sábado, 16 de junho de 2018

Em Roma como os romanos, já se dizia no tempo dos Césares

A Rússia é um país continental. Imenso. Espalha-se horizontalmente cobrindo nove fusos horários. É banhada por três oceanos: Ártico, Atlântico e Pacífico. É belíssimo, tem paisagens espetaculares. Sua História é muito rica, com figuras notáveis. Algumas se notabilizaram pelo terror que inspiraram, outras pelas maravilhas que realizaram. Culturalmente, é de uma riqueza extraordinária, literatura, música, arquitetura, de deixar qualquer um embasbacado. Sua capital, Moscou, tem monumentos belíssimos e museus que rivalizam com todos os museus do mundo.

É uma festa para os olhos e para o espírito. Uma megacidade, colorida, rica, espetacular! Visitar Moscou não é tarefa fácil: além do clima complicado, ou muito calor, ou muito frio, é gigantesca, com tantas e tantas coisas para ver, haja tempo e haja disposição para percorrê-la.

Cada terra com seu uso, cada roca com seu fuso, é um velho e sábio ditado. Não é impossível imaginar que um país que cobre nove fusos horários tenha inúmeros e variados usos, inúmeros e variados fusos.

Os turistas brasileiros que vão assistir à Copa do Mundo receberam um livreto com indicações sobre como se portar em Moscou de modo a curtir bem essa oportunidade de ouro, conhecer Moscou, sem criar problemas com os moscovitas e sempre respeitando seus hábitos.

Desse modo devem agir os turistas em qualquer lugar do mundo, não é mesmo? Respeitar quem nos recebe é uma das leis universais do visitante.

Tenho ouvido muitas críticas às posturas municipais de Moscou. Fico pasma. Mal chegamos e já queremos impor o nosso modo de vida aos moscovitas? Francamente, isso é ter um ego maior que o território russo!

Em Moscou, como os Moscovitas. Assim, respeitando as pessoas que nos acolhem, teremos recordações maravilhosas de uma viagem que vai unir as alegrias que o futebol pode proporcionar, com o conhecimento in loco de monumentos que honram a história e a religião russas.

A não ser que o turista tenha tempo (e dinheiro) para ficar muito mais de um mês em Moscou, o melhor que ele faz é não perder tempo tentando provar aos russos que eles estão errados e nós certos! Conhecer essa metrópole é um prêmio que o destino nos dá. Que tal merecê-lo?

Imagem do Dia

Perast (Montenegro), Dusan Djukaric

O ódio, o medo e a mentira

O ódio e o medo são as mais sombrias emoções humanas. Quando a mentira as alimenta e elas passam a ditar opiniões e comportamentos a democracia se torna vulnerável. É o que está ocorrendo no Brasil a quatro meses das eleições presidenciais.

A polarização da sociedade entre posições extremas criou um ambiente malsão em que se torna difícil alguém formar sua opinião ou mudá-la com base em fatos e argumentos. Em uma sociedade polarizada, uns e outros só tomam como verdade o que confirma sua certeza e desqualificam como mentira tudo que pode vir a questioná-la.

De onde vem e até onde irá a agressividade selvagem e anônima, e, porque anônima, impune, que campeia nas redes sociais? Seguir o dinheiro costuma ser uma boa pista.

O marketing foi indissociável da expansão da sociedade de consumo. Pepsi ou Coca-Cola, os bruxos da publicidade não visavam, a seu tempo, a outra coisa senão canalizar as escolhas dos consumidores na direção desejada. Ninguém esqueceu que um sabão em pó lavava mais branco do que os outros.

Aplicado à política, o marketing transformou-se hoje num arma poderosa de manipulação de eleitores, que passaram a consumir políticos como sabão em pó. O custo das campanhas eleitorais subiu a cifras astronômicas, e o dinheiro sujo para pagá-las passou a circular em caixas um ou dois. Em caixas-pretas e carros-fortes. Este foi o primeiro infarto da liberdade de escolha, vítima da manipulação de consciências. Outros viriam.

As redes sociais, quando surgiram, foram louvadas como territórios liberados. Antes receptores passivos de informações, agora cada um podia se comunicar com muitos, multiplicavam-se as plataformas de discussão e acesso a notícias.

Esta visão idílica das redes teve vida curta. Big data entrou no vocabulário econômico e político. Mark Zuckerberg, inventor do Facebook, tinha o melhor produto do mundo a oferecer: informações privadas que desenham o perfil mais íntimo de cada um de nós, sob medida para induzir a compra de um livro numa livraria virtual ou um voto para a presidência da República.

O próximo passo foi a utilização sub-reptícia de bots e trolls, robôs e agentes provocadores não humanos, que, disfarçados de cidadãos de carne e osso, simulam conversas, semeiam a mentira e a discórdia, instaurando um clima de guerra.

O sinal vermelho sobre a gravidade desta deriva se acendeu com a denúncia de casos de distribuição intencional de informações falsas, diluindo as fronteiras entre a verdade e a mentira. O exemplo mais notório, ainda sob investigação, é o da alegada cumplicidade entre o governo da Rússia e a campanha de Donald Trump para influenciar o resultado das eleições americanas.

Estudo patrocinado por Pierre Omidyar, fundador do eBay, sobre as mídias sociais e os riscos para a democracia revelou que grandes redes como Twitter e YouTube estão expostas à ação clandestina de líderes populistas, interessados em apoiar candidatos extremistas, difundir a intolerância e incitar à violência.

