domingo, 2 de junho de 2019

Quem fala demais

Revigorado pelas manifestações em seu favor e deixando o digladio com os contras para o seu ministro da Educação, Abraham Weintraub, o presidente Jair Bolsonaro se animou. Na semana passada, reuniu-se com os poderes Legislativo e Judiciário, fez visita supresa ao Congresso, elogiou parlamentares. Pregou a cartilha das privatizações, e, no melhor estilo popularesco, foi para a rua, reservando parte da agenda em Goiás para um almoço “improvisado” com caminhoneiros.

Pessoalmente, pode ter marcado gols, com chances até de barrar a queda contínua de sua aprovação no pós-posse. Teria sido ainda melhor para ele, para o seu governo e para o país, se a empolgação não o fizesse falar demais.

Com a língua solta, abriu flancos perigosos como o da exaltação ao presidente do Supremo, Dias Toffoli, que Bolsonaro passou, sem qualquer pudor, a tratar como um aliado – “é muito bom nós termos aqui a Justiça ao nosso lado”. Por ignorância ou oportunismo, o capitão desprezou o fundamental: à Justiça não é dada a opção de ter lado. Ainda que Toffoli, o garoto de ouro do ex Lula e seu novo melhor amigo, e o próprio presidente façam pouco caso disso.
Abandonando os regulares xingamentos à imprensa, Bolsonaro atendeu jornalistas e até falou com exclusividade à revista Veja. Fez pouco do seu partido, o PSL, que para ser formado rapidamente “pegou qualquer um”. Uma desfeita aos deputados “inexperientes”, que só chegaram lá pelo apoio do candidato-presidente. Vinculou o fim da reeleição a uma reforma política que possa diminuir o número de parlamentares de 500 para 400, garantiu que vai vender os Correios. Simpático e por vezes brincalhão, até puxou as orelhas de seu guru por ele ter indicado Ricardo Vélez para a Educação sem conhecer o afilhado. “Pô, Olavo, você namorou pela internet?”

Sobre o filho Flávio, investigado pelo Ministério Público do Rio por suspeita de enriquecimento ilícito, tergiversou. Escolheu se portar como um pai preocupado e perseguido. Não negou a amizade com Fabrício Queiroz, mas, ao dizer que desconhecia os rolos do ex-assessor, usou o mesmo expediente do ex Lula, prorrogando a suada república do “eu não sabia”. Algo pouco digno para alguém que rechaça antecessores e as práticas da “velha política”.

Na sexta-feira, voltou a soltar impropriamente o verbo.

No almoço com os caminhoneiros, vangloriou-se de ter beneficiado a categoria no decreto pró-armas, estimulando-os a mandar bala. “Se tiver arma de fogo é para usar”, disse. Depois, assegurou que daqui a pouco as armas, hoje caras, vão cair de preço. A reivindicação era por mais asfalto e mais policiamento. Mas, sem oferecer qualquer alternativa diante das reclamações pela falta de infraestrutura que destrói pneus, motores, boleias, e pelos roubos de carga, Bolsonaro vaticinou: “quanto mais arma, mais segurança”.

No mesmo dia, durante um evento da Assembleia de Deus em Goiânia, defendeu a assunção de um ministro evangélico ao Supremo. Ciente do espanto que a afirmativa provocaria, o presidente lançou o verme e saiu-se com a vacina: “não me venha a imprensa dizer que quero misturar a Justiça com religião”.

Pode até vir a não fazê-lo, embora pareça querer.

Reincidente no erro, insistiu em comprometer a indicação que fará no ano que vem para o STF. Já meteu os pés pelas mãos ao confessar que barganhara a vaga futura para convencer o ex-juiz Sérgio Moro, que não é evangélico, a integrar o governo. Agora, acenou para os seus amigos de fé. Irresponsabilidade dupla.

Animado com as manifestações em seu favor, Bolsonaro falou muito e mais do que devia sobre tudo. Mas ficou mudo diante das estultices do seu ministro da Educação. Além do desrespeito a professores e alunos, que ele considera frágeis e manipuláveis, a cena patética do vídeo “Singing in the rain”, no qual Weintraub aparece rodando um guarda-chuva com a bandeira nacional ao fundo, tem eloquência própria. Mostrou-se pior ou no mínimo igual a Vélez.

Sobre isso, Bolsonaro nada disse, ficou calado. Um silêncio embalado por outra crença, a ideológica. A mesma chaga que, vinda do outro polo, ele jurava combater.

Infestação de fanáticos

O que vivemos neste início do século XXI não é um choque de civilizações, nem um conflito entre Ocidente e mundo árabe ou entre ricos e pobres. É um choque entre os fanáticos e o resto de nós. E há fanáticos de todos os tipos e inclinações políticas e religiosas
Amós Oz

Angst

Ararinha azul agora só em cativeiro 
É um nó no peito todo dia. Palavra curta, que puxa pra dentro e trava na garganta. Sentimento de aspereza universal. É o pesadelo da lama no sono mal dormido das famílias de Santa Bárbara. É a caça por esporte, o grande desmonte autorizado, leilão de terras, leilão de águas, um monte de frutas e folhas gordas criadas em agrotóxico, em três meses mais de quinhentos milhões de abelhas mortas. É uma chuva de balas disparadas dos helicópteros, chave de braço nas ruas, nos bares, dentro das casas, epidemia de dengue e de suicídio. É um boçal no poder gastando um país como quem ganhou na loteria, é o blá-blá-blá da meritocracia, tragédia com data marcada, uma agenda de calamidades, uma gente lunática emendando e remendando a lei, o dito que fica por não dito e a vontade de matar multiplicada por vinte. É uma gente orgulhosa da própria selvageria, profissional em causar medo, uma fileira de dezenove cabeças de onça sem corpo no Pará, incêndio na escola dos Pankararu, tiros contra os Guarani-Kaiowá, ameaças de morte aos Yaminawá. E no meio desse atoleiro todo, uma notícia de longe, que soa como fábula, de um ex-caçador na ilha de Sumatra, hoje guarda florestal, que um dia ouviu o choro do pássaro calau e teve vergonha do que fazia. Um ex-caçador desde que ouviu o choro do calau que não morria, quatro vezes atingido e não morria. Mas qual pássaro, se chorasse, nos envergonharia? A ararinha azul é que já não pode ser, que a ararinha azul já está extinta no Brasil.
Mariana Ianelli

Perdidos na Terra

Difícil conceber missão mais atordoante para a mente e o corpo do que a empreendida em julho de 1969 pelo americano Neil Armstrong — sair de uma nave espacial, a Apollo 11, e pisar na Lua. Na Lua, caramba! Essa experiência transcendental, tanto para o astronauta como para a humanidade, será fartamente dissecada nas homenagens previstas para o cinquentenário da epopeia. Mas vale lembrar que Armstrong, apesar de ser filho de pais devotos, nunca se considerou escolhido por Deus para realizar a monumental missão. Viveu longa e produtiva vida na Terra com o mesmo foco com que imortalizou suas pegadas no “ Mar da Tranquilidade” lunar.


Em sua 29ª semana no poder, Jair Bolsonaro ainda soa como se estivesse pisando em solo intergaláctico. Em longa entrevista concedida à revista “Veja”, o presidente se mostra atordoado com o caminho que acredita ter-lhe sido designado por Deus. “Imaginava que ia ser difícil, mas não tão difícil assim”, declarou aos jornalistas Mauricio Lima e Policarpo Júnior. “Essa cadeira aqui é como se fosse criptonita para o Super-Homem. Mas é uma missão. Entendo que Deus me deu o milagre de estar vivo”, disse, referindo-se ao atentado à faca que sofreu em setembro passado. “Nenhum analista político consegue explicar como eu cheguei aqui, mas cheguei e tenho de tocar esse barco...”

Na sexta-feira, poucas horas após a publicação da entrevista regada a lamentos e autoelogios superlativos, deu uma remada a mais no seu modo de tocar o barco. “Será que não está na hora de termos um ministro evangélico no STF?”, perguntou aos fiéis presentes à Convenção Nacional das Assembleias de Deus Madureira, numa estocada adicional contra a criminalização da homofobia sendo julgada no Supremo.

Para quem fica algumas semanas de folga do ciclo noticioso 24/7, pousar novamente no planeta Brasil de 2019 não é banal. O país parece uma casa de espetáculos com programação múltipla, disfuncional: em Brasília há desde sessões matinais de troca de coraçõezinhos entre o presidente e a bancada parlamentar feminina até a matinê “A Praça é Nossa”, em homenagem ao apresentador Carlos Alberto de Nóbrega com aparição "impromptu" do presidente.

Mas há, sobretudo, o horror sazonal das matanças intestinas nos presídios nacionais — desta vez foram 55 os mortos esganados ou perfurados até ficarem exangues, em quatro unidades do Amazonas. Para quem tem interesse no tema, recomenda-se aqui o livro “American Prison: A Reporter’s Undercover Journey into the Business of Punishment”. Trata-se de um mergulho quase dickensiano no universo do sistema prisional americano gerido por empresas privadas. Nada a ver diretamente com a Umanizzare, empresa responsável pela gestão dos convulsionados presídios amazonenses, mas seminal. O autor é Shane Bauer, repórter investigativo da “Mother Jones”.

