segunda-feira, 6 de abril de 2020

Armas do século XIX contra a pandemia do XXI

A última grande pandemia de gripe aconteceu em 1968 e matou um milhão de pessoas. Muitas das vítimas da atual Covid-19 a viveram. “Que triste que, apesar de todos os avanços médicos obtidos desde então [...], os tratamentos que podemos oferecer aos pacientes em muitas áreas atingidas pela Covid-19 sejam os mesmos que teríamos adotado há mais de 50 anos”, confessam os médicos John Hick e Paul Biddinger, especialistas em emergências médicas das universidades de Minnesota e Harvard, em um artigo recente publicado em uma das revistas médicas de maior prestígio do mundo.

É mais que isso: as principais armas com as quais o mundo luta hoje contra a pandemia de coronavírus remontam ao século XIX. Ao contrário do que se possa pensar, não há razão para deixar de usá-las.

A primeira pandemia do século XXI, a SARS (síndrome respiratória aguda grave, na sigla em inglês), também foi causada por um coronavírus, o SARS-CoV, que foi o primeiro grande vírus impulsionado pela globalização. Pulou para os humanos das civetas e de outros mamíferos vendidos em mercados úmidos da China. O vírus se espalhou pelo mundo a bordo de voos comerciais, chegando a 29 países. Durante os 20 meses de duração da epidemia, mais de 8.000 infecções e quase 800 mortes foram confirmadas. São números que em janeiro ―há apenas dois meses― ainda pareciam longínquos, mas agora ficaram para trás como um algo praticamente insignificante. Só na Espanha, a Covid-19 mata mais pessoas por dia do que a SARS em toda a sua história.

Contra a SARS “os Estados aplicaram medidas do século XIX, como o monitoramento dos contatos de cada infectado, a quarentena e o isolamento social”, lembra o médico japonês Shigeru Omi, chefe da OMS na Ásia durante a pandemia, em um livro sobre como se conseguiu acabar com aquele vírus.

Autoridades inspecionam grupo de socorristas em Chicago, em 1918
Também foram adotadas pela primeira vez medidas do século XXI, como o sequenciamento genético do vírus. O vírus responsável pela epidemia foi identificado, mas “não foi acrescentado nada substancial à contenção, principalmente porque faltavam testes de diagnóstico”. Ao todo, o papel desempenhado por esta “ciência do século XXI” na contenção do agente patogênico “foi menor”, explica o livro, editado pela OMS.

Embora seja impossível saber o resultado da atual pandemia, tudo indica que agora também serão as medidas clássicas que acabarão com a epidemia, reconhece o enfermeiro Luis Encinas, que trabalha para os Médicos sem Fronteiras (MSF) desde 1994 e viveu algumas das piores epidemias de ebola na África. Ele integra agora o conselho consultivo dos MSF contra a Covid-19. “Por enquanto, não há outra forma de conter o vírus, não temos outras medidas no curto prazo”, explica. “Mas nem mesmo o isolamento será suficiente. É como se você se jogasse no fundo de uma piscina para evitar um tiroteio. Você pode se salvar, mas se as balas continuarem por muito tempo, você tem de sair de novo e agir”. O enfermeiro lamenta que nem Espanha nem muitos outros países tivessem pronta uma estratégia a seguir em caso de pandemias, com medidas de ação para curto, médio e longo prazo.

“Desta vez tivemos sorte”, dizia outra das grandes lições que a OMS tirou da epidemia de SARS. Conter aquele vírus foi muito mais fácil do que agora. Os infectados só eram contagiosos quando começavam os sintomas, principalmente a febre, por isso podiam ser identificados com um simples termômetro, e a expansão do vírus pôde ser contida internando-os e colocando seus contatos em quarentena. “O agente patogênico se movia melhor dentro dos hospitais do que fora, por isso foi mais fácil contê-lo”, recorda Isabel Sola, microbiologista do Centro Nacional de Tecnologia da Espanha (CNB-CSIC). “Além disso, o animal que tinha originado a zoonose foi identificado rapidamente e os contatos com humanos foram radicalmente evitados”, lembra.

A outra tecnologia mais necessária no momento, os testes rápidos de anticorpos, também não é uma tecnologia de ponta do século XXI, requerem apenas métodos que foram aperfeiçoados no século XX. “A única coisa necessária para fazer um teste rápido é ter a capacidade de criar uma tira, um suporte físico no qual colocar o fluido e que indique se há infecção, algo ao alcance de muitas empresas de biotecnologia”, explica Sola.

Os infectados pelo SARS-CoV-2, o novo coronavírus, podem passar dias, até mesmo semanas, sem nenhum sintoma. Durante esse tempo, podem espalhar o vírus por onde forem. Esses infectados nunca detectados pelas autoridades provavelmente explicam a rápida expansão da pandemia na China, Itália e Espanha, e mostram como será difícil contê-la.

Para alguns especialistas, o mais provável é que não se consiga deter esta epidemia antes que o vírus tenha contagiado cerca de 60% da população. A estratégia seguida agora por países como a Espanha é tentar fazer com que essas infecções não aconteçam de uma só vez, e sim ao longo de meses, para evitar o colapso total dos hospitais. Enquanto isso, as velhas medidas do século XIX continuam salvando vistas. Uma projeção matemática do Imperial College de Londres calcula que as medidas de isolamento salvaram 16.000 vidas só na Espanha, quase 60.000 em toda a Europa, embora as margens de erro sejam altas.

“Nossas melhores armas continuam sendo o acompanhamento de todos os contatos que uma pessoa infectada teve, embora humanamente seja muito difícil fazer isso sem alta tecnologia”, afirma Ildefonso Hernández, porta-voz da Sociedade Espanhola de Saúde Pública. “De qualquer forma, as grandes contribuições científicas e tecnológicas que forem conseguidas, como os tratamentos e as vacinas, só estarão disponíveis, com sorte, para a próxima onda de coronavírus”, ressalta.

O novo coronavírus se espalha tão rápido e há tantas pessoas suspeitas de infecção que é impossível rastrear sua propagação à mão, como se fazia até agora. Pesquisadores da Universidade de Oxford desenvolveram um modelo matemático segundo o qual até metade dos contágios pelo novo coronavírus se devem a indivíduos não diagnosticados e sem sintomas aparentes. O número é semelhante ao observado em Cingapura (42%) e na China (62%). A única forma de derrotar um vírus tão invisível é usar um sistema automático que calcule quanta pessoas estiveram perto do indivíduo infectado durante dias, recorrendo, para isso, ao GPS dos celulares, explicaram pesquisadores esta semana na revista Science. Isso seria feito à custa, é claro, de sua privacidade e de sua liberdade individual, pois essas pessoas teriam de ficar obrigatoriamente de quarentena. E isso sem levar em conta os obstáculos burocráticos e legais que poderiam impedir que algo assim fosse posto em prática em boa parte do mundo.

O aparente sucesso de países como China, Coreia do Sul e Cingapura na contenção do SARS-CoV-2 se explica em parte porque depois da SARS e da MERS (síndrome respiratória do Oriente Médio), outro coronavírus que pulou de camelos para humanos em 2012 e continua ativo, eles sabiam que era preciso agir depressa. Mas o caso mais paradigmático no Sudeste Asiático é o do Vietnã, um país com menos recursos, que em fevereiro anunciou ter contido a pandemia. Todos os infectados se curaram. Nenhum habitante morreu. Mas foi uma vitória de pirro que prenuncia o que pode ocorrer com muitos outros países a partir de agora. No início deste mês, as autoridades vietnamitas reconheceram 35 novos casos, todos importados por avião, e os últimos dados indicam que já há 154 casos ativos. O Vietnã foi um dos países que agiu de forma mais rápida e decidida contra a SARS em 2003. Havia aprendido a lição.

Da epidemia de SARS, a OMS não se cansou de alertar o mundo de que talvez na próxima não houvesse tanta sorte. Em seu último relatório sobre o nível de preparação mundial para pandemias, de 2019, alertou: “O mundo não está preparado para uma pandemia viral respiratória de rápida expansão. A gripe de 1918 adoeceu um terço da população mundial e matou 50 milhões de pessoas. Se uma pandemia similar ocorresse hoje, com uma população quatro vezes maior que a daquela época e com tempos de viagem de menos de 36 horas para qualquer ponto do globo, até 80 milhões de pessoas poderiam morrer”.

Em termos econômicos, é muito lucrativo estar preparado. As perdas por uma pandemia alcançam 60 bilhões de euros (344 bilhões de reais) anuais, segundo um dos maiores painéis de especialistas internacionais no assunto, reunidos em 2016 pela Academia Nacional de Medicina dos EUA. Estar preparado para combatê-la em nível internacional custaria apenas 4,5 bilhões de euros (26 bilhões de reais) ao ano. Seria um dinheiro bem gasto, argumentam, pois permitiria não só conter vírus emergentes, como também combater a resistência a antibióticos, um problema que pode nos devolver à idade Média mais rápido do que imaginamos.

Coronavírus evidencia que cartilha de Bolsonaro é delírio de loucura

“Victor Hugo era um louco que se julgava Victor Hugo”, disse Jean Cocteau. Com pequenas adaptações, o chiste se presta para definir o atual ocupante do Palácio do Alvorada: Jair Bolsonaro é o mito inventado por um bando de malucos.

Analistas, por dever de ofício, devem decifrar o comportamento dos políticos, conferindo racionalidade a seus atos. A tentação de atribuir cálculo ao presidente tresloucado é enorme. Diz-se que há método na loucura, que tudo não passa de encenação meticulosamente arquitetada.

