segunda-feira, 10 de setembro de 2018

O futuro que já não conheceremos

Todos intuímos que algo muito importante se perdeu para a humanidade com o incêndio que destruiu o Museu Nacional do Rio de Janeiro. Sendo biólogo e conhecendo as coleções científicas que abrigava, também compartilho uma raiva e uma tristeza monumental com todas as pessoas com quem falei sobre o assunto, do eletricista que está trabalhando na minha casa em Porto Alegre até meus colegas professores da universidade onde pesquiso e ensino Biologia. Todos concordamos que a perda do museu representa um exemplo muito claro e tangível de uma dinâmica tristemente cotidiana para os que vivemos no Brasil: somos traídos vilmente pelas instituições públicas responsáveis por cuidar do patrimônio da nação. No entanto, poucos conseguem entender todas as dimensões daquilo que perdemos.


Um museu atua em três frentes. Oferece um olhar para o passado, ou seja, um parâmetro para medir mudanças, uma escala de tempo. Também educa, no presente, sobre o mundo que nos rodeia, tanto o físico como o das ideias. E, principalmente, cria oportunidades para resolver problemas que ainda não somos capazes nem de imaginar. Ou seja: abre portas para o futuro desconhecido. E esse potencial, como é imprevisível, é sem dúvida a mais tremenda das perdas que sofremos no domingo passado.

Nos séculos XVIII e XIX, ninguém imaginava que a mudança climática causada pelos humanos seria um dos maiores desafios da humanidade no século XXI. No entanto, foram os dados coletados sobre a distribuição em altitude da vegetação entre 1773 e 1858 por Alexander von Humboldt e Aimé Bonpland nas montanhas do Equador − cuidadosamente preservados em coleções científicas − que, em 2015, permitiram que a humanidade entenda o efeito do aquecimento global na distribuição da vegetação. Quem diria aos milhares de paleontologistas que dedicaram suas vidas a coletar e preservar fósseis em todo mundo durante séculos, e aos cidadãos que com seus impostos e doações permitiram que estes cheguem até nossos dias, que esses restos orgânicos mineralizados acabariam sendo a evidência empírica definitiva de um problema que nem sabíamos que poderíamos ter: um evento de extinção em massa de espécies, equiparável em magnitude à dos dinossauros.

Ou, mais perto de casa, o crânio de Homo sapiens conhecido como Luzia esteve 20 anos nas coleções do Museu Nacional até que um pesquisador descobriu sua importância. Conhecer a data da colonização da América não é algo sem importância. Permite, entre outras coisas, entender a capacidade dos humanos de povoar e conquistar um continente.

Fechou-se repentinamente a porta para futuras descobertas desse tipo, que poderiam ter saído do incalculável patrimônio científico do museu. As políticas mesquinhas dos sucessivos Governos − cada um agravando uma situação que já era insustentável − em relação ao patrimônio só podem ser fruto de uma ignorância superlativa combinada com interesses legalmente turvos. Mas, na verdade, isso não está muito distante de outros episódios como a recente anistia aos destruidores da selva, a impunidade diante da catástrofe ambiental no Rio Doce e o abandono de museus e edifícios históricos, que já causou o incêndio que destruiu em 2010 a coleção do Instituto Butantan, que é responsável pela maior parte dos antídotos contra veneno usados no Brasil.

Em um museu de ciências podemos aprender as semelhanças e diferenças entre os humanos e outras espécies de primatas, ou que nosso corpo contém tanta quantidade de microrganismos (principalmente bactérias, sem muitas das quais morreríamos), que eles equivalem em número às nossas próprias células. É o lugar onde nossos filhos podem aprender que o ovo evoluiu milhões de anos antes que a galinha. Onde os descendentes do povo Wari’ podem ir para entender como viviam seus parentes poucas gerações atrás. É onde aprendemos de forma intuitiva nossa insignificância no universo. No domingo, entretanto, aprendemos nossa insignificância no Brasil. Juntamente com o Museu Nacional ardeu muita da nossa memória, nosso presente ficou mutilado e nos roubaram um futuro que agora nunca conheceremos.
Santiago Castroviejo-Fisher, professor de Biologia da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul

É fogo. É faca. Zune no ar a palavra

“O brilho cego de paixão e fé, faca amolada”. As palavras podem ser tão cortantes quanto uma traiçoeira faca, que também nos atravessou – a todos – numa ensolarada tarde em Minas Gerais. Uma semana que jamais será esquecida, e que botou fogo em um museu, numa história, e criou uma outra que será levada adiante muito tempo, todas transmitidas ao vivo.

As pessoas estão tão loucas nesse nosso tropical país que não bastou o atentado a Jair Bolsonaro praticamente ser transmitido ao vivo, registrado por inúmeras câmeras de celulares, em detalhes e vários ângulos. Elas queriam ver o sangue, vermelho, muito sangue, como veem nos filmes – aquele ketchup que jorra nas paredes. Então, muitas duvidaram. Duvidaram. Duvidaram durante horas, mesmo com informações minuto a minuto sobre a gravidade do ocorrido. Aquela gigantesca faca que um ser brandiu e enfiou 12 centímetros no candidato e na democracia, ferindo-a e expondo – ainda mais – as suas delicadas entranhas.


As chamas, as labaredas do fogo que consumiu objetos e detalhes milenares guardados no Museu Nacional do Rio de Janeiro, ainda fumegavam, mostrando um outro lado do descaso, da incompetência, da barriga que empurra, da corda rota que se estica até que rompa, dando vazão a todo mal que seguravam. Nem os deuses e divindades gregas personificados em imponentes e trágicas estátuas que do alto do telhado daquele Palácio a tudo observavam, do nada que restou de seu interior, e que como que estranhamente protegeram a casca do Museu, nem o próprio Oráculo de Delfos, creio, poderiam prever mais fatos dessa longa semana.

É a desordem, mais do que algo fora da ordem, estamos mesmo em um país com os nervos à flor da pele, caótico, dividido, raivoso. Do fogo e da faca surge a ignorância total, o desconhecimento e a falta de compromisso com a lógica e com a verdade, coisas sobre a qual ficamos evitando falar para não parecermos uns melhores do que os outros.

É mais séria do que poderíamos prever, no entanto, a situação. Muito além do frigobar instalado com fios desencapados no quarto do imperador, que o diretor do museu fez de seu para gabinete. Além dos pedaços de reboco que caiam tentando alertar, calados apenas por espaços e portas fechadas ao público, como vendas nos olhos. Quantas situações parecidas acompanhamos ainda silenciosos? Quantas ainda serão reveladas?

Na política, o fogo das paixões, o caldeirão fervendo, a água derramando, e uma incompetente escolta policial veio à luz no brilho da lâmina brandindo à luz do dia e em meio a uma multidão. Não consigo deixar de ironizar a cada vez que ouço falar em “inteligência” seja nesta ou em qualquer investigação. Andava observando que em todas as aparições o candidato que se fez pela truculência aparecia cercado de brucutus muito assemelhados inclusive à velha e terrível imagem da supremacia branca: caras enfezadas, postura agressiva, seguranças particulares, seguidores da doutrina da bala, do armamento. Mas como tudo parece apenas virtual…

Entretanto, a realidade é sempre cruel. Ironia ter sido uma faca, não uma bala. Não há muito o que pensar se o autor é ou não desequilibrado mental. Parece óbvio que não é inteligente, autor de um atentado estudado, planejado, pelo menos não por profissionais. Preso na hora, sortudo por não ter sido linchado, é o exemplo da disseminação do ódio nas redes sociais, estimulado pelos dois lados dessa corda, os dois extremos. Queria matar, parece que sim. Queria ficar famoso? Quem mais?

Agora é acompanhar a saga médica, que começou estrondosa. Salvo da morte que se apresentou com sua foice, pela equipe de Juiz de Fora, em horas já ocorreram conflitos de equipes dos dois hospitais que disputavam, de São Paulo, o show em que já se transformou essa recuperação, essa eleição, e tudo o que virá em seguida.

Vídeos, fotos, gravações e declarações dispensáveis feitas de dentro de uma UTI. Boletins anódinos. Desfile de visitas que se apresentam à imprensa que dormirá nessa porta durante dias. Cobri a permanência de Tancredo Neves no Incor há 33 anos e vejo a exata repetição.

Como já relatado por comentaristas, os nove segundos que o candidato contava agora viraram 24 horas diárias, sete dias da semana. Talvez alguns anos para todos nós.

Nosso destino mais uma vez se desenrola de dentro de uma UTI.

Marli Gonçalves

Paisagem brasileira

Giovanni Oppido (1906 – 1988)

Luzia abrindo cabeças

Luzia já não está mais entre nós. Depois de 11.500 anos, sucumbiu à crise brasileira no último dia de Pompeia, o incêndio que levou os afrescos que sobreviveram ao vulcão Vesúvio.

A noite do incêndio foi uma das mais difíceis para mim. Pesadelo, tristeza, raiva e uma dose de culpa. No Congresso, destinei verba parlamentar para o Museu Nacional. O desastre mostrou como era pobre nossa visão de tapar buracos no orçamento de organismo que precisa de uma proteção sistêmica.

Infelizmente, compreendi tudo isso muito tarde, daí minha tristeza e raiva com as chamas. Na verdade, não foi apenas a passagem de Luzia que abriu minha cabeça.


À volta ao jornalismo, tratando de pequenos museus locais, sobretudo em lugares que precisam deles para encontrar sua identidade e agregar valor às suas riquezas naturais, compreendi que eles não são um fardo que deva ser tratado com migalhas. Na viagem à Rússia, onde escritores, sobretudo do século XIX, são cultuados, e há museus de todo tipo, ficou claro para mim que não se trata apenas de preservar a memória, mas transformá-la também numa fonte de renda através do turismo.

