segunda-feira, 6 de abril de 2020

Com medo da penúria e da morte? Bem-vindos ao mundo real

1.

Você vai até a janela, olha para o céu, estica o braço apontando o telefone para cima, fecha o olho esquerdo, olha o céu no quadro do telefone – é o mesmo. Você tira uma fotografia, a examina, volta a olhar para o céu: as nuvens desembestaram a mudar de lugar, o sol talvez agora lhe cegue um pouco.

Mas você estava lá, e por isso publica um instantâneo daquele céu onde não havia nada de especial, apenas o panorama difuso do círculo solar por trás de nuvens em contraluz, visto por uma nesga entre edifícios e antenas de São Paulo. As pessoas vão olhar sua fotografia, cada uma dentro de cada apartamento, e ler seu nome impresso no canto esquerdo sobre a imagem do céu nos cristais dos telefones, e pensar em você, talvez olhando pela janela – talvez sentindo o mesmo pavor.

Andamos assim, silenciando no meio das frases.

Especialmente, os privilegiados que hoje podem isolar-se em cápsulas domésticas. Nas últimas semanas, nossas horas foram ocupadas por tentativas de trabalho remoto, aulas online, ativismo de internet, drinks via zoom e houseparty – e uma enevoada sensação de luto antecipado. Até que percamos o emprego, enterremos nossos mortos ou, na melhor das hipóteses, tenhamos que nos confrontar com um mundo que ainda desconhecemos do outro lado desta quarentena.

São tempos estranhos? Talvez não mais que há três semanas – a diferença é que agora todos sabemos disso.


2.

Nas últimas décadas, o capitalismo tardio promoveu mudanças climáticas irreversíveis e um aumento exponencial na concentração de renda mundial. Pouco importava aos detentores dos meios de produção e do capital financeiro – e às classes médias que votam nos representantes daqueles no governo – que a política econômica de seus países causasse desigualdade, doenças e morte aos menos favorecidos.

No Brasil, o 1% mais rico hoje concentra 28,3% da renda total do país, segundo o Relatório de Desenvolvimento Humano (RDH) da ONU divulgado em dezembro do ano passado. É a segunda maior concentração de renda do mundo, apenas atrás do Catar, um emirado absolutista sem eleições legislativas desde os anos 1970 que usa a charia como sistema legal, onde mulheres supostamente adúlteras são punidas com chibatadas e relações homossexuais, com a pena de morte.

Essa combinação nefasta de concentração de renda e ameaças aos direitos humanos também encontra-se por aqui.

Ainda que, durante o recente ciclo do Partido dos Trabalhadores no poder, tal desigualdade tenha sido mitigada via programas de distribuição de renda e uma economia aquecida, os brasileiros moradores de periferias e favelas seguiram tendo direitos desrespeitados pelas polícias militares de todo o país, assim como os povos indígenas originários ameaçados por ruralistas, grileiros, milícias e superfaturadas obras de infraestrutura. E, se nossas favelas são guetificadas pelo Estado, o que dizer dos presídios brasileiros, verdadeiros campos de concentração para negros e pobres?

Abrindo o panorama, pesquisas do IBGE em 2017 e 2018 apontaram que 64,9% da população brasileira não têm pelo menos um dos seguintes direitos garantidos: educação, proteção social, moradia adequada, serviços de saneamento básico e comunicação (internet). A realidade é certamente pior: o relatório usa o conceito de autodeclaração e só inclui os brasileiros que tenham domicílios, excluindo moradores de rua. Entre mulheres negras ou pardas, sozinhas, e com filhos pequenos, o número é ainda maior: 81,3% . Entre idosos, são 80%.

O Estado Democrático de Direito, garantido pela Constituição de 1988 e ameaçado pelo bolsonarismo, nunca foi democratizado no Brasil pós abertura – jamais chegou plenamente aos cantos menos favorecidos do país, mesmo sob governos supostamente de esquerda. E, com a guinada abertamente fascista da política brasileira depois do golpe de 2016, a situação, que já era trágica, piorou.

Em tempos de pandemia, talvez um pouco – apenas um pouco – do pesadelo distópico no qual já viviam milhões de brasileiros pareça agora democratizado. Insegurança financeira e ameaça constante à vida: antes tão normalizados quando no andar de baixo, agora motivos para ansiedade generalizada.

3.

A grande novidade não é a pandemia. É o fato de que as classes mais abastadas brasileiras possam enfrentar, pela primeira vez em gerações, circunstâncias em que sua casta superior não lhes oferece grande vantagem de sobrevivência.

No Brasil, hospitais particulares já sofrem estrangulamento semelhante ao SUS – e mal começamos a escalar a curva de casos e mortes. Tragédia com horizontalidade semelhante, talvez apenas durante guerras, sob bombardeio. O que nunca tivemos por aqui.

Quando isso tudo acabar, talvez a espera e o testemunho da catástrofe, a implosão do que entendíamos como vida normal, faça os abastados da Zona Sul do Rio de Janeiro e da Zona Oeste de São Paulo mais empáticos com quem convive com o medo de ver o chão abrindo sob seus pés desde que nasceu.

Mas não sei se eu apostaria nisso.
J.P. Cuenca

Use máscara

Use máscara. No tempo em que as pessoas cuidavam da saúde recebendo do sol a sua carga diária de vitamina D, Pedro Bial fez sucesso com um poema-canção de dicas sobre o planejamento da felicidade futura. “Use filtro solar”, dizia o refrão. A vida era uma experiência errante, reticenciava o poeta-jornalista. As outras dicas que ele poderia dar eram tão incertas como a eficácia de mascar chicletes para resolver uma questão de álgebra.

Hoje, se eu pudesse oferecer uma única dica, não sobre a felicidade a ser buscada, que isto ficou na sombra, mas sobre a possibilidade de chegar ao futuro e aí então voltar a lutar por esses luxos da existência, esta única dica seria: use máscara.

Não se sinta culpado por não estar lendo as 900 páginas do “Guerra e Paz”, o velho sonho há muito adiado. Talvez, pela primeira vez na vida, você esteja sentindo um medo de verdade, como diz o poema, uma vontade de chorar baixinho, como diz o samba-canção, e isso vale por todos os romances deixados de ler.

Stephen King foi para a prateleira de terror infantil, a barata do Kafka já não parece tão absurda. Quando isso acontece não há dicas a se oferecer. O poema do Bial, tradução de um original da americana Mary Schmich, falava da necessidade de se cuidar dos joelhos, pois um dia você precisaria deles. Chegou a hora. Ajoelhe, reze forte e chame os deuses que porventura estejam desocupados. Se algum aparecer, tenha fé. Peça a salvação com toda a ênfase que lhe estiver ao alcance - mas, por favor, use máscara.

Você fez poupança, engordou o porquinho financeiro, apostou numa aposentadoria privada. Tudo na crença de que o gerente de banco é o grande administrador do futuro e, diante de um desemprego, da vontade inarredável de dançar no Central Park, seria só sacar. Deu ruim. O parque fechou, o futuro acabou e agora só resta dançar trancado no quarto. Faça um vídeo. Para respirar afeto no confinamento, mande aos amigos.

Encrencas não têm esse nome feio à toa. Surgem, de um mercado de bichos na China, de um aperto de mão no casamento grã-fino, e morrem de rir de nossa cabeça programada com antigas preocupações. Eu, você, o gerente de banco, todos ficaremos diferentes, talvez menos mesquinhos em distribuir sentimentos, se formos adiante com as lições desse inimigo de quem nunca ninguém supôs. Mas para isso não se esqueça. Escreva a hashtag em suas mensagens no Twitter: #usar máscara.

A poesia de Schmich e Bial soa otimista quando diz que a peleja é longa e, no fim, é só você contra você mesmo - um verso sobre o qual há divergências em abril de 2020. Guarde o filtro solar para quando sair da quarentena. Amanhã, por exemplo, é o Dia dos Jornalistas. Alguns deles têm cumprido a pauta de ir pela manhã até a porta do Palácio da Alvorada. Em tempos de coronavírus, são corajosos. Perguntam, não respondem às ofensas, publicam. Lembram Joel Silveira, que mandou notícias do front da Itália na Segunda Guerra, ou José Hamilton Ribeiro, que perdeu a perna numa mina terrestre para informar sobre o Vietnã. Os novos heróis de Brasília, autênticos correspondentes de guerra, têm se saído muito bem na batalha contra os perdigotos do presidente. Parabéns. Continuem. Usem máscara.

domingo, 5 de abril de 2020

Pensamento do Dia


O presidente perde poderes

O presidente Bolsonaro está perdido em seu labirinto e isso ele mostra explicitamente nos atos do dia a dia. A última semana foi um bom exemplo. No domingo, ele foi às ruas estimular as pessoas a desobedecerem às orientações das autoridades de saúde. Na terça-feira, o conselho de governo, em longa reunião, conseguiu polir o pronunciamento que ele faria à noite. Amanheceu na quarta disposto a derrubar a obra dos seus conselheiros e postou vídeo falso que dizia haver desabastecimento na Ceasa de Minas. Na quinta, ele falou em demitir o ministro da Saúde, cujo trabalho tem alta aprovação popular. Várias vezes atacou governadores e, claro, culpou a imprensa. O presidente é um elemento perturbador no meio de uma crise devastadora.