As fake news são urdidas num submundo obscuro e opaco, mas o seu impacto devastador se dá no mundo real. Os princípios da democracia e as regras do direito não têm vigência nestas dobras do mundo virtual. O anonimato nas redes torna ainda mais espinhosa a tarefa de identificar e punir os responsáveis por esses crimes.

Demagogos e populistas estão se servindo desses instrumentos para alavancar sua agenda regressiva. Essa deriva que viola a integridade do processo eleitoral e representa uma ameaça à democracia está em curso na campanha para as eleições de outubro. O TSE ordenou que o Facebook removesse, em 48 horas, cinco postagens de fake news contra a pré-candidata Marina Silva. Quantas terão passado despercebidas? Quantas mais virão?

O primeiro momento no enfrentamento de um problema é reconhecê-lo como tal. A busca de mecanismos que assegurem a lisura das campanhas eleitorais se dará no fio da navalha entre a defesa da informação responsável e a sombra ameaçadora da censura.

Da União Europeia veio um princípio norteador: “Notícia falsa é ruim, mas um Ministério da Verdade é pior”. Não estamos no temido 1984, distopia imaginada por George Orwell. Uma única fonte de verdade será sempre uma grande mentira. Não se protege nem se fortalece a democracia destruindo seus fundamentos.

A Internet é o grande enigma contemporâneo. Há que decifrá-lo antes que essa Esfinge nos devore. Afinal, se com determinação e tecnologia estancou-se a lavagem de dinheiro por que não seria possível coibir a lavagem cerebral?

Rosiska Darcy de Oliveira

O Grande Irmão está vivíssimo

O aparelho repressor do Estado é uma máquina de moer carne que inexoravelmente nos alcançará a todos; e neste país a popularidade de qualquer causa não depende dos desejos e sentimentos das pessoas, mas do que a televisão diz
Mempo Giardinel.i, "Impossível equilíbrio"

Dias Toffoli sugere um Supremo diet: 'Moderador'

Dentro de três meses, a presidência do Supremo Tribunal Federal vai trocar de mãos. Sai Cármen Lúcia, entra Dias Toffoli. Num debate realizado em Curitiba, Toffoli declarou que o Supremo deve agir como Poder moderador, não como protagonista. Manifestação esquisita. Os dicionários ensinam que moderador é o que modera, que atenua, que reduz, que restringe. Os Poderes Legislativo e Executivo apodrecem. E Toffoli sugere uma versão diet do Judiciário, batizando a novidade de Supremo moderador.


Toffoli fez uma comparação esdrúxula. “Se formos protagonistas”, disse ele, “vamos cometer o mesmo erro que as Forças Armadas cometeram em 1964.” Curioso. Há malucos pedindo a volta dos militares. Mas ainda não se viu nenhum louco clamando por um golpe do Supremo. Toffoli acrescentou: “Se quisermos ser protagonistas, vamos ser substituídos”. Ele perguntou: “E por quem?” Toffoli não quis dar entrevista. Uma pena. Não foi possível perguntar ao ministro que alucinações frequentam os seus pesadelos.

Hoje, a principal marca do Supremo é a insegurança jurídica. Num instante, a Corte aprova a prisão na segunda instância. Noutro, ameaça rever a regra. Ora afasta Eduardo Cunha do mandato, ora delega ao Senado a palavra final sobre o afastamento de Aécio Neves. Admite a condução coercitiva por 77 anos e, de repente, proíbe o procedimento. A Primeira Turma prende. A Segunda Turma solta. É nesse ambiente que Toffoli defende o seu Supremo diet, moderador. Nada poderia ser mais equivocado. No Brasil da corrupção, exige-se do Judiciário a aplicação implacável da lei. O maior excesso que o Supremo pode cometer é o da moderação.

É mais interessante o Lula sacralizado ou o Lula profano?

Desde que Lula foi condenado e preso existe, entre seus seguidores mais fervorosos, uma campanha para sacralizá-lo. É realmente melhor e mais interessante o Lula santo que o Lula profano? Que eu saiba, o que sempre agradou no político popular foi sua humanidade, a capacidade de entender como ninguém a linguagem e os lamentos dos sem passaporte e sem futuro. Eles entendem suas metáforas sobre futebol, suas hipérboles. Eles gostam de vê-lo com seus defeitos, comendo e bebendo o que eles comem e bebem. E amar o que eles amam. Divertem-se com seus exageros e até mesmo com suas mentiras. Perdoam-no por andar entre os ricos e grandes do mundo, porque pensam que continua sendo um deles capaz de defendê-los, quando chegar a hora, contra aqueles mesmos poderosos.

Agora começou a corrida pela sacralização. É o Lula que parou de beber e está feliz e não enfurecido, porque a ira é pecado. O Lula que assiste pela televisão as missas do Santuário de Aparecida. O que recebe um terço abençoado pelo Papa Francisco, que não era assim, enquanto um grupo de evangélicos até tirou o pó das cartas que o apóstolo Paulo escreveu na prisão, mais de dois mil anos atrás, dizendo que mesmo prisioneiro “lutava contra as bestas”(1Cor.13,32).

Lula tem agora um pai espiritual a cada semana que acaba sendo um porta-voz de sua conversão na prisão, onde estaria sereno, lendo e meditando. Dá medo de que, se continuar esse processo de sacralização, logo saberemos que o ex-sindicalista capaz de competir no bar com piadas e linguagem do mais veterano dos caminhoneiros acabe recebendo alguma aparição da Virgem ou dos santos. Façam, por favor, uma pesquisa entre os eleitores fiéis de Lula e perguntem se eles o preferem santo, manso e rezando, ou gritando que se sente enjaulado e obrigado a assistir as novelas da Globo. Se o preferem pecador como todos, com suas paixões e misérias, seu gosto pelas coisas boas da vida, ou transformado em monge a caminho da santidade.

