sexta-feira, 19 de junho de 2020

Governo se diz liberal, mas joga contra empreendedores

O início da flexibilização do isolamento social em boa parte do país dá a impressão de termos saído da pior fase da pandemia. No entanto, a situação é mais complexa por três razões. A primeira é que ainda não atingimos o ápice da doença, algo que, segundo epidemiologistas, poderá acontecer em junho ou, mais provavelmente, julho. Além disso, há chances de ocorrer uma segunda onda da covid-19 (ou o alargamento da primeira onda), fruto da maneira desorganizada com que tratamos a crise sanitária - e aí teríamos um número maior de mortes. E quando passar a fase mais aguda do novo coronavírus, virá o maior dos desafios: a reconstrução do país.

O desempenho do presidente Bolsonaro no combate à covid-19 tem sido sofrível até agora. Ele já foi considerado por analistas estrangeiros como o pior governante do mundo neste quesito. A maneira como o país está tentando sair da quarentena pode aumentar o descrédito do Brasil no cenário internacional, em especial se a doença revigorar seu poder de disseminação. Uma nova onda da pandemia, ademais, atrasaria ainda mais a retomada das atividades econômicas, e num cenário como esse o bolsonarismo pode dobrar a aposta na confusão, desinformação e conflito com os governos subnacionais e outros atores sociais, ampliando a crise atual.


O dia em que o Brasil sair do pior da pandemia será marcado por duas questões. A primeira dirá respeito ao legado deixado pelos erros no combate à covid-19. A desconstrução do SUS, o acirramento dos conflitos federativos, a ascensão de grupos bolsonaristas de extrema-direita que atentaram contra a democracia e a falta de liderança presidencial, que reduziu a capacidade de os governadores e prefeitos lidarem com a política sanitária local, serão marcas com impacto sobre o futuro.

Hipoteticamente, é possível recomeçar e buscar um novo modelo de relacionamento político. Porém, isso exigirá capacidade de organizar a reconstrução do país. E aqui está o segundo ponto: o governo Bolsonaro já deveria estar preparando o Brasil para o “day after” da crise, mas está completamente perdido. Fica a pergunta: o presidente tem condições de reconstruir a nação?

A reconstrução do país enfrentará uma série de desafios. O primeiro deles será o de ajudar as pessoas atingidas pela doença, especialmente os familiares das pessoas mortas. Há cenários que vão de 100 mil a 150 mil mortes do país nos próximos meses.

Qualquer um dos números é aterrorizador. Cabe ao governo federal reconstruir a confiança social da nação e, para tanto, uma política de apoio às famílias atingidas pela covid-19 seria uma forma inteligente e humanista de restaurar um clima positivo no Brasil.

O sistema de Saúde e seus profissionais precisarão de uma atenção especial após toda a pressão pelo qual passaram por meses, numa intensidade descomunal. Embora seja necessário manter uma estrutura por um tempo para lidar com a covid-19, haverá uma demanda represada muito grande. Outras doenças importantes do ponto de vista epidemiológico podem ter se descontrolado e, mais uma vez, o SUS terá uma sobrecarga de trabalho. Muitos acham que foi necessário ampliar os recursos financeiros agora por conta da crise, mas se perceberá na volta ao normal que o subfinanciamento das políticas de saúde é estrutural.

Mais importante será apoiar os profissionais da área médica no dia seguinte dessa pandemia. Não foi só ver milhares de mortos e sentir a impotência de não poder evitar um destino trágico e rápido dos pacientes. O governo federal, em particular, desrespeitou continuamente às tecnicalidades da área, sugerindo soluções médicas sem evidências cientificas e, obviamente, isso afeta quem está na ponta do sistema. Para piorar, o presidente Bolsonaro incitou pessoas a invadirem hospitais, um lugar sagrado para o bem-estar das sociedades, tanto mais numa pandemia tão avassaladora. Valorizar os profissionais da saúde, em especial do SUS, deveria ser um dos primeiros atos da reconstrução nacional.

As relações internacionais serão estratégicas no dia seguinte do ápice da pandemia. As soluções mais duradoras em relação à covid-19 vão depender de cooperação com outros países, não apenas no que se refere à comercialização da tão desejada vacina, mas também em relação ao restabelecimento do crescimento econômico global. Tudo isso só será possível se o Brasil mudar a sua orientação atual de política externa, que se diz contra o globalismo e os organismos multilaterais. Acreditar que governo americano vai salvar o país de todas as suas trapalhadas e equívocos frente à opinião pública mundial, como nos casos das fracassadas políticas ambientais e indigenistas, é um caminho incerto e ingênuo - afinal, nem se sabe se Trump continuará presidente após a eleição de novembro.

A desigualdade ficou ainda mais visível com o crescimento da Covid-19, realçando como o país não resolverá seus principais problemas se não tiver políticas de longo prazo contra as diferenças sociais que dividem tragicamente o país. A adoção de políticas de transferência de renda mais eficazes já entrou na ordem do dia no debate público, embora o governo ainda não tenha deixado claro como irá lidar com esse assunto.

É preciso entender que há vários tipos de desigualdade que foram realçados com a crise sanitária. A distribuição de renda aos mais pobres é essencial, mas não esgota o tema. Deveria receber maior atenção a situação de moradia de grande parte das famílias brasileiras, que vivem em condições insalubres e quase sempre sem saneamento básico. A manutenção endêmica da dengue no Brasil já se vinculava a essa característica de desigualdade urbana. Se novas pandemias que não tenham ainda um remédio adequado atingirem o país, formas de isolamento social serão mais uma vez difíceis de se obter - e sem isso, o número de mortes sempre será maior.

Outras desigualdades, como as que atingem os idosos e sobretudo a população negra, também merecem tratamento mais adequado. O retrato dos mortos da pandemia tem revelado que não somos iguais perante as políticas públicas. Na verdade, outros indicadores, como o de violência urbana e o de escolarização da população, há décadas têm mostrado um país doente em termos de desigualdade. Mudar esse cenário seria uma forma de mostrar que aprendemos com a trágica história da covid-19.

A reconstrução econômica será um dos maiores desafios do pós-covid-19. É preciso, inicialmente, garantir alguma renda a milhões de brasileiros que ficarão sem emprego e para os quais a informalidade não garantirá sustento. Essa ajuda provavelmente precisará ter uma temporalidade maior do que a imaginada pelo governo, pois o retorno das atividades econômicas não vai puxar tão rapidamente o PIB e o emprego como se gostaria. O mundo pode entrar numa depressão, e para esta é preciso mais ideias de keynesianos do que de liberais extremos.

A ajuda às empresas brasileiras foi, até agora, completamente insuficiente. O governo Bolsonaro demonstrou ser insensível com pequenos, médios e grandes empresários, com exceção daqueles que o apoiaram diretamente na eleição e que continuam fiéis nas redes sociais. Faltou uma imaginação institucional e um sentido de urgência que houve na época do Proer e que evitou a crise bancária, ou quando o presidente Lula garantiu a sobrevivência de várias empresas após a crise de 2008. É muito paradoxal ter um grupo governante que se diz liberal e joga contra os capitalistas e empreendedores.

Mesmo sabendo que o tamanho da crise econômica e sanitária deva se fazer sentir por alguns anos no Brasil, a consequência mais profunda da crise da covid-19 ocorrerá na educação. Alunos pobres que ficaram por meses sem aula aumentarão a enorme distância que os separa dos mais ricos. A forma de corrigir isso está em melhorar a qualidade das escolas e ter professores motivados e preparados para essa batalha contra tamanha desigualdade.

Porém, até agora o MEC não disse como enfrentará essa tragédia. Na verdade, o governo Bolsonaro lavou as mãos diante dessa desgraça coletiva, abandonando a geração que será o futuro da nação. Os livros de história contarão quem foi o governante que mais abandonou a educação no país.

Obviamente que o ministro da Educação, cujo nome é indigno de ser pronunciado, tem culpa na falta de rumo para o setor. Mas o presidente deveria chamar para si a responsabilidade de aprovar um Fundeb capaz de financiar o enorme desafio que será reconstruir a esperança de crianças e jovens pobres pelo país afora.

Deveria também retomar o diálogo com governadores e prefeitos para tomarem decisões conjuntas que garantam o aprendizado de todos os alunos, desculpando-se assim do vexame que foi brigar com os governos subnacionais em meio a milhares de mortes. Mais do que tudo, deveria gritar que a reconstrução do país começa nas escolas, congregando professores, famílias e filhos em torno de um projeto de Brasil mais justo e capaz de aumentar a qualidade de seu capital humano. Gostaria de acreditar nessa imagem, mas, infelizmente, Bolsonaro é mais habilidoso em criar guerras culturais do que em juntar pacificamente as pessoas em torno do conhecimento como a principal arma de mudança social.
Fernando Abrucio

Bolsonaro já tem seu 'tchau, querida!'

O governo Bolsonaro acabou. A reforma da Previdência, único marco que ficará destes dias, durem quanto durar, é, na verdade, herança do governo Temer, que só não conseguiu aprovar o texto porque teve de enfrentar o lavajatismo golpista e de porre de Rodrigo Janot. Isso à parte, sobra pregação golpista. E só.

Quanto tempo o “mito” ainda fica por aí? Não sei. Mas é “um cadáver adiado que procria”, para lembrar verso de Fernando Pessoa em caso bem mais nobre. E qualquer coisa que venha à luz, nessas circunstâncias, será necessariamente ruim.

Não temos mais um presidente, mas um refém do fundão do centrão. À medida que a sociedade vai saindo da clausura a que a condenou o coronavírus, cresce o preço político para manter o corpo na sala. Até a hora em que os próprios apoiadores resolvem enterrar o malcheiroso.