O planeta Brasil de hoje (como de ontem, aliás) parece ter um braço extraterritorial em Lisboa, Harvard, China, Jerusalém, tantas são as escapadelas individuais ou caravanas para eventos, seminários, viagens oficiais. A novidade são os desconvites — somente no mês de maio o próprio Bolsonaro achou prudente evitar Nova York e contentar-se com Dallas para receber um prêmio, enquanto o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, tratou de cancelar um giro europeu (Paris, Oslo, Berlim, Londres) que tinha tudo para dar errado. Não apenas as lideranças europeias preferem manter distância da atual política de desconstrução ambiental do Brasil como o ativismo ecológico no Velho Continente está mais vibrante do que nunca — é provável que o giro de Salles teria tido um séquito interminável de protestos de rua.

Adicione-se a ideia de Bolsonaro, apresentada sem sutilezas, de transformar a Estação Ecológica de Tamoios, em Angra dos Reis, numa pulsante Cancún turística. Ela consegue soar mais desvairada ainda do que a imagem do recente engarrafamento humano no topo do Everest.

Ao contrário do que se pensa, governos populistas não se diferenciam dos demais por criticarem as elites, pois apontar falhas nas altas esferas do poder é essencial a democracias. A característica dos populistas, ensina Jan-Werner Müller, professor de Teoria Política de Princeton, está em se apresentar como únicos representantes do que seria o cidadão de bem, o verdadeiro cidadão. As demais lideranças nacionais passam a ser retratadas como potencialmente corruptas, usurpadoras ilegítimas da confiança popular, e quem as apoia não seria povo.

Selecionar um povo ideal que caiba no figurino imaginado é o sonho quântico de todo populista. Para o povo real, poder contar com alguma política de educação coerente já seria milagroso.

Brasil de camisa nova


Ninguém tem culpa, nem memória

Se fossem levadas a sério as declarações dos políticos brasileiros, jamais encontraríamos uma pessoa sequer para responsabilizar pelas mazelas nacionais. O país tem 13 milhões de desempregados, mas a culpa não é do PT de Lula e Dilma, não é do MDB de Michel Temer, nem da turma nova que chegou agora com Bolsonaro. A economia não anda, ou anda para trás, mas não há culpados. Os dedos desses apontam para todos os outros. Os dedos dos outros indicam todos estes. E o país soçobra.


Sobre o desemprego, o ministro da Economia, Paulo Guedes, manda colocar na conta do PT. “Isso é coisa do passado. Vai cobrar do Lula e da Dilma”, Guedes gosta de repetir. É verdade também que nestes cinco meses de governo não se conseguiu registrar nenhum sinal alentador na economia que pudesse estimular investimentos e gerar novos empregos. Ao contrário. Do outro lado, o PT acusa o governo Bolsonaro por bater recorde de desemprego. Esqueceu que a estagnação econômica teve início no governo Dilma, chegou a melhorar sob Temer, mas voltou a degringolar. E, como se vê, ninguém tem culpa.

Ao novo governo cabe explicar por que, mesmo com o clima superfavorável pós-eleição, a economia estancou no primeiro trimestre, registrando PIB negativo. A explicação é a do dedo apontado. Para o PT. Mas, como não se conseguiu a confiança da população, e muito menos do mercado neste início de governo repleto de problemas, começam a ser discutidas soluções que o ministro Guedes diz não serem mágicas, mas são claramente emergenciais. Ele falou, por exemplo, em liberar o Fundo de Garantia para colocar R$ 20 bilhões na economia. Trata-se de medida de quem olha para frente e vê tempestade. Parece desespero. Pode não ser, mas parece.

Nas questões ambientais e rurais ocorre a mesma coisa. Nunca a floresta amazônica esteve tão desmatada, e a culpa não é do PT, nem do MDB, muito menos da turma dos novatos PSL e correlatos. Segundo eles próprios. O novo ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, diz que desmatamento é histórico, e o que seu governo quer fazer é abrir novas fronteiras de negócios para o Brasil. Diz isso, mas age como se fosse um representante da bancada ruralista e da indústria de agrotóxicos dentro do governo. Já a turma do passado ataca o ministro e diz que o novo governo vai destruir o que resta das florestas nacionais. Os volumes de queimadas e abate de árvores na Amazônia brasileira cresceram nos primeiros dois anos do governo Lula, em seguida caíram para voltar a crescer na gestão de Dilma.

O senador Paulo Rocha (PT-PA) ocupou a tribuna do Senado semana passada para acusar o governo Bolsonaro de ter parado a reforma agrária. Deve ser verdade, essa claramente não é questão que interesse ao novo governo. O curioso é como um parlamentar do PT, ligado ao Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), acusa terceiros de não fazer reforma agrária depois de 14 anos de governo petista. O partido, que deveria ter zerado o estoque de trabalhadores sem-terra, assentou menos gente no governo Dilma do que na gestão de Fernando Henrique Cardoso. Em 2016, Dilma assentou 1.686 famílias, contra 101 mil em 1998, no primeiro mandato de FH, ou 136 mil em 2006, no governo Lula.

A saúde no Brasil está sucateada, mas ninguém é culpado. Claro que a deterioração de hospitais e postos de saúde, umas das maiores tragédias nacionais, vem sendo operada há anos, governo após governo. O que ocorre agora é mais uma vez o festival de “não é comigo”. Petistas cobram investimentos do novo governo, mas negligenciaram da mesma forma o setor. De 2002 a 2012, segundo o Tribunal de Contas da União (TCU), mais de R$ 90 bilhões destinados por Orçamento para a Saúde não foram gastos pelos governos de Lula e Dilma.

Na educação, bem, na educação já sabemos que o que vinha mal seguirá mal e tem tudo para piorar. A única medida até agora anunciada pelo novo governo é o corte, ou o contingenciamento, se preferirem, nas universidades federais. E a famosa “responsabilidade não é minha” segue em frente. Todos querem fazer crer que a culpa é dos outros. Ou que ninguém tem culpa. Na verdade, o que falta nesta turma é memória. Todos são culpados.

Cadê as provas de 'coação" que MEC diz possuir?

Em vídeo divulgado na quarta-feira, o ministro Abraham Weintraub (Educação) disse estar "recebendo no MEC cartas e mensagens de muitos pais de alunos citando explicitamente que alguns professores, funcionários públicos, estão coagindo os alunos ou falando que eles serão punidos de alguma forma, caso eles não participem das manifestações. Isso é ilegal, isso não pode acontecer." Decorridos quatro dias, não há vestígio de prova nem sinal de providência adotada contra a suposta ilegalidade praticada pelos hipotéticos coatores.

No dia seguinte, quinta-feira, a rapaziada ganhou o asfalto. E Weintraub mandou sua assessoria enviar nota aos jornalistas para informar o seguinte: "Até o momento, a Ouvidoria do ministério já contabiliza 41 reclamações no órgão, além de diversas interações realizadas via Facebook do MEC e pelo Twitter do ministro Abraham Weintraub". Passados três dias, as alegadas reclamações não vieram à luz. Nenhum coator foi repreendido ou levado aos tribunais.


De duas, uma: Ou a coação de alunos é assombração que só existe na cabeça do ministro ou o chefe do MEC ignora as provas de algo que tachou de "ilegal". Na primeira hipótese, Weintraub é mentiroso e não merece permanecer no cargo.

Na segunda alternativa, o personagem comete o crime de prevaricação. Consiste em "retardar ou deixar de praticar, indevidamente, ato de ofício". Neste caso, Weintraub precisa trocar a poltrona de ministro pelo banco dos réus, pois prevaricar é delinquência que o Código Penal Brasileiro pune com prisão —de três meses a um ano.

Noutros tempos os executivos governamentais dividiam-se apenas em dois grupos. Havia os que eram incapazes de todo —como Vélez Rodrigues, o olavete que durou menos de 100 dias no MEC. Havia também os que eram capazes de tudo. Abraham Weintraub inaugura um terceiro grupo. Reúne as duas características numa mesma pessoa.

Capaz de tudo, Weintraub empurrou o monstro para as ruas ao transformar um corriqueiro congelamento de verbas numa guerra ideológica. Incapaz de todo, imagina que pode devolver o monstro à sala de aula espetando-o com sua língua afiada. Um ministro assim corre muitos riscos, exceto o risco de dar certo.

Será que vai dar certo?

O governo Bolsonaro chegará ao final? Questão suscitada pelas tensões, idas e vindas desses cinco meses de administração. Não vislumbro resposta convincente. No limite, aponto o “Senhor Imponderável dos Anjos” como assíduo visitante em nosso roçado político-institucional.

Mas a ciência política ensina como medir a viabilidade de um governo e a possibilidade de se sustentar. Pinço as alavancas que o cientista político chileno Carlos Matus usa para apontar quatro eixos que balizam respostas à pergunta acima. São elas: a) a viabilidade política; b) a viabilidade econômica; c) a viabilidade cognitiva; e d) a viabilidade organizativa.


A primeira diz respeito à índole dos políticos e sua disposição de endossar ou não a agenda do Executivo; isso depende muito da articulação do governo. Imbróglios obscurecem o horizonte político. Ao dizer que não se submete à “velha política”, Bolsonaro coloca imensa barreira entre o governo e o Parlamento.

A articulação do governo é dispersa, com protagonistas múltiplos – general Santos Cruz, Onyx Lorenzoni, o próprio presidente e líderes do governo no Congresso. Afinal, quem é o responsável? A própria base governista é um amontoado sem rumo. O PSL vive em querelas constantes, enquanto o governo precisa convencer políticos (até da oposição) para aprovar as reformas.

