quinta-feira, 2 de abril de 2020

Morrer do vírus ou da arrogância?

Como os números o demonstram, os países asiáticos estavam mais bem preparados para enfrentar esta ameaça. Claro que podemos sempre criticar a forma como a China terá ocultado os primeiros sinais da epidemia (a História encarregar-se-á de o esclarecer), mas não podemos ignorar que, apesar disso, nações como a Coreia do Sul, Taiwan e Singapura (consideradas democracias) foram rápidas a tomar decisões e a controlar os focos de contágio.

Os factos são elucidativos. Aos primeiros sinais, esses países acionaram os seus planos de emergência – não os começaram a escrever, nesse momento. Garantiram também que existiriam ventiladores suficientes nos hospitais – não os começaram a encomendar quando as enfermarias ficaram sobrelotadas. Certificaram-se de que tinham kits para testar todos os que tenham contactado com alguém infetado – e não apenas os suficientes para os que apresentassem sintomas da doença. Providenciaram a existência de máscaras para toda a população (já habituada a usá-las) – e não as tinham racionadas para servir, à justa, os médicos e enfermeiros na linha da frente. Finalmente, puseram em campo algo inédito em epidemias anteriores: um enorme manancial tecnológico e de Inteligência Artificial, capaz de fazer de cada smartphone um posto de vigilância individual e, em simultâneo, de segurança coletiva (hipotecando com isso, é certo, a privacidade ao bem comum). Em todos esses países, desde o primeiro momento, não houve espaço para excessos de confiança nem, muito menos, para a balela arrogante de que era apenas “mais uma gripe”.


Confesso que aprendi muito sobre isto a ler alguém que, até há poucos dias, me era um perfeito desconhecido: Kim Woo-ju, especialista em doenças infectocontagiosas e o professor mais antigo da principal universidade de Seul, na Coreia do Sul. Nos últimos 30 anos, ele esteve sempre na primeira linha de combate aos focos epidémicos que assolaram aquele lado do planeta: sida, SARS, MERS, gripe suína, gripe das aves, etc. Alia, com uma série de outros colegas, um vasto conhecimento científico a uma experiência rara de ação. Não tem dúvidas de que o combate à Covid-19 vai ser longo e difícil. Mostra-se estupefacto por nos países ocidentais não se promover o uso da máscara entre a população – “só pode ser por razões económicas”, refere –, mas também reconhece que há fatores culturais e de experiência recente que dividem os dois mundos. “Nós já não precisamos de ensinar às pessoas como se lavam as mãos, porque fizemos isso, em larga escala, nas epidemias anteriores”, sublinha.

Ao contrário de outros conflitos, esta guerra não será resolvida pelo poderio militar ou por sanções económicas. Quem vai derrotar o vírus, com medicamentos e uma vacina, serão os cientistas. Só que estes, para poderem triunfar, precisam do enquadramento adequado, como sublinha Kim Woo-ju:“Isto é Ciência; precisamos de ser humildes. No momento em que nos tornarmos arrogantes, perdemos. Vamos precisar de manter a humildade até que isto termine.”

Há, por isso, uma lição que devíamos aprender com esta crise e que se resume a uma única palavra: humildade. Vai ser com a “humildade” de testarem centenas de medicamentos e de hipóteses que os cientistas vão encontrar uma cura para o vírus. Sem fanfarronices e a aprender com a experiência. Terá de ser também com a mesma humildade que os países vão ter de procurar soluções para a guerra seguinte. Se a “humildade científica” salva vidas, terá de ser a “humildade política” a salvar os empregos, as empresas e a reconstruir a economia. Com uma certeza: a de que nunca houve outra crise como esta, tão global. Desta vez, trata-se apenas de tentar repor o que existia, como se fez na Europa depois da II Guerra Mundial: reconstruir o que tinha sido destruído pelas bombas. Apenas e só isso, sem imposições de reformas ou de ajustamentos. Garantir que as empresas voltam a funcionar, que as pessoas regressam aos seus empregos, que tudo será de novo o que era antes do vírus.

Se o souber fazer com humildade e respeito pelas pessoas, sem clivagens regionais, a Europa terá aqui uma oportunidade de voltar a demonstrar que o seu projeto, assente na solidariedade, na liberdade, na democracia e no desenvolvimento, é o melhor exemplo para o mundo. Se, ao contrário, insistir no estilo arrogante do “salve-se quem puder e for mais rico” dos tempos de 2008-2009, então pode perder quaisquer ilusões de futuro. Não morrerá do vírus, mas da falta de humildade. Ou antes: da sua arrogância.

Só faltava chorar

Não foi a primeira vez nessa crise sanitária que o presidente Bolsonaro deu sinais de que iria voltar atrás para logo em seguida destruir o esforço conciliatório. A primeira foi quando recuou da convocação para a manifestação contra Supremo e Congresso e depois correu para os braços dos manifestantes. A segunda aconteceu quando ele disse estar havendo uma histeria no país para em seguida recuar e adiante anunciar que faria uma festinha para comemorar seu aniversário e o da mulher. E, finalmente, diz num pronunciamento que a Covid-19 não passa de uma gripezinha e culpa os governadores por futura crise econômica. Depois, em novo pronunciamento fala em entendimento e trabalho conjunto com as autoridades estaduais e, no dia seguinte, compartilha vídeo fake com críticas aos governadores.

Não dá para levar este homem a sério. Os jornais de ontem apontaram a mudança de tom do presidente. Foi uma benevolência arriscada. Embora a afirmativa fosse correta, Bolsonaro de fato mudara o tom, era óbvio que a nova abordagem sobre o tema não duraria muito. Pois durou menos de 12 horas. O depoimento pregando a conciliação foi ao ar às 20h30m de terça. O vídeo com ataque aos governadores foi compartilhado às 7h57m de ontem. Já escrevi aqui, há muito pouco tempo, que não podemos passar a mão na cabeça de Bolsonaro como se fosse um menino travesso que pede desculpas depois de fazer uma arte. Ele não merece mais a confiança dos brasileiros.



O presidente está muito mal cercado. Os únicos assessores que ouve são os filhos e os terraplanistas de sempre. Gente séria, que aparentemente só deseja o melhor para o país, como os ministros Braga Netto, Tereza Cristina, Tarcísio de Freitas, Luiz Henrique Mandetta, Sergio Moro e Paulo Guedes não conseguem romper o círculo de ferro e ódio armado em torno de Bolsonaro. Os que chegam a se aproximar um pouco mais são logo sabotados por Zero Um, Zero Dois e Bananinha. O Zero Dois agora sentou praça dentro do Palácio do Planalto. Pode? Acho que não, mas no estilo de governar desta turma muito não pode e ela ainda assim segue fazendo.

A novidade desses dias é que o presidente tem chorado. Só faltava essa. Matéria de Igor Gielow, na “Folha”, revela que Bolsonaro chorou numa reunião com gente que nem era de seu círculo mais próximo. Depois, no domingo, ao voltar do passeio pelas cidades-satélites do Distrito Federal, ele falou com jornalistas e deu para ver na TV seus olhos brilhando. Uma imagem do fotógrafo Orlando Brito da mesma cena não deixa dúvidas, ele quase chorou. Essas lágrimas significam duas coisas, uma delas identificada pelo repórter da “Folha”. Bolsonaro está fragilizado emocionalmente. Eu acrescento que essa emoção, se verdadeira, deveria ser atribuída às inúmeras bobagens que ele comete. Se fossem honestas, seriam lágrimas de arrependimento.

Mas não são honestas. O choro presidencial lembra outras lágrimas da história nacional. Me refiro a um episódio envolvendo o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Lula chorou publicamente inúmeras vezes antes, depois e ao longo do seu mandato. Mas um deles, o que ocorreu no discurso após ter sido conduzido coercitivamente para depor em São Paulo, foi de puro oportunismo político. Não havia por que chorar, e um homem como Lula não se quebra facilmente. Tanto que não derramou uma lágrima sequer quando foi preso. Mas naquele discurso, lágrimas cairiam bem, dramatizariam um ato jurídico legal, embora desnecessário.

O presidente e o ex-presidente são de matizes absolutamente diferentes, mas as lágrimas de Bolsonaro agora não diferem em nada das de Lula de março de 2016. Na reunião com gente pouco conhecida, talvez quisesse que vazasse sua emoção fingida. No domingo passado, Bolsonaro tentou chorar quando falava dos brasileiros que precisam trabalhar para levar comida para casa. Francamente, um homem que não se importa que pessoas morram com a Covid-19 e que atrasou em uma semana a distribuição de recursos emergenciais aos mais pobres não vai chorar depois de passear no mercado da Ceilândia. Por isso aqueles olhos estavam apenas rasos d’água.

Imagem do Dia


Covid-19 reinventa o Estado forte

A recessão mundial de grandes proporções que bate à porta da humanidade coloca o papel do Estado como essencial para responder a esse grande desafio. A rigor ele é chamado a socorrer a economia em momentos de grave crise, como na Grande Depressão de 1929, nas Guerras Mundiais do século passado ou em outras crises sistêmicas.

O diferencial de hoje é que não basta apenas injetar dinheiro nas empresas como aconteceu na crise de 2008. É preciso também garantir renda para os trabalhadores que ficarão sem sustento e investir pesado em saúde. O foco não são as empresas, são as pessoas.