A característica de Lula que sempre impressionou fiéis e infiéis é o seu incrível talento político, sua capacidade de prever as jogadas, como acontecia com Maradona no futebol. Ser um e vários ao mesmo tempo, conhecer pela biografia e pelo instinto, as pulsações mais profundas da miséria. O Lula profano, sem dúvida, é muito mais atraente e convincente do que o dos altares em que querem colocá-lo. E demos graças que a Igreja do Vaticano ainda não canonize ninguém em vida, caso contrário, já haveria gente colhendo assinaturas para pedir sua beatificação. Para começar, já estão pedindo para ele o Prêmio Nobel da Paz.

Não é difícil imaginar o Lula que um dia tornou pública a sua capacidade de metamorfose acompanhar o jogo de seus assessores que o vestem com os hábitos da santidade, enquanto deve se divertir pensando que sim, que não se incomoda com os terços, a leitura da Bíblia e as missas pela televisão, mas seu sonho é voltar a desfrutar da liberdade perdida e das coisas boas e profanas que a prisão tomou dele, na sua opinião, de forma injusta. Não acham que tantos preferem o Lula de sempre, furioso como um leão enjaulado, maldizendo os juízes, proclamando sua inocência, sonhando em sair correndo para a rua e tomar um bom trago durante um churrasco, em vez de vê-lo de joelhos, pacificado, rezando salmos ou sonhando que o Papa Francisco lhe apareça sorrindo? Se arrancarem de Lula sua poderosa humanidade, com suas virtudes e pecados, vão transformá-lo em uma triste caricatura. Para quê?

sexta-feira, 15 de junho de 2018

Recuperação milagrosa de Maluf realimenta as esperanças de cura do câncer

Foi uma surpresa para toda a classe média, menos para meia dúzia de jornalistas que conhecem os bastidores das tenebrosas relações entre os políticos e os tribunais superiores. Há meses de dois meses, no dia 17 de abril, os advogados do deputado Paulo Maluf (PP-SP), liderados por Antonio Carlos de Almeida Castro, mas conhecido como Kakay, divulgaram um desesperado “relatório médico complementar do Hospital Sirio-Libanês”, anunciando que o conhecido parlamentar se encontrava praticamente em estado terminal.

O boletim revelava que Maluf tinha sido foi internado devido a um “quadro generalizado que inclui pneumonia, atrofia e câncer de próstata”, além de 20 outras doenças ou sintomas da maior gravidade, como “múltiplas metástases ósseas, encefalopatia tóxico-metabólica, osteoporose, degenerações da coluna vertebral, depressão, confusão mental, alteração de humor e comportamento”, entre outros males.

O relatório tido como “complementar” do Hospital Sírio Libanês assinalava que os exames de tomografia computadorizada por emissão de pósitrons, realizados dia 11 de abril, constataram “progressão de doença neoplásica com múltiplas metástases ósseas secundárias à neoplasia prostática no sacro, na coluna (vértebra L4) e no ramo público superior esquerdo”, além de “doença neoplásica em anastomose vesicouretral”.

De posse deste sinistro relatório, o advogado Kakay fez um carnaval em Brasília, dando sucessivas entrevistas para denunciar a perversidade de se manter na penitenciária um condenado nessas condições, e pediu uma liminar ao Supremo para conceder prisão domiciliar a Maluf.

No sorteio eletrônico, o advogado deu muita sorte, pois a liminar foi distribuída ao ministro Dias Toffoli, que é amigo particular de Kakay e frequentador assíduo do bar do Piantella, quando o estabelecimento pertencia ao festivo advogado.

Toffoli ficou tão arrasado com a petição do amigo Kakay e nem se preocupou em cumprir as regras e requisitar parecer de uma junta médica oficial. Alegando se tratar de uma questão humanitária, o ministro concedeu de imediato a prisão domiciliar a Maluf, a ser cumprida na mansão do deputado, em São Paulo.

Reunindo as últimas forças, Maluf conseguiu pegar um jatinho de volta a São Paulo no dia 30 de abril. Devido a seu gravíssimo estado de saúde, esperava-se que o deputado fosse direto para ser internado no Sírio Libanês, mas ele preferiu ir para casa, e até se pensou que fosse último desejo de moribundo.

Mas agora vem uma sensacional notícia. Maluf está cada vez melhor, teve uma recuperação milagrosa e o juiz da 4ª Vara de Execuções Penais de São Paulo, Rogerio Alcazar, autorizou o deputado a frequentar três sessões semanais de fisioterapia fora da prisão domiciliar, no CareClub Clínica de Medicina do Esporte.
Não é preciso dizer mais nada. Na literatura médica universal, jamais se viu um caso como este. Cerca de um mês após voltar para casa em estado terminal, sem fazer químio, rádio ou iodoterapía, Maluf estava recuperado da metástase cancerígena e até conseguia licença para fazer fisioterapia externa.

Como nenhum paciente terminal pode ser autorizado a fazer fisioterapia em Clínica de Medicina do Esporte, fica claro que Maluf está praticamente curado. E se assim é, o condenado deve ser devolvido à Penitenciária da Papuda para pagar sua dívida com a sociedade, como se dizia antigamente.