Lembram-se do “tchau, querida” de Lula, ao se despedir de Dilma, naquela gravação feita e divulgada ilegalmente por Sergio Moro? Esqueçam o mérito. Fixo-me nas palavras. Elas se transformaram numa espécie de emblema da derrocada do governo. Era também uma senha entre os que defendiam o impeachment.

Bolsonaro já tem os dois vocábulos imortais que servem para carimbar seu fim. E saíram de sua própria boca, em um dos habituais acessos de fúria. Falando a seguidores no Alvorada, deu a entender que, a partir daquele momento, passava a ter o comando das vontades do STF. Vociferou para o TIH (Tribunal da Ironia da História): “Acabou, porra!”.

Pois é... Acabou, porra!

A partir de agora, não há mais como o presidente se ocupar do governo. Enquanto estiver por aí, vai ter de pagar, às custas do futuro do Brasil, o preço para que não se formem os 342 votos na Câmara que o empurrariam para julgamento, e condenação certa!, no Senado por crime de responsabilidade.

Aqui e ali, as pessoas se espantam: “Caramba! O Fabrício Queiroz foi se homiziar justamente no sítio de Frederick Wassef, advogado dos Bolsonaros, que tinha estado no Palácio do Planalto no dia anterior, a convite do presidente, na posse de Fábio Faria, o ministro que simbolizaria a disposição para o diálogo?”.

Meus caros, vocês queriam o quê? De Goethe a Max Weber, estamos diante de uma derivação das chamadas “afinidades eletivas”. A Operação Anjo, no âmbito da qual Fabrício foi garfado, é uma referência ao apelido de Wassef entre os Bolsonaros: anjo. Eles todos devem saber por quê.

Queiroz foi preso no dia seguinte àquele em que Bolsonaro negou a democracia três vezes. O dia 17 de junho entrará para a história. Logo de manhã, o presidente anunciou às portas do Alvorada, referindo-se a magistrados de tribunais superiores: “Eles estão abusando. Está chegando a hora de tudo ser colocado no devido lugar”. À noite, foi ainda mais sombrio: “É igual uma emboscada. Você tem de esperar o cara se aproximar”.

Na sequência, foi arriar a bandeira em companhia do comandante do Exército, Edson Leal Pujol, que caía, ele sim, numa emboscada. Entre uma ameaça e outra, fez a mais grave de todas as afirmações desde que assumiu. E justamente na posse do novo ministro.

Nas barbas de Rodrigo Maia e Dias Toffoli, presidentes, respectivamente, da Câmara e do STF, o mandatário evocou as forças do caos: “Não são as instituições que dizem o que o povo deve fazer. É o povo que diz o que as instituições devem fazer”. Essa é a divisa dos tiranos, não dos democratas. “Povo”, para Bolsonaro, ele já deixou claro, se resume às suas milícias digitais e àqueles que comungam de seus, vá lá, valores, que ele chama “conservadores”, numa distorção miserável do sentido da palavra.

É o passado policial de Bolsonaro que põe fim a seu governo, ainda que o cadáver fique por aí. Mas o que já o impedia de governar é a sua absoluta incompreensão do que é a democracia. Sim, novas ameaças de autogolpe virão nos próximos dias. É de sua natureza.

Bolsonaro quer que acreditemos que os generais podem botar os tanques nas ruas para unir a história das Forças Armadas à de patriotas como Fabrício Queiroz.

Reinaldo Azevedo

Brasil vampirizado


Não há mal que sempre dure

Não dá para esconder que a democracia brasileira esteja sob alto risco, e não apenas por que se encontra ameaçada por um governo que faz do seu desmonte o seu objetivo estratégico, mas também por que uma parte de sua sociedade abandonou sua afeição por ela. Afinal, os governantes que aí estão foram eleitos em pleitos eleitorais livres, secundados pelos parlamentares mais toscos, despreparados e vorazes conhecidos em nossa longa história parlamentar, presentes em todas as casas de representação política. Também eles não caíram do céu, foram eleitos, e muitos deles com estrondosa votação. O retrato lúgubre que estampam não é filho do acaso e da má vontade do destino, mas das nossas ações e inações. Diante de nossos olhos a sociedade adoeceu, perdeu-se de si mesma, da sua história e melhores tradições.


Como isso pode acontecer aqui, justo no lugar que soube derrotar pela ação política bem concertada um regime autoritário que a afligiu por duas décadas, essa a questão que temos de sondar até as suas raízes a fim de encontrar remédio para os males que nos atormentam. Que se ronde a blasfêmia, inevitável no caso, por que foi de um partido nascido da vida sindical, lugar sagrado da esquerda, que teve início a difusão do vírus maldito que apartou a democracia política da democracia social, cerne da concepção da Carta de 88, destituindo a política do seu papel criador e pondo no seu lugar a esfera bruta dos interesses, deixando fora de foco o cidadão em nome dos apetites do consumidor – os automóveis, as viagens de avião, as comemorações da Força Sindical no 1º de maio com brindes e rifas aos participantes no lugar da evocação das lutas civis que tradicionalmente celebravam.

Principalmente o descaso com a organização da vida popular e a descrença no papel que uma cidadania ativa pode desempenhar nas democracias, uma vez que por cima de todos um poder tutelar agia em nome de todos, vindo a reforçar as tendências à fragmentação social que décadas de modernização autoritária tinham produzido. A questão social sob a administração do Estado vem à tona com pouca sustentação nos atores que deveriam ser os seus portadores naturais, orientada como estava para os fins políticos da reprodução do poder tutelar que se empenhava, como recurso de legitimação, na satisfação dos desejos de consumo das multidões.

Naquele contexto o que importava era a preservação das posições conquistadas no interior do Estado, pois era a partir dele que realizava o seu enlace com os movimentos sociais e setores da sociedade civil, aí incluídas atividades empresariais de todo gênero, movimento que mereceu ser designado como o Estado Novo do PT. Seus efeitos foram letais na medida em que expos as estruturas do Estado às ações de grupos de interesse que se valeram dessas relações promíscuas para a expansão dos seus negócios e atividades econômicas, terreno fértil à corrupção. Com este flanco aberto, escancarou-se a possibilidade para o capitalismo brasileiro de se livrar dos inúmeros obstáculos, sociais e institucionais, que obstavam sua plena realização. A chamada operação Lava Jato foi o cavalo de Troia que permitiu a entrada em cena das hostes que há tempos ansiavam por essa oportunidade.

Com o terreno da política desertificado, lastro deixado pela Lava-Jato, afetado em sua credibilidade o sistema da representação política, destruídas as escoras e referências que orientavam o sistema de crenças da sociedade, já enfraquecidas por anos de práticas refratárias a uma cidadania ativa por parte do PT, a cena pública tornou-se presa fácil do mundo dos interesses e de todos os apetites. Uma ralé de novo tipo, com extração nos setores das camadas médias, em busca da fama e da riqueza fácil, inebriadas pelo mito pós-moderno da personalidade, vislumbra na sociedade indefesa a sua hora e a sua vez e consegue postos importantes no sistema da representação política. Com a infiltração desses vândalos a obra da ainda inacabada civilização brasileira passa a sofrer graves ameaças.

Contudo, dessa história de ruínas permaneceram de pé as instituições edificadas no já longínquo 1988, ano em que celebrou sua Carta democrática, e por isso mesmo os bárbaros que a sitiam têm como lema a sua destruição. Seus defensores, com firmeza e sabedoria, têm sabido até aqui preservar esse último reduto da democracia brasileira, mas seu esforço solitário não é garantia de que poderão sem recursos externos sobreviver ao cerco a que estão expostas. A dificuldade para a efetivação desse movimento está na pandemia que nos assola, e que nos mantém confinados em defesa da vida. Há outros recursos, porém, que embaraçam as ações dos que tramam contra nossa democracia, um deles, nada irrelevante, provem do mundo ao redor.

As forças que nos rondam em nome da destruição da nossa obra coletiva também sabem calcular, e têm tudo a temer, na economia e na política, no cenário atual das coisas no mundo, caso prevaleçam impulsos em suas ações no sentido de apostar na barbárie que anima tantas lideranças suas. O Brasil não é uma ilha, e faz parte desde sua origem do sistema capitalista mundial, filho do Ocidente, sua formação nacional se forjou sob a influência das correntes de ideias que nos vinham da França, no Império, segundo a modelagem operada pelo Visconde do Uruguai, e, na República, dos EUA que inspirou em larga medida a sua primeira Constituição em 1891, obra em grande parte derivada da influência de Ruy Barbosa na sua redação.

Orbitamos desde aí, de Rio Branco a Nabuco e Osvaldo Aranha em torno desse último eixo, que agora se move em reação contrária a política de Donald Trump que desafia as concepções dos seus pais fundadores em nome do seu projeto de poder em antagonismo com o universalismo e ideais civilizatórios preponderantes ao longo da sua história republicana. Tal movimento, nos dias que correm, tendo como estopim a questão racial, ganhou as ruas, em que pese a pandemia que a todos atinge, em multitudinárias manifestações de jovens apoiadas pela opinião pública e de grandes personalidades do mundo da cultura e dos esportes, não lhe faltando sequer palavras de simpatia entre algumas de suas elites militares. Anuncia-se a possibilidade de mudança nas coisas do mundo.

A política dos governantes que aí estão se encontra desalinhada das tendências benfazejas que ora se afirmam em todos os cantos do planeta. Sob a pressão da pandemia em curso, a linguagem da cooperação se universaliza, com forte intensidade na dimensão da ciência onde se fazem presentes vigorosas denúncias do estado de coisas reinante no mundo, que adoece pelas desigualdades sociais, pela degradação da natureza e da vida em geral. Coube a nós viver essa quadra inclemente sob a condução de ideologias de hospício, hostilizados pelo bestiário de dirigentes que afrontam o mundo e o que há de melhor em nosso país. Isso que aí está não pode durar, não vai durar.
Luiz Werneck Vianna

Acabou a 'liberdade dos tolos'?

