.)

Há dois livros novos a respeito na praça. “O fascismo em camisas verdes”, de Leandro Pereira Gonçalves e Odilon Caldeira Neto, publicado pela FGV Editora. E, pela Planeta, “Fascismo à brasileira”, de Pedro Doria. São trabalhos fundamentais, muito bem pesquisados (o de Doria, ademais, um thriller), que tiram da estante do exotismo, como se passagem irrelevante de nossa história, um movimento que — desde a década de 1930 — nunca deixou de estar entre nós; muito articulado, por exemplo, tanto à TFP quanto aos skinheads brasileiros, cujo tripé misoginia, racismo e homofobia é facilmente identificado no DNA do que se convencionou chamar de nova direita no Brasil.

Duas obras que retratam o integralista como uma espécie de soldado de Deus e da pátria, responsável pela construção de uma grande nação; o que seria destino indesviável deste país. Não é uma fotografia de época.

Justiça alemã decide que recolher comida do lixo é roubo

Após meses de disputas judiciais, o Tribunal Constitucional da Alemanha decidiu nesta terça-feira  que a prática de recolher comida do lixo pode ser punida como roubo.

O caso em questão teve início em 2019, quando duas estudantes foram apanhadas recolhendo alimentos do contêiner de lixo de um supermercado da Baviera. Como o recipiente estava trancado e pronto para a coleta, a Corte Suprema do estado classificou a ação como roubo.


As jovens, Caro e Franzi, foram condenadas a cumprir oito horas de serviços à comunidade em liberdade condicional e receberam multa de 225 euros. Em novembro, elas recorreram junto ao Tribunal Constitucional. "Não prejudicamos ninguém", alegaram, ressaltando que o supermercado não tinha mais interesse nos itens, que simplesmente apodreceriam no lixo.

As duas ganharam o apoio da ONG Sociedade para os Direitos de Liberdade (GFF, na sigla em alemão), que se propõe a defender nos tribunais casos referentes a direitos e liberdades individuais. De seu ponto de vista, coletar comida jogada fora não representa prejuízo para a sociedade.

O contêiner estava numa zona de entregas do supermercado, pronto para ser recolhido. Segundo os juízes, as estudantes o abriram usando uma chave de boca que haviam trazido.

As acusadas alegaram que o supermercado não tinha interesses digno de proteção na comida descartada, portanto seria inadequado criminalizar a retirada dos alimentos. Além disso, seria necessário o manejo responsável e sustentável dos alimentos, com vistas ao bem comum. O desperdício maciço e, em muitos casos, evitável, é nocivo à sociedade, argumentaram.

O Tribunal de Karlsruhe não aceitou a apelação apresentada pelas duas jovens. Segundo os juízes, a legislação deve "proteger os direitos fundamentais de propriedade civil previstos na lei, mesmo em termos de itens sem valor econômico".

O supermercado em questão, como proprietário dos alimentos, pretendia que os itens fossem destruídos pela empresa de coleta de lixo "de modo a excluir qualquer risco de responsabilização pelo consumo de alimentos parcialmente expirados e possivelmente também estragados", segundo a decisão da corte. Portanto, esse interesse do estabelecimento de não ser exposto a deveres de diligência adicionais pela segurança dos alimentos deve ser fundamentalmente aceito.

Os juízes sugeriram que deveria haver meios de lidar com o desperdício de comida de maneira diferente, mas ressalvou não caber à Justiça avaliar o melhor modo de fazê-lo, e sim ao Legislativo.

A Sociedade para os Direitos de Liberdade em Berlim declarou que "a decisão deixa claro que os políticos devem agir" para mudar as leis. Punir "quem resgata alimentos comestíveis do lixo" iria de encontro ao objetivo declarado do governo federal de evitar o desperdício de alimentos, criticou a entidade.

Sobre o horror

Não sei o que é mais assustador: as linhas em branco ou a escuridão absoluta. Talvez seja uma questão do momento. Abro o computador e leio sobre a confusão em frente ao hospital em que uma menina de 10 anos está internada. Ela está lá para fazer um aborto legalmente amparado, ressalto, embora não devesse ter a necessidade em tempos novos. Ela foi estuprada pelo tio por quatro anos, ou seja, desde os 6 anos de idade. A confusão se deu pois grupos foram protestar contra o procedimento. Chamaram a menina e os médicos de assassinos e houve tentativa de invasão ao local. Uma menina de 10 anos grávida após anos de abuso sexual. Quem lê estas linhas provavelmente já está ciente do caso. Repito, porque a atrocidade, a vileza que empesteia a mente e os atos dos que se julgam guardiões da moral me choca a quase um nível de incredulidade. Não deveria me espantar em tempos reacionários, mas ainda é difícil. É duro acordar para este mundo.