Dizer que está mirando 2022 não é senão reafirmar o óbvio. Que político não tem olho voltado para os eleitores e para as próximas eleições? E Bolsonaro nunca escondeu que só pensa em sua reeleição, que esta é sua única preocupação e que, para tanto, precisa abater toda e qualquer liderança, no seu governo ou fora dele, que possa lhe fazer sombra.

Comprou briga com João Doria e Wilson Witzel porque os dois podem enfrentá-lo no futuro. Disto não se duvida. A questão é se fez as escolhas certas e se o seu comportamento destemperado lhe renderá votos.

Para dizer o mesmo de outro modo: para ser reeleito, o presidente tem que cumprir o que prometeu. Mesmos os mais fiéis, mesmo os que acreditam em mitos, precisam ser satisfeitos. E é aí que entra o coronavírus.


O destempero e a insensatez não são novidades. Bolsonaro sempre foi e será assim. O cavalão, como era conhecido no Exército, é indomável. A novidade é o desespero.

A reeleição que dava por assegurada está indo para o ralo com a desorganização da economia. As perspectivas já não eram as melhores antes da epidemia; as promessas da retomada do crescimento não passavam disso, de promessas.

Mas Paulo Guedes (ministro da Economia), tanto quanto Bolsonaro, acredita no mito que criou para si mesmo, o de que seria simples resolver os problemas econômicos do país. Rebento do neoliberalismo original, aluno de Milton Friedman, o ministro acredita que basta diminuir o Estado para que o Brasil experimente um novo surto de crescimento.

O nó da questão estaria na regulação excessiva a tolher a iniciativa empresarial virtuosa. Para a Escola de Chicago, tudo quanto o Estado faz é atender interesses especiais de grupos organizados.

Pode parecer estranho, mas o fato é que o neoliberalismo primitivo tem grande afinidade com o discurso populista. Não por acaso, ao tomar posse, Paulo Guedes encheu os pulmões para dizer que o Brasil era o “paraíso dos rentistas”, que o reino destes verdadeiros parasitas chegaria ao fim.

De forma mais elaborada, em seu discurso de posse, declarou: “Os bancos públicos se perderam em grandes problemas com piratas privados e burocratas políticos. Burocratas corruptos e criaturas do pântano político se associaram contra o povo brasileiro”.

A harmonia do casal Bolsonaro-Guedes foi consumada no altar do populismo, com apelos simplistas em defesa do povo contra elites sanguessugas. Contudo, antes da eclosão da pandemia, Guedes vinha colhendo derrota atrás de derrota. O anúncio do pibinho e das revisões para baixo do crescimento deste ano foram as mais claras delas.

E todos os economistas de prol batiam na mesma tecla: sem reformas não haveria retomada do crescimento. O consenso, contudo, repousava na indefinição da lista de reformas prioritárias e de seu conteúdo. Em um ponto, contudo, quase todos concordavam: a disciplina fiscal não poderia ser abandonada.

E aí veio a pandemia, e qual foi a reposta de Guedes? No mínimo, tão atabalhoada quanto a de seu chefe. Inicialmente, defendeu que não havia motivos para mudar de rumos, que avançar as reformas teria se tornado ainda mais premente. Ou seja, o ministro não viu razões para abandonar a sua cartilha.

Com ou sem pandemia, o remédio seria o mesmo, diminuir o papel do Estado. Quando se convenceu de que alguma medida emergencial seria necessária, só se lembrou de aliviar o lado dos empresários, assinando medida provisória permitindo a suspensão temporária do pagamento de salários.

Enquanto isto, reconhecendo o inusitado da situação, a maior parte dos economistas ouvidos pela imprensa passou a defender programas de transferência de renda para os mais afetados, independente dos seus efeitos fiscais. Momentos extraordinários pediriam medidas excepcionais, e cada um dos entrevistados contribuiu com seu elenco de medidas emergenciais a serem adotadas.

Neste debate, a equipe econômica pouco contribuiu. Foi a voz discordante no novo consenso formado. Guedes saiu de cena, refugiando-se em seu apartamento, ao mesmo tempo em que Bolsonaro armava a sua guerra particular contra o isolamento social e suas repercussões sobre a renda dos trabalhadores impedidos de correr atrás de seu sustento.

Em nenhum momento, tudo indica, sua equipe econômica o instruiu de que havia alternativas, de que os autônomos e desempregados poderiam ser assistidos por programas de transferência de renda.

E se Bolsonaro quer se reeleger, se tem uma estratégia eleitoral, não seria mais apropriado assumir a paternidade dos programas defendidos pelos economistas? A solução da charada é simples: Bolsonaro não o faz porque não é isso o que ouve de seu guru.

Em meio a seu sumiço, o ministro encontrou tempo para se reunir com investidores. Pressionado a se posicionar, afirmou que, como cidadão, apoiava as medidas de isolamento social preconizadas pelo Ministério da Saúde. Por que precisou do adendo “como cidadão”? Qual sua posição como autoridade máxima da política econômica do governo? Evitou entrar em conflito com o chefe ou o apoia?

O fato é que o ministro resistiu o quanto pôde, recorrendo a inúmeros subterfúgios, postergando a entrada em vigor do plano aprovado pelo Congresso. Provavelmente, para parafrasear um de seus ídolos, vê no programa o início do caminho que leva à servidão. Carlos Bolsonaro, com sua sutileza e tato habitual, foi direto ao ponto: quem defende programas deste tipo são os esquerdistas.

A urgência do cenário que se desenha, contudo, recomenda que Bolsonaro e a ideologia que fundamenta seu governo sejam ignorados, como são ignorados os delírios dos loucos e dos que acreditam em mitos. Aplicando a regra usada pelo presidente para identificar seus filhos, não seria inadequado tratá-lo como o zero-zero, isto é, como um zero à esquerda.
Fernando Limongi

Aqui dentro

Há pouco mais de dois meses, quando me disseram pela primeira vez a palavra, julguei ouvir caronavírus, Um vírus que gosta de caronas não pode ser muito mau, gracejei, forçando um sotaque brasileiro. Estávamos a jantar na pizzaria no fim da minha rua. Um dos meus amigos acrescentou, É na China, e outro mostrou imagens no seu telemóvel de hospitais improvisados em pavilhões desportivos. Olhámos para o cenário quase apocalítico da cidade de Wuhan, talvez um de nós tenha dito, Parece coisa de filme, mas logo mudámos de assunto. A China era ainda tão longe. E 2020 estava ali, novinho em folha. A nossa vida seguiria como sempre.

O meu corretor ortográfico continua a sinalizar a vermelho a palavra coronavírus, tratando-a como erro. A linguagem está quase sempre atrasada em relação à vida. Ou então adiantada. Isso pode ser perigoso.

Por estes dias, não consigo raciocinar como deve ser, muito menos pensar histórias. Uma coisa e outra exigem um fio invisível que ligue com alguma coerência o princípio e o fim, e o meu pensamento está sempre a partir-se. Um vidro frágil que se estilhaça em pedaços pontiagudos e cortantes. O medo é um deles.


Sigo um grupo de psicólogos no Facebook. Lá, é explicado que, nestas circunstâncias, é normal ter medo, estar-se confuso, zangado, inseguro. Sinto algum conforto por ser normal quando tudo desaba. Quis acreditar na Direção-Geral da Saúde, que informou, em janeiro, ser pouco provável o vírus chegar a Portugal. O futuro tratado com doses iguais de Ciência e de Fé. As notícias sobre a epidemia na China continuavam a ser recebidas com a indiferença que dispensamos ao que é distante, ou ao que é próximo e não nos interessa. Pelo sim, pelo não, alguns de nós deixaram de ir a lojas e restaurantes geridos por asiáticos e o assunto parecia arrumado.

Num par de semanas, o novo vírus estava na Europa. O dia em que se soube do primeiro infetado em Itália calhou ser o mesmo em que fui ao Teatro São Luiz ver o primeiro solo da Mónica Calle de Isto é o meu corpo. A Lombardia não ficava tão longe de nós quanto a província de Hubei, mas ainda era suficientemente longe para que pudéssemos continuar a confiar que estávamos a salvo. Nada foi travando a tragédia. Em breve, havia dezenas de infetados noutros países europeus. E finalmente soube-se do primeiro em Portugal.

Não percebo nada de matemática, mas sei a tabuada do dois. Dois vezes um, dois, dois vezes dois, quatro, quatro vezes dois, oito, oito vezes dois, dezasseis… E sei contar pelos dedos. Aparentemente, se não se fizer nada para conter a Covid-19, o número de infetados duplica a cada dois dias. Sexta-feira, 13, foi o último dia em que as escolas estiveram abertas. Pela tabuada do dois devia haver, então, sessenta e quatro infetados em Portugal. Havia cento e doze. O governo só decretou medidas que permitiam um recolhimento mais generalizado dos portugueses quase uma semana depois, porque – dizem – a economia não pode parar. Entretanto, a tabuada do dois também não tinha parado e, segundo ela, nessa altura haveria quinhentos e doze infetados. Havia setecentos e oitenta e cinco. O período de incubação do vírus faz com que qualquer medida de contenção leve duas semanas a produzir resultados. Sabendo o número de camas dos hospitais portugueses, os recursos humanos hospitalares, a quantidade de ventiladores existentes – pouco mais de mil – e fazendo as contas…

Prometo a mim própria que só verei notícias de três em três horas. Nunca consigo cumprir. Se pelo menos soubesse o que fazer com tanta informação desencontrada. É, no entanto, certo que pertenço a um dos grupos de risco, caso seja infetada.