Li, estes dias, na coluna de Yascha Mounk, na Folha de S.Paulo, que o "Brasil já é uma democracia sob supervisão militar". Concordo em parte, como explicarei a seguir.

Para começar: lotear os ministérios com militares, em vez de quadros técnicos, como originalmente prometido pelo presidente Jair Bolsonaro, é um sinal claro dessa supervisão. O mesmo vale para declarações dúbias como a do ministro-chefe da Secretaria de Governo, o general Luiz Eduardo Ramos, de "não esticar a corda". Parece que há militares da ativa se confundindo sobre o papel dos militares. Eles são do Estado, e não um braço armado do governo. E servem para proteger a democracia e os cidadãos, sendo eles "de esquerda" ou "de direita".

Afastar o presidente do cargo, por meio de uma decisão do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) ou de um impeachment, faz parte do jogo democrático. E não de uma tentativa de "esticar a corda". Só para lembrar que a ex-presidente Dilma Rousseff foi removida do poder por causa de "pedaladas fiscais" e sob o aplauso – e até ofensas – do então parlamentar Jair Messias Bolsonaro.

No meu entender, o impeachment de Dilma foi um jogo sujo, mas, obviamente, dentro das regras democráticas. O impeachment serve como saída de emergência no sistema presidencial. No sistema parlamentar, a saída é mais fácil e menos dolorosa: basta o parlamento eleger um novo primeiro-ministro e acabou. Sem drama.

Mas entendo que seja mais fácil fazer o impeachment de uma presidente da esquerda. É impensável fazer o impeachment de um presidente "de direita", que tem centenas de militares no seu governo? A direita sempre possui uma certa Narrenfreiheit, palavra alemã maravilhosa, que significa "liberdade dos tolos". É só olhar para a turma dos 300 do Brasil, que fizeram todo mundo de bobo na Esplanada dos Ministérios por semanas. Acamparam na Esplanada, xingaram e ameaçaram os ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) e os congressistas em plena Praça dos Três Poderes, copiaram as marchas noturnas com tochas dos nazistas e supremacistas brancos e até "bombardearam" o STF com fogos de artifício. E, ainda por cima, posaram com suas armas para fotos.

Nunca um grupo da esquerda teria tido tal Narrenfreiheit. E nunca um policial militar teria levado um desaforo de um ativista "da esquerda" como levou de Sara Giromini "Winter" no dia da remoção do acampamento dos 300 do Brasil. Aposto que a Sara estava lançando sua candidatura para 2022 ao xingar o policial. Igual fez seu ídolo, o então deputado Bolsonaro, que lançou sua candidatura para 2018 ao ofender Dilma na votação do impeachment em 2016.

A República sempre teve uma certa cegueira no olho direito. Afinal de contas, foram os militares que proclamaram a República, em 1889, e não forças políticas. (Ou será que os militares se enxergam como força política? Isso explicaria muita coisa.) Por isso, tenho que discordar de Yascha Mounk num ponto: o Brasil sempre esteve sob a supervisão militar.

Pode-se traçar uma linha desde a Proclamação da República, do começo da era Vargas, com a Revolução de 1930, passando pelo fim da presidência dele, pressionado pelos militares, e até o golpe de 1964. Desde 1988, o Brasil tenta tirar a supervisão militar. Mas lembramos das notas emitidas por militares, no fim do governo Dilma e na ocasião de uma suposta soltura do ex-presidente Lula da prisão, quando militares das mais altas patentes tomaram um lado.

Agora, uma parte do aparato militar faz parte do governo Bolsonaro. Nas manifestações do dia 7 de junho, em Brasília, Augusto Heleno Ribeiro Pereira, general da reserva do Exército e atual ministro-chefe do Gabinete da Segurança Institucional, fez questão de cumprimentar os policiais que fizeram o cordão de isolamento entre os manifestantes "da esquerda" e os bolsonaristas. Foi festejado como herói pelos "blogueiros" bolsonaristas, que seguem fielmente a filosofia dos Jedi de "Guerra nas Estrelas" que diz: "Aliada minha é a Força, e poderosa aliada é." Eles têm muitos motivos para acreditar que "a força está com eles".

Minha experiência de manifestações é que as forças policiais não hesitam em lançar gás e bombas de efeito moral contra manifestantes "da esquerda", além de balas de borracha e cacetadas. Nunca se atreveriam a fazer isso com manifestantes do outro lado.

Sobrou agora para a Justiça enquadrar os 300 do Brasil e a militância pró-governo. Na manifestação do dia 7 de Junho, ouviam-se reclamações por parte dos manifestantes bolsonaristas, que tinham a plena liberdade de se aglomerar na Praça dos Três Poderes (algo que os manifestantes "da esquerda" não podiam). Compararam as buscas e apreensões, feitas pela Polícia Federal nas casas de apoiadores do presidente Bolsonaro à perseguição que os judeus sofreram na Europa nazista. Chamaram o STF e o Congresso de "comunistas" e conclamaram uma "intervenção militar". Tudo fora da lei e do contexto histórico.

Resta saber se a "liberdade dos tolos" agora acabou. E o que o presidente Bolsonaro quis dizer, quando comentou as investigações contra políticos bolsonaristas que supostamente financiaram os atos dos 300 do Brasil com a seguinte frase: "Está na hora de tudo ser colocado no seu devido lugar."

Thomas Milz

Capitão Sanguessuga

Bolsonaro ‘vampiriza’ o prestígio dos militares para escorar seu governo cada vez mais impopular. O resultado é que não se pode mais dizer, hoje, que se trata de um governo civil com militares. É uma administração fraca que se cerca de militares para simular força e impedir sua queda por meio da intimidação dos outros poderes. Ou seja, é uma relação desigual, na qual a corporação perde e Bolsonaro ganha
Christian Lynch, do Instituto de Estudos Sociais e Políticos da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Iesp-Uerj)

Primeiro alerta aos militares: acabarão como o Sansão bíblico?

O primeiro alarme acaba de soar. Enquanto Bolsonaro vê sua taxa de apoio popular reduzida a 30% antes dos dois anos de mandato, os militares, que eram junto com a Igreja uma das instituições com maior índice de aprovação na sociedade, começam a descer a ladeira. Segundo a recente pesquisa do Instituto da Democracia, pela primeira vez o mítico apoio popular ao Exército começa a desmoronar, perdendo 7 pontos, enquanto sua permanência no Governo não contribui para a democracia na opinião de 58%.

Começa-se a notar na opinião pública a inquietação de que essa presença maciça dos militares no Governo de Bolsonaro, com suas manias golpistas, possa resultar em um desastre para todos. O apoio à ideia de uma ruptura institucional para permitir um golpe militar em nome do combate à criminalidade passou de 55,3% em 2018 para escassos 25% hoje.


Cabe perguntar aos militares o que os leva a continuar apoiando um Governo que está murchando aos olhos da opinião pública, cada vez mais encurralado internacionalmente. O índice de aprovação a Bolsonaro no Brasil se deteriorou os últimos meses com o desprezo do presidente pela pandemia, a tentativa de ocultar as mortes e sua falta de empatia com as vítimas, que estão prestes a serem as mais numerosas do mundo.

Há quem se pergunte o que esperam os militares para abandonar essa situação de apoio a um Governo contra o qual estão crescendo as manifestações populares, as quais poderiam alcançar a eles mesmos. Como escreveu dias atrás Carla Jiménez, diretora de redação do EL PAÍS Brasil, essa ambiguidade dos militares pode fazê-los serem vistos como “cúmplices” das ações de um presidente que já é tido como um caso psiquiátrico. Será só o acúmulo de salários, como ironizou o genial colunista Elio Gaspari? Ou será o prazer da visibilidade midiática por seus cargos no Governo, que os faz aparecerem, dia sim, dia não, pontificando sobre a política, da qual deveriam ficar de fora?

De qualquer modo, a responsabilidade dos militares perante a sociedade que começa a abandoná-los é grave, já que nada poderia ser mais perigoso para o Brasil, para sua imagem dentro e fora do país, que acabar perdendo sua cota cada vez mais minguada de popularidade.

Seria triste que os militares brasileiros que deram apoio à democracia, o que acabou por redimi-los da noite escura da ditadura, possam perder hoje sua credibilidade por um prato de lentilhas. Tomara não repitam a simbologia da passagem bíblica de Sansão, para citar um exemplo tirado do Livro Sagrado que seu atual chefe, o presidente Bolsonaro, exibe junto à Constituição.

Sansão, segundo aparece no Livro dos Juízes (capítulos 13 a 16) da Bíblia hebraica, foi o último juiz de Israel antes da monarquia. Tinha sido agraciado por Deus com uma força especial. Era capaz de despedaçar um leão com suas mãos. Seus inimigos eram os filisteus. Contra eles Javé tinha dado um poder especial que residia em sua vasta cabeleira de nazareno.Sansão pediu permissão para se apoiar em uma coluna do edifício e com um simples movimento fez desabar o templo, onde morreram ele e os filisteus

Sansão, entretanto, caiu na fraqueza de se entregar às delícias de uma prostituta que lhe arrancou o segredo da sua força. Assim, enquanto dormia em seus braços, fez que lhe cortassem sua cabeleira, e começou seu declínio. Os inimigos lhe arrancaram os olhos, obrigaram-no a labutar num moinho de grãos. Só que ali o seu cabelo cresceu novamente, e ele recuperou a força. Os filisteus não sabiam, e um dia o convidaram a ir ao templo. Estava, diz a Bíblia, abarrotada com 3.000 filisteus que ocupavam até o teto do templo. Sansão pediu permissão para se apoiar em uma coluna do edifício e com um simples movimento fez desabar o templo, onde morreram ele e os filisteus.

