O indivíduo comum é capaz de enfrentar uma narrativa complexa, mas muitas vezes não é isso que se oferece a ele. Na cultura popular, primeiro se decide que o público é composto principalmente de simplórios que não apreciariam nada inteligente. Em seguida, são produzidas obras nesse estilo, assumindo que é o que a massa quer. Esse processo, prolongado durante décadas, gera um público que dificilmente pode reconhecer um material inteligente, se é que o vêAlan Moore
quinta-feira, 23 de janeiro de 2020
Simplórios domesticados
'Cadeia de comando'
“Eu não contrario publicamente o presidente. Existe aí, evidentemente, uma cadeia de comando.” A frase, dita por Sérgio Moro já no primeiro bloco do programa Roda Viva, foi a tônica da entrevista do ministro da Justiça. É claro que num regime presidencialista os ministros seguem o presidente da República. Mas os desafios postos diante de Moro vão além da disciplina e da hierarquia. São políticos, éticos e institucionais.
Os políticos são óbvios, estão na mesa e tanto ele quanto o presidente os compreendem muito bem. Moro é o único a ombrear com Bolsonaro nas pesquisas hoje. O chefe não pode demiti-lo, sob pena de criar um adversário. E ele não pode sair do governo agora, sem antes traçar um caminho. O jogo de ver quem pisca primeiro continuará, e Moro parece ainda ter apetite para engolir alguns sapos.
Os políticos são óbvios, estão na mesa e tanto ele quanto o presidente os compreendem muito bem. Moro é o único a ombrear com Bolsonaro nas pesquisas hoje. O chefe não pode demiti-lo, sob pena de criar um adversário. E ele não pode sair do governo agora, sem antes traçar um caminho. O jogo de ver quem pisca primeiro continuará, e Moro parece ainda ter apetite para engolir alguns sapos.
Os conflitos éticos dizem respeito aos quase diários ataques às liberdades e às minorias por parte de Bolsonaro e de seus auxiliares.
Até quando será possível ao ex-juiz calar sobre assuntos como o atentado à produtora Porta dos Fundos e falar apenas em privado sobre absurdos como a performance nazista de Roberto Alvim? Ou silenciar quanto aos ataques à liberdade de imprensa? Não se trata, como diz ele, de ser um “comentarista-geral” da República. Mas de cumprir o papel de ministro da Justiça: o de guardião da democracia e da Constituição.
Por fim, os dilemas institucionais são os decorrentes do fato de que Moro convive no governo com acusados de irregularidades que, como juiz, não hesitaria em investigar. Isso afeta a imagem de “herói do Brasil”, hashtag que liderou o Twitter mundial durante o programa.
O ministro tem o maior cacife político do Brasil hoje. Ganha de Bolsonaro e eclipsou Lula. Resta saber o quanto desse patrimônio está disposto a queimar enquanto aguarda saber se vai para o STF ou se parte para uma candidatura. Pode parecer que há muito tempo até 2022, mas a corrosão que a exposição ao bolsonarismo é capaz de operar é incerta.

Até quando será possível ao ex-juiz calar sobre assuntos como o atentado à produtora Porta dos Fundos e falar apenas em privado sobre absurdos como a performance nazista de Roberto Alvim? Ou silenciar quanto aos ataques à liberdade de imprensa? Não se trata, como diz ele, de ser um “comentarista-geral” da República. Mas de cumprir o papel de ministro da Justiça: o de guardião da democracia e da Constituição.
Por fim, os dilemas institucionais são os decorrentes do fato de que Moro convive no governo com acusados de irregularidades que, como juiz, não hesitaria em investigar. Isso afeta a imagem de “herói do Brasil”, hashtag que liderou o Twitter mundial durante o programa.
O ministro tem o maior cacife político do Brasil hoje. Ganha de Bolsonaro e eclipsou Lula. Resta saber o quanto desse patrimônio está disposto a queimar enquanto aguarda saber se vai para o STF ou se parte para uma candidatura. Pode parecer que há muito tempo até 2022, mas a corrosão que a exposição ao bolsonarismo é capaz de operar é incerta.
Bolsonaro administra sua própria herança maldita
Jair Bolsonaro tornou-se um governante peculiar. Inicia o segundo ano de sua Presidência sob os efeitos da herança maldita que construiu no primeiro. Nos 12 meses inaugurais, plantou as sementes do afrouxamento na fiscalização ambiental. E colheu índices amargos de queimadas e desmatamento.
Agora, o presidente anuncia a criação de um Conselho da Amazônia e uma Força Nacional Ambiental (coisa copiada do petismo). Tudo sob a coordenação do vice-presidente Hamilton Mourão. Como no caso do sapo de Guimarães Rosa, Bolsonaro não ensaia um salto ambiental por boniteza, mas por precisão.
O Brasil começou a receber a visita dos cobradores. Grandes fundos de investimento insinuam que deixarão de aplicar dinheiro no país por conta da política anti-ambiental do governo. O ministro Paulo Guedes (Economia) sente o cheiro de queimado no Fórum Econômico Mundial, apelidado neste ano de "Davos Verde". Em 2019, Bolsonaro extinguiu um par de conselhos ambientais, avalizou o esvaziamento do aparato fiscalizatório, mimou desmatadores e ofendeu países que aplicavam bilhões em projetos ambientais no Brasil. Reposiciona-se em cena brandindo projetos rabiscados em cima do joelho. Exibe a disposição de um mestre-cuca que se julga capaz de desfritar um ovo.
Bolsonaro se move num instante em que a economia começa a respirar, mas permanece no leito. O desemprego continua nas nuvens. Eleito com 55,1% dos votos válidos, o inquilino do Planalto amarga índices de popularidade que rodam na casa dos 30%. O capitão sempre poderá atribuir a ruína econômica à herança maldita. Mas não tem como transferir para o petismo as crises que rebaixam seus índices de aprovação e retardam o crescimento da economia. Na área ambiental, as coisas vão mal. Se piorarem, perdem todos.
Agora, o presidente anuncia a criação de um Conselho da Amazônia e uma Força Nacional Ambiental (coisa copiada do petismo). Tudo sob a coordenação do vice-presidente Hamilton Mourão. Como no caso do sapo de Guimarães Rosa, Bolsonaro não ensaia um salto ambiental por boniteza, mas por precisão.
O Brasil começou a receber a visita dos cobradores. Grandes fundos de investimento insinuam que deixarão de aplicar dinheiro no país por conta da política anti-ambiental do governo. O ministro Paulo Guedes (Economia) sente o cheiro de queimado no Fórum Econômico Mundial, apelidado neste ano de "Davos Verde". Em 2019, Bolsonaro extinguiu um par de conselhos ambientais, avalizou o esvaziamento do aparato fiscalizatório, mimou desmatadores e ofendeu países que aplicavam bilhões em projetos ambientais no Brasil. Reposiciona-se em cena brandindo projetos rabiscados em cima do joelho. Exibe a disposição de um mestre-cuca que se julga capaz de desfritar um ovo.
Bolsonaro se move num instante em que a economia começa a respirar, mas permanece no leito. O desemprego continua nas nuvens. Eleito com 55,1% dos votos válidos, o inquilino do Planalto amarga índices de popularidade que rodam na casa dos 30%. O capitão sempre poderá atribuir a ruína econômica à herança maldita. Mas não tem como transferir para o petismo as crises que rebaixam seus índices de aprovação e retardam o crescimento da economia. Na área ambiental, as coisas vão mal. Se piorarem, perdem todos.
O mundo como cinema-catástrofe
Mas os políticos responsáveis não querem saber nada sobre isso. Eles temem por seu poder. Eles dizem que os cientistas estão espalhando pânico e que tudo está sob controle. São os políticos errados, no lugar errado e na hora errada. Seus horizontes são pequenos, e o que os cientistas dizem vai além disso, além de contradizer seus interesses políticos. Então, eles desacreditam os cientistas, afirmam que eles estão mentindo e os privam de cargos de responsabilidade.
Em algum momento, será tarde demais: a catástrofe vai se tornar realidade. Os sinais de alerta eram evidentes, mas os líderes não reagiram – em vez disso, aceleraram a catástrofe.
Estou convencido de que chegamos a um momento pré-catastrófico. Há dois fatores fatais combinados: a destruição drástica e cada vez mais rápida do meio ambiente, e políticos, como Donald Trump e Jair Bolsonaro, que fazem tudo para acelerar o desastre ambiental.
São agentes da catástrofe. Seus motivos são vaidade, fúria destrutiva e o prazer perverso diante do infortúnio de terceiros. Ao mesmo tempo, são agentes de uma ideologia de crescimento que há muito se tornou anacrônica, concentrando-se na exploração de recursos, mas não na sustentabilidade.

Como seu ídolo Trump, Bolsonaro nega o câmbio climático e ataca brutalmente a legislação ambiental. O desmantelamento das autoridades brasileiras de proteção do meio ambiente é dramático. Quase se tem a impressão de que o governo Bolsonaro está numa campanha de vingança contra o meio ambiente brasileiro. Parece achar que árvores, araras e onças são comunistas. Encaixaria muito bem em sua visão paranoica e maniqueísta do mundo. Para o planeta, isso pode não ser realmente importante. Ele sobreviverá também a Jair Bolsonaro por milhões de anos. Mas nós humanos devemos estar interessados.