Encaro a esperança como uma página vazia. Algo que devemos preencher e ser preenchidos de volta. É inútil desejar uma melhoria sem pôr a cara a tapa. Sem ter a força para permanecer em pé enquanto apanhamos das dificuldades. É preciso ter muita presença de espírito, casca grossa e um par de sapatos de corrida confortáveis. A realidade em meio a ódio e incerteza testa, e clama por nosso pior lado. Que quer desistir, que quer bater sem saber o motivo, que deita em posição fetal. Qual é o manual de condicionamento mental para proteger da loucura alheia, que sussurra para a sua loucura de estimação? Se só acaba quando termina, como saberemos que este é o fim, meu belo amigo? Santo Rocky Balboa, rogai por nós.

Revi “Apocalypse Now”. A versão “redux”, de 3h22, que considero mais imersiva em seu tema. Mais do que um filme de guerra, é uma alegoria para o enlouquecimento em seu estado mais selvagem. A fala do destruído coronel Kurtz ecoa: “O horror… O horror…”. A cena real é paralela à encenação fílmica. Um ambiente de caos, em que líderes absolutos brotam de dentro da selva e sacrificam os seus por causas pessoais. O horror e o terror moral são amigos, em que o coração é usado para amar e matar. É impossível descrever de forma adequada o horror. Talvez daí minha reação estática, de congelamento, quando me deparo com aqueles que preferem estupro e a morte de uma criança em nome de um propósito escuso. O exército de Kurtz se transfigurou nesses que acamparam em frente a um hospital em busca de sangue. A tela escurece.

A crônica inicia o último round. Escrever é dar uma mão em uma terra desesperada. A quem, não sei. A zona de guerra que habitamos são linhas em branco que formam a narrativa humana. O autor preenche a página com letras e espaços. Como o ser humano o faz? A comoção instantânea ou parcial não tapa sequer os buracos entre os dentes. Hoje a tragédia da menina comove, com razão. Entretanto, há o mesmo sentimento quando uma mulher mais velha é abusada e desacreditada? O ato é o mesmo. As reações, no entanto, divergem. Enquanto não se há empatia, se pôr no papel de quem sofre, apenas explodimos bombas retóricas a esmo e acertamos inocentes. Como a crônica, terá uma função de ser preencher um espaço e sumir. Seu único amigo é o fim, assim como este o é para a tristeza e a raiva. O que assusta é preenchimento pela escuridão absoluta. O momento de ocupar de outra forma os espaços não deve se restringir ao agora. Deve ser sempre.

terça-feira, 18 de agosto de 2020

Brasil infanticida

 

Mais armas, menos livros

O governo quer gastar mais com militares do que com estudantes em 2021. O plano é coerente com a trajetória de Jair Bolsonaro. O capitão foi para a reserva há 32 anos, mas nunca tirou os pés do quartel. Na política, sempre atuou como um sindicalista da farda.

O Brasil não está em guerra e não tem motivos para se preocupar com as fronteiras. Mesmo assim, o Planalto pretende aumentar as verbas do Ministério da Defesa em 49% na comparação com o projeto de Orçamento enviado ao Congresso no ano passado.

Segundo o jornal “O Estado de S.Paulo”, a pasta deverá receber R$ 5,8 bilhões a mais do que o Ministério da Educação. Isso não ocorre há uma década, quando o investimento nas salas de aula ultrapassou as despesas com a caserna.

Desde que vestiu a faixa, Bolsonaro mima as Forças Armadas com vantagens e privilégios. Os militares foram poupados na Reforma da Previdência, ocuparam dez ministérios e abocanharam mais de seis mil cargos civis. Em julho, ganharam reajuste de até 73% num penduricalho incorporado ao contracheque.


O presidente não desgruda da tropa. É arroz de festa em posses, aniversários e formaturas de cadetes. Na última viagem ao Rio, ele visitou três quartéis e inaugurou uma escola cívico-militar. Em todos os compromissos, levou a tiracolo o ministro da Educação, Milton Ribeiro.

Na sexta-feira, capitão e pastor se deixaram fotografar diante do escudo do Bope. O emblema é composto de uma caveira, uma faca e dois revólveres. A simbologia perfeita do bolsonarismo, que exalta as armas e despreza o conhecimento.

Nem a pandemia convenceu o governo a dar prioridade à educação. Ontem o MEC anunciou um plano para levar internet a alunos de universidades e institutos federais. Levou cinco meses para notar que estudantes pobres não têm banda larga em casa.

Agora o Ministério da Economia quer taxar a venda de livros, isenta de impostos desde 1946. O novo encargo ameaça sufocar editoras e livrarias. Paulo Guedes não se importa. Em debate com parlamentares, ele sugeriu que ler é passatempo de rico.

O efeito bumerangue da reeleição

O pobre é aquele desamparado ser humano que mais transfere seu poder ao político. As maquinações que a política faz com seus sentimentos são dramáticas. Seu maior inimigo no Brasil é a reeleição. Originária da década de 1990, como o Plano Real, se este mirou longe como um telescópio, a reeleição é sombria como um microscópio.