Em viagens pelo Brasil, vejo quase toda semana algum tipo de museu. Mantido por um empresário, o Instituto Ricardo Brennand, em Recife, é uma boa surpresa. Nele existem, entre outros, os quadros do holandês Frans Post, que nos deixou belas imagens sobre o Brasil Colonial. É uma coleção que só perde para a da própria Holanda.

Tive boa impressão do Museu Mazzaropi, em Taubaté, construído numa área em que também foram reproduzidos os cenários dos seus filmes: é um hotel fazenda.

Aqui no Brasil, temos um pouco o complexo do novo mundo, da permanente construção e destruição. Nosso lema parece ter surgido da frase de Marx, que também é o título do livro de Marshall Berman: “Tudo que é sólido desmancha no ar”.

Na semana do incêndio, trabalhava, precisamente, em algo ligado a essa frase. É o projeto do trem Minas-Rio, comprado em Três Rios sem ajuda do governo. Ele vai ligar nove cidades, inclusive Cataguases, Minas.

Passei por algumas delas e, em Cataguases, procurei estimular a criação de um museu que fale um pouco do papel da cidade no modernismo. Ali houve uma revista antenada com o movimento, a “Revista Verde”, e um escritor e poeta de destaque: Rosário Fusco.

Não é o primeiro lugar em que trato do tema. Na verdade, na semana anterior estive na Bahia precisamente mostrando o projeto de museu hippie em Arembepe.

No momento em que as cidades precisam se reinventar para enfrentar a crise, é mergulhando na sua tradição e cultura que podemos achar uma saída, através da economia criativa. O que me dói no incêndio é ter percorrido tantas experiências locais e não ter percebido com clareza como o Museu Nacional poderia ter sido importante para o Rio de Janeiro, uma espécie de porta de entrada do Brasil mas que, na verdade, escondia um dos seus principais tesouros culturais.

Ao invés de uma campanha para transformá-lo num momento em que se construíam tantos estádios e um Museu do Amanhã, por que esquecemos o ontem, o anteontem, os dias primordiais de Luzia?

Havia um ar de decadência no museu. Fios de ligações improvisadas, infiltrações, telhas quebradas; enfim, todos esses incômodos de um corpo velho e mal tratado. Diante de museus internacionais bem cuidados e interativos, talvez não nos orgulhássemos dele como deveríamos.

Agora é tarde. Mas não significa que vamos continuar apenas chorando pela perda. Se o crânio de Luzia, perdido nas cinzas, conseguir, pelo menos, abrir nossa cabeça, será uma pequena vitória.

No passado, recusou-se uma ajuda do Banco Mundial porque não se aceitava o Museu como fundação privada. Conseguimos criar um bloqueio duplo: arrogância do novo mundo diante do passado e a ilusão de que tudo deve ser feito pelo Estado.

Não sou inocente nessa história. Quase não há nada nos programas presidenciais sobre a proteção do patrimônio. Se iniciasse uma discussão no tempo em que apenas tapávamos goteiras, talvez hoje já houvesse uma política disponível aos candidatos.

Mas o pássaro da consciência canta apenas ao entardecer. Precisamos sempre de grandes traumas para vislumbrar o caminho. Algo em nós parece hibernar: suspeito que seja o raciocínio.

Não se deve confundir solidariedade pessoal com adesão eleitoral

Superados o primeiro impacto e a fase de óbvios repúdios ao atentado que vitimou Jair Bolsonaro, cumpre iniciar reflexão mais profunda em relação às causas e aos efeitos do fato. A primeira reação do mercado financeiro foi, no mínimo, curiosa para quem não compreende sua dinâmica. Como podem melhorar indicadores econômicos importantes quando e em virtude de um candidato à presidência da República ter recebido uma estocada bruta e estúpida que poderia levar-lhe à morte? Como um fato tão deplorável poderia ser, afinal, entendido como positivo?

Operadores financeiros respondem automaticamente aos fatos com a pretensão de adiantar-se às suas consequências. Trata-se de um jogo de compra e venda, onde sai ganhando quem, sem trocadilho, for mais rápido no gatilho. Não raro, os cálculos são apressados e as análises simplistas. O “racional” desta vez foi o seguinte: a vitimização de Jair Bolsonaro o favorecerá eleitoralmente, podendo leva-lo à vitória. Bolsonaro, assessorado pelo economista Paulo Guedes, promete um governo pró-mercado, de liberalização radical da economia e privatização de empresas estatais.

Logo, se o atentado o vitimizar e se a vitimização o favorece, favorecendo também os interesses de mercado, então, viva ao atentado. Simples assim. Só que não.

Em primeiro lugar, porque o principal ativo de um país é a sua democracia. Colocá-la em risco pode até, supostamente, trazer ganhos imediatos, mas no longo prazo, a incerteza de regras e o abalo das instituições cobrarão um preço altíssimo e todos, no final, perderão. Claro que sempre restará a alternativa de “sair antes”, vender tudo e realizar lucros. Mas, é uma dinâmica pouco saudável, além de arriscada.

Em segundo lugar, porque nada está “dado”: as consequências do atentado ainda virão e ninguém consegue exatamente antecipá-las. Logo, é muito provável, sim, que Jair Bolsonaro ganhe votos, depois do incidente do qual foi vítima. A dramatização de uma eleição e a martirização de candidatos funcionam sempre como um apelo ao eleitor e é claro que há eleitores suscetíveis a isso.


Difícil, no entanto, é afirmar quantos votos; se suficientes para superar a elevada rejeição que Bolsonaro carrega. O mais certo é que o ex-capitão tenha, agora, sim, consolidado os eleitores que já haviam aderido a ele, como também possa atrair pessoas que, por algum motivo, se sentiam constrangidas em declarar o voto – o chamado “voto envergonhado”–, mas que já eram simpatizantes. Um nível de sensibilização de eleitores antes indecisos também é razoável. Mas, em qual proporção?

Não há, porém, elementos capazes de garantir como e porquê eleitores que antes o rejeitavam passem agora automaticamente ao seu apoio; que eleitores que desconfiavam de sua retórica passem a aprova-la. Não se deve confundir a solidariedade natural de momentos assim com a automática transferência de votos. É plenamente possível repudiar o atentado e ao mesmo tempo rejeitar o candidato. Repúdio a um e apoio a outro são elementos distintos.

Passada a comoção, é possível que uma reflexão mais racional do fato ganhe espaço. Suas raízes, infelizmente, estão no processo de radicalização política que se estabeleceu no Brasil nos últimos 4 anos. E Jair Bolsonaro é um dos símbolos desse processo, ainda que possa não ser o único. Ao mesmo tempo que a solidariedade existe pode também ser despertada uma consciência de que políticos que propõe a liberação do uso de armas, por exemplo, acabam levando poder desmedido a malucos, como parece ser o caso do sujeito que praticou o atendado na tarde de ontem.

A eleição não será depois de amanhã; há, na verdade, um mês pela frente, até que se definam os nomes para o segundo turno. É verdade que novos fatos podem ainda piorar a situação, que uma escalada de violência deve ser evitada e se houver precisará ser contida. Mas, também é possível que um clima de esclarecimento e racionalidade, levando a repudiar qualquer modo de radicalismo, possa se estabelecer. Por que não?

Assim, pode-se apostar nessa “ponta” também; por quê ela seria menos razoável que a anterior, a que aposta na comoção eleitoral e na vitória de Jair Bolsonaro?

O raciocínio contrafactual torna-se útil: tivesse o ex-presidente Lula sofrido um atentado, por que os eleitores de Bolsonaro e Geraldo Alckmin, por exemplo, teriam que necessariamente passar a votar no PT? Os assassinatos de Marielle Franco e seu motorista, Anderson Gomes, não resultaram no favoritismo do PSOL nem da esquerda, automaticamente. A queda do avião que levou à morte Eduardo Campos e toda a tripulação do voo não foi suficiente para dar a vitória à Marina Silva. Por que agora seria diferente?

Mais uma vez é conveniente assinalar: não se deve confundir solidariedade com adesão. A primeira não leva natural ou necessariamente à segunda. Com o tempo, à comoção podem-se impor mecanismos de ponderação. Então, calma. Tem muita estrada pela frente.
Carlos Melo 

Peruada não é democracia

Existe peru à brasileira, mas não soluções à brasileira. A democracia é universal, sem adjetivos
Sobral Pinto

Mais que dinheiro, falta critério no país da gastança

Gastar demais é apenas um dos vícios do governo brasileiro, um dos mais visíveis e mais criticados. Esse vício é complementado e agravado por outro. Além de estourar suas contas, afundar em dívidas e pagar juros muito altos para se financiar, o governo gasta escandalosamente mal. A maior parte da enorme despesa anual pouco favorece o crescimento econômico, a criação de empregos, a modernização do País e o aumento do potencial produtivo. A estagnação da indústria, o desemprego de quase 13 milhões de trabalhadores, o despreparo da mão de obra e o analfabetismo funcional de cerca de 38 milhões de pessoas são claros sintomas de um desperdício de proporções amazônicas. Dispondo de uma carga tributária de cerca de um terço do produto interno bruto (PIB), o poder público entrega muito menos que as administrações de outras economias emergentes. Nestas outras, a tributação equivale em média a uns 20% da produção anual de bens e serviços. Mas a educação fundamental é frequentemente melhor que a brasileira, as contas públicas são menos desequilibradas e o desempenho econômico foi bem mais satisfatório nos últimos dez anos.

No Brasil, o dinheiro desperdiçado vai para o ralo por várias canaletas. No próximo ano serão consumidos R$ 306,4 bilhões só com os chamados gastos tributários, segundo estimativa divulgada na semana passada pela Receita Federal. São vantagens fiscais concedidas, nem sempre de forma justificável, a regiões, empresas, organizações sem fins lucrativos, grupos diversos e indivíduos às vezes muito bem de vida. Não há uma avaliação clara dos benefícios produzidos pelas várias facilidades incluídas nesse conjunto.