Governantes de países de economia liberal se movimentam para que os trabalhadores não sejam demitidos. Estão reduzindo impostos sobre a folha de pagamentos das empresas com o compromisso de não haver desemprego.

Na Inglaterra, pátria-mãe do liberalismo, o governo conservador de Boris Johnson adotou um pacote de 418 bilhões de libras a ser aplicado em várias áreas. Entre suas medidas está o pagamento de 75% do salário de quem ganha até 2.500 libras. Com isso, garante uma renda de R$ 14.900, para os desempregados. Donald Trump também vai na mesma direção. Adotou um programa de U$ 2,5 trilhões e anuncia que pagará mil dólares mensais para quem ficar em casa.



A despeito das medidas adotadas, que apenas mitigam a recessão, o grande debate que se trava ao redor do planeta é determinar qual seria o momento em que a quarentena deve ser relaxada para que a economia volte a funcionar. Um dos temores é que não está afastado o risco de convulsões sociais, com saques e violência. O pano de fundo poderá ser o desemprego dantesco e a falta de renda e de condições de saúde. Nos Estados Unidos o desemprego pode chegar a 20% e as estimativas são de queda no PIB americano de 20 a 25%(anualizada) no 2º trimestre, um desastre mesmo que haja uma recuperação acelerada do 3º trimestre. Os números não serão diferentes no Brasil.

Entretanto, a prioridade de todos os governos responsáveis é salvar vidas, razão pela qual o prazo da quarentena de diversos países tem sido ampliado. O próprio Donald Trump inicialmente refratário a essa medida, estendeu sua validade até 30 de abril. O que há é uma tomada de consciência de que o retorno das atividades econômicas deve se dar de forma programada e depois do pico da pandemia. O lockdown deve ser evitado e só deve ser adotado diante da iminência real do colapso do sistema de saúde.

No Brasil a necessidade de uma intervenção do Estado é mais gritante. Temos 44 milhões de trabalhadores informais, quase treze milhões de desempregados. Estima-se que só no comércio teremos mais cinco milhões de desempregados.

Esse enorme contingente humano mora em favelas sem condições sanitárias e não terá o que comer mantida a situação atual.

Diante de fatos dramáticos, a crise atropela posições ideológicas e se impõe. A Covid-19 derrubou o discurso econômico de Jair Bolsonaro e seu ministro Paulo Guedes e os obrigou a editar medidas com impacto da ordem de mais de meio trilhão de reais nas áreas fiscal, trabalhista e creditícia. Entre elas o auxílio emergencial de R$ 600 a trabalhadores informais e de R$ 1.200 para mães responsáveis pelo sustento da família além das ações que envolvem o INSS, o FGTS, o salário desemprego, o crédito da Caixa e Banco do Brasil ou a redução das despesas públicas de estados e municípios.

Bolsonaro rompeu com o discurso econômico com o qual se elegeu, assim como Boris Johnson e Donald Trump. E tudo isso pode não bastar para minimizar os efeitos nocivos do isolamento nos níveis de emprego e PIB. À frente, outras medidas deste teor virão.

Mais ainda. A gravidade da crise de saúde pública, de emprego e PIB demanda por liderança política que coordene uma ação enérgica e única das três esferas de Governo para implementar e fazer chegar os recursos tempestivamente aos mais necessitados; alguém que dedique esforços sem medida para evitar uma calamidade médico-hospitalar e articule a eficácia administrativa dos entes federativos na definição dos momentos críticos de afrouxamento das medidas restritivas em vigor.
Nada será como antes depois desta pandemia.

Como gostariam aqueles

Brunella Baldi
Longe soa a música.
Devagar se aproxima.
Com ela vêm o lirismo
E o sentimentalismo.

Que maravilhosa mensagem trazem.
Como gostariam de ouvi-la
Aqueles que agora jazem
Sob os escombros e as ruínas.

Pós-choque

Naomi Klein publicou um livro intitulado “A doutrina do choque”, ou “A ascensão do capitalismo de desastres”, em que defende a tese de que o capitalismo se nutre de desastres, e de choque em choque vai ampliando seu poder. O livro é recente, mas saiu antes do ataque do coronavírus, um desastre que ninguém previa e ninguém sabe como vai terminar. E no meio do qual nenhuma tese, nem a reducionista da Naomi, sobrevive.


Oportunistas já se aproveitam da confusão da pandemia para lucrar e confirmar a pior expectativa de que o capitalismo amoral é capaz, segundo a Naomi. Está em curso a maior intervenção do Estado na vida das nações e das pessoas desde a Segunda Guerra Mundial, mas a velha briga entre dirigismo econômico e mercado persiste, enquanto contam os mortos. O mundo que emergirá do choque que estamos sofrendo será um mundo purgado pelo horror, e melhor, ou condenado pelo amoralismo para sempre.

Se estamos a caminho de uma escolha definidora do que seremos pós-tragédia viral, talvez não seja ingenuidade demais discordar da Naomi e esperar que no fim de tudo isto surja um mundo menos desigual e mais, na falta de outra palavra, decente. Para participar da velha briga, que continuará quando o coronavírus for apenas uma má memória, entre estatismo e livre mercado, traga-se de volta o John Maynard Keynes. Se for difícil transportá-lo fisicamente — afinal, o homem está morto desde 1948 —, recuperem suas ideias, e as escolhas que ele pregou para combater o capitalismo sem-vergonha.

Keynes foi o cara que defendia um Estado forte a serviço do bem geral e a intervenção do Estado na economia para humanizá-la. A austeridade “made in” Chicago que hoje norteia a maioria das economias mundiais não teria prevalecido se o keynesianismo tivesse se imposto ao liberalismo, quando ainda dava.

Mas enfim, que mundo nos espera quando passar o horror? Acho que será melhor do que este. Disse ele, ingenuamente.

Lições de 1918: as cidades que se anteciparam no distanciamento social cresceram mais após a pandemia

Em tempos insólitos e “inexperimentados” ―termo cunhado pelo brilhante filósofo espanhol Emilio Lledó para se referir a estes meses viróticos― convém mais que nunca olhar para trás, até um dos poucos precedentes em que podemos encontrar alguma luz sobre os efeitos econômicos de uma pandemia: a mal chamada gripe espanhola de 1918. Todas as precauções são poucas: o mundo e a economia mudaram, e muito, desde então. Mas a epidemia de gripe no início do século passado, segundo estimativas dos pesquisadores Sergio Correia, Stephan Luck e Emil Verner, também deixa algumas lições válidas para se enfrentar o choque econômico do coronavírus. Entre elas, que as cidades que se anteciparam na adoção de medidas de distanciamento social e foram mais agressivas em sua aplicação “não só não tiveram um desempenho pior, mas cresceram mais rápido quando a pandemia passou”. E que “intervenções não farmacológicas [entre elas, o fechamento de escolas, teatros e igrejas; a proibição de reuniões públicas e funerais; a colocação em quarentena dos casos suspeitos e a restrição nos horários de abertura dos negócios] não apenas reduziram a mortalidade, mas também mitigaram as consequências econômicas adversas da pandemia", concluíram os pesquisadores, os dois primeiros do Federal Reserve dos EUA e do Federal Reserve de Nova York e o terceiro, do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT).

“Intervenções não farmacológicas podem ter retornos econômicos, para além da redução da mortalidade”, concluem os três pesquisadores no estudo, publicado na última quinta-feira e divulgado pela Bloomberg. A experiência “sugere” que as cidades que adotaram maiores medidas de distanciamento social “também cresceram mais no médio prazo”, o que os leva a concluir que a pandemia “deprimiu a economia, mas as intervenções de saúde pública, não”. Contudo, o estudo destaca as diferenças na hora de traçar paralelos entre aquele episódio de gripe e o coronavírus: o ambiente econômico estava marcado pelo final da Primeira Guerra Mundial e aquela doença foi muito mais letal do que a Covid-19, especialmente para os trabalhadores jovens, o que leva a pensar em um choque econômico maior naquela ocasião do que hoje. Por outro lado, hoje a economia está infinitamente mais interconectada, com cadeias de suprimentos transnacionais e um peso muito maior do setor de serviços e das tecnologias da informação, “fatores que não podem ser capturados na análise”, como reconhecem os autores.

A pandemia de gripe do início do século XX, que se prolongou de janeiro de 1918 a dezembro de 1920 e se espalhou por meio mundo, infectando 500 milhões de pessoas (um terço da população mundial na época) e matando 50 milhões, provocou uma redução média de 18% na produção industrial em escala estatal. As regiões mais expostas também registraram um maior volume de falências de empresas e famílias. “Esse padrão”, enfatiza o estudo ―intitulado, de forma contundente Pandemics depress the economy, public health interventions do not: evidence from the 1918 flu (Pandemias deprimem a economia, intervenções de saúde pública, não: evidências da gripe de 1918)―, “é consistente com a ideia de que as pandemias deprimem a atividade econômica por meio de reduções tanto na oferta como na distribuição de demanda. E, importante, as quedas na produção são persistentes: as áreas mais afetadas permaneceram deprimidas em relação às menos expostas até 1923”.