A seguir, alguns dados sobre a situação do nosso planeta:
Segundo a Nasa, 2019 foi o segundo ano mais quente desde que os dados meteorológicos começaram a ser registrados. Somente 2016 foi mais quente. A década de 2010 a 2020 registrou as temperaturas mais elevadas de todos os tempos. Os cientistas não têm dúvida de que as emissões de gases de efeito estufa estão impulsionando as mudanças climáticas.
Desde 1970, o Ártico se aqueceu a um ritmo mais de três vezes mais rápido que o resto do mundo. A costa do Alasca ficou sem gelo pela primeira vez no ano passado. As temperaturas atingiram um recorde de 32 graus Celsius. O pesquisador do Ártico Jeremy Mathis disse: "Não tenho adjetivos para descrever a extensão da mudança que estamos vivenciando."
No Hemisfério Norte, as florestas queimaram com mais frequência e virulência em 2019 do que nos últimos 10 mil anos, segundo a Organização Meteorológica Mundial (OMM). Cerca de 9 milhões de hectares de floresta foram queimados somente na Sibéria – uma área equivalente à de Portugal.
Um recente relatório do Fórum Econômico Mundial pressupõe que a economia mundial entrará em colapso se as emissões globais de CO2 não forem nulas em 2050. A razão está nos danos extremos causados pelas mudanças climáticas.
Desde 1980, na Europa, cerca de 300 milhões de aves desapareceram de campos e plantações; na América do Norte, esse número chega a 3 bilhões. A agricultura industrial é a principal responsável, porque destrói os habitats dos animais e causa a morte dramática dos insetos.
No Brasil, no primeiro ano do governo Bolsonaro, foi aprovado um número recorde de novos pesticidas. As empresas estrangeiras são as mais beneficiadas com a liberação desses produtos. Dos agrotóxicos liberados, 20% são considerados extremamente tóxicos – entre eles o dinotefuran, que nunca foi aprovado na União Europeia. O agrotóxico faz parte da classe dos neonicotinoides, fatais para abelhas e polinizadores.
Segundo a Plataforma Intergovernamental sobre Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos (IPBES), cerca de um milhão de um total de 8 milhões de espécies animais e vegetais estão ameaçadas de extinção; em breve, muitos podem ter desaparecido. Especialistas falam de uma extinção de espécies que não se vê desde o desaparecimento dos dinossauros.
O Caribe está passando por uma praga sem precedentes de sargaços. As algas poluem as "praias idílicas" que precisam ser limpas todos os dias para os turistas. Devido ao aumento da temperatura marinha, as algas se reproduzem explosivamente. Os cientistas também suspeitam que o crescente uso de fertilizantes, que são jogados no oceano através do Amazonas, está contribuindo para esse fenômeno.
Rios e mares estão extremamente contaminados com plástico. Só as vendas mundiais de garrafas plásticas deverão atingir a cifra de meio trilhão em 2021. Entre 5 milhões e 13 milhões de toneladas de lixo plástico são jogadas no mar todos os anos. A Fundação Ellen MacArthur calculou que em 2050 o peso do plástico nos oceanos excederá o peso dos peixes.
A Floresta Amazônica está desaparecendo novamente a uma velocidade recorde. A maior floresta tropical do mundo é insubstituível para o balanço hídrico da América do Sul e para o clima global. Entre agosto de 2018 e julho de 2019, o desmatamento na Amazônia cresceu quase 30%, segundo o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). É a maior área destruída desde 2008. Em todo o mundo, especialistas estimam que a cada minuto 30 campos de futebol de floresta tropical são destruídos.
A destruição da Floresta Amazônica é o único dos temas acima mencionados que está sendo discutido no Brasil. Todo o resto não importa.
Que soluções o governo brasileiro oferece para pelo menos retardar a destruição da Floresta Amazônica? Nenhuma!
O presidente Jair Bolsonaro diz: "A porra das árvores." Ele quer liberar a floresta e as Terras Indígenas para exploração predatória. Seu ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, por sua vez, chamou os lenhadores que cortam ilegalmente árvores em terra indígena de "pessoas de bem que trabalham neste país".
Parece que Bolsonaro e Salles têm prazer na destruição. Exemplar é o cínico post de Salles no Twitter com a foto de um prato de carne grelhada. Seu comentário: "Para compensar nossas emissões na COP25, um almoço veggie!"
Fato é que a indústria de carne representa cerca de 15% da contribuição para as mudanças climáticas. A produção de um quilo de carne requer entre 5 mil e 20 mil litros de água, conforme calculado pelo Instituto de Engenheiros Mecânicos (IME), do Reino Unido.
Mas o ministro do Meio Ambiente acha que é mais importante fazer piada de mau gosto. Faz parte da tragédia de nosso tempo que, num momento crítico, homens como ele e Jair Bolsonaro estejam no poder.
Em seu livro Collapse. How Societies Choose to Fail or Survive (Colapso. Por que algumas sociedades perduram e outras desaparecem, em tradução livre), o antropólogo Jared Diamond descreve cinco razões principais que historicamente levaram ao fim das civilizações: destruição ambiental, mudanças climáticas, guerras, alianças fracas e respostas erradas às crises existenciais. Uma crise pode ser tratada de forma sensata. Também pode ser ignorada ou reforçada por decisões irracionais? A resposta é clara no caso do Brasil.
Philipp Lichterbeck
quarta-feira, 22 de janeiro de 2020
O grito do Brasil a Bolsonaro: Nazismo, não!
Dessa vez vários liberais que apoiaram Bolsonaro para derrotar Lula e o PT reagiram contra os arroubos nazistas do secretário da Cultura do Governo. Foi um teste importante ver mobilizados, imediatamente, não só todo o mundo da cultura e da ciência e de todos os partidos democráticos, incluindo os liberais do Governo, como também todas as instituições do Estado, como o Congresso, o Senado e o Supremo, junto com as principais associações civis como a de advogados, promotores e juízes e dezenas de instituições democráticas, assim como a imprensa nacional que denunciou que o Governo havia cruzado a linha vermelha da democracia.
Dessa vez não foi uma reação da esquerda contra a ultradireita. O protesto ultrapassou os partidos e as ideologias, para gritar um não do país a tudo o que tenha referência ao nazismo hitleriano dos campos de concentração e do Holocausto.

Há somente um ano eu alertava nessa mesma coluna do perigo de que o Brasil poderia estar entrando em um estado de pré-nazismo e pré-fascismo, após a entrada do furacão de Bolsonaro com seus ódios a todos os diferentes, sua exaltação de um nacionalismo de cunho fascista e sua consigna de “Brasil acima de tudo”, copiada dos tempos do nazismo: “Alemanha acima de tudo”. E das tentativas de criar uma teocracia evangélica em substituição ao Estado laico assim como uma cultura e uma educação entranhadas nos valores militares e medievais.
Dessa vez uma parte do Governo viu com preocupação os arroubos nazistas dos bolsonaristas mais rígidos. Como demonstra, por exemplo, a satisfação do general do Exército, Augusto Heleno, que faz parte do Governo e é um dos assessores mais próximos ao Presidente e que também ele havia flertado com medidas extraordinárias no caso do Brasil se transformar em um novo Chile. Heleno, dessa vez, assustado com o escorregão nazista do secretário da Educação, elogiou a reação positiva do Brasil. Chegou a felicitar a reação da sociedade com essas palavras: “Fantástica e até emocionante a reação de intelectuais, artistas, historiadores, professores, estudantes, militares e da Nação como um todo, ao infeliz resgate de pensamentos nazistas”. E acrescentou que isso “mostra uma face da convicção e do apego de nosso povo à democracia e às liberdades individuais”. Até o importante militar entendeu que o Governo poderia estar se dirigindo à barbárie.
A reação democrática da sociedade brasileira e de todas as instituições do Estado às tentações nazistas e fascistas que começaram a levantar a cabeça em várias áreas do Governo, é fundamental. O perigo de involução, de fato, existe, já que vemos aflorar a cada dia mais saudades dos tempos da ditadura que levam Bolsonaro a tomar medidas drásticas e antidemocráticas quando, segundo eles, o Congresso e o Supremo não se dobram aos seus caprichos autoritários. O fato de o Brasil dizer não a essa loucura significa um acréscimo de esperança na defesa dos valores democráticos.
E não foi por acaso ter sido no delicado e importante campo da cultura o local em que os brasileiros de todas as crenças disseram não a essa tentação do Governo de dar lugar no Brasil a uma única forma de criar e de ensinar, de fazer arte, e do perigo de ver castrada a liberdade de pensamento. Os brasileiros, conservadores em hábitos e costumes, não aceitam a imposição de um único tipo de cultura, muito menos de cunho nazista.
O brasileiro, historicamente, está acostumado a uma grande pluralidade cultural que surge da mistura de todas as expressões e as correntes mais livres de criar e de fazer cultura que leva em suas veias. Não por acaso é um dos povos com tradições populares mais fortes e arraigadas às que dificilmente renuncia, muito menos em benefício de uma ideologia.
Essa reação inesperada e feliz da sociedade brasileira às tentações nazistas de alguns dos ministros do Governo e do próprio presidente, abre um caminho de esperança aos democratas de coração, os que amam as liberdades, sejam de direita e de esquerda, porque somente em um húmus de democracia consolidada se constrói uma sociedade livre e feliz. No Brasil, de fato, o peso de uma escravidão nunca resolvida deixou marcas profundas de desigualdade social, de dor e de discriminação racial que dura até nossos dias.