Famílias pobres brasileiras levariam 9 gerações para alcançar renda média

A chance de uma criança de baixa renda de ter um futuro melhor que a realidade em que nasceu está, em maior ou menor grau, relacionada à escolaridade e ao nível de renda de seus pais. Nos países ricos, o "elevador social" anda mais rápido. Nos emergentes, mais devagar - no Brasil, ainda mais lentamente.

O país ocupa a segunda pior posição em um estudo sobre mobilidade social feito pela OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico) com dados de 30 países e divulgado nesta sexta-feira.

De acordo com o estudo O elevador social está quebrado? Como promover mobilidade social, seriam necessárias nove gerações para que os descendentes de um brasileiro entre os 10% mais pobres atingissem o nível médio de rendimento do país. A estimativa é a mesma para a África do Sul e só perde para a Colômbia, onde o período de ascensão levaria 11 gerações.


O indicador da OCDE foi construído levando em consideração a "elasticidade intergeracional de renda". Ou seja, quanto o nível de rendimento dos filhos é determinado pelo dos pais. A instituição ressalta no estudo que a simulação tem finalidade ilustrativa - para dar dimensão da dificuldade de ascensão social - e que não deve ser interpretada como o tempo preciso para que um domicílio de baixa renda atinja a renda média.

Na média entre os países membros da OCDE, a chamada "persistência" da renda intergeracional é de 40%. Isso significa que, se uma família tem rendimento duas vezes maior o que de outra, o filho terá, em média, renda 40% mais alta que a da criança que veio da família de menor renda.

Nos países nórdicos, a persistência é de 20%. No Brasil, de 70%, conforme a pesquisa.

Mais de um terço daqueles que nascem entre os 20% mais pobres no Brasil permanece na base da pirâmide, enquanto apenas 7% consegue chegar aos 20% mais ricos. Na média da OCDE, 31% dos filhos que crescem entre 20% mais pobres permanecem nesse grupo e 17% ascendem ao topo da pirâmide.

Isso é o que o estudo chama de "chão pegajoso" (sticky floor): a dificuldade das famílias de baixa renda de sair da pobreza.

Filhos de pais na base da pirâmide têm dificuldade de acesso à saúde e maior probabilidade de frequentar uma escola com ensino de baixa qualidade.

A educação precária, em geral, limita as opções para esses jovens no mercado de trabalho. Sobram-lhes empregos de baixa remuneração, em que a possibilidade de crescimento salarial para quem tem pouca qualificação é pequena - e a chance de perpetuação do ciclo de pobreza, grande.

Nesse sentido, a desigualdade social e de renda, destaca o levantamento, é definidora do acesso às oportunidades que podem fazer com que alguém consiga ascender socialmente.

"Além do chão pegajoso, países como o Brasil têm também tetos pegajosos (sticky ceilings)", acrescenta Stefano Scarpetta, diretor de emprego, trabalho e assuntos sociais da OCDE, referindo-se às famílias de alta renda.

O nível elevado de desigualdade também se manifesta sobre a mobilidade no topo da pirâmide. Aqui, é pequena a probabilidade de que as crianças mais abastadas eventualmente se tornem adultos de classes sociais mais baixas que a dos pais.

Scarpetta pondera que, ao contrário da tendência global de aumento da desigualdade, o Brasil conseguiu reduzir suas disparidades na última década, até o início da recessão. O país fez pouco, entretanto, para corrigir os problemas estruturais que mantêm em movimento o ciclo da pobreza - a qualidade precária da educação e da saúde e a falta de treinamento para os milhões de trabalhadores de baixa qualificação.

"O Brasil fez um bom trabalho tirando milhões de famílias da extrema pobreza, com o Bolsa Família, por exemplo. Falta agora fazer a 'segunda geração' de políticas", disse o economista à BBC News Brasil.

Pensamento do Dia


Rever a história para retomar o caminho

É a ignorância semeada pela censura das soluções que o mundo moderno dá aos problemas que nos afligem, mais que tudo, que garante a nossa permanência no estágio pré-republicano em que nos arrastamos

2013 é um marco ambíguo. Entrou para a história como o do “despertar do gigante adormecido” … mas de um despertar para o seu próprio vazio. Já lá vão mais de cinco anos e seguimos perdidos no espaço, incapazes de um discurso articulado; de distinguir causas de efeitos e aliados de inimigos; sabendo, vagamente, balbuciar os nossos “não” mas sem repertório que nos permita esboçar um único “sim” digno de ser abraçado como projeto para a nação. Somos o país que morre de fome por não saber pedir; que não consegue ler o menu das soluções institucionais modernas, arrastado que foi de volta para o limbo pré-republicano mediante o aparelhamento dos meios de difusão de cultura e informação e o aniquilamento das nossas universidades (as ultimas das Américas) como centros de pesquisa pura e busca do conhecimento. O país em cujas escolas cultua-se só o que fracassou, instila-se o ódio ao merecimento e proíbe-se mostrar, do mundo que deu certo, senão o que ele tem de pior.

Não é de hoje. A primeira faculdade chegou aos EUA com os colonos ingleses. E a América Hispânica já tinha 23 em funcionamento quando o Brasil fundou a sua primeira – de medicina porque a corte transplantada em 1808 precisava de médicos. Até então tudo que havia aqui era um colégio de teologia, instituição voltada, portanto, para a negação em nome do dogma e não para a busca do conhecimento.

No país onde a metrópole proibira desde sempre a produção e a importação de papel (e mais recentemente a entrada da informática) a primeira impressora chegou com 358 anos de atraso em relação à invenção de Gutenberg. Mas junto com a “Impressão Régia” (a única admitida) desembarcaram os censores.