Desde o início desta crise, Bolsonaro piorou. No episódio em que ele estimulou manifestações contra o Congresso, no domingo, 15 de março, o presidente foi aconselhado por várias pessoas do governo a não fazer isso, principalmente porque o surto do coronavírus estava entrando numa espiral. A uma das pessoas mais fiéis a ele no governo, e que sugeriu que ele desmobilizasse o ato, Bolsonaro deu uma resposta que revela bem o delírio persecutório em que vive mergulhado:

– Eu só tenho as ruas, a mídia quer me derrubar, o Rodrigo quer me derrubar, o Dória quer me derrubar. Eu não posso dizer para as ruas: vão pra casa. Eu preciso das ruas. Eu não estou estimulando, mas eles estão lá e eu abraço eles.


O Brasil estava entrando em período de grande padecimento e o que ocupava a cabeça do presidente era a ideia fixa de que todos são contra ele. E nem vê que as ruas estão se esvaziando. Ninguém é dono da rua, porque ela muda de lado.

Bolsonaro se perde em brigas laterais ou conflitos que ele mesmo inventa. Naquele primeiro pronunciamento em que disse que o Covid-19 era uma gripezinha, ele foi muito aconselhado dentro do Palácio a mudar o tom. Preferiu ouvir o grupo da milícia digital que tem sua sede dentro do próprio Palácio. Ele não apenas falou o que quis como continuou nas declarações rápidas demonstrando até a falta de empatia humana, ao tratar com desprezo as mortes ocorridas e por acontecer em decorrência da pandemia.

O pronunciamento da última terça-feira parecia uma mudança de rumo, mas o que houve de bom naquela fala foi enxertado pelos seus ministros. O objetivo de ir à TV que ele revelou à sua claque na porta do Palácio era disseminar a tese falsa de que o diretor-geral da Organização Mundial da Saúde (OMS) defendia a volta ao trabalho. Corrigido no mesmo dia por Tedros Adhanon, e contido no conselho de governo, Bolsonaro mesmo assim usou indevidamente as declarações do secretário-geral da OMC.

Seu comportamento irresponsável diante da crise o deixa isolado e o torna periférico no seu próprio governo. Ele se consome de ciúmes dos subordinados que brilham. Mas até as decisões que toma para impor limites no seu ministério, como mudar o formato do briefing diário da saúde, está tendo efeito bumerangue. A cada dia se vê ministros indo lá e afirmando o oposto do que o presidente diz. O ministro Eduardo Ramos na sexta-feira agradeceu à imprensa e ao Congresso e disse que tem falado com os estados, o ministro Mandetta várias vezes reforçou a orientação dos governadores, a ministra da Agricultura desmentiu que houvesse risco de desabastecimento.

O Congresso, os economistas, a imprensa, os médicos, os infectologistas, os governadores e os prefeitos empurraram o executivo na direção certa do distanciamento social, da ampliação da rede de proteção social aos mais vulneráveis, do aumento dos gastos com saúde. E agora a sociedade cobra prazos de execução das medidas, principalmente no socorro a quem mais precisa. As ameaças do presidente de determinar a volta ao trabalho estão sendo contidas pelas alertas da Justiça. Se baixar a ordem de volta à atividade, o Supremo impedirá. E isso com base no direito à saúde consagrado na Constituição e no princípio de que saúde pública é atribuição compartilhada entre União, estados e municípios. O país vai se governando. Ao presidente, resta o teatro na porta do Alvorada para uma claque cada vez mais reduzida e os robôs controlados pelo filho 02.

O bonito da democracia é isso: ela encontra seu caminho, mesmo nas piores situações como a que vivemos.

'Aliens dentro do planeta'

O Estado (França) passou a ter de pensar em termos de rentabilidade, quando, na realidade, as suas despesas são gastos sociais, para o bem-estar de seu cidadão. Em uma economia como a brasileira hoje, só se pensa no lucro das empresas. O bem-estar dos trabalhadores e da grande maioria da população não interessa. Interessa é o conceito de rentabilidade aplicado às finanças públicas de uma nação, o que não pode funcionar. 

Vamos ter de voltar a pensar em nossa produção de riqueza para o bem-estar da humanidade, e não para o lucro, a superficialidade e a acumulação de riquezas de um pequeno grupo. O Estado vai ter de começar a funcionar seriamente como Estado, voltado para o povo, para as questões mais essenciais

A pandemia junta-se à pobreza

Enquanto o vírus se espalha, o capital foge e as exportações encolhem, os governos da América Latina e de outras áreas pobres e emergentes têm de enfrentar a pandemia com recursos próprios – agora ainda mais escassos – e com a ajuda preciosa de instituições como o Fundo Monetário Internacional (FMI). Cerca de 80 países pediram socorro ao Fundo até o fim de março. Os governos latino-americanos, com raras exceções, impõem o isolamento social, com maior ou menor rigor, como primeira forma de resistência à covid-19. Aprenderam com a experiência, e especialmente com os erros, dos primeiros países ocidentais atingidos pela doença. Tiveram a seu favor a aproximação pouco mais lenta da pandemia.

A solidariedade além fronteiras, pregada com insistência pela Organização Mundial da Saúde (OMS), vem sendo exercida principalmente por meio do FMI, de forma quase imperceptível para a maioria dos governos e das pessoas. Já empenhado na tarefa de socorro, o Fundo tenta mobilizar dinheiro para manter em US$ 1 trilhão sua capacidade de empréstimo. O governo dos Estados Unidos já se comprometeu com esse esforço.


Na maior economia da América Latina, o Brasil, o governo tenta enfrentar a crise com políticas excepcionais, aumento do gasto e suspensão, até o fim do ano, das normas orçamentárias. Parte do arsenal depende da aprovação, ainda, de um projeto de emenda constitucional para criação de um orçamento “de guerra”. O projeto foi para o Senado.

No Brasil, o isolamento parece estar servindo para frear o contágio. Recomendado por autoridades sanitárias e pela maioria dos governadores, com apoio de prefeitos, esse cuidado foi aceito por milhões de famílias, contra a opinião do presidente da República. O presidente mexicano, Andrés Manuel López Obrador, também menosprezou inicialmente a pandemia, mas acabou recuando. Decretou estado de emergência sanitária e suspendeu certo número de atividades.

A quarentena foi imposta quase sem exceção nos demais países latino-americanos. Alguns governos, como os da Argentina, do Peru e da Colômbia, logo definiram penalidades, como prisão ou multa para os violadores do isolamento. De modo geral, os procedimentos aconselhados pela OMS vêm sendo seguidos.

Até o governo de Nicolás Maduro se mostra alinhado, mas a situação da Venezuela é uma das mais preocupantes, por causa da enorme escassez de bens essenciais e do enorme empobrecimento da maior parte da população. Na Nicarágua, o presidente Daniel Ortega continua negando a gravidade da pandemia. Até o campeonato nacional de futebol foi mantido. Essa ideia parece ter escapado ao presidente Jair Bolsonaro e a seus seguidores mais entusiasmados. Mas haveria na CBF alguém disposto a apoiar a manutenção dos jogos?

A pobreza, no entanto, pode limitar o alcance da política de isolamento seguida na maior parte dos Estados e nas cidades médias e grandes. Boa parte da população vive em habitações apertadas. Isso ocorre mesmo em grandes capitais, como Rio de Janeiro e São Paulo. No caso das famílias mais pobres, um só quarto pode abrigar até mais de cinco pessoas. As pessoas mais velhas ou mais vulneráveis podem até ficar em casa, mas outras continuam trabalhando ou saem de casa, de toda forma, em busca de alguma oportunidade ou de algum dinheiro. O risco de contágio é bem maior para essas famílias.

A vantagem de conhecer a experiência de outros países – e a importância do isolamento – é diminuída, portanto, pela desigualdade social e pela pobreza encontradas na maior parte da América Latina.

Em mais este aperto, latino-americanos, africanos, asiáticos e europeus (fora da União Europeia) já recorreram ao FMI. Os novos problemas vêm sendo tratados como ameaças muito sérias por entidades como o FMI, o Banco Mundial e a Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE). Nenhum dirigente dessas entidades fala em “gripezinha” ou histeria. Todos esses dirigentes têm respeitáveis currículos nas áreas de gestão pública e todos falam corretamente mais de um idioma, a começar, é claro, pelo próprio.

