domingo, 19 de julho de 2020

Mulheres de militares maquiam, dão roupas e causam aglomeração de ianomâmis

Uma “ação social” feita por mulheres de militares na Terra Indígena Yanomami no final de junho incluiu maquiagem no rosto de mulheres indígenas, pintura de unhas, distribuição de roupas para famílias que vivem seminuas por costume e tradição, e estímulo à aglomeração de crianças, sem máscaras. Elas ficaram próximas num pula-pula, em fila para distribuição de doces e numa recreação.

“Isso que fizeram foi um desrespeito total. Essa doação de roupas… O povo Yanomami não é mendigo. Pula-pula? Não precisamos de pula-pula. Provocaram aglomeração! A ação do governo foi muito errada”, disse à coluna Junior Hekurari Yanomâmi, presidente do Condisi-Y (Conselho Distrital de Saúde Yanomami e Yekuana). “Precisamos de apoio do governo é para conter a covid-19, que está entrando, espalhando nas aldeias.”

Localizadas e encaminhadas pela coluna, fotografias dessas atividades deixaram perplexos três dos principais antropólogos que atuaram ou atuam na região. Um disse ter ficado “muito chocado”, outra viu “múltiplos desrespeitos” aos indígenas e a terceira comentou que as imagens revelam “a arrogância da colonização”.

Até a noite desta quinta-feira (16) haviam sido registrados 280 casos de covid-19 entre os Yanomamis, dos quais 136 dentro do território (ou 49% do total), segundo o conselho. Quatro mortes foram confirmadas e mais três estão sob suspeita.

A chamada “ação social” ocorreu nos pelotões de Surucucu e Auaris nos dias próximos da viagem que o Ministério da Defesa organizou de Brasília para a terra indígena Yanomami com servidores do Ministério da Saúde e cerca de 20 jornalistas. O voo gerou muita polêmica porque, além de o governo não ter considerado o momento crítico da pandemia, os militares levaram 66 mil comprimidos de cloroquina despachados pela Saúde — afirmam que é para combate à malária e que todos os viajantes foram submetidos a exames prévios.

A coluna procurou o Ministério da Defesa, por e-mail e por telefone, para uma manifestação desde a tarde de terça-feira (14), mas não houve resposta até o fechamento deste texto. A coluna indagou, entre outros pontos, se as atividades exibidas nas redes sociais das mulheres dos militares tinham sido previamente informadas ou se tinham recebido o aval dos militares.

Sobre a viagem do final de junho ao território indígena, a Defesa divulgou um texto, no dia 2 de julho, sobre a entrevista coletiva concedida no pelotão de Surucucu pelo ministro Fernando Azevedo. “Trouxemos cerca de quatro toneladas de materiais de saúde para atender a comunidade local. O governo está preocupado com a saúde do brasileiro”, disse o ministro, segundo o ministério. O órgão informou que era uma atuação integrada entre Forças Armadas, Secretaria Especial de Saúde Indígena, Funai e outros órgãos governamentais.



Mulheres de militares postaram fotografias e comentários nas redes sociais sobre a “ação social”. Uma das fotos, no Instagram, mostra uma mulher não indígena, que diz morar no pelotão desde abril e casada com um militar, fazendo maquiagem no rosto de uma indígena no PEF (Pelotão Especial de Fronteira) Auaris. Outras indígenas parecem aguardar sua vez de atendimento.

A mulher escreveu: “Hoje foi o nosso Aciso [Ação Cívico-Social] com os indígenas aqui no PEF e produzimos as mulheres e elas ficaram como elas falam na língua delas ‘wekoonekatojo’ ou ‘taitha’ (toíta), que quer dizer bonita”. A postagem foi curtida por 116 pessoas.

Foi montada uma bancada para distribuição de roupas. As imagens mostram mulheres indígenas seminuas escolhendo a doação. Em diversos pontos do território Yanomâmi, os indígenas vivem nus ou seminus, com adereços pelo corpo.

Outra mulher de um militar escreveu “o que aconteceu aqui no pelotão Sucururu” no dia 25 de junho. “Tudo começou com um comentário do sargento daqui do PEF sobre arrecadar agasalhos para nossos indígenas e isso me despertou a vontade de ir além e pedir não só agasalhos, mas sim roupas e cobertas também”.Professora emérita da UnB (Universidade de Brasília) e pesquisadora sênior do CNPq, a antropóloga Alcida Rita Ramos fez trabalhos de campos com os Yanomamis de 1968 a 2005 e é considerada uma das principais estudiosas sobre o povo. A pedido da coluna, ela olhou as várias fotografias divulgadas pelas mulheres dos militares em redes sociais.

“O que vejo nessas fotos é um múltiplo desrespeito aos Yanomami e uma arrogância burguesa de dar arrepios”, disse a professora.

Ela separou os problemas em quatro blocos. “Primeiro, mais grave, manusear objetos, os cabelos, as unhas das indígenas, usando instrumentos cortantes, sem qualquer preocupação com contágio, incorrendo em séria infração, se não mesmo crime.”

Em segundo lugar, “achar que as indígenas ‘merecem’ se apresentar com a estética das ‘brancas’, como se elas mesmas não tivessem a sua própria e muito celebrada estética”.

Um terceiro ponto levantado pela pesquisadora é “disfarçar proselitismo religioso com desenhos infantis, expondo as crianças indígenas aos efeitos ilegais do missionismo”.

Por fim, “impingir brinquedos a crianças, sem terem o mínimo conhecimento do que é ser criança indígena e quais são os padrões locais de jogos infantis”.

Imagens mostram crianças aglomeradas, sem máscara, conversando com adultos também sem máscaras durante o que seria uma recreação com papel e lápis colorido. É possível ver, nas folhas, o desenho de um homem barbudo, pairando entre nuvens, como se fosse Deus ou Jesus Cristo, para ser colorido.

Na hora de receber doces, as crianças fizeram uma fila sem máscara e sem distanciamento. Depois posaram para fotos também sem máscaras e reunidos na frente do pelotão. Mesma aglomeração ocorreu na hora da brincadeira em um pula-pula.

Júnior Hekurari Yanomâmi, do conselho de saúde indígena, disse que nenhuma dessas atividades era uma necessidade para os Yanomamis. “Não houve um diálogo. Simplesmente pararam lá no aeroporto de Boa Vista e vieram para as aldeias. Isso durante a pandemia. Depois de uns nove dias que eles saíram, passou para 48 casos de covid em Waikás. Tinha três casos antes. Em Auaris, já temos um caso. Estamos muito preocupados.”

O antropólogo francês Bruce Albert trabalha desde os anos 1970 com os yanomâmis, tendo participado da coalizão CCPY (Comissão Pró-Yanomami), que resultou na homologação da demarcação da terra indígena durante o governo Fernando Collor (1990-1992). Ele é coautor, com o líder Yanomami Davi Kopenawa, do livro “A Queda do Céu” (Companhia das Letras, 2015).

Ele também olhou as postagens das mulheres dos militares a pedido da coluna. “Fiquei muito chocado com as fotos. Além de uma irresponsável falta de observância da regras de distanciamento físico no trato com uma população indígena particularmente vulnerável na pandemia, vejo também nas fotos um tremendo desrespeito à cultura e à dignidade das mulheres Y.”

“Esposas de militares num posto isolado brincam de ‘ação social’ com mulheres Yanomami colocadas em posição subalterna de objetos da sua ‘generosidade’ estética condescendente de mulheres brancas donas dos cânones de beleza dominantes (‘civilizada’). Assim, atrás dessa pseudo ‘ação social’ esconde-se um racismo crasso cujas raízes históricas remetem ao Brasil colonial. Destas cenas ressurgem, de fato, as imagens das ‘escravas de estimação’ do tempo da colônia”, disse o antropólogo.


Sílvia Maria Ferreira Guimarães, mestre e doutora em antropologia pela UnB (Universidade de Brasília), professora do programa de pós-graduação em ciências e tecnologias em saúde, disse que é possível ver “a arrogância dessa colonização, achando que ela é tudo que todos desejam. O problema se acirra quando recai mais intensamente sobre as crianças”.

Deixando de lado o episódio da “ação social”, há nuances na relação dos indígenas com o pelotão militar. Os militares do pelotão, conta a antropóloga, “ficam naquela área deles, eles fazem trocas com os Sanöma [subgrupo Yanomami], os Sanöma gostam, às vezes apreciam as comidas dos ‘brancos’ com essas trocas (arroz, café, açúcar)”.

A antropóloga conta que um técnico em enfermagem Yanomami recentemente lhe disse que “os garimpeiros não vão até Auaris por causa do pelotão que está lá”. “O pelotão cumpre essa ação de coibir o garimpo em Auaris. Eu acho que eles [militares] e missionários estão de certa forma sob controle dos Sanöma, que manejam a presença dessas pessoas, para as trocas, que os Sanöma apreciam muito. O garimpo não, já entra na violência. O problema dos missionários é o foco nas crianças, com suas escolas e o tipo de ação cotidiana perigosa que podem fazer.”

Desigualdade, vírus sem vacina

A pandemia acentuou nossa desigualdade social, que aparece em termos de gênero, já que as mulheres negras carregam o piano nas costas. Muitas delas são empregadas domésticas, que estão pagando preço alto nas relações com as patroas para trabalhar de forma escrava na pandemia.
A desigualdade de gênero também aparece no aumento da violência contra a mulher e no feminicídio. Os negros pagam a conta da violência policial que, paradoxalmente, aumentou em tempos de isolamento. Há menos movimento na rua. Quem estão matando? Os pobres que precisam trabalhar.
Toda essa coisa do brasileiro boa gente e cheio de alegria foi altamente afetada pelas consequências trágicas da pandemia por essas razões. O brasileiro hoje, diante do mundo, aparece como um ser violento, xenófobo, agressivo, racista, homofóbico, ressentido. Essa é a imagem do Brasil no exterior. Vamos pagar um preço alto no futuro.