A segunda viabilidade requer dados e contextos econômicos alinhados sob a tese que se quer demonstrar. No caso brasileiro, a recessão já dá sinais de que pode voltar. Sem a reforma da Previdência, não haverá como pagar aposentadorias. Ao contrário, com as reformas, as projeções mudam de rumo. O país cresceria de 2% a 3%, segundo o relator da PEC da Reforma Tributária, o competente ex-deputado Luiz Carlos Hauly.

Os inputs econômicos se assentam sobre base racional, e não emotiva. Sob ameaça do retorno da recessão, o risco é que o país volte às brumas do passado.

O terceiro eixo é o cognitivo, área do conhecimento sobre as matérias pautadas. Sem ampla divulgação dos temas, não haverá convencimento do corpo parlamentar. Da mesma forma, a sociedade precisa ser bem informada para que faça pressão sobre seus representantes. Conhecimento se transporta pelos meios de comunicação: interpessoais, grupais ou coletivos, reuniões, debates, rádio, TV, jornais, redes sociais etc.

Mas a comunicação do governo é falha. Há estruturas, um porta-voz general, redes usadas pelo presidente e seus filhos. A dispersão desorienta e gera balbúrdia.

Por último, a viabilidade organizativa, conjunto de meios e instrumentos – ministros, estruturas, articulação política – que influencia a circulação rápida de ideias. Sem coordenação, o fracasso ocorrerá.

Os quatro eixos devem ser ajustados para alcançar metas e objetivos. A análise acurada de cada viabilidade abrirá sinais e referências para se construir uma resposta adequada à pergunta que encabeça este texto.

Paisagem brasileira

 Yoshiya Takaoka, Ouro Preto 1968 

Conversa mole

Governantes residentes em becos sem saída costumam recorrer a soluções semelhantes, sendo o convite para a assinatura de “pactos” a mais comum delas. Jair Bolsonaro não está naquela situação extrema e, ainda assim, convidou os presidentes do Legislativo e do Judiciário para firmar um pacto, uma desgastada e falsa solução que, como de hábito, não dará em coisa alguma. Pelo motivo simples de que a tradução do governo para pacto é uma proposta de acerto para apoio incondicional, e isso o presidente não conseguirá.

A ideia de Bolsonaro obviamente foi conferir às manifestações do dia 26 um peso na ordem institucional que, de fato, não tiveram. Os presidentes da Câmara, do Senado e do Supremo Tribunal Federal atenderam ao pedido a que não poderiam deixar de atender, sabendo do propósito e, ao mesmo tempo, da inutilidade da convocação. Cada um dos poderes dispõe de agenda específica e todos eles buscam o melhor para si, o que nem sempre guarda relação com o mais confortável para o vizinho constitucional.

Afora isso, o presidente da República não tem se notabilizado por ser um interlocutor confiável. Num dia morde, no outro assopra e no seguinte de novo volta a morder para depois tornar a assoprar, dependendo das circunstâncias. A dinâmica obedece à lógica primária das ações presidenciais que, por isso, carecem de credibilidade e, como toda trama tosca, quedou-se devidamente desvendada em seus primeiros movimentos. Isso para dizer que os locatários de poderosos gabinetes da República não caem na conversa (fiada) de Sua Excelência.

Jair Bolsonaro aparentemente saiu ileso da convocação do protesto a favor, que poderia ter sido um erro fatal cometido nos acordes iniciais do governo. Saiu não tão intacto quanto gostaria, pois demonstrou na convocação aos pares que teme o efeito da volta do cipó de aroeira no lombo de quem mandou dar.

E quais consequências seriam essas? Inúmeras, umas visíveis a olho nu, outras dependentes do decorrer dos acontecimentos. Aqui, no entanto, tratemos apenas das evidentes: reação contrária do Congresso a medidas de interesse do Planalto e consequente aumento de prestígio interno de Rodrigo Maia, má vontade do Supremo em relação à pauta de costumes defendida por Bolsonaro e incentivo a manifestações de rua em oposição a quaisquer atos do governo. É disso que Jair Bolsonaro tem medo.

Ele talvez saiba, mas se não sabe conviria tomar ciência de que quem bate releva, mas quem apanha nunca esquece. O Congresso apanhou dele, o Judiciário também, por intermédio de um dos aloprados filhos, bem como os manifestantes em prol das verbas para a Educação, chamados de “idiotas úteis”.

Não são idiotas nem inúteis os brasileiros que se manifestaram a favor de Bolsonaro. São cidadãos donos de uma opinião que por ela devem ser respeitados. Da mesma maneira merece de todos o maior respeito qualquer pessoa que proteste ou se manifeste contrariamente aos atos, palavras e decisões tomadas pelo governo que, gostemos ou não, a todos nós preside.

'Missonário'

Eu tenho uma missão de Deus, vejo dessa maneira. Foi um milagre estar vivo e outro milagre ter ganho as eleições. Deus também tem me ajudado muito na escolha dos meus ministros
Jair Bolsonaro

Política infantil, povo infantilizado

Duvido que algum país tenha um número de irresponsáveis por metro quadrado comparável ao nosso. Baseando o cálculo só no circuito institucional sediado em Brasília, excluindo o resto do País, nossa vantagem sobre o resto do mundo nesse quesito deve ser acachapante.

Para bem aquilatarmos a extensão da coisa, tanto faz começarmos pelo lado grotesco – lagostas, vinhos de qualidade, auxílio-paletó, auxílio-moradia – ou pelo lado teratológico, quero dizer, pelo contingente de 26 milhões de pessoas sem trabalho, por nosso sistema educacional, horroroso nos três níveis, pela corrupção de proporções amazônicas, pela taxa de homicídios subindo de patamar e agora, para nosso infinito espanto, pelo rompimento de barragens causando danos irreparáveis a algumas de nossas mais importantes bacias hídricas. Culpa de Deus? Não, culpa da ignorância técnica, da falta de fiscalização e do desprezo pela natureza e pela vida das coletividades que vivem nas proximidades. A verdade é uma só: a desigualdade social e o desmazelo generalizado estão nos tornando um país estúpido, violento e cruel.


Se nossa renda por habitante crescer 1,5% este ano (o que não é trivial) e essa taxa se mantiver por um longo período, levaremos 47 anos para dobrá-la e alcançar o nível que Portugal já hoje desfruta. Repito: 47 anos. Essa projeção macabra deveria ser suficiente para mudar as atitudes e padrões éticos dos donos do poder. Deveria ser uma espada de Dâmocles obrigando os três Poderes a se levarem mais a sério e a tratar com respeito os 207 milhões de habitantes deste país “abençoado por natureza”. O que vemos acontecer diuturnamente em Brasília dista anos-luz desse mandamento elementar.

Só consigo compreender a lerdeza (pirraça, fisiologismo, falta de vergonha...) com que a reforma da Previdência é tratada por grande parcela do Congresso a partir da ignorância de muitos a respeito do futuro que nos aguarda. A referida parcela simplesmente não compreende que essa reforma é apenas o primeiro passo numa dura série de mudanças que teremos que fazer, de um jeito ou de outro. De reformas muito mais drásticas do que essa que temos sobre a mesa poderá depender, quem sabe, até nossa sobrevivência como entidade nacional integrada.

Não me deterei nos prós e contras do governo Bolsonaro, assunto martelado diariamente na imprensa e nas redes sociais. Não sei se ele adotará ou não um estilo consentâneo com a magistratura a que foi alçado e com a gravidade da crise em que os governos anteriores nos meteram. Quero apenas lembrar que a eleição já passou, que os palanques já foram ou deveriam ter sido desmontados e que a presente hora tem de ser de distensão e pacificação, não de mais acirramento.

A História do Brasil não é o oito ou oitenta que tantos se comprazem em trombetear. Erramos muito, mas também acertamos bastante. Tivemos muito azar em algumas ocasiões, mas outras houve em que Deus deu realmente a impressão de ser brasileiro. Veja-se a preservação da integridade territorial, que nos proporcionou esse que talvez seja o maior dos nossos ativos: nossa dimensão continental. É certo que, em nosso caso, a unidade não foi suficiente para alicerçar um mercado interno robusto; seria demais esperar isso no nível de pobreza prevalecente quando nos livramos do regime colonial. De 1930 a 1980, nossa economia cresceu vigorosamente. Naquele período poderíamos ter constituído um mercado interno respeitável e não o fizemos, agora, sim, por uma imperdoável sequência de erros, a começar pelo modelo de crescimento concentrado no Estado, trampolim para a obscena consolidação de uma casta patrimonialista no topo da pirâmide política, reforçada pela trincheira geográfica que Brasília passou a proporcionar-lhe.

Parece-me, pois, que o alfa e o ômega da irresponsabilidade política brasileira é essa incapacidade infantil de perceber o inferno a que inexoravelmente chegaremos se reformas drásticas não forem efetivadas. Um ponto de partida conveniente para quem tiver ânimo e coragem para abrir os olhos é relembrar o que aconteceu nas três últimas décadas do século 19 nos três casos clássicos de “industrialização tardia” – ou seja, na Alemanha, no Japão e nos Estados Unidos. Firmar a unidade territorial e construir um poder central digno de respeito foram a condição sine qua non para constituir o mercado interno, base do crescimento industrial acelerado que esses três países conheceram. A Alemanha, além de uma reforma administrativa admirável, iniciada no começo do século 19, levou a cabo a unificação em 1870. Sob a égide da Prússia e a liderança de Bismarck, os 40 principados então existentes se uniram no que viria a ser uma formidável potência industrial. No Japão, a restauração da dinastia Meiji levou ao poder uma nova elite que rapidamente quebrou o sistema feudal, desarmou a corporação dos samurais, padronizou o sistema educacional em nível nacional e abriu rapidamente o país para o exterior, em busca de tecnologia. Não menos impressionante, nos Estados Unidos a drástica reorientação do sistema educacional no sentido tecnológico, por meio dos land-grant colleges, e a sangrentíssima guerra de 1861-1865 contra o sul escravocrata fincaram os pilares do espetacular crescimento econômico na quarta parte do século.