Apesar de obscuros quanto aos efeitos, esses gastos crescem seguidamente. Deste ano para o próximo o aumento previsto é de R$ 23 bilhões, como informou o Estadão na quarta-feira. No Ministério da Fazenda, segundo noticiou o jornal no dia seguinte, técnicos têm procurado meios de reduzir ou eliminar parte das concessões. Se tiverem sucesso, o presidente eleito em outubro receberá um Orçamento um pouco mais administrável.

Mesmo sem grandes encargos adicionais, o governo central terá dificuldade em 2019 para manter o déficit primário dentro do limite previsto de R$ 139 bilhões. O resultado primário é calculado sem o custo dos juros vencidos. Os juros e o principal vêm sendo rolados há vários anos e, por isso, a dívida tem crescido. Essa tendência só será alterada quando houver algum superávit primário, isto é, alguma sobra para a liquidação pelo menos parcial dos encargos financeiros. Isso poderá ocorrer, segundo especialistas, lá por 2023, se nada sair muito errado. Esta última hipótese é obviamente otimista, nas condições de hoje.

Não basta, no entanto, encontrar meios de reduzir ou eliminar parte dos benefícios. Um corte linear também será uma solução de qualidade muito duvidosa. Parte das facilidades tributárias pode ser justificável com razões muito sólidas. Incentivos podem ser econômica e socialmente benéficos quando fazem, de fato, diferença para o desenvolvimento regional, para a pesquisa científica e tecnológica ou para a prestação de serviços médicos gratuitos ou acessíveis.

Em todos os casos, é preciso planejar cada benefício com muito cuidado e avaliar periodicamente seus efeitos. Não tem havido avaliação regular dos gastos tributários, como já advertiu o Tribunal de Contas da União, nem padrões claros e consistentes para determinar a concessão de facilidades.

As vantagens são distribuídas segundo critérios muito raramente vinculados a noções de planejamento, de prioridades e de estratégias de desenvolvimento econômico e social. Pesam nas decisões a influência política dos beneficiários, a comunidade de interesses econômicos e o desejo de fazer boa figura. Isso vale tanto para a concessão de benefícios fiscais quanto para a decisão sobre desembolsos e distribuição de subsídios. Esse bolo enorme de renúncias e de despesas pode conter ingredientes muito diversos e inconciliáveis para o senso comum.

O conjunto pode incluir financiamentos de shows, moleza fiscal para quem recebe dividendos, desonerações de encargos sem criação de empregos e incentivos a indústrias limitadas a exportar para o Mercosul. Pode também conter sustentação de preços mínimos para certos produtos agrícolas, financiamento à exportação, bolsas de estudos para boas escolas, sempre com garantia de algum acerto de contas, e ajuda a hospitais beneficentes.

Alguns desses programas produzem, quando bem executados, efeitos econômica e socialmente positivos. Isso tem sido mostrado pela experiência internacional e comprovado amplamente no Brasil.

Não se trata, no entanto, apenas de selecionar com cuidado alguns objetivos e grupos beneficiários. É preciso definir claramente certos objetivos de longo prazo, sustentáveis por muito tempo, e metas estratégicas e variáveis de acordo com etapas do desenvolvimento. Planejamento respeitável tem como pressuposto dinheiro público manejável de forma racional. Isso é quase impossível quando o Orçamento, como no Brasil, é amarrado por despesas dificilmente comprimíveis e por vinculações de verbas.

Essas vinculações podem ter sido inventadas com excelentes intenções, mas são incompatíveis com a racionalidade e ainda favorecem a incompetência e a corrupção. Para que desenhar programas eficazes para a educação, quando há verbas garantidas e despesas obrigatórias? Prioridades mal escolhidas – e com evidente viés eleitoral – facilitaram a expansão de um ensino superior de baixa qualidade e pouca serventia. Ao mesmo tempo, os cursos fundamental e médio continuaram ruins, como têm comprovado testes internacionais e nacionais. Falar em falta de dinheiro é discutir a questão errada, especialmente quando muitos bilhões são desperdiçados a cada ano. A maior parte dos presidenciáveis tem ficado longe desses temas.

domingo, 9 de setembro de 2018

Brasil mamador


A diáspora dos milionários

Pelo menos dois mil milionários brasileiros desistiram da paciência do marceneiro Geppetto num País de políticos que se comportam como Pinocchio — e sem possuírem a graça e as crises de consciência do boneco de madeira animado pela Fada Azul. Se na vida real o nariz de quem conta lorota crescesse como ocorre na obra do escritor Carlo Collodi, ao final da campanha à Presidência da República teria candidato com o corpo no Brasil mas espirrando em Plutão. Para os milhares de brasileiros que estão deixando o País (justamente aqueles que não têm mais vocação para pai Geppetto), boa parte dos concorrentes ao pleito de outubro até já são narigudos, não na estética, e sim no conteúdo. Quem é essa gente que promove tal diáspora? Para onde nossos compatriotas estão indo? Por que resolveram abandonar o País? (bem que Machado de Assis preconizou um futuro republicano com uma quantidade de políticos inconsistentes que “o sol jamais alumiara”). Pois bem, vamos pôr as idéias no lugar, gaveta por gaveta… sim, sociedades são como indivíduos, são gaveteiros que, se a gente não arruma, chega-se ao dia no qual não se encontra mais nada dentro deles. É em tal mistifório que está o Brasil nesse momento pré-eleitoral. É dessa mixórdia que uma legião de brasileiros está fugindo.

Quem são eles? Empresas e instituições de análise de mercado, nacionais e estrangeiras, estabeleceram o perfil: pessoas detentoras de patrimônio líquido alto, com ativos iguais ou superiores a US$ 1 milhão. Esses indivíduos, que estão no topo da pirâmide social, surpreendem atualmente o mundo ao colocarem o País na sétima posição no ranking de êxodo de milionários. Os emigrantes possuem bom grau de cultura e curso superior. Se alguém se espanta, no entanto, com a diáspora de dois mil milionários, respire fundo para a próxima informação: setenta milhões de brasileiros gostariam de ir embora. Dois a cada três jovens querem muito ter logo as condições de colocar as pernas no mundo.


Para onde os emigrantes estão indo? Cansaram do fardo, querem fado… o destino principal é Portugal. Na sequência estão EUA e Espanha. Estudos do Banco Central demonstram que esses dois países repondem por 51% do investimento recorde de brasileiros no exterior, somando US$ 3,2 bilhões. É bom para Portugal? A resposta mora naquilo que o governo de lá está a oferecer: a concessão de visto de residência gold a quem investe em seu território quinhentos mil euros em imóveis. Brasileiros já investiram US$ 1,07 bilhão.

Chega-se, agora, à questão vital: por que estão abandonando o Brasil? Socorro-me do refinado Apparício Fernando de Brinkerhoff Torelly, que deu a si, de forma hilária e irônica, o nobiliárquico título de Barão de Itararé. Escreveu ele: “De onde menos se espera, é daí que não sai nada mesmo”. Salto no tempo, trago a fala de lá para cá, e escancaro ao leitor a crua realidade da nossa sucessão presidencial. Repitamos o Barão: “De onde menos se espera, é daí que não sai nada mesmo”. Os milionários estão indo embora (com muito dinheiro no bolso o planeta é uma ervilha) porque olham para o quadro sucessório e não enxergam nada que os anime – “não sai nada mesmo”. Ouvem as plataformas políticas e nelas há um oco de propostas inexequíveis para a superação da crise econômica. Só mais uma vez: “Não sai nada mesmo”.

Se a esperança é a última que morre, no Brasil ela foi trucidada em tenra idade. Primeiro, os brasileiros se desiludiram devido aos escândalos de corrupção. A decorrência foi a desilusão com a política, agravada pela crise econômica. Nova e derradeira decorrência é a desilusão com os candidatos que estão aí, e tudo isso já gerou três ciclos emigratórios sucessivos. Nunca na história da Nação tantos milionários, que sempre colocaram suas fichas no instável pôquer que é a nossa república, haviam saído do jogo e recolhido seus cacifes como o fazem agora. Nos últimos três anos, juntando as três frustrações expostas logo acima, doze mil brasileiros desistiram da Mãe Gentil — tudo bem, Gentil, mas sem futuro político. Não se assistiu à igual debandada voluntária nem na posse de João Goulart em 1961, na qual se intuía a anomia (Emile Durkheim, “As regras do método sociológico”) que viria com o projeto de uma república sindicalista; já a diáspora após o golpe militar-civil de 1964, que mergulhou o País na “longa jornada noite adentro” da ditadura (expressão tomada e aqui adaptada de Eugene O’Neill), essa foi compulsória.

O jornal francês “Les Échos” (com tradição que vem desde 1880) publicou: “mesmo havendo espaço para Geraldo Alckmin crescer com a campanha na tevê, o mercado começou a incorporar cenário incerto, com mais chance de vitória da esquerda”. Temendo alta porcentagem de abstenção, o deputado alemão Martin Schulz, democrata, lembrou o filósofo Edmund Burke: “para que os maus vençam, basta que os bons se calem”. Existe, sim, a ameaça de as urnas nos trazerem dois extremismos para o segundo turno: o da direita e o da esquerda, o primeiro com Jair Bolsonaro, o segundo com Fernando Haddad que transporta na alma o risco do lulopetismo. Há Marina Silva e Ciro Gomes, menos extremistas, mas também populistas. E há Geraldo Alckmin, o único ao qual se pode atribuir o equilíbrio democrático, capaz de evitar que algum aventureiro lance mão da coroa, mas que não decola nas pesquisas.