Forças Armadas, política, besteiras e o desastre

O general Luiz Eduardo Ramos, ministro-chefe da Secretaria de Governo e coordenador político da Presidência, antecipou em um ano e meio a sua passagem do serviço ativo para a reserva remunerada das Forças Armadas. Parece pouca coisa, mas essa antecipação da aposentadoria tem enorme significado político. Para entender a importância do gesto, é preciso atrasar o relógio até o dia 20 de março de 1964.

O marechal Castello Branco, então chefe do Estado-Maior do Exército, assinou neste dia uma circular endereçada aos seus comandados. Anotou no texto que "os meios militares nacionais e permanentes não são propriamente para defender programas de governo, muito menos a sua propaganda, mas garantir os Poderes constitucionais, o seu funcionamento e a aplicação da lei". Acrescentou: "Não sendo milícia, as Forças Armadas não são armas para empreendimentos antidemocráticos".


Em 2018, numa conjuntura em que uma legião de eleitores queria evitar a volta do PT ao poder, 57,7 milhões de brasileiros enviaram para o Planalto Jair Bolsonaro, um capitão que deixou o Exército por indisciplina, e Hamilton Mourão, um general da reserva que perdeu o posto de comandante militar da região Sul por ter feito um discurso político durante o governo Dilma Rousseff. Essa dupla cercou-se de generais. Formou-se no Planalto a "ala militar".

De repente, os generais começaram a frequentar o noticiário articulando, opinando, participando de manifestações, dando caneladas no Congresso e no Judiciário. Como as Forças Armadas não se confundem com escola de samba, tornou-se essencial deixar claro que os generais que comandam escrivaninhas como alegorias do governo não falam pelos quartéis.

Com sua aposentadoria, Luiz Ramos se iguala aos outros generais do Planalto, que já haviam passado para a reserva. Isso atenua o problema. Mas não resolve totalmente. As Forças Armadas já corriam o risco de se associar àquilo que o general Santos Cruz, demitido no ano passado num embate com a chamada ala ideológica da escola de samba bolsonarista, chamava de "show de besteiras" do governo Bolsonaro.

Hoje, além das besteiras, há a desastrosa gestão da crise do coronavírus, que Bolsonaro executa por meio de Eduardo Pazuello, um general da ativa improvisado como ministro da Saúde. Tornou-se vital demonstrar que os quarteis não se confundem com o governo. Bolsonaro passa. As Forças Armadas ficam.

E se a locomotiva para?

Haja terra para cobrir o buraco em que se encontra um país que nem se livrara ainda da recessão pré-pandemia. Como preencher a gigantesca lacuna, agravada pela crise econômica que se arrasta desde 2015 e cujos recursos têm sido desviados para combater a pandemia? Se a terra para tapar o buraco mexer no bolso dos consumidores na forma de um imposto como a CPMF, conforme propõe o ministro Paulo Guedes, a vaca vai para o brejo, inviabilizando a escada de candidatos comprometidos com o status quo.

O país se encontra em recessão. São apenas 83,7 milhões de brasileiros ocupados de um total de 170 milhões em condições de trabalhar. Alguém terá de pagar a conta, enquanto a população empobrece em razão da pandemia. O vírus inaugura a casa dos 2 milhões de contaminados.

O governo está diante de um impasse: arrumar recursos para honrar tarefas em áreas fundamentais como saúde e educação e, ao mesmo tempo, socorrer os contingentes carentes. O auxílio emergencial será passageiro e, segundo Guedes, não há caixa para bancar a fortaleza social. O que fazer?

Será difícil que a ajuda chegue nas localidades em condições normais. E não será recebida com festa pelas populações que vão às urnas em 15 de novembro. Tudo será abalado pela pandemia. As margens necessitadas, sem a rede social, tendem a despejar sua revolta em quem mexe no caldeirão da crise e no desemprego.

A seguir, emergirá o vulcão das classes médias, indignadas com corrupção, roubalheira, má gestão dos serviços públicos, a relação entre autoridade pública e endemoniados. Essas classes, com maior capacidade de expressão e liderança, arrastam turbas dispostas a mudar o feitio da política.

Nesse sentido a economia puxa a política. Comparemos a economia com a locomotiva. Se emperrar ou patinar, criará balbúrdia e revolta nos passageiros, sinalizando nas urnas um voto a favor de um candidato que encarne sua indignação. Oportuno lembrar a equação com a qual tento explicar a índole das massas, a partir de quatro instintos avocados por Pavlov. Dois voltados para a sobrevivência/conservação do indivíduo e dois ligados à preservação da espécie: o combativo, o nutritivo, o sexual e o paternal.

Os dois primeiros explicam o sentido de sobrevivência do ser humano, contra as intempéries da natureza, ameaças de outra pessoa e por boas condições de vida. O segundo apela para a comida e insumos necessários à vida. Os dois últimos abrigam a preservação da espécie, o sexo (perpetuação) e o paternal/maternal (amor, carinho, amizade, solidariedade). Valho-me do segundo, o nutritivo, para compor a equação que cai bem na política: BO+BA+CO+CA = BOlso cheio, BArriga satisfeita, COração agradecido e CAbeça mandando votar no protagonista que ajuda a encher a geladeira.

O teste das urnas passa pela equação acima. Os altos figurões da administração – Jair Bolsonaro, Paulo Guedes, governadores e prefeitos – estão no comando da locomotiva. Vale para hoje e para 2022. Se a locomotiva for uma Maria Fumaça bem antiga e parar no caminho, os passageiros só terão uma alternativa: virar as costas a candidatos sem lenha e andar a pé até a próxima estação.

‘Não podemos fazer política de combate à pobreza com os olhos da riqueza'

Com base em preconceitos, a sociedade quer definir qual pobre merece receber auxílio do Estado, segundo a avaliação da socióloga Letícia Bartholo, especialista em programas de transferência de renda. É aí, diz a pesquisadora do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), que moram as armadilhas do debate sobre programas de combate à pobreza.

"É um tom moralizante que caracteriza a sociedade brasileira e por isso está presente em todos os setores. É você, baseado num preconceito sobre os pobres, definir qual é o pobre meritório, que faz jus ao amparo do Estado, e qual é o pobre não meritório", diz. "Não podemos fazer política de combate à pobreza com os olhos da riqueza."

A discussão sobre programas de combate à pobreza no Brasil aumentou depois que a crise gerada pela pandemia do coronavírus levou o governo a criar o auxílio emergencial para proteger a população mais vulnerável.

A equipe do presidente Jair Bolsonaro tem falado com mais frequência sobre uma ampliação do programa Bolsa Família. Embora não tenha apresentado formalmente uma proposta, o ministro da Economia, Paulo Guedes, disse que o novo programa chamará Renda Brasil, reunirá programas sociais existentes e terá valor mais alto do que o Bolsa Família.

O Bolsa Família hoje atende 14,2 milhões de famílias, com benefício que varia em função da renda, do número de pessoas na família e idade delas. O valor pago é, em média, de R$ 188, segundo dados de junho de 2020.

Em entrevista à BBC News Brasil, Bartholo, que foi secretária nacional adjunta de Renda de Cidadania de 2012 a 2016, explica quais são os principais eixos que devem ser levados em conta na hora desenhar ou reformar um programa de transferência de renda e analisa o que considera armadilhas. Veja, a seguir, os principais pontos:


Ao se pensar em um novo programa de transferência de renda ou na ampliação do Bolsa Família, deve-se levar em conta três eixos, segundo Bartholo.

O primeiro é a definição do público: quem vai fazer jus ao benefício. Ela diz que, aí, é necessário considerar a dinâmica da pobreza no Brasil. "A população pobre é formada em grande parte por pessoas que entram e saem da pobreza com muita facilidade", diz.

Para ilustrar esse caráter volátil da renda dos mais pobres no Brasil, a socióloga aponta que, considerando cinco trimestres, 65% da população brasileira enfrenta ao menos um trimestre com renda mensal per capita inferior a meio salário mínimo.

O segundo eixo é a definição do valor do benefício, que deve ser calculado, nas palavras dela, para ser "efetivamente impactante" na redução da pobreza.

E o terceiro ponto, diz ela, é dar segurança à população em relação ao benefício: garantir que ele não será retirado de forma abrupta e que ele será atualizado de forma periódica.

"O programa deve ter uma atualização monetária das linhas de pobreza e valores de benefício. Essa atualização deve ser periódica, coisa que ainda não temos no Bolsa Família, que tem suas atualizações feitas de forma discricionária."

Bartholo diz que esse debate deve incluir não só economistas, mas também especialistas em pobreza e desigualdade e em assistência social, saúde e educação que vêm acompanhando a articulação do Bolsa Família com essas áreas ao longo dos últimos anos.

Em artigo publicado em junho, ela e outros três especialistas no assunto (Luis Henrique Paiva, Rodrigo Orair e Pedro H. G. Ferreira de Souza) defendem que seja adotado um programa temporário de transferência de renda (12 a 18 meses), como uma transição do auxílio emergencial para um formato permanente. Eles argumentam que isso permitiria aliar a urgência do tema com a necessidade de debate.

Fazer uma mudança muito rápida, segundo os autores, "é correr o sério risco de substituir um programa de reconhecido êxito como o Bolsa Família por algo mal desenhado e com implementação de baixa qualidade".

Questionada sobre quais deveriam ser os parâmetros para um novo benefício, a pesquisadora defende que seja, pelo menos, um benefício mensal de no mínimo R$ 100 para cada indivíduo com renda familiar mensal de até meio salário mínimo per capita, sem limite de pessoas na família.

Quão maior teria que ser o orçamento em relação ao do Bolsa Família hoje para acomodar essa proposta? Ela diz que pelo menos quatro vezes.

O grande problema, geralmente apontado pela equipe econômica, é como arcar com novas despesas em um orçamento já considerado apertado.