Cada vez que alguém se reelege, tudo piora. Como outra vez agora, que depois de injetar 1.3 trilhões na economia e de enterrar mais de 100 mil eleitores em cinco meses, sobe três pontos nas pesquisas e conta com a reeleição para fazer pior por mais quatro anos.

Sustentada pela preguiça de nossos costumes, a reeleição esgotou todas as possibilidades de a política pretender servir ao bem comum por meios melhores. E fantasiosamente transformou pesquisa de opinião, em qualquer época, em fator de reeleição. Porque é tal a super cobertura do fenômeno que qualquer situação inelegível é incluída na análise.

Fabrique o exótico, amplie o familiar. O conjuntural virou estrutural e o oportunismo das coalizões virou jogada de mestre, escondendo a corrupção de costumes embaixo da cooptação eleitoral do governante no poder.

As consequências metodológicas disso nas ciências sociais e políticas foram terríveis. Acertar o que vai acontecer passou a devorar qualquer análise de fatos e realidade. E a imagem que os institutos de pesquisa passaram a ter de si mesmo passou a ser a de ator político reduzindo tudo a explicação psicológica e fatores de ordem pessoal.

Reeleição então é um conjunto aquiescente de respostas de entrevistados não querendo decepcionar entrevistadores para fixar o valor apurado do eleitor. Pura e facciosa especulação.



O fato sucessório, como única experiência comum que interessa à análise política, introduziu um erro padrão no acompanhamento da gestão governamental que é analisar o desempenho do Executivo pelo viés eleitoral. Como se bom para o país fosse o sujeito que planeja outro filho, sem ter sido capaz ainda de criar bem o que já tem.

Reeleição é regra artificial cuja importância é a auto-importância que a política se dá, um esteio que se sobrepõe a todos os outros. Nascida como um viés pessoal do governante, não é um aspecto essencial da história ou da genética brasileira. O modelo consolidou-se como uma deficiência imposta ao país por grupo político inábil para conduzir sua sucessão e logo entrelaçou todas as nossas outras deficiências.

O princípio nasceu como expediente privado e se mantém com sua natureza de erro, um reino objetivo de atraso, comodidade e corrupção de costumes e valores governamentais. O que se obtém de bom com a reeleição? Para o país, nada.

Instituída por emenda constitucional em junho de 1997 com a desculpa de proteger o Plano Real (julho 1994) dos seus adversários, se tornou a razão da agonia e morte da prosperidade econômica. Vendo assim, a reeleição funcionou como um antídoto contra a economia liberal. Uma conspiração política do governo que criou o Real contra a lógica do Real.

Assim, o plano econômico impulsionador do processo histórico de independência para todo o povo foi trocado pela criação e desenvolvimento de uma comunidade política baseada na solidariedade corporativa (fisiologismo, base do governo, centrão) que bloqueou o diálogo livre entre o Estado e a Sociedade.

A reeleição resolveu para o patrimonialismo brasileiro uma contradição histórica do país: o Estado conseguiu finalmente centralizar, pela via política, seu caráter disperso e de grupos. A política feudal dos partidos passou a dirigir a economia da elite tradicional. Todos os três presidentes que se beneficiaram da reeleição fizeram campanhas economicamente absurdas para se reelegerem e um segundo governo desastroso para suas biografias e o horizonte do país.

Estão aí as consequências desse acúmulo de erros. É ela que desencoraja a sociedade para a autonomia e induz o eleitor à hipocrisia. Quando a elite é tão sem juízo não adianta pedir ao povo para ser melhor.

Contraditoriamente, subproduto de um plano econômico idealista, técnica e materialmente sustentado, aceito e compreendido, a reeleição foi usada como um freio político para remediar arranjos circunstanciais de interesse de grupos, vetar a circulação de líderes e dar segurança de vitória eleitoral antecipada. Até hoje este é o seu motor de arranque, a sua única razão de ser.

O Plano Real, com a autoridade cívica e profissional de sua brilhante equipe de formuladores, era um pensamento e uma ordem econômica para transformar brasileiros em cidadãos. O princípio da reeleição foi acoplado a ele como um contra pensamento de desordem, uma regra de solidariedade interna de grupos políticos e comodidade governamental responsável por desfazer os sonhos do cidadão e o reduzir a suas necessidades imediatas.

É infalível, quem mais paga tributo à reeleição é a verdade e a estabilidade econômica e o progresso do país. E a coisa é feita ardilosamente pondo a culpa na pobreza e desigualdade social. Porque desde então a principal desculpa para rejeitar qualquer regra de austeridade ou responsabilidade fiscal do Estado é a necessidade de atender emergencialmente os eleitores pobres.

É o velho laço entre a ambição e a inércia. Uma dualidade ilógica: a reverência aos pobres anunciada como irreverência ao que poderia retirá-los da pobreza que é a boa e previsível ordem econômica do país.