No Brasil, a dificuldade é escolher qual o melhor exemplo de infantilidade e irresponsabilidade. Minha inclinação é a organização partidária. A proliferação desabrida não seria tão grave se o resultado dela fosse apenas nominal, mas não é o caso: analisada como um número de partidos efetivos, nossa estrutura partidária é, nada mais e nada menos, a mais fragmentada do planeta.

Vinte e seis milhões de pessoas sem trabalho ficam sem saber se é para rir ou para chorar.

O populismo mexicano

No auditório da Universidade de Guadalajara, sob o espetacular mural de José Clemente Orozco contra o fanatismo ideológico, acabam de ser realizadas três mesas-redondas com a participação de 15 intelectuais mexicanos – talvez os mais eminentes do país –, que, diferenças entre eles à parte, manifestaram sua preocupação com guinada que a política mexicana vem dando desde que Andrés Manuel López Obrador assumiu a presidência.

Héctor Aguilar Camín, escritor, jornalista e diretor da revista Nexos, advertiu que, tanto em suas iniciativas como em suas intenções, o mandatário parece ter posto em marcha a construção de uma estrutura mais pessoal e permanente, que as instituições democráticas mexicanas, recentes e frágeis, não estão em condições de resistir. E o historiador Enrique Krauze, diretor da Letras Livres, que foi vítima de uma recente campanha de descrédito e intimidação por suas críticas ao Governo, insistiu no risco de que “o messias tropical” – assim chamou o novo presidente em um célebre ensaio – esteja operando de tal modo que possa cruzar as linhas vermelhas da democracia mexicana para continuar no poder, por via direta ou por pessoa interposta, uma vez terminado seu mandato (a Constituição do México não permite a reeleição.)

Fernando Vicente
Este temor acabou sendo longamente compartilhado, com muitos matizes de diferença, pelos participantes, entre os quais havia escritores, juristas, políticos e defensores dos direitos humanos, incluindo várias mulheres, como Lisa Sánchez, que em uma aplaudida intervenção defendeu a sociedade civil e suas mobilizações em prol dos direitos das mulheres e da igualdade de oportunidades.

Talvez o mais claro e taxativo tenha sido o crítico literário Christopher Domínguez Michael, para quem a deterioração da democracia mexicana já é um fato irrebatível, que só poderá se agravar com o poder quase total dado pelos eleitores ao seu novo presidente, que obteve a maioria absoluta no Congresso e mantém uma enorme popularidade, da qual se serve para tomar decisões pessoais nos campos econômico, político e cultural que frequentemente surpreendem seus próprios ministros e assessores. Tudo isso, afirmou, deixa entrever um futuro inquietante para o país que tem mais falantes de espanhol no mundo inteiro. E outro crítico, ensaísta e professor universitário, Guillermo Sheridan, ofereceu sutis interpretações dessas mesmas críticas.

Falavam devagar, sem se alterar, guardando as formas, e eram escutados com uma atenção rigorosa por um público que lotava a sala e no qual abundavam os estudantes universitários. O bacharel Raúl Padilla, inventor da grande Feira do Livro que ocorre nesta cidade todos os anos e que pôs o nome de Guadalajara no mundo inteiro, nos tinha advertido de que talvez houvesse incidentes. Mas não houve nenhum, e as nove horas do fórum transcorreram em absoluta paz. “Isto é a civilização”, pensei muitas vezes, “um mundo de ideias e razões, tão diferente do que estamos acostumados em outras partes, das banalidades e lugares-comuns de que costuma estar cada vez mais trufada a política em nossos dias”.

As inquietações dos intelectuais mexicanos com seu novo Governo me parecem justificadas. O passado de López Obrador e suas campanhas políticas delatam um dirigente impregnado de populismo, algo que não teve o cuidado de dissimular desde que está no poder. A cada manhã, durante duas horas seguidas, oferece uma entrevista coletiva em que os jornalistas presentes costumam ser mais servis que independentes. Suas decisões ele costuma tomar de improviso, prescindindo dos marcos legais, mediante ukazy que, depois, seus funcionários ajeitam, não sem dificuldade, para lhes dar cobertura legal. E todas suas iniciativas parecem guiadas por um instinto ou palpite do momento, mais que de acordo com um programa, embora tenha tido um em sua campanha, mas pareça ter dele se esquecido. Assim ocorreu com a construção do novo aeroporto na Cidade do México, que cancelou de maneira arbitrária e que provocou seu primeiro atrito com o empresariado mexicano. É verdade que sua enorme popularidade o defende contra todas as críticas, mas isto parece ter agudizado no personagem o que estes intelectuais observam nele: a presença do caudilho tradicional latino-americano, voluntarista e despótico, que, precisamente por ser muito popular, acredita estar acima das leis e normas democráticas.

Não há censura de imprensa por uma razão que explicou, com afiada lucidez, o ex-ministro mexicano de Relações Exteriores Jorge Castañeda, ensaísta e professor universitário atualmente nos Estados Unidos. Os anunciantes de mais peso, empresários importantes, recebem um telefonema do próprio presidente ou de um intermediário de confiança, aconselhando-os ou rogando-lhes que reduzam ou cancelem seus anúncios no jornal (como poderia ter ocorrido com o Reforma, o grande jornal do México, que, por acolher as críticas de seus colunistas ou as formular ele mesmo, caiu em desgraça com o poder e viu sua publicidade diminuir de maneira dramática). Os empresários, que querem levar a vida em paz, ainda mais com um governo populista, não hesitam em acatar a sugestão. Deste modo, os meios ameaçados moderam suas críticas, ou correm o risco de quebrar. Assim se instala a censura atual nos países democráticos: asfixiando-se economicamente a imprensa –leia-se rádios e redes de televisão – independente ou díscola.

O México é um grande país e, com todos os defeitos de seu velho sistema político, desde que o ex-presidente Zedillo permitiu eleições realmente livres, no ano 2000, viveu um processo democratizante indiscutível, do qual tanto as elites como a população comum participaram com entusiasmo. Os Governos destas últimas décadas foram escolhidos em eleições genuínas, e sua política internacional correspondeu nestes anos à do chamado Grupo de Lima, que, em casos como os da Venezuela e Nicarágua – dois regimes autoritários e corruptos –, manteve uma posição impecável, exigindo eleições livres e defendendo a oposição que é vítima de maus tratos, encarceramentos, torturas e assassinatos. Desde que López Obrador está no poder, o México optou por uma “neutralidade” que equivale à cumplicidade com ambas as ditaduras (como se se pudesse ser neutro perante a peste bubônica).

Estas jornadas que tiveram lugar na Universidade de Guadalajara mostram que não será fácil para o Governo atual retroceder todo o avançado no México, e que à frente desta resistência estão intelectuais com espírito crítico, como os participantes deste fórum. O povo que aplaude e continua encantado pelos desplantes do presidente López Obrador compreenderá – tomara que antes cedo do que tarde – que a era dos caudilhos deve ficar para trás, e para sempre, em uma América Latina onde a liberdade e a democracia vão substituindo as tiranias populistas que lhe causaram tanto dano.

sábado, 1 de junho de 2019

Bolsonaro e a democracia

A manifestação de 26 de maio não alterou em nada a situação política. Permanece a tensão entre o Palácio do Planalto e o Congresso Nacional. Houve um discreto apoio oficial aos atos, mas sem a participação direta do presidente da República. Se o objetivo era o de emparedar o Congresso, acabou fracassando. As ruas não ficaram tomadas pelo povo, como nas manifestações pelo impeachment de Dilma Rousseff.


A questão central é a governabilidade. Algo que não será resolvido com os apoiadores de Jair Bolsonaro nas ruas. Se nada mudou, então o governo perdeu. Ficou demonstrado que o apoio popular está menor do que estimado. Pode ser que o presidente tenha caído na armadilha das redes sociais. O mundo virtual não é o melhor conselheiro político. E mais: robôs não fazem história.

O Palácio do Planalto padece de um déficit de democracia. As constantes diatribes de Bolsonaro contra o funcionamento do Congresso reforçam o seu desinteresse pela negociação política, essência da democracia. A demonização dos partidos e das principais lideranças políticas do Parlamento compõe o receituário. Nesses cinco meses de presidência, ele não deu nenhum sinal real de que pretende conviver com a independência dos poderes. É provável que até desconheça o funcionamento de cada poder consagrado na Constituição, apesar de ter permanecido 28 anos na Câmara dos Deputados.

O governo não conseguiu apresentar um conjunto de medidas que possam conduzir o País à recuperação econômica. O discurso monocórdio de que tudo passa milagrosamente pela Reforma da Previdência produz uma narrativa de que, a partir da sua aprovação, o Brasil vai entrar numa rota de crescimento econômico em ritmo chinês. Que o capital estrangeiro vai afluir aos bilhões de dólares. É uma falácia. São necessárias diversas ações no campo macroeconômico, devidamente articuladas dentro de um amplo projeto nacional, a fim de criar as condições para que o País saia da crise criada a partir do início do segundo governo Dilma. Isso não vai ocorrer espontaneamente, mas será produto de uma ação governamental responsável.