Longe do centro do universo

Em meio às estatísticas macabras do coronavírus, leem-se notícias que fazem pensar. Pela primeira vez em séculos, os golfinhos voltaram aos canais de Veneza. Alguém fotografou pavões nas ruas desertas de Madri. Os gatos de Roma passeiam fagueiros pela Via Veneto. Numa Nova York em silêncio, ouvem-se rouxinóis na Quinta Avenida. E, no Rio, veem-se raias no Arpoador e gaivotas explorando as areias do Leblon.

Com a quebra do consumo, a produção de lixo plástico diminuiu, para alívio dos rios e mares que o recebem, com o que os peixes, aves e tartarugas ganharam uma chance. Com fábricas inativas e chaminés apagadas, a qualidade do ar também melhorou, inclusive para quem o empesteia. Sem a presença do homem, era inevitável que nossos companheiros de planeta se sentissem seguros para deixar suas tocas e vir dar uma olhada aqui fora. Mas tolos serão se acharem que isso durará para sempre. Tudo ficará sem efeito assim que a vida entrar de novo em ação, de mãos dadas com sua velha parceira —a morte.


O que estamos aprendendo hoje é que, com ou sem a Covid-19, o mundo não acabará, mesmo porque o coronavírus, por mais recém-chegado, faz parte dele. Quem pode acabar um dia é o homem, e, se isso acontecer, o planeta seguirá em frente, com um quorum mais do que suficiente de espécies para continuar vivo e pulsante.

Isso nos fere a vaidade e põe em xeque a antiga ideia-feita, herdada dos gregos e nunca bastante desmoralizada, que entroniza o homem no centro do universo. A atual crise demonstra que, longe de ser o centro, não somos nem periféricos.

O planeta pode passar sem a "Divina Comédia", "Hamlet", a "9ª Sinfonia", "O Pato Donald" e outras criações do espírito humano. Nós é que não podemos passar nem três minutos sem uma função que sempre demos de barato e o vírus está nos ensinando como é cara: respirar.
Ruy Castro

Brasil do pastor J. Messias

“Brasileiros pra fora! Uma chuvinha não vai machucar vocês”, The Economist 

Eles não ligam pra gente

Caros brasileiros,

Nestes tempos de coronavírus parece que tudo mundo está fazendo home office. Parece. Pois, na realidade, o home office aqui, na Alemanha, ganhou uma nova conotação. Se antes era visto como um instrumento para conciliar trabalho e família, hoje é considerado um refúgio dos privilegiados.

"Esses privilegiados à noite saem nas varandas para aplaudir a nova elite do país", escreveu o jornal semanal Die Zeit. A "nova elite" a que o jornal se refere são profissionais que, há até bem pouco tempo, eram pouco valorizados: o auxiliar de enfermagem que trabalha sem material de proteção. O agente funerário, que se depara com um luto nacional. Os profissionais de limpeza que desinfetam ruas e hospitais.

São os caminhoneiros, que garantem o abastecimento nos supermercados. Os caixas, que atendem os clientes sob o risco de serem contaminados. O trabalhador rural, que planta e colhe. O entregador de comida, o condutor de ônibus, o policial, os cuidadores, educadores, professores e, sobretudo, os profissionais da saúde.

Na Alemanha, todos esses profissionais são agora "essenciais". A epidemia mostrou que são eles que põem o país para funcionar. Será que, desta vez, com toda essa valorização, o salário desses profissionais "essenciais" finalmente vai aumentar?


Esse debate me lembra de uma música famosa do Michael Jackson: They don't care about us (Eles não ligam pra gente), sobre a discriminação da população pobre no mundo inteiro. O vídeo da música foi produzido em fevereiro de 1996 no Brasil. Uma parte foi filmada no Pelourinho, em Salvador, com o apoio do grupo Olodum. A outra parte foi gravada na favela Dona Marta, no Rio de Janeiro.

Nesse vídeo, os percussionistas do Olodum deram um show de ritmo, suingue, ginga e orgulho negro. Michael Jackson, pálido e magro, cantou e dançou no meio deles, e ficou bem claro: sem a participação brasileira, a música de Michael Jackson não anda, o clipe não tem força nem animação.

Me lembrei desse videoclipe, dirigido pelo famoso Spike Lee, agora no meio da crise do coronavírus. Michael Jackson quis valorizar a cultura negra no Brasil, quis mandar um sinal contra a discriminação e a pobreza. Ele saiu dando beijinhos nos becos da Dona Marta e no Pelourinho. Ele declarou seu amor pelo Brasil. Ele vestiu a camisa do Olodum e dançou no telhado dos barracos.

Depois de ter gravado cenas coloridas e impactantes, Michael viu as vendas do single dispararem. Na Europa, They don't care about us conquistou os primeiros lugares nos charts e recebeu disco de ouro. A fama de Michael Jackson cresceu, mas a pobreza na Dona Marta e nas ruas de Salvador da Bahia continuou.

O coronavírus deixou essas profundas rachaduras sociais novamente evidentes. A "nova elite" pode até ganhar palavras de elogio, mas continua ganhando uma miséria. Continua morando em favelas dominadas pelo tráfico, continua sem plano de saúde, sem previdência ou proteção trabalhista.

Corona tem classe, quarentena tem classe, na Alemanha como no Brasil. E músicos, políticos e pastores que criticam essa injustiça social e ao mesmo tempo tentam se promover em cima disso, infelizmente não contribuem para mudar esse quadro. É o sucesso da hipocrisia: criticar "a velha elite" e ao mesmo tempo pertencer à ela e defender os seus interesses.

"They don't care about us? They should care about us. The will care about us". Em vez de esperar um reconhecimento que nunca vem, é melhor que a "nova elite" brigue e conquiste seus direitos, que são mais do que merecidos.

O coronavírus ainda pode levar a mudanças imprevisíveis.
Astrid Prange de Oliveira

Francisco de todos

O drama que estamos a atravessar impele-nos a levar a sério o que é sério, a não nos perdermos em coisas de pouco valor; a redescobrir que a vida não serve, se não se serve.

(...)

Queridos amigos, olhai para os verdadeiros heróis que vêm à luz nestes dias: não são aqueles que têm fama, dinheiro e sucesso, mas aqueles que se oferecem para servir os outros. Senti-vos chamados a arriscar a vida
 Papa Francisco

O povo não é bobo

O melhor do Brasil é o brasileiro. A frase que virou título de série global é batida, lugar comum. Mas em tempos de pandemia é inevitável reincidir nela. E no plural: os brasileiros.

Por aqui, no auge do corte de recursos federais, pesquisadores conseguem sequenciar o genoma do novo coronavírus em tempo recorde, engenheiros desenvolvem respiradores de baixo custo, outros criam aplicativos que podem salvar vidas. Mais: na contramão das expectativas do presidente Jair Bolsonaro, a maioria dos brasileiros crê na ciência e não nas trevas.

Antes da pandemia, Bolsonaro, que já iniciara o ano em baixa ao entregar um PIB de apenas 1,1%, amplificou a sua já conhecida paranoia. Só enxergava inimigos, mesmo entre aqueles que juravam fidelidade. Aprontou com os ministros Sérgio Moro e Paulo Guedes, colidiu com o Congresso e o Supremo.

O Covid-19 multiplicou tanto sua síndrome de perseguição crônica que Bolsonaro não conseguiu enxergar outra doença à sua frente, quanto mais a gravidade do surto. Insistiu em um discurso alienígena, desconectado da OMS e do conhecimento científico. Tentou plagiar Donald Trump e não soube dar o cavalo de pau habilmente praticado pelo presidente dos Estados Unidos.

Só perdeu. Para governadores, prefeitos, para o seu próprio ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta. Para os panelaços de todas as noites, desde meados de março.



Pesquisa Datafolha, publicada sexta-feira, apontou Mandetta com 76% de aprovação popular. Mais do que o dobro dos 33% de Bolsonaro, que também viu sua rejeição avançar 6 pontos percentuais. A fervura de inveja e ódio que no dia anterior levou Bolsonaro a humilhar o ministro em entrevista à rádio Jovem Pan deve ter borbulhado entre o desejo de demiti-lo sumariamente e as amarras de não poder fazê-lo.

Sua caneta Bic, da qual ele tanto se vangloria, passou a nada valer diante da credibilidade que seu ministro alcançou.

Médico conservador, enrolado em pendengas judiciais, antiabortista e bolsonarista de primeira hora, Mandetta ganhou popularidade por dar razão à ciência e não ao achismo. Para o chefe, tornou-se um inimigo.

Os governadores e prefeitos que optaram pela linha da razão também viram suas aprovações crescerem. Uma prova de que mais do que cicrano ou beltrano, o brasileiro tem dado crédito a quem decide com responsabilidade e critério científico.

Isso já ficara claro em outra pesquisa, no dia 24, também do Datafolha, quando 73% se disseram a favor de os governos proibirem a circulação das pessoas. Entenderam que ficar em casa era a melhor forma de protegerem a si a aos outros. Apenas 24% foram contra.

