segunda-feira, 27 de janeiro de 2020

Deu ruim na humanidade

Eu sei que a humanidade está num momento difícil. Você sabe que a humanidade está num momento difícil. Afinal, não teríamos Jair Bolsonaro e Donald Trump no poder, entre outros espécimes nocivos à sobrevivência da espécie, não estivesse a humanidade num momento muito confuso sobre suas prioridades. No sábado, 25 de janeiro, porém, eu tive certeza sobre o fim do mundo como o conhecemos. Nesta data, não observei pinguins nem baleias nem focas. A espécie sob minha observação era o homo sapiens em estado de absoluta negação.

Estávamos prontos para desembarcar do Arctic Sunrise e embarcar num bote que nos deixaria em Hannah Point. Era início da manhã e seguiríamos os cientistas de pinguins em sua pesquisa nesta nova ilha. E então Nacho, o argentino que é o segundo em comando no navio, informou que não seria possível. Teríamos que esperar até o início da tarde. Parem e tentem adivinhar o porquê.

Previsão de tempestade? Uma dobra no espaço-tempo? O abominável homem das neves?

Não, meus amigos. Os mais de cem turistas de um navio de cruzeiro queriam estar sozinhos na ilha. Sim, meus amigos. A visão dos cientistas pesquisando o impacto da crise climática sobre as colônias de pinguins arruinaria a ilusão da Antártida isolada, da aventura num lugar que ninguém alcança exceto se tiver muito dinheiro, a fantasia de serem uma espécie de Shackleton ou Scott do século 21.

Turismo dos endinheirados invade a Antártida
A discussão pelo rádio, entre os navios do Greenpeace e o cruzeiro rolava desde as 6h30 da manhã. O business venceu a queda de braço. Não é bom fazer inimigos em águas profundas. Esta é a lógica dominante no nosso mundo: o turismo é mais importante do que a ciência. Os seis cientistas atrapalhariam os mais de cem turistas – e não o contrário. Para os seis cientistas não havia problema em conviver com mais de cem turistas. Mas os cem turistas não queriam conviver com os seis cientistas. A falsificação da realidade é a melhor realidade. E também a mais bem paga.

Funciona assim. Há um acerto entre os cruzeiros para que, quando um deles está numa ilha, os outros saem da linha de visão. Os turistas pagam caro pela promessa de se sentirem únicos: neste caso, quase 60 mil reais por 14 dias (perto de 14 mil dólares). Pode ser muito mais, a depender do percurso, do tipo de cabine, do número de dias. A mercadoria é a Antártida inalcançável, exceto para poucos. “Só eu estou aqui, me chamem de Amundsen”, pode ser a legenda da selfie. Só que não. Virando a esquina uma fila de navios espera a sua vez de ficar “isolado” no continente gelado.

Para que eles tivessem essa “experiência”, seis cientistas tiveram que interromper sua pesquisa e esperar até a tarde, quando o tempo piorou e a permanência em campo foi encolhida. Os cientistas precisaram desembarcar nas pedras para alcançar o coração da ilha porque, com as más condições meterorológicas, o bote era muito leve para aportar num lugar de melhor acesso. “Que estranho”, comentou um perplexo Noah Stryker, o nerdbird que apresentei a vocês no capítulo anterior. “Os turistas costumavam gostar de conversar com a gente, achavam que era mais uma história para contar quando voltassem para casa.” Com tristeza expliquei a ele que, num momento em que a verdade se tornou uma escolha pessoal, a ciência e os cientistas estão se tornando párias. Mesmo que, para afirmar que a terra é plana ou fingir estarem isolados, tantos os mercadores de ilusões quanto os compradores de ilusões precisem do melhor da ciência.

Esta não é uma curiosidade. É um desacontecimento que revela o quadro maior de acontecimentos em cadeia que nos traz à dramática realidade que vivemos. É também por essa inversão das prioridades que vivemos hoje um colapso climático. E é também a dificuldade de mudar nossas prioridades que torna a meta de limitar o superaquecimento global a 1,5 graus cada vez mais distante, para não dizer impossível.

É o “terraplanismo”, como chamamos o fenômeno maior de negar as evidências científicas mais consolidadas, como o próprio formato do planeta. O número crescente de adeptos sugere que, no momento em que os humanos mais precisam de lucidez é justamente quando entram em estado de negação. Quem acompanha minhas colunas de opinião sabe que uma de minhas hipóteses para a eleição de déspotas é o sentimento de insegurança diante do futuro. Mas não pela indeterminação do futuro. Exatamente pelo contrário.

O futuro, como o conhecíamos antes, era um território de possibilidades. “No futuro será melhor” ou “no futuro atingiremos esse objetivo” ou mesmo “no futuro conseguiremos nossa casa própria”. Agora não. A crise climática conferiu determinação ao futuro. Ele será ruim, do ponto de vista do impacto da mudança do clima. Toda a nossa luta pelo futuro se dá em torno de um planeta pior ou um planeta hostil. E, acreditem, a diferença é enorme. Tão enorme que deveríamos todos estar lutando por ela neste exato momento. Me parece que também por isso, parte da população global prefere votar em negacionistas do clima que também prometem uma volta a um passado que nunca existiu. Trump e Bolsonaro, assim como outros de seus coleguinhas, são vendedores de passados. Passados falsos.

Não tive chance de entrevistar os turistas do navio de cruzeiro que pagam tão caro pela fantasia de estarem isolados na Antártida das lendas. Eles nos queriam longe da vista, como ficou explícito. Não me parece, porém, que devam ser más pessoas ou declaradamente anti-ciência. Me parece mais possível que sejam típicos adultos mimados desta época. Pagamos por uma mercadoria e temos “o direito” de recebê-la. “A verdade é a que eu vou contar”, a prova é o enquadramento da câmera do celular. E assim por diante. A verdade é autoverdade, como já escrevi ao analisar a eleição de Bolsonaro.

Aqui, também os navios de cruzeiro estão literalmente vendendo um passado, o da Antártida inacessível. Em algumas ofertas de viagem pela Antártida, os potenciais clientes não são chamados de turistas, mas de “exploradores”. É curioso como tantos preferem pagar mais caro pela fantasia. Tantos deixam o conforto de suas casas para empreenderem um percurso real e pago com dinheiro real, mas para alcançar uma realidade falsificada. Na ilha que os turistas ocuparam como os únicos humanos, os pinguins de barbicha (chinstraps) vivem uma dramática redução de sua população. Esta é a história que os cientistas poderiam contar. Mas essa história não interessa. Quem, afinal, precisa de fatos?

Num planeta em que tudo já virou imagem, em que a marca de nosso pé está em todos os lugares, acabo por sentir compaixão por esses animais humanos que seguem comprando fantasias de exclusividade. É uma compaixão misturada à raiva, porque essa negação enfraquece a luta que deveríamos estar travando por políticas públicas para conter o superaquecimento global e nos adaptar ao mundo que está vindo. Antes de amaldiçoarmos os turistas antárticos, o que sempre é fácil e também cômodo, porém, devemos olhar para dentro de nós e descobrir que também temos dificuldade de abandonar velhos hábitos em nome do bem comum. Acreditem, há quem sequer é capaz de reciclar seu lixo ou reduzir o consumo de carne.

Hoje, os cientistas se tornaram a verdade inconveniente. Então, precisam ser tirados da vista. E não apenas na Antártida.
Eliane Brum, sétimo relato do diário de bordo no navio Arctic Sunrise, na Antátida

domingo, 26 de janeiro de 2020

Os despreparados

“Despreparados” era como parte da população, em especial os industrialistas, se referia aos nazistas em 1933 quando Hitler foi nomeado chanceler. Como não tinha o partido qualquer proposta econômica que articulasse uma agenda de medidas para resolver os problemas da Alemanha em meio aos diversos entraves internos e à Grande Depressão, a “visão convencional” era a de que os nazistas não seriam capazes de se manter no poder. As críticas de Hitler ao capitalismo, centradas em seus excessos e no suposto domínio do sistema por forças estrangeiras, não formavam uma base coesa a partir da qual se pudesse elaborar políticas econômicas para a Alemanha no período entreguerras.

Foi assim que muitos sucumbiram facilmente à ideia de que mais cedo ou mais tarde os nazistas perderiam o apoio daqueles que haviam sido responsáveis por sua ascensão. A economia, entretanto, haveria de crescer 10,5% entre 1933 e 1935, o que acabou por consolidar as bases políticas do nazismo, formadas por camadas diversas da população, notavelmente os industrialistas e detentores do poder econômico, antes árduos críticos de Hitler.


Por que escrevo sobre o nazismo? Porque a Alemanha nazista foi o exemplo mais extremo do nacionalismo econômico posto em prática. Como já comentei, estou escrevendo um livro sobre esse tema. Parte do livro trata de uma metodologia para “medir” o grau, ou a intensidade, de motivações nacionalistas nas diversas esferas da política econômica — da política macroeconômica à política comercial, da política industrial ao tratamento conferido aos investidores estrangeiros. Para medir a intensidade do nacionalismo pontuações de 1 a 5 foram estabelecidas, em que 5 é o grau mais extremo possível — as referências históricas para elaborar a pontuação mais alta da escala são a Itália de Mussolini e a Alemanha nazista.

A recuperação econômica entre 1933 e 1935 conferiu a Hitler a legitimidade e o poder de que necessitava para levar a cabo seus planos. Planos que resultaram em crimes hediondos contra a humanidade, para não falar da completa destruição das instituições democráticas da Alemanha.