Vamos, primeiro, ao radicalismo do PT. O programa do partido inclui referendos para “aprofundar a democracia”, ou seja: tirar a legitimidade do Congresso. O programa estabelece o controle da mídia, ou seja: a censura. O programa prega a “convocação de assembleia constituinte”, ou seja: minar instituições, como se viu na esfarrapada Venezuela. Olhemos, agora, o radicalismo de Jair Bolsonaro: a visão superficial das mazelas nacionais, o desprezo pelas chamadas minorias sociais e sua obstinação por tiro, tiro, tiro e tiro o torna uma ameaça ao Estado de Direito. Diante desse quadro, por que milionários aqui se quedariam? Uma coisa é pagar para ver blefe político de par de sete. Coisa bem diferente é viver sob regimes extremistas. Assim, cabe, aqui, a adaptação da parábola: é mais fácil um milionário entrar no reino de Portugal do que um candidato passar pelo buraco da crise do Brasil. Ou, então, recordar Gilberto Gil: “quem sabe de mim sou eu, aquele abraço!”.

Endeusar políticos é sintoma de transtorno mental

Todo mundo fala de “fake news”. Poucos falam de “fake readers”. E, no entanto, os segundos sempre me pareceram mais perigosos do que as primeiras. Produzir informações falsas ou conspiratórias sempre fez parte do DNA da espécie. Até Eva, que era Eva e vivia no Paraíso, não se conteve e foi um pouco “fake” com Adão no episódio da maçã.

Mas é preciso ter uma mente especial, igualmente falsa e conspiratória, para que as “fake news” possam nascer e prosperar. E, nesse quesito, há países e países.



O instituto de pesquisas Ipsos Mori resolveu estudar o assunto, informa o jornal “Daily Telegraph”. Entrevistou mais de 19 mil pessoas em 27 países. E concluiu, entre outras coisas, que os “fake readers” não se distribuem democraticamente pelo mundo.

Quando falamos de “fake readers”, falamos de pessoas com uma certa “tendência” ou “susceptibilidade” para acreditar em tudo que leem. Sem duvidar, sem questionar.

Itália ou Reino Unido, dois países que conheço bem, são pouco crédulos. Entre os italianos, só 29% confessam ter sido enganados por “fake news”. Entre os britânicos, só 33%.

Arrisco um: a desconfiança permanente que italianos e ingleses sempre manifestaram em relação ao poder. Por razões históricas ou filosóficas, ambos os povos sempre tiveram aquela centelha anarquista que permite olhar para a realidade com uma dose saudável de cepticismo.

Não é por acaso que Itália, depois da aberração fascista, tenha tido mais de 60 governos desde o fim da Segunda Guerra Mundial. Há traumas que nunca se esquecem.

E não é por acaso que Inglaterra, nas palavras do historiador Élie Halévy, tenha passado por todas as revoluções —industrial, social, cultural— sem nunca ter feito a Revolução (com maiúscula).

Mas no estudo do Ipsos Mori há um país que se destaca pelo seu impressionante grau de credulidade: o Brasil, que lidera a lista. Os brasileiros, ou 62% deles, são os mais crédulos de todos (a média é 48%). Em segundo lugar, com 58%, vem a Arábia Saudita. Como explicar isso?

Eruditos apressados dirão que a culpa é da colonização (e do atraso educacional); da herança católica (e da reverência cega perante a palavra escrita); ou, então, de ninguém: se o Brasil é um dos maiores consumidores mundiais de internet, é inevitável que o número de otários seja proporcional ao número de usuários.

Boa sorte nesse debate. Uma coisa é certa: se há algo que distingue o período eleitoral que o país vive é a existência de tribos —à esquerda e à direita, sem distinção— que cometem o supremo pecado em política: acreditar em políticos e batalhar obstinadamente por eles.

Aquecimento global resumido em menos de um minuto

Antti Lipponen é um pesquisador do Instituto Meteorológico da Finlândia empenhado em que o maior número possível de pessoas entenda a importância da mudança climática. Com base nas informações e nos conhecimentos que obtém em seu trabalho, ele cria gráficos em movimento pensados para as redes sociais que explicam o aquecimento global em menos de um minuto.

Em 25 de agosto, publicou um deles em sua conta no Twitter com dados da Nasa. Nele, inclui as anomalias térmicas de mais de 190 países entre 1880 e 2017. “Dá medo”, disse o próprio Lipponen ao mostrar o gráfico pela primeira vez. A imagem foi compartilhada mais de 18.000 vezes em duas semanas de publicação. No início de setembro, ele publicou uma versão mais ampla do gráfico, com mais países incluídos.

“Quero demonstrar que as consequências da mudança climática não vão chegar em um futuro próximo, nós já as estamos vivendo, e fazer isso em um âmbito mais amplo do que o estritamente científico”, comenta ao Verne por telefone.

O aquecimento global resumido em um vídeo de menos de um minuto

Lipponen considera anomalia térmica a diferença entre a temperatura de cada ano e a média do período entre os anos de 1951 e 1980. À medida que os países vão se aquecendo, as bolhas coloridas que os representam vão crescendo.

Além das muitas horas de pesquisa que investe em seu trabalho, o finlandês dedicou outras quatro horas para a criação do gráfico que resume os dados. O último plano mostra a diferença de graus de cada país em 2017 em relação à média.

Embora países como Mongólia e Rússia mostrem aumentos de temperatura mais pronunciados, superiores a dois graus, há outros lugares do planeta nos quais devemos prestar mais atenção.

“Se a Antártida degelar ao ter um clima mais quente, essa enorme quantidade de água se transformará em inundações em outros países”, aponta Lipponen. “Não há motivo para que alguns políticos neguem a mudança climática. Não acredito que façam isso por ignorância, e sim por um interesse cínico”, comenta.

O pesquisador já criou no ano passado um gráfico com informações similares, que foi compartilhado por mais de 11.000 usuários.

Imagem do Dia

Ruínas do Castelo Dunluce  (Irlanda)

A fala, o fogo e a faca

O incêndio no Museu Nacional e o atentado à faca sofrido pelo candidato à Presidência da República pelo PSL, Jair Bolsonaro, parecem fatos isolados e distantes, mas estão intimamente ligados e narram em tons ferozes um processo perigosíssimo de rompimento da ordem social e da ideia de que nós, o povo, possamos edificar um Estado.

Parece não haver mais aspectos comuns entre nós, brasileiros, além da língua. Contudo, estamos em uma Babel invertida. Falamos todos o mesmo código, o português, com as variações fonéticas e as entonações típicas regionais, os sotaques, uma facilidade diante de dialetos que marcam outros povos, mas simplesmente não compreendemos uns aos outros mais. Assim não queremos.

A mesma sílaba contém princípios antagônicos no Brasil de hoje. Não se trata mais de diferir entre “vermelho" ou “azul”, fenômenos sentidos pela retina como resultado de frequências de espectro luminoso distinto, provados cientificamente pela física. A mesma vibração das cordas vocais, causada pelo ar que sai dos pulmões, impulsionado pelo diafragma, resultando em uma palavra cuja história social, ou seja, nós como povo, organizamos em um sentido objetivo. Antes, o que era um tubérculo com denominações como mandioca, aipim ou macaxeira; todos sabíamos onde o vocábulo terminaria: na mesa, na barriga, na tradição, na cozinha, na economia, enfim, na empatia pela nossa diversidade. Atualmente, a simples menção da planta nos levará à guerra entre se foi guerra impeachment ou golpe. Debate, discórdia e cizânia são o fim da conversa. Já não há mais palavra desprovida de ideologia no dicionário brasileiro.

Se todas as palavras permitem certo grau interpretação, assustadoramente o impasse é agora uma luxúria maravilhosa, e seja pela esquerda ou pela direita, manifesta o mais infernal dos egoísmos, que é cada um cuidar de si. Querem o gozo exclusivo de um país inteiramente seu.

O Brasil virou um escravo sexual dos militantes.


Se a fala ampara-se na identidade, a memória, os arquivos, os acervos, a arqueologia, o patrimônio cultural, os centros históricos, o espaço público ardem em abandono e que não é somente físico, mas também de novas visões e políticas públicas que possam ir além do binômio estado-orçamento.

O Iphan não é o patrimônio, é apenas um órgão federal de tutela. Sua resposta para o incêndio foi uma normativa burocrática. O BNDES rasga recursos públicos em obras de restauração que não promovem nenhuma externalidade positiva ou vitalidade urbana. Tampouco mede-se o impacto do investimento. E não se pergunta àqueles que tem a posse do bem cultural, como a UFRJ, se tem capacidade de dar sustentabilidade, interpretação e acesso ao bem. Ninguém pergunta se precisam de ajuda. É um jogo de empurra institucional, coordenado pelo medo do Ministério Público. Mas não faltam recursos para filmes que ninguém vê, teatros que ninguém vai, música que ninguém ouve. Assim como a empáfia acadêmica ergue bandeiras e trincheiras. Não há pontes.

Se o fogo acabou com o museu, as eleições deveriam ajudar a apaziguar o ambiente político, contudo vêm carbonizando o futuro, com palavras de ódio, fakes virais e a beatificação de um líder preso por corrupção.

Fala, fogo e faca são quintessências da formação de uma civilização, antecedidas por um outro fator, a terra. Não houve história sem fixação num território, não houve fogueira sem troca de conhecimento, não houve cultura sem contar histórias, não houve democracia sem a ágora. Não houve soberania e paz sem guerras e armas. Fatores primitivos mas que conduziram à razão, à ciência, ao Cosmo e ao próton.

Tem faltado urbanidade aos brasileiros. Estamos segregados em tribos, geograficamente divididos, ricos e pobres não compartilham espaço público. Ambição é não gerada assim como a solidariedade não é experimentada. Violência mata a todos. A escassez da confiança é absoluta.

Planejamento urbano é a reforma mais importante do país. Os candidatos só falam sobre obras, mas não sabem como promover lugares para nos conhecermos e nos amarmos. Territórios de generosidade.

Sejamos pela palavra sentida, pela memória a nos esquentar, pelo amor ao adversário.

'Viúvas' ricas

Nossos "ricos" preferem um apartamento em Miami ou uma quinta em Portugal a ajudar o País. Quanto às autoridades públicas, com raras exceções, o que esperar de uma corja de ladrões incompetentes que certamente nunca pisaram num museu?
Mary del Priore, autora de 51 livros sobre História do Brasil e premiada com três Jabutis

A solidão do meteorito

Há imagens que se tornam símbolos de uma época. Por exemplo, a Pedra do Bendegó, sólida e negra como uma acusação, emergindo por entre as cinzas tristes do Palácio de São Cristóvão.