Fazia uma residência literária na Alemanha quando percebi que havia qualquer coisa errada nos meus pulmões. Foi há dez anos. Entretanto, os médicos têm-se inclinado para que seja um problema congénito, apesar de que nem eu nem os que me são mais próximos demos conta disso. Ninguém deu importância ao facto de eu, quando era criança, não querer entrar no concurso de encher balões que os miúdos do bairro organizavam a pretexto das festas de aniversários. Logo eu, que era tão exuberantemente participativa em todas as brincadeiras. Depois de cheios, os balões coloridos eram pendurados nas folhas de palmeiras que cobriam os muros de cimento do quintal do aniversariante. Ficava sem fôlego a encher balões e por isso esquivava-me, Não me apetece. Se tivesse dito a verdade, talvez alguém se tivesse apercebido.

Tenho medo. Não propriamente da morte. Pelo menos da minha. Morrer não deve ser nada de especial. Deve ser alguém a apagar-nos a luz, como a minha mãe ao sair do meu quarto de criança, Agora dorme. Tenho medo da morte da minha mãe, da morte daqueles que amo. Um medo enorme. E mais do que da morte, do sofrimento. Do sofrimento de que não voltamos.

Pertenço também ao grupo dos desprevenidos, dos que não se abasteceram a tempo. Tenho a despensa quase vazia. O dono da loja da esquina ofereceu-me generosamente a possibilidade de comprar uma garrafinha de álcool por nove euros, Só para os clientes como a senhora, disse. Ainda não toquei na preciosidade que coloquei majestosamente em cima do armário da casa de banho. Tenho desinfetado tudo com lixívia. A minha casa e eu cheiramos às vizinhas da minha infância.

Não saio de casa desde o dia 11 de março. Vou arrumando armários. Encontrei a caixa dos frasquinhos de gel de banho que trazia de hotéis estrangeiros, quando os meus livros começaram a levar-me de um lado para o outro. As viagens foram-se sucedendo e perdi interesse em ter tantos bocadinhos de mundo na minha casa de banho. Ontem à noite, ao tomar duche, usei um gel que cheirava a bergamota e tangerina que trouxe de Bruxelas. Por instantes, fui transportada para o hotel Metrópole, mas logo uma âncora pesada me puxou para aqui e para agora.

Mantenho-me em contacto com os outros pelo WhatsApp, Messenger, Skype, Zoom, Houseparty. Tenho trocado mensagens com pessoas com quem já não falava há muito tempo. Algumas despedem-se desejando-me boa sorte. Como se eu fosse concorrer a alguma coisa ou estivesse a entrar num casino. Também dizem, Coragem.

Não sei quanto tempo terei de estar fechada em casa, mas existe, de certeza, tanta coisa para descobrir aqui dentro. Todas as casas têm passagens secretas. Se nos pusermos a procurá-las, descobri-las-emos. Hão de levar-nos a sítios onde nunca fomos. Se nos unirmos nessa busca, poderemos torná-los maravilhosos. E outro futuro há de chegar.

Pensamento do Dia


Os robôs do presidente

Mais da metade das publicações no Twitter favoráveis ao presidente Jair Bolsonaro, por ocasião das manifestações do dia 15 de março, foi realizada por robôs, revela estudo da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (FESPSP) e da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Após analisar mais de 3 milhões de mensagens no Twitter, o levantamento ajuda a dar uma dimensão mais exata do tipo de apoio que o presidente Jair Bolsonaro tem nas redes sociais, bem como a expor os efeitos deletérios da manipulação digital.

Segundo o estudo, a hashtag #bolsonaroday foi a mais compartilhada na plataforma do Twitter no dia 15 de março de 2020, com cerca de 1,2 milhão de menções. “Os dados apontam uma ação expressiva de perfis não humanos – tanto de robôs, contas automatizadas, como de ciborgues, contas semiautomatizadas – nas publicações do Twitter, chegando a atingir picos de 55% de automatização das postagens no dia do evento”, afirma o estudo.


Em geral, as pessoas que usam o Twitter publicam cerca de três a dez tuítes por dia. Os usuários mais ativos chegam a publicar até 50 tuítes por dia. No dia 15 de março, cada robô favorável ao presidente Jair Bolsonaro publicou, em média, 700 mensagens com a hashtag #bolsonaroday. Houve casos de robôs com mais de 1,2 mil tuítes naquele dia.

O porcentual de 55% de interação por robôs é uma taxa incrivelmente alta, que supera amplamente outros casos recentes de manipulação do debate público por instrumentos digitais. Na eleição do presidente Donald Trump, por exemplo, as contas automatizadas geraram aproximadamente 18% do tráfego do Twitter, segundo o Internet Institute da Universidade de Oxford. No caso do Brexit, dois pesquisadores, Samuel Woolley e Bence Kollanyi, avaliaram que 32% das publicações no Twitter favoráveis à saída da Grã-Bretanha da União Europeia foram realizadas por contas desproporcionalmente ativas, o que indica algum grau de automação.

O estudo da FESPSP e da UFRJ relata algumas evidências empíricas sobre o papel desempenhado pelos robôs nas redes sociais. “A disseminação de mensagens e orquestração de campanhas online com o uso de automação e inteligência artificial tem consequências sociais, políticas e culturais relevantes: (a) sequestram a atenção da rede de usuários e ajudam a manipular os algoritmos das plataformas; (b) criam cascatas de informação que tendem a influenciar o comportamento de outros usuários por meio de contágio; (c) contribuem para a distorção e manipulação da opinião pública em constante construção e mutação; (d) pautam o debate e as conversações online e offline”. O uso dos robôs não apenas falsifica o tamanho do apoio ao presidente Bolsonaro, como deturpa todo o espaço público de diálogo, debate e informação.

Outro ponto destacado no estudo é o uso da estratégia de “campanha permanente” nas redes sociais pelos bolsonaristas, “com hashtags e mensagens cujo apelo, frequência e quantidade são típicos de períodos de campanha, incluindo alusão às eleições presidenciais de 2022 e 2026”. Entre as ações da campanha permanente está a “ativação constante da militância virtual para se defender e atacar seus adversários e o uso de narrativas de testemunho de diferentes atores sociais para a construção ‘do bem e do mal’”, diz o estudo. Um dos alvos mais frequentes dos bolsonaristas é o Supremo Tribunal Federal (STF). “Ainda que o Congresso tenha ganhado maior destaque mais recentemente, a campanha permanente se nutre do universo lavajatista que vê no STF um obstáculo para a continuidade da operação, além da questão da prisão em segunda instância”, aponta o estudo.

Os robôs bolsonaristas não só apoiam o presidente Bolsonaro, como atacam as instituições. Se é um alívio saber que muito dessa movimentação contra o Estado Democrático de Direito não vem de pessoas reais – é mera atuação de robôs –, é grave ver o presidente Bolsonaro tão próximo dessas milícias virtuais, que se servem de manobras digitais para atacar o ambiente de liberdade e diálogo próprio de uma democracia.

Isto, sim, é um crime

Quando a ideologia e a animosidade política obstruem a solução dos desastres humanitários, isso pode ser considerado um crime
Ai Weiwei 

Coronavírus ameaça elevar em até 22 milhões as pessoas em pobreza extrema na América Latina

Do baixo crescimento à recessão sem solução de continuidade. O coronavírus transformou o sombrio horizonte econômico da América Latina no pior em mais de meio século, como lembra ao EL PAÍS o chefe do Fundo Monetário Internacional (FMI) para a região, Alejandro Werner. O braço econômico das Nações Unidas para o desenvolvimento da América Latina e do Caribe, a Cepal, somou-se na sexta-feira ao pessimismo sobre a freada da atividade em escala global e sobre o baque que isso provocará em uma região sempre exposta aos vaivéns das matérias-primas, da manufatura, do turismo e das remessas. O choque será particularmente forte em uma métrica-chave do desenvolvimento social: a pobreza extrema. Segundo os dados do organismo, se o avanço da pandemia provocar uma queda de 5% na renda média da população ativa, o número de latino-americanos em extrema pobreza passará dos 67,5 milhões atuais para 82 milhões. Se a diminuição da renda da população economicamente ativa for de 10%, o número disparará para 90 milhões de pessoas (ou seja, 22 milhões de pessoas a mais em relação ao número atual).


Mesmo antes da chegada da Covid-19, a região não estava num bom caminho para acabar com o flagelo da pobreza extrema em uma década, como propunha um plano da ONU. Depois de uma longa década de melhoria, a taxa de população em situação de pobreza extrema na América Latina —a região mais desigual do mundo— já acumula mais de cinco anos de aumento sobre bases já muito altas: depois do mínimo de 2012 (8,2%), essa porcentagem cresceu até chegar aos dois dígitos. O baixo crescimento e a menor pujança redistributiva de muitos Governos da região já vinham sendo sentidos nos últimos tempos nesse indicador-chave do avanço social, mas a pandemia é o pior golpe: sem o efeito da Covid-19, esse indicador alcançaria 10,7% no final deste ano; com o coronavírus já no mapa de risco, disparará para 13,3%.

Para 2030, antes do novo cenário, os cálculos mais otimistas (que contemplavam uma redução de 1,5% na desigualdade e um aumento de 5% no PIB per capita) apontavam para uma pobreza extrema em torno de 2,9% em 2030; os mais pessimistas (sem alteração no padrão distributivo e com um crescimento per capita de 1%), para quase 9%. Mas o abalo causado pelo vírus nas próprias bases da economia é, mais uma vez, a pior estocada: hoje o cálculo mais otimista aponta para uma pobreza extrema de 5,7% da população em 2030 e o mais pessimista, de 11,9%.