Diante dos horrores inomináveis do nazismo, é espantoso o sucesso econômico do regime antes da guerra. Após a consolidação do poder de Hitler, a Alemanha cresceu quase 13% entre 1936 e 1939, a fase áurea do Terceiro Reich. A inflação foi de apenas 1,8%, e o desemprego caiu de 44% no início dos anos 1930 para 1% às vésperas da Segunda Guerra Mundial. O triunfo do nazismo na economia se deu pelo nacionalismo mais extremista e escancarado. Não é exagero dizer que todas as esferas econômicas eram de alguma forma controladas pelo Estado, ainda que os industrialistas e os “mercados” de então fossem agentes privados. Agentes privados cooptados pelo Estado, dado o sucesso incomparável das medidas de cunho nacionalista.

O nazismo se escorou na expansão fiscal, nos controles cambiais, na eliminação das práticas de livre-comércio e na cartelização da economia para promover o crescimento. A cartelização foi muito bem recebida pelas grandes empresas industriais ao lhes conferir vultosas margens de lucro. Tais margens de lucro foram ainda beneficiadas pela total eliminação dos movimentos trabalhistas e dos sindicatos.

A marca do nazismo na economia — assim como do nacionalismo totalitário de Mussolini — foi a capacidade de reprimir salários e de instituir reduções dos rendimentos nominais. Por essas razões, pôde a economia crescer a taxas exorbitantes com inflação ineditamente baixa, a despeito dos excessos fiscais — entre 1932 e 1938, o déficit público aumentou de 1,1% do PIB para 7,9%. O resultado da compressão salarial foi uma forte redução do consumo como proporção do PIB e uma alta expressiva do investimento, tanto público quanto privado — as empresas, afinal, estavam esbanjando recursos com a opressão dos trabalhadores e a tolerância do regime com a concentração do mercado.

Para quem ainda confunde nazismo com socialismo, ou com comunismo, ou com políticas ditas “de esquerda”, é importante sublinhar que a compressão salarial na Alemanha nazista foi única. Até hoje, nenhum país foi capaz de replicá-la.

Quando deslanchou, olhos se fecharam e relativizações do totalitarismo em curso viraram regra. O nazismo não é o único exemplo de erro histórico cometido por aqueles que optaram por separar a economia do restante do governo devido à contradição em termos de uma moral privada dos mercados. É, entretanto, o exemplo mais assustador de como o despreparo se transforma em absoluto horror com a conivência daqueles que detêm o poder econômico.
Monica de Bolle

Brasil lá fora

Cartaz de protesto na Índia (Francis Mascarenhas -Reuters)

Um governo que apequena o Brasil

O governo cria suas próprias crises e é autofágico. Não haveria problema com esta inclinação de se consumir, exceto pelo fato de que isso atinge o próprio país. Nos últimos dias, ele criou problemas em dose excessiva até para os seus padrões. O presidente anunciou que poderia criar o Ministério da Segurança e 24 horas depois disse que isso tem chance zero. O ministro Paulo Guedes falou em criar o “imposto do pecado” e o presidente desmentiu. Mas isto é o governo andando em círculos e se consumindo em seus improvisos e brigas de facções. O que realmente importa é o que atinge o Brasil.

A cúpula financeira se reuniu em Davos, durante a semana, e deu um recado claro de que o rumo mudou e que o dinheiro irá para investimentos e países que tenham compromissos com o combate às causas da mudança climática. O Brasil foi para a reunião despreparado, o ministro da Economia fez um improviso infeliz e o presidente, na sexta, aqui no Brasil, deu uma declaração sobre os indígenas brasileiros que revela preconceito.


O Brasil errou muito, ao longo da sua história, na relação com os povos originais desta terra. Durante a ditadura, o governo seguiu a orientação de que era preciso “integrar”, forçar o contato, transformá-los em soldados, em moradores de áreas próximas às cidades. Foram muitos os absurdos e todos eles provocaram mortes e destruição cultural de várias etnias. Ao fim do regime militar, o país enfim formulou uma política indigenista de respeito às profundas diferenças entre os diversos povos, seja em estágio de contato com os não indígenas, seja em ritos de suas culturas. Estabeleceu que jamais forçaria o contato com os que se isolassem, a não ser que fosse para protegê-los, e intensificou o esforço de demarcação. Ficou escrito na Constituição que a terra é da União, mas nela os índios vivem. Os povos indígenas que estão na Amazônia são parte da estrutura de proteção das florestas, como se pode ver pelas imagens de satélites e se pode conferir em visitas às aldeias.

O presidente demonstrou em uma única fala toda a carga de preconceito que tem em relação aos indígenas. “O índio está evoluindo e cada vez mais ele é um ser humano igual nós”. A frase é tão ruim que dispensa críticas. Essa mesma ideia da sub-humanidade dos índios está contida em outras declarações do presidente. Revela preconceito e também desconhecimento do assunto. Se fosse só uma frase. Mas há toda uma política que ameaça repetir erros velhos e trágicos que resultaram em muitas mortes.

O presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, entendeu o que está contido nos muitos documentos dos gestores de fundos e dos administradores de bancos durante a reunião do Fórum Econômico Mundial e disse ao “Valor” que “o tema ambiental afeta o fluxo financeiro”. Exato. Foi o recado de Christine Lagarde, presidente do Banco Central Europeu (BCE), foi o que disse o BIS, orientador dos bancos centrais. Foi o que disse Larry Fink, do BlackRock, o gestor do maior fundo do mundo em carta aos presidentes de empresas. O TCI, fundo de hedge conhecido por práticas agressivas, avisou que a mudança climática será critério para os seus investimentos. George Soros vai investir US$ 1 bilhão em uma universidade com o objetivo de combater o que ele chama de “desafios gêmeos”: a mudança climática e os governos autoritários. O Goldman Sachs não vai trabalhar na abertura de capital de empresas nas quais não haja diversidade em seus conselhos de administração. Até o capital veio mudando nos últimos anos, só o governo não viu. Esse encontro de Davos parece ter sido o ponto da virada.

O Brasil tem 60% da maior floresta tropical do mundo, a parte mais significativa da maior bacia hidrográfica e 300 povos indígenas. Poderia ter chegado a essa conversa com todo o amadurecimento que o tema já teve no país nos últimos anos. Mas o governo apequenou o Brasil. E, com o seu discurso ultrapassado, põe em risco a nossa inserção no mundo.

A criação do Conselho da Amazônia foi anunciada sem ter conteúdo. Por enquanto é só um nome. Para que este conselho funcione na direção certa será necessário que o governo abandone os preconceitos e os equívocos nas políticas ambiental, climática e indigenista. O governo precisaria entender, afinal, o tesouro imenso que é a diversidade ambiental e humana do Brasil.

Sem escola, fecha-se

No Brasil, podemos agregar milhões ao mercado do livro. Basta ter escola decente. É necessária uma rede escolar
Luciana Villas-Boas

O mercado não se importa com a democracia?

Um medidor da qualidade da água de um rio mede apenas a água que passa por ele e, se o faz com precisão, cumpre bem sua função. Ninguém esperaria que seus números refletissem também o nível de desemprego no país, a desnutrição infantil ou a chance de o país entrar em guerra.

Indicadores econômicos e números do mercado financeiro seguem a mesma lógica: nos informam acerca de um recorte da realidade, e só. Se a bolsa bate novos recordes, significa que os investidores estão otimistas com o desempenho futuro das empresas ali negociadas, não da seleção de futebol ou da democracia brasileira.

Em última análise, o desempenho das empresas depende do comportamento dos consumidores e outros participantes do mercado. Você vai mudar seu consumo, deixar de comprar leite ou carne, por causa do discurso nazista do ex-secretário da Cultura? Vai pedir demissão do seu emprego?

O governo também não mudará seus gastos e nem sua arrecadação. Assim, por mais que a agenda cultural aponte para um retrocesso das artes, não há motivo evidente para que isso devesse gerar queda na bolsa ou alta da taxa de câmbio.

Quando Bolsonaro desferia ataques gratuitos a Rodrigo Maia durante as negociações da reforma da Previdência, suas falas podiam ter impacto na reforma e, portanto, no futuro das contas públicas. Foi pelo potencial de impacto econômico, e não pelo absurdo político, que as falas de Bolsonaro tiveram impacto no câmbio naquele caso.

Não faz sentido criticar indicadores econômicos em termos éticos, porque eles não têm como medir a ética. O que faz sentido, aí sim, é criticá-los em termos econômicos. O profissional do mercado financeiro é tão irracional quanto o restante da espécie humana, e dado aos mesmos vieses intelectuais. E não é segredo para ninguém que muitos (não todos) são fãs do governo Bolsonaro e de Paulo Guedes.

Talvez a torcida exagerada explique por que, em janeiro de 2019, o boletim Focus previa crescimento próximo de 2,5%. Ao fim do ano, as projeções haviam se reajustado para 1,1%. A simpatia pelo governo pode levar a desconsiderar os riscos do flerte autoritário para a estabilidade econômica do país (assim como antipatia pode levar a superestimá-los).

“O mercado” —substantivo enganoso, pois se refere a milhares de agentes independentes e que muitas vezes discordam entre si— já errou muitas vezes e pode errar agora. Para os críticos, é uma oportunidade de ouro: se o mercado está erroneamente otimista, é o momento de apostar contra e faturar alto.

Não existe incoerência nenhuma entre PIB em crescimento e repressão em alta. É só ver a China. Isso não significa que investidores não se importam com a democracia ou com o social. Significa que, seja qual for o regime, as pessoas continuarão consumindo e buscando emprego.

O crescimento do PIB —ou os índices da Bolsa— nada nos diz sobre diversos fatores essenciais de uma boa sociedade: distribuição de renda, preservação ambiental, felicidade, qualidade da democracia. É possível a economia crescer enquanto a Amazônia queima? Sim. E enquanto o presidente flerta com a ditadura? Também.

Se um governo nazista limpasse um rio, o medidor da qualidade da água registraria melhora, e isso não diria nada sobre todas as outras coisas que importam. Não adianta se indignar com indicadores por fazerem seu trabalho. Só tenha em mente que a realidade é muito mais ampla do que qualquer um deles.