Penso na longa viagem que o meteorito fez até chegar ali — cinco toneladas de ferro e níquel navegando entre as estrelas, afundando-se no sertão baiano, sendo resgatado e exposto (uma saga essa operação de resgate, daria um romance) —, enquanto lembro os versos da poeta norte-americana Muriel Rukeyser: “O Tempo entra./ Diz:/ o universo é feito de histórias,/ não de átomos.”

O que desapareceu para sempre enquanto o Museu Nacional ardia não foram átomos, não foram artefatos, não foram múmias antiquíssimas, preciosas coleções de lepidópteros, vozes e canções em línguas que nem existem mais: foram histórias. As histórias de que somos feitos.



Lembramos — por isso existimos. Sempre que algo da nossa memória individual ou coletiva se perde, perde-se uma parte de nós. Estamos sempre à beira da extinção. Somos uma espécie ameaçada e somos também a nossa pior ameaça.

Com a destruição do Museu Nacional é como se o Brasil tivesse sofrido um grave acidente vascular cerebral, não socorrido a tempo. Nesse processo, o Brasil perdeu parte da memória. O problema de perder parte da memória é que não sabemos ao certo o que perdemos. Um homem perde um braço num acidente; sabe que perdeu o braço. Mas como saberá, ao despertar no hospital, após um AVC, que perdeu a primeira gargalhada do seu filho? O aroma a goiabas do quintal da sua infância? A noite mais bela da sua vida?

O Brasil perdeu parte da memória; portanto, nem sequer sabe ao certo o que perdeu.

Os políticos, os poderes públicos, tendem a desprezar a cultura — ouço dizer. Acontece que os políticos, ao menos em contexto democrático, desprezam a cultura porque quem os escolhe despreza a cultura.

E por que tanta gente despreza a cultura?

Não me parece justo acusar políticos que, sinceramente, autenticamente, no fundo da sua alma minúscula e deserta, não compreendem que seja mais importante para o Estado gastar dinheiro a proteger museus e outras instituições culturais do que a lavar os carros dos deputados, ministros e senadores.

A falha é nossa, daqueles que agora choram o desaparecimento do Museu Nacional. Todos intuímos a extensão da perda. Todos sabemos que cultura é fundamental. Contudo, não temos sido capazes de defender as causas que nos parecem urgentes e óbvias. Falha grave, falha nossa. Temos errado por arrogância, por preguiça e por desleixo.

Não é possível recuperar o Museu Nacional, a não ser em parte. Mas podemos lutar pela preservação de outros territórios de memória igualmente ameaçados. Podemos e devemos lutar, cada um à sua maneira, para que a cultura e a memória não continuem a ser entendidas, por tantos, como um luxo dispensável.

Por mim, mesmo reconstruído o Palácio de São Cristóvão, deixaria a Pedra de Bendegó lá, na mesma sala em ruínas onde está agora, erguida entre as pesadas cinzas da memória que se foi, como um dedo acusador contra todos nós.
José Eduardo Agualusa 

Partidocracia, a ditadura dos partidos

Peço desculpas por haver escrito que os partidos políticos se assemelham às casas de tolerância, também conhecidas como lupanares, prostíbulos, alcouces, sentinas. Algumas legendas não merecem a comparação. Muitas, porém, perderam a respeitabilidade por envolvimento em negócios sujos, documentados em processos penais e condenações dos dirigentes. Em vez de cuidarem de assuntos de interesse público, transformaram-se em abrigos de corruptos e siglas de aluguel.


A fragilidade dos partidos reflete-se no desinteresse pelas disputas em torno da Presidência da República, dos governos dos Estados, do Senado, da Câmaras dos Deputados, das Assembleias Legislativas. A desilusão é geral. Debates e entrevistas perdem em audiência para jogos de futebol, filmes antigos, novelas, velhos programas de auditório. Os tradicionais “santinhos” ocultam a legenda do candidato. Na corrida para o Palácio do Planalto a maior porcentagem de intenções de voto é creditada a Lula, condenado e encarcerado em Curitiba.

A crise adquire dimensões universais. Não é visível em ditaduras de partido único, como a China ou Cuba, mas se aprofunda nas democracias ocidentais. O partido deixou de ser, na definição de Benjamin Constant, “uma reunião de homens que professam a mesma ideologia política”. O que temos são facções volúveis, cuja composição oscila ao sabor das conveniências. A infidelidade é a regra; a fidelidade, exceção. A democracia, como governo do povo, foi superada pela partidocracia, identificada por Gianfrancesco Pasquino como “o predomínio dos partidos em todos os setores: político, social e econômico” (Dicionário de Política, Bobbio, Matteucci, Pasquino, Ed. Edunb, DF, 1993, II, 906).

Caracteriza-se, diz o cientista político, por um “constante esforço dos partidos em penetrar em novos e cada vez mais amplos espaços. Culmina no seu total controle da sociedade. É então que a partidocracia é deveras o domínio dos partidos”. De acordo com Bobbio, “em vez de subordinarem os interesses partidários e pessoais aos interesses gerais, grandes e pequenos partidos disputam para ver quem consegue desfrutar com maior astúcia todas as oportunidades para ampliar a própria esfera de poder. Em vez de assumirem as responsabilidades de seus comportamentos mais clamorosos e criticáveis, empregam toda a habilidade dialética para demonstrar que a responsabilidade é do adversário, a tal ponto que o país vai se arruinando e ninguém é responsável” (As Ideologias e o Poder em Crise, Ed. Edunb, DF, 1999, 193).

As ferramentas da partidocracia consistem no financiamento público dos partidos e das campanhas e na “atribuição de cargos em vastos setores da sociedade e da economia segundo critérios predominantemente políticos (fenômeno que no caso italiano é apropriadamente definido como loteamento). Ambos os instrumentos fortalecem os partidos, envolvendo amplas e, às vezes, importantes camadas de cidadãos” (Dicionário, Pasquino, vol. II, pág. 907).

A descrição da política, tal como é praticada na Itália, guarda rigorosa semelhança com o cenário brasileiro. A Câmara dos Deputados e o Senado pulverizam-se nas facções. Entre as mais atuantes temos as facções do agronegócio, dos sindicalistas, das igrejas evangélicas, dos corruptos, dos omissos, dos revanchistas, da bala, do baixo clero. São agrupamentos volúveis, que se aproximam ou se afastam de acordo com a determinação do líder do segmento representado.

A discussão sobre a quantidade de partidos é antiga. Surgiu com o aparecimento das primeiras agremiações na segunda metade do século 19. Themístocles Cavalcanti distingue três sistemas: do partido único, presente nos regimes totalitários; do bipartidarismo, adotado nos países anglo-saxônicos por força dos costumes, da tradição e da educação desses povos; e o multipartidário, “preferido nos países latinos, onde o espírito domina a própria realidade política e a capacidade para estabelecer as nuances dos diferentes sistemas levou a essa complicação partidária, que encontramos notadamente na França e no Brasil” (Cinco Estudos, Fundação Getúlio Vargas, 1955). Estivesse vivo, o saudoso constitucionalista colocaria, como quarta posição, o sistema de facções surgido na Itália e aperfeiçoado no Brasil desde o final do século passado.

A campanha eleitoral em andamento revela a fragilidade das legendas. As intenções que havia de voto em Lula não correspondem à decadência do Partido dos Trabalhadores (PT), em adiantado estado de decomposição. Lula, como outros desgastados dirigentes, impediu o florescimento de novas lideranças. Como sucede com o PT, os demais partidos envelheceram nos homens, na conduta e nas ideias, mas insistem em boicotar a renovação.

Ouvindo as ruas fica nítido que o povo perdeu o respeito por partidos e dirigentes. O descrédito é de tal ordem que já lhe não interessam as propostas, as entrevistas e os debates. Votará em quem acreditar ser algo novo, em alguém que imagine lhe trará segurança, emprego, e derrote a corrupção. As regiões atrasadas prestigiarão o atraso. País de analfabetos, governo de analfabetos, escreveu Rui Barbosa. O Brasil modernizado observa a fragmentação de candidaturas com ralas porcentagens de apoio e altas taxas de rejeição.

De Bolsonaro a João Amoedo, passando por Marina Silva, Ciro Gomes, Geraldo Alckmin, Álvaro Dias, Henrique Meirelles, Boulos, Eymael, é amplo o arco de alternativas. Ninguém consegue, porém, robusto apoio do eleitorado. São candidatos cujos partidos cumprem o papel de figurantes.

É inútil esperar do cidadão cuja família sofre abaixo da linha da pobreza que analise nomes e propostas para decidir de maneira racional. No dia 7 de outubro, confuso e desiludido, com o desemprego dentro de casa e a insegurança do lado de fora, votará sem entusiasmo cívico, para cumprir obrigação.

sábado, 8 de setembro de 2018

Um país amnésico

Como ficou demonstrado com o incêndio do Museu Nacional, o Brasil parece só usar a memória para se lembrar de que não a tem ou a tem incompleta — é o país da amnésia crônica e do pretérito imperfeito. A voracidade do tempo presente e a correria da vida moderna podem contribuir para isso, mas também e principalmente a pouca atenção que damos à nossa História. Gostamos do paradoxo de cultivar uma espécie de memória do esquecimento. Agora, por exemplo, avolumam-se as evidências do que deveria e poderia ter sido feito preventivamente para evitar o que está sendo repetido como um lugar comum: foi uma “tragédia anunciada”. Sim, e de múltiplas responsabilidades criminosas.