Mergulhe fundo na alma dos dois personagens, o candidato e o eleitor, e assim então se compreende: qualquer mudança significativa na vida de um não depende de esforços humanos e boas e estáveis regras socioeconômicas, mas de ser dócil, crédulo e obediente ao outro.

A reeleição congela na cabeça do povo o modo moderno de mudar de vida. A política, e sua inclinação contra a riqueza legal e legítima, tomou a direção oposta da estabilidade econômica, a única maneira de acabar com a pobreza que se tornou o combustível da má democracia eleitoral que praticamos.

Pensar, isolada e emocionalmente, em qualquer política distributivista de benefícios sociais compensatórios sem enfrentar a necessidade de abolir a reeleição é blefar com os fatos. Veja valor na população e refaça o tempo do mandato, mas arrebente com a cerca do curral eleitoral que é a reeleição para que as ideias circulem e o país tenha acesso a outra realidade política.

Evitar o tema é não querer reduzir as repugnantes influências da reeleição na manutenção da pobreza confirmando a negligência e a hipocrisia da política diante das ideias igualitárias.

A estabilidade econômica favorece o impulso para a independência, a reeleição consolida o costume de depender. Ela dissolve os antagonismos de opinião, endossa o despotismo dos braços fortes do Estado, favorece o dirigismo moral contra os que estão em desvantagem na sociedade.

A tirania da reeleição é um moinho triturador da mobilidade social e do rejuvenescimento das práticas políticas. Uma pilha de pedras para contenção da mudança erguida pelos políticos para seus próprios fins. A reeleição impôs ao país tal apatia moral que não nos permite reavaliar a ignorância que tal princípio propaga.

Bolsa Família e Bolsonaro

“O voto do idiota é comprado pelo Bolsa Família”, disse Jair Bolsonaro, certa vez. Ele já definiu esse programa como a forma de “tirar dinheiro de quem produz para dar para quem se acomoda”, e pediu que fosse extinto. Em 2017, em Barretos, afirmou que “para ser candidato a presidente tem que falar que vai ampliar o Bolsa Família”. No mundo inteiro, o Bolsa Família sempre foi elogiado por ter foco, baixo custo, e porque através dele foi criada uma rede de proteção social aos mais vulneráveis no Brasil. Esse presidente, que tem tal desprezo por essa política social, fará agora o Renda Brasil. Seu objetivo é um só: o de se reeleger.


Todas as ações anteriores de Bolsonaro negam qualquer compreensão da importância de políticas de transferência de renda. Em março, foram cortados 158 mil beneficiários do Bolsa Família, 61% eram no Nordeste. Os governadores, então, foram ao Supremo, que na semana passada confirmou a decisão do ministro Marco Aurélio de proibir novos cortes enquanto durar a pandemia. Em junho, o governo tentou tirar dinheiro do Bolsa Família para gastos com publicidade do Planalto. Na quinta-feira passada, o ministro Paulo Guedes, em entrevista a um instituto espanhol, revelou que haverá um acréscimo de seis ou sete milhões de beneficiários. No dia da reunião sobre o teto, Guedes gastou um bom tempo falando no Alvorada que o Renda Brasil será criado. Era uma forma de dizer para o presidente que cortaria gastos, mas daria para ele o Bolsa Família com outro nome.

O mais popular e mais bem-sucedido programa social do Brasil foi tecnicamente bem feito, resultou de estudos de especialistas e nasceu dos programas definidos como Bolsa Escola. Algumas vezes, foi usado nas campanhas, quando se disseminavam boatos de que um determinado candidato acabaria com ele. No caso de Bolsonaro, parecia possível porque ele sempre fez críticas. Mas hoje o programa foi incorporado ao rol das políticas públicas que permanecerão. O que se quer agora é reempacotá-lo para servir à reeleição de Bolsonaro. A equipe econômica tem trabalhado com esse objetivo declarado.

Num vídeo postado por Bolsonaro na segunda-feira, o presidente da Caixa Econômica Federal (CEF), Pedro Guimarães, está no aeroporto, faz uma chamada de vídeo para o presidente e diz: “Tem uma história interessante da dona Maria José aqui.” E, pelo celular, mostra o presidente à mulher. Ela diz que é “apaixonada, louca” por ele. E agradece “tudo o que você tem feito por nós, principalmente os amapaenses”. Pedro Guimarães, no papel de garoto-propaganda, pergunta: “E quanto você vai receber hoje aqui?” Ela diz que são duas parcelas. “Eu vendo bombom trufado aqui no Amapá e tem me ajudado muito a sua ajuda”, ela fala se dirigindo ao presidente. Conta que é evangélica. No encerramento do vídeo, Guimarães, em voz bem alta, em local público, para confirmar com quem está falando, diz: “E aí presidente tudo bem?” Tudo foi filmado por um outro celular, talvez de um assessor de Guimarães. Bolsonaro postou o vídeo com o texto: “Auxílio de R$ 600 salvando vidas.”