A correia de transmissão do autoritarismo no Brasil de Bolsonaro

Uma das discussões importantes entre os analistas da democracia brasileira atualmente consiste em saber se o presidente Jair Bolsonaro e seu Governo representam ou não um risco para a democracia brasileira. Na segunda-feira, o cientista político Celso Rocha de Barros, escreveu um importante artigo respondendo a articulistas que vêm defendendo a ideia de que o balanço que se pode fazer do primeiro ano de Governo Bolsonaro é o de que a democracia brasileira resistirá às bravatas autoritárias do atual presidente e aliados.

Para Rocha de Barros, as ameaças são reais e o fato de as instituições não terem desmoronado no primeiro ano de Governo não significa que elas não estejam em risco. Claudio Couto, mostrando como o teste permanente das instituições pode acabar esgarçando essa resistência, e Claudio Ferraz, apontando que as democracias se fragilizam em contextos de extrema polarização, também contribuíram para o debate.

Parece claro que não podemos simplesmente comemorar o fato de a democracia ter resistido a um presidente com perfil e discurso claramente autoritário em seu primeiro ano, como um sinal de que ela resistirá mais adiante.


Eu escrevi, em novembro, para o site da revista Piauí, um artigo alertando que o autoritarismo do século XXI vai minando a democracia aos poucos. Não acordamos um dia com tanques na rua e um regime autoritário, mas governantes eleitos democraticamente vão, ao longo de alguns anos, corroendo instituições de freios e contrapesos, até que elas perdem força e o autoritarismo se consolida. Os artigos que apontam a sobrevivência da democracia neste primeiro ano como sinal de que não teremos uma virada autoritária poderiam tranquilamente ter sido escritos ao final dos primeiros anos dos Governos —hoje claramente autoritários— na Nicarágua, Hungria, Venezuela, Polônia, Turquia e Índia.

Claro que também se deve ter cuidado para não se tocar de forma leviana o alarme do autoritarismo. O Brasil ainda tem instituições que têm funcionado como contrapesos importantes às inclinações autoritárias do Executivo. Congresso, Supremo Tribunal Federal, imprensa e sociedade civil têm conseguido reagir contra diversos ataques ao bom funcionamento da democracia.

Também não se pode fingir que as inclinações autoritárias presentes na sociedade e no Estado brasileiros surgiram com a eleição de Bolsonaro. As milícias que oprimem regiões inteiras do Rio e mataram Marielle Franco penetram o Estado bem antes de sonharem com o Planalto, a Constituição é obra de ficção para os jovens negros das periferias, ataques aos povos indígenas não são exatamente uma novidade na nossa história. Os exemplos são, infelizmente, infindáveis.

O que mudou? O que faz com que o momento atual represente um risco muito mais tangível de uma virada autoritária profunda no Brasil?

Há uma mudança clara na sociedade. Um defensor explícito da tortura, da ditadura e da homofobia não seria eleito em um Brasil relativamente recente. Algo mudou na tolerância da nossa sociedade com esses valores antidemocráticos. O autoritarismo latente na nossa história tornou-se novamente desavergonhado – talvez fruto da forte polarização como aponta Ferraz- e não há como negar que isso represente um terreno muito mais fértil para que ataques à democracia deixem marcas mais profundas em nossas instituições.

Além disso, parece haver na sociedade uma radicalização da tensão em torno de temas morais, com ênfase especial na questão de gênero. As reações violentas contra debates e manifestações a favor da pauta LGBT ou de direitos das mulheres tomam proporções impressionantes. Seja na bomba jogada no prédio da produtora do grupo Porta dos Fundos, seja nas ameaças recebidas por Felipe Neto por defender um quadrinho com beijo gay, seja na violência contra a antropóloga Debora Diniz, forçada a deixar o país, podemos perceber que a manifestação pública nesse tema gera um novo tipo de violência. Essa radicalização tem propiciado uma naturalização de violências contra defensores de uma visão de mundo menos conservadora.

Nada disso foi inventado por Bolsonaro. O que muda então? A presença de um chefe do Poder Executivo que foi eleito baseado justamente nos valores afirmados por essas violências altera a forma como as instituições brasileiras reagem a essas manifestações violentas.

A cada discurso que reforça uma visão autoritária por parte do Governo (do ministro emulando nazismo ao presidente dizendo que as pessoas de esquerda não merecem ser tratadas como pessoas normais), os setores mais violentos da sociedade vão se sentindo à vontade para avançar contra seus inimigos e as instituições vão, pouco a pouco se sentindo confortáveis para reforçar as violências ao invés de proteger a constituição.

O Governo anuncia que não haverá mais fiscalização, os grileiros e o crime organizado reagem imediatamente não apenas avançando no desmatamento, mas com ameaças e assassinatos de líderes indígenas e defensores do meio ambiente. E as instituições respondem não coagindo essas violências. O presidente diz que as ONGs são responsáveis pelos incêndios nas florestas causados por esses mesmo grileiros criminosos, as instituições reagem falseando investigações para acusar brigadistas que trabalhavam com ONGs —e até com polícia e bombeiros locais— para apagar o fogo.

O presidente e seu ministro escolhem a agenda do enfraquecimento da legislação para punir policiais que matam, a polícia do Rio reage com seu ano mais violento da história, com o número assustador de cinco pessoas mortas pela polícia por dia no Estado. O presidente diz que o jornalista Glenn Greenwald “talvez pegue uma cana aqui no Brasil”, as instituições reagem apresentando uma denúncia sem fundamento, em um dos mais graves atentados à liberdade de imprensa no país pós-88. O discurso presidencial estimula o ódio contra a esquerda, um grupo fascista reage jogando uma bomba no prédio do grupo Porta dos Fundos e Judiciário carioca responde censurando o especial de natal do grupo.

É esse mecanismo de alimentar a violência através do discurso e criar um ambiente para que as instituições corroborem essa violência ao invés de reprimi-la que marca a diferença do que vemos hoje com o autoritarismo latente do Brasil.

Neste primeiro ano de Governo, apesar de uma reação de apoio aos ventos autoritários por parte de instituições principalmente locais, o Congresso Nacional, o Supremo Tribunal Federal, parte relevante da imprensa e a sociedade civil têm conseguido impedir que o discurso de fato desmonte a democracia.

São inúmeros os exemplos em que essas instituições (em geral a soma de suas ações) têm conseguido barrar o autoritarismo. Ou seja, a discussão não é sobre se há ou não ameaça à democracia. Mas se essas instituições serão capazes de resistir a essa pressão —apontada por Claudio Couto— constante por tanto tempo. E é aí que as perspectivas são menos animadoras.

Bolsonaro indicará no mínimo dois ministros do STF até 2022 e mais dois caso seja reeleito. Com a atual forma do STF decidir, na qual decisões individuais são quase sempre mais importantes do que o voto do plenário, é difícil prever o que ministros comprometidos com os valores e ideias de Bolsonaro podem fazer com nossa democracia.

Rodrigo Maia e Davi Alcolumbre não poderão ser reeleitos para as presidências das casas legislativas (a não ser que alterem a Constituição) e, a partir de 2021, Bolsonaro poderá tentar emplacar aliados mais próximos no comando das Casas. Quem garante que os ataques verbais de Bolsonaro à imprensa e à sociedade civil não se concretizarão nos próximos anos, aproximando seu Governo de seus pares no campo internacional como Viktor Orbán?

O risco à nossa democracia existe. O contexto global de crescimento de Governos autoritários exige que reconheçamos isso. No nosso caso, a correia de transmissão entre o discurso autoritário, passando pela violência de grupos sociais e a acolhida de instituições estatais, fica cada vez mais clara. A resistência à naturalização desse processo passa por denunciá-lo constantemente e evitar qualquer barganha para naturalizá-lo (“nenhum silêncio é inocente”, alertou Eliane Brum aqui no EL PAÍS).

Também é necessário compreender que há um campo de batalha política fundamental na defesa de um STF comprometido com a Constituição, de um Congresso que valorize a democracia e na preservação da imprensa livre e do espaço para a sociedade civil. A capitulação desses pilares pode transformar uma violência esparsa na nossa sociedade em uma violência diretamente direcionada para a manutenção de um grupo político no poder, com beneplácito das instituições. Se isso acontecer, não podemos ficar surpresos, os indícios que vemos aqui são muito parecidos com indícios que países hoje autoritários apresentaram depois de um ano de Governo.
Pedro Abramovay

sábado, 25 de janeiro de 2020

Imagem do Dia


Grandes empresas poderão salvar o mundo?

Ao andar pela Promenade, a principal rua de Davos, na Suíça, tem-se a impressão de estar ocorrendo na cidade uma convenção de caridade, e não uma reunião de 119 bilionários e muitos presidentes de empresas importantes e representantes do setor econômico mundial.

"Vamos fazer dos negócios a melhor plataforma de mudança", diz a placa na frente de uma loja alugada por uma empresa. Outra mostra "O crescimento é uma ilusão?" com letras de neon brilhantes e arredondadas que seria possível encontrar na parede de uma cafeteria hipster.

Mais adiante está a "tenda ODS", que organiza sessões abertas sobre temas como o futuro do capitalismo, finanças sustentáveis ou direitos LGBTI – todos pagos por empresas que desejam mostrar como estão comprometidas em ajudar a alcançar os 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) definidos pela ONU.

A mensagem que as empresas estão tentando passar é bem clara: nós acordamos; já se foram os dias em que o lucro era sobreposto à moral; agora nós nos preocupamos com o meio ambiente e em tornar este mundo um lugar melhor.

Mas as empresas não têm contado essa história há tanto tempo quanto o Fórum Econômico Mundial existe? E ainda assim o mundo não está no caminho certo para alcançar as metas que estabeleceu para si mesmo – tome como exemplos o Acordo do Clima de Paris, de 2015, ou os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável. Então as grandes empresas realmente cumprirão suas promessas desta vez?