“Posto numa balança o Brasil e na outra o reino, há de pesar com grande excesso para mais aquela primeira que esta última; e assim, a maior e mais rica parte não sofrerá ser dominada pela menor”, argumentava um alto funcionário do rei para justificar tão rígido cerco à informação e ao conhecimento. Não se alterou fundamentalmente a situação com a mudança da metrópole colonialista de Lisboa para Brasília. É a ignorância semeada pela censura das soluções que o mundo moderno dá aos problemas que nos afligem, mais que tudo, que garante a nossa permanência no estágio pré-republicano em que nos arrastamos.

A democracia moderna, essencialmente, é um arranjo de sobrevivência pactuado por comunidades isoladas em territórios hostis. Longe do rei e de qualquer socorro de fora elas tiveram, por si mesmas, de fazer e cobrar suas leis, decidir e executar suas decisões e prover sua própria segurança. Foi isso o “Pacto do Mayflower”. Foi isso, com quase um século de adiantamento em relação à versão saxônica, o arranjo das Câmaras Municipais das vilas portuguesas no Brasil. Isoladas umas das outras e do resto do mundo, havia nos seus governos um grau de soberania popular que nem a metrópole nem ninguém antes jamais vivera. Por mais de três séculos, de três em três anos, nossa gente organizou eleições, deu posse a governos, seguiu-lhes as determinações e os governantes entregaram seus cargos aos novos eleitos sem uma única quebra.

Nenhum outro povo na terra teve tão longa vivência de democracia. E até Tiradentes estivemos ao par da ponta mais moderna do pensamento político da época. O Brasil real organizou-se e construiu-se por si mesmo à margem do Brasil oficial, à margem do governo central instalado na praia e voltado para a metrópole antes e depois de 1808. Na informalidade, regido pelo costume, pela lei não escrita e financiado pelo “fiado”.

Só 15% da economia nacional, ao longo de todos os séculos do Brasil colônia, hoje sabe-se graças à econometria aplicada à historiografia a partir de 1970, era contabilizada e registrada nos anais da metrópole. A economia de exportação – e só ela – vivia no figurino casa grande e senzala, o “único que existiu” segundo os nossos historiadores “marxistas”. O outro Brasil, o do mercado interno, o da pequena propriedade, o dos empreendedores que produziam, movimentavam e comercializavam bens e serviços, pesando 85% de tudo que se fazia aqui, viveu na clandestinidade e à margem da lei até o primeiro governo da “república” tomada de assalto pelos ditadores do credo “positivista” que nos assombra até hoje. Foi por mera distração deles que Rui Barbosa teve a oportunidade de baixar, a 17 de janeiro de 1890, os quatro decretos que constituíram a “lei áurea” da iniciativa privada no Brasil. “As companhias ou sociedades anônimas, seja civil ou comercial o seu objetivo, podem estabelecer-se sem autorização do governo” rezava a peça que transformava num direito do cidadão investir sua poupança pessoal num empreendimento reconhecido pela lei … só que não. Prudente de Morais, o terceiro da “republica”, foi o primeiro e talvez o único presidente brasileiro de todos os tempos que conhecia e praticou a teoria por trás dessa expressão. Desde então têm havido mais esforços para fazer regredir que para fazer avançar o Brasil que Rui e ele vislumbraram.

Não tivemos uma nobreza hereditária mas a de toga a substituiu com “vantagem” pois até ao “rei” ela submeteu. O direito brasileiro é ainda o do “direito adquirido” à diferença que sustentou o absolutismo monárquico e não o dos Iluministas e da republica sem aspas que consagra a igualdade e criminaliza o privilégio.

E, cada vez mais, é isso que nos mata.

É essa a história que se conta na História da Riqueza no Brasil, livro que consolida uma inspiradora série de trabalhos anteriores de Jorge Caldeira, o libertador da historiografia brasileira. A história é a psicanálise das sociedades, e esta que ele conduz aponta claramente um caminho: o da soberania do povo a partir da base municipal. “A maior e mais rica parte” só se libertará da opressão da outra com a despartidarização das eleições, o voto distrital puro e os direitos de retomada de mandatos (recall) e referendo de leis pervertidas no âmbito dos municípios. Só então poderemos retomar a vocação democrática de que vimos sendo desviados a força.

Sol na sala

Como toda manhã
o homem lê o jornal
sentado no sofá

Como toda manhã
o cão espera
ao lado do sofá

O mundo de sempre está
no jornal esta manhã –
os mesmos fatos
as mesmas disputas
entre as mesmas facções rivais
os mesmos estupros e assassinatos
hediondos todos
alguns mais

O cachorro sabe que logo
o homem fechará o jornal
e como toda manhã
irá providenciar sua ração

É sempre assim mas hoje não –
o tempo corre e o cão
começa a se tornar impaciente
ameaça gemer
mas o homem não se move

O jornal continua aberto em suas mãos
desliza agora um pouco para o colo
e é como se o homem
lendo uma notícia boa afinal
tivesse se concedido
dormir um pouco
reconciliar-se com o mundo
como se já não houvesse
estupros assassinatos
peste fome
suplícios danação
jovens vozes caladas por balas
porque ousaram
colocar a esperança
entre as palavras
de sua canção

Como se o mundo
fosse só um homem
cochilando no sofá
observado pela fome
agora aflita do cão.