As histórias bíblicas têm muitas leituras. A de Sansão já foi tema de todas as artes, da literatura à pintura, e de todas as interpretações religiosas e laicas. E hoje se tornou atual na complexa história de Bolsonaro e dos militares. Não sabemos de onde vem a força que Bolsonaro revelou nas últimas eleições, quando obteve 57 milhões de votos sem nunca ter sido nada antes, nem como deputado em seus 30 obscuros anos de Congresso e menos como militar, já que foi forçado a abandonar sua carreira por causa dos seus instintos terroristas.

Talvez essa força do “mito”, que como Sansão hoje ameaça derrubar as colunas da democracia, tenha sido conferida pelos milagrosos robôs e fake news usados em sua campanha, ou como desforra pela humilhação de ter ficado em simples capitão reformado, para se tornar comandante-chefe de todas as Forças Armadas do país. É algo de que hoje ele se gaba. Não se deram conta os militares de que o acolheram e estão se tornando seus cúmplices no governo?

Cuidado, porque o novo Sansão pode acabar em sua loucura preferindo que todos morram com ele, derrubando as colunas do templo da Constituição. Perderíamos todos: ele, os militares, a sociedade e o mundo, porque o Brasil acabaria reduzido a mais uma república de bananas após ter sido o coração econômico do continente e a inveja do mundo quando o país desfrutava tranquilo de sua reconquistada democracia e era visto como o país do futuro.

Como acaba de afirmar Fernando Gabeira, que conhece como poucos, palmo a palmo, os territórios mais recônditos do Brasil e não pode ser acusado de conivência com o poder, “nem todos sabem como este país é grande, diverso, solidário e magnífico em sua beleza”. E alerta: “Impedir que ele se dissolva é a grande tarefa de construir uma civilização tropical onde só querem pastos, fuzis, carros e eletrodomésticos”.

Cuidado, senhores militares! O Brasil é maior, mais importante e interessante no mapa mundial que as mesquinhas manobras de poder. E vocês são os garantes de defender este grande patrimônio para que não seja jogado na roleta da morte.

quinta-feira, 18 de junho de 2020

Racistas, nós?!

Nestes tempos, a vida continua a revelar-nos um enredo de ficção distópica à frente dos nossos olhos. Há dias, ouvi ao fundo a voz off de um canal de televisão noticiar que uma “manifestação racista e uma manifestação antirracista” se tinham confrontado em Londres. Estremeci. O próprio conceito de “manifestação racista” é coisa intolerável e inimaginável – algo ao nível de uma manifestação de assaltantes ou de uma manifestação de agressores. E, porém, aconteceu. Grupos de extrema-direita gritaram palavras de ordem contra os negros, sob o pretexto de protegerem as estátuas que poderiam vir a ser destruídas pelos grupos de extrema-esquerda. Cá está o estado a que as coisas chegaram: os dois lados da barricada extremados frente a frente, arrasando uma causa que tem de ser comum e que não devia ter cor política. E, porém, estupidamente, tem.

O tema do antirracismo não pode ser da esquerda nem da direita. Tal como a igualdade, este tema tem de ser de todos. E não, não pode bastar-nos não sermos racistas, temos de ser ativamente antirracistas. Todos, da direita à esquerda democráticas, passando pelos vários centros, têm de fazer desta uma causa também sua.


Infelizmente, a direita portuguesa ainda não percebeu isso, e a esquerda está a deixar que a extrema-esquerda assuma o protagonismo do tema. A direita continua a enterrar a cabeça na areia e a repetir a velha lição aprendida na escola no tempo da outra senhora: fomos “colonizadores diferentes”, sempre tratámos bem, acolhemos e integrámos os negros, e não temos qualquer problema de racismo em Portugal. Que dizer da boutade de Rui Rio, um candidato a primeiro-ministro, acerca do assunto? Assegura o líder do PSD que não existe um problema de racismo em Portugal e diz que “ainda ficamos é racistas com tanta manifestação”. Os estudos sociológicos desmentem-no, mas Rui Rio garante que está tudo bem e ainda faz piadas que nem à mesa do café se admitem.

Já a esquerda está a deixar que a causa seja tomada de assalto pelos extremistas. Pelos destruidores ignorantes de estátuas e pelos discursos do apagamento da História e da memória coletiva. Não sou, à partida, contra intervenções em situações-limite – compreende-se que não faz sentido termos estátuas de Salazar ou de Hitler nas praças públicas. Mas não vai ficar pedra sobre pedra se começarmos a olhar todas as figuras de antigamente pelos valores de hoje, filtrando-as pelos crivos mais exigentes que só surgiram depois de uma evolução de séculos. Se começarmos a retirar estátuas das ruas e obras de arte dos museus de figuras opressivas, abusadoras, racistas e misóginas, pouco vai restar. A distância para estarmos, não tarda pouco, a queimar livros não é grande. Não é este o caminho, até porque este caminho afasta as pessoas “comuns” desta luta.

Precisamos de todos – mesmo todos, para combater um problema que é evidente que existe por cá. Segundo o European Social Survey, Portugal é o país da Europa com maior racismo biológico − a crença de que há raças ou grupos étnicos que nasceram menos inteligentes e/ou menos trabalhadores (52,9% dos portugueses afirmam-no, quando a média europeia é de 29,2%) −, e o quinto país com maior nível de racismo cultural – a crença de que há culturas muito melhores do que outras (54,1% face à média europeia de 44%). A discriminação racial nas polícias nacionais também está documentada. Portugal está no topo dos países da Europa Ocidental com o maior número de casos de violência policial e os riscos são maiores para afrodescendentes, concluiu um estudo de 2018 do Comité Europeu contra a Tortura do Conselho da Europa.

Consegue imaginar arriscar-se a ser espancado por causa do tom de pele se der uma resposta torta a um polícia? Consegue imaginar o que é sentir o medo nos olhos dos outros quando entra algures só porque tem um capuz na cabeça? Consegue imaginar o que é ser um desportista e ter a claque da equipa adversária a imitar chimpanzés sempre que entra em cena? Consegue imaginar o que é ficar para o fim da lista numa candidatura a um emprego por causa da sua cor? Eu, branca e privilegiada, não consigo – mas consigo perceber a revolta de quem passa por isso.

É preciso, de uma vez por todas, percebermos que temos de resolver este problema de descriminação, e começarmos por admitir que ele existe é o primeiro passo. Sem deixar polarizar os discursos, porque isso é o pior que podemos fazer pelos negros e pela causa antirracista.

Já houve golpe?

Eleito defendendo a prisão após a segunda instância, Bolsonaro agora defende que os militares sejam a última instância que pode absolvê-lo de qualquer coisa.

Bolsonaro encheu seu governo de militares para que todos acreditemos nas ameaças de golpe que ele faz todo dia. A última foi através de nota assinada pelo presidente, o vice e o ministro da Defesa dizendo que as Forças Armadas não são obrigadas a aceitar interferências indevidas de um Poder no outro. A nota referia-se às possibilidades de cassação de chapa presidencial pelo TSE ou de impeachment no Congresso.

Pode ser blefe, e deve ser. O comando do Exército não assinou a nota. Se tivesse assinado, o título desta coluna não teria ponto de interrogação.


Afinal, dizer "não faça isso ou eu dou um golpe" já é uma ameaça de golpe, assim como "me dê seu dinheiro ou eu te assalto" já é tentativa de assalto. Se alguém, em qualquer das instituições que fiscalizam o presidente, tiver sido intimidado pela ameaça, o golpe já aconteceu.

E é mau sinal que as instituições não se sintam confortáveis para dizer "vai lá, Jair, tente a sorte, vamos ver se você consegue dar seu golpe, veja o que vai acontecer com você".

Era o que diriam para qualquer presidente que não tivesse milhares de militares no governo. Se, por exemplo, Fernando Collor tivesse dito que pretendia armar a turma do artigo 142, teria sofrido impeachment na terça, sido preso na quinta e torturado na sexta para dizer que foi tudo um plano do Lula.

O que essas notas "não vai ter golpe, mas não derrubem o Jair" fazem é garantir imunidade ao presidente da República. Se não pode ser cassado pelo TSE, ele pode fraudar eleições. Se ele não pode sofrer impeachment, pode cometer crimes de responsabilidade dia e noite, como vem cometendo.

Se ele pode aparelhar a Polícia Federal impunemente, então não haverá mesmo denúncias contra ele. Se ele pode ameaçar a imprensa sem perder o mandato, não há nada que lhe impeça de continuar exercendo pressão até que ela faça efeito.

Pense em todos os políticos corruptos que foram denunciados nos últimos anos. Escolha aquele de quem você gosta menos, aquele contra quem havia provas mais sólidas. Ele não teria sido denunciado se pudesse jogar a carta do golpe.

Como vimos, o comando das Forças Armadas não assinou a carta. Mesmo assim, em uma República funcional, os militares desmentiriam Bolsonaro de forma clara, citando-o nominalmente, para dizer que os tribunais decidirão sozinhos sobre a chapa, o Congresso decidirá sozinho sobre o impeachment, e militar que virou político que aprenda a brigar só com as armas da política.

Se não o fizerem, serão corresponsáveis pelos abusos que Bolsonaro planeja cometer se puder intimidar as instituições com ameaças de golpe.