E ao Presidente da República, o que caberia fazer? Coordenar os esforços para que o Brasil tenha um rumo seguro. Para tanto, necessitaria ter ciência dos principais projetos. Bolsonaro deveria entusiasmar o País. Viajar, inaugurar obras, discursar apresentando as ações governamentais e dialogar com os setores políticos.

Um triunfo tão perto do desastre

Nas recentes eleições para o Parlamento Europeu, a bancada ecologista saiu vitoriosa, subindo de 52 para 69 deputados, num total de 751, e transformando-se na quarta maior força do hemiciclo. Até agora eram a sexta. Na Alemanha, os Verdes ultrapassaram os sociais-democratas, elegendo 21 deputados. No Reino Unido, elegeram onze. Na França e na Finlândia os ecologistas conseguiram, respectivamente, o terceiro e segundo lugar. Em Portugal, um pequeno partido, o PAN (Pessoas Animais Natureza), que se tem distinguido sobretudo no combate contra a caça, as touradas e a utilização de animais nos circos, e que até agora muitos analistas encaravam com um sorriso trocista, conseguiu eleger um deputado.

Esta onda verde parece ser uma boa notícia. Sugere uma pequena mudança de percurso num mundo entalado entre duas grandes potências, os EUA e a China, que desprezam as políticas ambientais. O desdém do atual presidente americano, Donald Trump, em relação aos esforços para conter o aquecimento global vem reforçando e multiplicando os inimigos do meio ambiente no planeta. Entre eles, está o governo de Jair Bolsonaro.


O triunfo dos Verdes no seio da União Europeia é, ao menos em parte, consequência direta do despertar da juventude para a causa ambiental. Nos últimos meses, a principal novidade política, na Europa e no mundo, foram as grandes manifestações de estudantes, em milhares de cidades, um pouco por todo o planeta, em defesa do clima e da preservação da vida e da sua diversidade, num movimento não partidário criado por uma jovem sueca, Greta Thunberg, de apenas 16 anos.

É, infelizmente, um despertar tardio. Acresce que as eleições europeias confirmaram também a afirmação de uma direita e extrema direita contrárias a todas as políticas de proteção do ambiente. Receio, pois, que a cegueira prevaleça sobre o bom senso. A Terra é o Titanic prestes a colidir com um iceberg. Já se avista a superfície do mesmo — uma imensa montanha de lixo, produzida por todos nós; contudo, uma boa parte dos passageiros ainda insiste na ideia de que o navio aguenta muito bem o embate. Há até quem assegure, sorrindo, que o iceberg não existe. Pouco importa as multidões que gritam no convés. O barco continua a sua marcha suicida.

Os alheados que dançam nos salões enquanto o navio avança para o desastre são, talvez, mais felizes do que aqueles que gritam e protestam, em pânico, tentando alertar quem está no comando. No fim, naufragaremos juntos. Uns morrerão a dançar e a beber. Os outros, os lúcidos, talvez até morram antes, de susto, de frustração e de furor.

Em todo o caso, prefiro estar entre estes últimos. Quero acreditar que esta pequena mudança de rota na Europa seja o início de um movimento de viragem muito mais amplo, mais sólido, mais sustentado, que logo repercutirá noutras latitudes, em especial naqueles países, como os Estados Unidos e a China, com maiores responsabilidades na destruição do planeta. Não nos resta muito tempo. Entretanto, eu vou para o convés: gritar!

Amnésia contumaz

Nossos governantes não querem saber da História. Para eles, tudo começa na hora em que assumem o poder. E o poder sem memória sempre foi arbitrário. As constituições que, no mundo civilizado, os dirigidos impõem e fazem jurar aos dirigentes, tentam conjurar o perigo dessa amnésia contumaz. Infelizmente, entre nós, até sobre os Evangelhos se jura com um pé no ar...
Miguel Torga

Rescaldos

O presidente Bolsonaro passou no teste da Avenida Paulista vista de cima. Talvez não houvesse tanta gente quanto na manifestação dos estudantes, mas havia o suficiente para reafirmar o bolsonarismo como força de rua. E eis-nos conduzidos, de manifestação a manifestação, ao vestíbulo do modo venezuelano de fazer política. Bolsonaro até cogitou de comparecer a um dos eventos, o que o enquadraria como perfeita réplica, pela direita, ao modelo consagrado por Maduro pela esquerda. Arrependeu-se a tempo. As bandeiras empunhadas pelos manifestantes, nas diversas cidades, traíam equívocos e contradições na superfície e um segredo mal escondido nas profundezas. O segredo é o desejo, acalentado pela franja lunática do bolsonarismo, de virar a mesa.

O ministro Paulo Guedes ficou animado. “Nunca vimos isso antes, o povo apoiando a reforma da Previdência”, disse. Alguns objetariam à qualificação de “povo” para o segmento visto nas ruas, de extração diferente da do Brasil trigueiro e inzoneiro, mas, vá lá, o ministro tem razão — deu-se o inimaginável de gente abalar-se a gritar por uma reforma carimbada na folha de rosto como impopular. Resta que, se os manifestantes eram a favor da reforma, por que escolheram como alvo o presidente da Câmara, Rodrigo Maia, amaldiçoado em todas as praças e premiado, em Copacabana, com um pixuleco? Maia é, entre os políticos, o mais insistente e articulado defensor da reforma da Previdência. Quem é contra é Bolsonaro, cujo último torpedo, no afã de inviabilizá-la, foi a revelação, com um sorriso alvar, como se descobrisse a pólvora, de um plano de cobrar taxas para atualizar o valor dos imóveis e com isso arrecadar o trilhão de reais sonhado por Guedes com a reforma.


A franja lunática passou os últimos dias em silêncio. Seu mentor, o bruxo Olavo de Carvalho, disse que não mais se manifestaria sobre a política brasileira. Os filhos do presidente se contiveram. Os ministros da Educação e das Relações Exteriores nos pouparam das intervenções, belicosas ou cômicas, que os distinguem. Pode ser um recuo, pode ser uma retirada tática. Bolsonaro postou, às vésperas das manifestações, texto que denunciava as instituições como empecilhos a suas sãs intenções e um vídeo em que um pastor congolês o aclamava como escolhido de Deus. Depois das manifestações, amigável, convocou os chefes dos demais poderes a um café da manhã no Alvorada e lhes propôs um “pacto pelo Brasil”. Tudo somado, estamos diante de um festival de despistes, de acobertamentos de secretas intenções, das calmarias que antecedem as tempestades — ou da barafunda característica de uma Presidência sem rumo?

A luta contra a corrupção expressou-se, nas manifestações, pelo protesto contra a retirada do Coaf das mãos do ministro Sergio Moro. Haveria, no noticiário recente, outros casos contra os quais protestar. Por exemplo, a revelação de que Fabrício Queiroz, o desaparecido faz-tudo da família Bolsonaro, pagou em dinheiro vivo os 133 600 reais que lhe custou a cirurgia de câncer no hospital Albert Einstein. Ou as transações imobiliárias em série — seriam 37, segundo as últimas contas do Ministério Público do Rio de Janeiro — que propiciaram lucros expressivos ao senador Flávio Bolsonaro.

O “pacto pelo Brasil” discutido no Alvorada selaria o apoio conjunto dos poderes Executivo, Legislativo e Judiciário a causas prioritárias como a reforma previdenciária e o combate à criminalidade. Impossível acreditar que as assinaturas dos presidentes da Câmara e do Senado decretariam o alinhamento automático de casas caracterizadas, por natureza, pelo debate e pelo conflito. Ilógico imaginar que a assinatura do presidente do Supremo Tribunal Federal arraste o conjunto dos ministros a endossar de antemão matérias passíveis de vir a ser levadas a julgamento. De duas uma: ou o Planalto tenta atrair Congresso e STF a uma missão impossível, para depois acusá-los de boicotar seus esforços para salvar o Brasil, ou o tal pacto não passaria daquilo que o elegante inglês cunhado no Brasil apelidou de “embromation”.

Consta ter sido o ministro Toffoli o primeiro a aventar a ideia de um pacto. O ministro erra de alvo ao não dirigi-­lo ao interior do próprio tribunal. Está mais do que na hora de o STF, tão acossado quanto o Congresso pela sanha do bolsonarismo, proteger seus flancos. Um pacto que incluísse itens como restringir as decisões monocráticas, impedir pedidos de vista que se eternizam e apressar os julgamentos de políticos seria um primeiro passo. Mas como pactuar numa casa em que as brigas atingiram tal nível que uns não falam com outros?

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Risco ambiental atinge a economia

Investidores de um país europeu procuraram uma autoridade brasileira da área econômica. A primeira pergunta não foi sobre a questão fiscal, mas sim sobre o meio ambiente. Queriam saber que garantias o Brasil daria de respeito às leis ambientais. Disseram que olham com extremo cuidado esse assunto, tanto que nunca investiram na Vale porque não sentiam confiança na governança da empresa nessa área e hoje sabem que acertaram. Contaram que os investidores de seus países querem saber exatamente que tipo de prática suas aplicações estão estimulando.