Dessa vez, felizmente, é como se o Brasil tivesse despertado para dizer não aos bárbaros e para dar o alerta de que tudo tem um limite e que não importa se governa a direita, a esquerda e o centro, mas nunca os filhos bastardos de nostalgias de campos de extermínio.
A reação da sociedade brasileira à injúria nazista de quem deveria velar pelas liberdades que defendem ou criar cultura em liberdade e sem marcas ideológicas, não pode, entretanto, nos fazer dormir em nossos louros. É verdade que a reação imediata do presidente em demitir o secretário da Cultura, algo que a maior das manifestações não teria conseguido, não pode nos deixar totalmente tranquilos. Bolsonaro viu que todas as forças vivas ficavam contra ele e ratificavam não querer entrar nos corredores de morte do nazismo, e dessa vez reagiu com rapidez e sem hesitação. Isso não significa, entretanto, que tenha se arrependido da política racista da qual está imbuído. Não foi uma conversa. Foi obrigado pelo grito de uma sociedade que começa a dizer: “Daqui não se passa”. E hoje sabemos, além disso, que por ele teria esperado para decidir a demissão do secretário da Cultura. Foram os militares de dentro do Governo que o obrigaram a não esperar sequer mais uma hora.
Pensar que Bolsonaro pode mudar é, na verdade, uma vã utopia. Como Hitler não mudou, a quem o presidente gosta de imitar em sua linguagem e até no corte de cabelo. Quem precisa continuar firme é a sociedade e suas instituições para que continuem detendo-o sempre que tentar atropelar as liberdades e nos introduzir no túnel escuro do autoritarismo. Está claro que ele não irá mudar. Seu repúdio e desprezo por todos os diferentes como nos tempos de Hitler dessa vez começando pelos afrodescendentes, dos quais chegou a dizer, após visitar um quilombo: “o mais leve pesava sete arrobas. Não fazem nada. Acho que nem como procriadores eles servem”. Não suporta a diversidade de gênero e já avisou que preferia um filho morto do que vê-lo chegar em casa “com um bigodudo”. Não suporta as mulheres e até se lamenta de que dos cinco filhos um, o último, nasceu mulher. O que os judeus eram para Hitler, para Bolsonaro o são todos os diferentes, aos quais acrescentou os jornalistas de quem chegou a ofender as mães.
Quero acabar essa coluna que se move entre a esperança e o medo, com as palavras de Reinado Azevedo que escreveu que não podemos dormir, já que para Bolsonaro que, terrível paradoxo, se revela amigo dos judeus, o que para os nazistas de Hitler eram os judeus hoje no Brasil o são os negros, as mulheres, os LGBTs, os índios, os jornalistas e todos os que não se ajoelham diante dele.
A sociedade brasileira deu seu primeiro grito. Se ele continuar em sua fúria iconoclasta contra todos os valores democráticos, de costas à liberdade de ação de pensamento que são os que criaram as melhores e mais livres sociedades do mundo, o segundo grito pode ser: “Agora chega!”.
O Brasil pode e ainda está em tempo. Amanhã talvez possa ser tarde demais e de nada adiantaria chorar lágrimas de crocodilo. Se já se disse um dia de Paris que ela bem valia uma missa, o Brasil, com tantos ou mais motivos bem vale esse despertar contra os pesadelos que lhe querem impor insensatas tentações de assassinar e manipular a cultura e as liberdades.
Mais do que o lema bolsonarista de “Brasil acima de tudo”, o que precisamos é de um Brasil que seja de todos e para todos, em que ninguém se sinta superior e desprezado, ou não será de ninguém. E então nos restariam somente os escombros.
Que ninguém se iluda, ou então nada seremos
Em 1995, no Colégio Militar de Porto Alegre, oito cadetes elegeram Hitler como a personalidade que mais o impressionaram ao longo da história. Criticados pela imprensa, Jair Messias saiu em defesa dos "garotos". Militar da reserva, em seu segundo mandato como deputado federal, classificou a predileção dos cadetes como "apenas gracejo, brincadeira". De lá para cá, só piorou. Na sessão de impeachment de Dilma, ao votar, Bolsonaro teve o descaramento de citar o nome do degenerado torturador Brilhante Ustra.
E Alvim caiu. Não há o que comemorar. A vocação nazista de Roberto Rego Pinheiro, codinome Roberto Alvim, agrada Bolsonaro. O discurso extremista do agora ex-Secretário de Cultura reflete rigorosamente o pensamento do presidente. Bolsonaro conhece bem Alvim. Adorou a idéia da "próxima década (da cultura) heroica e nacional profundamente vinculada às aspirações urgentes de nosso povo", declarada em vídeo por Alvim.
O ex-secretário de Cultura era um bom aluno. No mesmo dia em que publicou seu vídeo "cópia cola de Joseph Goebbels, ministro da Propaganda de Hitler", recebeu, ao vivo, rasgados elogios do Capitão. "Agora temos, sim, um secretário de Cultura de verdade. Que atende o interesse da maioria da população brasileira, população conservadora e cristã".
O texto declarado por Bolsonaro é parecido ao recitado por Alvim-Goebbles. Os dois falam em "interesses da maioria da população brasileira", como se deles dependesse o que, como, quando, onde a "maioria" dos brasileiros podem ver, ouvir, e aplaudir a arte no Brasil. Declaram a censura. Covardemente. Mas "a arte, Capitão, não é um espelho do mundo, é sim, uma ferramenta para consertá-lo", no poema de Vladimir Maiakóvski.
O valentão Capitão não mudou de opinião da noite para o dia sobre Alvim, o Secretário de Cultura "de verdade" ou os "ideais de Goebbles ou de Hitler". Que ninguém se iluda. Bolsonaro não resistiu às pressões. Teve que demitir o secretário depois do ricochete da comunidade judaica internacional. Adorador de Benjamin Netanyahu, ficou sem opção.
Saiu Alvim. Restaram fantasmas e desenredos. Certamente menos tóxica, Regina Duarte não terá fiança da grande parte da classe artística. E dificilmente resistirá às intimidações, à compressão do poder. Corre o risco de sair destruída. Regina não parece ter o sangue de barata que corre nas veias de Sérgio Moro.
Regina deve saber que não é Roberto Alvim que assina as idéias de Goebbles, como disse antes de ser demitido. É Bolsonaro. São seus filhos. São seus assessores mais próximos. São ministros. O pensamento nazista impera no governo.
A repercussão nacional e internacional do texto de Alvim nos dá vigor. A vigilância permanente da sociedade civil nos dá folego. Partiu de uma advogada anônima a identificação do plágio nazista, imediatamente jogado na mídia pelo Site "Jornalistas Livres".
A vigília não é só necessária, é vital. "Você não pode deixar ninguém invadir o seu jardim para não correr o risco de ter a casa arrombada", de novo, do poeta russo Vladimir Maiakóvski, morto aos 36 anos, em 1930.
PS: Enquanto nos distraímos com Alvim, uma dezena de denúncias de "mal feitos" pipocam dentro e fora do Palácio, com quem detêm a informação e a torna pública... Cadê o presidente da Casa da Moeda, que destituiu toda a diretoria para nomear um amigo por $ 40 mil? Eduardo Zimmer Sampaio e o amigo nomeado são vizinhos de Bolsonaro no Condominio Vivendas da Barra. Cadê o Flavio Bolsonaro? Cadê o Queiroz? Quem mandou matar Marielle? O que é "veremos lá na frente"?
Veremos. Vigilantes. Prevenidos.
E Alvim caiu. Não há o que comemorar. A vocação nazista de Roberto Rego Pinheiro, codinome Roberto Alvim, agrada Bolsonaro. O discurso extremista do agora ex-Secretário de Cultura reflete rigorosamente o pensamento do presidente. Bolsonaro conhece bem Alvim. Adorou a idéia da "próxima década (da cultura) heroica e nacional profundamente vinculada às aspirações urgentes de nosso povo", declarada em vídeo por Alvim.
O ex-secretário de Cultura era um bom aluno. No mesmo dia em que publicou seu vídeo "cópia cola de Joseph Goebbels, ministro da Propaganda de Hitler", recebeu, ao vivo, rasgados elogios do Capitão. "Agora temos, sim, um secretário de Cultura de verdade. Que atende o interesse da maioria da população brasileira, população conservadora e cristã".
O texto declarado por Bolsonaro é parecido ao recitado por Alvim-Goebbles. Os dois falam em "interesses da maioria da população brasileira", como se deles dependesse o que, como, quando, onde a "maioria" dos brasileiros podem ver, ouvir, e aplaudir a arte no Brasil. Declaram a censura. Covardemente. Mas "a arte, Capitão, não é um espelho do mundo, é sim, uma ferramenta para consertá-lo", no poema de Vladimir Maiakóvski.
O valentão Capitão não mudou de opinião da noite para o dia sobre Alvim, o Secretário de Cultura "de verdade" ou os "ideais de Goebbles ou de Hitler". Que ninguém se iluda. Bolsonaro não resistiu às pressões. Teve que demitir o secretário depois do ricochete da comunidade judaica internacional. Adorador de Benjamin Netanyahu, ficou sem opção.