E, independentemente do que as Forças Armadas fizerem, é triste ver a quantidade de militares que aceitam participar desse desastre de governo. Ver um militar chefiando o Ministério da Saúde que manipula dados é triste.

Esses generais-políticos do governo querem ser poder moderador da República? Não conseguiram moderar nem o Bolsonaro. Porque, de duas, uma: ou fracassaram em moderá-lo ou, se isso aí já é uma versão moderada, foram irresponsáveis quando apoiaram alguém tão extremo em 2018.
Celso Rocha de Barros

'Sou mais um aterrorizado do que um terrorista'

Renato Aroeira estava em seu apartamento no Leblon, sentado na mesma cadeira onde tem passado a maior parte do tempo desde que se instaurou a quarentena na cidade do Rio, quando levou um susto ao ler o noticiário dessa segunda-feira, 15. Aos 66 anos, quase 50 deles dedicados à profissão de chargista, o mineiro nascido em Belo Horizonte se viu na posição de “inimigo público” pela primeira vez na vida.

Aroeira é um dos alvos do pedido de investigação protocolado na Procuradoria-Geral da República (PGR) pelo ministro da Justiça e Segurança Pública, André Mendonça. Com aval do presidente Jair Bolsonaro, o ministro solicitou, com base na Lei de Segurança Nacional, a abertura de um inquérito sobre uma postagem do jornalista Ricardo Noblat, que compartilhava uma charge sobre Bolsonaro. O autor: o próprio Aroeira.

“Fiquei muito tenso, porque apesar de já ter sido processado, é a primeira vez que sou questionado pelo Estado. Nem na ditadura militar isso aconteceu. Até então, eu tive processos partindo de personalidades, autoridades, governadores… o escambau. Mas é a primeira vez que viro inimigo público. Isso me deixou angustiado e nervoso.”


Apesar do receio de potencialmente virar alvo de uma ação criminal movida pelo Estado, o cartunista faz piada da possibilidade de ser considerado um ‘terrorista’ por ser enquadrado na Lei de Segurança Nacional.

“Eu sou mais um aterrorizado que um terrorista. Eu sou um cara que está apavorado com a inconsequência desse pessoal do governo. Sou um sujeito que está tenso com a abertura (das medidas de isolamento), quando não era isso que a gente tinha que fazer. Eu fico atônito quando vem o presidente falar que precisa invadir hospital! É difícil a gente não ficar indignado”, disse.

A charge em questão mostra uma cruz vermelha, símbolo universal para serviços de saúde, com as pontas pintadas de preto, formando uma suástica nazista. Ao lado, uma caricatura de Bolsonaro segura uma lata de tinta preta, e diz: “Bora invadir outro?”. A sátira foi publicada após o presidente sugerir, durante uma live, que seus apoiadores entrassem em hospitais de campanha e filmassem a situação encontrada.

“Pode ser que eu esteja equivocado, mas na totalidade ou em grande parte ninguém perdeu a vida por falta de respirador ou leito de UTI. Pode ser que tenha acontecido um caso ou outro. Seria bom você, na ponta da linha, tem um hospital de campanha aí perto de você, um hospital público, arranja uma maneira de entrar e filmar. Muita gente tá fazendo isso, mas mais gente tem que fazer para mostrar se os leitos estão ocupados ou não, se os gastos são compatíveis ou não”, sugeriu Bolsonaro na semana passada.

Após a fala do presidente. ao menos dois hospitais foram ‘invadidos’ por bolsonaristas, o que gerou a abertura de um inquérito por solicitação do procurador-geral da República, Augusto Aras.

Pouco tempo depois do anúncio do ministro da Justiça sobre o pedido de investigação contra Aroeira, uma rede de solidariedade se formou ao redor do chargista. Companheiros de profissão, músicos e escritores lançaram a campanha #SomosTodosAroeira nas redes sociais e fizeram um abaixo assinado virtual que conseguiu mais de 10 mil assinaturas até o começo da tarde desta terça-feira.

“A solidariedade dos meus amigos me deixou muito feliz, a ponto de dar taquicardia e eu ter que tomar água com açúcar”, contou. “Embora eu seja uma ‘puta velha’ em relação a processos, esse será o meu quinto – ou melhor, seria, porque eu espero que não chegue a tanto -, eu preferia que nada disso tivesse acontecido. Nos quatro anteriores, eu perdi dois e ganhei um e meio.”

quarta-feira, 17 de junho de 2020

Brasil do mito revelado


A batalha mascarada

Coube a um ministro, general de Exército da ativa, ocupando o cargo civil e político mais importante desta gestão, abrir uma fresta de luz sobre algo muito grave que ferve no corpo a corpo do interior do governo. Há muito se falava de uma tensão latente pela cisão que o presidente Jair Bolsonaro tenta promover nas Forças Armadas, sem que nenhuma autoridade a admitisse abertamente.

Bolsonaro tem a ascendência constitucional sobre Exército, Marinha e Aeronáutica, e é, portanto, legalmente o comandante supremo. Porém, para fazer particularmente o que deseja deste arsenal, teria de passar por cima de algumas cabeças de bom senso que têm ascendência direta sobre as tropas. Entre seus objetivos não explicitados estaria o de manobrá-las politicamente na guerra pessoal que declarou à República.

Luiz Eduardo Ramos, da Secretaria de Governo, o ministro mencionado, deixou nas entrelinhas da sua já célebre entrevista à Veja, semana passada, que a cisão pode estar por trás do intenso trânsito na política dos generais e coronéis da reserva, das três Forças.

Uma excitação desproporcional para quem jura que não vai deflagrar um golpe, revelada na redação de notas, advertências e presença em atos que pregam ruptura. Sem cuidados com a imagem, associam-se aos grupelhos de fanáticos que perambulam pela Esplanada em estado de provocação permanente.

Ramos deu a senha que faltava. Disse que ex-alunos seus estão atualmente no comando de unidades do Exército. “Eles têm tropas nas mãos”, avisou. Ou seja, que fique clara sua ascendência (de Ramos e, portanto, de Bolsonaro) sobre eles (alunos) e elas (tropas). Pode-se inferir que quis, com isso, evidenciar o poder de vencer a resistência dos comandantes a atuar na política.


Não há dúvidas de que armas, munições, incentivo à guerra civil, compõem o mundo bélico construído à volta do presidente e seus filhos, bons alunos de clubes de tiro. Tanto melhor se nele puder contar com os amigos que integram as tropas (armadas) do Exército, os amigos das polícias (armadas) militares, que se somariam aos apoiadores (armados) dos acampamentos e às milícias digitais.

A cisão das Forças Armadas, embutida neste enredo, é a crise das crises entre tantas encomendadas pelo presidente neste ano e meio de governo.

O constrangimento de alguns comandantes revela-se também no seu silêncio diante de tudo que se tem dito em seu nome.

Jair Bolsonaro, desde sempre atuando no informal sindicalismo militar, conquistou a admiração dos quartéis, o voto das famílias militares, o apoio eleitoral de oficiais de patentes variadas. A hierarquia e a disciplina, porém, ainda são valores essenciais para as tropas. Um limite em que se equilibram os comandantes, mas o presidente busca estreitar cada vez mais a relação pessoal e direta.

Aposta na concessão de vantagens financeiras, é fato, uma vez sindicalista, sempre sindicalista. Mas também cultiva amizades, comparece a solenidades, testa seu poder de sedução. Não se vê como poderá desistir de seus planos.

Além da divisão nas estruturas verticais, fica cada vez mais claro o incentivo ao racha entre as três Forças. Da última tentativa concreta teve de recuar sem disfarces: a criação da aviação de asa fixa no Exército. A Aeronáutica, claro, não gostou de perder uma briga antiga numa mísera canetada.

As polícias militares, conquistadas também pelo bolso, onde a disciplina e a hierarquia são valores mais frouxos, integraram-se mais rapidamente ao projeto Bolsonaro. Muitas já lhe devem mais vassalagem do que devem aos governadores. Embora as Forças Armadas olhem com certa desconfiança o movimento do presidente em direção às polícias militares, nada podem fazer quando não podem se distrair e precisam se dedicar, integralmente, à disciplina dos seus. Certamente para não perderem de vez o controle e não terem de ouvir, de um subalterno, que é Bolsonaro que o representa.

Um herói muito atual

Num momento em que militares de alta patente, sob o comando de um capitão desorientado, se envolvem cada vez mais com a política, e nem sempre com moderação, é importante observar essa sábia opinião, de 1956: “O Exército deveria ser o grande mudo da vida nacional”.

Ela é de um eminente marechal e acaba de ser lembrada pelo jornalista Larry Rohter, colunista da revista “Época”, ex-correspondente no Brasil do “New York Times” e autor de “Rondon, uma biografia”.

A frase mais famosa desse patrimônio das Forças Armadas — “Morrer se preciso for; matar nunca” — foi um lema posto à prova em 1957, ao ser atingido por uma flecha envenenada dos índios nhambiquara e salvo pela correia de couro de sua espingarda. A sua reação foi ordenar aos comandados que não revidassem.

No seu livro, Rohter afirma que “Rondon, com sua vigorosa defesa dos povos indígenas e de suas terras, evitou um genocídio”. Ao contrário, o capitão Bolsonaro, quando deputado, lamentou: “pena que a cavalaria brasileira não tenha sido tão eficiente quanto a americana, que exterminou os índios”.

O general e vice-presidente Hamilton Mourão garante que hoje “não tem general fardado metido em política”. Fardado, pode ser. Mas vestido à paisana há pelo menos o caso do general Luiz Eduardo Ramos, ministro-chefe da Secretaria de Governo, que se escondeu para observar uma manifestação contrária. “Fiquei disfarçado no gramado em frente ao Congresso observando o pessoal”, confessou. Ele foi aquele que em entrevista à “Veja” advertiu o “outro lado” a não “esticar a corda”.