A reunião que houve na segunda-feira, 27, entre o ministro Ricardo Salles e os embaixadores da Noruega e da Alemanha foi constrangedora. Eles pediram dados concretos que justificassem as suspeitas levantadas pelo ministro sobre a direção do Fundo Amazônia, e ele respondeu com críticas genéricas. Eles não têm ingerência no dinheiro, mas a estrutura de governança foi amarrada no contrato.

O ministro, ao desmontar o conselho, pode ter quebrado esse contrato. Há neste momento, segundo uma fonte que acompanha as conversas, perplexidade e pessimismo entre os noruegueses. Se os financiadores recuarem, os governos estaduais sentirão falta desse dinheiro instantaneamente. Há secretarias de meio ambiente, como as do Pará e do Acre, cuja maioria dos projetos é financiada pelo Fundo Amazônia.


Por diversas formas esse comportamento desastrado na área ambiental pode afetar a economia. O presidente Jair Bolsonaro pode dizer que não enganou ninguém e que seu projeto na campanha era inclusive o de acabar com o ministério setorial. Porém, o governo não está entendendo que suas decisões ambientais afetarão a economia. O ministro Ricardo Salles detesta o meio ambiente, nunca tinha ido à Amazônia e é adepto fervoroso do centralismo estatal. Seus atos invertem o lema da campanha de Bolsonaro e impõem mais Brasília e menos Brasil nos conselhos ambientais.

O que fez no Conama gerou protestos e poderá levar a ações na Justiça, mas o que está fazendo no Conselho Orientador do Fundo Amazônia pode levar o país a perder dinheiro grande. O senador Flávio Bolsonaro apresentou um projeto tão estupidamente radical que seria cômico se não fosse grave. Quer acabar com toda a reserva legal nas fazendas. Só para se ter uma ideia: 80% da Mata Atlântica estão nas reservas legais. Cumprida à risca, isso acabaria com o que resta do bioma que protege a vida na região onde moram 70% dos brasileiros.

Cento e dezesseis pesquisadores da Embrapa assinaram um documento mostrando os riscos à produção agrícola e à vida se essa proposta for aprovada. A primeira lei que criou a reserva legal é de 1934. O senador Flávio Bolsonaro quer um retrocesso de 85 anos. O passado que esse governo busca é bem pretérito.

Quem é atualizado sabe que a proteção ambiental deixou de ser, há muito tempo, um assunto de nicho. Hoje o termo “ambientalista” vai muito além da sua concepção original. Gestores de dinheiro de investidores, como os citados no início dessa coluna, não perguntam sobre meio ambiente por ativismo.

Os donos do dinheiro que administram não querem investir em países e negócios que significam risco ambiental. Há óbvio risco de barreiras às commodities brasileiras. Se o ruralismo não reagir a tempo e com visão estratégica o setor vai sentir o impacto. Mas vai além do agronegócio. Um país que se isola, e vira um pária na questão ambiental e climática, é uma economia vulnerável.

Os investidores de qualquer área estão neste momento de olho em cada um dos movimentos do governo. O documento dos pesquisadores da Embrapa explica pacientemente como a reserva legal eleva a produtividade das fazendas e diz que fizeram a nota pelas “numerosas discussões recentes no contexto das propriedades rurais”. Segundo eles, a relação entre polinização e controle biológico por insetos com a produção é direta: “Levando-se em conta os dados da produção de 2012, a polinização mediada por insetos foi responsável por 30% da produção de 44 culturas brasileiras.”

O governo Bolsonaro brinca, por ignorância, com coisa séria. E enfrentará muito mais consequências do que consegue perceber na sua curta visão ideológica.

Pequisa da Embrapa mostra que desperdício de alimentos chega a R$ 1 mil por família/ano

O desperdício de alimentos de uma família brasileira composta por três pessoas em um ano pode ultrapassar R$ 1.002,00, valor superior ao salário mínimo nacional. Os dados são de estudo liderada pela Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), que ouviu 1.764 famílias em todo o País, em parceria com a Fundação Getúlio Vargas (FGV), em 2018.

A pesquisa mostra que cada família desperdiça, em média, 128 quilos de alimentos por ano. Por pessoa, o desperdício de comida em casa atinge 41 quilos por ano - o equivalente a R$ 323. Os cálculos foram realizados pelo analista Gustavo Porpino, um dos líderes do levantamento, a pedido do Estadão/Broadcast, com base nos valores do Instituto de Economia Agrícola (IEA), de São Paulo, em abril de 2019.

A análise levou em conta apenas o universo familiar, sem considerar perdas em restaurantes, empresas, hotéis e escolas. "Os R$ 1 mil perdidos ao ano representam apenas o gasto com a compra dos alimentos mais desperdiçados. Se levarmos em conta o custo do preparo, que inclui gás de cozinha, óleo, água e outros recursos, o montante será ainda mais impactante".

Os produtos mais perdidos são arroz - 28,33kg -, carne, com 25,76kg, feijão, com 20,60kg, e frango, com 19,32kg. O leite completa a lista dos principais alimentos jogados fora, com 5,15 litros anuais.


Na avaliação do pesquisador, chama a atenção o fato de a renda não explicar totalmente a diferença entre as famílias que desperdiçam mais ou menos. O estudo, que integra o programa de cooperação Diálogos Setoriais União Europeia-Brasil, identificou altos níveis de desperdício mesmo em famílias de classe média-baixa. A diferença recai, isso sim, sobre o que é jogado fora, como hortaliças e frutas, que são mais consumidas nas famílias mais ricas. "Mas em termos de volume, a renda e a idade não explicam".

Porpino afirma que alguns hábitos esclarecem esse elevado desperdício, próximo ao de nações mais ricas. A compra mensal é um deles, assim como o hábito da "fartura". "O costume de fazer uma grande compra depois de receber o salário e encher a despensa faz com que as famílias preparem porções muito grandes e não aproveitem as sobras. Esses fatores comportamentais estão associados à valorização da abundância, da preferência por uma comida 'fresquinha' e até por haver certo preconceito com sobras de refeição, a 'comida dormida'".

Segundo o especialista, planejar melhor as compras e refeições, não adquirir alimentos em excesso e reaproveitar sobras é fundamental para reduzir a quantidade jogada fora. "A cultura do 'melhor sobrar do que faltar' também deveria ser mudada", avalia.

Gustavo Porpino ressalta que as famílias brasileiras percebem que o desperdício causa impacto no orçamento, mas a força da cultura é tanta que o hábito de desperdiçar permanece. "Como trata-se de uma média, não significa que todos os brasileiros jogam fora estes volumes. A pesquisa mostra que há tanto famílias que desperdiçam pouco quanto outras que desperdiçam muita comida, e os fatores comportamentais explicam a variação", pondera.

Ele sugere ações educacionais e de comunicação realizadas por parcerias público-privadas para elevar conscientização da população sobre o problema. Recentemente, a Embrapa renovou memorando de entendimento com o WWF Brasil para dar continuidade à iniciativa "Sem Desperdício", que inclui ações de comunicação para mudança comportamental.

"As estratégias para redução do desperdício podem ser direcionadas ainda para gerar novas oportunidades de negócio e incrementar a disponibilidade de alimentos saudáveis. O Brasil, por exemplo, produz muitas frutas e hortaliças mas, paradoxalmente, o consumo per capita é bem abaixo dos valores recomendados pela Organização Mundial de Saúde e as perdas e o desperdício são muito elevados", diz.

Segundo Gustavo Porpino, mudar esse quadro demanda ações em diferentes elos da cadeia produtiva. Ele diz que vê no Brasil tecnologias disponíveis e uma geração jovem empreendedora antenada com inovações sociais. "Se houver vontade política, podemos avançar consideravelmente", estima.

Segundo dados da Organização das Nações Unidas (ONU), a América Latina desperdiça, em média, 127 milhões de toneladas de alimentos a cada ano. Em valores, seriam cerca de US$ 97 bilhões. A entidade elencou como um dos objetivos de desenvolvimento sustentável a redução pela metade do desperdício de alimentos até 2030.

Para Porpino, os números mostram uma contradição e uma oportunidade de aliar o combate ao desperdício com o fortalecimento da segurança alimentar no Brasil.

"Temos características de países ricos no fim da cadeia, com elevado desperdício de alimentos, e características de países em desenvolvimento no início, com perdas na produção, transporte. Temos uma grande oportunidade de pegar toda essa abundância que se perde e direcionar para a rede de enfrentamento à fome, como os bancos de alimentos, por exemplo, além de aprovar as Leis que incentivam a doação de alimentos por parte do varejo".

Gente fora do mapa


O país à deriva

Fechamos o quinto mês do ano com a economia estagnada: menos 0,2% de crescimento do PIB no último trimestre em relação ao mesmo período do ano anterior, com o governo de Michel Temer já na bacia das almas. No ano passado, o crescimento do PIB foi de 1,1%; as agências de risco já estão projetando um PIB abaixo de 1% neste ano. O mercado já não espera a reforma da Previdência, cuja discussão na Câmara vai muito bem, obrigado. Está esperando que o governo Bolsonaro corrija o seu rumo de proa, porque a agulha aponta numa direção, mas o país deriva para o mesmo destino no qual foi lançado pelo governo Dilma Rousseff: a recessão.

Não existe bilhete premiado na Presidência da República. A eleição provou que o presidente Bolsonaro é um homem de sorte, poderia até ter morrido com a facada que levou em Juiz de Fora, em plena campanha. A brutal agressão acabou catapultando ainda mais sua candidatura e teve um papel importante na sua vitória. Mas não é bom abusar da sorte. A compulsão por jogos é semelhante a outros vícios, como alcoolismo, tabagismo e as drogas em geral. Estimula as mesmas áreas cerebrais e o comportamento é bem semelhante: compulsivo e impulsivo, a única coisa que tem de diferente é que não há o consumo de uma substância, mas se repete várias vezes na prática de mesma atividade prejudicial.