Por que medidas restritivas estão associadas a uma melhor saída da economia do buraco? É verdade, afirmam Correia, Luck e Verner, que estas "restringem a atividade econômica". “Mas, em uma pandemia, a atividade econômica também se reduz sem elas, já que as famílias diminuem o consumo e a oferta de trabalho para evitar serem infectadas. Portanto, essas medidas podem resolver problemas de coordenação associados ao combate à transmissão da doença e mitigar a ruptura econômica vinculada à pandemia", acrescentam. Segundo suas cifras, uma reação 10 dias antes da chegada da gripe aumentou o emprego na indústria em cerca de 5% no período posterior à doença. E a ampliação das medidas de distanciamento social por mais 50 dias elevou essa taxa de emprego industrial em 6,5%.

"A lógica econômica em tempos de pandemia, hoje e na época, simplesmente difere da lógica econômica em tempos normais", esclarece Verner por telefone. "Uma pandemia é economicamente tão destrutiva em si mesma que medidas restritivas, se bem projetadas, ajudam a reduzir o golpe". Pode-se aprender alguma coisa com a pandemia de 1918 com relação ao tempo que levará para a recuperação da atividade? "Não é fácil tirar conclusões contundentes e é preciso que sejamos prudentes, mas, se a experiência da época sugere alguma coisa, é que a saída em V [queda rápida, recuperação rápida] será difícil: o impacto provavelmente será mais duradouro e a saída mais provável, em forma de U ou W”, acrescenta o professor do MIT.

A “evidência dos relatos”, destaca a pesquisa, sugere alguns paralelos entre os resultados obtidos no estudo da epidemia da gripe e o da pandemia de coronavírus registrada neste período inicial de 2020: países que aplicaram medidas de distanciamento social em um estágio inicial da pandemia, como Taiwan e Cingapura, “não só limitaram o crescimento da infecção: também parecem ter mitigado a pior disrupção econômica causada pela pandemia”. As lições hoje vêm do Oriente.

A biopolítica e o apocalipse em câmara lenta

Vasco Santos, psicanalista e editor, lê nas entrelinhas do estado de emergência que o coronavírus tem permitido uma oportunista intensificação da biopolítica, para controlar, vigiar e punir.

Parece que não passa um dia em que não sejamos ameaçados com crises e selvajarias. De algum modo, esse parece ser o ar que se respira, aquilo que se lê por toda a parte, desde os jornais aos cartazes publicitários que encontramos nas ruas. Sentimos que se tornou constante o cerco, cujo intuito parece ser o de gerar um estado de alarme, inquietar o espírito e livrar-se da inteligência. Vasco Santos, psicanalista e editor literário, está entre essas poucas vozes que têm procurado minar a campanha à volta da epidemia do novo coronavírus. Em seu entender, esta é, antes do mais, uma epidemia oportunista conduzida pelos media e que nos reenvia à “experiência medieval da praga”. Em declarações ao i, explica como funciona este discurso virtual que se produz a par da realidade, umas vezes sobrepondo-se-lhe, outras deturpando-a, transcrevendo os dados de tal modo que produzam um efeito perturbador. Substituindo a experiência, o efeito de uma comunicação que reduz a linguagem à simples mecânica do lugar-comum é o de lançar no ar uma “poluição moral, procurando-se, ontem como hoje, um objecto contra-fóbico oriental alheio às comunidades atingidas”. Assim, o Covid-19 é uma reformulação do bacilo da peste, que não morre nunca, mas apenas desaparece por uns tempos, fica a aguardar pacientemente por uma aberta, para de novo acordar os seus ratos e os mandar morrer numa cidade feliz.

Vasco Santos cita outro psicanalista, Wilhelm Reich, em tempos colaborador de Freud, que traçou um diagnóstico essencial deste tempo dizendo que “existe uma energia orgânica mortal” e que esta se respira na atmosfera. Tornou-se tão familiar a ideia expressa por Karl Kraus em Janeiro de 1917, num dos seus aforismos – “O estado em que vivemos é o verdadeiro apocalipse: o apocalipse estável” –, que, hoje, mesmo um fabulista tão popular como Murakami reconhece que “toda a gente alimenta o secreto anseio de que o fim do mundo chegue a tempo de o testemunhar”.



Já no final dos anos 1970, o poeta e ensaísta alemão Hans Magnus Enzensberger notava que o apocalipse era uma noção que tinha vindo a degenerar, sendo arrancado do território do sagrado, como uma visão profética e aterradora, para tornar-se mais um mito profano, desses que são traficados como “afrodisíacos”. Assim, o velho pesadelo, esse no sentido do qual a maçã que caiu da árvore do conhecimento parecia rolar, tornou-se mais outra metáfora para o colapso do capitalismo. E precisamente porque é mais fácil imaginar o fim do mundo do que o fim do capitalismo, torna-se evidente esse raciocínio que leva Enzensberger a encarar a ideia do fim do mundo como uma “utopia negativa”. Mas esta noção, quando processada no quotidiano e entregue às feras da imprensa e da opinião, com essa forma de senso comum que se materializa nos clichés, nessa corrupção da linguagem que, em última instância, torna-nos reféns de uma espécie de paranóia vazia, um abismo de falsificações, um manto de tagarelice que cobre o mundo inteiro e provoca em nós um estado permanente de ansiedade. Essa é a nova condição em que estamos a acompanhar a expansão de um vírus, “afinal, modesto e tímido”, como refere Vasco Santos, mas que “serve para impor a ordem, higienizar o corpo e a cidade e relativizar o contrato social”.

Há muito que os autores que lançaram um olhar impiedoso sobre o regime desta intriga nos dizem que o estado de excepção se torna revelador da normalidade social e acentua os mecanismos que permitem aos aparelhos de Estado “vigiar e punir”. “Se as fissuras que se abrem entre os factos não fossem preenchidas com maços de frases feitas; se a esquizoidia do laboratório não fosse dissimulada pela convicção de fazer o Bem, e um Bem cada vez mais avançado, se o raciocínio devastador não se considerasse a encarnação do Senso Comum, se... – a máquina deixaria de trabalhar, e a grande era da experimentação mergulharia num súbito, pesado silêncio”, escreve Roberto Calasso. E acrescenta: “O burburinho da Opinião Pública ajuda a evitar que tal aconteça. É agora este o insuperável combustível psíquico que impulsiona a vida. Como Kraus observou certa vez: ‘A vida continua. Mais do que é legítimo’”.

Mas estamos num plano em que a vida já não faz o sentido que fazia antes, em que o próprio mundo se nos torna estranho, e quanto mais avançamos, menos sabemos. Neste ponto, Vasco Santos recorre ao testemunho de Paulo Varela Gomes que, diante deste problema, propõe que se ponha de parte a biologia: “É evidente que o centro da questão não está nos factores biológicos da Peste, mas sim nos organismos sociais humanos que a contraem, a espalham (e a protegem?). Seguidamente, é necessário não procurar na infraestrutura das formações económicas e sociais a inserção directa da doença; a Peste é, com efeito, um fenómeno ideológico e político, isto é, pertence ao Estado e aos seus Aparelhos”.

No caso específico do Covid-19, Vasco Santos nota que este tem permitido pôr em prática “uma estratégia higienista, antipsicanalítica pela acentuada diminuição da empatia, pela distância social legitimada”. Esta intensificação da biopolítica leva a que se possa notar a tendência que há hoje para que, como refere o autor e editor italiano Roberto Calasso, nós próprios sejamos “uma entidade administrável, que poderá até permanecer por muito tempo na quietude de um armazém, mas que a qualquer momento pode ser chamada a contribuir para o reequilíbrio do massacre”. O que se diz sobre as medidas extraordinárias que a guerra exige vale também para as epidemias. E Vasco Santos vê como o novo coronavírus e as medidas de contenção que este tem exigido acentuam “a ideologia da saúde (por falência da ideia de salvação) e forcluem a morte, esse tabu excelentíssimo de agora”.

“Desinfectamos magicamente as mãos porque somos contra a morte”, acrescenta, antes de nos remeter para o ensaio de Susan Sontag A Doença como Metáfora. É ali que a ensaísta norte-americana nos diz que “a doença é o lado sombrio da vida, uma espécie de cidadania mais onerosa”. “Todas as pessoas vivas têm dupla cidadania, uma no reino da saúde e outra no reino da doença. Embora todos prefiram usar somente o bom passaporte, mais cedo ou mais tarde, cada um de nós será obrigado, pelo menos por um curto período, a identificar-se como um cidadão do outro país”.

Neste momento, estando confusos, atordoados com a informação que nos sacode em rajadas, sucessivos balanços, números de vítimas, de mortos, não sabemos bem o que pensar das medidas de prevenção. Boa parte de nós acolhemo-las, satisfeitos porque alguma coisa está a ser feita, e, assim que as coisas se agravem, será natural que as medidas também se agravem. Seguimos as notícias da pandemia relatada em tom patético e apocalíptico como em tempos nos reuníamos no templo para que o cura nos abalasse diariamente com enormidades e ninharias. Enquanto esta “catástrofe permanente” se apossa de tudo, causando em nós habituação, fica muito claro que o apocalipse, que em tempos tinha algo de venerável, na sua constituição prodigiosa recorrendo a metáforas soberbas, terríficas, está cada vez mais distante de uma ideia do sagrado. Assim, como notava Enzensberger, esta catástrofe tornou-se um “fenómeno inteiramente secularizado”.