Os manifestantes anti-Fórum Econômico Mundial na Promenade certamente já decidiram sua resposta. "Você realmente acha que as instituições e corporações que têm pensado e feito negócios de uma certa maneira podem mudar assim só para serem boas com os outros?", pergunta Sebastian Justiniano, dando sua resposta logo em seguida: "Eu acho que não."


Svein Tore Holsether discorda. Ele é o presidente da Yara, uma empresa norueguesa cujo principal negócio é a produção de fertilizantes sintéticos. Isso significa que a companhia é parte do setor agrícola, responsável por um quarto das emissões globais de gases de efeito estufa.

Sentado em um canto tranquilo de um dos luxuosos saguões de hotel de Davos, Holsether explica por que quer transformar a Yara em uma empresa mais sustentável. "Eu acho que representa uma oportunidade de negócio incrível", afirma. "Nós administramos nossos negócios com fins lucrativos, e isso é algo que precisamos para reinvestir e desenvolver o negócio."

Ele fala sobre como a Yara mudou sua estratégia para o desenvolvimento de novas soluções após o Acordo do Clima de Paris; e sobre como a empresa, por exemplo, está planejando ajudar o agricultor a maximizar sua produção. Assim, será necessário menos terra, que ficaria livre então para árvores que absorveriam o CO2 do ar. Isso seria bom para o meio ambiente, para a segurança alimentar, para os agricultores – e, claro, para os resultados finais da Yara.

"Nos últimos anos, ficou cada vez mais claro que as empresas que são capazes de adaptar seus modelos de negócios tanto aos desafios como às oportunidades que vemos agora serão as que sobreviverão", sublinha Holsether.

Na verdade, as empresas têm cada vez menos o poder de escolher se querem ou não se tornar verdes. O Relatório de Riscos Globais, divulgado antes do início do Fórum Econômico Mundial, listou fatores ambientais como a maior ameaça à ordem mundial. As condições climáticas extremas e os desastres naturais causados pelas mudanças climáticas prejudicariam os negócios.

E até mesmo Larry Fink, presidente da maior gestora de investimentos do mundo, a BlackRock, advertiu recentemente que as empresas que não levam sustentabilidade a sério podem ter problemas quando procurarem financiamento no futuro.

Se tal transformação da economia impulsionada pelo mercado acontecerá com a rapidez suficiente, isso já é outra questão. As emissões de dióxido de carbono da Yara, por exemplo, aumentaram de cerca de 10 milhões de toneladas em 2013 para 16,6 milhões de toneladas em 2018, apesar da nova estratégia de sustentabilidade.

Portanto, se as forças do mercado trabalham de forma lenta para fazer com que as empresas se comportem de maneira mais sustentável, o que pode acelerar esse movimento? Alguns argumentam que se faz necessária uma mudança de mentalidade econômica em relação a qual é o objetivo de uma empresa.

A grande ideia lançada em Davos neste ano foi o conceito de "capitalismo das partes interessadas". É a noção de que as empresas não têm a responsabilidade apenas de gerar lucros para seus investidores, mas responsabilidade com todos os afetados por suas ações, como sua força de trabalho, consumidores ou meio ambiente.

A economista Mariana Mazzucato é a favor do conceito – desde que ele seja mais do que apenas um chavão vazio. "Dada a crise que estamos enfrentando – não apenas o clima, mas também a desigualdade, os sistemas de saúde e o estado de bem-estar social que está entrando em colapso de várias maneiras ao redor do mundo –, não temos tempo para besteiras", afirma.

Os governos devem repensar como investem na economia e, particularmente, o que exigem em troca disso. Afinal, dar dinheiro às empresas as torna partes interessadas, e uma parte importante disso. Como exemplo de como isso poderia funcionar, ela menciona o governo alemão, que vinculou empréstimos estatais a empresas siderúrgicas à sua capacidade de reduzir a pegada de carbono.

"Faça com que seja condicional", afirma Mazzucato. "Eles precisam ou morrem. É o que fazemos em outras áreas. Você não pode usar crianças numa fábrica. Existe a lei e você será excluído do negócio. Nós precisamos tornar as coisas obrigatórias." Ela acrescenta que, no entanto, isso só funcionaria com métricas adequadas que garantam que as empresas cumpram o que prometeram.

Uma iniciativa que trabalha com tais métricas é a empresa sem fins lucrativos World Benchmarking Alliance (WBA). O grupo elaborou uma lista das 2 mil empresas mais influentes do mundo que juntas representam metade da economia global. Atualmente, uma equipe de cerca de 50 pessoas está trabalhando em classificá-las de acordo com a forma como elas contribuem para alcançar os vários Objetivos de Desenvolvimento Sustentável.

Ao disponibilizar essas métricas gratuitamente, espera-se que seja possível responsabilizar as empresas e garantir que elas cumpram seus compromissos.

"É como as resoluções de Ano Novo", conta o presidente da WBA, Gerbrand Haberkamp. "Nós sabemos que é difícil mantê-las. E é o mesmo para as empresas. Em fevereiro já é difícil ir à academia. É por isso que precisamos dessas métricas."

Assim, as brilhantes campanhas de sustentabilidade são mais do que fumaça e espelhos? As empresas estão realmente começando a se comportar de forma mais responsável? Sim, parece que algumas realmente estão. Não necessariamente porque elas têm um coração grande, mas porque faz sentido em termos comerciais.

Elas estão mudando rápido o suficiente? Não, certamente não estão. Talvez seja melhor colocar nas palavras do cientista Johan Rockström: "Ainda estamos tendo ilhas de sucesso em um oceano de ignorância."
Deutsche Welle

Convém não esquecer

Num país periférico, onde a história passa pelo ridículo sem se chamuscar, o espetáculo é de fato chinfrim
Otto Lara Resende 
Esqueça a patriotada heroica. A estratégia do governo em relação à cultura é promover a censura, perseguir e expurgar servidores, atacar artistas (de esquerda ou não), aparelhar as instituições com militantes de extrema direita, liberar uma verbinha para os apaniguados. Nem reencarnando a Viúva Porcina Regina Duarte mudará esse quadro.

Para um pobre de espírito como Bolsonaro, cultura nunca fez o menor sentido, tampouco patrocinar uma "arte nacionalista", como propunha o —por ora suspenso— Prêmio Nacional das Artes. Exemplo do desprestígio, a literatura seria contemplada com "25 contos inéditos".


O Brasil sempre esteve na cabeça de nossos escritores. Até a atual presidente da Casa de Ruy Barbosa, Letícia Dornelles, conseguiria montar uma biblioteca nacional: de "Os Sermões", de António Vieira a "Os Sertões", de Euclides da Cunha", passando por "Casa-Grande & Senzala", de Gilberto Freyre, "Raízes do Brasil", de Sérgio Buarque de Holanda, "Um Estadista do Império", de Joaquim Nabuco, "Formação da Literatura Brasileira", de Antonio Candido.

Provavelmente dona Letícia não incluiria em seu cânone das obras de formação "O Negro no Futebol Brasileiro", de Mario Filho —então incluo eu. Na ficção, "Memórias de um Sargento de Milícias", de Manuel Antônio de Almeida, é o primeiro romance que se pode considerar brasileiro. Seguido de "Triste Fim de Policarpo Quaresma", de Lima Barreto, "Vidas Secas", de Graciliano Ramos, "O Tempo e o Vento", de Erico Verissimo, "Grande Sertão: Veredas", de Guimarães Rosa. Na poesia, Gregório de Matos, Castro Alves, João Cabral de Melo Neto.

Publicado em 1984 —com a ditadura militar ainda viva—, "Viva o Povo Brasileiro", de João Ubaldo Ribeiro, vale por 10 mil aulas de moral e cívica. E os romances "Marrom e Amarelo", de Paulo Scott, e "A Morte e o Meteoro", de Joca Reiners Terron, ambos de 2019, são a cara do que está se passando e se tornando o país.

Maior drama dos assalariados é que estão sempre perdendo a corrida com a inflação

Numa entrevista a Manoel Ventura, O Globo de sexta-feira, o secretário especial de Fazenda do Ministério da Economia, Waldery Rodrigues Júnior, anunciou que o governo Bolsonaro vai propor ao Congresso Nacional nova política para o reajuste do salário mínimo, não incorporando mais às reposições anuais o índice de crescimento do Produto Interno Bruto. O reajuste seria limitado com base apenas no índice inflacionário divulgado pelo IBGE.

Pela legislação atual o movimento do salário mínimo decorre da soma da inflação mais a taxa de crescimento do PIB. Assim se a inflação for 4 e o PIB 1 o reajuste seria de 5%. Sem considerar o PIB o reajuste será de apenas 4%.

O problema, entretanto, não se refere apenas aos 30% de trabalhadores e trabalhadoras que ganham apenas o primeiro degrau da escala de salários. Deve se considerar um outro aspecto, que diz respeito a todos os 100 milhões de trabalhadores e trabalhadoras do país.

Trata-se do fato de os reajustes salariais sucederem sempre ao índice inflacionário anual. Isso significa que ao fim de 12 meses a reposição pode levar a um empate na corrida. Porém, a partir do mês seguinte o custo de vida estará subindo e os salários estacionados.

Este problema não tem solução, mas significa que ao longo de 11 meses os assalariados estarão perdendo poder de consumo, o que agrava qualquer tentativa de redistribuição de renda. Waldenyr Rodrigues Júnior acredita que o projeto estará concluído até o mês de agosto.

O desafio de iniciar um processo efetivo de redistribuição de renda só pode ser viabilizado de alguma forma através da politica salarial. Não existe outro caminho efetivo e sólido, porque os programas de Bolsa Família e Seguro Desemprego não podem refletir uma intervenção, por menor que seja a redistribuição da renda.