Os feitos de Rondon, o Pacificador, o Patrono das Comunicações, não cabem neste espaço. Eis alguns: fundou o Serviço de Proteção ao Índio, percorreu mais de cem mil quilômetros abrindo estradas, foi indicado ao Prêmio Nobel da Paz pelo The Explorers de NY, teve o seu nome no Livro de Heróis da Pátria e no Panteão da Pátria em Brasília. E muito mais.

Com um personagem como esse à disposição, quem o capitão Jair Bolsonaro escolheu como seu herói? Ninguém menos que o coronel Brilhante Ustra, reconhecido pela Justiça como torturador. Será preciso dizer mais alguma coisa?

Porrada no opressor!

90% dos chargistas no mundo moderno são humanistas. Vejo cada vez menos charges que machucam o oprimido, vejo uma quantidade gigantesca de charges que batem no opressor. Não mudamos o mundo. Quem muda o mundo é o oprimido que foi explorado, espoliado
Aroeira, chargista

O presidente com vocação de ditador exalta a democracia

Tem preço assistir o presidente Jair Bolsonaro a defender-se dizendo que o histórico do seu governo “prova” que ele e sua turma sempre estiveram “ao lado da democracia e da Constituição”? Que “não houve por parte do governo, até agora, nenhuma medida que demonstrasse apreço ao autoritarismo”? E que está sendo “vítima de abusos”? Não, não tem preço.

Tudo isso e um pouco mais ele disse por meio de uma longa nota postada nas redes sociais no fim do dia em que, a pedido da Procuradoria-Geral da República, o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal, determinou a quebra de sigilo bancário de dez deputados federais e um senador bolsonaristas. Moraes também é relator do inquérito das fake news.

Além de parlamentares, o inquérito tem como alvos o vice-presidente do novo partido de Bolsonaro, o Aliança Pelo Brasil, o marqueteiro do partido e empresários suspeitos de financiar a rede bolsonarista de produção de notícias falsas e manifestações de rua de natureza claramente antidemocráticas. A muitas delas compareceram Bolsonaro e vários dos seus ministros.


Quando se vê em apuros, o presidente da República, que sempre defendeu a ditadura, invoca a seu favor os valores da democracia. “Luto para fazer a minha parte, mas não posso assistir calado enquanto direitos são violados e ideias são perseguidas”, escreveu. Direitos violados de quem? Não disse. Que ideias estão sendo perseguidas? Não disse. Quem viola os direitos? Não disse.

“Fingir naturalidade diante de tudo o que está acontecendo só contribuiria para sua destruição. Nada é mais autoritário do que atentar contra a liberdade de seu próprio povo”, prosseguiu. Sem detalhar “o que está acontecendo”. Sem identificar quem atenta “contra a liberdade” do povo. E ensinou: “É o povo que legitima as instituições, e não o contrário. Isso, sim, é democracia”. Bravo!

O sujeito oculto das admoestações de Bolsonaro é o Supremo Tribunal Federal e demais instâncias da Justiça que, com decisões, põem seu mandato em risco, assim como os mandatos dos seus filhos – um senador, outro vereador, o terceiro deputado federal, todos envolvidos em negócios mal explicados. Foi para garantir o futuro deles que Bolsonaro se candidatou a presidente.

O público a quem se destinou a nota, também oculto, é a base eleitoral que resta a Bolsonaro. Não é pequena e não está se evaporando. Mas já foi muito maior. Os bolsonaristas de raiz, os mais radicais, aqueles que sempre defenderam tudo o que o capitão faz e fala, principalmente esses estão assustados com a inépcia do governo e a situação a que se encontram expostos.

O cerco político e judicial a Bolsonaro e aos seus garotos está se apertando. Na Praça dos Três Poderes, dois canhões apontam para o terceiro andar do Palácio do Planalto onde o presidente despacha. Um é o Congresso. O outro, o Supremo. O cerco a Lula começou com ele presidente e acabou com ele sem mandato e preso. O cerco a Bolsonaro poderá se fechar mais rápido.

Fernando Henrique Cardoso admitiu ter governado o país no seu primeiro mandato à base do gogó. Bolsonaro não tem competência para isso. Lula tinha um partido para chamar de seu e socorrê-lo nas dificuldades. Bolsonaro não tem. O que teve desprezou. O que gostaria de ter foi incapaz de montar até aqui. Corre atrás do prejuízo quando apela para a ratatuia do Congresso.

A carta que joga na mesa à falta de outra, a do apoio militar que poderia resultar em um golpe para favorecê-lo, configura mais um blefe do que uma possibilidade de vitória real. Onde já se viu generais darem um golpe em defesa de um capitão? E em nome do quê dariam? Da democracia ameaçada pelo Supremo e o Congresso? Do uso da cloroquina contra qualquer doença?

Só resta uma saída para Bolsonaro completar o mandato: submeter-se às leis e entender-se com os demais Poderes. Por ora, ele está a caminho do suicídio político, com direito a figurar num pé de página da História.

No rastro do dinheiro

Dificilmente será superada a crise entre o Palácio do Planalto e o Supremo Tribunal Federal (STF). Sobretudo porque não há nenhuma serventia em fazer acordo com os demais poderes da República, pois Bolsonaro acha que o Executivo tem que se sobrepor, e almeja que os outros se imbuam dessa secundariedade para que o deixem trabalhar sem limitações institucionais.

É seu entendimento autoritário do que seja democracia representativa. Vários acordos já foram feitos, pactos firmados, e Bolsonaro continua o mesmo, a ponto de o presidente do Supremo, ministro Dias Toffoli, o mais empenhado nesse pacto de governabilidade, ter desabafado em sua mais recente manifestação, dizendo que não é mais possível aceitar “dubiedades” de Bolsonaro e Mourão.


Outra impossibilidade é o presidente renegar as atitudes insanas dos extremistas que o apoiam. Bolsonaro trata o pessoal do acampamento “300 do Brasil” como a sua base, e as operações da Polícia Federal contra eles, pedidas pelo Procurador-Geral da República Augusto Aras e aprovadas pelo ministro Alexandre de Moraes, são consideradas uma ação direta contra o governo, desnecessária já que os extremistas não são em grande número.

Essa leniência com esses malucos, mesmo que ainda não tenham passado da pirotecnia para atentados reais, só transmite a ideia de que eles têm a complacência do governo, que os considera seus aliados. Os blogueiros das fake news são “a mídia que eu tenho”, confessa Bolsonaro, tornando crível o financiamento oficial dessa máquina de destruir reputações.

O lado do presidente e sua trupe já está determinado por gestos e, principalmente, pela falta de crítica aos ataques ao Supremo Tribunal Federal e ao Congresso. O autoritarismo que esses comportamentos revelam, porém, não passam despercebidos pelos ministros do Supremo, especialmente quando a crítica passa também a ser pessoal, e não apenas às decisões de seus ministros, em termos apropriados a uma relação civilizada. Não é o caso do ataque desclassificado ao decano da Corte, ministro Celso de Mello, por um abaixo assinado de militares da reserva e poucos e desconhecidos civis. Nem dos ataques e ameaças pessoais que esses grupos fazem abertamente pela internet, sem receio de pagar por seus crimes por se sentirem respaldados.

Foi esse estado de coisas que fez com que Celso de Mello, na reunião ontem da segunda Turma do STF, se pronunciasse: “É inconcebível que ainda sobreviva no íntimo do aparelho de Estado brasileiro o resíduo de forte autoritarismo, que insiste em proclamar que poderá desrespeitar, segundo sua própria vontade arbitrária, decisões judiciais”.

Chamando a Suprema Corte de “a sentinela das liberdades”, Celso de Mello disse que é preciso resistir com armas da lei “(...) porque sem juízes independentes, jamais haverá cidadãos livres neste país”.

O comentário foi em resposta à ministra Carmem Lucia, presidente da Segunda Turma, que abriu a sessão com uma defesa da democracia, afirmando: “Somos nós, juízes constitucionais, a quem incumbe o dever de, em última instância judicial, não deixar que o Estado Democrático de Direito se perca, porque todos perderão. Atentados contra instituição, contra juízes e contra cidadãos que pensam diferente volta-se contra todos, contra o país”.

O objetivo do inquérito do STF é conter a propagação de fake news, e os ataques e ameaças aos ministros. É claro para todos que Bolsonaro tem apoio das chamadas milícias digitais. Ele próprio já disse que eles “são a mídia que eu tenho”. Jamais abriu a boca para criticá-los – até para o ministro Weintraub, que disse e repetiu que os vagabundos do Supremo deveriam ir pra cadeia, está procurando uma saída honrosa.

As investigações do STF descobrirão quem financia esses movimentos e se, como tudo indica, já estavam organizados antes da eleição e ajudaram ilegalmente a campanha de Bolsonaro e Mourão. Se ficar provada a conexão dos mesmos grupos durante a campanha, é financiamento ilegal. É um caixa 2 duplamente ilegal, porque agora o dinheiro privado é proibido por fora e por dentro nas campanhas.

Não adianta dizer que não admite julgamentos políticos, como se uma decisão contrária fosse política, e a favor, “justa”. Não há outra alternativa dentro da legalidade a não ser aceitar decisões dos tribunais superiores. Como disse o ministro Luis Roberto Barroso, presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) a um interlocutor de Bolsonaro que lhe perguntou se o presidente tinha motivos para se preocupar com o julgamento: “ Só se tiver feito alguma coisa errada”.