“O mundo enfrenta uma crise sanitária e humanitária sem precedentes no último século”, ressaltou na sexta-feira a secretária executiva da Cepal, Alicia Bárcena, na apresentação de um estudo sobre as sequelas econômicas e sociais do vírus na região. “O mundo não será o mesmo depois desta pandemia e a reativação econômica levará tempo. Não é uma crise financeira, mas de saúde e bem-estar. E será imprescindível o papel do Estado, não o do mercado: é o Estado, o público, que vai nos tirar desta crise. Não podemos voltar a transitar pelos mesmos caminhos que não trouxeram a estes grandes abismos”, disse Bárcena em Santiago. “Estamos diante de uma mudança de era, de paradigma. E temos de mudar nosso modelo de desenvolvimento.”

No plano macroeconômico, a Cepal prevê um golpe múltiplo para a América Latina, basicamente através de seis canais: diminuição da atividade econômica em seus principais parceiros (Estados Unidos, Europa e China), barateamento das matérias-primas, interrupção das cadeias globais de valor, menor atividade turística, redução das remessas e intensificação da aversão ao risco nos mercados mundiais. “Estamos diante de uma profunda recessão”, alertou. Ainda é cedo para falar em números, mas a Cepal acredita que a previsão inicial de impacto, de 1,8% do PIB, já ficou obsoleta. “Se somarmos o impacto que está tendo nos EUA e na Europa, além da China, já falamos de 3% ou 4%.” Embora a mordida econômica das medidas de distanciamento social vá ser forte, Bárcena fez um apelo para que sejam mantidas ou ampliadas essas medidas: “Se não cumprirmos as quarentenas na América Latina e no Caribe, o impacto econômico será muito maior”, sentenciou.

Como resposta a este novo panorama econômico, “a integração regional é crucial para enfrentar a crise, independentemente das diferenças políticas”, afirmou a chefa da Cepal. “O mais urgente é reconstituir as cadeias regionais de valor para diminuir a volatilidade externa. É, talvez, uma oportunidade de olharmos para dentro.” Desta vez, “o salva-vidas não serão as matérias-primas: o impulso virá dos pacotes fiscais”, assinalou. E a América Latina “não tem espaço suficiente" para responder à conjuntura com o mesmo vigor que as economias avançadas. Diante dessa situação, segundo Bárcena, a opção mais conveniente seria a comunidade internacional apoiar os países de renda média por meio de “uma redução ou um reperfilamento” de sua dívida. “Precisamos de medidas de fora da caixa, inovadoras: precisamos que o FMI e o Banco Mundial nos ajudem.”

No plano estritamente sanitário, Bárcena lembrou que o nível de leitos hospitalares disponíveis na América Latina e no Caribe está muito longe do da Europa, onde o coronavírus está causando estragos e mostrando que nenhum sistema de saúde é suficientemente forte para resistir a um choque desta magnitude. Na região, os únicos países que têm um nível de disponibilidade de leitos semelhante ao da União Europeia são, segundo os dados da Cepal, Cuba e duas pequenas nações caribenhas: Barbados e São Cristóvão e Névis. E o gasto público médio de saúde na América Latina e no Caribe mal passa de 2,2%, um terço do recomendado pela Organização Pan-Americana da Saúde (Opas).

Com medo da penúria e da morte? Bem-vindos ao mundo real

1.

Você vai até a janela, olha para o céu, estica o braço apontando o telefone para cima, fecha o olho esquerdo, olha o céu no quadro do telefone – é o mesmo. Você tira uma fotografia, a examina, volta a olhar para o céu: as nuvens desembestaram a mudar de lugar, o sol talvez agora lhe cegue um pouco.

Mas você estava lá, e por isso publica um instantâneo daquele céu onde não havia nada de especial, apenas o panorama difuso do círculo solar por trás de nuvens em contraluz, visto por uma nesga entre edifícios e antenas de São Paulo. As pessoas vão olhar sua fotografia, cada uma dentro de cada apartamento, e ler seu nome impresso no canto esquerdo sobre a imagem do céu nos cristais dos telefones, e pensar em você, talvez olhando pela janela – talvez sentindo o mesmo pavor.

Andamos assim, silenciando no meio das frases.

Especialmente, os privilegiados que hoje podem isolar-se em cápsulas domésticas. Nas últimas semanas, nossas horas foram ocupadas por tentativas de trabalho remoto, aulas online, ativismo de internet, drinks via zoom e houseparty – e uma enevoada sensação de luto antecipado. Até que percamos o emprego, enterremos nossos mortos ou, na melhor das hipóteses, tenhamos que nos confrontar com um mundo que ainda desconhecemos do outro lado desta quarentena.

São tempos estranhos? Talvez não mais que há três semanas – a diferença é que agora todos sabemos disso.


2.

Nas últimas décadas, o capitalismo tardio promoveu mudanças climáticas irreversíveis e um aumento exponencial na concentração de renda mundial. Pouco importava aos detentores dos meios de produção e do capital financeiro – e às classes médias que votam nos representantes daqueles no governo – que a política econômica de seus países causasse desigualdade, doenças e morte aos menos favorecidos.

No Brasil, o 1% mais rico hoje concentra 28,3% da renda total do país, segundo o Relatório de Desenvolvimento Humano (RDH) da ONU divulgado em dezembro do ano passado. É a segunda maior concentração de renda do mundo, apenas atrás do Catar, um emirado absolutista sem eleições legislativas desde os anos 1970 que usa a charia como sistema legal, onde mulheres supostamente adúlteras são punidas com chibatadas e relações homossexuais, com a pena de morte.

Essa combinação nefasta de concentração de renda e ameaças aos direitos humanos também encontra-se por aqui.

Ainda que, durante o recente ciclo do Partido dos Trabalhadores no poder, tal desigualdade tenha sido mitigada via programas de distribuição de renda e uma economia aquecida, os brasileiros moradores de periferias e favelas seguiram tendo direitos desrespeitados pelas polícias militares de todo o país, assim como os povos indígenas originários ameaçados por ruralistas, grileiros, milícias e superfaturadas obras de infraestrutura. E, se nossas favelas são guetificadas pelo Estado, o que dizer dos presídios brasileiros, verdadeiros campos de concentração para negros e pobres?

Abrindo o panorama, pesquisas do IBGE em 2017 e 2018 apontaram que 64,9% da população brasileira não têm pelo menos um dos seguintes direitos garantidos: educação, proteção social, moradia adequada, serviços de saneamento básico e comunicação (internet). A realidade é certamente pior: o relatório usa o conceito de autodeclaração e só inclui os brasileiros que tenham domicílios, excluindo moradores de rua. Entre mulheres negras ou pardas, sozinhas, e com filhos pequenos, o número é ainda maior: 81,3% . Entre idosos, são 80%.

O Estado Democrático de Direito, garantido pela Constituição de 1988 e ameaçado pelo bolsonarismo, nunca foi democratizado no Brasil pós abertura – jamais chegou plenamente aos cantos menos favorecidos do país, mesmo sob governos supostamente de esquerda. E, com a guinada abertamente fascista da política brasileira depois do golpe de 2016, a situação, que já era trágica, piorou.

Em tempos de pandemia, talvez um pouco – apenas um pouco – do pesadelo distópico no qual já viviam milhões de brasileiros pareça agora democratizado. Insegurança financeira e ameaça constante à vida: antes tão normalizados quando no andar de baixo, agora motivos para ansiedade generalizada.

3.

A grande novidade não é a pandemia. É o fato de que as classes mais abastadas brasileiras possam enfrentar, pela primeira vez em gerações, circunstâncias em que sua casta superior não lhes oferece grande vantagem de sobrevivência.

No Brasil, hospitais particulares já sofrem estrangulamento semelhante ao SUS – e mal começamos a escalar a curva de casos e mortes. Tragédia com horizontalidade semelhante, talvez apenas durante guerras, sob bombardeio. O que nunca tivemos por aqui.

Quando isso tudo acabar, talvez a espera e o testemunho da catástrofe, a implosão do que entendíamos como vida normal, faça os abastados da Zona Sul do Rio de Janeiro e da Zona Oeste de São Paulo mais empáticos com quem convive com o medo de ver o chão abrindo sob seus pés desde que nasceu.

Mas não sei se eu apostaria nisso.
J.P. Cuenca

Use máscara

Use máscara. No tempo em que as pessoas cuidavam da saúde recebendo do sol a sua carga diária de vitamina D, Pedro Bial fez sucesso com um poema-canção de dicas sobre o planejamento da felicidade futura. “Use filtro solar”, dizia o refrão. A vida era uma experiência errante, reticenciava o poeta-jornalista. As outras dicas que ele poderia dar eram tão incertas como a eficácia de mascar chicletes para resolver uma questão de álgebra.

Hoje, se eu pudesse oferecer uma única dica, não sobre a felicidade a ser buscada, que isto ficou na sombra, mas sobre a possibilidade de chegar ao futuro e aí então voltar a lutar por esses luxos da existência, esta única dica seria: use máscara.

Não se sinta culpado por não estar lendo as 900 páginas do “Guerra e Paz”, o velho sonho há muito adiado. Talvez, pela primeira vez na vida, você esteja sentindo um medo de verdade, como diz o poema, uma vontade de chorar baixinho, como diz o samba-canção, e isso vale por todos os romances deixados de ler.