O Seguro Desemprego por exemplo, é limitado a quatro meses e só ocorre quando houver desemprego, logo não pode influir em nenhum estágio voltado a equilibrar a questão de remuneração do capital e a remuneração da força de trabalho.

A questão da corrida entre os salários e a inflação possivelmente não tem solução, mas isso não quer dizer que o problema não resida nesse contexto e nesse confronto.

É muito baixa a renda do trabalho no Brasil e devemos considerar também que existem problemas sociais de extraordinária importância que não se encontram atacados como deveriam.

Um deles, por exemplo, é o fato de metade da população brasileira não ser atendida pelo sistema de saneamento básico. O salário médio brasileiro situa-se em torno de 2.000 reais. Metade da força de trabalho ganha de um a pouco menos de 3 salários mínimos.

Para realmente aumentar o consumo e a economia crescer sustentavelmente, é preciso elevar os salários. O resto é paisagem.

sexta-feira, 24 de janeiro de 2020

Fala de Bolsonaro revela preconceito em relação a índios e desconhecimento sobre a questão

A fala do presidente Jair Bolsonaro sobre os índios carrega um preconceito inaceitável. Ele disse na quinta-feira que o índio está evoluindo e que, “cada vez mais”, é “um ser humano igual a nós.” Bolsonaro já falou outras coisas nesse sentido, e desta vez foi explícito. Além do preconceito, o presidente tem deixado evidente que não entendeu a questão indígena.

— O índio mudou, tá evol... Cada vez mais, o índio é um ser humano igual a nós. Então, vamos fazer com que o índio se integre à sociedade e seja realmente dono da sua terra indígena, isso é o que a gente quer aqui — disse o presidente, na transmissão ao vivo pela Internet.

O Brasil cometeu muitos erros com os povos originais e tem uma conta histórica negativa. Na redemocratização, o debate com indigenistas foi mostrando que o melhor caminho era respeitar a maneira como cada tribo quer viver, sem forçar contatos com os povos.

O indigenismo atual surgiu após a ditadura. O período militar cometeu diversos crimes contra os indígenas. Tentou transformá-los em soldados e integrá-los nas cidades. Muitos morreram ou ficaram sem suas raízes culturais. Eles se perderam das mais variadas formas. Essa história terminou em tragédias. 

A Constituição estabeleceu vários poderes para a população indígena. Mas eles não são donos da terra, que é da União. Esse foi o começo do acerto do Brasil com suas populações originais.

O presidente não entende a importância dessa política. Os indígenas cumprem o papel de proteger o meio ambiente, é como se eles prestassem esse serviço ao restante da nação. É possível ver isso, por exemplo, no interior do Maranhão. A mata original foi derrubada. Quando aparece uma floresta, é porque chegamos a um território indígena de recente contato. É a experiência é de ter entrado em um paraíso.

Isso precisa ser entendido. Bolsonaro tem a mesma visão dos governos militares, o que provocou muita morte nos anos 1970. Sempre que o presidente fala do tema é para defender a mineração no território dos índios, se reúne com garimpeiros. A Funai é enfraquecida a cada dia, as coordenadorias regionais são transferidas com frequência. O presidente anterior da Fundação saiu alertando para o desmonte da Funai.

É grave o que está acontecendo. Além do preconceito, a frase revela os erros da política indigenista, que pode nos fazer inúmeros prejuízos em todas as áreas. O mais importante é defender as populações indígenas e entender o processo que levou a uma política mais eficiente e civilizada na relação com povos indígenas que, sim, são seres humanos desde o início, obviamente.

Brasil adianta ponteiros do Relógio do Juízo Final

O Relógio do Juízo Final teve seus ponteiros ajustados nesta quinta-feira para a marca de apenas 100 segundos para a meia-noite, simbolizando o maior perigo para a humanidade registrado desde criação do dispositivo em 1947.

O Brasil foi citado pela primeira vez como um dos causadores do aumento do nível de perigo em razão das políticas ambientais do governo e do desmantelamento da proteção à Amazônia.

O avanço dos ponteiros foi decidido pelo Boletim de Cientistas Atômicos, um painel internacional de especialistas que controla o dispositivo e conta com a participação de 13 ganhadores do prêmio Nobel.


Outros fatores levados em conta foram o aumento das tensões internacionais, a maior utilização de tecnologias destrutivas, a militarização do espaço e o desenvolvimento de novas armas supersônicas, além do risco de uma nova corrida nuclear.

"Passamos a contar em segundos o quanto estamos próximos de uma catástrofe, não em horas ou minutos", disse Rachel Bronson, presidente do organismo. O Relógio do Juízo Final foi inicialmente criado para medir os riscos de uma catástrofe nuclear, mas desde 2007 passou a incluir também as mudanças no clima do planeta e seus efeitos.

"No ano passado, alguns países agiram para combater as mudanças climáticas enquanto outros, incluindo os Estados Unidos, que deixaram o acordo de Paris, e o Brasil, que desmantelou políticas de proteção à floresta amazônica, deram vários passos para trás", afirma o grupo de cientistas em comunicado.

Entre as causas de preocupação, os cientistas destacaram o fracasso da Conferência do Clima em Madri, o aumento das emissões de CO2 e incêndios de grandes proporções ocorridos "desde o Ártico até a Austrália".

No ano passado, o aumento das queimadas na Amazônia gerou comoção internacional e fez com que o Brasil se tornasse alvo de pesadas críticas de governos e organizações ambientalistas em todo o mundo.

Em 2019, em torno de 10 mil quilômetros quadrados de floresta foram devastados no Brasil. O desmatamento na Amazônia cresceu 85,3% em comparação com 2018, de acordo com dados divulgados pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe).

O Brasil abriga 60% da Floresta Amazônica, que é um regulador chave para os sistemas vivos do planeta e também para o índice de chuvas no país. Suas árvores absorvem cerca de 2 bilhões de toneladas de dióxido de carbono por ano e liberam 20% do oxigênio do planeta.

Depois de ter sido considerado uma história de sucesso ambiental, o Brasil vem perdendo prestígio, principalmente desde a eleição de Jair Bolsonaro à presidência. Ele já declarou várias vezes a intenção de explorar a floresta amazônica, ameaçando reservas naturais e terras indígenas, e chegou a negar a existência de mudanças climáticas.

Devido ao discurso do presidente e à agenda ambiental do governo, especialistas temem que o desmatamento no Brasil atinja níveis alarmantes nos próximos anos.

O Relógio do Juízo Final foi inicialmente acertado em sete minutos para a meia-noite. A pior marca até agora – dois minutos para a meia-noite – havia sido registrada nos anos de 2018 e 2019.

Segundo o dispositivo, o mais longe que a humanidade já esteve de uma catástrofe foi em 1991 com o fim da Guerra Fria, quando o relógio marcou 17 minutos para o fim dos tempos.
Deutsche Welle

A fé do Brasil dividido

Não passa semana sem que jornais e revistas divulguem dados e análises que mostram o declínio numérico dos católicos em relação ao conjunto das outras religiões. Ou, mais especificamente, em relação aos evangélicos. Agora mesmo, uma nova análise prevê que em 2035 o catolicismo deixará de ser a religião da maioria da população brasileira. Os evangélicos serão maioria. Essa redução do tema a mera demografia da fé esvazia as religiões do que lhes é próprio e anula seu tema essencial - que são o sagrado e os ritos por meio dos quais se expressa.

Enquanto as análises, nessa perspectiva, descosturam as religiões, o ecumenismo junta o catolicismo e diferentes religiões, protestantes e ortodoxas, numa outra unidade, de uma nova religiosidade. De oposição e de revisão crítica das crenças que sucumbiram à mentalidade de supermercado e ao afã de poder.

Não se diz, mas a maioria evangélica dessa reflexão é apenas nominal, já que dividida em diferentes igrejas, que competem entre si pela alma dos pecadores. E até pela natureza dos pecados que congregam os respectivos membros. Há pecados de ricos e pecados de pobres, difere a fé de uns e outros e, portanto, a respectiva religiosidade.

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Não é estranho, pois, que o simbolismo das vestes cerimoniais do celebrante anteponha um bispo neopentecostal revestido de paramentos judaicos a um missionário neopentecostal de outra igreja, que no púlpito não usa o quipá, mas o chapéu de vaqueiro dos filmes de faroeste. A principal questão nessas mudanças na demografia religiosa é a de saber qual é o Deus que delas nasce.

O catolicismo continuará a ser a religião da maioria dos brasileiros, mesmo depois de 2035. É que, se o catolicismo é tratado como uma religião, cada uma das igrejas evangélicas concorrentes é também única. Nesse sentido, é cada uma delas muito minoritária. Sem contar que as igrejas neopentecostais nem mesmo podem ser reduzidas às pentecostais, bem diferentes. O artifício meramente estatístico de agrupá-las, no censo, na categoria de evangélicas, não faz delas de fato uma unidade religiosa, uma igreja ou uma religião única. Há entre elas grandes diferenças de concepção do cristianismo.

O que os analistas não têm mencionado é que o catolicismo, apesar de suas diferenças internas, mantém sua unidade centrada na autoridade simbólica e doutrinária do papa. Já os evangélicos se fragmentam continuamente. O que resulta na multiplicação das pequenas igrejas neopentecostais que se instalam no pequeno espaço do que foi antes um botequim ou uma farmácia.

Essas pequenas igrejas, organizadas por pastores simples, representam uma disputa de clientela com as grandes igrejas neopentecostais. Estas tendem a expressar os anseios de ascensão social da classe média que vem se evadindo da Igreja Católica, mas também de algumas igrejas protestantes tradicionais e mesmo de outras igrejas neopentecostais e pentecostais.