Diferentemente das drogas, o jogo é visto como um desvio moral, principalmente pela questão financeira, já que o jogador compulsivo geralmente perde muito dinheiro. Entretanto, é uma patologia, um transtorno diretamente proporcional à disponibilidade de jogos. Alguém já disse que a política é a arte das artes e a ciência das ciências, mas também é um jogo. E todo político é uma espécie de jogador compulsivo, pode perguntar a qualquer um das suas relações. O problema é que na Presidência da República, ainda mais num país de dimensões continentais, social e culturalmente complexo como Brasil, a caneta presidencial não é um taco de sinuca. As ações do governo têm uma força de inércia que afeta tremendamente a vida das pessoas. Quanto se erra estrategicamente nesse jogo, os estragos são em grande escala: os quase 13 milhões de desempregados, por exemplo. Não adianta rezar.

O mundo moderno deve a Nicolau Maquiavel a separação entre a política e a religião. No exílio, o sábio de Florença escreveu O Príncipe, um manual político para governantes que almejassem não apenas se manter no poder, mas ampliar suas conquistas. Conta sucessos e fracassos dos poderosos da época para ilustrar conselhos e opiniões, numa tentativa de reaproximação com os Médici. No fim da Idade Média, retomava-se a clássica visão antropocêntrica do mundo, na qual o homem era a medida de todas as coisas. Foi um resgate dos filósofos gregos em resposta ao poder teológico-político dos reis e da Igreja em plena Renascença. O diálogo entre a burguesia emergente e a realeza, com a emergência do mercantilismo, está na gênese do nosso humanismo. Não por acaso, o pensamento de Maquiável resulta da experiência das cidades-estado sob influência papal.

A questão da legitimidade e o exercício do poder estavam no centro das preocupações de Maquiavel. O governante precisa ser dotado de virtú e fortuna, simultaneamente, para chegar e manter o poder. A virtú exige conhecimento e habilidade, que são também os atributos dos bons jogadores para não brigar com a sorte. A fortuna não é a sorte, simplesmente, como deduz a leitura vulgar de Maquiável. Trata-se das contingências ou das circunstâncias com as quais o governante tem que lidar, que mudam a cada conjuntura. É por isso que o florentino adverte: as mudanças de conjuntura podem transformar certas virtudes em grandes defeitos: “Quando um príncipe deixa tudo por conta da sorte, ele se arruína logo que ela muda. Feliz é o príncipe que ajusta seu modo de proceder aos tempos, e é infeliz aquele cujo proceder não se ajusta aos tempos”. Napoleão Bonaparte foi um estudioso de Maquiavel, seus comentários sobre O Príncipe estão na edição brasileira da Ediouro. Nem por isso deixou de errar, mas seus comentários são bem interessantes. Quem quiser saber por que perdeu a guerra, deve ler Guerra e Paz, de Liev Tolstoi (Companhia das Letras).

O Brasil é uma democracia de massas, com instituições republicanas que sobreviveram à hiperinflação, à recessão e a dois impeachments. Assim como houve uma radical alternância de poder, com a eleição de Bolsonaro, também existe o pleno exercício do dissenso, seja à direita, como no último domingo, seja à esquerda, como ontem. Faz parte do jogo, mas isso não significa que devamos apostar no caos ou no quanto pior, melhor. A ideia de que Deus está acima de tudo e de todos na política é anterior a Maquiável e não é boa conselheira. O país precisa desviar seu curso do desastre e encontrar um porto seguro. A calmaria econômica é um mau presságio.

De @Barack para @Bolzo

“Um mau professor pode te ensinar álgebra e outras coisas. Mas grandes professores conseguem te ajudar a identificar as coisas que impedem você de ser aquele que você quer ser.

“Algumas vezes, particularmente na América Latina, onde existem profundas divisões políticas entre esquerda e direita, tudo é muito ideológico, vejo que as pessoas não acreditam no governo e no mercado. Não existe um mercado funcional sem um bom governo. E, se você não tem um bom sistema educacional, não tem um bom mercado. Sem isso tudo, não há um bom governo”.
Barack Obama

Cabeça feita

 Brady Izquierdo Rodríguez
Temos botões de fácil acesso que, quando carregamos neles, libertam emoções poderosas. Podemos ser manipulados até extremos de insensatez por políticos espertos. Deem-nos o tipo de chefe certo e, tal como o mais sugestionável paciente do terapeuta pela hipnose, faremos de bom grado quase tudo o que ele quer - mesmo coisas que sabemos serem erradas 
Carl Sagan, "O Mundo Infestado de Demônios"

Fabricantes do indesejado

Muitas vezes, os movimentos sociais têm dinâmica que as pessoas não controlam, levando o país a tragédias, porque seus líderes políticos e sindicais, por omissão ou por ações erradas, fazem tudo que deveria ser evitado. Estes erros podem levar a guerras civis, a ditaduras e inflação. Alternativas que ninguém deseja mas cada um faz sua parte para que elas aconteçam. A realidade atual pode estar nos levando nesta direção.


A insistência em manter o país dividido em grupos corporativos sem sentimento do interesse nacional, pode levar à solução política de acabar com a democracia com a implantação, outra vez, de regime autoritário; e a recusa em fazer as reformas e a eliminação de déficit fiscais podem levar o Brasil a cair, mais um vez, na solução de inflação, como forma de pagar os gastos públicos com moeda desvalorizada.

São alternativas caóticas para enfrentar o caos criado por omissão, incompetência e falta de espírito público. Não seria a primeira vez que o Brasil caminharia para este desenlace que ninguém deseja mas que, como atores seguindo o roteiro da peça, todos desempenham o papel necessário para que o indesejado aconteça.
É triste, mas talvez estejamos mais uma vez representando esta tragédia. Ainda bem que ainda há tempo, se tivermos um despertar de responsabilidade com os destinos nacionais.

Paisagem brasileira

Piabanha, Antonio Parreiras

Na Educação, Bolsonaro revela-se um 'idiota útil'

Numa entrevista à revista Veja, Jair Bolsonaro contou como foi o processo de escolha do colombiano naturalizado Ricardo Vélez para o posto de ministro da Educação. Disse o presidente: "Foi uma indicação do Olavo de Carvalho? Foi, não vou negar. Ele teve interesse, é boa pessoa. Depois liguei para ele: "Olavo, você conhecia o Vélez de onde?Ah, de publicações.Pô, Olavo, você namorou pela internet?"

Foi assim, na galega, como se diz, que o capitão selecionou o primeiro titular da estratégica pasta da Educação. E não foi por falta de opção que Bolsonaro premiou a incompetência. Havia na praça uma fabulosa opção. O presidente cogitou a sério a hipótese de nomear Mozart Ramos, um educador de mostruário. Mas Mozart estava preocupado com a Educação, não com ideologia. Por isso, foi descartado.

Veléz caiu da poltrona com menos de três meses de governo. "Tive de dar uma radicalizada", declarou Bolsonaro. "Em conversas aqui com os meus ministros, chegamos à conclusão de que era preciso trocar, não se pode ter pena, e trocamos." Trocou, como se sabe, por Abraham Weintraub. Vem a ser outro adepto de Olavo de Carvalho, o bruxo que enfeitiça Bolsonaro desde a Virgínia, nos Estados Unidos.

Sob Vélez, dividido entre uma ala militar e uma banda de olavetes, o MEC brigava consigo mesmo. Sob Weintraub, a pasta da Educação dedica-se a guerrear contra estudantes e professores. Para usar uma terminologia que o próprio capitão transformou num lema dos novos tempos, Jair Bolsonaro administra o prioritário setor da Educação como um "idiota útil" a serviço do polemista Olavo de Carvalho.

Educação no Brasil vive clima de ditadura

Junto com o descalabro econômico que poderia levar o Brasil a uma recessão técnica, o clima de medo nas instituições educacionais públicas é um dos pontos cruciais do novo Governo de extrema direita presidido por Jair Bolsonaro. A tal ponto que no mundo da educação já se vive um clima de ditadura e medo perante as ameaças impostas pelo ministro Abraham Weintraub.

Esse medo de professores e alunos com relação às ameaças do MEC pode ter sido a causa da forte diminuição de público nas manifestações desta quinta-feira em relação à gigantesca mobilização do último dia 15. Se 220 cidades aderiram à primeira marcha contra os cortes orçamentários no ensino, nesta quinta foram só 82.

As ameaças das autoridades do MEC foram taxativas: “Nenhuma instituição pública de ensino tem prerrogativas legais para incentivar movimentos políticos partidários e promover a participação de alunos nas manifestações”. Mais ainda, houve uma solicitação oficial do MEC para que “a população denuncie quem estimula manifestações em horário escolar”.


Se os estudantes que se manifestaram contra os cortes do orçamento educacional foram descritos por Bolsonaro de “idiotas úteis”, nesta quinta-feira um jovem em Fortaleza o chamou, em um cartaz escrito à mão, de “idiota inútil”. Isso indica o clima de tensão, preocupação e medo que se vive o mundo da escola e da universidade, que se veem acusados de infundir ideologia marxista aos seus alunos e que incitam a sociedade a denunciar professores e alunos.