“O nosso monstro de sete cabeças responde por uma série de nomes: Estado-polícia, paranóia, burocracia, crise económica, corrida às armas, destruição do meio ambiente”, escreve o ensaísta alemão. “Em tempos, as pessoas viam o apocalipse como um ato da Justiça divina, ao passo que hoje parece um produto metodicamente calculado das nossas acções, e aos espíritos que tomamos como responsáveis pela sua abordagem chamamos comunistas, magnatas do petróleo, terroristas, multinacionais; os gnomos de Zurique e os Frankensteins dos laboratórios de biologia (...) O apocalipse costumava ser um evento singular, que nos acometeria sem aviso como um raio rasgando céus azuis: um momento inimaginável que apenas os visionários e os profetas poderiam antever – e, como é óbvio, ninguém quereria ouvir os seus avisos e previsões. O nosso fim do mundo, por sua vez, é cantado nos telhados até pelos pardais; falta-lhe o elemento surpresa; parece ser apenas uma questão de tempo. A desgraça que esperamos que se abata sobre nós é insidiosa e torturante de tão vagarosa na sua abordagem – é o apocalipse em câmara lenta”. 

quarta-feira, 1 de abril de 2020

Não se culpe apenas o vírus

Quem finge que não vê o que acontece também é culpado
"Mississippi em chamas" (1988) dirigido por Alan Parker com Willem Dafoe e Gene Hackman, relata a investigação sobre o desaparecimento de três ativistas dos direitos civis no estado do Mississippi 

Covid19: Como será o “mundo novo”?

"De Volta para o Futuro 2" é um filme americano de ficção científica de 1989 dirigido por Robert Zemeckis, sendo a continuação do filme de 1985 "De Volta para o Futuro" e a segunda parte da trilogia homônima e estrelada por Michael J. Fox. O filme segue "Marty McFly" (Fox) e seu amigo Dr. Emmett Brown que viajam de 1985 a 2015 para evitar que o filho de Marty estrague o futuro da família McFly. O filme marcou uma geração mundial que cresceu entusiasmada com as viagens no tempo de Marty McFly. Nas próximas linhas convido o leitor a começar a imaginar o que o Marty McFly de 2030 diria para nós no meio do “inferno” de 2020?

Quando olhamos somente para o presente, os dados de opinião pública já traduzem a gravidade da situação. No Brasil, uma pesquisa telefônica, com amostra nacional de 1.555 entrevistas do IDEIA Big Data entre os dias 24 e 25 de março, apontou que aproximadamente 70% dos entrevistados tem medo de serem infectados. O mesmo levantamento mostrou 63% responderam estar muito preocupados e 19% preocupados com a epidemia, somando 81% – em levantamento semelhante concluído na semana anterior, esse índice era de 65% (16 pontos porcentuais a menos em um intervalo de dez dias). A pesquisa também mostra que 50% tem medo de perder o emprego e aproximadamente 69% acreditam que a economia vai piorar. Nos Estados Unidos, uma pesquisa do Washington Post/ABC News apontou também que 69% estão preocupados/muito preocupados com a pandemia. Em resumo, o mundo atual vive em estado de choque pela vida e medo do futuro.

O futuro, ou mundo novo, que Marty Mcfly nos traz de 2030 é diferente. E aqui arrisco algumas tendências que como pesquisador de Universidade George Washington temos nos dedicado a antever. Nesse mundo novo, por exemplo, haverá uma reocupação de espaço mais distribuída. As grandes cidades como Nova York, Madrid, Tóquio, Roma, São Paulo e Xangai vão perder moradores. Muitos questionamentos surgirão sobre o valor de pagar caro por morar em grandes concentrações de pessoas. Vai ficar a sensação: e se acontecer novamente? Com isso novos mapas eleitorais aparecerão e a uma nova dinâmica de poder local ganhará peso.

Em 2030, muitas atividades (estimamos pelos menos 40%) que viraram “home office” durante 2020 continuaram como home office. Isso introduzirá ganhos de produtividade e qualidade de vida pouco mensurados antes da crise. Inclusive na própria gestão pública. Diversos parlamentos e assembleias ao redor do planeta seguiram (em 2020) seu funcionamento on-line com voto e discussões remotas. Estruturas caras e pesadas de cidades como Washington-DC, Brasília, Berlin, Roma, Cidade do México e Nova Delhi foram amplamente questionadas depois da crise. O próprio voto do cidadão passou a ser muito mais remoto que presencial. Estruturas de voto on-line e pelo correio se tornaram comuns.

A discussão sobre saúde pública, desde 2020, ganhou um novo patamar no debate político. A saúde sempre foi prioridade para opinião pública mas equacionar seus problemas e desafios foi constantemente tratado como caro e complexo pelos governantes. O mundo pós Corona se viu obrigado a investir mais e melhor na ciência e na saúde. Aprendeu-se a distinção econômica entre despesa e investimento nesse setor. Diante desse novo contexto, muitos profissionais de saúde pública e ciência (agora tratados como verdadeiros heróis) foram eleitos ao redor do mundo e passaram ao epicentro das decisões políticas.

E essas foram somente algumas mudanças. A humanidade, em 2030, ainda não se recuperou das perdas de milhares de vidas. Todavia, McFly nos diz que a vida em 2030 é mais humana, mais sustentável e mais saudável. Ficará a dúvida, se fosse possível viajar no tempo, se valeria a pena ter mandado alguém do futuro para a feira de Wuhan, na China aonde começou o coronavírus, com a missão de mudar o curso da história. Parece que o presente de 2020 nos levará de volta para o futuro.

Maurício Moura, CEO e fundador do DEIA Big Data

Esse Deus não é o meu!

Lê-se e custa a crer que pessoas ditas cristãs digam à boca cheia que a presente pandemia Covid-19 é um castigo de Deus porque no carnaval do Rio uma escola de samba representou a figura de Jesus Cristo de forma, digamos, pouco ortodoxa, ou por acontecimentos semelhantes.

Essa gente vive fora de tempo, como se estivesse ainda no Antigo Testamento, no tempo em que, na percepção dos hebreus, a justiça divina tinha um carácter tipicamente retributivo. Uma das coisas que se pode apreender no conjunto dos textos do cânon bíblico é que a revelação divina é progressiva.

O pequeno povo do Antigo Israel estava mais centrado na sua luta pela sobrevivência, depois da experiência traumática da escravatura sofrida nos últimos tempos em terras do Egipto. Não tinham treino militar, nem armas, nem sequer um território próprio. Era um conjunto de tribos nómadas a viver numa terra de ninguém, o deserto do Sinai. O seu conceito da divindade era semelhante ao dos povos contemporâneos, com a excepção do monoteísmo. Sustentavam a ideia de um Deus étnico, por via do velho pacto estabelecido com o patriarca Abraão e revalidado em Isaque, Jacob e demais descendência. Tal como qualquer povo da época Israel precisava de uma divindade protectora com a qual se identificasse, e cuja função primordial seria assegurar a sua sobrevivência como povo, e a prevalência sobre todos os inimigos e quaisquer ameaças, prevenindo assim o risco de extinção.

De acordo com a perspectiva bíblica vivia-se então a idade infantil da revelação divina, isto é, o tempo em que aquele povo era tratado como uma criança a quem o pai impõe regras muito claras. Se obedecesse seria premiado, mas em caso de desobediência poderia esperar castigo. Quando a vida corria mal e começaram a sofrer derrotas e exílios, a justificação da desgraça sofrida apresentada pelos líderes e mais tarde pelos profetas hebreus, era sempre de que o Deus de Israel os tinha castigado duramente.

Só com a vinda do Messias Deus se revela de forma completamente diferente. No início do seu ministério público Jesus Cristo profere o célebre Sermão do Monte (Mateus, caps. 5-7), um discurso altamente subversivo, do ponto de vista social, cultural e religioso, uma vez que propunha valores diferentes e até opostos à prática religiosa judaica vigente, o que deixou a audiência desconcertada. Mas sobretudo Jesus de Nazaré vem a revelar o Pai como um Deus de proximidade e de intimidade, assim como o seu carácter e a sua essência fundamental, de que João Evangelista testifica: “Deus é amor” (I João 4:16).

Dizer que a presente pandemia é um castigo de Deus é uma enormidade sem nome. Afinal qual é o conceito de Deus que esta gente tem? Por que razão Deus castigaria tantos inocentes? Que raio de sentimento vingativo seria esse? Como diz Domingos Faria “o vírus é completamente insensível ao carácter moral das pessoas”. O Deus revelado em Jesus Cristo não é mesquinho nem reactivo, nem se deixa insultar por qualquer patetice humana. Os cristãos que difundem a imagem dum Deus mesquinho, afinal, não estarão a fazer mais do que os gregos e os romanos que inventaram deuses à sua própria imagem e semelhança, portadores dos vícios e fraquezas dos homens.