Bartholo diz que a discussão de ampliação do benefício deve vir vinculada ao debate da reforma tributária. E reconhece que, além disso, provavelmente teria que haver uma revisão do teto de gastos, que é o mecanismo aprovado em 2016 que prevê que o gasto máximo que o governo pode ter é calculado com base no orçamento do ano anterior, corrigido pela inflação.

Um ponto que Bartholo destaca como uma grande armadilha, quando se trata de um programa com foco na população mais vulnerável, é o pensamento de que tudo deve migrar para o digital.

"Muitas vezes se fala, por exemplo, que o mundo é digital. 'Vamos fazer de forma digital'. Aí você pergunta: para quem o mundo é digital? Será que no interior do Brasil o mundo é digital como pensamos aqui de Brasília? Num país onde praticamente 70 milhões de adultos não completarem o ensino médio? E só conseguimos suplantar isso indo até o local, conversando com a população, ou no mínimo conversando com quem está de fato em comunicação constante com essa população."

Esse contato com os beneficiários dos programas sociais é feito pela rede de assistência social nos municípios brasileiros: 8 mil centros de referência atendem praticamente 70 milhões de pessoas vulneráveis à pobreza.

Da forma como funciona hoje, é nesses locais que essas pessoas fazem seu cadastro, se informam e são acompanhadas. "Para elas, esse encontro cara a cara com o poder público faz toda a diferença", diz a pesquisadora.

Bartholo avalia que, "se hoje o Bolsa Família conta com toda esta rede de atendimento e tem qualidade reconhecida mundialmente, é porque optou por fortalecer as redes de assistência locais".

"Construir um programa de transferência de renda baseado completamente no acesso digital pelas pessoas e centralizado no nível federal será, sem dúvida, um retrocesso e um bom passo para o fracasso."

Bartholo publicou em julho outro artigo com os sociólogos Pedro H. G. Ferreira de Souza, e Luis Henrique Paiva e o economista Rodrigo Orair que aponta que outra armadilha nesse debate está em acreditar que recursos poupados com os chamados pentes-finos (a análise de quem recebe benefício sem ter direito) seriam suficientes para construir um programa de transferência de renda realmente efetivo na superação da pobreza. Eles apontam que não bastaria apenas um "choque de gestão" para a política se tornar mais eficiente e efetiva — embora, claro, seja dever do Estado fazer esse controle e corrigir eventuais erros.

E o argumento recorrente no Brasil de que benefícios como o Bolsa Família podem acomodar as pessoas e eventualmente desestimular a busca por trabalho?

Bartholo diz que essa colocação não se sustenta e também a define como armadilha. Ela afirma que estudos com base em resultados do Bolsa Família demonstram que beneficiários do Bolsa Família, comparados a pessoas do mesmo perfil não atendidas, têm mais acesso ao mercado de trabalho formal.

"Do ponto de vista das pesquisas quantitativas sabemos que beneficiários do Bolsa Família não deixam de buscar inserção no mercado de trabalho formal. E os estudos qualitativos, principalmente aqueles feitos com mães beneficiárias do programa, é que o benefício fez com que elas pudessem achar que a miséria não era mais uma sina, que a miséria não é um destino, que os filhos e elas podem ter um novo futuro. Isso é você sair de uma condição de resignação completa e ir para um patamar de cidadania, em que tem expectativa de que as coisas podem mudar."

sábado, 18 de julho de 2020

Em cartaz, no Planalto, a nova versão da Ópera do Malandro

Na hora em que se descobre em apuros, ou o presidente Jair Bolsonaro recua e dá o dito pelo não dito como já fez tantas vezes, ou joga a culpa nos outros. Se não dá para jogá-la nas costas dos adversários de preferência, joga nas costas dos próprios auxiliares. E não se constrange em agir assim. E nem na intimidade com eles se desculpa. De corajoso não tem nada.

É como se comporta desde o seu tempo de soldado e de garimpeiro nas horas vagas, atividade que escondeu dos seus superiores. Como deles havia escondido seu plano de detonar bombas em quartéis em defesa de melhores salários para a soldadesca. E foi por isso que acabou afastado do Exército. Certa vez, o ex-presidente Ernesto Geisel referiu-se a ele como “um mal militar”.

Em entrevista recente à GloboNews, o vice-presidente Hamilton Mourão tentou explicar por que Bolsonaro é o que é. “Ele encerrou a carreira em um posto, o de capitão, onde você é muito mais físico do que intelectual”. E acrescentou: “Quando você muda da parte do físico para a do intelectual... Ele não viveu esse momento dentro da carreira militar”. Entenderam o que Mourão quis dizer?


No prontuário de Bolsonaro guardado nos arquivos do Exército, consta que Cavalão (apelido dele na caserna) era bom de corridas a longa distância, da prática de esportes e de saltos de paraquedas. Parou por aí. Embora já tenha testado positivo duas vezes para o coronavírus, ele se apresenta como dono de uma saúde de atleta. Sobreviveu até a uma facada traiçoeira.

No mais, nunca leu um livro na vida, do que se orgulha. É só intuição, astúcia, esperteza e malandragem. Pois o malandro, presidente acidental, mandou que a Advocacia Geral da União (AGU) desse um jeito no processo que ele responde na condição de réu por ter liberado a compra de munição em quantidades três vezes maiores pelos proprietários de armas registradas.

Podia-se comprar 200 unidades de cada vez. Pode-se comprar 600. E sabem por quê? Porque Bolsonaro quer armar o povo, como disse na reunião ministerial gravada de 22 de abril último. Armá-lo para impedir a implantação de uma ditadura no país – ditadura de esquerda, naturalmente. Deu até um exemplo:

"Um prefeito faz a porra de um decreto, algema uma mulher e deixa todo mundo preso dentro de casa. Se [o povo] tivesse armado iria para a rua. Eu quero todo mundo armado!"

Pouco antes, na mesma reunião, avisara em voz alta a Sérgio Moro, então ministro da Justiça, e ao general Fernando Azevedo, ministro da Defesa que a tudo ouviam calados: “Peço ao Fernando e ao Moro que, por favor, assinem essa portaria ainda hoje, que eu quero dar uma porra de um recado”. Missão dada pelo presidente da República, missão cumprida pelos dois ministros.

Acontece que, agora, em peça incluída nos autos do processo, a AGU alega que se existirem delito e culpa, Bolsonaro nada teve a ver com isso, nadinha. A portaria foi assinada por Moro e Azevedo, ponto. “Os atos administrativos praticados no âmbito dos dois ministérios não podem ser atribuídos pessoal e institucionalmente ao presidente da República”, ponto. Que tal?

País rico

Não há dúvida alguma que o Brasil é um país muito rico. Nós que nele vivemos; não nos apercebemos bem disso, e até, ao contrário, o supomos muito pobre, pois a toda hora e a todo instante, estamos vendo o governo lamentar-se que não faz isto ou não faz aquilo por falta de verba.

Nas ruas da cidade, nas mais centrais até, andam pequenos vadios, a cursar a perigosa universidade da calariça das sarjetas, aos quais o governo não dá destino, o os mete num asilo, num colégio profissional qualquer, porque não tem verba, não tem dinheiro. É o Brasil rico...

Surgem epidemias pasmosas, a matar e a enfermar milhares de pessoas, que vêm mostrar a falta de hospitais na cidade, a má localização dos existentes. Pede-se à construção de outros bem situados; e o governo responde que não pode fazer porque não tem verba, não tem dinheiro. E o Brasil é um país rico.

Anualmente cerca de duas mil mocinhas procuram uma escola anormal ou anormalizada, para aprender disciplinas úteis. Todos observam o caso e perguntam:

- Se há tantas moças que desejam estudar, por que o governo não aumenta o número de escolas a elas destinadas?

O governo responde:

- Não aumento porque não tenho verba, não tenho dinheiro.

E o Brasil é um país rico, muito rico...

As notícias que chegam das nossas guarnições fronteiriças, são desoladoras. Não há quartéis; os regimentos de cavalaria não têm cavalos, etc., etc.

- Mas que faz o governo, raciocina Brás Bocó, que não constrói quartéis e não compra cavalhadas?

O doutor Xisto Beldroegas, funcionário respeitável do governo acode logo:

- Não há verba; o governo não tem dinheiro.

- E o Brasil é um país rico; e tão rico é ele, que apesar de não cuidar dessas coisas que vim enumerando, vai dar trezentos contos para alguns latagões irem ao estrangeiro divertir-se com os jogos de bola como se fossem crianças de calças curtas, a brincar nos recreios dos colégios.

O Brasil é um país rico..
.
Lima Barreto, "Marginália"(1920)

Pensamento do Dia


O Brasil invisível e anônimo que carrega a dor da pandemia

Quando esta guerra contra o coronavírus terminar, todos os trabalhadores invisíveis e anônimos terão que ser condecorados, a maioria entre os mais pobres, que estão se sacrificando para que o país não pare.

É o Brasil que merece nosso respeito, gratidão e amor. É um Brasil sem guerras ideológicas, de direita e de esquerda, que se sente unido por uma mesma responsabilidade para com o país. Esse Brasil heroico que mantém o país funcionando e evita milhares de vítimas. É o que não distribui armas para se matar, mas serviços para que a maioria da população possa pensar em se proteger melhor do contágio. É esse exército que todas as manhãs deixa a segurança de sua casa para que os mercados, as farmácias, o serviço de coleta de lixo, os transportes e a segurança pública continuem funcionando. E toda essa nuvem de sacrificados entregadores para que não falte comida à grande maioria das pessoas.

São os que no anonimato cuidam dos hospitalizados, bem como os coveiros que até substituem os parentes dos mortos no carinho que eles não podem lhes dar na despedida.