Dona Maria José está gerando renda com o auxílio que recebeu, ao fazer o bombom trufado. Um caso realmente interessante, mas Bolsonaro e Guimarães mostram que estão interessados em propaganda eleitoral, em tirar proveito da história dela. O uso político da CEF supera os abusos do passado.

O país precisará de uma ampliação do Bolsa Família. E seria bom que ele ocorresse dentro de um planejamento técnica e fiscalmente bem feito, para continuar sendo sustentável. O palanque, contudo, vai desvirtuar o programa. A pesquisa do Datafolha mostra que o auxílio emergencial, que era de fato necessário, reduziu sua rejeição e aumentou a aprovação.

Bolsonaro é um populista. E tem um projeto autoritário. Como no chavismo, que distribuía o dinheiro do petróleo para se perpetuar. Bolsonaro esqueceu o que dizia do Bolsa Família e usará qualquer programa social que for formatado como alavanca eleitoral. Não é possível deixar os pobres sem proteção. Não é aceitável ver um candidato a ditador usando recursos públicos como se fosse dinheiro dele doado aos pobres, como Bolsonaro e Pedro Guimarães quiseram fazer crer à dona Maria José.

Esta crise das lideranças é dramática

É claro que quem nunca viveu senão em ditadura, quem pouco sabe do que se passa no mundo ou quem nunca viajou, dificilmente terá termo de comparação.


Se olharmos para a actividade política quase só encontramos ditadores declarados ou travestidos de democratas como Duterte, Putin, Lukashenko, Órban, Xí Jìnpíng ou Maduro, já para não falar em África ou na América Latina em geral. Depois temos outros, de perfil autoritário, que tentam passar por cima do estado de Direito, mas vão encontrando obstáculos a tal intenção, como Trump ou Bolsonaro, os quais, como se sabe há muito, mentem todos os dias nas suas declarações públicas e distorcem os factos sem qualquer pudor.

 E se falarmos de incompetência, basta o testemunho de um dos principais organizadores da campanha eleitoral de Bolsonaro em SP, Major Olímpio, que conta que o candidato não se preparava para debates: “Nos dava agonia.” Dizendo-se desiludido com a política, após romper com Jair Bolsonaro, confirmou à imprensa que terminada a eleição “nós não tínhamos um projecto para o país”.

Mesmo na velha Europa o que vemos são indivíduos muito pequeninos, em dívida para com a ética política, a moral pessoal e desprovidos de sentido de estado. A corrupção ronda estas figuras e contam-se pelos dedos das mãos as que conseguem manter uma postura decente. Temos ainda os grupos extremistas de direita e de esquerda que ameaçam os regimes democráticos, os quais por sua vez se vão deixando colapsar aos poucos por dentro.

Mas se formos para o campo religioso deparamo-nos cada vez mais com lideranças obsoletas, que não sabem comunicar, com uma visão estreita do mundo e de tendências autocráticas. À semelhança do terreno político, as lideranças mais conhecidas hoje são os populistas religiosos, em especial os de tipo neopentecostal que ousam lançar mão de quaisquer meios para atingir os fins que pretendem, incluindo a manipulação das notícias ou a criação e difusão de notícias falsas.

Apesar de tudo, Trump é fervorosamente apoiado por sectores cristãos para quem os fins justificam os meios. Recentemente tentou mentir de forma descarada em entrevista à FOX News, uma televisão habitualmente subserviente para com esta Administração, mas foi contraditado pelo jornalista, o que o deixou extremamente desconfortável e furioso por não ter conseguido passar mais uma falsidade em forma de ataque desvairado ao seu adversário político nas próximas eleições.

No Brasil está a ser investigada pela justiça uma gigantesca campanha de notícias falsas, ao que parece forjada por círculos familiares ou próximos da presidência, com o fim de denegrir os adversários políticos ou de enganar o país. Ainda agora o presidente se gloriou nas redes sociais pela aprovação do Fundeb quando a verdade foi o congresso que aprovou a lei contra a vontade do governo, que fez tudo para cortar as verbas para a Educação, e os únicos a votar contra a nova lei foram sete deputados seus parceiros políticos.

Por outro lado surgem nos meios intelectuais e artísticos figuras de referência que tendem a não respeitar o sentir profundo, a história, a cultura e as convicções da maioria da população, e se arvoram em vanguardas das massas que se encontram fora de tais círculos, o que provoca não apenas uma rejeição dessas ideias fracturantes, mas também uma reacção por vezes extremada, o que explica a emergência dos populismos de extrema-direita.

Mesmo na vida financeira e empresarial são escândalos atrás de escândalos, com acusações de fraude e corrupção, seja na banca (Ricardo Salgado-BES, João Rendeiro-BPP, Oliveira Costa-BPN) e ou nas empresas (Mexia, Manso Neto, Joe Berardo).