As pequenas igrejas expressam os sentimentos comunitários e a religiosidade dos simples, os que carecem de vida e vida em abundância. Os que aceitam que a prosperidade na teologia da ascensão social é a recompensa dos que professam a fé mediada pelo cálculo.

As religiões ocupam um espaço cada vez maior na realidade social, não só aqui. As guerras e os riscos de guerra, na atualidade, estão dominados pela temática e pela motivação religiosa. No Brasil, o embate político principal já não é entre direita e esquerda, apesar de tudo que se diz. O embate é religioso. É busca do poder como meio de impor ao conjunto da sociedade os valores desses grupos culturalmente minoritários, conservadores e frequentemente intolerantes. Está surgindo aqui uma religião do poder e por meio dela se firma o poder da religião. Nessa metamorfose, a democracia sucumbe, não o catolicismo.

Para o catolicismo e para as igrejas cristãs tradicionais, como se vê nos esforços e nos valores religiosos do movimento ecumênico, o que está em jogo não é a disputa entre as religiões. O que está em disputa é a vitalidade e o sentido do sagrado. Está em disputa, também, a religião contra a coisificação dos seres humanos na cultura da pós-modernidade.

Várias das religiões que estão se disseminando entre nós expressam o homogenismo materialista do pensamento único, o que torna cada vez mais difícil ser crítico e autodefensivo em relação à crescente incapacidade de muitos de ver a decisiva diferença entre Deus e poder. Entre as igrejas da caixa da esmola e as igrejas da caixa registradora.

Na nova unidade dos cristãos, a polarização não é entre católicos e evangélicos, mas entre fé e poder. Um retorno ao cristianismo da insurgência contra os vendilhões do templo e a desumanização do homem.
José de Souza Martins

Ala militar precisa conter Paulo Guedes antes que ele venda o Brasil por 30 dinheiros

Os militares que assessoram o presidente Jair Bolsonaro precisam fazer com que ele entenda que de nada adianta a independência político-territorial do país, enquanto não existir independência econômica. Na verdade, o maior risco que o Brasil corre na gestão atual é justamente perder a independência econômica, caso a equipe conduzida pelo ministro Paulo Guedes não venha a ser contida pelo chefe do governo.

Não é possível permitir que Paulo Guedes continue a desfrutar de autonomia completa, porque ele confessadamente não atua tendo por base os interesses nacionais. Agora mesmo, em Davos, o czar da economia defendeu a abertura das concorrências do governo à participação das empresas internacionais que nem estejam operando no país.


A tese que Guedes adota na filial Brazil desmoraliza completamente as práticas adotadas pela matriz USA. Basta lembrar que, para sair da Grande Depressão, em 1933 o governo Herbert Hoover aprovou no Parlamento o “Buy American Act”, uma legislação altamente protecionista, que o governo Ronald Reagan aperfeiçoou em 1983, ao estabelecer preferência ao uso de materiais produzidos no país em quaisquer aquisições para o setor de transporte de massa, financiadas pelo menos em parte por fundos federais.

Aqui no Brasil, Guedes quer fazer o contrário e desprestigiar o produto Made in Brazil. Nessa iniciativa nada patriótica, ele conta com apoio irrestrito da quase totalidade de sua equipe, especialmente do economista Roberto Castello Branco, que preside a Petrobras e diz que todos os ativos dele são privatizáves.

Doutor pela Universidade de Chicago, amigo pessoal e ex-sócio de Paulo Guedes, de quem desfruta total intimidade, no ano passado Castello deu declarações estarrecedoras a Bruno Rosa e Ramona Ordoñez, de O Globo. Revelou seu “sonho” de pôr fim a todas as empresas estatais e defendeu até a extinção do BNDES aqui na filial Brazil, esquecido de que a matriz USA não revela a menor intenção de vender suas estatais. Aliás, Inglaterra, Suécia, Japão, Coreia do Sul e muitas outras nações também não pretendem fazê-lo.

Não cabe ao presidente da Petrobras fixar a política estratégica do Ministério de Minas e Energia nem dar declarações a respeito. A fixação dessas diretrizes é atribuição direta da Presidência da República e está acima da competência do próprio ministro – no caso, o almirante Bento Albuquerque, que tem se mantido discreto.

Roberto Castello Branco, no entanto, se comporta de modo inoportuno, inconveniente e impróprio. Seria uma espécie de porta-voz informal do presidente Bolsonaro? Estaria falando em nome do ministro Guedes? Ou trata-se mesmo de um caso de internação?

Além disso, é muito estranho que ele venha a defender a extinção do BNDES, um banco de fomento criado por Getúlio Vargas em 1952 e que se mostrou importantíssimo na industrialização do país. Era o maior banco de desenvolvimento do mundo, até ser superado por sua versão chinesa, o CDB (Banco de Desenvolvimento da China), criado em 1994 à imagem e semelhança do BNDES, depois que um grupo de economistas chineses visitou o Brasil.

Paulo Guedes fala mal dos banqueiros, mas não é para valer. Na semana passada, até disse que a alternativa à sua política econômica será “o Brasil continuar dominado por seis bancos e seis empreiteiras”. Na prática, está em pleno desenvolvimento sua armação para beneficiar os banqueiros (via reforma da Previdência e extinção do BNDES), e tudo é feito às claras, sem subterfúgios.

Se os militares não percebem essas verdades, então sigam em frente, privatizem a Previdência, vendam todas as estatais, especialmente a Petrobras, que está no quarto lugar no ranking da produtividade do setor, e acabem logo com o BNDES, entreguem o país a Guedes e seus áulicos, mas nada mudará, a dívida pública continuará crescendo e o país desmoronando. Podem apostar.

quinta-feira, 23 de janeiro de 2020

Bravo, Brasil!

Caros brasileiros,

outra vez. Outra vez o governo brasileiro fez referências ao nazismo. Agora foi o ex-secretário da Cultura Roberto Alvim. Num vídeo sobre os novos rumos da cultura brasileira, ele citou trechos de um discurso de Joseph Goebbels, que foi ministro da Propaganda de Adolf Hitler.

A fala de Alvim veio no pior momento possível: justamente poucos dias antes da comemoração dos 75 anos da libertação de Auschwitz. Mais de um milhão de judeus morreram nesse campo de extermínio dos nazistas na Polônia.

Neste dia 23 de janeiro, mais de 40 chefes do Estado vão se reunir no Yad Vashem, memorial do Holocausto de Jerusalém, num encontro dedicado à luta contra o crescente antissemitismo no mundo.

Poucos dias depois, no dia 27 de janeiro, Dia Internacional em Memória às Vítimas do Holocausto, sobreviventes de Auschwitz vão alertar para o risco de que a história se repita quando suas vozes se calarem.

A história do Holocausto repetida, esquecida, negada ou deturpada? O que parecia há pouco tempo impensável, infelizmente, já está acontecendo. Até na Alemanha. Segundo uma pesquisa de opinião da Agência dos Direitos Fundamentais da União Europeia, 45% dos alemães concordam com a afirmação de que judeus usam o Holocausto em benefício próprio.

O presidente Jair Bolsonaro conhece a história do Holocausto. E conhece Yad Vashem. Na sua visita oficial ao Israel em abril 2019, visitou o memorial em Jerusalém e afirmou que "aquele que esquece o seu passado está condenado a não ter futuro". Mas, na mesma visita, ele deu uma prova de que não esquecer o passado não quer dizer não manipulá-lo.

Para o espanto da comunidade internacional e do próprio museu, Bolsonaro reacendeu uma polêmica lançada pelo ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, e afirmou "não ter dúvidas" de que o nazismo foi um movimento de esquerda.

Em seu site, o próprio Yad Vashem, visitado por Bolsonaro, define o nazismo como um movimento que partiu da direita. Segundo a instituição, a ascensão do partido nazista na Alemanha só foi possível graças ao "crescimento de grupos radicais de direita" no país.

Bolsonaro e o nazismo: uma vez é a presença da palavra "socialista" no nome oficial da agremiação nazista, o Partido Nacional-Socialista dos Trabalhadores Alemães, ou NSDAP; outra vez é a arte brasileira que deve ser "heroica e nacional ou então não será nada", como discursou o ex-secretário Alvim, copiando Goebbels.

Uma vez é uma estratégia eleitoral para atrair a classe trabalhadora. Outra vez é a tentativa de ganhar ou manter o apoio do universo evangélico e conservador, enaltecendo a cultura enraizada "na nobreza de nosso mitos fundantes": "a pátria, a família, a coragem do povo e sua profunda ligação com Deus".

Mas, desta última vez, a sociedade brasileira deu um grito. Bolsonaro viu forças e instituições do país se voltando contra ele e exigindo a renúncia do secretário "heroico".

Essa reação de repúdio parece ter surpreendido o presidente. Ela é um sinal de esperança. Mas o perigo de que membros do governo Bolsonaro continuem simpáticos a ideologias totalitárias continua. A recente declaração do ministro da Economia, Paulo Guedes, sobre a possível edição de um novo AI-5 é mais uma prova disso.

Mas a verdadeira tragédia se encontra além dessas transgressões. Pois elas se sobrepõem aos problemas gritantes do Brasil que continuam sem solução. Milhares de jovens fazem as malas e deixam o país porque não veem perspectivas. Milhões de desempregados procuram trabalho, e o número de moradores de rua nas metrópoles continua aumentando.