E existe esse outro exército anônimo de pessoas de todas as categorias que estão ajudando de mil maneiras aqueles que ficaram sem nada e não têm nem o que comer. Penso nos meus amigos César e Fátima que cozinham todos os dias para que 100 crianças de famílias carentes de uma pequena cidade na região dos Lagos, no Rio de Janeiro, possam comer um prato de comida quente todos os dias. É esse rio de generosidade que está correndo pelas veias de milhares de brasileiros. E é o Brasil não envenenado pela política do ódio e para quem a dor alheia está acima das ideias políticas e religiosas.

É o Brasil que nos momentos de dor nacional descobre seus melhores sentimentos de empatia e compaixão pelo próximo que sofre. É o Brasil que faz com que nos momentos dramáticos de calamidade e de luto seja capaz de mobilizar dentro de si o mais sublime do ser humano, como a capacidade de detectar a dor dos outros.

E não falo de religião. Nos Evangelhos, na parábola do bom samaritano, Jesus elogia o ateu que passando ao lado de um ferido o leva consigo para curá-lo, enquanto critica o religioso que, pelo contrário, havia passado sem nem sequer parar diante do homem ferido. Não é uma questão de religião, mas de ter um coração de sangue ou de pedra.

E é esse rio de generosidade nos momentos dramáticos da vida de um povo o que o torna digno de ser recordado na história. Esse Brasil anônimo que está se sacrificando e se expondo ao perigo para que o país não paralise merecerá ser lembrado para sempre como um exemplo não só de civilização, mas de grandeza de alma e de coração.

Muitos deles também serão vítimas da pandemia e nos terão deixado o exemplo de sua dignidade como cidadãos e pessoas. Para nós deverão continuar vivos em nossa gratidão e recordação. Este é o melhor exemplo de civilização que poderemos ensinar às crianças nas escolas.

Imagem do Exército em risco

Se o presidente Bolsonaro não tivesse decidido nomear um general especializado em logística ministro “interino” da Saúde, cargo indicado a médicos ou a outros especialistas na área, não ocorreria, por óbvio, o incidente do comentário mal formulado pelo ministro do STF Gilmar Mendes sobre os riscos que a imagem do Exército enfrenta devido a esta nomeação, durante uma epidemia histórica.

Bolsonaro viu na convocação do general da ativa Eduardo Pazuello para cumprir esta “missão” a melhor forma de impor suas teses nada científicas ao Ministério da Saúde. Mesmo com um pé na política, o médico Luiz Henrique Mandetta, ex-deputado federal do DEM pelo Mato Grosso do Sul, preferiu ficar do lado do seu diploma a aceitar teses bolsonaristas sobre isolamento social e a hidroxicloroquina. Seu substituto, o oncologista Nelson Teich, esteve ministro ainda menos tempo. Saiu nas primeiras pressões a fim de que prescrevesse cloroquina para contaminados pela Covid-19, sem qualquer base em pesquisas sérias. Com Pazuello, foi emitido um “documento administrativo de informação e comunicação” sobre a substância.


O balanço dos dois meses do general Eduardo Pazuello na pasta não poderia ser outro do que negativo. Especializado em logística, o oficial levou mais militares para ajudá-lo, e o Ministério da Saúde nada fez de significativo no auxílio a estados e municípios em uma crise de saúde pública grave como esta. Um exemplo são os testes, vitais para os gestores da área terem informações básicas: o trajeto do vírus, as comunidades que devem ser isoladas etc. O atraso do Brasil neste aspecto é inqualificável. Chicago faz 40 mil testes diários, enquanto o Estado do Rio de Janeiro, 2 mil; os Estados Unidos testam 500 mil pessoas diariamente, o Brasil, 10 mil. O país batalha contra o Sars-CoV-2 com venda nos olhos.

Reconheça-se que mesmo com Mandetta e Teich a questão ficou por resolver. Mas Pazuello, do ramo da logística, nestes dois meses de gestão, pouco ou nada conseguiu. A enorme procura mundial pelos mesmos kits e insumos tem sido a justificativa para os sucessivos fracassos. A conclusão é que, diante de todas essas dificuldades, não será um general fora do ramo da saúde que desatará tantos nós.

Bolsonaro acaba de fazer rasgados elogios ao general, mas o prejudicou ao colocá-lo como ministro. E por ele ser da ativa facilitou a contaminação da imagem do Exército pelo rastro de perdas que a Covid-19 tem deixado na população e na vida do país.

Queira-se ou não, é no período da gestão de Eduardo Pazuello que a média móvel de mortes por Covid-19 no país oscila no elevado patamar de mais de mil óbitos diários. O total passa dos 75 mil, apenas ultrapassado pelos 140 mil dos Estados Unidos.

Seria infindável uma discussão sobre as responsabilidades na tragédia. Mas ao convocar um general da ativa, não especializado, para ser ministro da Saúde, Bolsonaro aproximou a tragédia do Exército e das Forças Armadas.

Bolsonaro destruiu a verdade. E agora o mundo inteiro duvida dele

Nesta semana, uma executiva de uma empresa farmacêutica suíça estava em “home office” numa reunião pela Internet quando sua filha de sete anos ousou quebrar todas as regras da casa e entrou em seu escritório com uma notícia: Bolsonaro está com a covid-19. A empresária não deu bola e pensou que era mais uma tentativa de seus filhos de chamar a atenção da mãe que, por meses, apenas fala de coronavírus, tratamentos e diagnósticos.

Mas, para sua surpresa, um de seus colaboradores na reunião interrompeu a conversa e compartilhou a capa de um jornal francês com a mesma notícia de sua filha. A reação inicial de todos: será que é verdade?

No dia seguinte, a mesma cena se repetiria na sede da ONU que, depois de meses fechada, volta timidamente a organizar suas reuniões entre embaixadores.

Num canto de uma das salas, diplomatas debatiam o assunto do dia: a doença de Bolsonaro. Entre risadas de ironia, preocupação real com o estado de saúde e alertas sobre o “recado divino”, não demoraria para que a mesma pergunta surgisse: será verdade que ele está contaminado?


Do outro lado do prédio, entre funcionários do restaurante, correio e dos serviços de limpeza, um português mostrava aos colegas um vídeo do presidente brasileiro tomando cloroquina e sorrindo. “Esse é aquele remédio suspenso?”, brincou um deles. Uma vez mais, a pergunta mais insiste surgiria pela expressão de uma faxineira dominicana: e se ele estiver mentindo?

Quase ninguém duvidou quando Boris Johnson anunciou que estava doente, nem quando o príncipe Charles e várias outras lideranças declararam seu status de saúde.

Eleito com base em uma mistura de meias-verdades e mentiras completas, apoiado em parte por charlatães e com um discurso populista, Bolsonaro colhe o que plantou no mundo: a repulsa e a desconfiança permanente. Até quando é verdade.

Já no ano passado, o governo francês causou a indignação de parte do Palácio do Planalto ao dizer que Bolsonaro não tinha dito a verdade sobre seus compromissos ambientais.

Hoje, o vírus disseminou essa percepção. Bolsonaro não inventou a mentira na política. Longe disso. Mas parte da estratégia de líderes populistas é a criação de uma realidade paralela. Dizer e desdizer no mesmo dia. Demitir e renomear, anunciar e cancelar. Acusar jornais de desinformar e criar seus próprios canais de disseminação de fake news.

A sistêmica destruição da relação de confiança entre governo e governados mina a democracia e a capacidade do mundo em dar resposta a uma pandemia real, incontornável e que mata.

Nesta semana, a presidente temporária da UE e chanceler da Alemanha, Angela Merkel mandou um duro recado a líderes pelo mundo que, nos últimos meses, se recusaram a aceitar a gravidade da pandemia. Para ela, a covid-19 mostrou os “limites” do populismo e do nacionalismo.

Em um discurso na qual não citou nomes, a alemã deixou claro que era o momento de a UE chegar a um acordo sobre como relançar sua economia. “Estamos vendo no momento que a pandemia não pode ser combatida com mentiras e desinformação, e nem pode ser com ódio e agitação”, disse a chanceler que, para muitos, saiu fortalecida diante da resposta que deu à crise.

“O populismo que nega os fatos está mostrando seus limites”, afirmou a alemã, arrancando aplausos no Parlamento Europeu. Ela não citou nomes. Mas seu discurso, no meio diplomático, foi interpretado como um recado a Donald Trump e Jair Bolsonaro.

Na comunidade internacional, os dois presidentes passaram a ser considerados como os principais expoentes de um comportamento negacionista em relação à gravidade do vírus. Os dois países são, hoje, os que acumulam os maiores números de mortes e de casos. Em ambos os casos, a manipulação de dados e o questionamento da ciência fizeram parte da resposta à pandemia.

“Em uma democracia, são necessários fatos e transparência. Isso distingue a Europa, e a Alemanha a defenderá durante sua presidência”, prometeu a alemã e que, antes de assumir um papel político era cientista de formação.

Desde o primeiro dia da pandemia, esse seria um teste da relação de confiança entre líderes políticos e suas populações. Seria um teste de caráter. Para cada um de nós e para os governos.

Sim, Bolsonaro está contaminado. Assim como está contaminada sua reputação pelo mundo. E, para isso, a cloroquina não será jamais a resposta.

O governo Bolsonaro acabou, porra!

A pandemia do novo coronavírus mostrou para onde o mundo vai. É preciso uma administração ágil e moderna, que aja conforme as necessidades do momento – e não com base em crenças folclóricas e ideologias bizarras. Não há tempo para terraplanismo em tempos de coronavírus! Na área econômica, as empresas vão ter que se posicionar de forma sustentável – tanto social e economicamente como, e esse talvez seja o ponto mais importante, ambientalmente. Não é hora de destruir florestas, portanto.