Dias antes, outra consulta popular já atacara com força o fígado do presidente. Os brasileiros, a maioria deles, demonstraram o valor que conferem ao jornalismo profissional. Sobre o Covid-19, 61% creditam informações à TV, 56% aos jornais impressos e 50% às emissoras de rádio. Apenas 12% dão bola para as redes sociais, mídia predileta do presidente e dos seus.

Negar a ciência acentua a demência de Bolsonaro. Ele incentiva a ignorância embora saiba perfeitamente as consequências de seus desatinos. Pouco importa, desde que consiga se eximir da responsabilidade pelo colapso do sistema de saúde, pelas mortes que virão, pela recessão sem precedentes que o país deverá experimentar. Age para tirar seu corpo fora e jogar o fardo em outros ... nos seus ministros da Saúde, da Economia, da Justiça, nos governadores e prefeitos, no Congresso e no Judiciário.

Todos serão culpados, menos ele.

Para além das terríveis consequências da pandemia – morte de milhares, famílias imersas na tristeza, desemprego, empobrecimento, fome, recessão -, há um recado que já pode ser captado: o brasileiro não é tolo. Ainda que nos extremos existam rebanhos fiéis, a maioria não é gado e não topa ser tratado como tal. É valente, faz sacrifícios, é solidário. Mas exige informação, respeito, tratamento digno. Sabe que a Covid-19 não é coisa de Satanás e quer muito mais do que um jejum religioso para que o país “fique livre desse mal”.

Saindo dos trilhos

Dias atrás, um engenheiro da malha ferroviária do porto de Los Angeles, na Califórnia, pirou. Eduardo Moreno, de 44 anos, convencera-se de que a missão oficial do navio-hospital USNS Mercy,enviado pela Marinha para aliviar a profusão de infectados na Costa Leste, era mera operação de fachada. A embarcação seria, na verdade, parte de um golpe de Estado em curso. Por isso, ele resolveu agir: manteve um trem não tripulado da zona portuária em velocidade máxima, para muito além do final dos trilhos, e causou um estrondoso estrago monumental — a composição destruiu primeiro uma barreira de concreto, atropelou uma proteção de aço, e prosseguiu por vasta área de cascalho até parar. À polícia o autor justificou assim o rompante que pode lhe valer uma pena de até 20 anos: “Era a chance que eu tinha para chamar a atenção das pessoas sobre o que está realmente acontecendo aqui”.

Não se pode atribuir a insanidade do engenheiro ao coronavírus. Mas, à medida em que a humanidade sai dos trilhos pré-Covid 19, é de se prever que o planeta se torne mais propício a insânias individuais e coletivas.


Daí a importância de se manter sob rédea curta governantes inseguros no poder, destemperados por índole e/ou despreparados para apontar o rumo em tempos de perigo e medo global. As limitações e inclinações inerentes a cada dirigente tendem a se acentuar à medida que a espiral da calamidade for adquirindo forma mais cruel. Por enquanto, em países onde essa espiral está apenas começando, a real capilaridade do vírus e seu potencial de destruição apontam em uma única direção: dias piores virão.

Nas Filipinas do presidente Rodrigo Duterte, que sofre de várias insuficiências democráticas e comanda com poder quase absoluto o país de mais de 100 milhões de habitantes, a solução para o complexo problema atual é simples: as forças policiais e militares têm ordem de atirar para matar quem descumprir a quarentena imposta. Ponto. Não tem ministro da Saúde, governadores nem imprensa em condições de lhe fazer frente.

Já Estados Unidos e Brasil têm mais sorte: por força da necessidade e do gigantismo da crise, Donald Trump e Jair Bolsonaro optaram por terceirizar o problema, que acabou em mãos de quem não comunga das crenças e disparates dos dois presidentes. Trump e Bolsonaro acreditaram poder desresponsabilizar-se da marcha da pandemia içando a primeiro plano dois personagens que não poderiam ser mais diferentes entre si — o nova-iorquino Anthony Fauci, a maior autoridade americana em infectologia, e, aqui, o deputado formado em Ortopedia Luiz Henrique Mandetta, atual ministro da Saúde. Ambos conquistaram o respeito e a confiança de quem os ouve pela abordagem científica e realista do combate ao coronavírus. Ambos, também, começam a pagar por isso.
Esta semana o franzino e bem-humorado Dr. Fauci , que já serviu a vários ocupantes da Casa Branca e chegou aos 79 anos de idade com biografia estelar, passou a precisar de proteção extra de agentes de segurança. Tem recebido ameaças de morte em demasia por parte de seguidores de Donald Trump. Em Brasília, Mandetta cometeu o pecado capital de seu Ministério da Saúde ter ultrapassado o presidente em aprovação na condução do combate ao vírus. Não só ultrapassou, esmagou: 76% a 33%, segundo o último Datafolha.

Sobreviver nessa dislexia nacional não tem sido fácil nos dois países. Em Washington, Donald Trump consegue embaralhar uma frase que começa com “Isto não é uma crise financeira, é apenas um momento temporário no tempo” com o anúncio da injeção de US$ 1 trilhão na economia do país. Em Brasília o comportamento de Jair Bolsonaro é ainda mais errático, sempre que tem um microfone pela frente. Para não concluir de forma sorumbática, vale recorrer às memórias de um generoso humanista do século 20, o escritor Paul Goodman. “Esperança é o contrapeso para o nosso enorme sentido de vulnerabilidade”, escreveu em suas memórias. “É a nossa permanente negociação entre otimismo e desesperança, a contínua negação do cinismo, ingenuidade. Temos esperança justamente por termos consciência de que eventos tenebrosos são sempre possíveis e não raro prováveis. Mas as escolhas que fazemos podem impactar o seu desenlace”.
Dorrit Harazim

Paisagem brasileira

Ilha de Paquetá (Rio de Janeiro), Georges Wambach,1943

Depois da tempestade, virá a bonança?

No texto bíblico está dito: “Depois da tempestade vem a bonança”. Mas não é sequência automática. Depende de como cada um vivencia os momentos de sofrimento, do aprendizado que cada um faz e da mudança de atitude posterior aos tempos de angústia.

O mundo inteiro está mergulhado em um momento desafiador. A presente crise promove a combinação perversa entre a violenta pandemia e o fantasma de uma crise econômica inédita e devastadora.

O vírus, além de seu efeito voraz sobre vidas humanas, produz uma lição de humildade aos governantes. O quão ilusório é o poder? Seu alcance pretensamente ilimitado esbarra, às vezes, quase na impotência. Até os mais autoritários líderes mundiais dobraram o joelho. Recomendo o filme “Flu”, na Netflix: uma reflexão, no ambiente de uma epidemia, sobre como, em situações limites e radicais, decisões políticas dramáticas podem salvar ou sacrificar vidas.

Quem sabe as crises, e não a violência, sejam as parteiras da história? Em linguagem corrente: “como fazer do limão a limonada?”. A meu juízo, tudo vai depender do aprendizado pessoal, familiar e social que construirmos.

Será que perceberemos que, mais do que nunca, estamos integrados em uma “aldeia global”? Que as fronteiras são realidades históricas, políticas, institucionais, mas que não resistem a um vírus agressivo e indisciplinado que nasce na China, invade a Europa, assusta os EUA e se dissemina pelo Hemisfério Sul? Será idealismo ou aprendizado necessário reencontrar com a nossa natureza universal de seres humanos e imaginar um mundo mais fraterno e pacífico?

Será que perceberemos que, diante de uma pandemia quase indomável, as barreiras entre ricos e pobres desmoronam? É evidente que os pobres têm uma situação muito mais vulnerável. Mas o vírus não seleciona por faixa de renda ou patrimônio. Afinal, o epicentro da epidemia na Itália não foi a Lombardia, sua região mais rica? Quem sabe fica o aprendizado e o compromisso coletivo com o combate aos privilégios e às desigualdades?

Será que a crise da Covid-19 deixará um legado de humildade, diálogo, entendimento e convivência respeitosa entre as lideranças políticas brasileiras? Será que descobriremos a quase inutilidade dessa guerra ideológica polarizada e de má qualidade, quando a política na democracia é exatamente a construção de consensos progressivos em ambiente plural de divergências, tendo o diálogo, aberto e franco, como ferramenta? Até aqueles que, se achando plenipotenciários, enfrentaram as evidências e a ciência, se dobraram à realidade. Será que aprenderemos que ninguém é dono da verdade? Até agora, ninguém têm a verdade absoluta sobre o vírus, apesar de todo o empenho da comunidade científica. Não temos vacina, remédios com eficácia comprovada, explicações exatas sobre a dinâmica da propagação.