Stephen King foi para a prateleira de terror infantil, a barata do Kafka já não parece tão absurda. Quando isso acontece não há dicas a se oferecer. O poema do Bial, tradução de um original da americana Mary Schmich, falava da necessidade de se cuidar dos joelhos, pois um dia você precisaria deles. Chegou a hora. Ajoelhe, reze forte e chame os deuses que porventura estejam desocupados. Se algum aparecer, tenha fé. Peça a salvação com toda a ênfase que lhe estiver ao alcance - mas, por favor, use máscara.

Você fez poupança, engordou o porquinho financeiro, apostou numa aposentadoria privada. Tudo na crença de que o gerente de banco é o grande administrador do futuro e, diante de um desemprego, da vontade inarredável de dançar no Central Park, seria só sacar. Deu ruim. O parque fechou, o futuro acabou e agora só resta dançar trancado no quarto. Faça um vídeo. Para respirar afeto no confinamento, mande aos amigos.

Encrencas não têm esse nome feio à toa. Surgem, de um mercado de bichos na China, de um aperto de mão no casamento grã-fino, e morrem de rir de nossa cabeça programada com antigas preocupações. Eu, você, o gerente de banco, todos ficaremos diferentes, talvez menos mesquinhos em distribuir sentimentos, se formos adiante com as lições desse inimigo de quem nunca ninguém supôs. Mas para isso não se esqueça. Escreva a hashtag em suas mensagens no Twitter: #usar máscara.

A poesia de Schmich e Bial soa otimista quando diz que a peleja é longa e, no fim, é só você contra você mesmo - um verso sobre o qual há divergências em abril de 2020. Guarde o filtro solar para quando sair da quarentena. Amanhã, por exemplo, é o Dia dos Jornalistas. Alguns deles têm cumprido a pauta de ir pela manhã até a porta do Palácio da Alvorada. Em tempos de coronavírus, são corajosos. Perguntam, não respondem às ofensas, publicam. Lembram Joel Silveira, que mandou notícias do front da Itália na Segunda Guerra, ou José Hamilton Ribeiro, que perdeu a perna numa mina terrestre para informar sobre o Vietnã. Os novos heróis de Brasília, autênticos correspondentes de guerra, têm se saído muito bem na batalha contra os perdigotos do presidente. Parabéns. Continuem. Usem máscara.

domingo, 5 de abril de 2020

Pensamento do Dia


O presidente perde poderes

O presidente Bolsonaro está perdido em seu labirinto e isso ele mostra explicitamente nos atos do dia a dia. A última semana foi um bom exemplo. No domingo, ele foi às ruas estimular as pessoas a desobedecerem às orientações das autoridades de saúde. Na terça-feira, o conselho de governo, em longa reunião, conseguiu polir o pronunciamento que ele faria à noite. Amanheceu na quarta disposto a derrubar a obra dos seus conselheiros e postou vídeo falso que dizia haver desabastecimento na Ceasa de Minas. Na quinta, ele falou em demitir o ministro da Saúde, cujo trabalho tem alta aprovação popular. Várias vezes atacou governadores e, claro, culpou a imprensa. O presidente é um elemento perturbador no meio de uma crise devastadora.

Desde o início desta crise, Bolsonaro piorou. No episódio em que ele estimulou manifestações contra o Congresso, no domingo, 15 de março, o presidente foi aconselhado por várias pessoas do governo a não fazer isso, principalmente porque o surto do coronavírus estava entrando numa espiral. A uma das pessoas mais fiéis a ele no governo, e que sugeriu que ele desmobilizasse o ato, Bolsonaro deu uma resposta que revela bem o delírio persecutório em que vive mergulhado:

– Eu só tenho as ruas, a mídia quer me derrubar, o Rodrigo quer me derrubar, o Dória quer me derrubar. Eu não posso dizer para as ruas: vão pra casa. Eu preciso das ruas. Eu não estou estimulando, mas eles estão lá e eu abraço eles.


O Brasil estava entrando em período de grande padecimento e o que ocupava a cabeça do presidente era a ideia fixa de que todos são contra ele. E nem vê que as ruas estão se esvaziando. Ninguém é dono da rua, porque ela muda de lado.

Bolsonaro se perde em brigas laterais ou conflitos que ele mesmo inventa. Naquele primeiro pronunciamento em que disse que o Covid-19 era uma gripezinha, ele foi muito aconselhado dentro do Palácio a mudar o tom. Preferiu ouvir o grupo da milícia digital que tem sua sede dentro do próprio Palácio. Ele não apenas falou o que quis como continuou nas declarações rápidas demonstrando até a falta de empatia humana, ao tratar com desprezo as mortes ocorridas e por acontecer em decorrência da pandemia.

O pronunciamento da última terça-feira parecia uma mudança de rumo, mas o que houve de bom naquela fala foi enxertado pelos seus ministros. O objetivo de ir à TV que ele revelou à sua claque na porta do Palácio era disseminar a tese falsa de que o diretor-geral da Organização Mundial da Saúde (OMS) defendia a volta ao trabalho. Corrigido no mesmo dia por Tedros Adhanon, e contido no conselho de governo, Bolsonaro mesmo assim usou indevidamente as declarações do secretário-geral da OMC.

Seu comportamento irresponsável diante da crise o deixa isolado e o torna periférico no seu próprio governo. Ele se consome de ciúmes dos subordinados que brilham. Mas até as decisões que toma para impor limites no seu ministério, como mudar o formato do briefing diário da saúde, está tendo efeito bumerangue. A cada dia se vê ministros indo lá e afirmando o oposto do que o presidente diz. O ministro Eduardo Ramos na sexta-feira agradeceu à imprensa e ao Congresso e disse que tem falado com os estados, o ministro Mandetta várias vezes reforçou a orientação dos governadores, a ministra da Agricultura desmentiu que houvesse risco de desabastecimento.

O Congresso, os economistas, a imprensa, os médicos, os infectologistas, os governadores e os prefeitos empurraram o executivo na direção certa do distanciamento social, da ampliação da rede de proteção social aos mais vulneráveis, do aumento dos gastos com saúde. E agora a sociedade cobra prazos de execução das medidas, principalmente no socorro a quem mais precisa. As ameaças do presidente de determinar a volta ao trabalho estão sendo contidas pelas alertas da Justiça. Se baixar a ordem de volta à atividade, o Supremo impedirá. E isso com base no direito à saúde consagrado na Constituição e no princípio de que saúde pública é atribuição compartilhada entre União, estados e municípios. O país vai se governando. Ao presidente, resta o teatro na porta do Alvorada para uma claque cada vez mais reduzida e os robôs controlados pelo filho 02.

O bonito da democracia é isso: ela encontra seu caminho, mesmo nas piores situações como a que vivemos.

'Aliens dentro do planeta'

O Estado (França) passou a ter de pensar em termos de rentabilidade, quando, na realidade, as suas despesas são gastos sociais, para o bem-estar de seu cidadão. Em uma economia como a brasileira hoje, só se pensa no lucro das empresas. O bem-estar dos trabalhadores e da grande maioria da população não interessa. Interessa é o conceito de rentabilidade aplicado às finanças públicas de uma nação, o que não pode funcionar. 

Vamos ter de voltar a pensar em nossa produção de riqueza para o bem-estar da humanidade, e não para o lucro, a superficialidade e a acumulação de riquezas de um pequeno grupo. O Estado vai ter de começar a funcionar seriamente como Estado, voltado para o povo, para as questões mais essenciais

A pandemia junta-se à pobreza

Enquanto o vírus se espalha, o capital foge e as exportações encolhem, os governos da América Latina e de outras áreas pobres e emergentes têm de enfrentar a pandemia com recursos próprios – agora ainda mais escassos – e com a ajuda preciosa de instituições como o Fundo Monetário Internacional (FMI). Cerca de 80 países pediram socorro ao Fundo até o fim de março. Os governos latino-americanos, com raras exceções, impõem o isolamento social, com maior ou menor rigor, como primeira forma de resistência à covid-19. Aprenderam com a experiência, e especialmente com os erros, dos primeiros países ocidentais atingidos pela doença. Tiveram a seu favor a aproximação pouco mais lenta da pandemia.

A solidariedade além fronteiras, pregada com insistência pela Organização Mundial da Saúde (OMS), vem sendo exercida principalmente por meio do FMI, de forma quase imperceptível para a maioria dos governos e das pessoas. Já empenhado na tarefa de socorro, o Fundo tenta mobilizar dinheiro para manter em US$ 1 trilhão sua capacidade de empréstimo. O governo dos Estados Unidos já se comprometeu com esse esforço.


Na maior economia da América Latina, o Brasil, o governo tenta enfrentar a crise com políticas excepcionais, aumento do gasto e suspensão, até o fim do ano, das normas orçamentárias. Parte do arsenal depende da aprovação, ainda, de um projeto de emenda constitucional para criação de um orçamento “de guerra”. O projeto foi para o Senado.

No Brasil, o isolamento parece estar servindo para frear o contágio. Recomendado por autoridades sanitárias e pela maioria dos governadores, com apoio de prefeitos, esse cuidado foi aceito por milhões de famílias, contra a opinião do presidente da República. O presidente mexicano, Andrés Manuel López Obrador, também menosprezou inicialmente a pandemia, mas acabou recuando. Decretou estado de emergência sanitária e suspendeu certo número de atividades.

A quarentena foi imposta quase sem exceção nos demais países latino-americanos. Alguns governos, como os da Argentina, do Peru e da Colômbia, logo definiram penalidades, como prisão ou multa para os violadores do isolamento. De modo geral, os procedimentos aconselhados pela OMS vêm sendo seguidos.