O governo Bolsonaro foi pego desprevenido pelo vírus. O plano de colocar a economia em trilhos neoliberais acabou. Em vez disso, o governo provavelmente promoverá um programa assistencialista, o Renda Básica, de tamanho maior que o Bolsa Família petista. Fica difícil, também, seguir com os planos de privatizações, tendo em vista que instituições estatais, como o SUS e a Caixa, tiveram um papel fundamental para evitar danos maiores durante a pandemia.

Ficou claro também que colocar militares em pastas como a Saúde ou para fiscalizar as florestas não resolve nada. No lugar dos quadros técnicos prometidos, os militares deslocados para áreas alheias penam para mostrar resultados, enquanto milhares morrem e florestas se vão em chamas. (Não vamos pensar que os militares foram postos em lugares errados propositalmente, ok!)


A tempestade perfeita das pilhas de mortos pela covid-19, da economia em queda livre e do desastre ambiental cada vez mais evidente urge a um plano maior para o país. Mas não haverá tal plano com o atual governo, que não possui nem plano nem visão para o Brasil. Isso fica ainda mais claro quando se olha para a pasta da Educação. Não ter ideia do que fazer nessa área deixa evidente a total falta de visão.

Em vez de moldar o futuro, Bolsonaro está ocupado, desde que assumiu, um ano e meio atrás, com limpar a bagunça dos filhos e do próprio passado mal resolvido. Além das bravatas, ele não tem nada a oferecer.

Os problemas em encontrar quadros adequados para áreas como educação e saúde se explicam também pela falta de base social do atual governo. Grupos de WhatsApp podem até ganhar eleições, mas na hora de recrutar especialistas com uma noção do que fazer, as redes sociais não oferecem ninguém. Na hora de nomear ministros, perfis falsos não entregam nada.

Acontece que uma parte significativa do apoio digital pró-Bolsonaro já se evaporou, nas últimas semanas, de forma instantânea perante as investigações promovidas pela Justiça e principalmente pelo STF. Os 300 do Brasil, que estava mais para 30, agora são zero. Quanto mais Bolsonaro se entregar ao Centrão para se blindar de um impeachment, mais apoio da sua base mais radical deverá perder.

O presidente será um lame duck (pato manco) já na primeira metade do primeiro mandato. Enquanto Bolsonaro é bicado por uma ema, nos jardins presidenciais, seu vice, Hamilton Mourão, tenta tranquilizar investidores e empresários. Teremos, provavelmente, um vice cada vez mais presente e um presidente cada vez mais recuado. Talvez Bolsonaro não caia, mas se arraste até o final do mandato. O governo dele talvez não tenha morrido, mas, de fato, já acabou.

Enquanto governos social-democratas e o regime autoritário chinês se mostraram capazes de domar o vírus, os líderes da direita raivosa se mostraram perdidos. Comprei recentemente uma camiseta com um desenho de Donald Trump e Bolsonaro, com o presidente brasileiro camuflado de Rambo e a frase "Make Brazil great again" estampada embaixo. Para me lembrar desse tempo esquisito.
Thomas Milz

sexta-feira, 17 de julho de 2020

A questão militar contemporânea

Os militares voltam a ter visibilidade e protagonismo na vida política nacional, depois de trinta e cinco anos dedicados exclusivamente às suas funções profissionais e constitucionais. Hoje já são quase três mil ocupando cargos no governo Jair Bolsonaro, sem contar os da reserva ou o grupo palaciano de generais em postos estratégicos. A simbiose entre militares e um projeto de poder gerou uma nova questão militar, com as Forças Armadas sendo arrastadas para o centro da crise política, como evidencia o atrito entre o ministro do STF Gilmar Mendes e a cadeia de comando das três armas.

A motivo imediato do contencioso é a hipertrofia da presença dos militares em postos estratégicos do ministério da Saúde, a começar pelo próprio ministro interino. Mesmo que não venha a ter maiores desdobramentos e ao final tenhamos o general Eduardo Pazuello deixando a pasta, o episódio é por si um perigoso precedente de um conflito entre poderes com o envolvimento direto das Forças Armadas.

Fazia muito tempo que os comandantes das três armas não assinavam uma nota conjunta em um tema nitidamente político. Isso era uma prática constante durante o período da ditadura, quando o país ficava em suspense toda vez que os chefes militares se pronunciavam oficialmente sobre a vida política nacional. O espectro do episódio Márcio Moreira Alves por algum momento ressurgiu no ar. Menos mal que tenha se dissipado, mas a questão militar está posta de novo na agenda nacional.


Este imbróglio está presente na vida política do país desde o fim da guerra do Paraguai, quando o então tenente coronel Sena Madureira e o coronel Cunha Matos assumiram posições contrárias ao regime monárquico e por isso foram presos. O positivismo, com sua concepção de que o progresso só é possível de ser alcançado por meio da ordem e do conhecimento, é um traço marcante de todas as gerações de oficiais. Ironia da história que à frente do ministério da Saúde um general não se paute pela observância do conhecimento científico.

Inspirados nas ideias de Augusto Comte, desde a proclamação da República entendiam a modernização do país por meio de um governo com características autoritárias. A ideia da ditadura reformista e modernizadora os levaria a exercer o poder diretamente de 1964 a 1985. A aliança com Bolsonaro, sacramentada com a escolha do general Hamilton Mourão para vice-presidente, é um retorno ao salvacionismo positivista, no qual os militares se atribuem a missão de regenerar o país após a hecatombe das lideranças políticas e de quase todos os partidos.

Para os militares de todas as épocas, os interesses das Forças Armadas se confundem com os do país. Os primeiros a defender essa ideia foram os “jovens turcos” – primeiros militares treinados profissionalmente para o comando. Suas ideias foram expostas na primeira revista teórica voltada para os militares, A Defesa Nacional.

É ela quem teoriza um conceito que pautou a ação dos militares até a democratização de 1985 e que volta com força nos dias atuais. Segundo essa visão, a instituição não deveria se limitar apenas à defesa nacional e deveria atuar como uma espécie de partido fardado, dada a inexistência de instituições sólidas ou de uma elite política comprometida com os interesses do país. Nos anos 20/30, Oliveira Viana foi o grande teórico do papel das Forças Armadas na modernização do Estado.

Qualquer semelhança com os militares de hoje mão é mera coincidência. Como seus antepassados, entendem o federalismo com um poder central forte e, a exemplo do tenentismo dos anos 20/30 tem profundas desconfianças das elites políticas. Episódios como o mensalão e o petrolão reforçaram esse sentimento. Como a vida é cheia de ironias, foi um militar da ativa, o general de quatro estrelas Luiz Eduardo Ramos, ministro secretário de Governo, que negociou com o centrão o loteamento da máquina governamental.

A nova geração não viveu 1964, mas pagou um preço por ele. Por isso mesmo, há resistências no alto comando das Forças Armadas para avalizar a aventura de uma ruptura democrática, hipótese que ficou mais afastada com a redefinição da estratégia de Bolsonaro, a partir da prisão de Fabrício Queiroz. O presidente, que vinha apostando num confronto com os outros dois poderes, mudou de postura, com vistas à reconstrução de pontes capazes de lhe retirar do isolamento. Deixou de lado a estratégia de “guerra de movimentos” para adotar a de “guerra de posições”, passando a fazer política. Até quando, não se sabe.

Um subproduto dessa retificação da estratégia foi o arrefecimento do contencioso entre o grupo de militares palacianos e a cadeia de comando das três forças, altamente preocupada com a identificação direta entre governo, uma instituição transitória, e as Forças Armadas, uma instituição permanente de Estado. O anúncio da passagem do general Luiz Eduardo Ramos para a reserva foi um gesto para aplacar o incômodo que seu status de ministro e militar da ativa provocava na tropa.

Como militar da ativa, o general Ramos era o nome dos sonhos de Bolsonaro para substituir o atual comando do Exército, general Edson Pujol, um oficial pautado por um comportamento profissional. Isto teria o complicador de atropelar o Almanaque do Exército, pois à frente de Ramos existiam outros generais, no critério de antiguidade. Essa possibilidade deixou de existir, com passagem para a reserva do ministro secretário de Governo.

O risco de uma ruptura democrática com a participação das Forças Armadas ficou mais distante e o distencionamento serviu para fortalecer o comandante do Exército. Não gratuitamente, o vice-presidente, general Hamilton Mourão declarou que Edson Pujol deve se manter no cargo até 2023.

Isto não quer dizer, contudo, que tenha sido afastado o risco de a imagem das Forças Armadas serem duramente afetada em decorrência da forte presença de militares no governo, em cargos chaves. Isso tem reflexo na politização da tropa, germe para a quebra da disciplina e da hierarquia, como aconteceu no passado. Cada vez mais militares da reserva se manifestam pelas redes sociais, nos clubes militares e em artigos publicados em grandes jornais. Via de regra, eles repercutem o clima dos quarteis que, por uma questão de disciplina, o pessoal da ativa não pode se pronunciar.

Essa politização tem seus germes ainda na gestão do general Eduardo Villas Boas, quando o então comandante do Exército passou a ter presença ativa nas redes sociais e a se pronunciar sobre temas que fugiam do escopo profissional. O mais célebre deles foi seu pronunciamento de quando o STF ia julgar o Habeas Corpus de Lula. O mérito do general Edson Pujol é voltar a fazer o exército o grande mudo em matéria de política, como pregava o marechal Cândido Rondon.

Os estragos à imagem das Forças Armadas estão feitos e são imensos. Elas, que eram a instituição mais bem avaliada pelos brasileiros, viram sua popularidade decrescer a cada nova pesquisa. A presença do general da ativa Eduardo Pazuello como ministro interino da Saúde jogou a bomba da covid 19 no colo dos militares. Ela ofusca a ação positiva das três armas em operações de descontaminação e de transporte de equipamentos e insumos médicos por todo o país.

A presença de militares da ativa na administração é uma questão controversa, por falta de regulamentação. E vem de longe.