Será que depois da crise valorizaremos e daremos mais atenção ao sistema de saúde e aos seus profissionais, sobretudo ao SUS? Cansei de enfrentar situações no Congresso onde a repercussão da voz da bancada da saúde era diminuta, sempre abafada por outras bancadas temáticas ou setoriais. Será que enfrentaremos de vez o crônico subfinanciamento do SUS e seus gargalos?

Transformar a tempestade em bonança depende de nós, essencialmente do nosso aprendizado. 

Modelo de civilização no fim

Esta crise sanitária é sinal de uma crise civilizatória. Vivemos o fim de um paradigma, e isso ficou ainda mais evidente agora, com a presença da morte a nos rondar.
 
Há cerca de 15 anos, analiso a saturação desse modelo progressista, que é o grande modelo da civilização moderna. Para mim, ele está acabando agora. A epidemia atual tem uma expressão simbólica nesse sentido 
Michel Maffesoli, sociólogo autor de livros como “Apocalipse” e “A palavra do silêncio”, e membro do Instituto Universitário Francês

Aproveite esse recesso forçado e avalie o que você está fazendo para melhorar o mundo

Aproveitando esse recesso obrigatório que ninguém sabe quanto tempo vai durar, andei pesquisando sobre a inquietante Hipótese de Gaia, que difere das teorias sobre a formação da vida na Terra, tanto a criacionista, que a atribui a Deus, quanto a científica, que nos remete ao famoso Big Bang.

Aliás, antes de saber da existência dessa corrente de pensamento, já tinha me passado pela cabeça a possibilidade de a Terra ser parte de um organismo vivo que está sendo estragado pela insanidade humana.

Com toda certeza, diante da imensidão do Universo, somos tão insignificantes quanto um reles protozoário, que se alimenta de seres vivos.


Há relatos que desde o século XVIII cientistas alemães e britânicos estudavam essa hipótese, que também atraiu pesquisadores russos no século XIX. Mas a popularidade da teoria é recente, surgiu a partir de 1972, com a publicação dos estudos do cientista britânico James Lovelock, após participar de uma equipe da NASA que pesquisou a possibilidade de vida em Marte.

A pesquisa de Lovelock foi fortalecida pela colaboração expressiva da microbióloga norte-americana Lynn Margulis. Os dois estudaram a surpreendente composição da atmosfera terrestre, muito diferente da esperada para um planeta entre Vênus e Marte (a zona habitável do Sistema Solar).

Por conter grandes quantidades de gases como oxigênio, óxido nitroso (protóxido de nitrogênio, também conhecido como gás hilariante) e metano, a composição da atmosfera terrestre derivaria da interferência dos organismos vivos sobre o ambiente inorgânico.

Lovelock e Margulis então partiram do princípio de que, sendo a Terra um planeta deserto como os outros, o fenômeno da vida, após surgir, foi se adaptando até controlar o ambiente inorgânico.

E assim o ambiente foi se modificando, para que a vida pudesse se perpetuar, formando-se um sistema complexo e autorregulante que até confirmaria a Teoria da Evolução das Espécies, de Charles Darwin, embora os darwinistas não aceitem a hipótese de Gaia, como passou a ser chamada a teoria de Lovelock e Margulis, em homenagem à deusa que representa a Terra na mitologia mitologia grega, responsável pela criação do mar (Ponto), do céu (Urano) e das montanhas (Ourea)..

Diante de uma ameaça como a covid-19, que é superável, devemos entender que passa a ser mais concreta a hipótese de que, caso a Terra continue a ser agredida pela destruição do ambiente e pela poluição, possa surgir uma pandemia ainda mais resistente, que chegue a colocar em risco o futuro da humanidade, que já está mais do que ameaçado por um conflito nuclear.

Nesse recesso a que estamos sendo forçados, não custa pensar um pouco sobre o milagre da vida e também sobre a destruição predatória do meio ambiente pelos seres humanos, que conseguiram criar uma sociedade totalmente injusta aqui no Brasil, onde os detentores da riqueza total ainda acreditam ser possível conviver harmonicamente com a miséria absoluta.

Mas isso “non ecziste”, como diria Padre Quevedo, que certamente estaria decepcionado pelos insatisfatórios resultados da chamada evolução humana.

Não há boas notícias falsas

Sou cético por natureza e treinamento. Contudo, fui um dos muitos trouxas que acreditou na falsa notícia, largamente difundida pelas redes sociais, segundo a qual os canais de Veneza estariam hoje tão limpos que os golfinhos haviam regressado, juntamente com bandos de cisnes e brilhantes cardumes de peixes.

Também acreditei na alegre pitonisa espanhola, que, em dezembro do ano passado, teria previsto a pandemia em curso. Uma rápida investigação logo confirmou que também esta é uma notícia falsa. O fato é que nenhum astrólogo foi capaz de adivinhar a tragédia em que o mundo está mergulhado. Os melhores profetas foram, afinal, os cientistas, que há vários anos vinham advertindo para a possibilidade de um evento desta natureza. 

Anseio por boas notícias, como um menino, fechado em casa, anseia pelo sol lá fora. Tento ver o lado bom de tudo o que é mau. Gosto de pensar, inclusive, que há em todas as pessoas ruins uma parte que se esforça por ser boa. Infelizmente, isso nem sempre acontece. Existem acontecimentos absolutamente maus, da mesma forma que existem pessoas integralmente perversas, os famosos canalhas esféricos: por qualquer ângulo que os olhemos são de uma maldade honesta e consistente. Jair Bolsonaro é uma dessas pessoas — um homem fiel a cada um dos seus defeitos.

Lúcifer, como o próprio nome denuncia, tem contra si um passado de luz: desgraçadamente já foi um anjo, já foi bom. Aquele santo passado arruína-lhe a má reputação, duramente construída ao longo dos vastos milênios, nas profundezas do Inferno. Jair Bolsonaro, pelo contrário, foi sempre mau, nunca ninguém lhe ouviu uma palavra inteligente, o brilho de uma frase decentemente construída, um elogio sincero a um homem bom, um arrependimento genuíno por uma falha qualquer. Nenhuma qualidade — uma única! — mancha o íntegro negrume daquela sólida alma de atleta do mal. Lúcifer morre de inveja dele. 

Confinados à inquietação do presente, queremos notícias que nos confortem — ainda que falsas. Os autores dessas notícias são como aquelas mães que iludem os filhos durante os bombardeamentos: “É só fogo de artifício, filhinho. Você pode dormir descansado.” 

Ou talvez não. 

O que move estes falsários de um apocalipse feliz? Será que, como os vulgares escritores, os cineastas, os dramaturgos, desejam apenas contar uma história tão boa que, embora inacreditável, as pessoas acreditem nela?

Não me parece. O mais provável é que quem cria estas notícias supostamente positivas, sejam exatamente os mesmos grupos responsáveis por todas as restantes notícias falsas que inundam as redes sociais. Não há boas notícias falsas. O que há é desinformação, ou, dito de uma outra forma, terrorismo informativo. O que estes grupos pretendem é implodir a realidade, para depois surgirem, em meio ao caos, como cavaleiros da ordem e do progresso. 

A imprensa tradicional ocupa a linha da frente no combate contra esta nova forma de terrorismo. Ler jornais, comprar jornais, transformou-se numa urgente forma de resistência contra a estupidez e o totalitarismo. Não, não gosto que me mintam. 
José Eduardo Agualusa

A peste e o monstro

Vou esconder da minha filha a guerra desses tempos? A tensão no ar, a aflição, as incertezas? Não escondo. Só adianto o que amanhã ela descobrirá por conta própria. Nem por isso tiro seu sorriso. Temos vilões mandando no país, minha filha, e um monstro que ama a morte das florestas, dos índios, dos bichos, um monstro que já nem elege um alvo certo, sai empesteando tudo e todos que encontra pela frente.

Por isso a gritaria à noite no bairro, a vizinhança revoltada nas janelas. Você ouve o que as pessoas gritam? No cimo dos seus quase quatro anos, ela ouve e parece entender perfeitamente, só não quer mais saber da palavra quarentena. Estamos em casa é para caçar tesouros, pintar planetas, brincar de ser vento vivo e virar as páginas dos livros.

Vejo notícias de antílopes, javalis, cervos, vacas, bodes e cabras da montanha ocupando cidades e praias hoje vazias de gente. Enquanto nos sentimos roubados, eles talvez se sintam restituídos. O fato de as crianças em geral serem poupadas da varredura letal dessa pandemia talvez seja a terra agindo, em cumplicidade com os bichos, por um mundo novo, agora sem sutilezas.

Então revejo o papa na praça São Pedro falando sobre o tempo do nosso juízo, sobre o que conta e o que passa, sobre a gente comum e anônima que sempre teceu a continuidade das nossas vidas. O papa sendo ouvido por milhões desde uma praça inóspita, o santo no centro do silêncio da escuta, as almas em roda ali para ouvi-lo onde só vemos o azulado vazio que brilha num fim de tarde sob uma chuva fina.