Todo isso junto cria, com efeito, um clima de regime ditatorial que só pode causar prejuízos graves à já cinzenta educação no Brasil. Se Bolsonaro pode ter razão em denunciar que recebeu a educação com índices que aparecem sempre entre os piores em nível mundial, e que é preciso melhorar todo o universo do ensino, o que não pode é acusar os professores de terem instituído um clima ideológico de esquerda imposto aos alunos, e agora querer substitui-lo por outro de ultradireita com intimidações adicionais a quem não aceitar esse tipo de imposição.

Enquanto isso, o presidente Bolsonaro parece querer emular o carismático ex-presidente Lula, que se apresentava como Lulinha paz e amor. O até ontem duro mandatário, apaixonado pelas armas e a briga, parece transformado em Jairzinho paz e amor. Assim o vimos trocar o gesto de suas mãos imitando a uma arma pelo gesto de um coração. Mais ainda, rodeado de sorridentes deputadas e tendo ao seu lado o presidente do STF, Dias Toffoli, também com um sorriso de orelha a orelha.

A foto é emblemática porque é sabida a pouca simpatia e estima de Bolsonaro pelas mulheres. Basta recordar que defende que devem ganhar menos que os homens, e que, referindo-se à única filha de seus três matrimônios, confessou que nasceu mulher por causa de “uma fraquejada”. Assim como é enigmático a repentina paixão de Bolsonaro por Dias Toffoli, presidente do Supremo Tribunal Federal, quando seus seguidores mais radicais pedem o fechamento desse órgão.

Algo de significativo deve existir nesse amor repentino de Bolsonaro por Toffoli, a tal ponto que, enquanto fazia o gesto do coração com as mãos, transformando-se uma vez em pacifista, chegou a confessar: “É muito bom ter a Justiça ao nosso lado”. Caberia se perguntar qual interesse, inclusive pessoal ou familiar, pode ter o presidente para sentir o gozo de ter ao seu lado, como protetor, o controvertido presidente do STF, Dias Toffoli.

Enquanto isso, no Ministério da Educação, pede-se à sociedade e aos alunos que denunciem os professores que tentarem estimulá-los a desenvolver um direito sagrado e constitucional de manifestação e de liberdade de expressão e pensamento. O que fará Dias Toffoli, o presidente do Supremo, a última conquista amorosa de Bolsonaro, se chegar às suas mãos um pedido para julgar esse clima ditatorial e de medo nas escolas e universidades?

Tem razão Bolsonaro ao dizer que “é muito bom”, em certos momentos, “ter a Justiça ao seu lado”. Enquanto isso, com o Governo às voltas com essas inúteis brigas ideológicas, parece que os milhões de pobres, que o são cada dia mais e mais numerosos, sumiram de cena. Ninguém fala dos 13 milhões de pessoas sem emprego, das quais seis milhões, desiludidas, nem o buscam mais. Dos milhares de estudantes que tiveram que deixar as salas de aula para ir aliviar a pobreza de seus pais trabalhando para pagar dívidas.

Ninguém fala em fazer uma grande campanha para ajudar os milhões de analfabetos funcionais que este país arrasta desde os tempos da escravidão, e que são os verdadeiros párias, porque ficam sempre à margem da riqueza e da cultura, massa de manobra para a compra de votos que perpetua a política incapaz de se colocar ao lado dessa gente e escutar a dor que levam dentro de si há gerações.

Ainda ontem, um trabalhador, que tem a sorte de contar com um pequeno salário, me dizia: “Pobre tem que morrer”. Terrível exame de consciência para os satisfeitos, os que sim têm direito a viver, embora seja à custa de quem nasceu para morrer antes de ter tempo de sonhar.

Mais Messias do que Jair

Com impetuosidade, dom Sebastião levou tropas portuguesas sob seu comando a lutar contra os marroquinos, na batalha de Alcácer-Quibir, em 1578, na qual grande parte da elite de Portugal morreu e o rei desapareceu. Com o vazio em sua sucessão ao trono português, impôs-se o domínio espanhol. Logo surgiu o imaginário de que dom Sebastião estava vivo, “encoberto”, e apareceria para salvar a nação, livrando-a do despotismo castelhano.

O Brasil viveu ao longo do tempo fenômenos similares circunscritos, mas referenciados, ao mito de dom Sebastião. Como dizem Edna da Silva Polese e Sérgio Fernandes de Lima, o sebastianismo atravessou fronteiras temporais e espaciais com o surgimento, em momentos de infelicidade e de perdas, da crença no aparecimento de um salvador, um restaurador da ordem e da justiça (Revista Letras v. 16, n.º 19)

José Lins do Rego e Ariano Suassuna bem contam nos romances Pedra Bonita e A Pedra do Reino o episódio ocorrido em Pernambuco em 1838, na Serra Formosa, ao lado de formação rochosa. João Antônio dos Santos e depois seu sucessor, João Ferreira, alardeavam que dom Sebastião, incrustado na pedra, voltaria para trazer a bem-aventurança. Para tanto a pedra deveria ser banhada de sangue, promovendo-se grande massacre.


Igualmente no início da República Antônio Conselheiro, beato que se instalara em Canudos, na Bahia, proclamava a volta de dom Sebastião. Este retornaria dos mortos para restaurar a monarquia no Brasil e transformar males em bem, o sofrimento em alegria, o injusto no justo, numa visão imaginária delirante, bem retratada por Euclides da Cunha ao lembrar trova de Canudos: “Garantidos pela lei Aquelles malvados estão, Nós temos a lei de Deus, Elles tem a lei de cão”.

O mito do sebastianismo ilude a vinda de figura heroica que se sacrifica, com risco da própria vida, para promover uma nova era, um modo purificador de realizar as coisas com justiça em rumo ao paraíso.

Collor já indicava a adesão à figura de um “cavaleiro do bem”, o caçador de marajás que instalaria o reino da correção em face da corrupção do governo Sarney. Mas não tardou a surgirem as denúncias de sua corrupção. E desde 2005 revelaram-se o aparelhamento do Estado e a disseminação da corrupção em favor de políticos dos principais partidos, que irresponsavelmente levaram ao desemprego e à recessão.

Larga desconfiança do sistema político se instalou no espírito de parcelas consideráveis da população. Em 2016, o impeachment necessário para estourar o tumor que gangrenava a Nação trouxe um presidente impopular, logo acusado de corrupção, não afastado do cargo graças à cooptação do Congresso.

Bem fervido o caldo de cultura propício ao surgimento ilusório de um salvador, que instalaria um novo modo de ser, uma figura messiânica que – sem o carisma de Jânio, Ademar, Getúlio – iria galvanizar o povo por trazer uma boa-nova, valendo-se de poucas palavras em modo inusitado de comunicação: as redes sociais. Candidato dos indignados contra o desmando dos governantes, Bolsonaro aparece no imaginário popular como redentor.

Sem carisma, Bolsonaro, vítima de facada da qual se salva “por obra divina”, apresentou-se como quem governaria sem as intermediações próprias do regime representativo, impondo sua vontade por força da pressão popular que arregimenta pelas redes sociais. Nada disse de concreto: apenas prometeu a redenção e nova forma de exercício da “democracia”, sem diálogo com o Parlamento, a ser demonizado se não o apoiasse. Inimigos, “traíras”, seriam e são todos os que neguem sustentação absoluta àquele que aí está para – alegadamente – salvar o País e promover a justiça e o bem.

É proclamado mito e exerce influência no imaginário popular de modo irracional, comovendo parcela da população que acredita ser ele o portador de fartura e honestidade. O que dele provier se presume estar certo: o espírito crítico não tem lugar em face do mito.

No último domingo viu-se exatamente isto: não existem erros do governo, que bate cabeça desde janeiro. Para os que acorreram às ruas, o mito está sempre correto. O governo tosco tem uma pauta moralista e armamentista para dar sensação de prover a segurança. O chamado projeto anticrime de anticrime só o nome tem, pois, seguramente, dali não decorrerá nenhuma prevenção ou redução da criminalidade. Mas o que importa é a idolatria do “submito”, Moro.

Estamos diante de um novo surto sebastianista, com mistura de religião e política. Essa vertente político-religiosa vem expressa na atitude e em cartazes deste domingo: populares gritavam “mito, mito, mito, meu capitão!” e faixas estampavam: “Congressistas deixem o mito trabalhar”. Manifestantes iniciaram o ato em Brasília rezando um Pai-Nosso, com a oradora pedindo a Deus para “ajudar o presidente a dizer não a esse tal Centrão e a dizer não ao STF” e terminando com a frase: “Viva Jair Messias Bolsonaro!”. Outro orador alertava: “Estamos travando uma guerra espiritual”. Mas assegurava: “Deus está do nosso lado”. Com o monopólio do certo, dizem: “Tem de o Congresso aceitar. Não existe essa de o Congresso fazer as pautas do Executivo”. Faixas tratam os representantes dos outros Poderes como traidores da Pátria, por dificultarem a “tarefa salvadora” do presidente.

Em culto pela manhã, Bolsonaro interpretou as passeatas como um recado aos que “teimam, com velhas práticas, em não deixar que esse povo se liberte”. Como em Canudos, podem o presidente e seus asseclas entoar: “Nós temos a lei de Deus, eles têm a lei de cão”.

Bolsonaro se faz mais Messias do que Jair, a gerar nos espíritos abertos ao debate, e à força da persuasão, o receio imenso de um futuro de uma só verdade, cuja contestação vira traição.