Saiu Alvim. Restaram fantasmas e desenredos. Certamente menos tóxica, Regina Duarte não terá fiança da grande parte da classe artística. E dificilmente resistirá às intimidações, à compressão do poder. Corre o risco de sair destruída. Regina não parece ter o sangue de barata que corre nas veias de Sérgio Moro.
Regina deve saber que não é Roberto Alvim que assina as idéias de Goebbles, como disse antes de ser demitido. É Bolsonaro. São seus filhos. São seus assessores mais próximos. São ministros. O pensamento nazista impera no governo.
A repercussão nacional e internacional do texto de Alvim nos dá vigor. A vigilância permanente da sociedade civil nos dá folego. Partiu de uma advogada anônima a identificação do plágio nazista, imediatamente jogado na mídia pelo Site "Jornalistas Livres".
A vigília não é só necessária, é vital. "Você não pode deixar ninguém invadir o seu jardim para não correr o risco de ter a casa arrombada", de novo, do poeta russo Vladimir Maiakóvski, morto aos 36 anos, em 1930.
PS: Enquanto nos distraímos com Alvim, uma dezena de denúncias de "mal feitos" pipocam dentro e fora do Palácio, com quem detêm a informação e a torna pública... Cadê o presidente da Casa da Moeda, que destituiu toda a diretoria para nomear um amigo por $ 40 mil? Eduardo Zimmer Sampaio e o amigo nomeado são vizinhos de Bolsonaro no Condominio Vivendas da Barra. Cadê o Flavio Bolsonaro? Cadê o Queiroz? Quem mandou matar Marielle? O que é "veremos lá na frente"?
Veremos. Vigilantes. Prevenidos.
Maestro da orquestra de cordas, Paulo Guedes toca tambor no Fórum de Davos
Nessa versão, as pessoas destroem a natureza porque "têm fome". Com suas palavras, o ministro tornou-se porta-voz internacional de uma desculpa esfarrapada do seu colega do Meio Ambiente, Ricardo Salles. Quando quer desviar o foco das queimadas que arderam na Amazônia, Salles fala em harmonizar economia e ambiente, provendo oportunidades para "os "os 20 milhões de pobres que foram deixados para trás na Amazônia —a região mais rica em recursos naturais.".

Ao avalizar desculpas que não se sustentam, Paulo Guedes piora a sua estampa sem melhorar a imagem do Brasil. O mundo representado em Davos está conectado à realidade. Consome informações científicas e acompanha as insanidades que Bolsonaro e seus trogloditas pronunciam.
Maestro da orquestra de cordas de Brasília, Guedes compôs uma partitura harmônica. Inclui a reforma da Previdência, déficit fiscal declinante, inflação sob controle e juros miúdos. Por razões que a sensatez desconhece, o ministro atravessou sua própria música com o ruído do tambor ambiental da gestão Bolsonaro. Por sorte, o fórum de Davos vai até sexta-feira. Se quiser, Guedes dispõe de tempo para fazer soar os violinos.
A caça às feiticeiras
O problema é dificílimo. Todo o mundo está de acordo em que o governo precisa identificar e punir os inimigos públicos que estavam leiloando o Brasil a essa espécie de socialismo degenerado que se convencionou chamar "comunismo internacional". Mas todo o mundo também exige que a eliminação dos focos de insurreição se faça sem se cair no erro extremo da caçada cega às feiticeiras, sem se atacar essa cidadela que é o próprio coração da democracia: a liberdade de pensamento e de palavra.
Quando se escutam os aplausos entusiásticos com que nos saúdam a imprensa e os governos de Salazar e Franco, a gente fica de orelha em pé: que é que nós estamos fazendo ou prometendo de ruim, para eles se alegrarem tanto? Será que esperam que a marcha da Revolução nos arraste a uma ditadura semelhante à deles, sem nos sabermos livrar do falso dilema – ou fascismo ou comunismo – deixando de parte a terceira posição, que é a única verdadeira, a simples democracia?
Tenho medo. O doente está grave e a operação é melindrosa. Tanto o pode salvar como acabar de matar.
E não pode ser adiada, nem torneada, nem desconversada, essa operação indispensável. É imperioso demarcar logo o limite exato, separando o que é crime e o que é direito de homem livre. Quem se provou culpado de conspiração, entendimento com o estrangeiro, desvio de dinheiros públicos para fins subversivos, preparação de luta armada, insuflamento do povo contra as instituições constitucionais, que pague o seu crime. Jornalista que incitava operários e soldados a greves políticas, à insubmissão e ao motim, esse jornalista incidiu em crime, e merece punição, é claro. Mas o jornalista que, usando da liberdade de imprensa, declarava suas convicções políticas, fossem quais fossem – como se pode prender e condenar esse homem, sem lhe cercear a mesma e sagrada liberdade de pensamento e de palavra?
Funcionário que utilizou criminosamente o dinheiro dos contribuintes para subvencionar organizações ilegais ou promover a insurreição cometeu crime e deve ser demitido, julgado, condenado, e com severidade. Porém, se esse funcionário tem apenas "ideias subversivas", como o punir? Ou antes, com que direito o punir?
Na hora em que se declara, seja qual for o pretexto e o momento, que ter ideias é crime, então nessa hora está tudo muito mal. Quando se exige que um cidadão, para usar dos seus direitos civis, assine um daqueles "atestados de ideologia" de malfadada memória, é sinal de que há um desequilíbrio grave na balança democrática.
Sob a alçada da justiça revolucionária só pode ser posto o fato atual, o fato concreto, o crime perpetrado. (E há uma legião enorme de candidatos à cadeia, dentro dessa faixa.) Mas ter qualquer ideia dentro da própria cabeça, seja que ideia for, isso só é crime em terras como a Rússia, a China, Cuba, ou na Espanha e no Paraguai.
Ser comunista ou acreditar que o comunismo é a solução para os problemas do mundo pode ser um erro, um engano trágico, mas não é um crime. Democraticamente não o é. Só começa a ser crime quando o cidadão abandona a simples ideologia e entra no terreno da organização revolucionária, da conspiração e da revolta.
Parece tão óbvio tudo isso. Mas tão difícil de realizar com honestidade e justiça. A grandeza da democracia coincide precisamente com a sua maior fraqueza. Na liberdade, que é o seu fundamento e a razão de sua existência, está também o seu maior risco, estão em potencialidade todos os perigos. Mas acontece que, dessa grandeza e dessa debilidade, desse risco, participa a própria natureza humana. O reconhecimento do livre arbítrio, que é a base de todos os códigos religiosos, nasce da ânsia imanente de liberdade da natureza do homem. Deus Nosso Senhor – qualquer que seja o nome sob que o invoquem – consagra essa liberdade essencial: do espírito como fundamento de toda a sua justiça. Deus, em todas as religiões civilizadas, revela a verdade, mas não a impõe, deixando ao homem o direito de errar, numa demonstração de que a democracia é instituição divina, já que se baseia no inalienável livre arbítrio por Deus reconhecido.
Quando leio nos jornais que a casa de fulano de tal foi "visitada pela polícia" que, em suas buscas, apreendeu grande cópia de "literatura comunista", tremo. Apesar de toda a minha gratidão pelo milagre que foi esta revolução, de toda a minha confiança nos homens que a chefiam, tremo. Polícia que censura livros, revolução democrática que tem medo do pensamento e faz autos de fé, assustam. Será que os agentes apreendedores são capazes de fazer a indispensável distinção entre a boçal literatura de propaganda da insurreição, fartamente distribuída pelas agências internacionais do comunismo, e a literatura propriamente dita, os livros onde o pensamento humano se entrega ao seu mais nobre exercício, que é a especulação e a discussão dos problemas eternos – sociais, morais, religiosos? Que qualificação intelectual terão os agentes de polícia que dão as buscas para fazer essa distinção sutil, mas vital?
A caça às feiticeiras é um esporte sanguinário e embriagante. Precisa muita força de alma para lhe resistir, quem tem o dever de caçar simples criminosos.
E não é ocioso lembrar que, afinal de contas, quem acabou com as bruxas e com a bruxaria não foram as fogueiras dos fanáticos; foi, ao contrário, a razão livre, o pensamento livre, o raciocínio livre dos homens, homens livres.
Engana-se quem quer
Era de imaginar que, a essa altura, a gente tivesse aprendido a lição, tivesse aprendido a dominar as artimanhas com que essas coisas tapeiam a gente, mas as pessoas nunca se fartam.
Elas aplaudem, agitam bandeiras, contratam bandas militares para desfilar. Sim, sim, coisas formidáveis, coisas milagrosas, máquinas de estontear a imaginaçãoPaul Auster, "Timbuktu"
A sedução do autoritarismo
Costa propôs ao Senado a criação de um “órgão independente” para controlar a internet. Pretende liquidar “mídias sociais” que “destroem reputações e disseminam o ódio”.
O senador se esqueceu de definir “mídias sociais” no projeto (PRS nº 56). Nem citou nomes. Só não deixou de lembrar a criação de 24 cargos nessa “instituição” (5) e no seu “conselho multissetorial” (19).