Quando minha filha adormece, invariavelmente longe da cama, eu a tomo nos braços com uma força que já nem é minha, e por um minuto assume a nossa forma a imagem de um socorro milenar, que, para se desenhar, não nos consulta se cremos ou não cremos. Tudo o que me importaria salvar tem rosto e respira. Dorme, meu amor, que essa peste há de passar um dia. Dorme sem medo, que, a essa hora, até o monstro já está sonhando com seu fim.

Mariana Ianelli

sábado, 4 de abril de 2020

Coronavírus: na crise, todos crescem

A pesquisa XP Ipespe realizada em março e abril demonstra uma relação de causa e efeito entre a posição do presidente Jair Bolsonaro pelo fim da quarentena e seu declínio pessoal na avaliação da sociedade.

O presidente, acima de tudo, fez uma aposta de antemão perdida por opor ciência à política e desconhecer que o medo da morte é mais forte que especulações leigas.


A derrota da tese do “vamos para a rua” é pessoal, dado que a pesquisa indica apoio ao ministro da Saúde, Luís Henrique Mandetta, aos governos estaduais e ao Legislativo, alvos preferenciais de Bolsonaro por sustentarem o isolamento social radical – a chamada quarentena horizontal. Todos cresceram na crise, inclusive parte do governo. Só o presidente diminuiu.

Os números autorizam a previsão de que o chamado “orçamento de guerra”, em fase conclusiva no Congresso, é a antessala de um ciclo de gestão pactuada do país, com perda de poder pelo Executivo. A letargia que parece ter dominado a equipe econômica, há dois meses patinando na crise, abriu o vácuo para a ação do Legislativo.

Hoje, são 28% os que dizem considerar que o presidente tem atuação boa ou ótima, contra 42% que atribuem avaliação ruim ou péssima – os números são o menor e o maior da série histórica, respectivamente. Luiz Mandetta e o Ministério da Saúde têm 68% de avaliação positiva. Paulo Guedes e o Ministério da Economia, têm 37% positiva e 18% negativa.

A mudança coincide com uma melhora na imagem do Congresso e de governadores. O Legislativo passou a ser visto como ótimo ou bom por 18% da população, contra 13% na pesquisa anterior. A avaliação negativa caiu de 44% para 32%. Em relação aos governadores, o ótimo/bom passou de 26% para 44%.

Como outro índice da pesquisa mostra que 60% acham que a quarentena deve durar apenas mais um mês, essas avaliações tendem a ser definitivas, ou seja, a perspectiva do fim da crise não apagará os desempenhos considerados negativos.

O roteiro do resgate da economia traçado pelo ministro Paulo Guedes não vale mais para o atual mandato. A economia de guerra se estenderá por mais tempo após o fim da quarentena até que a normalidade inclua a retomada do espaço para uma gestão liberal.

É nesse contexto que o presidente reage com o anúncio da demissão futura do ministro da Saúde, algo inédito no país. Um aviso prévio baseado na administração correta da crise, pelo menos na visão mundial.

Bolsonaro diz, alto e bom som, que Mandetta é indemissível hoje, mas não amanhã, por ser essencial no enfrentamento da crise. Passada esta, lhe aplicará uma demissão corretiva para aprender a humildade.

Ao confundir subordinação com submissão, o presidente exibe sua dificuldade em reconhecer outra autoridade – ainda que científica -, senão a sua própria.

João Bosco Rabello, ex-assessor especial de comunicação nos ministérios da Defesa e da Segurança Pública

A medida da precarização

No conjunto de medidas que denominou Programa Emergencial de Manutenção do Emprego, a equipe econômica vai produzir mais recessão e precarização do mercado de trabalho que bem-estar. Inédito. Sob o pretexto de preservar vínculo empregatício, a Medida Provisória 936, publicada no 1º de abril, fragiliza o grupo mais numeroso e indefeso da mão de obra, reduz salários e, em consequência, desidrata a massa salarial com efeitos nefastos no consumo das famílias. Parece mentira. É o avesso do estímulo.

Desde 2016, o IBGE divulga uma série de estatísticas que, juntamente com a taxa de desemprego (11,6% no trimestre dezembro-fevereiro, equivalentes a 12,3 milhões de pessoas), ajuda a compreender as deficiências do mercado de trabalho contemporâneo. Uma delas é a subocupação por insuficiência de horas, formada por profissionais que trabalham menos de 40 horas semanais, têm tempo e gostariam de uma jornada maior — certamente, para ganhar mais. Essa forma de ocupação alcança muitos autônomos (notadamente os prestadores de serviços), empregados sem carteira assinada e aqueles submetidos ao contrato intermitente, novidade da reforma do governo Michel Temer/Henrique Meirelles.


Com as regras recém-anunciadas, Paulo Guedes e equipe permitem via acordo individual — ou seja, sem participação de sindicatos — a redução de 25% em jornada e salário de trabalhadores formais de todos os níveis de rendimento. E autoriza o corte de 50% e 70% de carga horária e remuneração de qualquer celetista que ganhe até três salários mínimos. Empurra, portanto, o com carteira para a subocupação. “Se evita demissão no curtíssimo prazo (90 dias), por outro lado reduz a renda, impacta o consumo das famílias e afeta até a capacidade de os informais ganharem dinheiro, porque boa parte deles atende os empregados formais”, analisa o economista Fabio Bentes, da Confederação Nacional do Comércio (CNC).

Bentes foi à Rais 2018 — última edição disponível da base de dados mais completa do emprego formal no país — e descobriu que 69% dos celetistas ganham até três mínimos. São 32 milhões num universo de 46 milhões de com carteira. Ou seja, sete em cada dez brasileiros formalmente contratados poderão ter jornada e salário reduzidos em até 70%, compensados com igual proporção do teto do seguro-desemprego (R$ 1.833), por decisão do empregador, sem intermediação do sindicato.

“É medida injustificável, porque reduz o papel das entidades de representação junto à categoria mais numerosa e com menor poder de barganha. A intenção parece ser preservar empresas menores, que costumam contratar trabalhadores de menor qualificação. Mas, no fundo, vai prejudicar também os empresários, porque reduzirá substancialmente a massa salarial e o consumo, num momento em que é necessário preservar o poder de compra para conter a recessão e ajudar na recuperação da atividade daqui a uns meses”, afirma Debora Freire Cardoso, professora-adjunta no Cedeplar/UFMG.

O mesmo governo que aderiu à proposta parlamentar de concessão de renda básica emergencial de R$ 600 por três meses para estender uma rede de proteção social aos informais aumenta a fragilidade de quem tem carteira assinada. A mesma medida provisória permite a suspensão do contrato de trabalho por dois meses com pagamento apenas do equivalente ao seguro desemprego.

A economista Monica de Bolle, da Universidade John Hopkins, defensora de políticas agressivas de transferência de renda em tempos de calamidade global, chama atenção para o efeito colateral negativo até na saúde pública. “Durante uma pandemia, cujo combate depende do isolamento social, o governo se arrisca a ver trabalhadores formais saindo às ruas para recompor, via mercado informal, o salário que vão perder. Essas medidas introduzem uma incerteza econômica brutal”, dispara.

A recomendação ao governo brasileiro são as medidas que vêm sendo anunciadas em outros países para blindar as economias durante a quarentena da Covid-19. Estados têm assumido a folha de pagamento, desonerado empresas e ofertado crédito barato e farto para que patrões e empregados hibernem e, passada a tempestade, recomecem de onde pararam. O custo a mais, garantem os especialistas, seria compensado pela queda menor do consumo das famílias e, adiante, com a recuperação mais rápida da atividade. O governo Jair Bolsonaro periga gastar muito sem colher os melhores resultados, porque desconhece, subestima ou despreza o papel do trabalho na engrenagem econômica.
Flávia Oliveira

Valorize as relações China-Brasil, deputado Eduardo

Você é realmente tão ingênuo e ignorante? Como deputado federal da República Federativa do Brasil que possui alguma experiência em tratar dos assuntos internacionais, você deveria saber que os vírus que causam pandemia são inimigos comuns do ser humano, e a comunidade internacional nunca chama os vírus pelo nome de um país ou região para evitar a estigmatização e a discriminação contra qualquer grupo étnico específico. A Organização Mundial da Saúde seguiu esta regra do direito internacional para chamar o novo coronavírus de Covid-19 (SARS-CoV-2). Além disso, ainda está por se confirmar a origem deste vírus. O surto de Covid-19 em Wuhan não significa necessariamente que Wuhan foi a fonte inquestionável do novo coronavírus.