Futebol e política, desalentos distintos

A política brasileira chega à Copa do Mundo procurando um Tite para chamar de seu. Tal qual a Seleção Brasileira, nos últimos tempos, o país passou por vergonhas e humilhações que deixaram marcas. Primeiro, a tragédia Dilma/Felipão; depois, o fundo do poço no período Temer/Dunga. A torcida se desagregou. Os dados da pesquisa Datafolha, que apontam que os eleitores preferem “ninguém” ao cardápio proposto para outubro; demonstram também desânimo com o campeonato mundial. São desdobramentos do mesmo drama.

O fato é que o sistema político tanto quanto o esquema da Confederação Brasileira de Futebol entraram quase que simultaneamente em colapso. A autoimagem do país foi afetada dentro e fora de campo. Hoje, não falta quem pretenda se mudar destas paragens; Lisboa, por exemplo, virou coqueluche dos brasileiros mais ou menos endinheirados.

No meio do caminho, acreditou-se que substituir o técnico bastava. Vieram Dunga e Temer — embora Temer prefira ser comparado a Tite, nos resultados apresentados e no sentimento reinante, na antipatia da torcida e do eleitorado, está mais identificado a Dunga.

O país ainda amarga o fundo do poço. Não bastou trocar o treinador, o sistema continuou a apresentar os mesmos defeitos, com pouquíssimas alterações que não justificariam o esforço do apelo ao tapetão do impeachment. A relação custo/benefício foi baixa, talvez negativa. Revelou-se que o buraco era muito mais fundo que a indesmentível responsabilidade do PT. O sistema está inteiramente comprometido.

***

A crise dizimou a liderança política ou ela já se liquidara com o decorrer dos anos e o prolongamento de velhas práticas? Provavelmente, os dois. Transitório ou não — somente a história o dirá —, o vazio se estabeleceu e isto se reflete no cardápio eleitoral insosso. Afeta autoimagem do brasileiro. A lembrança do mar de camisas amarelas da seleção, num cenário de patos infláveis e discursos moralistas, gera hoje certo constrangimento. .

Além disso, é necessário considerar que no mundo sem fronteiras da hiperconectividade e da alta tecnologia, nada parece mais deslocado da modernidade que um político médio nacional. Ao mesmo tempo em que nada no Brasil parece mais integrado a esse ambiente que um jogador brasileiro em atividade na Europa, não importa o país. A política ficou velha.

Não admira que tanta gente afirme não ter candidato. Analistas das estatísticas eleitorais dirão que ainda é cedo para definição. E de fato é, só bem mais adiante a maioria do eleitorado se decidirá. Ainda assim, é evidente o desconforto.

Mais que de outras vezes, a eleição será “contra”. Não a favor de fulano ou de sicrano, mas contra beltrano, entendido como mal maior. O mal maior será o fantasma contando em proso nos próximos meses. Será ele que moverá o eleitor. O problema é que esse mal mora sempre do outro lado, sendo vários lados. A eleição se transforma na luta de todos contra todos.

Levará tempo para mudar. Um país não é um time de futebol. É bem mais difícil formar elencos; quase nunca os melhores estão à disposição. Desconsideram que o desastre coletivo os afeta. Tampouco, cabe treinar um país. O jogo da política se dá de imediato, online, just time,na vida real. Ademais, na política destes dias não há craques. Não há para quem tocar a bola. Não há Garrincha nem Romário que, sozinhos, possam resolver o campeonato.

O desalento com o futebol é muito mais simples que o desalento com a política. Já na primeira vitória, quem sabe no primeiro lance de ataque, ele se dissipará. Brasileiro não resiste a um jogo bem jogado. O país não se contém, gritará “GOL”. Na política, as coisa não são assim: a crise de confiança é mais perene e a história não tem a mesma capacidade de produzir líderes que o futebol tem em produzir craques. São ídolos feitos de barro diferente.

De modo que há que se conformar: a vida não é uma partida de futebol. Neste momento, ninguém no escrete político nacional possui a categoria de Marcelo, o poder de cobertura de Miranda, o senso de colocação de Marquinhos, a segurança de Casemiro, a versatilidade de Paulino, o fôlego de Coutinho. Na política brasileira, Jesus ainda não nasceu. E nem há Jesus que dê jeito. Não há Tite, nem há Neymar. O que se tem é tudo o que se tem. O que há para hoje. Não dá para abandonar o campo, nem se esconder na arquibancada.

Carlos Melo 

Imagem do Dia

Castelo da cascata (Polônia)

Nós e o que fazemos conosco 62,5 mil vezes

Às vezes, fechamos os olhos para não ver, esquecendo que assim tudo pode ficar ainda mais nítido. A política, território civilizacional para a sociedade encaminhar suas demandas, está sendo abolida: ou a coisa acaba na polícia, que destruiu o centro moderado e insinuantemente liberal, ou a coisa acaba nos extremos. Tanto a polícia como os extremos desprezam o diálogo, o encontro de antagonismos, a conciliação do possível; nuances definitivas e reflexão se perdem. Tudo bem se a polícia e os extremos não quisessem governar, mas eles querem, já o fazem e, em outubro, receio eu, passarão a fazê-lo formal e conjuntamente. Com a ameaça de piorar tudo representada no locaute do patronato caminhoneiro, torci para que líderes ─ inexistentes, reafirmou-se, pois todos que poderiam ser chamados assim se acovardaram e, em vez de agirem como líderes formando uma opinião, acompanharam a opinião formada ─ suspendessem clivagens políticas, ideológicas e eleitorais e levassem a nação (que, no apoio àquela paralisação, pareceu com a galinha favorável à canja) a emergir de si mesma saindo da bruma que a separa da realidade para que, então, protegêssemos a fundamental recuperação dos últimos dois anos depois dos 14 que cavaram nossa cova. Não se tratava do governo, mas de nós e o que faríamos conosco: o governo acabaria em 7 meses. Nosso voluntariado para a ruína prevaleceu, os dois anos desaconteceram em 10 dias e retomamos a cavação que parece realizar nosso destino como nação.