Ao lado, na Câmara, o deputado Eduardo Bolsonaro batalha por uma lei (PL 5358) para “criminalizar a apologia ao comunismo”. Pretende punir quem “fabricar, comercializar, distribuir ou veicular símbolos”, entre eles a foice e o martelo,
O deputado sonha com o impossível, pois “ideias não podem ser assassinadas” — ensinava o presidente argentino Domingo F. Sarmiento (1811-1888), que duplicou o número de escolas e construiu uma centena de bibliotecas públicas no seu país. No caso, uma idealização política inspirada, goste-se ou não, nos Evangelhos e cuja formulação orgânica remonta a Platão, na Grécia Antiga.
Bolsonaro quer proibir, por exemplo, símbolos da China, comunista e dona de 30% da energia, de metade da rede telefonia e com US$ 100 bilhões anuais em comércio com o Brasil.
O senador do PT e o deputado do PSL se encontraram na sedução do autoritarismo. Ficaram caricatos na aposta em censura para impor “ordem” ao século XXI. Podem não ter percebido, mas já foram atropelados pela História.
Mudanças climáticas podem gerar crise financeira sistêmica
Em “Cisne Verde”, os analistas traçam um paralelo entre a teoria do Cisne Negro com o caos climático. Em obra publicada em 2007, Nassim Nicholas Taleb descreve que os eventos do cisne negro possuem três características: eles são inesperados e raros, fora das expectativas; seus impactos são amplos ou extremos; e eles só podem ser explicados após acontecerem. Exemplos são ataques terroristas, o surgimento de tecnologias disruptivas ou catástrofes naturais.
Os cisnes verdes, ou “cisnes negros climáticos”, podem ser encaixados nessa discrição. Os riscos se caracterizam pela incerteza e não-linearidade, suas chances de ocorrência não se refletem em dados do passado, e a possibilidade de valores extremos não pode ser descartada. Entretanto, existem algumas particularidades dos cisnes verdes. Apesar de imprevisíveis, existe um alto grau certeza de que os riscos irão se materializar; o potencial para reações em cadeia ambientais, geopolíticas, sociais e econômicas imprevisíveis; e consequências mais sérias que crises financeiras: as catástrofes climáticas são ameaças existenciais para a Humanidade.
— Cisnes verdes ou cisnes negros climáticos apresentam muitas características dos cisnes negros típicos — afirmou Luiz Awazu Pereira da Silva, vice-gerente geral do BIS e coautor do estudo, em entrevista coletiva, segundo a agência Bloomberg. — As abordagens tradicionais de gerenciamento de riscos, que consistem na extrapolação de dados históricos e hipóteses de distribuições normais, são em grande parte irrelevantes para avaliar riscos futuros relacionados com o clima.

O livro foi publicado na semana seguinte ao anúncio de que a última década foi a mais quente do planeta, com o registro de 19 dos 20 anos mais quentes da História. O número de eventos climáticos extremos quadruplicou nos últimos 40 anos, o que reforça a urgência no trato do tema. A elevação do nível do mar ameaça a existência de cidades costeiras, tempestades e secas mais brutais e frequentes tornam catástrofes o novo normal.
— Acho que estamos prestes a observar algo que poderá estar por trás da próxima crise financeira sistêmica — afirmou Pereira da Silva, segundo a Reuters.
No livro, os autores destacam que os bancos centrais possuem limitações para agir contra as mudanças climáticas. Contudo, se apenas aguardarem por ações de outras agências, eles poderão ser expostos ao risco de não serem capazes de manterem a estabilidade financeira das nações. Os cisnes verdes podem forçar a intervenção dos bancos centrais, com a compra de grandes quantidades de ativos desvalorizados para salvar a estabilidade do sistema financeiro, como já aconteceu no passado.
“Contudo, as fundações biofísicas de tal crise e seu potencial de impactos irreversíveis mostraria rapidamente os limites desta estratégia”, dizem os autores, no livro. “Por outro lado, bancos centrais não podem (e não devem) simplesmente substituir outros atores governamentais e privados em suas ações insuficientes”.
— Não existe bala de prata — alertou Pereira da Silva. — Os bancos centrais não irão salvar o mundo novamente.
Mas isso não significa inação. Os autores recomendam que bancos centrais atuem de forma proativa, contribuindo na coordenação com outros atores, promovendo a integração dos riscos relacionados com o clima na regulação dos mercados e no monitoramento da estabilidade financeira, inclusive com a adoção de novas abordagens na modelagem e de novas ferramentas analíticas que melhor dão conta das incertezas e da complexidade do tema. Eles podem adotar critérios sustentáveis nas suas políticas e, “o mais importante, os bancos centrais precisam coordenar suas ações com um conjunto mais amplo de medidas que devem ser implementadas por outros atores”.
“Essa tarefa de coordenação é urgente, dado que os riscos relacionados com o clima continuam aumentando e os impactos negativos podem se tornar irreversíveis”, dizem os autores. “Existe um conjunto de ações que deve ser consistentemente implementado. As mais óbvias são a necessidade de precificar o carbono e a divulgação sistemática de riscos relacionados ao clima pelo setor privado”.
“A dura realidade é que estamos perdendo a luta contra a mudança climática”, escreveu o governador do Banco Central francês, François Villeroy de Galhau, no prefácio do livro. “Se os bancos centrais querem preservar a estabilidade financeira na era das mudanças climáticas, é de seu interesse ajudar a mobilizar todas as forças necessárias para vencer essa batalha”.
terça-feira, 21 de janeiro de 2020
Política diabólica
O demônio irrompe no ser humano não apenas de maneira velada ou encanado em criminosos e psicopatas. Muitas vezes e em alta escala, o diabo faz política e dizima povos inteirosHemann Hesse
Seis números que mostram um mundo cada vez mais desigual
“Sem medidas decisivas as coisas ficarão bem piores. O envelhecimento das populações, os cortes na despesa pública e as alterações climáticas ameaçam exacerbar ainda mais a desigualdade económica e de género e alimentar uma crise mais aguda para os que precisam de cuidados e para os que cuidam”, refere a entidade num relatório divulgado esta segunda-feira.
A Oxfam afirma que “enquanto a elite dos ricos e poderosos pode comprar a sua saída do pior destas crises, os pobres e sem poder não o conseguirão fazer”. E pede aos governos que “tomem medidas para construir uma nova economia, mais humana, que dê resposta a todos e que valorize mais a prestação de cuidados e o bem-estar de todas as pessoas do que os lucros e a riqueza”.

Todos os anos esta entidade costuma divulgar um estudo aquando da realização do Fórum Económico Mundial, em Davos, de forma a tentar colocar o problema da pobreza e da distribuição injusta de riqueza na agenda dos líderes políticos e económicos. No relatório deste ano, a Oxfam destaca alguns números para demonstrar que existe uma “crise de desigualdade” que precisa de ser resolvida. A entidade sugere a criação de um imposto adicional sobre as grandes fortunas para financiar mais emprego e serviços essenciais para a população.
2153
Número de multimilionários (com património acima de mil milhões de dólares) no mundo em 2019. Detêm mais riqueza que 4,6 mil milhões de pessoas (60% da população mundial).
22
A riqueza combinada dos 22 homens mais ricos do mundo é superior à de todas as mulheres dos continente africano.
100 dólares
Se todos se sentassem sobre o valor da sua riqueza empilhadas em notas de 100 dólares, a maior parte da população mundial estaria sentada ao nível do chão. As pessoas de classe média dos países mais ricos conseguiram estar na altura de uma cadeira. Mas os mais ricos do mundo estaria sentados no espaço sideral.
10 mil dólares
A Oxfam salienta que poupar dez mil dólares por dia desde a construção das Grandes Pirâmides serviriam apenas para ter um quinto da fortuna média dos cinco mais ricos do mundo.
10,8 biliões de dólares
Um dos problemas salientados pela Oxfam no relatório é o do trabalho não remunerado que envolve as tarefas diárias de cuidar de outras pessoas, cozinhar, limpar e encontrar água e lenha, que na sua grande maioria são desempenhadas por mulheres. A entidade estima o valor monetário destes trabalhos prestados por mulheres acima de 15 anos em 10,8 biliões (milhões de milhões) de dólares por ano. É o triplo do valor estimado para o setor da tecnologia a nível mundial.
0,5%
A Oxfam estima que um imposto adicional de 0,5% sobre a riqueza dos 1% mais ricos seria suficiente para angariar receita que financiasse o investimento necessário a criar 117 milhões de empresa nas áreas da educação, saúde e da assistência a idosos e a outros setores de forma a eliminar as falhas neste tipo de cuidados.
Estudo da Oxfam: 'É urgente encontrar soluções novas para o cuidado de crianças e idosos'
Se as horas trabalhadas por elas em casa fossem remuneradas, seriam injetados US$ 10,8 trilhões na economia mundial a cada ano. Esse seria a medida econômica do problema. O assunto também é importante no debate sobre a desigualdade, que a Oxfam considera como fora de controle, em seu relatório.

Faltam políticas públicas. Uma criança deveria ter vaga em creche. Mas o normal hoje é que as meninas cuidem das crianças e dos mais velhos da família enquanto os homens vão para o mercado de trabalho. Faz parte dessa divisão errada dos papeis familiares. É uma visão envelhecida. Os cuidados têm que ser compartilhados dentro dos lares e todos, homens e mulheres, precisam ter a oportunidade de buscar o mercado de trabalho.