Discursar sobre "a cultura brasileira heroica e nacional" em meio ao atual cenário político e econômico do Brasil é uma perda de tempo e revela falta de empatia e competência governamental. Que bom que o povo brasileiro deu um recado claro ao Palácio do Planalto: basta! Obrigado, caros brasileiros.
Astrid Prange de Oliveira

Pensamento do dia


A economia do desmatamento

Quanto custa uma motosserra? E várias delas? Quanto custam tratores, correntões, caminhões? Tudo isso é necessário para desmatar. Um método primitivo, mas muito usado, é o correntão. Ele vai arrastando as árvores, mas não funciona sem tratores. São necessários dois, um de cada lado. Quanto custam dois tratores? Depois, é preciso ter caminhões para transportar as toras até o consumo. Mas, antes, é necessário ter uma escavadeira hidráulica com garra de metal para empilhar as toras nos caminhões. Capangas armados ocupam a terra que está sendo grilada. Fazem isso a soldo. De quem? Documentos são esquentados, como as guias de transportes. São comprados títulos falsos de propriedade. O ministro Paulo Guedes disse em Davos que “o pior inimigo do meio ambiente é a pobreza” e que “as pessoas destroem o meio ambiente porque precisam comer”. Não é a pobreza que desmata. Para grilar e desmatar é preciso capital. Muito capital.


O ministro estava num debate sobre outro assunto. Era um painel sobre indústria avançada e o uso de recursos naturais. Paulo Guedes, segundo explicou depois, defendia a tese de que os países de economia avançada derrubaram florestas para escapar da pobreza. Mas essa ideia de que, como disse, “as pessoas destroem o meio ambiente porque precisam comer” já foi dita algumas vezes pelo ministro do Meio Ambiente. É uma avaliação errada dos vetores reais do desmatamento.

No ano passado foram desmatados quase 10 mil km2 só na Amazônia, numa alta de 30%, segundo o Prodes, do Inpe. E aumentaram as queimadas. Há muitos estudos provando a correlação direta entre o aumento do desmatamento e o das queimadas. Não houve um surto de alta da pobreza que explicasse o que aconteceu em 2019. O que houve foram sinais do governo de que o crime não seria combatido. E qualquer economia, até a do crime, é estimulada por sinais e expectativas.

Movimentar essa cadeia do crime, montar as conexões, ocupar a terra com pastagem, esquentar o documento para vender, tudo isso exige um enorme investimento. Quando o governo combate o crime e impõe o império da lei, o risco fica mais alto e o retorno do capital, mais incerto. Neste cenário, há uma redução do incentivo e a taxa do crime cai. As leis econômicas, sempre elas, determinam alta e queda da destruição ambiental. Uma forma de combater o crime é pegar todo aquele material — motosserras, caminhões, tratores, escavadeiras — e apreender ou destruir. Isso aumenta o prejuízo do criminoso, mas agora está proibido pelo presidente da República.

O ministro disse que a pobreza é o pior inimigo do meio ambiente. Deve-se combater a pobreza por inúmeros motivos, mas é preciso inverter o entendimento do fato. O pobre é a grande vítima da destruição do meio ambiente. Ele é recrutado como mão de obra em trabalho degradante, depois é ele que vive os efeitos da degradação da terra, da água e do ar. A falta de saneamento contamina principalmente as regiões onde moram os pobres. Os lixões se acumulam é nas periferias. Nos extremos climáticos são os pobres os mais afetados. Eles não são os agentes da destruição ambiental. São suas primeiras vítimas.

A criação do Conselho da Amazônia pode ajudar, principalmente se levar para o governo informações que o ilustrem sobre a verdadeira origem das redes de ilegalidade na Amazônia e afastem os mitos que têm dominado as declarações oficiais sobre o assunto. O Conselho será mais eficiente se não for feito para atender às teorias conspiratórias que mobilizam o governo Bolsonaro. Foi anunciada também a criação da Força Nacional Ambiental. Ela precisará de orçamento. Mas esta é a administração que cortou orçamento do Ibama e do ICMBio, que limitou as ações preventivas e as operações de comando e controle nas regiões vulneráveis.

É urgente que este governo conclua o período de noviciado e entenda o que se passa na Amazônia, para deter o aumento do desmatamento. Primeiro, para impedir a destruição de riqueza coletiva. Segundo, porque o mundo mudou, como se pode constatar em todos os relatórios que foram feitos por instituições financeiras para o Fórum Econômico Mundial. O assunto deixou o terreno da retórica para ser determinante da alocação de recursos dos grandes investidores.

Macarthismo administrativo

Um dia antes da divulgação de performance de inspiração nazista que lhe custou o cargo, o então secretário especial da Cultura, Roberto Alvim, manifestou-se no Twitter sobre a indicação do cientista político Christian Lynch para a chefia do Serviço de Pesquisa Ruiano, na Fundação Casa de Rui Barbosa. O posto, segundo o emulador de Goebbels, não poderia ser ocupado por Lynch por ter ele “ideias execráveis sobre Jair Bolsonaro”. Mais que isso, sugeriu que apenas não o dispensaria por se tratar de servidor concursado da Fundação em que exerceria o cargo. Assim, determinou à presidente da organização que cancelasse a nomeação do desafeto.

A missão da Casa de Rui Barbosa é preservar não só memória e obra de seu patrono, como promover “a pesquisa, o ensino e a difusão do conhecimento sobre temáticas relevantes para a história do Brasil”. Lynch, como pesquisador do pensamento jurídico, político e social brasileiro, em especial o de Rui, reunia os atributos profissionais e intelectuais exigidos para a ocupação da chefia que fora oferecida - que é, inclusive, do setor em que trabalha naquela entidade. Bolsista de produtividade do CNPq, com projetos e publicações sobre o tema do setor que dirigiria, seria natural exercer a função e ter o comissionamento condizente com a nova responsabilidade.

Órgãos de pesquisa como esse, assim como fundações, universidades, institutos e autarquias, contam com cargos comissionados cujo exercício depende de nomeação por superiores hierárquicos. São chefias de departamento, coordenações de curso, superintendências e coisas do tipo. A natureza de tais cargos requer a nomeação por superiores não em decorrência da necessidade de alinhamentos pessoais ou político-partidários, mas pelo reconhecimento da competência profissional e da experiência, requerida para se desincumbir da função.


No caso de uma instituição de pesquisa na área de política, nada mais natural que, por sua própria atividade profissional, pesquisadores escrevam textos críticos sobre os mais diversos aspectos desse mundo - como o governo do dia. E foi um artigo de Lynch que levou o secretário, leal escudeiro do presidente, a impedir sua nomeação. Fiel a seu ofício, o autor teceu considerações críticas acerca do bolsonarismo, observando numa passagem: “A adesão ao extremismo ideológico é escada para os candidatos que desejarem assumir cargos na administração”. Como observou depois o próprio Lynch, o cancelamento de sua nomeação confirmou tal afirmação.

Mas não se trata apenas da adesão ao extremismo bolsonarista, como também a adulação do chefe. Foram as “ideias execráveis” de um servidor sobre o presidente que justificaram o veto. Da mesma forma, foi a atitude severa de outro funcionário, José Olímpio Augusto Morelli, que gerou, em março de 2019, sua exoneração do cargo em comissão de Chefe do Centro de Operações Aéreas do Ibama. Morelli foi o fiscal que multou Bolsonaro por pescar ilegalmente na estação ecológica de Angra dos Reis. Era, há mais de uma década e meia, servidor concursado do órgão em que exercia sua chefia e foi secretário de Meio Ambiente do município. Ou seja, contava com atributos técnicos e experiência para o cargo, mas foi exonerado por ter-se tornado desafeto do presidente ao cumprir o dever funcional e multar quem pesca ilegalmente.

Em maio do ano passado, o Decreto 9.794 conferia à Agência Brasileira de Inteligência (Abin) a atribuição de fiscalizar a vida pregressa de ocupantes de cargos comissionados em instituições federais de ensino superior, submetendo-as à Subchefia para Assuntos Jurídicos da Presidência da República. Assim, a ocupação de um cargo como de diretor de um centro de ensino, ou de uma faculdade, dependeria de avaliação do gabinete presidencial. Que propósito haveria em controlar tão centralmente a nomeação para um cargo dessa monta, no âmbito de uma instituição universitária que, por sua função e determinação constitucional, goza de autonomia? É demasiado.

Nem todo cargo comissionado na administração pública se reveste de caráter político-partidário ou de lealdade pessoal. Quanto mais próximo aos representantes eleitos, mais relevante e legítimo é tal critério; porém, quanto mais próximo da ponta, ou da burocracia do nível de rua, menos adequado é que o preceito pessoal ou partidário dos dirigentes máximos do governo seja determinante. Pelo contrário, nesse nível do aparato governamental o que deve contar, em prol do bom desempenho da gestão, do cumprimento de funções administrativas, do pluralismo e da impessoalidade, são parâmetros de desempenho e experiência no âmbito das atividades exercidas. Noutros termos: em tal patamar, comissionamento não se justifica por confiança política, mas por reconhecimento e responsabilização decorrentes do bom desempenho profissional.

Não seguir tal diretriz - ou pior, violá-la deliberadamente - implica o aparelhamento e na partidarização da máquina pública. Ou, nos termos de Lynch na conclusão de seu artigo: autoritarismo, hierarquia mantida pela violência, personalismo, nepotismo, guerra política, intimidação, espírito de vingança, perseguição e exercício da violência psicológica.

Portanto, o viés autoritário do bolsonarismo não se traduz apenas em ideias antipluralistas, tensionamento constante com os demais poderes do Estado, enaltecimento da violência ou ataque reiterado à imprensa, à ciência e às artes não alinhadas. Ele também se faz presente na forma como o Poder Executivo organiza sua estrutura administrativa até as fímbrias mais remotas, aparelhando-a com aduladores e correligionários, bem como perseguindo críticos ou não alinhados cuja crítica ou não alinhamento decorrem justamente do cumprimento de obrigações funcionais.