Nesta semana, foram divulgados números da nossa matança cotidiana, o que me fez pensar em outra situação que depende de um pacto nacional, uma trégua para os brasileiros se reconhecerem como uma nação: a vida, predada no país dos 62,5 mil assassinatos anuais. Num estado pobre como Sergipe, a taxa de homicídios por 100 mil habitantes é de 64,7, informa o Mapa da Violência. A Organização Mundial da Saúde estabelece como limite entre civilização e barbárie a taxa de 10 homicídios por 100 mil habitantes. Em outro estado pobre, o Piauí, ela é de 21,8. Não é só o fato de se matar quase o triplo de um estado pobre para outro, demais dados também demonstram que a pobreza não é determinante para a violência, embora a influencie. No governo Lula, o Brasil cresceu (em 2010, alcançou 7,5% de crescimento), mas a criminalidade não regrediu; no Nordeste, região que cresceu mais na média, ela aumentou.

Tais níveis de crescimento e a alta popularidade deram a Lula as condições perfeitas para ampliar as reformas iniciadas pelo antecessor e continuar a modernização do país com reformas. Preferiu rejeitar o Brasil concreto, não quis saber do batente real de um presidente. Não depois de sonhar 30 anos consigo mesmo refestelado nos salões do poder, languidamente sedado pelo single malt, recostado com o cinto afrouxado, recitando palavrões na liturgia do que entende ser presidente. Viagens, Rose Noronha, bajulação, jatinhos exclusivos, agrados milionários de empreiteiros ─ isso é que é vidão de presidente. Ora, sempre fora vadio sem nada disso, então ia, agora com a chave do cofrão público, se aporrinhar com reforma política ou tributária? Modernização da infraestrutura? Melhora da educação, da saúde ou da segurança? Preferiu abrir os olhos para um brasil imaginário, fazer jorrar o petrolão e erigir uma fraude para sucedê-lo no sucateamento do botequim cafajeste que instalou onde havia um país. Nossa grana foi roubada, claro, mas foram a negligência e o complexo faraônico de Lula e a incompetência convicta de Dilma que impediram a implementação de políticas públicas eficazes em setores-chaves como educação, segurança, saúde e infraestrutura. O assalto ao futuro dos nossos filhos ou netos supera a rapina no cofrão.

Um exemplo dramático da falta de relação direta entre crescimento econômico e diminuição da criminalidade se ausentes ações específicas contra a bandidagem é o Rio Grande do Norte, cuja taxa de 14,9 assassinatos por 100 mil habitantes, em 2006, pulou para 53,4 em 2016. No período, nenhum estado do Nordeste conseguiu diminuir seus números macabros. Então, penso no estado de São Paulo que, comandado por Serra e Alckmin, reduziu, entre 2006 e 2016, à metade a taxa de homicídios por 100 mil habitantes: era 20,4 e chegou a 10,9. O país em luto diário deveria compreender o caso paulista; em vez disso, o que se vê é a repetição de uma mentira asquerosa ─ a explicação para redução estaria num pacto entre Alckmin e o PCC ─ e a tradução de um aspecto positivo em negativo ─ a PM paulista prende demais (juro que me escapa o que propõe quem diz uma coisa dessas). Nasci em Pernambuco (taxa de 47,3) e adoro São Paulo para onde vim ainda bebê, costumo dizer que a capital ─ “áspero colosso”, na imagem definitiva de Augusto Nunes ─ é minha cidade natal onde não nasci, mas não estou afirmando que aqui é o paraíso ou que seu exemplo deve ser replicado sem o exame de erros e acertos, apenas constato: São Paulo é o estado brasileiro onde se mata menos; se a taxa nacional fosse igual à paulista, os homicídios no país seriam pouco mais de 20 mil, não 62,5 mil. Há de haver algo bom aí.

O que importa é a vida. O debate, me parece, afastou-se disso de tal forma que o exemplo de São Paulo é renegado por clivagens eleitorais, políticas e ideológicas. Ela, a vida, está submetida a isso no Brasil ensanguentado. Menos primitivos fôssemos, fecharíamos os olhos para essas diferenças e veríamos o que estamos fazendo conosco. O sucesso de São Paulo merece um estudo e deveria inspirar figuras públicas decentes e a sociedade a deixarem de lado diferenças de qualquer tipo, numa trégua para recolhermos os abatidos no campo de batalha chamado cotidiano. As pessoas morrem quando são assassinadas e, quando morrem, elas ficam mortas: a obviedade está acontecendo 62,5 mil vezes e não parecem suficientes nem o fato de ser óbvia nem a repetição para que, neste país enlutado, vejamos o que estamos fazendo dele. Podemos ─ e devemos ─ discutir o que leva Sergipe a encabeçar a barbárie e o que faz São Paulo apresentar uma taxa civilizada. Reconhecer essa necessidade e esse direito irrenunciáveis é conciliar-se com a realidade que se impõe: estamos deixando de ser uma nação para sermos um amontoado de bandos embrutecidos com suas opiniõezinhas e raivinhas que, separados nessas diferenças detestáveis quando sobrepostas à vida, encontram-se 62,5 mil vezes no mesmo luto.