O diretor do Centro de Controle e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos já reconheceu que, durante a chamada "epidemia de gripe" nos Estados Unidos, no ano passado, algumas pessoas teriam morrido por Covid-19. Isso justifica que, muito provavelmente, os Estados Unidos foram a fonte da Covid-19. Mas podemos batizar o Covid-19 (SARS-CoV-2) como "vírus norte-americano"? Não! Do mesmo modo, ninguém no mundo pode chamar o zika como "vírus brasileiro", apesar do fato de a epidemia de zika ter acontecido e ainda acontecerem casos frequentemente no Brasil.


É por causa do seu ódio à China que ataca frequentemente a China? Mas de onde vem esse ódio? A aproximação entre a China e o Brasil é resultado de um desenvolvimento histórico com alicerce natural. Tanto a China como o Brasil são grandes países emergentes com território e população gigantes, com culturas ricas e coloridas e povos simpáticos e amigos. Ambos os países possuem planos grandiosos para promover a prosperidade e riqueza nacionais, bem como ambição para salvaguardar a paz e justiça internacionais. É ainda mais importante o fato de que não há divergências históricas nem conflitos atuais entre os dois países, que já se tornaram parceiros estratégicos globais. O povo chinês sempre abraça o povo brasileiro com sincera amizade, tratando o Brasil como nosso país irmão e parceiro. O respeito recíproco e a cooperação de ganhos mútuos de longo prazo entre os dois países trazem benefícios pragmáticos para os dois povos. Por dois anos consecutivos, dois terços do superávit do comércio exterior do Brasil vieram da China, o seu maior parceiro comercial! É por isso que tanto a geração do seu pai como a da sua idade estão todos se dedicando a promover a cooperação amigável sino-brasileira. Em resumo, os seus comportamentos remam contra a maré e não só colocam você no lugar adverso do povo chinês de 1,4 bilhão, mas também deixam a maioria absoluta dos brasileiros com vergonha, bem como criam transtornos ao seu pai, que é o presidente da República. É realmente uma prova de ignorância a respeito do tempo atual!
'Mesmo com todos os seus insultos à China, você não conseguirá tornar a China inimiga do Brasil, porque você realmente não pode representar o grande país que é o Brasil '
Será que você recebeu uma lavagem cerebral dos Estados Unidos e quer ir firmemente na esteira deles contra a China? Os Estados Unidos eram realmente um país grande e glorioso. No entanto, neste ponto crítico do avanço da civilização humana, os EUA perderam sua posição histórica e o sentido de desenvolvimento, tornando-se quase totalmente causadores de problemas nos assuntos internacionais, e uma fonte de ameaça à paz e segurança mundiais. Os líderes atuais norte-americanos já se esqueceram dos ideais dos fundadores do país de assegurar a justiça. Ademais, tornaram-se monstros políticos cheios de preconceitos ideológicos contra os outros países e sem capacidade de governar, o que pode ser justificado pelo desempenho horrível no combate à pandemia de Covid-19 nos EUA. Por outro lado, sendo uma potência cheia de vitalidade e em ascensão, o Brasil deve e é capaz de fazer contribuições importantes para o progresso da civilização humana, desde que tenha sua própria visão estratégica, possua sua perspectiva correta sobre os assuntos internacionais e desempenhe seu próprio papel construtivo. O Brasil não deve tornar-se um vassalo ou uma peça de xadrez de um outro país, senão o resultado seria uma derrota total num jogo com boas cartas, como diz um provérbio chinês.

Deputado Eduardo, há pelo menos uma semelhança entre a cultura confucionista chinesa e a cultura cristã brasileira, que é a crença em que sempre existe a causalidade em tudo, razão pela qual a gente tem que pensar nas consequências antes de fazer qualquer coisa. Como não é uma pessoa comum, você deveria entender melhor essa razão. O que é o mais importante para o Brasil agora? Sem dúvida, é salvaguardar a vida e a saúde de centenas de milhões de pessoas, e reduzir ao mínimo o impacto da pandemia na economia do Brasil, da China e do mundo, através da cooperação China-Brasil no combate à Covid-19. A China nunca quis e nem quer criar inimizades com nenhum país. No entanto, se algum país insistir em ser inimigo da China, nós seremos o seu inimigo mais qualificado! Felizmente, mesmo com todos os seus insultos à China, você não conseguirá tornar a China inimiga do Brasil, porque você realmente não pode representar o grande país que é o Brasil. Porém, como é um deputado federal, as suas palavras inevitavelmente causarão impactos negativos nas relações bilaterais. Isso seria uma grande pena! Contaminaria e poluiria totalmente o ambiente saudável que China e Brasil conquistaram até aqui.

Portanto, é melhor ser mais sábio e racional. Você pode não pensar na China, mas não pode deixar de pensar no Brasil. O demônio da Covid-19 chegou finalmente à maravilhosa terra brasileira. Neste momento crucial da cooperação bilateral no combate à pandemia de Covid-19, seria mais prudente não criar mais confusões. Ainda mais importante, seja um verdadeiro brasileiro responsável, ao invés de ser usado como arma pelos outros!
Li Yang, cônsul-geral da República Popular da China no Rio de Janeiro

Para a cúpula das Forças Armadas, é inaceitável Bolsonaro não se comportar como militar

Os fanáticos pelo “mito” podem esculhambar à vontade a pesquisa do Instituto Datafolha, dizer que é mais uma obra dos esquerdopatas, petralhas e comunistas que dominam a mídia nacional e internacional, mas a realidade é uma só – Jair Bolsonaro não tem condições mínimas para comandar um país da importância do Brasil, que é o quinto maior em território, sexto em população e nono em volume de PIB, ou seja, gigante pela própria natureza.

O fato concreto é que Bolsonaro, diante do primeiro problema realmente grave de sua gestão, além de demonstrar não saber administrar a crise, está atrapalhando as autoridades encarregadas de fazê-lo.

Com essa postura negativa e inaceitável, o presidente está perdendo apoio em todos os setores, especialmente na classe média e entre os militares, embora ele julgue (?) que as Forças Armadas estariam dispostas a tudo para mantê-lo no poder.


É claro que a ficha está caindo e o próprio Bolsonaro começou a sentir esse isolamento. Na manhã de segunda-feira, dia 30, ele descumpriu a agenda e resolveu visitar o general Eduardo Villas Bôas, ex-comandante do Exército, para lhe pedir apoio, e foi atendido, com uma nota postada no Twitter pela assessoria do oficial.

Neste sábado, entrevistado pela jornalista Tânia Monteiro, do Estadão, Villas Boas confirmou a visita e o pedido de apoio, que revela a insegurança do presidente da República. A repórter então perguntou se Bolsonaro tinha perdido apoio dos militares, e o general (ou sua assessoria, pois ele está muito doente) disse que não.

Em tradução simultânea, este “não” do general Villas Bôas nada significa, porque jamais falaria contra o amigo que ajudou a eleger, mas a verdade é que Bolsonaro não tem mais apoio incondicional das Forças Armadas, que não pretendem avalizar nenhuma insensatez do presidente.

Os oficiais-generais vão cumprir a Constituição, ajudar o governo (qualquer governo) no possível, mas sem se intrometer. Não querem que a imagem das Forças Armadas seja prejudicada por atos de um presidente complicadíssimo, que pensa (?) estar representando os militares, mas não está. Eis a questão.

Para os chefes militares, a situação gravíssima e inaceitável é que Bolsonaro não se comporta como militar.

Como se sabe, uma das dogmas das Forças Armadas é o respeito à hierarquia, um princípio que não se resume a respeitar ordens superiores.

Na crise do coronavírus, os generais da ativa estão assistindo a uma gravíssima quebra de hierarquia cometida por Bolsonaro, cuja obrigação funcional é respeitar a orientação científica das autoridades de saúde do país (Ministério e Vigilância Sanitária) e da Organização Mundial de Saúde, da qual o Brasil é país-membro fundador.

É preciso entender que o raciocínio dos generais é sempre cartesiano. Eles avaliam que um presidente que não respeita a hierarquia científica nacional e mundial, em assunto de interesse vital da saúde de todos os brasileiros, por consequência isso significa que esse presidente não aceita hierarquia alguma.

Pensamento do Dia


Coronavírus escancarou a conta do nosso egoísmo

No último dia 22, no meio da pandemia de coronavírus, uma senhora de 90 anos faleceu na Bélgica após ter recusado o ventilador mecânico para ceder o equipamento em favor de alguém mais jovem. “Guarde para alguém mais jovem. Eu vivi uma boa vida” foi o que ela disse dias antes de falecer.

Não é hidroxicloroquina ou cloroquina que irão nos salvar dessa vez.

O inimigo dessa vez é invisível e implacável: fez os líderes das grandes nações parecem crianças assustadas, fez o Papa sozinho e cabisbaixo perdoar os nossos pecados, fez judeus e muçulmanos rezarem juntos.


As nossas tradicionais armaduras falharam. De nada adiantou o poderio militar nuclear dos mísseis ou os inalcançáveis imóveis de luxo do Central Park: o gramado agora está cheio de tendas de hospital de campanha. Nossos planos de saúde caros não foram suficientes para tirar o receio da falta de equipamentos de nossas cabeças e tampouco nossos celulares e televisões sofisticados foram capazes de entreter no meio dessa solidão sentida e vivenciada por todos.