Se nos países do hemisfério sul e nas regiões mais pobres do planeta a corrupção tende a ser endémica, como forma de sobrevivência nuns casos e de deslumbramento do poder noutros, ela faz-se presente de forma progressiva no mundo ocidental, quando nenhuma destas explicações deveria fazer sentido, a não ser pela constatação de que os seres humanos são feitos da mesma massa onde quer que vivam.

No caso português e na Europa não se pode alegar que esta crise de liderança se origina em qualquer questão de défice educativo ou de falta de formação. Pelo contrário, é mesmo um problema de ética social. Mas o evangelho adianta uma explicação: “Porque do interior do coração dos homens saem os maus pensamentos, os adultérios, as fornicações, os homicídios, Os furtos, a avareza, as maldades, o engano, a dissolução, a inveja, a blasfêmia, a soberba, a loucura. Todos estes males procedem de dentro e contaminam o homem” (Marcos 7:21-23).

Esta crise global das lideranças tornou-se dramática num tempo em que a boçalidade, a manipulação e a irresponsabilidade imperam nas televisões e nas redes sociais. Para quando uma nova geração de verdadeiros estadistas como o mundo já conheceu no passado?

Pensamento do Dia

 

A metamorfose do mito

Se a frase não tivesse uma conotação tão negativa para ele e seus seguidores, diria que Bolsonaro saiu do armário. Melhor então dizer que mostrou sua face e, se quiserem imagem mais antiga, rasgou a fantasia.

Creio que um marco temporal da metamorfose foi a prisão de Fabrício Queiroz. Uma dose de criptonita na veia do mito de milhões de brasileiros que contavam com sua força para derrubar o velho regime e acabar com a corrupção.

Naquele manhã, Bolsonaro despertou não como o personagem de Kafka, sentindo-se uma barata. Percebeu que era apenas mais um animal na floresta de Brasília. Não era do mesmo tipo dos que se financiam com dinheiro de empresas. Mas sabia que seu esquema ficaria evidente para qualquer analista político, independentemente do grau de miopia.

Vários mandatos na família, pouco mais de uma centena de funcionários, uma boa parte fantasma, e estava resolvido o problema financeiro de campanha e melhoria de vida, capitalizando em negócios imobiliários. Era preciso reencontrar o Centrão, um grupo do qual nunca esteve distante. Seus partidos ao longo dos 28 anos de mandato sempre foram fisiológicos. E o Centrão não significa apenas garantia contra impeachment. Há ali toda uma sabedoria de como se dotar de uma pele de elefante para se escudar das críticas.


Bolsonaro sempre foi um combatente ideológico. Ele só adotou o tema da corrupção quando percebeu que essa era a grande fragilidade da esquerda. Nesse ponto, tentei até dizer a ele nas entrelinhas de uma entrevista, Bolsonaro não difere do movimento militar de 64. Eles falavam em combater a subversão e a corrupção. Mas terminaram apoiando Paulo Maluf, numa tentativa de derrotar Tancredo Neves. É um tipo de pensamento onde existem os nossos corruptos e os deles.

A investida contra Moro por não conseguir intervir na PF do Rio era destinada exatamente a evitar que sua família e amigo fossem incomodados. Não adiantou, Fabrício Queiroz foi incomodado no refúgio de Atibaia em junho.

Agora não há mais mistério. Bolsonaro abandona a fantasia e sabe que perde também uma fração de eleitores que acreditava em seu programa e consegue constatar que foi para o espaço. Somadas às perdas com o desastroso negacionismo diante do coronavírus, era preciso buscar outro norte, ou outro Nordeste para sobreviver. É uma fórmula consagrada pelas pesquisas de popularidade.

Um instrumento sempre denunciado pela direita como uma forma de compra de eleitores, o Bolsa Família ressurge como tábua de salvação. Por que não inventar um Bolsa Família para chamar de seu?

E lá se vai Bolsonaro com um chapéu fake de boiadeiro cavalgando seu novo destino. Aparentemente, um caminho sem pedras. O Congresso dando apoio em troca de cargos, eleitores agradecidos ao seu novo benfeitor. Mas há nuvens no horizonte. Onde conseguir dinheiro para financiar esse projeto de reeleição que, na aparência, é um projeto social? Pedaladas no Orçamento podem resultar em impeachment. Mas nem sempre.

Será preciso jogar fora duas importantes bandeiras: a racionalização da máquina e a venda de estatais improdutivas. Esta semana já foram para o espaço os responsáveis por elas no governo. Os pilotos saltaram do avião. Como supor que seja possível ratear cargos nas estatais e, simultaneamente, pedir que as forças políticas aceitem sua passagem para a iniciativa privada?

Um presidente apoiado no Centrão não será novidade. Bolsonaro não se interessa tanto pelo Líbano quanto pelas fórmulas do MDB de Temer para manter a fidelidade de deputados em caso de processo. A tendência será a de um governo como os outros, apoiado no toma lá dá cá, e estourando o teto de gastos para sobreviver politicamente.