No fundo estão ainda na mesma posição infantil dos discípulos, que tentaram que o Mestre enviasse fogo do céu para castigar uns quantos, só porque tinham o orgulho ferido, por terem sido rejeitados pelos samaritanos: “E os seus discípulos, Tiago e João, vendo isto, disseram: Senhor, queres que digamos que desça fogo do céu e os consuma, como Elias também fez?” (Lucas 9:54). Mas o Mestre repreendeu-os de imediato: “Voltando-se, porém, repreendeu-os, e disse: Vós não sabeis de que espírito sois. Porque o Filho do homem não veio para destruir as almas dos homens, mas para salvá-las” (Lucas 9:55,56).

Como diz Jorge Pinheiro “Deus não castiga – Deus corrige, ensina e disciplina. E que ninguém veja nesta afirmação um jogo semântico. Porque os actos de Deus – como pessoa que é – revelam a Sua natureza. E a natureza de Deus é sempre pedagógica. E a pedagogia não se realiza por castigos mas por correcção, ensino e disciplina.” Haja alguém que diga a essa gente o mesmo que o Mestre Jesus.

Deus não precisa de pandemias para se fazer ouvir, nem de defensores (como pode a formiga defender o elefante?), que são tão pecadores como aqueles a quem apontam o dedo. A natureza do pecado é que será diferente. Precisam de se ver ao espelho, definitivamente.

A alegoria de Camus

Publicado em 1947, A Peste, do escritor franco-argelino Albert Camus (1913-1960), é uma alegoria da ocupação nazista. Por isso, fez tanto sucesso não só na França como na Europa do pós-guerra e também na América Latina, inclusive no Brasil, nas décadas de 1960 e 1970. Camus foi um militante da Resistência, mas teve uma posição muito moderada em relação aos que colaboraram com os invasores alemães durante a II Grande Guerra, condenando os “justiçamentos”. Já era um escritor consagrado, com duas obras elogiadíssimas pela crítica: O estrangeiro e O mito de Sísifo.

Albert Camus nasceu em 7 de novembro de 1913 na Argélia, à época uma colônia francesa, cenário de seu romance, que conta a história de uma epidemia na cidade de Oran, no norte daquele país. Em 1940, um médico encontrou um rato morto ao deixar seu consultório. Comunicou o fato ao responsável pela limpeza do prédio. No dia seguinte, outro rato foi encontrado morto no mesmo lugar. A esposa do médico tinha tuberculose e foi levada para um sanatório. A quantidade de ratos aumentou exponencialmente. Em um único dia, oito mil ratos foram coletados e encaminhados para cremação.

Em pânico, a cidade declarou estado de calamidade, as pessoas tinham febre e morriam em massa. Os muros foram fechados, em quarentena, ninguém entrava ou saía; os doentes foram isolados, as famílias, separadas. Enquanto o padre apregoava que tudo aquilo era um castigo divino, prisioneiros eram mobilizados para enterrar os cadáveres, que empilhavam nas ruas: velhos, mulheres e crianças morriam. O livro é uma alegoria da condição de vida regulada pela morte, fez muito sucesso porque era uma crítica ao fascismo e relatava as diferenças de comportamento diante de situações-limite. Fora escrito durante a ocupação militar alemã. Camus foi editor do jornal clandestino Combat, porta-voz dos partisans.

Em 1951, Camus lançou o livro O homem revoltado, no qual condenava a pena de morte e criticava duramente o comunismo e o marxismo, o que provocou uma ruptura com seu amigo e filósofo Jean-Paul Sartre, que liderou seu linchamento moral por parte da intelectualidade francesa. Mesmo depois do Prêmio Nobel de Literatura, em 1957, continuou sendo um renegado para a esquerda. Seu discurso na premiação foi profético. Permanece atual nestes tempos de epidemia de coronavírus.

“Cada geração se sente, sem dúvida, condenada a reformar o mundo. No entanto, a minha sabe que não o reformará. Mas a sua tarefa é talvez ainda maior. Ela consiste em impedir que o mundo se desfaça. Herdeira de uma história corrupta onde se mesclam revoluções decaídas, tecnologias enlouquecidas, deuses mortos e ideologias esgotadas, onde poderes medíocres podem hoje a tudo destruir, mas não sabem mais convencer, onde a inteligência se rebaixou para servir ao ódio e à opressão, esta geração tem o débito, com ela mesma e com as gerações próximas, de restabelecer, a partir de suas próprias negações, um pouco daquilo que faz a dignidade de viver e de morrer”, disse Camus.


Em comemoração aos 60 anos de sua morte, divulgou-se na França um de seus textos da época da resistência, cujo original foi encontrado nos arquivos do general De Gaulle, o presidente francês que liderara a Resistência do exílio. O documento era destinado às forças que combatiam o marechal Pétain e trata de dois sentimentos presentes no contexto da ocupação: ansiedade e incerteza. A ansiedade “em uma luta contra o relógio” para reconstruir o país; a incerteza, em razão do fato de que, “se a guerra mata homens, também pode matar suas ideias”.

A alegoria de A Peste também serve de advertência diante de certas manifestações de apoio ao regime militar implantado após o golpe de 1964, cujo aniversário foi comemorado ontem. Em 1974, o Brasil enfrentou a pior epidemia contra a meningite de sua história. Para evitar o contágio, o governo decretou a suspensão das aulas e cancelou os Jogos Pan-Americanos de 1975, que foram transferidos de São Paulo para o México. A epidemia começou em 1971, no distrito de Santo Amaro, na Zona Sul de São Paulo. Com dor de cabeça, febre alta e rigidez na nuca, muitos morreram sem diagnóstico ou tratamento.

Em setembro de 1974, a epidemia atingiu seu ápice. A proporção era de 200 casos por 100 mil habitantes, como no “Cinturão Africano da Meningite”, que hoje compreende 26 países e se estende do Senegal até a Etiópia. O Instituto de Infectologia Emílio Ribas, com apenas 300 leitos disponíveis, chegou a internar 1,2 mil pacientes. Na época, eu era um jovem repórter do jornal O Fluminense, de Niterói (RJ). Com a cumplicidade de um acadêmico de medicina, conseguimos fotografar pela janela uma enfermaria lotada de crianças com meningite, no Hospital Universitário Antônio Pedro (UFF). A foto foi publicada com a matéria, mas gerou a maior crise política para a direção do jornal, porque a meningite era um assunto censurado pelos militares. A epidemia só acabou no ano seguinte, após a vacinação de 80 milhões de pessoas, que seria impossível com a manutenção da censura sobre a meningite pelo governo do general Ernesto Geisel.

Pensamento do Dia


Novo tom de Bolsonaro parece pegadinha de 1º de Abril

É sempre arriscado apostar na moderação de Jair Bolsonaro.
No pronunciamento de ontem, o presidente ensaiou uma mudança de tom sobre o coronavírus. Depois de chamar a epidemia de "gripezinha" e "resfriadinho", disse que o combate a ela será o "maior desafio da nossa geração".

Bolsonaro também pediu a "união de todos num grande pacto pela preservação da vida e dos empregos: Parlamento, Judiciário, governadores, prefeitos e sociedade".

Essa bandeira branca durou poucas horas. Hoje cedo, o presidente postou nas redes sociais um vídeo em que um homem diz que os governadores "querem ganhar nome e projeção política à custa do sofrimento da população".

No vídeo, o homem exalta Bolsonaro relata uma situação de desabastecimento na Ceasa de Belo Horizonte. Agora há pouco, o repórter da CBN Pedro Bohnenberger esteve lá e mostrou que não há desabastecimento. Pelo contrário: os feirantes disseram que as vendas aumentaram durante a pandemia. Ou seja, o presidente voltou a divulgar "fake news" para fazer luta política.

Ao que tudo indica, o novo tom de Bolsonaro na TV foi uma pegadinha antecipada de Primeiro de Abril, o Dia da Mentira.

Duas faces dos EUA de Trump

"Distanciamento social" do povo das ruas em Las Vegas
 Para que uma economia funcione bem temos de proteger nossa população. Como podemos pensar numa economia que avance se nossa população está em risco? Como podemos colocar a economia acima da saúde se sem saúde não há economia?
  Kathryn Sikkink, professora do departamento de Políticas de Direitos Humanos da Harvard Kennedy School

31 de março/1º de abril

Este texto é escrito no aniversário do golpe militar de 1964, e será lido no Dia da Mentira. Essa mudança no calendário ocorre no momento em que vivemos o agravamento da pandemia do novo coronavírus submetidos, de um lado, à apologia do arbítrio e, de outro, ao império da mentira como política de Estado.

Eis por que o País passou o dia prendendo o fôlego já curto, imaginando se o pronunciamento de rádio e TV de Jair Bolsonaro seria para espalhar fake news sobre a pandemia e mandar as pessoas saírem às ruas ou para louvar a ditadura. Ou ambas as coisas.


Mas o que se viu e ouviu foi um presidente assustado recuar de todas as bravatas recentes e fazer apenas menção à ajuda das Forças Armadas no combate à pandemia, sem revisionismo histórico.

Bolsonaro pela primeira vez colocou a defesa da vida à frente da dos empregos. Procurou mostrar empatia sincera enquanto lia um teleprompter com expressão e olhos contraídos.