Sentimo-nos amedrontados, perdidos, sozinhos. E aí, diante de algo que não sabemos como nem quando vai acabar, fomos obrigados a ajoelhar. E para ajoelhar, todos nós fomos obrigados a aprender que é necessário sair dos nossos tronos, das nossas bolhas, das nossas coberturas, das nossas realidades e aproximar a cabeça do chão, frágeis e despidos.

Quando a gente se abaixou, acabamos esbarrando as cabeças uns nos outros e o milagre começou a acontecer. Começamos a perceber que a doença que mata a minha mãe também mata a mãe de quem mora do outro lado do mundo. Vimos que o mesmo problema que quebra o meu negócio desemprega o meu funcionário mais simples. Passamos a enxergar a importância de profissões que muitas vezes considerávamos pouco importantes ou dispensáveis. Constatamos que o medicamento que me falta também faltará para quem mora na favela. Sentimos que a mesma solidão que se abate sobre mim angustia o outro que tem nome, cor, origem e religião diferentes dos meus.

Despedaçados perante nossos medos mais ocultos, enfim fomos obrigados a admitir aquilo que já sabíamos mas não queríamos aceitar: somos todos iguais. No final das contas, após todo o dinheiro, todo o status, todos os privilégios, encolhemo-nos de medo das mesmas coisas e sentimos uma compaixão comum diante dos números que crescem, seja na Itália, nos Estados Unidos ou na nossa cidade.

Se antes bastava se cercar no próprio feudo e a guerra não chegaria ali, agora, para funcionar para mim, precisa funcionar para todo mundo. Para que eu seja protegido, preciso proteger os outros. A conta do nosso egoísmo chegou, cara e sem nenhum desconto.

Mas com o milagre, percebemos que essa conta pode ser paga de outra forma. Dito e repetido, não são hidroxicloroquina ou cloroquina que encerrarão esses tempos obscuros. Já descobrimos a cura e ela se chama amor. Pode parecer piegas, não é mesmo? Mas a verdade é que chegamos no ponto decisivo, na curva da inflexão na qual ou nós mudamos a maneira de convivermos enquanto sociedade ou estaremos sempre à mercê de nosso próprio egoísmo disfarçado de vírus, guerras, crises econômicas ou governantes inescrupulosos.

Para muito além do desespero e caos que estafam a nossa mente, o Brasil que se apresenta agora é o Brasil dos profissionais de saúde exaustos que se revezam incansavelmente para salvar pessoas que nem conhecem. É o Brasil de empresários assumindo prejuízos para não demitir seus funcionários. É o Brasil de pessoas parando suas atividades para garantir o bem-estar de outros. É o Brasil dos entregadores, garis, caminhoneiros e caixas de supermercados. É o Brasil de pessoas que doam o pouco que tem para que quem tem menos ainda possa ter algo. É o país do amor ao próximo e de gente que se preocupa com gente, de forma real e para além de qualquer discurso vazio e hipócrita.

Esse país de gente solidária, trabalhadora e resiliente pode afinal ser o gigante que acordou, ainda que tantos discursos e personagens irresponsáveis tentem macular nosso foco. A reflexão sobre qual lado da história iremos (e optaremos por) estar nunca foi tão necessária.

Tempos difíceis servem para algumas coisas, entre elas grandes aprendizados e reflexões incômodas. Quando aquela senhora heroína na Bélgica cedeu seu equipamento, a afirmação dela pode e deve ser repetida aqui: “guarde para alguém mais jovem”. E dessa vez, não é sobre o equipamento. É sobre o legado e a história que estamos construindo nesse momento decisivo. É a hora de abaixarmos as nossas bandeiras ideológicas e substituí-las por empatia, bom-senso e álcool em gel. Fiquemos em casa e ajudemos uns aos outros, irrestritamente. Construamos, unidos, nesse momento difícil, uma nação melhor e mais solidária, para que possamos deixar, após a crise, um país melhor “guardado para os mais jovens”. É essa a real cura para o temido vírus.
Pedro Aihara, tenente do Corpo de Bombeiros, mestre em Direitos Humanos, especialista em Gestão e Prevenção de desastres, atuou em Brumadinho e Mariana e Janaúba

Bolsonaro virou o bobo da corte

Jair Messias Bolsonaro tornou-se um bobo da corte, com uma diferença importante: bobos da corte costumavam dizer verdades.

Os sinais de que o presidente da República deixou de ser levado a sério são numerosos e inequívocos. Prefeitos e governadores, alguns dos quais eleitos na mesma onda conservadora que impulsionou Bolsonaro, fazem exatamente o contrário do que ele recomenda — e não hesitam em explicitar isso.

Até ministros de Estado, que foram por ele escolhidos e são demissíveis "ad nutum", se articulam para fazer o by-pass do chefe. Além de Mandetta, Moro e Guedes já disseram, ainda que tentando esboçar alguma diplomacia, que apoiam as medidas de isolamento social que Bolsonaro renega. Há notícias de que o núcleo militar tenta enquadrá-lo, mas a persuasão, quando surte efeito, é transitória. Só dura até a próxima declaração ou postagem, quase sempre uma combinação de mentiras com delírios.

É bastante sintomático que empresas de mídia social como Twitter e Instagram tenham decidido censurar manifestações de Bolsonaro, por julgar que se tratam de falsidades que colocam pessoas em risco.

No Congresso o clima não é muito diferente. Parlamentares já desistiram de esperar que Bolsonaro exerça a liderança que caberia ao presidente num momento como este e estão cuidando de elaborar por conta própria medidas para atenuar a crise. Se o Legislativo estivesse operando em condições de normalidade, estaríamos possivelmente iniciando procedimentos de impeachment.

O isolamento de Bolsonaro é internacional. Se, até uma ou duas semanas atrás, ainda havia líderes populistas apostando no negacionismo, como o mexicano Andrés Manuel López Obrador e o próprio Donald Trump, eles vislumbraram o tamanho da encrenca e adotaram uma posição mais responsável. Bolsonaro ficou praticamente sozinho.

Só não dá para rir da piada que Bolsonaro se tornou porque ela poderá custar vidas.

Palmas para a Imprensa!

Somos afortunados: nossa imprensa não desiste. O assunto é horroroso, a repetição ad nausean dos conselhos e dos casos, as estatísticas angustiantes são massacrantes, mas sem ela onde estaríamos?

Assim como a população de tantas cidades brasileiras bateu e bate palmas para os médicos e demais profissionais da Saúde, deveríamos nos unir e bater palmas, muitas palmas, para nossa Imprensa.

Se não fosse a Imprensa, já estaríamos quebrando todos os recordes de morte pelo Covid 19, pois é aos jornalistas que se sacrificam e vão às ruas buscar notícias verídicas e depois repetir diariamente as palavras da Ciência que devemos o sucesso do isolamento que vem impedindo que o vírus se espalhe exponencialmente.


Temos um mistério em Brasília. E esse é um mistério maior que a origem e cura do Covid 19, um presidente da República que sabe que não nasceu para o cargo, que sabe que nada sabe e que odeia os idosos, grupo do qual faz parte. Se não os odiasse, não aconselharia as famílias a deixá-los num canto, ao contrário, pediria que cumprissem o isolamanento recomendado pela OMS para salvar pais e avós.

O que o indigitado BolsoNero esquece é que há sempre um dia atrás do outro e que o castigo divino vem com a rapidez de um foguete espacial e que com ele, assim nos ajude Deus, não será diferente.

Há quem acredite que BolsoNero sentiu que errou e se assustou, por isso mudou o tom de suas falas. Ledo engano. BolsoNero, estimulado pelos inacreditáveis filhos que gerou, é o mesmo de anteontem e seguirá sendo o mesmo amanhã, até que o canto escuro para onde seus ex-eleitores o levarão, mostre que seu caminho era triste, desolado e cruel para com todos os brasileiros, crianças, jovens, adultos e idosos.

A Imprensa cumpre o papel que deveria ser o dele e lembra a todos que ficar em casa é o melhor caminho para evitar que corramos todos o risco de sermos contaminados por esse vírus maligno.

BolsoNero não sabe educar filhos, não sabe governar, não sabe escolher amigos. Dedicou seu coração a Trump e lhe deu vários e excelentes presentes brasileiros. O que recebeu em troca? Um pontapé estrondoso: Trump usou o dinheiro que tem de sobra para enviar 23 aviões à China e assim impedir que o Brasil recebesse máscaras e equipamentos que ajudariam a salvar vidas por aqui.

Aos dois amiguinhos desejo ardentemente que as próximas eleições lhes sejam aziagas.

Maria Helena Rubinato Rodrigues de Sousa