As soluções precisam ser modernas. É assim que as economias e as sociedades prosperam. O risco desse modelo é que a mulher passe parte da vida produtiva cuidando dos filhos em casa e outra parte dedicada aos cuidados dos mais velhos.
Remunerar a mulher pelo trabalho doméstico não é uma boa solução. Isso congela a ideia de que o cuidado dos dependentes é uma obrigação da mulher. É um equívoco. A política pública para mudar essa situação é, por exemplo, ter mais creches especialmente em lugares pobres. Uma mãe que sai para trabalhar e deixa a filha mais velha cuidando da mais nova é a superexploração da mulher enquanto ela ainda é uma menina.
O Brasil precisa pensar também em como será a sua organização com o aumento do número de idosos. O estado pode oferecer instituições de longa permanência para os mais velhos, com tratamento mais humano.
As soluções têm que ir no sentido de modernizar as sociedades. Nos países nórdicos, o auxílio-maternidade não existe. É um benefício para o cuidado com a criança, dividido entre o pai, a mãe ou até outra pessoa da família, que passa um período de meses cuidando do dependente. Deixar o auxílio exclusivo para a mãe consagraria o princípio de que só a mãe vai cuidar. Relações intensas com o pai e a mãe formam seres humanos melhores, que entendem os diferentes papeis na sociedade.
Há muito o que ser feito na redistribuição do trabalho doméstico.
‘Desigualdade global está fora de controle’
Nunca foi tão urgente, segundo Schwab, dar significado concreto à ideia de um “capitalismo das partes interessadas” (stakeholder capitalism) no lugar de outros dois modelos em voga nas últimas décadas. O “capitalismo de acionistas” teve seu momento de esplendor enquanto centenas de milhões de pessoas prosperavam, tinham acesso a bens de consumo inéditos, empresas abriam novos mercados e empregos eram criados.

Só que esse modelo não é mais sustentável, avalia o fundador do Fórum, que dá as razões. “Primeiro veio o efeito Greta Thunberg: ela nos recordou que o sistema econômico atual constitui uma traição às gerações futura pelo dano ambiental que provoca. Em segundo lugar, os ‘millenials’ e a ‘geração Z’ já não querem trabalhar, investir ou comprar em empresas que não atuem com base em valores mais amplos. Por último, cada vez mais os executivos e investidores compreendem que o sucesso deles no longo prazo também depende do êxito de seus clientes, empregados e fornecedores”, afirma Schwab.Já o “capitalismo de Estado” pode ter colhido bons resultados e cumpriu um papel no desenvolvimento de alguns países, sobretudo na Ásia, mas precisa evoluir para não se corromper, segundo ele.
O novo manifesto estabelece premissas: pagamento justo de impostos, tolerância zero com a corrupção, proteção do meio ambiente para futuras gerações, estímulo à qualificação dos empregados, uso ético das informações privadas na era digital, vigilância dos direitos humanos em toda a cadeia de fornecedores, remuneração responsável dos executivos. Em um ensaio de construção desse novo capitalismo, dezenas de empresários e banqueiros que estão subindo a “montanha mágica” de Davos receberam, no fim da semana passada, carta assinada por Schwab - tendo como coautores os presidentes do Bank of America e da gigante holandesa Royal DSM - com uma proposta de compromisso: que suas companhias zerem as emissões líquidas de gases do efeito estufa, tornando-se “carbono neutras”, até 2050.As questões ambientais, inclusive, estão transformando a atual edição no que muitos chamam de “Davos verde”. Serão 51 painéis de discussão sobre ecologia, desenvolvimento sustentável e mudanças climáticas - contra 50 de geopolítica e 27 específicas de economia. Uma iniciativa coordenada pelo Fórum promete o plantio de um trilhão de árvores, até 2030, contra o aquecimento global.
Sem nenhum representante do governo brasileiro, uma sessão na quarta-feira intitulada “Assegurando um Futuro Sustentável para a Amazônia” terá no palco o climatologista Carlos Nobre, crítico das políticas ambientais de Jair Bolsonaro. O ex-vice americano Al Gore também integra essa discussão.
segunda-feira, 20 de janeiro de 2020
A Terra é chata
Um novo planeta foi descoberto por um satélite da Nasa. Fica na primeira galáxia à direita depois do Sol, a cem anos-luz daqui. É um pouquinho maior que a Terra e, como se constatou, redondo, em forma de globo.
Também como a Terra, gira em torno de si mesmo e de uma estrela e é dilatado nos polos e achatado no equador, ou vice-versa. Eles o estão chamando de TOI 700 d, sendo TOI a sigla em inglês para “Objeto de Interesse do Tess”. Tess é a nova sensação das varreduras espaciais: um satélite caça-planetas. Desde que entrou em ação, em 2018, já achou três.
Para descobrir um planeta, o Tess passa 27 dias observando uma estrela, de olho em qualquer oscilação de seu brilho. O que, se acontecer, terá sido provocado pela passagem de um corpo celeste —um planeta— ao redor dela. A vida é meio parada no espaço, donde não há outras opções. Mas, para não restar dúvida, exige-se que tal oscilação se dê pelo menos três vezes. Cada operação congrega um batalhão de cientistas, quase todos nóbeis, fazendo cálculos fora do alcance da nossa aritmética escolar.
Pois é armado dessa aritmética de ábaco e de contar nos dedos que um grupo de novos pitecantropos afirma que a Terra é plana, não esférica. São os terraplanistas. Indiferentes a 2.500 anos de ensinamentos por gente como Pitágoras, Aristóteles, Copérnico, Kepler, Galileu, Newton e Einstein, seus argumentos são os de uma criança de babador. Para eles, a Terra é chata e em forma de pizza, como se pode constatar, dizem, olhando pela janela do avião.
Os cientistas de toda parte e de todos os tempos nos mentiram. As estações espaciais que, lá de cima, nos veem redondos e esféricos, não existem. A Nasa é um estúdio de efeitos especiais. A Lua também é chata. Marte, Vênus, Júpiter, idem. Eles acreditam nisso.
Estou propenso a concordar. Mas, antes, meu cérebro também terá de virar uma pizza.Ruy Castro
Também como a Terra, gira em torno de si mesmo e de uma estrela e é dilatado nos polos e achatado no equador, ou vice-versa. Eles o estão chamando de TOI 700 d, sendo TOI a sigla em inglês para “Objeto de Interesse do Tess”. Tess é a nova sensação das varreduras espaciais: um satélite caça-planetas. Desde que entrou em ação, em 2018, já achou três.
Para descobrir um planeta, o Tess passa 27 dias observando uma estrela, de olho em qualquer oscilação de seu brilho. O que, se acontecer, terá sido provocado pela passagem de um corpo celeste —um planeta— ao redor dela. A vida é meio parada no espaço, donde não há outras opções. Mas, para não restar dúvida, exige-se que tal oscilação se dê pelo menos três vezes. Cada operação congrega um batalhão de cientistas, quase todos nóbeis, fazendo cálculos fora do alcance da nossa aritmética escolar.
Pois é armado dessa aritmética de ábaco e de contar nos dedos que um grupo de novos pitecantropos afirma que a Terra é plana, não esférica. São os terraplanistas. Indiferentes a 2.500 anos de ensinamentos por gente como Pitágoras, Aristóteles, Copérnico, Kepler, Galileu, Newton e Einstein, seus argumentos são os de uma criança de babador. Para eles, a Terra é chata e em forma de pizza, como se pode constatar, dizem, olhando pela janela do avião.
Os cientistas de toda parte e de todos os tempos nos mentiram. As estações espaciais que, lá de cima, nos veem redondos e esféricos, não existem. A Nasa é um estúdio de efeitos especiais. A Lua também é chata. Marte, Vênus, Júpiter, idem. Eles acreditam nisso.
Estou propenso a concordar. Mas, antes, meu cérebro também terá de virar uma pizza.Ruy Castro
Esmiuçando um país
Um país não é uma saudade, sequer uma nostalgia miúda. Não é uma música que seu pai cantava enquanto preparava o cigarro de palha. Não é a lembrança que sua mãe mantém de um antigo amante.
Não é uma tarde com crianças correndo no quintal. Igualmente não são dois vizinhos batendo papo pela janela de suas casas.
Um país não é uma bola na trave. Não é um grito inesperado daquele homem que caminha em silêncio. Qualquer muleta abandonada na calçada é apenas uma potencial metáfora para o país.
Por mais que se pense que um país seja suas sextas-feiras e feriados, ele não é isso. Tampouco é o domingo, no qual velhos casais reencontram o desejo.

Um país, veja bem, não é o conjunto de suas desgraças. Não é o sorriso do velho banguela ao ver seu neto banguela rindo do vento que lhe assopra o rostinho.
Um país não é nem a chuva ruidosa (muito menos a garoa) nem a mulher que, no meio da rua, parece chorar e ao mesmo tempo sorrir. Não é a gargalhada de um grupo de adolescentes.
Alguns querem que um país seja o aplauso comovido para aquela cantora cuja voz é apenas um fiapo da voz de quando ela estava no auge. Esqueçam. Um país não é a vassoura que varre a calçada.