Merval Pereira

Pensamento do Dia


Tiranias só sobrevivem porque pessoas aceitam o aberrante como normal

1. Foi Hannah Arendt quem popularizou a expressão “banalidade do mal”. Quando estava em Jerusalém, cobrindo para a New Yorker o julgamento de Adolf Eichmann, Arendt concluiu que aquele homem não era o monstro amoral que se poderia imaginar.

Era apenas um funcionário que cumprira ordens sem pensar seriamente no que fazia. Essa explicação de Arendt nunca me convenceu. Motivo simples: Eichmann não era um personagem menor. Era um nazista convicto e um operacional decisivo do Holocausto.

Mas se a análise de Arendt não serve para Eichmann, o que ela nos diz sobre a “banalidade do mal” mantém a sua validade.

Quando falamos do comportamento dos alemães durante o Terceiro Reich, há teses para todos os gostos.

Os alemães colaboraram com o regime (ou, pelo menos, não se opuseram) porque o antissemitismo era endêmico na sociedade.

Os alemães se submeteram a Hitler porque a reverência pela autoridade era um traço de caráter.

Os alemães toleraram a indignidade porque também temiam pelas suas vidas.


Admito que todas essas explicações sejam válidas. Mas a “banalidade do mal”, entendida como ausência de pensamento e de empatia, é a mais poderosa.

Que o diga Brunhilde Pomsel, que só agora conheci. O documentário intitula-se “Uma Vida Alemã” e consiste numa longa entrevista com essa mulher, que na altura das filmagens, em 2016, tinha 104 anos. Acabaria por morrer no ano seguinte.

Entendo o interesse pela personagem: não é todos os dias que encontramos uma das secretárias de Joseph Goebbels, o chefe da propaganda nazista. E que nos tem a dizer Brunhilde com uma clareza impressionante?

De início, ela ensaia as explicações clássicas para a submissão: pais autoritários; educação prussiana; medo da ditadura. E ignorância, muita ignorância sobre assuntos políticos.

Mas, depois, nos momentos de confissão mais sincera, tudo que vemos é a mediocridade do pensamento e da imaginação.

Nas vésperas da derradeira vitória eleitoral dos nazistas, em março de 1933, Brunhilde inscreve-se no partido para conseguir um bom emprego.

Depois, já no Ministério da Propaganda, Brunhilde fala do salário (ótimo), dos colegas (simpáticos), das roupas (elegantes), dos móveis (modernos) e até do próprio Goebbels (sempre bem vestido, apesar de coxear).

Nem o fato de ter uma amiga judia, que lentamente foi desaparecendo da sua vida, é analisado com tempo e seriedade. Sabemos que foi assassinada em Auschwitz, no último ano da guerra, e não se fala mais do assunto.

Dizer que Brunhilde Pomsel representa o mal seria ridículo, até porque a própria, aos 104 anos, reconheceu a desumanidade do regime.

O documentário é importante por outro motivo: as tiranias só sobrevivem porque as pessoas banais aceitam o aberrante como normalidade. Essa falha de pensamento, essa sabotagem da imaginação moral, essa redução da ética à mera conveniência pessoal é o sonho úmido dos tiranos.

Ontem como hoje, confesso que tenho mais medo desses seres banais do que dos monstros propriamente ditos.

2. Minha coluna da passada sexta-feira recebeu incontáveis emails. Metade dos leitores entendeu o ponto, que era essencialmente filosófico, concordando ou discordando.

A outra metade preferiu delirar, como se eu estivesse a defender ações do Exército sobre manifestantes, a beleza da Confederação americana ou a biografia de escravocratas. Como dizia o pai de George Costanza, “serenity now!”.

Repito, mais lentamente, para o pessoal que tem problemas cognitivos: falar em “tolerância liberal” não significa respeitar igualmente todas as opiniões ou obras que existem.

Significa entender que o espaço público deve ser o mais neutro possível para que as vozes do passado e do presente possam coexistir na sua grandeza ou miséria. Uma sociedade adulta aprende com tais grandezas e misérias, até para evitar repetir os mesmos erros.

Isso não significa que um jornal não possa escolher os colunistas que entende, que certas obras de arte não devam ser discutidas ou que certas estátuas não possam ser removidas para um museu ou para um depósito.

Significa, tão só, que a melhor forma de fazer isso não é pela perseguição de hereges, pela remoção censória de filmes e séries ou pela destruição pura e simples de estátuas ou monumentos. Esses são os métodos dos fascistas, não dos democratas.

João Pereira Coutinho

Ilusão de pobre

Ora veja já o senhor este pobre homem quezilento, com mau estômago e maus dentes, e dívidas, que sorte, no talho e no padeiro: julga-se obrigado a ter uma ilusão de vida própria 
José Rodrigues Migueis, " É proibido apontar"

Dois bicudos

Covid-19 e suas causas, padrões de relacionamento entre humanos, uso de recursos naturais, mudanças climáticas e as consequências da quarentena sobre a economia persistem ocupando lugar central na cena mundial. O Brasil, após quatro meses do primeiro óbito, tem 2,7% da população mundial e 10% das mortes. Desproporção que poderia ter sido evitada se o que foi dito, repetido e evidenciado na planície pela Ciência subsidiasse as políticas decididas pelas autoridades no Planalto. Para infortúnio do país, as recomendações de segurança, isolamento e proteção social foram preteridas. É verdade que saúde pública e negócios nunca se bicaram. Saúde da população exige saneamento, ruas iluminadas com calçadas largas e arborizadas, moradias amplas e ventiladas, controle de poluição, acesso a boa nutrição, controle de peso, exercícios físicos e repúdio ao racismo. 

Processos empresariais produzem valor e retornos monetários para indivíduos. Alimentos que causam obesidade, produção de danos ambientais e atividades comerciais e industriais que acentuam desigualdades reduzem as chances de viver mais e bem.


Na fase inicial da pandemia, houve troca de bicadas. Frigoríficos que expuseram trabalhadores ao ar rarefeito empacotando carne se converteram em “covidários”. Empresários sugeriram que os profissionais de saúde pública estavam “politizando” a doença e não conseguiam responder a interrogações sobre o planejamento para o futuro da economia. Depois de experiências malsucedidas de reabertura de atividades, sem critérios sanitários, novas ondas de disseminação e mais mortes evitáveis, os tradicionais adversários se aproximaram. Grandes grupos empresariais contrataram especialistas em saúde pública e anunciaram disposição para ampliar o espectro de ações de segurança para trabalhadores e clientes. 

Companhias aéreas terão que convencer os passageiros de que as viagens serão seguras. Voos demorados, no “novo normal”, talvez fiquem ainda menos prazerosos do que aqueles espremidos nos assentos da classe econômica. Bagagens de mão e refeições tendem a ser proibidas, e não poderá haver filas de espera em banheiros, que disseminam germes. 

Negócios e saúde pública não se beijaram, mas agora compartilham problemas comuns. O setor biofarmacêutico passou a declarar que tem desafios para além da produção de novas vacinas e tratamentos; terá que resolver em conjunto com governos e organizações sem fins lucrativos como propiciar acesso para todos. Consórcios envolvidos com a produção da vacina para Covid-19 anunciam que estão olhando para fora da janela. A velha equação — inovação, risco, patentes e altos retornos financeiros — inclui a perspectiva regulatória que antecipa controle de eficácia, compras, preços e responsabilidade por efeitos adversos. Em maio, o Fórum Econômico Mundial constatou que, para a maioria da população (dois terços), “governos devem salvar o maior número de vidas possível, mesmo que isso signifique que a economia se recuperará mais lentamente”, e registrou alteração nos escores de credibilidade institucional. A confiança na saúde pública é maior do que nas empresas.

Saúde pública é uma ciência do anonimato, salva e preserva milhares de vidas sem que se saiba quem são os profissionais por trás das ações de prevenção e as pessoas beneficiadas. O enfoque populacional tem sido pouco atraente para políticos e doadores, sensíveis a indivíduos com nome e sobrenome doentes e necessidades tangíveis de hospitais e unidades de saúde. O súbito e possivelmente duradouro estrelato — em função de ameaças de outras patologias infecciosas e possibilidades de intervenção sobre doenças crônicas — é promissor. Temos muitos estudantes que precisarão de emprego estável. Mas é preciso advertir que somos confiáveis porque buscamos fundamentos na Ciência. Nossas reflexões autônomas quase sempre desagradam, não atendem solicitações para legitimar atalhos particulares. Manter distância e usar máscara não é autorização para reabrir shopping centers, pelo contrário. 

A saúde pública brasileira tem sido incansável nas tentativas para evitar mortes por Covid-19. Mas não conseguimos convencer o estado-maior do governo de que um general ministro da Saúde, responsável pelo elevado número de mortes na epidemia, passará para a história mais como Pétain do que como Montgomery.
Ligia Bahia

Espanha introduz benefícios sociais para frear aumento da pobreza

Padre Angel sabe que a pobreza na Espanha existia muito antes de a crise do coronavírus atingir o país. Em sua congregação em Madri, ele vem tentando há anos fazer o que o estado não é capaz. Além da Caritas, o Mensajeros de la Paz, do Padre Angel, está entre as muitas organizações do país que distribuem alimentos, prestam aconselhamento pastoral e abrigam os sem-teto.

"Nunca houve tanta pobreza como agora", diz o homem de 83 anos. "Antes da crise do coronavírus, costumávamos distribuir cerca de cem pacotes de café da manhã por semana; agora é a mesma quantidade por dia".

Os números atuais não estão disponíveis, mas um relatório do banco central espanhol de 2018 aponta que a pobreza aumenta desde 2009, principalmente na faixa etária entre 45 a 54 anos. Há mais de 10 anos, 720.000 famílias eram afetadas pela pobreza – nove anos depois, eram 1,2 milhão.