A contra face desse aparelhamento é a ideia, presente na proposta de reforma administrativa, de proibir servidores de terem filiação partidária. Ora, se isso é irrelevante para o bom desempenho de suas funções, tal regra tem apenas um propósito: instaurar um macarthismo administrativo.
Cláudio Gonçalves Couto

Burrice autoritária é o pior inimigo do meio ambiente

O crescimento econômico é o pior inimigo do ambiente, insinuou Paulo Guedes em debate em Davos. Na verdade, o ministro da Economia falou que a pobreza, pessoas que "precisam comer", destroem o ambiente, como o fizeram povos que têm outras "preocupações" porque já "destruíram suas florestas" e já lidaram com "suas minorias étnicas" (oi?).

Suponha-se então que o ministro tenha recorrido a uma metonímia (superação da pobreza etc.) para se referir ao fato de que o crescimento esteve associado à destruição da natureza, pelo menos até faz bem pouco tempo.

Que não estivesse se referindo a dano ambiental causado por indivíduos pobres ou ao genocídio de indígenas, o que já foi motivo de elogio de Jair Bolsonaro.


Ainda assim, não dá pé. É verdade que, mesmo no melhor dos mundos, de onde estamos cada vez mais distantes, crescimento provoca dano ambiental, embora cada vez mais o dano ambiental solape a possibilidade de crescimento econômico ou da vida. Além do mais, há alternativas para atenuar ou mesmo eliminar alguns desses problemas.

Para ficar apenas no universo da economia-padrão ou de ideias liberais, há destruição ambiental por falhas de mercado, falhas de coordenação e ineficiências em geral.

O custo de degradar o ambiente em geral não está no preço do produto degradante. Por exemplo, produz-se em excesso um bem que implica poluição porque o custo da degradação não aparece no preço de mercado, mas é pago por alguém não envolvido na transação.

É uma lição de primeiro semestre de curso de economia. Um sistema de preços que não funciona direito é um inimigo da natureza, pois.

Outro clichê: é possível recuperar pastagens degradadas para a agropecuária sem que seja necessário desmatar para plantar ou criar mais. Para que assim seja, é preciso assistência técnica e fazer com que o mercado de crédito funcione (nosso mercado de crédito é disfuncional e concentrado).

Podem ainda ser criados mercados de direitos de poluição, cotas de pesca, de madeira, de reservas florestais etc., o que torna mais eficiente de recursos ambientais.

A falta de método adequado de distribuição ("alocação"), um mecanismo que pode ser até de mercado, faz com que se use água como recurso infinito. A lista de ineficiências é imensa.

A desregulamentação ambiental, por meio da revogação de leis ou na marra, por meio de ocupação e uso ilegal do solo (grilagem, desmatamento) ou da destruição de instituições de controle, é inimiga da natureza.

Em suma, a captura do Estado por quem quer viver de "rendas" ambientais é inimiga da natureza. É o que fazem certos fazendeiros, mineradores e industriais que ficam com os ganhos da destruição e repassam os custos.

O descaso com a pobreza arrebenta todos os ambientes. A ocupação de margens de rios e lagos por gente sem casa, eira ou beira, causa poluição e aumenta o custo da oferta de água e o do saneamento.Essa desgraça múltipla resulta, por exemplo, do fato de que não há reforma urbana (oferta de habitação decente para gente pobre).

A burrice autoritária é inimiga da natureza. Ignorar dados e cálculos de impactos ambientais provoca mais destruição. Arrebenta o planejamento racional e a fiscalização dos danos. Destruir e desmoralizar a pesquisa científica impede a criação de tecnologias e de planos de desenvolvimento menos daninhos.

Em suma, é fácil perceber que políticas e propagandas de Bolsonaro são inimigas da natureza.

Livramentos

Deixem-me repetir: um dos mais surpreendentes triunfos de ficar velho (velhice é outra coisa) é descobrir, com um sorriso irônico e um enorme alívio, que não se tem futuro.

Uma analogia batida é imaginar o final de uma viagem de trem quando passamos pelos subúrbios e as zonas mais pobres da cidade e, em seguida, entramos no enxame de gente ansiosa da estação. Neste momento, a viagem termina, não há mais trilho a ser trilhado. Acabar é ficar com um absoluto presente no colo. Um presente que não será mais vivido e transmitido para ninguém.

Faz algum tempo que eu descobri que não tenho mais que carregar o meu futuro. E eu lhes confesso: ele foi pesado, cheio de coisas escondidas e de memórias empoeiradas como é comum acontecer com o reprimido, o ocultado e o aprisionado que imploram livramento.

Quando mencionei isso numa aula, alguns jovens me olharam intrigados, mas nenhum ficou decepcionado. Acho até que alguns me invejaram por terem consciência de que estou mais próximo do fim da linha, mas — e esse ponto é absolutamente fundamental — não finalizei o gosto da viagem. O fim tem uma vantagem: ele torna o presente algo único e precioso. Se para os jovens o futuro demanda múltiplas escolhas imperiosas que podem ou não dar certo — sobretudo com o poderoso preocupar-se com o que se “vai ser”; essa exigência do individualismo que, no caso americano, é muito mais obsessivo do que entre nós —, isso faz com que ele assuma uma tremenda e muitas vezes agoniada proporção.

Nestes tempos globalizados e um tanto sinistros, eu — no papel de pai, avô e professor — sei como é complicado sair da verdadeira prisão de um Brasil no qual a gente só tinha futuro como médico, advogado, engenheiro e oficial das Forças Armadas (com ênfase no oficial) e numa elitista carreira diplomática, para poder ser “alguém”. Hoje, porém, pode-se até ser polícia, dono de bar, motorista e garçom.

Convenhamos que esse naipe de escolhas tornou-se muito amplo e certamente demasiado democrático no contexto de um universo profissional preciso e estruturado para as camadas médias, um leque no qual o futuro invariavelmente deveria repetir o passado.

Quando, nos anos 50, entrei numa Faculdade de Filosofia, um amigo decretou que ia estudar numa escola para mulheres e veados. De lá, disse ele, você sai professor, o que, no Brasil, é pior que ser lixeiro, pois não aprender algo novo, descobrir o que ninguém sabe, é uma dimensão indesejada. Pode-se ser do contra, mas é crime, pecado e tabu falar em alternativas e liberdade. Até hoje pagamos salários de merda aos lixeiros, mas não há verbas previstas para conferências e palestras acadêmicas que, obviamente, não precisam de honorários.

Quando virei um leitor aplicado, disseram-me que poderia enlouquecer, pois é justamente isso que ocorre com quem relativiza costumes estabelecidos e prisões culturais solidamente construídas. Como duvidar ou questionar se o caminho já estava traçado primeiro pelo catolicismo e depois pelo chamado “pensamento crítico”?

Tornei-me, Deus e eu sabemos como, antropólogo social. Um profissional da dúvida que afasta — um investigador do por que gostamos de comer misturando arroz com feijão e o que isso teria a ver com a mestiçagem mascaradora e criadora de hierarquias; pesquisei como os chamados “índios” que andam sem roupa inventam seus mundos. Um conhecido me perguntou se eles não ficavam excitados vendo aquelas mulheres nuas.

Questão tão esdrúxula quanto válida quando descobrimos por que a “política” foi transformada num espaço de enriquecimento e aristocratização, porque não se resiste aos dinheiros públicos que até anteontem, sendo de todos, não seriam de ninguém...

Um dia ouvi num ato falho que, além de louco, era antropófago. Fiquei feliz. Descobri o meu futuro pesquisando sociedades modestas; muito mais pobres do que a pobreza que vive ao nosso lado e é mantida pelo nosso estilo de vida. Encontrei futuros no Museu Nacional, que, não obstante, pegou fogo.

Lamento ver instituições como a Casa de Rui Barbosa serem atingidas. Para mim, elas deveriam ser independentes. Pesquisadores e professores não podem ser funcionários públicos — os papéis não combinam.

Ponto final: sem liberdade, amor e perseverança não há, mesmo velho, nenhum futuro. Aliás, o que está para chegar depende de lucidez intelectual: o verdadeiro livramento.
Roberto DaMatta

Walking dead do Brasil


Pátria amada

Sou despertado todos os dias pelo rádio de cabeceira. Os locutores têm fixação por engarrafamentos, as vinhetas musicais são longas e repetitivas e o Brasil parece sempre pior do que na véspera. É bastante para fazer o cidadão pular da cama e ir à vida, em vez de tentar mais dez minutos de cochilo. E, mesmo que não fosse, há os anúncios da propaganda oficial com as façanhas dos ministérios, todos terminando com a assinatura: "Ministério tal. Governo Federal. Pátria amada, Brasil".

É de embrulhar os mais rijos estômagos, tão desprevenidos de manhã. A mim, soam particularmente ofensivos, porque não gosto que me pespeguem a pátria amada sem minha autorização. Não por ter algo contra a dita pátria —perdi a conta das vezes em que, nos anos 60, saí às ruas do Rio por ela, levei borrachadas no lombo e passei algumas horas numa cela da rua da Relação. É que não sei se estamos falando da mesma pátria. Se for a atual, dedicada a destruir a educação, o ambiente, as relações exteriores, os direitos humanos e a cultura, pode ser a mesma, mas não será amada.


Roberto Alvim, o Goebbels de galinheiro, tinha uma bandeira do Brasil ao seu lado no vídeo em que pregou uma "nova arte nacional", "heroica" e sujeita ao seu diktat de, então, secretário da Cultura de Bolsonaro. O que farão com aquela bandeira tão ultrajada? Será suficiente lavá-la, esfregá-la com sabão? E quem garante que ela não será levada a enfeitar o gabinete de Regina Duarte, substituta de Alvim e, com certeza, herdeira das políticas de seu antecessor para a pasta?

O problema não está nos símbolos, mas em quem os encarna. Minha geração, que chegou à maioridade por volta de 1964, desenvolveu alergia ao Hino Nacional de tanto ouvi-lo como prefixo daqueles homens sombrios, fardados e de óculos escuros.

Eles também quiseram nos impor uma pátria amada. E custou, mas a pátria decidiu diferente.
Ruy Castro