Ali nos anos 30 um certo Coronel Y escrevia na Gazeta do Rio: “para entrar na política, primeiro o militar deveria largar a farda. O militar, antes de tudo, pertence a uma classe, faz parte em promoções e conta tempo de serviço em seu benefício, passando a desempenhar função civil é militarmente lógico e individualmente honesto que ele se torne um egresso de sua classe”.

O tal do Coronel Y era o então capitão Humberto de Alencar Castello Branco, primeiro presidente do período ditatorial inaugurado em 1964.

Na transição democrática de 1985 os militares foram coparticipes de uma obra de engenharia política que possibilitou seu recuo organizado para os quarteis e a reconstrução da imagem das Forças Armadas. O recente atrito com o ministro Gilmar Mendes recomenda que sua cadeia de comando reveja a estratégia de identificação direta com o governo e faça um momento de meia-volta volver, até por uma questão de autopreservação.

Leiam como se fosse um poema

Para Raul Wassermann, editor audacioso, amigo dos livros, acreditou em mim há 50 anos
Como não estarmos confusos, muitas pessoas perdidas, desanimadas, desorientadas, a esmo, de déu em déu, desarvoradas?

Antigamente havia as garotas-propaganda, mas o Brasil se tornou original ao ter o primeiro presidente-propaganda de um medicamento (exercício ilegal de medicina?) e isso provocou uma desordem na árdua luta contra a pandemia,

Hoje, cada governador, prefeito, vereador, presidente de Câmara, assessor de imprensa, de imagens, marqueteiro, servidor de café, motoboy, líder de partido político tem seu sistema.

Cada general, almirante, marechal, coronel, tenente-coronel, major, alferes, capitão, sargento, cabo (de onde vem a expressão: “Essa é de cabo de esquadra?”), cada soldado raso (haverá o soldado fundo?), taifeiro, couraceiro, arqueiro, hussardo, infante, besteiro, ou sniper, o atirador de elite tem sua artilharia.

Cada juiz, promotor, advogado, desembargador, reitor, pai de família, chefe de facção, líder de milícia, sacerdote ou pastor das mil diferentes religiões, chefe de seção em departamentos públicos, autarquias, ministérios, gabinetes (ninguém é mais prepotente do que um chefe de gabinete) tem seu processo ou planilha.

Cada chefe de matilha, cão líder de rebanho de ovelhas, de mulas, camelos, búfalos, gado para corte, cada chefe de quadrilha de bairro, ou seja gangue, guarda-civil, vigilante noturno tem seu plano.

Cada uma dessas pessoas ou de agremiações, associações, sindicatos, grupos, associações, patentes, ou seja lá o que for, tem enfrentado a pandemia a seu modo e bel prazer, dependendo da ambição de ser eleito, enriquecer, ser promovido, ou seja lá qual é a intenção.

Enfim, cada qual vem criando uma plataforma particular, única, de combater o coronavírus, fazendo o que quer e acha melhor. E como somos 220 milhões de brasileiros batemos o recorde mundial de sistemas de combates a pandemia, epidemias, catástrofes, etc. e tal.


Vai daí que isso gera a maior mixórdia no combate ao coronavírus. Uns são contra o fechamento do comércio, outros contra a abertura do comércio, indústria e todos os serviços. Há os contra as aglomerações, enquanto outros são a favor.

Há os que querem jogos de futebol e os que não querem. Há milhões a favor da máscara e milhões contra. Dezenas não quiseram ou não souberam opinar. Dois invocaram o livre-arbítrio para nada declarar. Um preferiu se matar diante da pergunta: o que fazer?

E há e não há UTIs disponíveis. E há e não há crescimento do número de infectados. E há e não há aumento no número de mortos. Houve até quem tenha dito, jurando pela alma da mãe, que não há vírus, germe, bactéria, peçonha ou flagelo, apenas uma leve indisposição estomacal, xixi preso, um estresse suave, alergia ligeira que pode ser debelada (veja só a palavra, debelada) com bálsamos, mezinhas, orações, laxativos e – pasmem – um desinfetante.

Falando em UTIs, ninguém se comoveu, chorou, se indignou, lamentou, protestou, ninguém disse coisa alguma ao ver o vídeo de uma UTI em Roraima invadida pela chuva e a água escorrendo das luminárias em cima dos doentes, encharcando respiradouros. Jornal Nacional de segunda-feira.

Esta é a saúde do Brasil atual: a água – e a lama dos espíritos – invadindo as UTIs. Há muito elas invadiram a política, a ética, a moral, o cérebro e as consciências. Acentuou que jamais se viu a classe médica, enfermeiros, todo tipo de pessoas ligadas à saúde, tão desesperada em salvar vidas, em sofrer pelas batalhas perdidas.

Enquanto isso, o Supremo briga com os fardados, estes reagem, a população morre e o presidente diz: E daí?

No momento em que escrevo este texto, uma terça-feira, estão morrendo de 800 a mil pessoas por dia, e ultrapassamos o total dos 70 mil mortos, a população de uma cidade média. Se calcularmos que cada túmulo é uma cova de um metro de largura por dois de comprimento, quantos hectares de tumbas temos no Brasil inteiro? Qual a extensão? Dá quantos municípios ou talvez Estados? E daí?

Depois de o ministro das Comunicações dizer que a floresta amazônica é Mata Atlântica, uma lanterna brilha no fundo do túnel com um ministro da Educação que não tem currículo falsificado, possui títulos a granel e pertence a uma respeitável instituição de ensino, o Mackenzie. Só fico com a pulga atrás da orelha (e o que uma pulga vai fazer atrás de nossa orelha?) com aquela história de que ele pregou que se deve punir alunos com tapas e talvez palmatória? Fake news ministro? Pode ser, o gabinete dos perversos é mesmo... perverso.

E ainda querem que eu acredite que o presidente está com coronavírus? Eu? Aqui, ó! Fico indagando sobre coisas fúteis (ou não) na solidão desta covid. Ministros têm sido demitidos por falsidades em seus currículos. Assim, pergunto: se um dia o JB colocar no CV dele que foi presidente do Brasil não estará dando informação falsa? Até agora não governou uma só hora, um minuto, segundo, um milésimo de segundo fazendo alguma coisa por quem o elegeu. Não governou um microinstante no significado exato, amplo, democrático da palavra.

Em cartaz, no Planalto, a nova versão da Ópera do Malandro

Na hora em que se descobre em apuros, ou o presidente Jair Bolsonaro recua e dá o dito pelo não dito como já fez tantas vezes, ou jogo a culpa nos outros. Se não dá para jogá-la nas costas dos adversários de preferência, joga nas costas dos próprios auxiliares. E não se constrange em agir assim. E nem na intimidade com eles se desculpa. De corajoso não tem nada.

É como se comporta desde o seu tempo de soldado e de garimpeiro nas horas, atividade que escondeu dos seus superiores. Como deles havia escondido seu plano de detonar bombas em quartéis em defesa de melhores salários para a soldadesca. E foi por isso que acabou afastado do Exército. Certa vez, o ex-presidente Ernesto Geisel referiu-se a ele como “um mal militar”.

Em entrevista recente à GloboNews, o vice-presidente Hamilton Mourão tentou explicar por que Bolsonaro é o que é. “Ele encerrou a carreira em um posto, o de capitão, onde você é muito mais físico do que intelectual”. E acrescentou: “Quando você muda da parte do físico para a do intelectual… Ele não viveu esse momento dentro da carreira militar”. Entenderam o que Mourão quis dizer?

No prontuário de Bolsonaro guardado nos arquivos do Exército, consta que Cavalão (apelido dele na caserna) era bom de corridas a longa distância, da prática de esportes e de saltos de paraquedas. Parou por aí. Embora já tenha testado positivo duas vezes para o coronavírus, ele se apresenta como dono de uma saúde de atleta. Sobreviveu até a uma facada traiçoeira.

No mais, nunca leu um livro na vida, do que se orgulha. É só intuição, astúcia, esperteza e malandragem. Pois o malandro, presidente acidental, mandou que a Advocacia Geral da União (AGU) desse um jeito no processo que ele responde na condição de réu por ter liberado a compra de munição em quantidades três vezes maiores pelos proprietários de armas registradas.

Podia-se comprar 200 unidades de cada vez. Pode-se comprar 600. E sabem por quê? Porque Bolsonaro quer armar o povo, como disse na reunião ministerial gravada de 22 de abril último. Armá-lo para impedir a implantação de uma ditadura no país – ditadura de esquerda, naturalmente. Deu até um exemplo:

– Um prefeito faz a porra de um decreto, algema uma mulher e deixa todo mundo preso dentro de casa. Se [o povo] tivesse armado iria para a rua. Eu quero todo mundo armado!

Pouco antes, na mesma reunião, avisara em voz alta a Sérgio Moro, então ministro da Justiça, e ao general Fernando Azevedo, ministro da Defesa que a tudo ouviam calados: “Peço ao Fernando e ao Moro que, por favor, assinem essa portaria ainda hoje, que eu quero dar uma porra de um recado”. Missão dada pelo presidente da República, missão cumprida pelos dois ministros.

Acontece que, agora, em peça incluída nos autos do processo, a AGU alega que se existirem delito e culpa, Bolsonaro nada teve a ver com isso, nadinha. A portaria foi assinada por Moro e Azevedo, ponto. “Os atos administrativos praticados no âmbito dos dois ministérios não podem ser atribuídos pessoal e institucionalmente ao presidente da República”, ponto. Que tal?

Pura malandragem, talkey? Malandragem misturada com falta de escrúpulos (“Às favas todos os escrúpulos”), deslealdade com subordinados que obedeceram às suas ordens, e covardia. Ontem, as vítimas foram Moro, que se demitiu e denunciou Bolsonaro, e Azevedo, que enfrenta a pressão dos comandantes militares para que não se curve a todas as vontades do chefe. E amanhã?