O perigo não é só a bancarrota. A própria classe média pode de novo se enfurecer e surgir por aí um novo salvador para implodir o sistema e acabar com a corrupção. Conheço esse filme desde as últimas décadas do século passado. Collor, o caçador de marajás, fracassou; Lula, prometendo introduzir a ética na política, acabou se desvencilhando dela.

Não eximo ninguém de sua responsabilidade pessoal. Mas essa armadilha histórica da qual não conseguimos escapar merecia uma reflexão. Nossas elites são intrinsecamente desonestas ou também há algo errado com nosso sistema político?

A sucessão de salvadores da pátria não é um fenômeno qualquer. Com Bolsonaro, ela nos jogou nos perigosos limites da democracia.

'Estado' moral

A pobreza é um estado moral, um sentido das coisas, uma forma de honestidade desnecessária. Uma renúncia a participar no saque do mundo, é isso a pobreza para mim. Talvez não por bondade ou por ética ou por um qualquer ideal elevado, mas por incompetência na hora de saquear.
Nem o meu pai nem eu saqueámos o mundo. Fomos, nesse sentido, frades de uma qualquer ordem mendicante desconhecida
Manuel Vilas

Plágios e fakes

Numa conversa com James Whistler, Oscar Wilde confessou que gostaria de ter dito uma certa frase. Whistler, conhecendo o amigo, lhe consolou: “Vai dizer, Oscar. Você vai dizer”. Em alguns casos, temos só acidente. Por exemplo jornais atribuem, a Edmar Bacha, a frase “O câmbio foi feito por Deus para humilhar os economistas”. Como ele próprio. Inútil insistir não ser o autor. E nem é sua primeira vez com problemas assim. Antes escreveu, no Jornal do Brasil, que “Recessão é quando sobra cada vez mais dias no fim do salário”. Millor reivindicou a autoria. E Bacha, com o bom humor de sempre, acabou propondo variante para sua máxima: “Recessão é quando sobra cada vez mais plágio no fim da originalidade”.


Millor também foi telhado. Começou coluna, em Veja, dizendo: “Uma coincidência saiu a passeio. E encontrou uma explicação. Uma velha explicação. Uma explicação tão velha que mais parecia uma charada”. No dia seguinte lhe mandei cópia da primeira frase de "Silvie and Bruno", romance de Conan Doyle. Junto, uma observação: “Como Doyle nasceu em 1859, de quem será essa frase?”. Resposta engraçada: “Dele, claro. Pior é que uso faz mais de 30 anos. E até considero uma das minhas melhores”. Prima do plágio é o fake. Como um poema lastimável ("Depois de Tudo") que circula, na internet: “De tudo ficaram três coisas/ A certeza de que estamos sempre a recomeçar/ A certeza de que é preciso continuar/ A certeza do que podemos ser interrompidos antes de terminar” – e por aí vai, em autoajuda piegas. Com foto do suposto autor, Fernando Pessoa. Que deve estar se rebolando, indignado, no mausoléu dos Jerônimos. Para sua sorte é de outro Fernando. O Sabino. E está em seu livro "Encontro Marcado". Ainda bem.

Outro fake foi esclarecido, agora, pelo querido Cristovam Buarque. Ao lembrar que esse horror do "Gabinete do Ódio" nasceu, no “Governo Lula, dos radicais a serviço do PT”. Sendo, ele, uma das primeiras vítimas. Depois de votar pelo impeachment de Dilma, passou a receber ácidas e mal-educadas críticas de amigos e desconhecidos. Até suas netas sofreram, na escola, com cartazes dizendo “Seu avô é golpista”. Nosso governo de hoje está se especializando em copiar o pior dos que vieram antes. Tanto que, em 08/07, Facebook e Instagram cancelaram “uma rede de contas e páginas do PSL”. E WhatsApp antes, em 25/6, também 10 do PT. Pagas com grana da cota parlamentar de Gleisi Hoffman, presidente do partido. Dinheiro de nossos impostos a serviço do mal. Só mesmo rindo. Para encerrar lembro Lavoisier, autor da famosa "Lei da Conservação da Matéria" que disse: “Na natureza nada se cria, nada se perde, tudo se transforma”. Só para ver adaptada, por Chacrinha, em mistura de plágio e fake: “Na televisão, nada se cria, tudo se copia”. E na política também, é o que parece.

Os vivos e os mortos

Mais de cem mil mortos. Como uma bomba atômica, em Hiroshima. Não são mera estatística. Muitas mortes poderiam ter sido evitadas, dizem os médicos. Não se trata então de mortes, e sim de crimes. Há responsáveis que um dia terão que responder por elas. Eles sabem o que fizeram. Ninguém fala pelos mortos, eles falam por si. Resta saber quem vai ouvi-los.