O suspense que antecedeu o pronunciamento era extensivo a ministros, que não sabiam qual seria o tom da fala. Não por acaso. O presidente começou o aniversário do golpe na toada do confronto e da mentira: reuniu sua claque de blogueiros e youtubers fanáticos para interromper e hostilizar os jornalistas na frente do Palácio da Alvorada. Desta vez, no entanto, a imprensa virou as costas e foi embora. Deixou o presidente nu: solitário e cercado de acólitos, o que tem sido a marca de seu governo em 2020.

A OMS também teve de parar tudo que está fazendo para desmentir a versão, depois remendada por Bolsonaro no pronunciamento, de que tinha reconhecido a necessidade de as pessoas trabalharem para “ganhar o pão”.

O recuo repentino de Bolsonaro mostra que ele está ciente de que vem minguando em todas as pesquisas realizadas, inclusive as medições de sua influência nas redes sociais.

Estudo diário feito pela consultora de imagem Olga Curado com base nas redes mostra que há “dois governos” na percepção da população: um “prudente”, simbolizado pelo ministro Luiz Mandetta (Saúde), e outro visto como “irresponsável" e “autoritário”, representado por Bolsonaro.

A incapacidade de lidar com essa diluição da própria imagem e a tendência a ouvir um grupo liderado pelos filhos para tomar decisões vinham ditando a aposta no confronto. “Não há estratégia. Ele age instintivamente, orientado por pessoas rasas, que pensam em consonância com ele. É tática de orelha de livro”, disse Olga Curado, que assessorou presidentes da República e candidatos à Presidência nos últimos 20 anos, à coluna.

O pronunciamento de ontem foi uma tentativa de inflexão nos vários “dias da mentira” e de se aproximar do governo de Mandetta e Paulo Guedes e se afastar dos conselhos dos três filhos, sobretudo de Carlos, o czar da comunicação, e Eduardo, o tradutor que não sabe inglês e cunhou o apelido definitivo do clã: “Família Buraco”.

Bolsonaro reconheceu que não há remédio de eficácia comprovada contra a covid-19, disse que o vírus é uma “realidade” (e não “gripezinha”) e lamentou a perda de vidas, sem o “paciência, acontece” que despejou em entrevista na última sexta.

O barulho ensurdecedor das panelas nas janelas do Brasil durante a fala, no entanto, mostra que a confiança numa mudança sincera de propósito vai depender de ações nos próximos dias.

A missão do governo é fazer a renda de R$ 600 aos mais necessitados, já aprovada no Congresso, chegar às pessoas, algo para que ainda não há data nem formato. É coordenar esforços com governadores e prefeitos e conduzir o País numa única direção para atravessar uma crise que não é possível determinar que duração terá, mas que não pode ser enfrentada com o autoritarismo dos idos de março nem narrativa de Primeiro de Abril.

Por ora, sãos, Francisco

Cristo em Copacabana
Senhores,
Fazei-vos instrumento de vossa saúde.
Onde houver toque, que lave com sabão;
Onde houver tosse, que não leve a mão;
Onde houver discórdia, que louve a informação;
Onde houver dúvida, que leve o gel;

Onde houver asma, que livre a aragem;
Onde houver diabetes, que louve a distância;
Onde houver espirros, que seja alergia;
Onde houver contágio, que leve ao SUS.

Ó Médicos,
Fazei com que se procure mais
Isolar, que ser infectado;
obedecer, que ser contaminado;
alarmar, que ser descuidado.

Pois é pegando que se tem febre,
E propagando, não se é perdoado,
e só vencendo o Covid torna a vida terna.

Rubem Penz

Bolsonaro Jones

Em novembro de 1978, um americano, James Warren Jones, 47 anos, "reverendo" da seita Templo do Povo, fundada por ele mesmo, induziu seus 909 seguidores numa comunidade agrícola chamada Jonestown, na Guiana, a cometer suicídio em massa, tomando suco de frutas (sabor uva) misturado com cianeto. Os primeiros a morrer foram as 276 crianças do local, envenenadas pelos pais. Em seguida, estes se deitaram e tomaram a beberagem fatal. Ato contínuo, Jim Jones, como passou à história, se matou com uma bala na cabeça.

Seu argumento para convencer os fiéis a morrer foi uma ameaça de invasão da comunidade por um suposto inimigo, nunca devidamente definido, que os escravizaria e submeteria a lavagem cerebral. O conteúdo das pregações de Jones era confuso e envolvia marxismo, budismo e metodismo, tudo embrulhado em roupagem messiânica ao estilo de Stalin ou Hitler. Não por acaso, sua mãe, quando ele nasceu, em 1931, na rural e atrasada Indiana, dizia ter dado à luz um "messias". Jones também devia se ver assim, porque parecia acreditar no que dizia. O fato é que nenhum outro líder carismático levou tantos seguidores —quase mil, de uma só vez e a uma simples ordem— tão cegamente à morte. Até agora.

Jair (já de batismo Messias) Bolsonaro pode bater o recorde de Jim Jones. Sua audácia em contrariar a ciência, a OMS, as medidas mundiais e o bom senso, insistindo em levar seus apoiadores a expor-se ao coronavírus, não é muito diferente de propor um suicídio coletivo.

É verdade que ele é o primeiro a seguir o próprio conselho. Sai à rua, deixa-se tocar e circula entre possíveis infectados como se fosse à prova de contágio. Ao desfilar sua autoproclamada invulnerabilidade, parece querer provocar um holocausto particular, como o de Jim Jones.

Jones, pelo menos, foi até o fim. Bolsonaro, para ser coerente, também terá de ir. E não será por falta de bala.
Ruy Castro

Imagem do Brasil

Panelaço  em prédio de São Paulo

A pedra no caminho

O presidente Jair Bolsonaro foi reconhecido pela revista norte-americana The Atlantic como “o líder mundial do movimento de negação do coronavírus”. Já a revista britânica The Economist chamou Bolsonaro de “BolsoNero”, numa alusão à lenda de que o imperador Nero tocava harpa enquanto Roma ardia em chamas. E o presidente brasileiro foi o único chefe de Estado citado nominalmente pela The Lancet, uma das principais publicações científicas do mundo, em editorial crítico às respostas de muitos governos à pandemia, especialmente aqueles que “ainda precisam levar a ameaça da covid-19 a sério”.

Assim, Bolsonaro, graças a seu comportamento irresponsável, começa a conquistar um lugar jamais ocupado por um presidente brasileiro – o de vilão internacional. Nem mesmo o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, idolatrado por Bolsonaro, persistiu em sua costumeira arrogância diante do avanço dramático da epidemia, rendendo-se à necessidade de prorrogar o isolamento social, mesmo ante o colossal custo econômico dessa medida.


Aparentemente, contudo, Bolsonaro não se importa de ser visto como pária. Ao contrário: decerto feliz com a notoriedade global subitamente adquirida, na presunção de que isso lhe trará votos, insiste em desafiar abertamente as diretrizes da Organização Mundial da Saúde (OMS), adotadas pelo Ministério da Saúde e por governadores e prefeitos de quase todo o Brasil. No domingo passado, o presidente passeou por Brasília, visitando zonas comerciais, pedindo que a vida volte ao normal e cumprimentando simpatizantes que se aglomeravam em torno dele – escarnecendo, assim, de reiteradas recomendações de seu próprio ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta.

Como se isso não bastasse, Bolsonaro ainda postou em sua conta oficial no Twitter vídeos e imagens que atestavam sua descarada irresponsabilidade. Ao fazê-lo, conseguiu outra proeza: tornou-se o primeiro presidente brasileiro a ter postagens suspensas pelo Twitter, por negar ou distorcer orientações das autoridades sanitárias na luta contra uma epidemia. O Twitter, aparentemente disposto a conter o vírus da desinformação, já havia feito o mesmo em relação a postagens do senador Flávio Bolsonaro, filho do presidente, e do chanceler Ernesto Araújo.

O temerário passeio de Bolsonaro por Brasília – apenas um dia depois de o ministro Mandetta ter enfatizado a necessidade do rígido isolamento social, pois, do contrário, “vai faltar atendimento para rico e para pobre” – demarcou definitivamente a fronteira que separa o presidente do resto do mundo civilizado. Bolsonaro hoje só governa o território habitado por seus fanáticos devotos.

Nesse país de valentões, em que a ciência e a razão são tratadas como inimigas, o presidente diz que “é preciso enfrentar o vírus como homem, pô, e não como moleque” – e, no léxico bolsonarista, “moleque” é quem defende quarentena contra a epidemia, para salvar vidas e evitar o colapso do sistema de saúde. Já “homem” é ele, o presidente, que repta o bom senso e escancara sua demagogia ao cogitar de acabar com o isolamento social por decreto: “Estou com vontade, eu tenho como fazer, estou com vontade: baixar um decreto amanhã” para permitir a volta ao trabalho de quem precisa “levar o leite dos seus filhos, arroz e feijão para casa” – ou seja, todo mundo. Se milhares de pessoas morrerem por falta de atendimento médico em decorrência dessa irresponsabilidade, “paciência”, disse o presidente, pois, afinal, “um dia todos vamos morrer”.