Esse pouco apreço ao nosso patrimônio cultural não é de hoje. “No meu tempo”, como dizem os velhos, o ensino fazia da História uma disciplina enfadonha que se resumia a uma relação cansativa de datas e nomes que dependiam de um mecanismo de aprendizado conhecido como “decoreba”, isto é, engolir sem precisar entender e sem gostar do que logo depois se esquecia.



Visitas guiadas a museus não eram um programa das escolas. Aliás, visitar exposições ainda é um hábito que se pratica sobretudo quando se viaja ao exterior. Em 2017, mais brasileiros foram ao Louvre do que ao nosso Museu Nacional. De acordo com quem fez as contas, o repórter Rafael Barifouse, da BBC News Brasil, foram 289 mil visitantes brasileiros lá contra 192 mil aqui. E mais: o número de patrícios que visitaram o museu francês foi 50,5% superior à visitação total da instituição brasileira.

Assim como enchemos o peito para exaltar com razão o nosso patrimônio esportivo — as Copas que conquistamos, os craques que fabricamos e exportamos — poderíamos ostentar também com orgulho os tesouros culturais que só agora, que os perdemos pelo fogo, tornamos conhecidos e valorizamos.

Apesar de seus 200 anos e do acervo de 20 milhões de peças, inclusive relíquias arqueológicas como Luzia, a nossa primeira mulher, a instituição criada por D. João VI precisou virar cinzas para ter sua importância conhecida pelo público. Além do que guardava, o Palácio de São Cristóvão é, segundo o jornalista e historiador Laurentino Gomes, o local de nascimento do Brasil como Estado-nação. Para ele, o incêndio equivaleu “ao Brasil queimar sua própria certidão de nascimento”.

A triste realidade é que nossa amnésia crônica nunca chegou a ser uma preocupação nacional. É matéria preferencial para o humor. A piada crítica mais conhecida é a do excelente cronista Ivan Lessa, ele mesmo pouco lembrado, que dizia: “A cada 15 anos, o Brasil esquece os últimos 15 anos”.

E essa quase verdade é para se lamentar, não para fazer rir.

Existem três teses sobre legitimidade da eleição sem Lula

O veto legal à candidatura de Lula singulariza a eleição em curso, distinguindo-a de todas as anteriores, desde a redemocratização. Daí, emerge um debate sobre legitimidade, que se espraia ao longo de três teses. A primeira diz que a eleição é legal e legítima; a segunda, que é ilegítima; a terceira, e mais interessante, faz a legitimidade da eleição depender de seus resultados. A visão convencional, adotada pela maioria dos partidos, não enxerga nenhum problema de legitimidade.

A Lei da Ficha Limpa, fonte do veto à candidatura de Lula, nasceu de um projeto de iniciativa popular e, depois de amplamente aprovada no Congresso, foi sancionada sem vetos pelo próprio Lula. É instrumento legal de validade geral, que cancelou as mais diversas candidaturas desde 2014, não uma ferramenta destinada a cassar os direitos de Lula ou do PT.


A eleição é legítima. O debate sobre o tema é que não é, derivando de um desejo de colocar Lula acima da lei ou de uma pervertida estratégia de campanha.

O segundo ponto de vista, adotado por correntes de extrema esquerda abrigadas no interior do PSOL ou em surpreendente aliança com o PT (caso do PCO), pode ser qualificado, com alguma ironia, de revolucionário. O veto a Lula é o prosseguimento do “golpe parlamentar” do impeachment e tem a finalidade de ladrilhar o caminho das “reformas neoliberais”. O Judiciário participa do “golpe”, conduzindo a perseguição legal ao ex-presidente. Os mensageiros desta tese repetem, letra por letra, a narrativa desenvolvida pelo PT desde 2016, mas com finalidades muito diferentes.

A extrema esquerda habituou-se a encher seu potinho de sonhos com as sobras do lauto banquete lulista. Em 2002, apoiou a candidatura presidencial do PT na esperança de que a “classe trabalhadora” experimentasse o governo de Lula — um “reformista” ou um “traidor”, a depender da versão — e, libertando-se de suas ilusões, ouvisse o chamado da Revolução (assim, com maiúscula). Hoje, ainda à beira da mesa, espera que a denúncia do veto a Lula finalmente desperte as massas de sua irritante letargia, propiciando o “assalto ao Céu”.

A terceira é a tese lulopetista. Na sua nunca explicitada inteireza, ela diz que a eleição terá sido legítima se Haddad vencer, mas terá sido ilegítima se Haddad perder. O alarido do protesto contra a “ilegitimidade” da eleição sem Lula, tão audível na etapa atual, cessará quando Haddad assumir o bastão, para só retornar na hipótese da derrota. A suspensão do juízo sobre a legitimidade até a proclamação dos resultados viola as regras elementares da lógica, mas atende a um imperativo partidário estratégico: na vitória, Haddad será o incontestável presidente do Brasil; na derrota, o eleito não será mais que um títere da “elite golpista”.

A história funciona mais ou menos assim. Em caso de vitória, o povo terá “corrigido” o desvio iniciado com o impeachment, derrotando o “golpe” e salvando a democracia. Já em caso de derrota, o desejo do povo de recolocar Lula no Planalto terá sido frustrado pela artimanha golpista do veto à candidatura. Restará, então, a via da resistência, convocada por meio da denúncia da ilegitimidade do presidente eleito.

A tese convencional é legalista ao extremo: identifica a democracia às normas legais, negando-se a encarar o problema político da limitação da soberania dos eleitores posto pela Ficha Lima.

A tese revolucionária é finalista: identifica a democracia (“burguesa”, evidentemente) como o inimigo histórico e interpreta o veto a Lula como faísca providencial capaz de acender a grande fogueira da purificação. A tese lulopetista é, além de oportunista, autoritária: identifica a democracia ao sucesso eleitoral do Partido (assim, com maiúscula), exprimindo uma rejeição visceral ao princípio do pluralismo.

Pensamento do Dia


May-Day

Um canal de tv a cabo exibe um programa com o título acima. Na fraseologia aeronáutica, é o vocábulo que nenhum piloto jamais imagina ter de proferi-la.. Tampouco os passageiros que ele carrega atrás gostariam de sabê-la dita da cabine de comando para um controlador de voo. Significa que o piloto já fez tudo o que podia ser feito e o desastre é iminente. A série de documentários é destinada, aparentemente, aos aficionados da aviação ou a quem aprecia assistir ao perigo que os semelhantes correm na vida, pois sabemos que viver é perigoso, em terra, no mar e no ar. Mas só na aparência os filmes exibidos visam apenas a estes dois públicos-alvo. Eles são pedagógicos para todos os fins, não somente para a aviação. Especialmente porque mostram que um desastre de avião é um acontecimento infausto como os demais acontecimentos infaustos na vida. Sobretudo porque não é causado por um único motivo, a pane no motor, o flap que não foi estendido na graduação exigida, o excesso de neve acumulado sobre as asas, um inesperado vento de cauda no momento do pouso, uma distração do comandante e assim por diante. O avião cai por mais de um problema, às vezes pequenos detalhes somados, de que não se deram conta o piloto, o pessoal de terra, o fabricante. Muitas vezes todos juntos não atinaram para os equívocos ou os consideraram de pequena monta, sem risco.

A facada em Jair Bolsonaro é um desses acontecimentos infaustos ao qual os especialistas que produzem May-Day dedicariam uma dissecação detalhada para explicar por que o mineiro tomado de ódio fez o que fez. A facada é o derradeiro ato a lastimar no desastre ocorrido em Juiz de Fora. Não basta, há que lastimar mais. Uma série de detalhes ou de equívocos escancarados sobre os quais nós todos, o pessoal de terra, o fabricante e o piloto não se deram conta ou minimizaram seus efeitos deletérios para a consumação do desastre. É muito fácil culpar o piloto, o erro humano explicaria o acidente, mostra a série de documentários da tv. E muitos o fazem agora, depois da facada. É uma simplificação de investigadores desejosos de ter um culpado imediato pelo desastre. Combinemos que foi erro de um piloto soberbo, falacioso de seus inexistentes dotes técnicos, inapto para o comando.


É mais uma simplificação dos investigadores apressados que procedem à dissecação dos equívocos a que o Brasil assiste há anos. Conhecemos as suas identidades e CPFs ideológicos, de amplo espectro. Lastimam a facada, mas vão escrever no relatório que a causa foi falha do piloto.

Erro humano foi, de todos nós. Desde o famigerado Mensalão assistimos ao perigoso dividir da nação em duas parcialidades. Divisão fomentada pelas próprias instituições nacionais: Universidade, Mídia, Legislativo, Executivo, Judiciário, órgãos de classe etc. Até o Bar, grande instituição da sociedade brasileira moderna, fomenta a divisão. E chegou no setor mais sensível: a Família. Uma parcialidade é a que não enche o tanque de combustível o quanto deveria; outra, a que finge não avistar no radar meteorológico a tempestade que pode produzir o vento de través que vai obrigar o avião a voar mais tempo e acabar caindo de pane seca. Paremos por aqui a linguagem metafórica. O que precisa ser dito é uma velha platitude: as sociedades odientas não prosperam, a História está aí para nos lembrar.

O Brasil não pode proferir a palavra terrível aos aviadores: may-day.

Pedro Rogério Moreira

Era de tragédia

Nossa era é essencialmente trágica, por isso nos recusamos a aceitá‑la tragicamente. O cataclismo aconteceu, estamos entre ruínas, começamos a construir novos pequenos habitats, para ter novas pequenas esperanças.