Convivemos com o horror esterilizado em estatísticas diárias, mesmo se a mídia combate a epidemia com informação e mantém viva a indignação. Todos perdemos a existência real, não só os mortos transformados em números e enterrados em covas rasas.

Também os sobreviventes, uma população incorpórea, bustos que se encontram no zoom encenando uma falsa normalidade. Essa vida imaterial cria uma distância entre nós e a realidade, improviso de sobrevivência que, por um lado, nos salva, uma salvação precária que logo se esfuma, por outro, amplia a dor da perda do convívio e a nostalgia do momento em que, passado o perigo, reencarnados, cairemos nos braços uns dos outros.


O preço da sobrevivência será nunca mais escamotear a existência da morte, assim como a urgência e o valor da vida. Ninguém sairá ileso desse mundo virado pelo avesso. Cem mil mortos marcam para sempre a história de um país como a sua maior tragédia e, como uma cicatriz, as gerações que estão vivendo esse pesadelo. A menos que tenhamos nos transformados todos em robôs de nós mesmos.

Não podemos mais ser quem éramos e, ainda não podendo ser outra pessoa, hoje habitamos uma terra de ninguém. Vai passar, sairemos desse território psíquico inóspito.

No fim do túnel brilha uma vacina. Essa promessa pede resiliência e cuidados redobrados. É o mínimo que devemos aos cientistas. Não vamos morrer na praia. A ciência, ao contrário das religiões que se apoiam em dogmas e certezas, trabalha com autocorreção, ensaio e erro — exceto, é claro, na Rússia que faz milagres — e assim progride. Seus tempos não são os das nossas urgências. Que sejam então os das nossas esperanças.

O exemplo de Moçambique

Regressei a Moçambique na semana passada. Foi a primeira viagem longa que fiz após o início da pandemia. Em Lisboa, o aeroporto funcionava normalmente, com muita gente circulando, as lojas abertas, os restaurantes servindo refeições rápidas. No chek in pediram-me uma autorização do Ministério do Interior de Moçambique, mas não o teste ao Covid-19, que eu fizera dois dias antes, e que, felizmente, deu negativo.

O voo de dez horas decorreu sem o menor incidente, com os passageiros respeitando as orientações da tripulação — manter a máscara e nunca sair do lugar, excepto para ir ao banheiro.



Contudo, assim que abriram as portas começou o tormento. Ao invés das mangas de acesso, que nos deveriam conduzir aos salões confortáveis do aeroporto, fomos recebidos na placa, sob um vento gelado, por dezenas de “astronautas”, vestidos de plástico branco da cabeça aos pés. Os “astronautas” separaram os passageiros: os que já tinham feito o teste avançaram mais alguns metros; os restantes foram deixados para trás, entregues à fúria da intempérie. Tive de explicar várias vezes os motivos da minha visita, mostrar o teste, as cartas e as autorizações, medir a temperatura corporal e preencher diversos formulários antes de, finalmente, alcançar a última das fronteiras, conseguir um carimbo no passaporte e entrar oficialmente no país.

Nas ruas de Maputo testemunhei o rigor com que os moçambicanos encaram a epidemia. Há cartazes por toda a parte, alertando para as medidas de higiene necessárias para travar o avanço do vírus. Nas rádios, os apelos são constantes. A maioria das pessoas que circulam nas ruas usam máscara. Algumas destas máscaras, produzidas com tecidos africanos (capulanas) são espantosamente bonitas, tão elegantes que parece terem feito parte, desde sempre, da indumentária local. Comecei a colecioná-las esperando que, num futuro próximo, possam servir de testemunho, raro e estranhamente harmonioso, de um tempo sombrio. Vejo nas máscaras de capulana uma metáfora perfeita para o espírito de resistência dos africanos: a demonstração de que é possível transformar em beleza até a pior das tragédias.

Em Moçambique, país com 30 milhões de habitantes, morreram até ao momento em que escrevo esta coluna 17 pessoas por covid-19. A vizinha África do Sul, com 57 milhões de habitantes, já conta mais de dez mil mortos.

As rápidas medidas de contenção, incluindo o fechamento das fronteiras, explicam, em parte, o sucesso de Moçambique no combate à pandemia. O povo moçambicano vem cumprindo as instruções do governo com a famosa “disciplina revolucionária” instituída nos primeiros anos após a independência. Em todas as lojas, mesmo nas mais humildes, os clientes são convidados a lavar as mãos com álcool-gel. Nas estradas, à entrada de cada província, há brigadas responsáveis pela lavagem dos veículos. Os passageiros têm de sair do carro para medir a temperatura e lavar as mãos.

Ao mesmo tempo, Moçambique optou por não impor regime de lockdown. O comércio nunca fechou as portas, e os mercados ao ar livre continuam tão animados e coloridos como antes do fim do mundo. É um modelo que tem permitido conter a pandemia sem castigar demasiado uma população já muito sofrida. Até agora está dando certo.