Não à toa, o governador de São Paulo, João Doria, pediu aos paulistas que ignorem Bolsonaro: “Não sigam as orientações do presidente, ele não orienta corretamente a população e, lamentavelmente, não lidera o Brasil no combate ao coronavírus e na preservação da vida”. Já o ministro Mandetta, desautorizado tão escandalosamente pelo presidente da República, pediu paciência à sua humilhada equipe e, conforme apurou a jornalista Eliane Cantanhêde, do Estado, citou para seus comandados o poema No Meio do Caminho, de Drummond – aquele do verso “No meio do caminho tinha uma pedra”.

Cobrança dos EUA

É realmente importante que os governos tenham a responsabilidade de mitigar a perda de vidas e apoiar a saúde pública. É importante que eles levem isso a sério.

A coisa mais importante agora é evitar uma situação em que o número de doentes ultrapasse a capacidade de atendimentos dos hospitais. Isso é o mais perigoso, porque é quando começamos a perder vidas desnecessariamente.Devemos evitar uma situação em que não possamos prestar assistência médica às pessoas que dela necessitam
Luciana Borio, que ainda trabalhava como assessora da Casa Branca em maio de 2018, quando alertou, durante um simpósio, que uma pandemia de gripe seria a principal ameaça à segurança sanitária nos Estados Unidos. A brasileira era responsável pela unidade de segurança global de saúde do Conselho de Segurança Nacional, órgão ligado à Presidência dos EUA, fechado por Donald Trump

Todos no mesmo barco

É falsa a ilusão de que à atual perda de liberdade por quem está em isolamento corresponde uma súbita fartura de tempo — commodity que ontem como agora vale uma fortuna e é disputada por ilusionistas de todos os tipos. Alguns mercadores ainda teimam em infiltrar nosso confinamento com oferendas bizarras como “Fashion Trends: Metalizados para o Inverno 2020”. Ou “Saldão de Vinhos Grand Cru, Só Até Amanhã!”. Que amanhã?? Os robôs da rede social Linkedin, que já foi comparada a uma escadaria Escher travestida de degrau de ascensão profissional, continuam a informar promoções individuais e de aniversários em empregos. Que empregos??


Confinados ou não, nos sobra pouco tempo para qualquer coisa que não seja relacionada ao coronavírus — o qual, por sinal, dispensa o qualificativo de “novo” por já ter nome e sobrenome de doença (Covid-19). Em compensação o adjetivo é mais atual do que nunca no conceito de “novo-pobre” delineado pelo economista Ricardo Paes de Barros, que há dias prega políticas sociais imediatas, coerentes e sustentadas para as periferias urbanas. Na nave chamada Brasília a urgência é outra.

Enfiados em nossos casulos de ocasião, a fartura de tempo é ilusória. É preciso digerir os prós e contras do medicamento hidroxicloroquina, ora anunciada como medicamento redentor, ora noticiada como tendo provocado mortes na Nigéria. Também precisamos nos atualizar sobre o significado de anosmia (perda de olfato) e ageusia (perda de paladar), citados como eventuais sintomas paralelos do coronavírus. O noticiário global se mescla ao nacional e ao local, com todos ameaçados pelo mesmo vírus. A doença não distingue entre o pulmão do príncipe herdeiro do Reino Unido e os 1,3 bilhão de pulmões de indianos quarentenados por ordem do governo. A morte tampouco faz distinção entre bípedes — ela é o maior equalizador social que conhecemos, talvez o único. É em vida que sociedades fazem suas escolhas de convívio ou exclusão, que os governantes por ela escolhidos tomam decisões de seleção das espécies.

Por fatalidade, para guiá-lo na travessia dessa peste moderna de proporções ainda incertas, o Brasil tem no comando um fio desencapado. Irresponsável nos atos, celerado nas palavras e perigoso no que pensa. Desacredita nos números de mortos da pandemia em São Paulo e nos Estados Unidos por não lhe convirem politicamente, enquanto manifesta a crença de que “brasileiro não pega nada... o cara sai pulando em esgoto, mergulha, e não acontece nada...” Ou seja, esse brasileirinho safo já nasce com vacina própria: por sobreviver sendo preto ou pardo, pobre e favelado, tem os anticorpos necessários contra uma mera Covid-19. Assunto resolvido.

A semana se encerra com o número de infectados globais embicando para além dos 600 mil. Mesmo assim, em meio à torrente de gráficos, dados e estatísticas ininterruptamente atualizados, nos apegamos a histórias individuais, notícias de algum caso específico que nos toca. Felizmente, somos uma espécie social em comunicação voraz mas ainda capaz de sentir a dor e a alegria do outro.

De certa forma, neste início de 2020, nosso planetinha se parece um pouco com a sina do cruzeiro Zaandam, que zarpou de Buenos Aires no início do mês, e aguarda permissão para atravessar o Canal do Panamá e seguir rumo a algum porto disposto a abrigá-lo. Seus 1.243 passageiros foram informados pelo comandante que há quatro mortos a bordo, vítimas da pandemia. Imagine-se as incertezas da viagem até o navio atracar em seu ponto final. No mundo em terra firme não é diferente. Em ambos confiança e coesão coletiva dependem, em boa parte, da capacidade de seus comandantes.

Diante da orfandade nacional neste quesito, cabe a cada um escolher seus conselheiros. Gera conforto ver emergir uma figura serena, clara e objetiva, que tem falado de forma incansável para um Brasil adulto: Margareth Dalcomo, pneumologista e pesquisadora da Fiocruz, sem agenda política para defender. Defende a ciência, o saber, a informação.

De resto, se sobrar tempo, vale mergulhar no recém-lançado “Por que o tempo voa”, de Alan Burdick (Todavia). Ou então resignar-se à constatação formulada por John Updike em suas “Memórias”: “A cada novo dia acordamos ligeiramente alterados, e a pessoa que éramos ontem já não é mais. Portanto, por que ter medo da morte quando ela ocorre o tempo todo?”

Vírus poderosos, líderes opacos

Em 1963, tempo da Guerra no Vietnã, ele nos perguntou quantas mortes haveriam de ocorrer, até que o homem se desse conta de que muita gente tinha acabado de morrer. Em 2020, tempo de vírus poderosos e líderes opacos, Bob Dylan sopra no vento uma longa homenagem a John Kennedy e a uma época de experimentação e esperança.

“Ele foi morto como um cachorro à luz do dia”, canta Dylan ao abrir a canção. “Era uma questão de tempo, e o tempo estava correto. Você tem dívidas a pagar, e nós viemos cobrar. Vamos matar você com ódio e nenhum respeito”.

O assassinato de Kennedy, em novembro de 1963, marcou toda uma geração. Era como o fim precipitado de alguma coisa que nem bem havia começado. Um momento, descreve Dylan, em que o espírito de uma nação foi rasgado. Espírito que entrou em “longa decadência”.

Era o tempo da luta pelos direitos civis. Dos direitos dos negros, das mulheres. Da música como ímã para juntar gente interessada em mudar o mundo. Tudo isso está em Murder most foul, que o poeta incansável lançou inesperadamente nas redes sociais. Bem no momento em que o mundo procura achar forças para combater uma grande pandemia.

Kennedy ia além do America First. Ele foi uma espécie de símbolo de um tempo que estaria para nascer. Apesar do Vietnã, apesar da invasão da Baía dos Porcos. Mas tinha o charme de uma liderança cosmopolita. Alguém capaz de encantar o mundo.

O mesmo mundo que hoje assiste, quase impotente, à expansão de uma doença capaz de levar centenas de milhares de vidas em poucos meses. Tempo em que sobram preocupações e faltam lideranças capazes, ao menos, de inspirar ondas de confiança no planeta sobressaltado.

A liderança chinesa acredita haver feito o dever de casa. Conseguiu conter a expansão do coronavírus por meio de uma dura política de isolamento social e testagem em massa da população. Pode ter conquistado apoio interno com a vitória, ainda que parcial. Mas não inspira, nem pretende inspirar, o resto do mundo.

A Itália, país que até hoje sofreu as maiores perdas depois da chegada do vírus, pecou pela falta de rápida resposta. Da Prefeitura de Milão ao governo nacional, ninguém acreditou que a doença chegaria aonde chegou. O exemplo, ali, vem de baixo. De uma população isolada que canta nas janelas e celebra os seus médicos e enfermeiros.

As ruas de Milão e Roma estão desertas. E foi dali, na deserta praça de São Pedro, no Vaticano, que surgiu a mais candente resposta, até o momento, aos temores da humanidade nesse momento de incerteza. Sozinho, diante daquele enorme espaço público vazio, o Papa Francisco dirigiu ao mundo a benção Urbi et Orbi.

Ele falou para 1,3 bilhão de católicos. Mas, de certa forma, parecia estar se dirigindo ao mundo inteiro. Lembrou que a humanidade se calou diante de guerras e injustiças. Criticou a opção preferencial pelo lucro. “Não ouvimos o grito dos pobres e do nosso planeta gravemente enfermo”, disse Francisco.

O grave tom do pronunciamento de Francisco contrastou com a linguagem quase negacionista de líderes nacionais na Europa e em outras partes do mundo. Uma linguagem politicamente calculada, mas que tinha pouco de empatia e de conforto.

A mais notável exceção parece ter sido a da chanceler Angela Merkel, da Alemanha. Em rara emissão em rede nacional de televisão, ela explicou à população de seu país como o governo alemão reage ao que ela chamou de maior desafio desde a Segunda Guerra Mundial.