Vida longa a Ricardo Salles, ministro do Meio Ambiente, e Eduardo Pazuello, o general especialista em logística que responde há dois meses pelo Ministério da Saúde na condição de interino. Por seguirem sem discutir as orientações de Bolsonaro, foram elogiados por ele em sua live das quintas-feiras no Facebook. Não é necessariamente um sinal de que possam respirar em paz.

Brasil dos 'inocentes'


A encruzilhada ideológica de Bolsonaro

As batalhas políticas do primeiro semestre deixaram marcas no governo Bolsonaro. Para que ele sobreviva e possa continuar com prestígio até o fim do mandato, mantendo alguma esperança de reeleição, precisará escolher com quem governar e de que modo. Caberá à Presidência escolher um caminho de governabilidade que reduza os efeitos danosos das contradições existentes entre seus apoiadores. Em poucas palavras, trata-se de uma encruzilhada entre dois conservadorismos, um de cunho revolucionário e outro, de viés tradicional. Juntar os dois por muito tempo será uma tarefa quase impossível.

A expressão conservadorismo revolucionário parece uma contradição em termos. Afinal, quando ser quer conservar, não se pretende fazer mudanças amplas e bruscas. Porém, o novo populismo de extrema-direita, presente em vários países e no bolsonarismo-raiz, tem como projeto enfraquecer ou destruir todas as instituições políticas de caráter liberal-democrático. Seus motes são a antipolítica, a luta contra o establishment globalista e a redução ao máximo da pluralidade ideológica, em especial com o aniquilamento da esquerda - os comunistas, classificação na qual cabe até George Soros.

Todas essas ideias visam à concentração do poder num líder carismático capaz de liderar uma revolução cultural baseada em valores mais conservadores (família patriarcal, religião e nacionalismo) que se somam ao culto à violência e a um individualismo darwinista, isto é, uma liberdade para os que mais fortes vençam. Esse é o ideário produzido pelos inspiradores intelectuais do bolsonarismo. É possível levar adiante esse conservadorismo revolucionário destruindo mais ou menos a democracia. De todo modo, a forma revolucionária de agir dos bolsonaristas-raiz exige que se cause turbulências contínuas no sistema político e nas principais instituições sociais, como a escola e os meios de comunicação de massa.


Os últimos seis meses foram repletos de acontecimentos políticos e sociais que colocaram a maior parte da população e as principais instituições contra Bolsonaro, limitando seus arroubos autoritários. O resultado dessa derrota bolsonarista colocou em jogo até a sobrevivência do presidente no cargo, além da forte pressão judicial contra seus filhos e apoiadores. Para manter seu mandato e continuar sendo peça-chave no tabuleiro político, Bolsonaro teve que se ancorar mais num outro grupo conservador, que é tradicional no Brasil há muito tempo.

Uma parte desse conservadorismo já estava próxima do bolsonarismo: os evangélicos, que tendem a ganhar mais prestígio daqui para diante. Mas havia uma outra parcela que estava fora do circulo mais íntimo do poder: o chamado Centrão, composto por políticos de vários partidos de direita e centro-direita. Trata-se de um bloco que varia de tamanho dependendo dos recursos que são distribuídos e do contexto político. O que os une é a combinação de fisiologismo com o realismo. Os parlamentares desse centrismo invertebrado apoiaram FHC e Lula, de modo que, embora professem valores geralmente conservadores, optam pelo apoio a quem lhes dá vantagens eleitorais. Dito de outro modo, não basta que Bolsonaro comungue das mesmas ideias morais. Será necessário entregar poder aos novos aliados e bem-estar a seus eleitores.

A convivência entre os dois conservadorismos ficará cada vez mais difícil dentro do governo Bolsonaro. É óbvio que o presidente vai tentar agradar aos dois lados, mas essa estratégia tem limites porque o grupo revolucionário é ideológico por excelência e terá dificuldades de aceitar o pragmatismo político dos conservadores tradicionais, e vice-versa. A batalha se tornará ainda mais forte porque houve um enfraquecimento do bolsonarismo-raiz e ele dificilmente responderá aos desafios do período pós-Covid-19.

Entre os fatores que enfraqueceram os conservadores revolucionários, quatro se destacam. O primeiro foi a derrota do discurso negacionista e anti-humanista frente à pandemia. A maioria da população ficou do lado da ciência, o sistema de Justiça amarrou as mãos de Bolsonaro no comando da política de Saúde e o número de mortes, que ainda se multiplicará nos próximos meses, deixará marcas em parcela importante da sociedade.

Derivado desse primeiro fator, um segundo elemento tende dificultar o uso da bússola do conservadorismo revolucionário: os eleitores, os políticos do Congresso, a comunidade internacional e mesmo os agentes do mercado local vão cobrar cada vez mais resultados das políticas públicas. Dois exemplos ilustram bem essa situação. No caso da política ambiental, o fracasso de suas ações vai ter terríveis consequências econômicas. Deixariam de vir investimentos internacionais para o país. A área de infraestrutura, que precisará da alavanca de capital estrangeiro, ficará a ver navios. E há ainda o grande risco do negacionismo ambiental impactar as exportações do país, especialmente do agronegócio.

O governo Bolsonaro terá que obter credibilidade internacional e mostrar resultados nas políticas de proteção ao meio ambiente. Para isso, terá de fortalecer decisões técnicas e se livrar dos conservadores revolucionários - que se mostraram, ademais, incompetentes. Vale frisar que além de melhorar os indicadores do país, será preciso reconquistar a confiança, algo que exigirá a criação de canais de diálogo com, pelo menos, uma parcela dos ambientalistas. Sem isso, o mundo não acreditará no Brasil. Uma mudança como essa exige pragmatismo e rechaço a ideologias.

A Educação é outro setor no qual o conservadorismo revolucionário só produziu destruição até agora, com efeitos na piora da qualidade e equidade do ensino que provavelmente apenas serão percebidos no médio prazo (talvez depois desse mandato), mas com efeitos políticos já de curto prazo. A lista de descontentes no atual momento é extensa. Famílias cujos filhos voltarão a escolas públicas em condições precárias; jovens que estão fazendo ou saindo do ensino médio e que ficaram descontentes com todo o processo de escolha das novas datas do Enem; integrantes das universidades públicas, que hoje combinam eleitores de classe média (professores e alunos) com uma parcela crescente advinda das cotas sociais e raciais, e das instituições privadas, onde os alunos estão abandonando cada vez mais os estudos por falta de recursos; e, finalmente, prefeitos, governadores e políticos locais de vários partidos, pois eles serão mais cobrados pela sociedade e não têm tido o apoio federal necessário.

Daqui pra frente, as falhas em políticas públicas vão ficar mais evidentes. Com um ano e meio de governo, o bolsonarismo, tomado principalmente pelo conservadorismo revolucionário, não foi capaz de melhorar ou produzir alternativas ao modelo vigente, de modo que chegará a hora e a vez dos cidadãos cobrarem mais pelos serviços públicos e pelos resultados das políticas. O Centrão sabe disso e, por isso, logo, logo, além de cargos, demandará mais pragmatismo ao presidente para continuar no seu barco.

Um terceiro fator que colocará o bolosonarismo-raiz em frágil situação serão as pressões internacionais. Elas tendem a aumentar porque o Brasil se tornou um pária para parte da comunidade internacional, por conta de seus fracassos nas áreas de saúde, meio ambiente e direitos humanos, bem como em razão de sua postura contrária às ações multilaterais. O impacto internacional sobre o conservadorismo revolucionário virá, ainda, do enfraquecimento recente da extrema-direita em vários lugares do mundo. E se Trump perder a eleição presidencial, Bolsonaro terá de dizer que nem conhece seus amigos radicais.

Mas a maior derrota do extremistas que deram base ao bolsonarismo está no campo das instituições democráticas. O projeto mais autoritário advindo daí ganhou limites fortes, embora não se possa negar que Bolsonaro ainda tentará controlar instituições importantes, como no caso do Ministério Público Federal. Só que os conflitos institucionais vão permanecer, sobretudo porque há muitos esqueletos no armário da família Bolsonaro. Desse modo, não será mais possível permanecer no poder e, principalmente, governar, sem ser pragmático em relação às principais instituições políticas.

Nesta encruzilhada ideológica, a sobrevivência do bolsonarismo parece depender de sua migração mais explicita para o conservadorismo tradicional. O discurso em relação aos valores pode ser mantido, embora deva ser expresso de uma forma mais amena, mas será necessário negociar mais e evitar o extremismo nas políticas públicas. O Centrão quer o voto do povão, e não revoluções culturais.

Abandonar o conservadorismo revolucionário não é tão simples, todavia. Essa mudança traz basicamente dois custos: a possível perda de apoiadores mais fiéis e, especialmente, o fato de que o discurso antipolítica se tornará cada vez mais “fake” junto ao eleitorado em geral. Fica a pergunta: Bolsonaro quer ser um mito para seus seguidores ou continuar governando o Brasil? Depois da pandemia, talvez seja cada vez mais difícil assumir os dois papéis, mas, conhecendo a personalidade do presidente (e de seus filhos), ainda não é possível dizer qual caminho ele irá adotar.
Fernando Abrucio

Governo militar não funciona, com ou sem eleição

A representação à PGR de Fernando Azevedo e Silva, da Defesa, contra o ministro Gilmar Mendes, do STF, apelando à Lei de Segurança Nacional e ao Código Penal Militar, tem o odor inequívoco de república bananeira. É o general que sobrevoou a Praça dos Três Poderes num helicóptero de combate quando, em solo, fascistoides pregavam o fechamento do Congresso e do Supremo.

Os militares decidiram sair dos quartéis para colonizar o governo. A janela se abriu com a eleição de Jair Bolsonaro à esteira da razia provocada pelos desmandos da Lava Jato. O resultado é um desastre de proporções amazônicas. A institucionalidade trincada nos conduziu à terra dos mortos --desmatada e queimada. Já fiz neste espaço, no dia 10 de maio, uma exortação: voltem para os quartéis, soldados! Agora outro convite: chega de autoengano, colegas analistas!