Até o governo de Nicolás Maduro se mostra alinhado, mas a situação da Venezuela é uma das mais preocupantes, por causa da enorme escassez de bens essenciais e do enorme empobrecimento da maior parte da população. Na Nicarágua, o presidente Daniel Ortega continua negando a gravidade da pandemia. Até o campeonato nacional de futebol foi mantido. Essa ideia parece ter escapado ao presidente Jair Bolsonaro e a seus seguidores mais entusiasmados. Mas haveria na CBF alguém disposto a apoiar a manutenção dos jogos?

A pobreza, no entanto, pode limitar o alcance da política de isolamento seguida na maior parte dos Estados e nas cidades médias e grandes. Boa parte da população vive em habitações apertadas. Isso ocorre mesmo em grandes capitais, como Rio de Janeiro e São Paulo. No caso das famílias mais pobres, um só quarto pode abrigar até mais de cinco pessoas. As pessoas mais velhas ou mais vulneráveis podem até ficar em casa, mas outras continuam trabalhando ou saem de casa, de toda forma, em busca de alguma oportunidade ou de algum dinheiro. O risco de contágio é bem maior para essas famílias.

A vantagem de conhecer a experiência de outros países – e a importância do isolamento – é diminuída, portanto, pela desigualdade social e pela pobreza encontradas na maior parte da América Latina.

Em mais este aperto, latino-americanos, africanos, asiáticos e europeus (fora da União Europeia) já recorreram ao FMI. Os novos problemas vêm sendo tratados como ameaças muito sérias por entidades como o FMI, o Banco Mundial e a Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE). Nenhum dirigente dessas entidades fala em “gripezinha” ou histeria. Todos esses dirigentes têm respeitáveis currículos nas áreas de gestão pública e todos falam corretamente mais de um idioma, a começar, é claro, pelo próprio.

Longe do centro do universo

Em meio às estatísticas macabras do coronavírus, leem-se notícias que fazem pensar. Pela primeira vez em séculos, os golfinhos voltaram aos canais de Veneza. Alguém fotografou pavões nas ruas desertas de Madri. Os gatos de Roma passeiam fagueiros pela Via Veneto. Numa Nova York em silêncio, ouvem-se rouxinóis na Quinta Avenida. E, no Rio, veem-se raias no Arpoador e gaivotas explorando as areias do Leblon.

Com a quebra do consumo, a produção de lixo plástico diminuiu, para alívio dos rios e mares que o recebem, com o que os peixes, aves e tartarugas ganharam uma chance. Com fábricas inativas e chaminés apagadas, a qualidade do ar também melhorou, inclusive para quem o empesteia. Sem a presença do homem, era inevitável que nossos companheiros de planeta se sentissem seguros para deixar suas tocas e vir dar uma olhada aqui fora. Mas tolos serão se acharem que isso durará para sempre. Tudo ficará sem efeito assim que a vida entrar de novo em ação, de mãos dadas com sua velha parceira —a morte.


O que estamos aprendendo hoje é que, com ou sem a Covid-19, o mundo não acabará, mesmo porque o coronavírus, por mais recém-chegado, faz parte dele. Quem pode acabar um dia é o homem, e, se isso acontecer, o planeta seguirá em frente, com um quorum mais do que suficiente de espécies para continuar vivo e pulsante.

Isso nos fere a vaidade e põe em xeque a antiga ideia-feita, herdada dos gregos e nunca bastante desmoralizada, que entroniza o homem no centro do universo. A atual crise demonstra que, longe de ser o centro, não somos nem periféricos.

O planeta pode passar sem a "Divina Comédia", "Hamlet", a "9ª Sinfonia", "O Pato Donald" e outras criações do espírito humano. Nós é que não podemos passar nem três minutos sem uma função que sempre demos de barato e o vírus está nos ensinando como é cara: respirar.
Ruy Castro

Brasil do pastor J. Messias

“Brasileiros pra fora! Uma chuvinha não vai machucar vocês”, The Economist 

Eles não ligam pra gente

Caros brasileiros,

Nestes tempos de coronavírus parece que tudo mundo está fazendo home office. Parece. Pois, na realidade, o home office aqui, na Alemanha, ganhou uma nova conotação. Se antes era visto como um instrumento para conciliar trabalho e família, hoje é considerado um refúgio dos privilegiados.

"Esses privilegiados à noite saem nas varandas para aplaudir a nova elite do país", escreveu o jornal semanal Die Zeit. A "nova elite" a que o jornal se refere são profissionais que, há até bem pouco tempo, eram pouco valorizados: o auxiliar de enfermagem que trabalha sem material de proteção. O agente funerário, que se depara com um luto nacional. Os profissionais de limpeza que desinfetam ruas e hospitais.

São os caminhoneiros, que garantem o abastecimento nos supermercados. Os caixas, que atendem os clientes sob o risco de serem contaminados. O trabalhador rural, que planta e colhe. O entregador de comida, o condutor de ônibus, o policial, os cuidadores, educadores, professores e, sobretudo, os profissionais da saúde.

Na Alemanha, todos esses profissionais são agora "essenciais". A epidemia mostrou que são eles que põem o país para funcionar. Será que, desta vez, com toda essa valorização, o salário desses profissionais "essenciais" finalmente vai aumentar?


Esse debate me lembra de uma música famosa do Michael Jackson: They don't care about us (Eles não ligam pra gente), sobre a discriminação da população pobre no mundo inteiro. O vídeo da música foi produzido em fevereiro de 1996 no Brasil. Uma parte foi filmada no Pelourinho, em Salvador, com o apoio do grupo Olodum. A outra parte foi gravada na favela Dona Marta, no Rio de Janeiro.

Nesse vídeo, os percussionistas do Olodum deram um show de ritmo, suingue, ginga e orgulho negro. Michael Jackson, pálido e magro, cantou e dançou no meio deles, e ficou bem claro: sem a participação brasileira, a música de Michael Jackson não anda, o clipe não tem força nem animação.

Me lembrei desse videoclipe, dirigido pelo famoso Spike Lee, agora no meio da crise do coronavírus. Michael Jackson quis valorizar a cultura negra no Brasil, quis mandar um sinal contra a discriminação e a pobreza. Ele saiu dando beijinhos nos becos da Dona Marta e no Pelourinho. Ele declarou seu amor pelo Brasil. Ele vestiu a camisa do Olodum e dançou no telhado dos barracos.

Depois de ter gravado cenas coloridas e impactantes, Michael viu as vendas do single dispararem. Na Europa, They don't care about us conquistou os primeiros lugares nos charts e recebeu disco de ouro. A fama de Michael Jackson cresceu, mas a pobreza na Dona Marta e nas ruas de Salvador da Bahia continuou.

O coronavírus deixou essas profundas rachaduras sociais novamente evidentes. A "nova elite" pode até ganhar palavras de elogio, mas continua ganhando uma miséria. Continua morando em favelas dominadas pelo tráfico, continua sem plano de saúde, sem previdência ou proteção trabalhista.

Corona tem classe, quarentena tem classe, na Alemanha como no Brasil. E músicos, políticos e pastores que criticam essa injustiça social e ao mesmo tempo tentam se promover em cima disso, infelizmente não contribuem para mudar esse quadro. É o sucesso da hipocrisia: criticar "a velha elite" e ao mesmo tempo pertencer à ela e defender os seus interesses.

"They don't care about us? They should care about us. The will care about us". Em vez de esperar um reconhecimento que nunca vem, é melhor que a "nova elite" brigue e conquiste seus direitos, que são mais do que merecidos.

O coronavírus ainda pode levar a mudanças imprevisíveis.
Astrid Prange de Oliveira

Francisco de todos

O drama que estamos a atravessar impele-nos a levar a sério o que é sério, a não nos perdermos em coisas de pouco valor; a redescobrir que a vida não serve, se não se serve.

(...)

Queridos amigos, olhai para os verdadeiros heróis que vêm à luz nestes dias: não são aqueles que têm fama, dinheiro e sucesso, mas aqueles que se oferecem para servir os outros. Senti-vos chamados a arriscar a vida
 Papa Francisco

O povo não é bobo

O melhor do Brasil é o brasileiro. A frase que virou título de série global é batida, lugar comum. Mas em tempos de pandemia é inevitável reincidir nela. E no plural: os brasileiros.

Por aqui, no auge do corte de recursos federais, pesquisadores conseguem sequenciar o genoma do novo coronavírus em tempo recorde, engenheiros desenvolvem respiradores de baixo custo, outros criam aplicativos que podem salvar vidas. Mais: na contramão das expectativas do presidente Jair Bolsonaro, a maioria dos brasileiros crê na ciência e não nas trevas.

Antes da pandemia, Bolsonaro, que já iniciara o ano em baixa ao entregar um PIB de apenas 1,1%, amplificou a sua já conhecida paranoia. Só enxergava inimigos, mesmo entre aqueles que juravam fidelidade. Aprontou com os ministros Sérgio Moro e Paulo Guedes, colidiu com o Congresso e o Supremo.

O Covid-19 multiplicou tanto sua síndrome de perseguição crônica que Bolsonaro não conseguiu enxergar outra doença à sua frente, quanto mais a gravidade do surto. Insistiu em um discurso alienígena, desconectado da OMS e do conhecimento científico. Tentou plagiar Donald Trump e não soube dar o cavalo de pau habilmente praticado pelo presidente dos Estados Unidos.

Só perdeu. Para governadores, prefeitos, para o seu próprio ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta. Para os panelaços de todas as noites, desde meados de março.