Merkel ressaltou a necessidade de atuação conjunta de governo e cidadãos na luta contra a pandemia. Elogiou os profissionais de saúde e lembrou à população que era necessário deter a velocidade de expansão do vírus, para não sobrecarregar os hospitais. E aqui ela se apresentou aos alemães mais humana do que nunca se havia apresentado.

“A Alemanha tem um excelente sistema de saúde, talvez um dos melhores do mundo, mas nossos hospitais ficariam sobrecarregados se tantos pacientes com infecções severas causadas pelo coronavírus fossem admitidos em tempo tão curto”, observou Merkel.

“Eles não são apenas números abstratos em uma estatística, mas sim um pai ou um avô, uma mãe ou uma avó, um companheiro. São Pessoas. E nós somos uma comunidade em que cada vida e cada pessoa importa”, completou.

O discurso de Merkel, uma líder geralmente descrita como fria e distante, espalhou-se rapidamente pelas redes sociais em todo o mundo. Como um exemplo de transparência, sobriedade e empatia. Como exemplo de alguém em quem se poderia confiar.

As últimas semanas têm mostrado que não adiantou muito a tentativa de apresentar a pandemia como algo distante ou como manipulação da mídia internacional. O vírus cruzou fronteiras e desafiou governantes que duvidavam do alcance da pandemia.

O primeiro-ministro do Reino Unido, Boris Johnson, que se alinhava na turma dos céticos, foi pessoalmente atingido pelo coronavírus. E seu governo adotou nova postura diante da pandemia. Johnson foi à televisão para dizer que os britânicos deveriam permanecer em casa e sair apenas para compras essenciais ou necessidades médicas.

A mudança chegou também à Casa Branca. No domingo, o presidente Donald Trump pediu aos americanos que fiquem em casa pelo menos até o fim de abril, para reduzir o ritmo de expansão da pandemia. Ele foi convencido por seus assessores de que até dois milhões de americanos poderiam morrer se mantivesse os planos iniciais de romper a política de isolamento social nos próximos dias.

“Nada seria pior do que declarar vitória antes de conseguir a vitória”, disse Trump, em raro momento de modéstia e conciliação.

As idas e vindas do presidente americano são típicas de uma época de inquietude e incerteza. A pandemia surpreendeu o mundo em um momento de pouca cooperação e muito confronto geopolítico. Um momento onde a importância demasiada ao nacional tem desviado para o caminho do provincianismo, onde florescem governantes de curta visão.

Poucos líderes de hoje se arriscariam, como fez Kennedy com seus erros e acertos há meio século, a apresentar ideias ao mundo. Dylan escolheu o tempo certo para lembrar o seu exemplo.
Marcos Magalhães

Lento e sem testes, Brasil escolhe a roleta russa do coronavírus

O Brasil passou essa última semana consumido pela polêmica em volta ao último pronunciamento do presidente Jair Bolsonaro. Contra todas as evidências e estatísticas sobre o contágio exponencial do coronavírus e as fatalidades relacionadas a ele desde a China, até Itália e Estados Unidos, contra os argumentos e conselhos técnicos de epidemiologistas e especialistas em saúde pública, alguns do seu próprio Governo, contra a preocupação da imensa maioria dos brasileiros com a saúde e a vida de amigos e familiares, o presidente atacou o fechamento das escolas e do comércio e pediu para os brasileiros não deixarem uma “gripezinha” atrapalhar o seu dia-a-dia.

As críticas e os panelaços não tardaram. Infelizmente, a polêmica em relação a postura do presidente tira o foco de um problema muito maior: a falta de estratégias e de decisões cruciais para enfrentar a crise é uma receita segura para uma catástrofe de dimensões incalculáveis. Enquanto o fla-flu nas redes sociais corre solto, o país continua tendo na prática e não somente no discurso uma das mais fracas e lentas reações à pandemia de todo planeta. Se trata de uma política de Estado que freou e continua freando ações essenciais na fase inicial do combate ao contágio com o coronavírus e que poderá resultar no colapso simultâneo do SUS, da atividade econômica e da coesão social.


Enquanto debatemos se é mais importante focarmos nos aspectos de saúde pública ou na crise econômica, uma discussão outrora completamente irracional, já que nunca haverá como salvar a economia de um país com milhares de cadáveres espalhados pelas ruas, outros países vêm adotando medidas enérgicas para limitar a extensão geográfica do contágio e conter o crescimento do número de casos em três linhas essenciais de atuação: o controle do fluxo de movimento das pessoas, o rastreio e o estrito isolamento dos casos potenciais, e a testagem maciça das comunidades mais afetadas. China, Cingapura, Coreia do Sul e Hong Kong demonstraram que uma estratégia de prevenção amparada nesses 3 eixos pode conter a epidemia em menos de três meses. Infelizmente, o Brasil não prestou suficiente atenção.

Enquanto países vizinhos muito menos afetados pela pandemia como Argentina, Peru e Colômbia seguem o exemplo asiático e tomam medidas drásticas para impor toque de recolher, fechar fronteiras e paralisar os transportes, milhares de passageiros oriundos de zonas de alto risco transitam diariamente pelos aeroportos brasileiros sem qualquer tipo de fiscalização. Parece surreal, mas estados como Ceará, Maranhão e Bahia, que tentaram pelo menos medir a temperatura dos passageiros no ponto de chegada, foram acionados na Justiça pela ANVISA, que conseguiu barrar os procedimentos. No Brasil, a agência cuja missão é liderar os esforços de contenção do contágio está se valendo das suas prerrogativas para fazer exatamente o oposto. Mesmo com mais de 100.000 casos confirmados nos EUA, o maior número do mundo, passageiros de Nova York estão pousando hoje em aeroportos pelo Brasil inteiro. Em quase qualquer outro país do mundo, esses passageiros ou já estariam barrados de viajar, ou estariam obrigados a permanecer por 14 dias em centros de quarentena do Estado, ou no mínimo seriam obrigados a permanecer em isolamento domiciliar durante esse período e multados caso desrespeitarem esse compromisso. No Brasil, eles estão sendo incentivados a saírem pelas ruas para movimentar o comércio. Como surpreender-nos então que o vírus se espalhou por todo o território nacional, já chegando até em aldeias indígenas?

Ao contrário das melhores práticas recomendadas pela Organização Mundial da Saúde e pelos especialistas dos sistemas de saúde que melhor lidaram com a crise até agora, o Ministério da Saúde não adotou medidas eficazes para assegurar ou pelo menos incentivar o rastreamento de pessoas que chegaram em contato com casos confirmados da Covid-19 (“contact tracing”). Mais que isso, por conta de escassez, o ministério vem recomendando a aplicação de testes somente em casos sintomáticos graves. Na prática, a falta do rastreamento de contato junto com a impossibilidade de testar portadores assintomáticos acelera a transmissão comunitária do vírus. Enquanto na Ásia aplicativos disponibilizados pelas autoridades de saúde pública permitem às pessoas descobrir em tempo real a identidade e a localização de pacientes confirmados que estiveram na sua proximidade, o Brasil não pode citar nenhum avanço nessa direção.

Outro aspecto muito problemático da gestão brasileira da Covid-19 até o momento é a questão dos testes. O Ministério da Saúde vem divulgando gráficos comparativos com a evolução da pandemia em países europeus e argumentando que a evolução do contágio vem sendo muito mais devagar que na Itália ou na Espanha. Mas como é possível acreditar em tal comparação sem qualquer tipo de transparência em relação ao número de testes que já foram realizados ou serão realizados no futuro? Desde o início da crise é notório que hospitais pelo país inteiro não conseguem testar todos os pacientes suspeitos de infecção, mesmo alguns em estado grave, por conta da falta de testes suficientes. Enquanto isso, a previsão de entrega de testes da Fiocruz feita pelo Ministério da Saúde contradiz os dados da própria Fiocruz. É absolutamente imperativo que a situação dos testes seja resolvida com celeridade para reduzir a subnotificação de casos. Ao contrário, as medidas de saúde pública adotada pelas autoridades podem estar norteadas por dados distorcidos.

Hoje, o debate público no Brasil deveria estar focado nessas questões. Também deveria estar focado na busca de uma estratégia para lidar com a queda abrupta da atividade econômica enquanto há um aumento galopante do número de casos. O isolamento de bairros, cidades, ou regiões do país onde a situação continua muito grave ou o isolamento vertical das pessoas mais sensíveis ao vírus poderão ser a nossa última opção caso o número de infecções continue aumentando depois de 3 ou 4 meses de isolamento horizontal. O cenário dramático enfrentado pela Itália, Espanha e os Estados Unidos deixa claro que o país precisa começar a se preparar para esse cenário sombrio e cheio de riscos, para evitar com que o fim do confinamento traga uma completa rendição frente ao poder destruidor da pandemia. Relaxar as medidas de quarentena sem um planejamento extremamente cauteloso, certamente incluindo os três eixos descritos acima, significaria uma abdicação do nosso dever moral de protegermos as vidas dos mais vulneráveis.

Igual ao resto do planeta, o Brasil está se arriscando num jogo perverso de roleta russa. A bala que já está no revólver é o vírus. Não podemos permitir que ele também seja carregado com as balas do despreparo, da ignorância, da desunião, da falta de foco. Seria uma morte segura.