É um trabalho bem difícil: agora não existe nenhuma estrada tranquila para o futuro; mas damos a volta, ou passamos por cima dos obstáculos. Temos de viver, apesar dos muitos céus que desabaram
D. H. Lawrence, O amante de lady Chatterley

Passamos um limite perigosíssimo com a tentativa de matar Bolsonaro

A campanha eleitoral de 2018 ultrapassou a fronteira perigosa de ver um atentado a um candidato à presidência da República. A cena de um homem atingindo o capitão da reserva Jair Bolsonaro com uma faca materializou o extremo da polarização belicosa que o Brasil vive há pelo menos quatro anos. Bolsonaro correu risco de morrer. Foi salvo pela competência da equipe médica do hospital de Juiz de Fora. Adélio de Oliveira tentou assassiná-lo e as motivações para este ato miserável são confusas. Isso não muda uma realidade que já está embaixo do nosso nariz há alguns anos. Faz tempo que o país vem flertando com essa violência, mas até agora chegávamos à beira do abismo. Na véspera de feriado de independência, esse limite foi transposto, e se não houver uma mobilização urgente dos demais presidenciáveis e de todos os que têm voz na sociedade cairemos ainda mais na escala da dignidade humana.


Não faltaram os alertas. No dia 8 de março de 2016, o ministro Marco Aurélio de Mello temia o antagonismo das ruas quando os protestos pelo impeachment estavam no ápice, e as manifestações pró-PT ganharam força, depois da condução coercitiva do ex-presidente Lula no dia 4 daquele mês. “Receio as agressões físicas. Já pensou surgir um cadáver? A história revela que quando um cadáver surge a coisa degringola”, afirmou Mello. Degringolou, e o cadáver é o esforço para civilizar o Brasil.

Já desde aquele episódio a tormenta estava em formação, e traria novas cenas degradantes ao cenário político, como foram os tiros na caravana do ex-presidente Lula em março deste ano, no Paraná. Os disparos atingiram a lataria de dois ônibus que seguiam em carreata que acompanhava o ex-presidente.

O Fla X Flu vergonhoso, no entanto, já passou por cenas bizarras como a do ex-vereador Maninho do PT cedendo à provocação de um manifestante, Carlos Alberto Bettoni, que xingava o senador Lindbergh Farias na porta do Instituto Lula, em São Paulo, cinco meses atrás. Bettoni foi empurrado por Maninho, e bateu a cabeça num caminhão que passava ali. Teve traumatismo craniano, e precisou ser internado. Felizmente, sobreviveu. Muito antes, no final de 2015, o cantor Chico Buarque foi xingado aos gritos, no Rio, no final de 2015, por anti-petistas. Teve também o ator José de Abreu, petista declarado, cuspindo num casal que o xingava num restaurante também no Rio. E petistas com mensagens intimidadoras contra jornalistas quando o ex-presidente ficou no sindicato dos metalúrgicos do ABC antes de se entregar em abril deste ano.

O ataque a Bolsonaro inaugura um novo político muito mais perigoso. Afeta (ou deveria afetar) a já baixa auto-estima do brasileiro, numa semana em que perdemos completamente o chão com o incêndio ao Museu Nacional do Rio. O acervo de dois séculos perdido no fogo revelou o desprezo que temos como sociedade pela nossa memória. A tentativa de assassinar um candidato mostra que também desprezamos a crescente onda de ódio que cegou o Brasil a ponto de uma pessoa se sentir autorizada a tentar assassinar um homem público na frente de uma multidão. Guarda alguma semelhança com o crime contra a vereadora Marielle Franco, muito embora esta última venha ainda mais carregada de dor e impotência. Ela perdeu a vida pelas mãos de um assassino que se esconde até hoje e as respostas não são dadas à altura da gravidade daquele crime.

É urgente a necessidade de estancar essa sangria, traçar uma linha divisória que nos tire dessa espiral deprimente. E isso não será possível com mais mensagens de ódio que fomentem o revide a essa tentativa de assassinato. Todos somos o anjo e o demônio ao mesmo tempo, e é preciso decidir qual dos dois será fortalecido. Se vamos alimentar a pacificação e a empatia por um país mais sadio, ou entrar na onda de justificar o injustificável segundo a cor política.

O Brasil está numa delicada corda bamba e a facada desequilibra ainda mais o país. A tentativa de matar Bolsonaro vai alterar o rumo da campanha de todos os candidatos, que precisarão rever suas estratégias, principalmente os que tinham a comunicação calcada nos ataques à agressividade do que hoje lidera as pesquisas sem Lula na disputa. O impacto das imagens da facada, e a confirmação da gravidade do atentado, sensibiliza a população. Se por um lado cria-se empatia com o candidato, os sentidos ficam mais aguçados para as mensagens reais e oportunistas. Os próprios aliados do capitão da reserva atingido terão de ponderar muito bem suas palavras e ações neste momento de atenção plena para Bolsonaro. A primeira, e fria leitura, é que o acidente o beneficia na corrida eleitoral. Mas, para que o candidato continue competitivo na disputa, será preciso ponderar bem o eixo que se vai adotar. Ainda que a exposição deste momento o favoreça, as provocações que o candidato protagoniza não vão desaparecer da mente de quem já o rejeitava.

Futuro do país passa pela cadeia e pelo hospital

Mais do que em qualquer outra eleição, a campanha de 2018 colocou o Brasil numa encruzilhada. Um pedaço do eleitorado trafega pelo caminho que leva à cadeia. Outro naco de eleitores prefere a trilha que conduz ao hospital. Ao fundo, ouve-se o barulho provocado por meia dúzia de candidatos que se oferecem como alternativas ao poste fabricado atrás das grades e à vítima da facada, recolhida à UTI.


Consolidou-se um deslocamento geográfico da campanha presidencial. Preso, o ficha-suja inelegível transformou sua cela especial num comitê eleitoral de onde articula sua substituição na cabeça da chapa. Esfaqueado, o rival do polo oposto transforma seu drama clínico num grande ato de campanha, postando desde a UTI vídeos, fotos e mensagens nas redes sociais.

A um mês do dia da eleição, os dois protagonistas da disputa, Lula e Bolsonaro, guerreiam em trincheiras extremas: uma cela e uma UTI. As principais armas do combate são o veneno ideológico e a mistificação emocional. Num cenário assim, marcado por posições extremas, o extremismo que mais preocupa é o da agenda extremamente vazia. O maior perigo para o eleitor não é o risco da falta de sabedoria na escolha. O risco mais latente é o da falta de opção.

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Veneza, Martin Rico y Ortega 

A democracia no chão

A democracia no Brasil, se quisermos dizer a verdade em voz alta e sem perder tempo com muito palavrório, está valendo cada vez menos hoje em dia. Esqueça essa conversa de que “as instituições estão funcionando”, ou que a democracia brasileira já “está adulta”, ou que “não há mais lugar para aventuras autoritárias” no mundo do século XXI. As instituições não estão funcionando coisa nenhuma. A democracia no Brasil pode estar adulta, mas sua idade mental no momento é de 3 anos. Quanto à falta de espaço para regimes não democráticos no mundo de hoje — bom, aí já dá vontade de rir. Se há alguma coisa que existe de sobra neste planeta, nos dias que correm, é terreno para montar qualquer espécie de ditadura — ditadura sob medida, até, em vários modelos e estilos, de classe econômica a première platinum plus. E o que sobrou de democracia no Brasil — quanto tempo ainda dura até ir para o espaço? É difícil dizer. Pode demorar um tanto mais, um tanto menos. Para a maioria dos brasileiros, tanto faz — estão pouco ligando para o assunto, e quando ligam é para torcer contra. Mas parece certo que os demais, os que se dizem democratas ou ganham a vida nos cargos, funções e atividades que a democracia fornece, estão contribuindo o máximo que podem para que tudo vá o mais breve possível para o raio que o parta.

É claro que estão em vigor os direitos e liberdades mais comuns, e isso precisa de uma ordem democrática para existir. Você pode tomar um ônibus de São Paulo a Goiânia, por exemplo, sem pedir licença a ninguém. Pode falar mal do governo quanto quiser. Pode ir à igreja da sua preferência, ou não ir. A polícia não pode prender uma pessoa sem mandado judicial e é obrigada a fazer um boletim de ocorrência se lhe roubarem alguma coisa. Para tirar um cidadão da casa onde mora, é preciso uma sentença de despejo. Você tem o direito (e a obrigação) de votar, de chamar a ambulância do SUS e de assistir às sessões da Câmara de Deputados, no espaço reservado ao público. Você é dono da Petrobras, do Banco do Brasil e da empresa criada em 2012 para construir o trem-bala, sem contar os canais de transposição das águas do São Francisco, a TV Brasil e a Esplanada dos Ministérios. Mas não são essas coisas que estão faltando na democracia brasileira. O que lhe falta, e põe sua existência cada vez mais em risco, é a lógica comum. A democracia neste país, hoje, é uma geringonça sem pé nem cabeça — e coisas sem pé nem cabeça raramente têm um grande futuro pela frente.


Honestamente: como é possível o país ter democracia e, ao mesmo tempo, ter o ministro Edson Fachin, um dos onze monarcas que hoje se sentam no Supremo Tribunal Federal? Ou se tem uma coisa ou a outra. Todo mundo sabe que não pode existir democracia em lugar nenhum sem que haja plena segurança jurídica — ou seja, sem a expectativa de que a lei será aplicada conforme está escrita e dentro de um entendimento racional, todas as vezes que for necessário e de maneira igual para todos. Mas o ministro Fachin é o que se poderia chamar de insegurança jurídica ambulante — é o contrário, justamente, do que um regime democrático precisa. Onde está a lógica? Dias atrás, num voto no tribunal eleitoral, Fachin passou duas horas inteiras torturando o português, a razão e a lei brasileira com um alarmante teorema em favor da insanidade. Sim, dizia ele: não há nenhuma dúvida legal de que o ex-presidente Lula é inelegível. Mas uma força superior, segundo nos disse, anula a lei nacional. Que força seria essa? Deus? Não: dois sujeitos que fazem parte de um comitê de dezoito consultores da ONU em direitos humanos. Eles não têm nenhum poder funcional — não são a Corte Internacional de Haia, a Agência de Energia Atômica de Viena ou a Assembleia-Geral. Não têm existência jurídica. Não julgam nada nem decidem nada; só dão pareceres, e acharam que Lula tem o direito de se candidatar à Presidência.