Pesquisa Datafolha, publicada sexta-feira, apontou Mandetta com 76% de aprovação popular. Mais do que o dobro dos 33% de Bolsonaro, que também viu sua rejeição avançar 6 pontos percentuais. A fervura de inveja e ódio que no dia anterior levou Bolsonaro a humilhar o ministro em entrevista à rádio Jovem Pan deve ter borbulhado entre o desejo de demiti-lo sumariamente e as amarras de não poder fazê-lo.

Sua caneta Bic, da qual ele tanto se vangloria, passou a nada valer diante da credibilidade que seu ministro alcançou.

Médico conservador, enrolado em pendengas judiciais, antiabortista e bolsonarista de primeira hora, Mandetta ganhou popularidade por dar razão à ciência e não ao achismo. Para o chefe, tornou-se um inimigo.

Os governadores e prefeitos que optaram pela linha da razão também viram suas aprovações crescerem. Uma prova de que mais do que cicrano ou beltrano, o brasileiro tem dado crédito a quem decide com responsabilidade e critério científico.

Isso já ficara claro em outra pesquisa, no dia 24, também do Datafolha, quando 73% se disseram a favor de os governos proibirem a circulação das pessoas. Entenderam que ficar em casa era a melhor forma de protegerem a si a aos outros. Apenas 24% foram contra.

Dias antes, outra consulta popular já atacara com força o fígado do presidente. Os brasileiros, a maioria deles, demonstraram o valor que conferem ao jornalismo profissional. Sobre o Covid-19, 61% creditam informações à TV, 56% aos jornais impressos e 50% às emissoras de rádio. Apenas 12% dão bola para as redes sociais, mídia predileta do presidente e dos seus.

Negar a ciência acentua a demência de Bolsonaro. Ele incentiva a ignorância embora saiba perfeitamente as consequências de seus desatinos. Pouco importa, desde que consiga se eximir da responsabilidade pelo colapso do sistema de saúde, pelas mortes que virão, pela recessão sem precedentes que o país deverá experimentar. Age para tirar seu corpo fora e jogar o fardo em outros ... nos seus ministros da Saúde, da Economia, da Justiça, nos governadores e prefeitos, no Congresso e no Judiciário.

Todos serão culpados, menos ele.

Para além das terríveis consequências da pandemia – morte de milhares, famílias imersas na tristeza, desemprego, empobrecimento, fome, recessão -, há um recado que já pode ser captado: o brasileiro não é tolo. Ainda que nos extremos existam rebanhos fiéis, a maioria não é gado e não topa ser tratado como tal. É valente, faz sacrifícios, é solidário. Mas exige informação, respeito, tratamento digno. Sabe que a Covid-19 não é coisa de Satanás e quer muito mais do que um jejum religioso para que o país “fique livre desse mal”.

Saindo dos trilhos

Dias atrás, um engenheiro da malha ferroviária do porto de Los Angeles, na Califórnia, pirou. Eduardo Moreno, de 44 anos, convencera-se de que a missão oficial do navio-hospital USNS Mercy,enviado pela Marinha para aliviar a profusão de infectados na Costa Leste, era mera operação de fachada. A embarcação seria, na verdade, parte de um golpe de Estado em curso. Por isso, ele resolveu agir: manteve um trem não tripulado da zona portuária em velocidade máxima, para muito além do final dos trilhos, e causou um estrondoso estrago monumental — a composição destruiu primeiro uma barreira de concreto, atropelou uma proteção de aço, e prosseguiu por vasta área de cascalho até parar. À polícia o autor justificou assim o rompante que pode lhe valer uma pena de até 20 anos: “Era a chance que eu tinha para chamar a atenção das pessoas sobre o que está realmente acontecendo aqui”.

Não se pode atribuir a insanidade do engenheiro ao coronavírus. Mas, à medida em que a humanidade sai dos trilhos pré-Covid 19, é de se prever que o planeta se torne mais propício a insânias individuais e coletivas.


Daí a importância de se manter sob rédea curta governantes inseguros no poder, destemperados por índole e/ou despreparados para apontar o rumo em tempos de perigo e medo global. As limitações e inclinações inerentes a cada dirigente tendem a se acentuar à medida que a espiral da calamidade for adquirindo forma mais cruel. Por enquanto, em países onde essa espiral está apenas começando, a real capilaridade do vírus e seu potencial de destruição apontam em uma única direção: dias piores virão.

Nas Filipinas do presidente Rodrigo Duterte, que sofre de várias insuficiências democráticas e comanda com poder quase absoluto o país de mais de 100 milhões de habitantes, a solução para o complexo problema atual é simples: as forças policiais e militares têm ordem de atirar para matar quem descumprir a quarentena imposta. Ponto. Não tem ministro da Saúde, governadores nem imprensa em condições de lhe fazer frente.

Já Estados Unidos e Brasil têm mais sorte: por força da necessidade e do gigantismo da crise, Donald Trump e Jair Bolsonaro optaram por terceirizar o problema, que acabou em mãos de quem não comunga das crenças e disparates dos dois presidentes. Trump e Bolsonaro acreditaram poder desresponsabilizar-se da marcha da pandemia içando a primeiro plano dois personagens que não poderiam ser mais diferentes entre si — o nova-iorquino Anthony Fauci, a maior autoridade americana em infectologia, e, aqui, o deputado formado em Ortopedia Luiz Henrique Mandetta, atual ministro da Saúde. Ambos conquistaram o respeito e a confiança de quem os ouve pela abordagem científica e realista do combate ao coronavírus. Ambos, também, começam a pagar por isso.
Esta semana o franzino e bem-humorado Dr. Fauci , que já serviu a vários ocupantes da Casa Branca e chegou aos 79 anos de idade com biografia estelar, passou a precisar de proteção extra de agentes de segurança. Tem recebido ameaças de morte em demasia por parte de seguidores de Donald Trump. Em Brasília, Mandetta cometeu o pecado capital de seu Ministério da Saúde ter ultrapassado o presidente em aprovação na condução do combate ao vírus. Não só ultrapassou, esmagou: 76% a 33%, segundo o último Datafolha.

Sobreviver nessa dislexia nacional não tem sido fácil nos dois países. Em Washington, Donald Trump consegue embaralhar uma frase que começa com “Isto não é uma crise financeira, é apenas um momento temporário no tempo” com o anúncio da injeção de US$ 1 trilhão na economia do país. Em Brasília o comportamento de Jair Bolsonaro é ainda mais errático, sempre que tem um microfone pela frente. Para não concluir de forma sorumbática, vale recorrer às memórias de um generoso humanista do século 20, o escritor Paul Goodman. “Esperança é o contrapeso para o nosso enorme sentido de vulnerabilidade”, escreveu em suas memórias. “É a nossa permanente negociação entre otimismo e desesperança, a contínua negação do cinismo, ingenuidade. Temos esperança justamente por termos consciência de que eventos tenebrosos são sempre possíveis e não raro prováveis. Mas as escolhas que fazemos podem impactar o seu desenlace”.
Dorrit Harazim

Paisagem brasileira

Ilha de Paquetá (Rio de Janeiro), Georges Wambach,1943

Depois da tempestade, virá a bonança?

No texto bíblico está dito: “Depois da tempestade vem a bonança”. Mas não é sequência automática. Depende de como cada um vivencia os momentos de sofrimento, do aprendizado que cada um faz e da mudança de atitude posterior aos tempos de angústia.

O mundo inteiro está mergulhado em um momento desafiador. A presente crise promove a combinação perversa entre a violenta pandemia e o fantasma de uma crise econômica inédita e devastadora.

O vírus, além de seu efeito voraz sobre vidas humanas, produz uma lição de humildade aos governantes. O quão ilusório é o poder? Seu alcance pretensamente ilimitado esbarra, às vezes, quase na impotência. Até os mais autoritários líderes mundiais dobraram o joelho. Recomendo o filme “Flu”, na Netflix: uma reflexão, no ambiente de uma epidemia, sobre como, em situações limites e radicais, decisões políticas dramáticas podem salvar ou sacrificar vidas.

Quem sabe as crises, e não a violência, sejam as parteiras da história? Em linguagem corrente: “como fazer do limão a limonada?”. A meu juízo, tudo vai depender do aprendizado pessoal, familiar e social que construirmos.

Será que perceberemos que, mais do que nunca, estamos integrados em uma “aldeia global”? Que as fronteiras são realidades históricas, políticas, institucionais, mas que não resistem a um vírus agressivo e indisciplinado que nasce na China, invade a Europa, assusta os EUA e se dissemina pelo Hemisfério Sul? Será idealismo ou aprendizado necessário reencontrar com a nossa natureza universal de seres humanos e imaginar um mundo mais fraterno e pacífico?

Será que perceberemos que, diante de uma pandemia quase indomável, as barreiras entre ricos e pobres desmoronam? É evidente que os pobres têm uma situação muito mais vulnerável. Mas o vírus não seleciona por faixa de renda ou patrimônio. Afinal, o epicentro da epidemia na Itália não foi a Lombardia, sua região mais rica? Quem sabe fica o aprendizado e o compromisso coletivo com o combate aos privilégios e às desigualdades?

Será que a crise da Covid-19 deixará um legado de humildade, diálogo, entendimento e convivência respeitosa entre as lideranças políticas brasileiras? Será que descobriremos a quase inutilidade dessa guerra ideológica polarizada e de má qualidade, quando a política na democracia é exatamente a construção de consensos progressivos em ambiente plural de divergências, tendo o diálogo, aberto e franco, como ferramenta? Até aqueles que, se achando plenipotenciários, enfrentaram as evidências e a ciência, se dobraram à realidade. Será que aprenderemos que ninguém é dono da verdade? Até agora, ninguém têm a verdade absoluta sobre o vírus, apesar de todo o empenho da comunidade científica. Não temos vacina, remédios com eficácia comprovada, explicações exatas sobre a dinâmica da propagação.