Muitos de nós cometeram o erro de imaginar que os militares graúdos da reserva e da ativa estão com Bolsonaro para conter sua criatividade destruidora. Os fatos desmentem a esperança, que, nesse governo, deve sempre ficar de fora.


Luiz Eduardo Ramos, o general (!) da coordenação política que só agora pede passagem para a reserva, afirmou em entrevista que especular sobre golpe é "ultrajante". Mas fez uma advertência: convém não "esticar a corda". E o que seria esticá-la? Respondeu: "Um julgamento casuístico".

Em nota, presidente, vice e ministro da Defesa alertaram: "As FFAA do Brasil não cumprem ordens absurdas" e "não aceitam (...) a tomada de poder (...) por conta de julgamentos políticos". Nos dois casos, os fardados se colocam como juízes dos juízes. Isso é ultrajante.

Acabou a tutela! A democracia não é uma concessão que militares fazem a civis. A força armada existe para nos proteger, não para nos ameaçar.

Mendes teve a serena ousadia de chamar pelo nome, ainda que num exercício hiperbólico, aquilo a que se assiste no país, segundo o que define o Estatuto de Roma, que orienta os julgamentos do Tribunal Penal Internacional: genocídio.

E o Exército "se associa", verbo empregado pelo ministro, à tragédia porque à frente da Saúde está um general da ativa --Eduardo Pazuello-- cuja incompetência se conta em cadáveres: quase 80 mil.

Para os muitos exigentes em matéria de genocídio: o morticínio em massa tem cor e classe majoritárias: preta e pobre.

E lá veio a voz surda da ameaça em notas e cochichos, a exemplo do malfadado tuíte de 3 de abril de 2018, quando o então comandante do Exército, Eduardo Villas Bôas, ameaçou o STF caso concedesse o habeas corpus a Lula, o que, por 6 a 5, não aconteceu, contrariando a Constituição. Os militares ganharam balda. Conseguiram, por exemplo, um dos planos de aposentadoria mais generosos do mundo mesmo nesta terra devastada, do genocídio cordial sem hipérbole.

Mendes, na verdade, defendeu a honra do Exército, que não é propriedade dessa geração do oficialato. Como instituição permanente e regular, pertence ao povo. É preciso, se for o caso, preservá-lo do erro de alguns generais que confundem sua pantomima pessoal com a história da Força.

Não haverá golpe, não é mesmo, senhores? A tragédia da Covid-19 e a crise ambiental, que tem a Amazônia como epicentro, são, antes de tudo, desastres da gestão militar. Tornam o país pária no mundo. Golpe em nome do quê? Condecorem Mendes, que não acusou o Exército de praticar genocídio. Ele cobrou que a Força não se associe ao desastre.

Só para lembrar: Mark Milley, chefe do Estado Maior das Forças Armadas dos Estados Unidos e da máquina de guerra mais poderosa da Terra, teve a humildade de se desculpar com o povo americano por ter sido flagrado numa foto ao lado de Donald Trump, em situação política incômoda.

Quem pode se impor militarmente ao mundo se desculpa com seu povo por um ato errado. Quem é ignorado por este mesmo mundo se impõe militarmente a seu próprio povo.

Descolonizem o governo, senhores! Voltem para os quartéis e peçam desculpas aos brasileiros e às respectivas tropas. Como se nota, governo militar não funciona. Com ou sem eleição.

Quem paga o pato...



Na luta do bem contra o mal, é sempre o povo que morre
Eduardo Galeano

Os rega-bofes do Queiroz

Um dia, quando os historiadores estudarem os anos bolsonaros, algumas questões poderão embatucá-los. Exemplo: como se explica que Fabrício Queiroz, íntimo dos Bolsonaros, com paradeiro ignorado e investigado por negócios de grande interesse dos dois, pode ter sido hóspede em Atibaia por mais de um ano de Frederick Wassef, então advogado dos mesmos Bolsonaros, sem que estes soubessem? Uma simples palavra de Wassef —“Fiquem tranquilos, o homem está comigo”— os teria poupado de aflições sobre esse paradeiro, que tantas vezes disseram desconhecer.


Outra: já que nunca estranharam as transações financeiras do amigo, por que eles não o abrigaram? Não seria por falta de opções —afinal, os Bolsonaros têm uma bela carteira de propriedades em vários estados, fora os apartamentos e salas que Flávio Bolsonaro comprava e revendia horas depois com lucro de 400 por cento. Talvez porque soubessem que Queiroz seria um hóspede complicado. O próprio Wassef se queixou de que, em vez de se manter discreto, Queiroz não sossegava —vivia pulando do sítio de Atibaia para os apartamentos do advogado em São Paulo e vice-versa e até para assistir ao filho jogar pelada na longínqua Saquarema.

E tudo isso durante um delicado tratamento de câncer de cólon, que o obrigava a idas a hospitais, ocasiões que aproveitava para passar na quitanda e se equipar para os churrascos, cervejadas, réveillons e outros rega-bofes que promovia com os amigos no famoso sítio.

Agora em prisão domiciliar, Queiroz será dispensado desses atropelos e poderá se dedicar melhor ao tratamento. Sua mulher, Márcia, cuidará dele, o que não pôde fazer enquanto também ficou fora do ar.

Os futuros historiadores só estranharão por que o presidente do STJ (Superior Tribunal de Justiça), João Otávio de Noronha, não convidou o casal para sua cerimônia de posse no STF na vaga de Celso de Mello.
Ruy Castro

Efeitos colaterais do excesso de militares no governo

O presidente Jair Bolsonaro está calado, depois da prisão de Fabrício Queiroz e isolado, depois de infectado pelo coronavírus. As duas coisas deram uma trégua na sucessão de crises diárias criadas por Bolsonaro, inesperadamente rompido por frase desajuizada de Gilmar Mendes, ministro do Supremo Tribunal Federal. “O Exército está se associando a esse genocídio, não é razoável”, disse, referindo-se ao morticínio provocado pelo coronavírus -mais de 74 mil vítimas até ontem. O ministro da Defesa, Fernando Azevedo, em nota assinada pela primeira vez no atual governo pelos comandantes do Exército, Marinha e Aeronáutica, criticou a fala de Gilmar e encaminhou representação contra ele na Procuradoria Geral da República, o caminho institucional, por instigação de animosidade contra as Forças Armadas e crime contra a honra.

O alvo específico da crítica do ministro do STF foi a militarização do Ministério da Saúde, há dois meses sem titular e comandado interinamente pelo general da ativa Eduardo Pazuello, que para lá levou mais 28 militares. Pazuello não tem formação médica, assim como a maior parte de seus auxiliares fardados. Durante seu interinato, as mortes ultrapassaram o nível de 1 mil por dia e se mantêm nesse patamar.


Pazuello, especializado em logística, foi enfiado goela abaixo do então ministro Nelson Teich, que chegou, viu o ambiente e saiu correndo do pandemônio do ministério em menos de um mês. Bolsonaro disse em junho que Pazuello faz um trabalho “excepcional” e justificou seu ingresso ao lado de Teich: “um médico dificilmente é gestor”. Com igual razão, um gestor não é um médico e militares cumprem ordens. As ordens vieram de cima, do presidente da República e condenaram o ministério a se tornar irrelevante quando ele era mais necessário no combate à pandemia. As ordens foram cumpridas à risca.

Pazuello estreou no lugar de Teich propondo nova forma de contabilizar vítimas e infectados, suspendendo a divulgação de relatórios diários, regular até então. Atendeu às manias do chefe e criou um novo protocolo recomendando o uso da cloroquina desde a fase inicial da infecção, quando não há qualquer comprovação científica da eficácia do remédio, mas várias sobre seus males.

Bolsonaro se opôs ao distanciamento social, ao trabalho de coordenação necessário executado por Luiz Mandetta e há pouco usou sua caneta para vetar que o uso de máscara seja obrigatório no comércio, igrejas etc. Pazuello é um aplicado cumpridor desta estratégia, que levou a Saúde à nulidade durante a maior crise sanitária em décadas e eliminou qualquer expectativa de que possa ter o mínimo papel positivo durante a pandemia. O presidente é o artífice e responsável pelo desastre.

De desastre, desprezo pela vida humana e incompetência até o genocídio, porém, há um oceano. Mas Gilmar, a rigor, não colocou o Exército como sujeito e autor do inexistente genocídio, mas advertiu-o a não ser um coadjuvante de uma política aberrante e mortífera. Com a cautela que não teve na primeira vez, Gilmar afirmou em nota na terça que refutava “a decisão de se recrutarem militares para a formulação e execução de uma política de saúde que não tem se mostrado eficaz para evitar a morte de milhares de brasileiros”.

Bolsonaro não promoveu a revoada de militares da reserva e da ativa para seu governo à toa. O presidente radicaliza seus ataques às instituições sugerindo que têm o apoio fardado. Como comandante-em-chefe das Forças Armadas, não pode ser desobedecido ou contestado. O ministro da Defesa e os comandantes militares não se distanciaram dessa armadilha, assim como não ficaram quietos sobre as barbaridades políticas cometidas pelo presidente. Mas estão vigilantes e crispados exatamente diante de críticas ao comportamento provocador de Bolsonaro. O ministro da Defesa sobrevoou uma manifestação contra a democracia ao lado do presidente.

Há este recado implícito na forma errada com que Mendes usou para apelar aos militares. Eles estão se associando demais aos ataques contra a democracia e demais atos destrutivos de Bolsonaro. Por isso, poderão colher os frutos amargos com a depreciação de seu prestígio junto ao público, que demorou décadas para ser construído. As surpresas que a Justiça pode trazer nos casos Queiroz, milícias, rachadinhas e Flavio Bolsonaro, desaconselham vivamente a identificação com o governo.