Um país está longe de ser um assalto a banco. Do mesmo modo, está longe de ser um ato altruísta de um mendigo. Até poderia ser, mas não é, um beijo que o senhor violento, às escondidas, dá em uma flor cujo cheiro é mais intenso que a cor. Um país não é a sua literatura ou seus muros pichados.
Um país não é uma greve geral. Não é um dia sem consumir carne ou um dia sem consumir ou um dia em que se vai de visita ao túmulo dos pais.
Um país não são as crianças na escola. Não são os jovens na escola. Não são os adultos empregados. Não são nossas certezas ou sonhos.
Um país não é um filme de terror — ainda que um filme de terror possa ser um país; ainda que uma comédia possa ser um país. Ainda que a tristeza possa representar o país. Ainda que a alegria faça parte das saudades de um país.
Um país não é a sabedoria. Não são os acepipes servidos em reuniões festivas. Não são as quitandas cuja receita é anterior ao próprio país. Um país não são seus tambores e festas.
Um país não tem o rosto que os mapas dizem que ele tem.
Um país — o nosso — é um daqui a pouco urgente.
Na Secom, Bolsonaro queima junto com assessor
A Comissão de Ética da Presidência da República analisa a encrenca no dia 28. O Tribunal de Contas da União se equipa para perscrutar os contratos firmados por Wajngarten. A oposição prepara representação a ser protocolada na Procuradoria-Geral da República. E discute com aliados do centrão a hipótese de arrastar o secretário para uma inquirição no Congresso.
Alheio à movimentação, Bolsonaro lida com o incêndio à moda de um personagem de anedota de português. Nela, após incêndio no interior de um prédio, os bombeiros verificam os destroços. Encontram apenas um morto: Jair Manoel.
Ele estava de ponta-cabeça, com o dedo indicador apontando para um dos cantos do ambiente. Ao lado de Jair Manoel, havia um extintor de incêndio com a seguinte instrução: "Em caso de incêndio, vire para baixo e aponte para a chama.".
Bolsonaro ficou de cabeça para baixo no instante em que, a despeito do cheiro de queimado, anunciou que manterá Wajngarten no cargo. "Se foi ilegal a gente vê lá na frente", declarou.
No momento, dispondo da caneta presidencial, único extintor capaz de deter o fogo, o capitão limita-se a apontar para as labaredas, sem se dar conta de que está sendo chamuscado.
Os riscos fatais do planeta Terra
Foi exatamente o Deter, sistema de detecção de desmatamento em tempo real, que foi atacado pelo governo, a ponto de o presidente da República demitir o diretor do instituto. E o que o instituto alertou aconteceu. O Prodes já havia mostrado quase 30% de aumento. Esse sistema tem dados mais consolidados sobre 12 meses que terminam em julho de cada ano. O Deter é sistema de alerta, vai na frente, vai avisando. Na semana passada, ele divulgou os números do ano inteiro, de janeiro a dezembro, o primeiro desse governo que deliberada e abertamente estimula o desmatamento.

A economia foi atravessada por essa emergência e não há escolha que possa ser feita sem ter em vista esse perigo. O Brasil subsidia combustível fóssil, reduz imposto sobre diesel, gasta R$ 1 bilhão do dinheiro dos nossos impostos, todos os anos, subsidiando térmica a carvão. O ministro das Minas e Energia, Bento Albuquerque, me disse que o subsídio irá, pelo Plano Nacional de Energia, até 2027. Então a sociedade brasileira gastará R$ 8 bilhões até lá e só no segundo mandato presidencial depois do atual é que acabará esse gasto. Ou não. O governo Bolsonaro quer que o BNDES volte a financiar térmicas a carvão. O ministro me disse que não é para construir novas térmicas. É apenas para elas instalarem novas tecnologias. A decisão do banco, na gestão de Maria Silvia, foi não financiar e ponto. Recursos públicos seriam emprestados apenas para energias limpas e novas. Mas o que preocupa alguns economistas brasileiros são incentivos dados, e que existem em todos os países, à energia solar, limpa e sustentável. Eles nunca se incomodaram com o do carvão ou dos derivados de petróleo. Curiosa inversão do olhar.
“Os riscos diante de nós demandam imediata ação coletiva”. A frase, que poderia estar na boca de um ambientalista, foi escrita em documento divulgado pelo Fórum Econômico Mundial. Quase todos os riscos de longo prazo vistos nos cenários feitos pelos economistas e executivos da economia global são climáticos. Eventos climáticos extremos, grande perda de biodiversidade, crimes ambientais, falha na mitigação, são esses alguns dos problemas apontados por 750 especialistas e tomadores de decisão que responderam ao questionário do Fórum que acontece em Davos.
Se todos eles, que tomam decisões, acham que o perigo é este, se tantas ruas do mundo estão ocupadas por manifestantes, se líderes jovens estão alertando, com uma maturidade que nem deveriam ter, por que mesmo o mundo continua errando?
Em 2009, quando visitei o Met Office, um prédio nas proximidades de Londres com detalhes que lembram seu fundador, o comandante do navio de Charles Darvin, o mundo estava se preparando para a COP-15 de Copenhague. Havia muita esperança de um acordo global do clima que tivesse poder de lei nos países. O desmatamento da Amazônia estava caindo havia vários anos. Grandes empresários, executivos das principais empresas globais ouviam os alertas dos cientistas. Parecia ser o momento em que o mundo começaria a se afastar do perigo extremo. A reunião fracassou. Em Paris, anos depois, se conseguiu fechar o acordo do clima. Mas o governo americano passou a ser ocupado por um negacionista. O brasileiro, também. O mundo andou para trás desde Paris. Nós também. A reunião de Madri, em dezembro, foi melancólica.
Quando será tarde demais? Essa é a pergunta que a humanidade precisa encarar agora porque terá que respondê-la para as gerações que herdarão a Terra. O que estamos entregando aos nossos filhos, aos nossos netos?
Um terreno comum
Exercer autoridade sem abuso pressupõe seguir as leis. Mas não significa blindar poderoso. Criticar arbitrariedades na investigação não impede de reconhecer corrupção sistêmica e querer sua punição. Sem jogadas marotas.
Uma coisa não impede a outra. Defender o direito ao aborto não é incompatível com rigor no controle fiscal. Rejeitar discriminação sexual, racial ou religiosa não cega para ver as estruturas de patrimonialismo, clientelismo e corporativismo que mantêm a desigualdade econômica e social — e combatê-las sem populismo.
Ideias progressistas ou virtudes éticas não são monopólio de um só lado. Um terreno racional comum é indispensável para se construir um país melhor.
A semana em que 47 povos indígenas se uniram por um manifesto antigenocídio
A construção do texto final se assemelhou aos procedimentos diplomáticos para assinatura de acordos internacionais. Primeiro foram realizadas mesas de conversa por três dias. As grandes pautas abordadas foram os assassinatos de lideranças; os empreendimentos governamentais previstos para serem construídos sobre as Terras Indígenas; a atividade garimpeira e do mercado de mineração; a ação de madeireiros ilegais; a municipalização do sistema de saúde indígena, que ignora o tratamento especial dado atualmente a essas comunidades; e o desmonte da Funai.
O relatório original de trinta páginas foi então finalmente convertido por jovens indígenas formados em Direito em um documento enxuto, apresentado em português, por meio do qual eles denunciavam o “projeto político do Governo brasileiro de genocídio, etnocídio e ecocídio”. “As ameaças e as falas de ódio do atual governo estão promovendo a violência contra os povos indígenas, os assassinatos de nossas lideranças e a invasão de nossas terras", afirma o relatório. “O atual presidente da República está ameaçando os nossos direitos, a nossa saúde e o nosso território. (...) O governo atual está nos atacando, querendo tirar a terra de nossas mãos.”
Sob a cobertura de palha da Casa dos Homens, espaço que usado como plenária ao longo do encontro, Raoni estava cercado de outros caciques Kayapó enquanto os jovens liam a primeira proposta do texto. Os anciões pediram que os 47 povos pudessem se organizar em delegações ―pequenos grupos que se reuniram em rodas pela aldeia―, formados pelos anciões de cada povo e um jovem que pudesse traduzir o documento do português para a língua nativa de cada um. Após cada delegação ouvir a tradução em seu idioma, as lideranças fizeram uma lista de propostas de emenda ao documento.
Com as mudanças solicitadas em mãos, todos os líderes se reuniram mais uma vez na Casa dos Homens e as propostas foram votadas uma a uma. Entre elas, que fosse incluída a frase: “Não admitimos que o Brasil seja colocado à venda para outros países que têm interesse de explorar o nosso território”. Também houve muito debate sobre o título, que foi definido por consenso de forma a deixar claro que as afirmativas ali partiam de inúmeros líderes indígenas, que reconhecem Raoni como a liderança de todos. “Só nós podemos falar sobre nós e por nós mesmos. Não admitimos que nossos caciques sejam desrespeitados, assim como Bolsonaro fez em 2019 em seu discurso durante o encontro na ONU contra o cacique Raoni. Afirmamos que o Cacique Raoni é SIM [em letras maiúculas] a nossa liderança. Ele nos representa!", continua o texto.