Durante muito tempo, o Estado relutou em introduzir benefícios sociais para os mais vulneráveis. Em 2011, muitas vítimas da crise financeira global e da corrupção na Espanha saíram às ruas para exigir uma ordem econômica mais justa. Isso não aconteceu até que um governo de coalizão de esquerda assumiu o cargo em janeiro, e deu os primeiros passos em direção a mais justiça social.

Embora questionados por muitos espanhóis, a Comissão Europeia é a favor dos benefícios sociais que a Espanha está concedendo, apesar do alto déficit público. Esses benefícios são apenas para pessoas cuja renda anual bruta não excede 16.000 euros (91.000 reais) ou para famílias com quatro membros e uma renda agregada inferior a 45.000 euros anuais.

Cerca de 850.000 famílias devem ter direito a 462 euros mensais (2.600 reais) em benefícios sociais a partir de junho. Cada criança que vive em uma família pobre aumentará o pagamento de benefícios em 130 euros (740 reais) por família afetada.

A igreja de Padre Angel, no centro de Madri, está aberta a pessoas em situação de vulnerabilidade. Lá, pode-se tomar banho, usar a internet e até cortar o cabelo, tudo gratuitamente.

"Queremos devolver alguma dignidade ao maior número possível de pessoas, para que não tenham vergonha de comparecer a uma entrevista de emprego", afirma.

A Espanha tem a segunda maior taxa de desemprego da UE, de 17%, à frente apenas da Grécia. Além disso, estima-se que a economia informal represente 25% do Produto Interno Bruto (PIB) do país – o que evidencia como a economia ainda é ineficiente.

"Ao contrário da crise financeira global de 2008, a pandemia atual também está trazendo famílias de classe média para as filas de sopa", alerta Maria Blanc Fernandez-Cavada, da Caritas em Madri.

"O governo espanhol tem a oportunidade única de mudar para uma economia mais sustentável e tornar nossa rede social mais resiliente", disse o vice-presidente espanhol Pablo Iglesias.

Mas nem todos os necessitados têm ou terão acesso aos benefícios sociais. As estimativas sugerem que há meio milhão de migrantes no país sem autorização de residência e essas pessoas ficam de fora.

A Cruz Vermelha Espanhola (Cruz Roja) calcula que terá que ajudar mais 2,4 milhões de pessoas a lidar com as consequências da pandemia, fornecendo assistência psicológica e material.

Segundo a instituição, mulheres e crianças são as mais afetadas pela pandemia, que deve levar a demissões em massa nos próximos dois meses. Uma das que já sofrem é Carmen Perez - o nome foi alterado para proteger seu anonimato –, de 40 anos.

Perez tem dois filhos, de 9 e 11 anos e é mãe solteira. Ela trabalha em uma agência de comunicações em Madri, onde tem visto uma queda drástica de demanda desde março. Ela precisou aceitar um trabalho temporário e suas economias estão esgotadas.

"Se eles me despedirem, terei que voltar para meus pais", diz. No momento, ela consegue sobreviver porque seu proprietário concordou em reduzir temporariamente seu aluguel em 20%.

"Não tomamos precauções para momentos como estes, os alemães são melhores nisso", afirma Villena, acrescentando que espera que alguma reflexão finalmente se concretize na Espanha, na esteira da atual crise.

Padre Angel, por sua vez, observa que nada é mais importante que o próprio povo: "Isso é o que as 30.000 mortes causadas pelo coronavírus nos mostraram de uma maneira muito dramática".

Graciliano Ramos criou 'manual' do político irônico ao renunciar a prefeitura 90 anos atrás

Com a política tradicional mal avaliada por grande parcela da sociedade, caciques partidários buscam outsiders, de preferência com um discurso de exaltação da ética e do combate à corrupção, para disputar as eleições às prefeituras.

O cenário parece descrever as articulações para a última eleição e a deste ano, mas a estratégia é centenária na política brasileira. Foi assim que, há quase um século, um dos maiores escritores do país chegou à chefia do Executivo de um pequeno município alagoano.

O mandato que marcou o início da vida política de Graciliano Ramos (1892-1953) chegou ao fim há 90 anos. Em 10 de abril de 1930, aquele jornalista —filho de comerciante e depois autor de "Caetés" (1933) e outras referências da literatura— renunciava ao cargo de prefeito de Palmeira dos Índios.


Durante pouco mais de dois anos, deixou como legado dois relatórios de gestão publicados no Diário Oficial de Alagoas, que, fugindo à escrita burocrática e mais se aproximando de sua literatura social, podem ser uma espécie de manual político irônico para os prefeitos dos dias de hoje.

Os relatórios mostram as atitudes do prefeito ao assumir um município sem verba, com quadro de servidores inchado e corrupção sistêmica. Ao menos duas lições são louvadas por gestores que pregam a "nova política": combater o aparelhamento estatal e aumentar a produtividade.

"Dos funcionários que encontrei [...] restam poucos: saíram os que faziam política e os que não faziam coisa nenhuma", escreveu Graciliano, ao fim do primeiro ano de mandato, em relatório publicado em 24 de janeiro de 1929.

O enfrentamento do aparelhamento da máquina pública foi uma das primeiras medidas prometidas pela gestão Jair Bolsonaro em 2019. Então ministro da Casa Civil, Onyx Lorenzoni falou, logo após assumir, que era preciso "fazer a despetização do governo".

Outra lição atual de Graciliano: denunciar supostas irregularidades de gestões anteriores. "A prefeitura foi injuriada quando, em 1920, aqui se firmou um contrato para o fornecimento de luz. Apesar de ser negócio referente à claridade, julgo que assinaram às escuras. É um bluff. Pagamos até a luz que a lua nos dá."

Algo que parece não fazer parte da cartilha de hoje, porém, é a modéstia de Graciliano, que dizia que seus erros decorriam da sua inteligência, a qual julgava fraca.

"Convenho em que o dinheiro do povo poderia ser mais útil se estivesse nas mãos, ou nos bolsos, de outro menos incompetente do que eu", relata. "Em todo o caso, transformando-o em pedra, cal, cimento etc., sempre procedo melhor que se o distribuísse com os meus parentes, que necessitam, coitados."

Admitia ainda que havia descontentamento com sua gestão. Escreveu que, se sua permanência no cargo dependesse de um plebiscito, talvez não obtivesse dez votos. "O Município, que esperou dois anos, espera mais um. Mete na Prefeitura um sujeito hábil e vinga-se dizendo de mim cobras e lagartos."

Ao menos uma coisa mudou substancialmente dos tempos de Graciliano, na República Velha, para cá: a fraude eleitoral como regra. O escritor, apoiado pelo então governador de Alagoas, se elegeu em um pleito com candidatura única. A oposição temia que, ainda que ganhasse nas urnas, perderia na apuração.

Mas convencer o então escritor a candidatar-se não foi fácil. Dono de uma loja de tecidos chamada Loja Sincera, ele rejeitava negociatas políticas.

Valdemar de Souza Lima, autor de "Graciliano Ramos em Palmeira dos Índios", explica que o clamor pela candidatura de Graciliano decorria do fato de ele ser um nome de fora da política tradicional. "O município não ia bem, administrativamente falando. Impunha-se uma mudança. O que estava agora na ordem do dia eram as ideias novas."

Outro fator que diferenciava Graciliano diz respeito ao ufanismo, tão em voga hoje. Em uma das publicações, o então prefeito ironiza o apelido de Palmeira dos Índios, conhecida ainda hoje como a Princesa do Sertão. "Uma princesa, vá lá, mas princesa muito nua, muito madraça, muito suja e muito escavacada."

Segundo a professora da UFBA Elizabeth Santos Ramos, especialista na obra do escritor e neta de Graciliano, o estilo da prosa e o tom de denúncia dos relatórios "podem ser observados em vários dos personagens da escrita de ficção do romancista".

"O que fica patente nos relatórios é a ética, a lisura, a consciência com relação ao dinheiro e ao bem públicos. Lamentavelmente, vejo muito pouco disso na política atual", diz a professora à Folha.

O fim da vida política do escritor, no entanto, não se deu com a renúncia à Prefeitura de Palmeira dos Índios. Depois da experiência, ele exerceu outros cargos na administração pública, como o de diretor da Instrução Pública de Alagoas —equivalente a um secretário de Educação.

Em março de 1936, foi preso pelo regime de Getúlio Vargas. Levado de Maceió ao Rio de Janeiro, foi mantido em cárcere por 11 meses e posto em liberdade sem ter sido formalmente acusado de nada nem tampouco julgado.

Em carta endereçada a Getúlio em agosto de 1938, Graciliano questiona os motivos de ter sido preso e enviado para longe de Alagoas.

"Como declarei a V. Ex.a, ignoro as razões por que me tornei indesejável na minha terra. Acho, porém, que lá cometi um erro: encontrei vinte mil crianças nas escolas e em três anos coloquei nelas cinquenta mil, o que produziu celeuma. Os professores ficaram descontentes, creio eu. E o pior é que se matricularam nos grupos da capital muitos negrinhos."

Em 1945, Graciliano filiou-se ao Partido Comunista Brasileiro, a convite de Luís Carlos Prestes. "O que eu desejava era a morte do capitalismo, o fim da exploração", escreveu em "Memórias do Cárcere".

Apesar disso, o autor, que retratou a miséria brasileira em obras como "São Bernardo" (1934) e "Vidas Secas" (1938), julgava-se um "revolucionário chinfrim". "Se todos os sujeitos perseguidos fizessem como eu, não teria havido uma só revolução no mundo", escreveu. O motivo, segundo o próprio Graciliano, é que suas armas eram fracas: eram de papel.