Mas só dois, entre dezoito, resolveram isso? Só dois. Ouviram os dois lados — os advogados de Lula e o Ministério Público brasileiro? Não. Só ouviram o lado de Lula. O que decidiram representa uma posição oficial? Não; isso eles só vão dar no ano que vem. Em suma: é uma insânia, e por isso mesmo o tribunal eleitoral negou por 6 a 1 o pedido de Lula. O espanto é que tenha havido esse 1 a favor — o voto de Fachin. Nada do que ele disse fez o mais remoto sentido. E se os dois consultores tivessem decidido que o Brasil deveria invadir o Peru, por exemplo, ou restaurar a monarquia? Fachin acha que a gente seria obrigado a obedecer, sob pena de ficar na ilegalidade internacional. Se um ministro da nossa Suprema Corte defende um negócio desses, não é possível ter a menor confiança em nada do que o homem venha a decidir. Argumentou-se, é claro, que ele não é sempre assim; ao contrário, tem votado de maneira sensata. Mas aí é que está o problema: ele pode surtar a qualquer momento, sem avisar ninguém, e dar outro voto igual a esse — e não há absolutamente nada que se possa fazer a respeito. Insegurança jurídica é justamente isso. Outra coisa: Fachin não teria direito à sua opinião pessoal? Não desse jeito, da mesma maneira que você não pode dizer: “Na minha opinião a Terra é quadrada”. Isso não é opinião nem democracia.

É esquisita, nessa e em outras histórias similares, a ligeireza com que se aceita o espetáculo do circo pegando fogo. Os ministros se acharam na obrigação de cumprimentar Fachin pelo seu “brilhante voto”; ele, por sua vez, achou “brilhantes” os votos dos seis colegas que massacraram cada palavra que disse. Todos acharam igualmente “brilhante” a chicana de terceira categoria, amarrada com barbante, que a defesa armou com essa comissão da ONU. Brilhante por quê, se é um completo disparate? Tudo isso causa a pior impressão. Nossos mais altos tribunais de Justiça parecem hoje montepios de ajuda mútua, em que a solidariedade entre os sócios se pratica através da puxação automática e perene de saco. Asinus asinum fricat, poderiam dizer uns aos outros — não são eles que gostam tanto de socar latinório em tudo o que falam, para o público não entender nada? Pois então; eis aí um pouco de latim para verem se está ao seu gosto. O STF, por sinal, é o retrato vivo de uma democracia na UTI. Cada ministro, entre outros espantos, conta com a assistência individual de um funcionário (salário de até 12 000 reais por mês, mais horas extras, chamado “capinha”) que lhe puxa a poltrona na hora de sentar à mesa. Pode uma coisa dessas? Nem a rainha Elizabeth II tem um serviço assim — possivelmente, não existe nada parecido em nenhum outro lugar do mundo. Os ministros acham isso normal, como acham normais seu recente aumento de 16% nos salários diante de uma inflação anual de 4%, seus privilégios materiais, seus dois meses de férias por ano, sua aposentadoria com vencimentos integrais e por aí afora. Isso é simplesmente desigualdade — e como acreditar numa democracia na qual a maior corte de Justiça vive abertamente com direitos individuais de seus ministros superiores aos dos cidadãos que julgam? Pior: se o Judiciário está assim, imagine-se o resto.

Isso não é democracia — é um arranjo provisório, que só fica de pé porque ninguém ainda se organizou para jogar tudo no chão.

A violência política atual teve alguns paraninfos que precisam ser conhecidos

No ano passado (29 de maio de 2017), parlamentares, lideranças petistas e professores de Direito se reuniram no Seminário “Estado de Direito ou Estado de Exceção”, evento promovido pela Fundação Perseu Abramo, órgão de formação e mantido pelo PT – Partido dos Trabalhadores, provavelmente com dinheiro do fundo partidário, isto é, dinheiro do povo brasileiro.

O “Seminário” foi filmado e suas imagens (vídeos) – que até hoje podem ser vistos na internet (é só acessar o Youtube) – mostram uma platéia composta por militantes partidários e um comando no qual, sob a direção da deputada Benedita da Silva, foram discursando, entre outros, os senadores Roberto Requião, Gleisi Hoffmann, o procurador Claudio Fonteles, o governador Flávio Dino e o deputado Carlos Zaratini.

As palavras do senador Roberto Requião e da deputada Benedita da Silva, que a seguir grafarei, não parecem provas de tolerância, urbanidade e amor ao próximo.

O senador Roberto Requião, valentemente, bradou: “… o que, então, estamos esperando para cruzar o rio, para jogar a cartada decisiva de nossas vidas? Senhores e senhoras, universitários aqui presentes. Convençam-se. Não há mais espaço para a conversa e para os bons modos.”

A plateia foi ao delírio. Aplaudiu ruidosamente e começou a gritar à plenos pulmões: “Se muda, se muda, imperialista! A América Latina será toda socialista!”.

A nobre deputada Benedita da Silva vociferou: “Quem sabe faz a hora e faz a luta. A gente sabe disso. E na minha Bíblia está escrito que sem derramamento de sangue não haverá redenção. Com a luta e vamos à luta, com qualquer que sejam as nossas armas!”

O seleto público foi ao orgasmo múltiplo psicológico e a aplaudiu de pé. Essa reunião não ocorreu em nenhum hospício e os evangelizadores indutores eram componentes do Congresso Nacional. Agravando a situação, a iniciativa do evento, segundo o portal PT na Câmara, foi de sua bancada de deputados federais, sendo a organização de responsabilidade de seu órgão de formação política.

Além disso, também podemos encontrar na internet (Youtube) vários discursos do notório “dono do PT”, atualmente residente em Curitiba-PR, incitando populares – notadamente de baixa escolaridade e reduzida formação intelectual – a comportamento agressivo , na base do “nós contra eles”.

Com todos esses fatos antecedentes não é difícil entender a agressão com uma faca sofrida pelo candidato Jair Bolsonaro em Juiz de Fora, por criminoso que, em passado recente, como noticiado pela mídia, era militante do PSOL, partido político com as mesmas origens do Partido dos Trabalhadores, sendo, por muitos brasileiros, considerado um singelo “puxadinho do PT”.

A violência política atual teve paraninfos.

Passado roubado



A velhice não é roubarem-nos o futuro, é terem-nos roubado o passado
António Lobo Antunes

Vem, meteoro!

Um meme se tornou famoso, há alguns anos, nas redes sociais.

“Vem, meteoro!” (ou alguma diversificação dessa ideia) ressurge sempre que é noticiado um desses absurdos que só acontecem no Brasil.

Uma referência ao fato de que — já que um meteoro devastou o planeta na época dos dinossauros — eventualmente um outro deve estar a caminho para selar de vez a nossa sorte.

O meme clama para que um meteoro venha logo de uma vez e nos poupe dessa maldição de escândalos, de incompetência, de corrupção e de ignorância.


A frase mostra o velho bom humor cáustico nacional.

Como fazemos há décadas, rimos para disfarçar nossa própria habilidade de construir um País anormal.

Ou é normal um ex-presidente preso ter 39% das intenções de voto?

Ou é aceitável termos mais de 15 milhões de desempregados?

Ou é coisa pouca que nos últimos dois anos o governo esteja estagnado pela sua própria inépcia política?

Vem agora, meteoro!

Vem com força!

O que entristece ainda mais é que a popularização dessa frase, principalmente no Twitter e no Facebook, sugere a absoluta descrença na possibilidade de mudança.

Mas nada, nem o mais inventivo roteirista, poderia conceber o que estava por vir.

Nem os mais descrentes com o País poderiam imaginar os requintes trágicos do incêndio que destruiu o Museu Nacional.

Passada quase uma semana, ainda há quem partidarize o desastre.

Gente que culpa o BNDES da era PT por ter investido US$ 6 bilhões em obras em países amigos, enquanto trancava míseros 20 milhões que poderiam ter reformado e salvado o Museu.

Gente que culpa ministros, presidentes, governadores, como se a destruição do maior e mais importante Museu de História Natural da América Latina fosse mais uma de suas cotidianas incompetências.

Estamos tão acostumados com o dia a dia surreal que ocupa a mídia que, por mais que a imprensa tenha dado destaque (aqui e mundo afora), não conseguimos ter a dimensão de como o incêndio do Museu Nacional não tem precedentes.

Não pode ser comparado a nenhuma de nossas mazelas cotidianas.

Erra quem coloca essa tragédia apenas na conta da incompetência de partidos e políticos.

Simplifica quem compara os desmandos e incongruências a que assistimos todos os dias com o fim que levou o Museu Nacional.

Porque o incêndio do Museu não foi um escandolizinho a mais.

Não se compara a um presidentinho corrupto.

Nossos escândalos diários, o tempo e a História hão de dar a devida irrelevância.

Já o Museu era o que tínhamos escolhido eternizar, ao longo de séculos.

Evidentemente que o incêndio suja as mãos de políticos e burocratas.

Esses canalhas que estão demolindo nosso presente e afogando nosso futuro acabaram de incinerar boa parte de nosso passado.

Podem assinar orgulhosos a coautoria dessa obra macabra.

Mas dessa obra somos todos autores.

O nosso descaso atávico com a Cultura deu nisso.

Descaso de raramente frequentar museus.

De não votar pensando em Educação.

Vem de uma vez, meteoro!

E o Museu Nacional, que tantos agora dizem que “iam com os pais”, mas que nunca mais voltaram, em sua imensa sabedoria nos deixou um recado.

E usando a mesma ironia que nos é peculiar.

Assim que as operações de rescaldo começaram, um dos vinte milhões de itens que compunham o acervo do Museu estava ali, no hall de entrada, intacto.

Bendegó, o maior meteorito já encontrado em solo nacional estava impávido, cercado pelo que sobrou do Museu, ostentando suas mais de cinco toneladas.

Inevitável pensar no Museu rindo de todos nós.

Vocês pediram um meteoro.
Mentor Neto