Os líderes indígenas também decidiram em unanimidade dar destaque para a defesa dos territórios, o combate à atividade minerária, de garimpo e de madeireiras e ao arrendamento de terras. “Nós não aceitaremos garimpo, mineração, agronegócio e arrendamento em nossas terras, não aceitamos madeireiros, pescadores ilegais, hidrelétricas ou outros empreendimentos, como Ferrogrão, que venham nos impactar de forma direta e irreversível”, afirmou o documento. Por fim, as nações indígenas reiteraram esperar que as palavras redigidas em papel ecoem pelas ruas, por meio de manifestações no Brasil e no exterior. “2020 será um ano de muita luta, (...) de muitas mobilizações (...) em Brasília e nas ruas do mundo todo”, diz o documento.
E assim, após nove horas de negociação entre os povos, o texto final foi assinado pelas principais lideranças. Três mulheres kayapó (Maialu, Mayal e Moé) fizeram a relatoria do documento. Maialu, filha do cacique Megaron Metuktire, braço direito de Raoni, foi quem encerrou a mesa. Uma dança marcou a conclusão da elaboração do manifesto e a retomada da aliança dos povos da floresta. O momento retratou a união entre povos fisicamente distantes, do Rio Grande do Sul ao Pará, e de reconciliação oficial entre nações que já tiveram desavenças, agora deixadas para trás.
Bolsonaro promove a política da presepada
O que acontece quando chega ao governo federal um conjunto de ressentidos que passou a vida gramando para tirar uma nota C na prova, achava que bons modos eram coisa de pessoas frescas e sobrevivia das migalhas do poder?
Acontece o governo Jair Bolsonaro.
A insciência passa a ser vendida como virtude, e o insulto, como método de comunicação. Mas, porque competência não se improvisa, a presepada amiúde vira a resultante do entrechoque entre habilidade de menos e testosterona de mais.
A dicção imperial de Roberto Alvim a interpretar o arauto genocida do 3º Reich, embolado numa maçaroca simbólica, talvez não ache rival na escala de cenas ridículas já originadas na Esplanada dos Ministérios. Mas a distância para outras quixotadas deste governo é apenas de grau.
No Carnaval passado, o presidente veiculou imagens obscenas a pretexto de denunciar o que considera indecência. A escatologia —as alusões a detritos e excrementos— nunca frequentou tanto a expressão de um chefe de Estado brasileiro, o que é tema para psicanalistas.
Grosserias com adversários e profissionais da imprensa se tornaram moeda corrente, cunhada no Palácio do Planalto. Também vem de cima o desapreço pela técnica, pelo estudo, pela argumentação e pelo vernáculo. É apenas consequência um ministro da Educação ignorante do tema, que massacra a língua portuguesa e escoiceia os seus críticos.
Como são mal dotados também de sintaxe institucional, muitos quadros do Executivo apenas dissipam energia governamental. Dão com os burros n`água no Congresso, no Supremo Tribunal Federal e nos demais órgãos de controle. Nem bem se refizeram da trombada de ontem e já se abalam de novo contra o muro.
A estultice resfria o vapor autoritário que lhes sai pelas ventas. A inépcia atenua o efeito da brutalidade e deixa a patetice de subproduto. Mas em quatro anos até camundongo aprende. De pancada em pancada, o bicho começa a acertar os movimentos. Aí é que mora o perigo.
Acontece o governo Jair Bolsonaro.
A insciência passa a ser vendida como virtude, e o insulto, como método de comunicação. Mas, porque competência não se improvisa, a presepada amiúde vira a resultante do entrechoque entre habilidade de menos e testosterona de mais.
A dicção imperial de Roberto Alvim a interpretar o arauto genocida do 3º Reich, embolado numa maçaroca simbólica, talvez não ache rival na escala de cenas ridículas já originadas na Esplanada dos Ministérios. Mas a distância para outras quixotadas deste governo é apenas de grau.
No Carnaval passado, o presidente veiculou imagens obscenas a pretexto de denunciar o que considera indecência. A escatologia —as alusões a detritos e excrementos— nunca frequentou tanto a expressão de um chefe de Estado brasileiro, o que é tema para psicanalistas.
Grosserias com adversários e profissionais da imprensa se tornaram moeda corrente, cunhada no Palácio do Planalto. Também vem de cima o desapreço pela técnica, pelo estudo, pela argumentação e pelo vernáculo. É apenas consequência um ministro da Educação ignorante do tema, que massacra a língua portuguesa e escoiceia os seus críticos.
Como são mal dotados também de sintaxe institucional, muitos quadros do Executivo apenas dissipam energia governamental. Dão com os burros n`água no Congresso, no Supremo Tribunal Federal e nos demais órgãos de controle. Nem bem se refizeram da trombada de ontem e já se abalam de novo contra o muro.
A estultice resfria o vapor autoritário que lhes sai pelas ventas. A inépcia atenua o efeito da brutalidade e deixa a patetice de subproduto. Mas em quatro anos até camundongo aprende. De pancada em pancada, o bicho começa a acertar os movimentos. Aí é que mora o perigo.
O Real Resiste
Autoritarismo não existe
Sectarismo não existe
Xenofobia não existe
Fanatismo não existe
Bruxa fantasma bicho papão
O real resiste
É só pesadelo, depois passa
Na fumaça de um rojão
É só ilusão, não, não
Deve ser ilusão, não não
É só ilusão, não, não
Só pode ser ilusão
Miliciano não existe
Torturador não existe
Fundamentalista não existe
Terraplanista não existe
Monstro vampiro assombração
O real resiste
É só pesadelo, depois passa
Múmia zumbi medo depressão
não, não, não, não
não, não, não, não
não, não, não, não
não, não, não, não
Trabalho escravo não existe
Desmatamento não existe
Homofobia não existe
Extermínio não existe
Mula sem cabeça demônio dragão
O real resiste
É só pesadelo, depois passa
Como o estrondo de um trovão
É só ilusão, não, não
Deve ser ilusão, não não
É só ilusão, não, não
Só pode ser ilusão
Esquadrão da morte não existe
Ku Klux Klan não existe
Neonazismo não existe
O inferno não existe
Tirania eleita pela multidão
O real resiste
É só pesadelo, depois passa
Lobisomem horror opressão
não, não, não, não
não, não, não, não
não, não, não, não
não, não, não, não
Arnaldo Antunes
Arnaldo Antunes
Árvores da Amazônia são mais sensíveis ao fogo, diz estudo de Yale e do Ipam
“Os incêndios representam uma acelerada ameaça para a floresta tropical da Amazônia. No período de seca, podem afetar áreas ainda maiores. Neste estudo, mostramos o quanto a casca mais espessa pode proteger as árvores do fogo, mas em florestas tropicais as cascas são consistentemente mais finas”, afirma o texto dos pesquisadores.

O levantamento foi produzido pela professora norte-americana de ecologia e evolução biológica Ann Carla Staver, de Yale, e pelo brasileiro Paulo Brando, do Ipam, além de cientistas colaboradores. Segundo o estudo, a casca mais fina aumenta a mortalidade das árvores pelo fogo – especialmente nas matas mais úmidas.
“A intensidade do fogo afeta claramente a mortalidade das árvores, mas, mesmo assim, diversas florestas podem reagir de maneira diferente a uma intensidade de fogo semelhante. […] As reduções na mortalidade de caules entre árvores com casca mais espessa têm sido extensivamente descritas em áreas mais inflamáveis”, afirma o estudo dos cientistas.
Os pesquisadores explicam que a espessura dessa casca nos troncos varia com as particularidades de cada floresta. Áreas mais úmidas, por exemplo, resultam em árvores com casca mais fina.
Essa diferença é perceptível mesmo considerando um único bioma. Segundo o estudo, as árvores do projeto Tanguro em uma área amazônica do Mato Grosso, por exemplo, são mais resistentes ao fogo que aquelas da região de Manaus, no Amazonas.
O fogo, de acordo com os cientistas, se transformou na principal ameaça às florestas tropicais ao longo das últimas três décadas. O cenário é reflexo de uma combinação entre o desmatamento e o aumento da frequência das secas.
“Ao longo do século 20, os incêndios foram amplamente restritos a áreas com desmatamento ou áreas desmatadas para manutenção agrícola, mas agora os incêndios podem se espalhar prontamente por florestas que não foram perturbadas, aumentando drasticamente as áreas queimadas”, sublinham.
Entre 2000 e 2013, os pesquisadores mediram a espessura média de cascas de árvores em 13 diferentes pontos da Amazônia. Em cada local, os cientistas consideravam uma área total de 1 hectare (10 mil metros quadrados).
A partir da análise por imagens de satélites, percebendo o comportamento de cada uma dessas áreas em caso de incêndios, foi possível compreender como se dava a taxa de mortalidade das árvores locais ao terem contato com o fogo.
Os pesquisadores concluíram, a partir desses dados, que onde havia árvores com cascas mais espessas, o fogo se alastrava com menor propulsão, ou seja, mais lentamente.
Medido no período que vai de agosto de um ano a julho do ano seguinte, o desmatamento na Amazônia aumentou em 15% no acumulado dos 12 meses de 2019 em relação ao mesmo período no ano anterior, em 2018.
Os dados são do Sistema de Alerta de Desmatamento (SAD) do Imazon, instituto que não é ligado ao governo. A área desmatada nos últimos 12 meses chegou a 5.054 km².
Já para o Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) e o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), a Amazônia registrou o índice mais alto de queimadas dos últimos quatro anos, com 30% mais focos de incêndio.Matheus Leitão
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