Será que depois da crise valorizaremos e daremos mais atenção ao sistema de saúde e aos seus profissionais, sobretudo ao SUS? Cansei de enfrentar situações no Congresso onde a repercussão da voz da bancada da saúde era diminuta, sempre abafada por outras bancadas temáticas ou setoriais. Será que enfrentaremos de vez o crônico subfinanciamento do SUS e seus gargalos?

Transformar a tempestade em bonança depende de nós, essencialmente do nosso aprendizado. 

Modelo de civilização no fim

Esta crise sanitária é sinal de uma crise civilizatória. Vivemos o fim de um paradigma, e isso ficou ainda mais evidente agora, com a presença da morte a nos rondar.
 
Há cerca de 15 anos, analiso a saturação desse modelo progressista, que é o grande modelo da civilização moderna. Para mim, ele está acabando agora. A epidemia atual tem uma expressão simbólica nesse sentido 
Michel Maffesoli, sociólogo autor de livros como “Apocalipse” e “A palavra do silêncio”, e membro do Instituto Universitário Francês

Aproveite esse recesso forçado e avalie o que você está fazendo para melhorar o mundo

Aproveitando esse recesso obrigatório que ninguém sabe quanto tempo vai durar, andei pesquisando sobre a inquietante Hipótese de Gaia, que difere das teorias sobre a formação da vida na Terra, tanto a criacionista, que a atribui a Deus, quanto a científica, que nos remete ao famoso Big Bang.

Aliás, antes de saber da existência dessa corrente de pensamento, já tinha me passado pela cabeça a possibilidade de a Terra ser parte de um organismo vivo que está sendo estragado pela insanidade humana.

Com toda certeza, diante da imensidão do Universo, somos tão insignificantes quanto um reles protozoário, que se alimenta de seres vivos.


Há relatos que desde o século XVIII cientistas alemães e britânicos estudavam essa hipótese, que também atraiu pesquisadores russos no século XIX. Mas a popularidade da teoria é recente, surgiu a partir de 1972, com a publicação dos estudos do cientista britânico James Lovelock, após participar de uma equipe da NASA que pesquisou a possibilidade de vida em Marte.

A pesquisa de Lovelock foi fortalecida pela colaboração expressiva da microbióloga norte-americana Lynn Margulis. Os dois estudaram a surpreendente composição da atmosfera terrestre, muito diferente da esperada para um planeta entre Vênus e Marte (a zona habitável do Sistema Solar).

Por conter grandes quantidades de gases como oxigênio, óxido nitroso (protóxido de nitrogênio, também conhecido como gás hilariante) e metano, a composição da atmosfera terrestre derivaria da interferência dos organismos vivos sobre o ambiente inorgânico.

Lovelock e Margulis então partiram do princípio de que, sendo a Terra um planeta deserto como os outros, o fenômeno da vida, após surgir, foi se adaptando até controlar o ambiente inorgânico.

E assim o ambiente foi se modificando, para que a vida pudesse se perpetuar, formando-se um sistema complexo e autorregulante que até confirmaria a Teoria da Evolução das Espécies, de Charles Darwin, embora os darwinistas não aceitem a hipótese de Gaia, como passou a ser chamada a teoria de Lovelock e Margulis, em homenagem à deusa que representa a Terra na mitologia mitologia grega, responsável pela criação do mar (Ponto), do céu (Urano) e das montanhas (Ourea)..

Diante de uma ameaça como a covid-19, que é superável, devemos entender que passa a ser mais concreta a hipótese de que, caso a Terra continue a ser agredida pela destruição do ambiente e pela poluição, possa surgir uma pandemia ainda mais resistente, que chegue a colocar em risco o futuro da humanidade, que já está mais do que ameaçado por um conflito nuclear.

Nesse recesso a que estamos sendo forçados, não custa pensar um pouco sobre o milagre da vida e também sobre a destruição predatória do meio ambiente pelos seres humanos, que conseguiram criar uma sociedade totalmente injusta aqui no Brasil, onde os detentores da riqueza total ainda acreditam ser possível conviver harmonicamente com a miséria absoluta.

Mas isso “non ecziste”, como diria Padre Quevedo, que certamente estaria decepcionado pelos insatisfatórios resultados da chamada evolução humana.

Não há boas notícias falsas

Sou cético por natureza e treinamento. Contudo, fui um dos muitos trouxas que acreditou na falsa notícia, largamente difundida pelas redes sociais, segundo a qual os canais de Veneza estariam hoje tão limpos que os golfinhos haviam regressado, juntamente com bandos de cisnes e brilhantes cardumes de peixes.

Também acreditei na alegre pitonisa espanhola, que, em dezembro do ano passado, teria previsto a pandemia em curso. Uma rápida investigação logo confirmou que também esta é uma notícia falsa. O fato é que nenhum astrólogo foi capaz de adivinhar a tragédia em que o mundo está mergulhado. Os melhores profetas foram, afinal, os cientistas, que há vários anos vinham advertindo para a possibilidade de um evento desta natureza. 

Anseio por boas notícias, como um menino, fechado em casa, anseia pelo sol lá fora. Tento ver o lado bom de tudo o que é mau. Gosto de pensar, inclusive, que há em todas as pessoas ruins uma parte que se esforça por ser boa. Infelizmente, isso nem sempre acontece. Existem acontecimentos absolutamente maus, da mesma forma que existem pessoas integralmente perversas, os famosos canalhas esféricos: por qualquer ângulo que os olhemos são de uma maldade honesta e consistente. Jair Bolsonaro é uma dessas pessoas — um homem fiel a cada um dos seus defeitos.

Lúcifer, como o próprio nome denuncia, tem contra si um passado de luz: desgraçadamente já foi um anjo, já foi bom. Aquele santo passado arruína-lhe a má reputação, duramente construída ao longo dos vastos milênios, nas profundezas do Inferno. Jair Bolsonaro, pelo contrário, foi sempre mau, nunca ninguém lhe ouviu uma palavra inteligente, o brilho de uma frase decentemente construída, um elogio sincero a um homem bom, um arrependimento genuíno por uma falha qualquer. Nenhuma qualidade — uma única! — mancha o íntegro negrume daquela sólida alma de atleta do mal. Lúcifer morre de inveja dele. 

Confinados à inquietação do presente, queremos notícias que nos confortem — ainda que falsas. Os autores dessas notícias são como aquelas mães que iludem os filhos durante os bombardeamentos: “É só fogo de artifício, filhinho. Você pode dormir descansado.” 

Ou talvez não. 

O que move estes falsários de um apocalipse feliz? Será que, como os vulgares escritores, os cineastas, os dramaturgos, desejam apenas contar uma história tão boa que, embora inacreditável, as pessoas acreditem nela?

Não me parece. O mais provável é que quem cria estas notícias supostamente positivas, sejam exatamente os mesmos grupos responsáveis por todas as restantes notícias falsas que inundam as redes sociais. Não há boas notícias falsas. O que há é desinformação, ou, dito de uma outra forma, terrorismo informativo. O que estes grupos pretendem é implodir a realidade, para depois surgirem, em meio ao caos, como cavaleiros da ordem e do progresso. 

A imprensa tradicional ocupa a linha da frente no combate contra esta nova forma de terrorismo. Ler jornais, comprar jornais, transformou-se numa urgente forma de resistência contra a estupidez e o totalitarismo. Não, não gosto que me mintam. 
José Eduardo Agualusa

A peste e o monstro

Vou esconder da minha filha a guerra desses tempos? A tensão no ar, a aflição, as incertezas? Não escondo. Só adianto o que amanhã ela descobrirá por conta própria. Nem por isso tiro seu sorriso. Temos vilões mandando no país, minha filha, e um monstro que ama a morte das florestas, dos índios, dos bichos, um monstro que já nem elege um alvo certo, sai empesteando tudo e todos que encontra pela frente.

Por isso a gritaria à noite no bairro, a vizinhança revoltada nas janelas. Você ouve o que as pessoas gritam? No cimo dos seus quase quatro anos, ela ouve e parece entender perfeitamente, só não quer mais saber da palavra quarentena. Estamos em casa é para caçar tesouros, pintar planetas, brincar de ser vento vivo e virar as páginas dos livros.

Vejo notícias de antílopes, javalis, cervos, vacas, bodes e cabras da montanha ocupando cidades e praias hoje vazias de gente. Enquanto nos sentimos roubados, eles talvez se sintam restituídos. O fato de as crianças em geral serem poupadas da varredura letal dessa pandemia talvez seja a terra agindo, em cumplicidade com os bichos, por um mundo novo, agora sem sutilezas.

Então revejo o papa na praça São Pedro falando sobre o tempo do nosso juízo, sobre o que conta e o que passa, sobre a gente comum e anônima que sempre teceu a continuidade das nossas vidas. O papa sendo ouvido por milhões desde uma praça inóspita, o santo no centro do silêncio da escuta, as almas em roda ali para ouvi-lo onde só vemos o azulado vazio que brilha num fim de tarde sob uma chuva fina.

Quando minha filha adormece, invariavelmente longe da cama, eu a tomo nos braços com uma força que já nem é minha, e por um minuto assume a nossa forma a imagem de um socorro milenar, que, para se desenhar, não nos consulta se cremos ou não cremos. Tudo o que me importaria salvar tem rosto e respira. Dorme, meu amor, que essa peste há de passar um dia. Dorme sem medo, que, a essa hora, até o monstro já está sonhando com seu fim.

Mariana Ianelli