Liberdade para o privilégio

O STF vem construindo verdadeira jurisprudência das liberdades
Ministro Celso de Mello contra a condução coercitiva considerada "inconstitucional" e constitucional nos Estados Unidos, França, Alemanha, Bélgica, Portugal, Espanha, Holanda e Inglaterra

Se a moda pega...

Os onze ministros do STF contrataram um espaço especial no aeroporto de Brasília. Pela bagatela de R$ 374 mil anuais livraram-se dos “desconfortos” da sala VIP que já utilizavam e transformaram seus voos num prolongamento das mordomias habituais em que tudo é privativo, do elevador ao “capinha” (aquele funcionário que puxa e empurra a cadeira quando sentam).

A nova sala vem acompanhada de outras regalias, como o procedimento de embarque exclusivo, uma van que transporta o ministro até a aeronave e uma escada lateral pela qual ascendem à cabine de passageiros. Todo o pacote minimiza o contato de suas excelências com o povo a quem dizem servir na “distribuição” da Justiça.

Com isso, e à nossa custa, evitam que algum passageiro malcriado lhes dirija palavras desagradáveis, como eventualmente acontece. Palavras desagradáveis também são privativas no topo do Poder Judiciário. Só ministros podem proferir desaforos a ministros. E normalmente com razão.

A assessoria do Tribunal, segundo matéria do Estadão, informa que se trata de conduta de segurança. O dito soa estranho porque a regalia se refere apenas ao aeroporto de Brasília. Se for, mesmo, procedimento de segurança, presume-se que algo assim deva se reproduzir nas capitais do país, especialmente nos destinos frequentes dos senhores ministros.

Sublinhe-se, em favor da população e de sua opinião sobre o colegiado do STF, que todo o descontentamento que, por vezes, se expressa em indignação, é motivado pelos bons favores e pela tolerância da Corte para com a prazerosa impunidade dos corruptos. A situação se tornou, mesmo, intolerável.

Se esses procedimentos típicos de recepção de motel pegarem, logo haverá salas especiais para deputados, para senadores, para ministros do TCU, para ministros de Estado. Ou - quem sabe? – surgirá uma nova capital federal, em área mais remota do sertão, onde não haja povo para encher o saco.

Percival Puggina

quinta-feira, 14 de junho de 2018


O eterno Galvão

Quando a Seleção entrar em campo para a sua primeira partida no Mundial da Rússia, neste domingo, um homem estará lá mais uma vez: Galvão Bueno. Como acontece em toda Copa do Mundo – há 35 anos!

Com timbre sonoro de voz, ele vai narrar a partida e gritar "Olha o gol” de vez em quando. Ele vai celebrar o seu queridinho, Neymar, o garoto-propaganda mais caro do Brasil. Mas Galvão não vai contribuir essencialmente para a compreensão do jogo.

Após o apito final, o jornalista de 67 anos ficará de pé na cabine de imprensa da TV Globo, acompanhado por dois comentaristas e um ex-jogador. Como sempre, será um evento tenso protagonizado por senhores idosos de terno, gravata e poses idênticas e cujas análises não vão muito além de "o jogo foi bom ou ruim". Dezenas de vezes, repete-se o que o público já viu. A falta de conteúdo é dissimulada com piadinhas e frases melodramáticas como "Tite nos resgatou o orgulho de ser brasileiro".

A estética da emissão lembra o fim dos anos 1980, início dos anos 1990. Como esse, de qualquer maneira, muitos programas da televisão brasileira parecem como se o mundo tivesse parado há 30 anos. O melhor exemplo ao lado de Galvão é o sexista Domingão do Faustão.

Por isso, entendo que muitos brasileiros estejam fartos desse tipo de cobertura. Querem um refresco. Um rosto novo, uma voz nova. Um (ou uma) repórter que saiba ler uma partida de futebol, que seja original e crítico/a.

Mas a esperança é inútil. Galvão Bueno é o resultado de uma concentração extrema de meios de comunicação, além de um Brasil refratário a tudo o que é novo e progressivo. É que Galvão ainda narra futebol por só uma única razão: ele não precisa temer a concorrência. Até perder um gol da Seleção não tem consequências para ele. Ele está lá porque sempre esteve.

Essa monopolização de discurso pode ser encontrada com frequência nos meios de comunicação brasileiros. São sempre as mesmas figuras conservadoras que querem explicar o mundo ao público, seja na televisão, no rádio ou nos jornais: Carlos Alberto Sardenberg, Merval Pereira, Miriam Leitão, Ricardo Boechat, Reinaldo Azevedo, Ricardo Noblat. Vozes jovens têm pouca chance. Se não houvesse a internet, deveria-se falar de uma oligarquia da informação.

A concentração de poder nas mãos de poucos também é característica da política brasileira, onde, há décadas, os mesmos senhores se refestelam nos mais diferentes postos. Alguns políticos aproveitam para abrigar a família inteira na profissão, clãs familiares e círculos de amigos dominam Estados inteiros. E, naturalmente, fazem de tudo para manter o poder. Por isso, é claro que novatos ficam desencorajados ou têm dificuldade extrema de conquistar espaço.

Quando uma figura independente consegue a proeza de conquistar uma posição de destaque na política, pode acabar como Marielle Franco, assassinada há exatos três meses e cuja morte ainda não foi esclarecida. O prognóstico não é exagerado. Dois exemplos: a jovem vereadora Talíria Petrone (Psol), de Niterói, já foi alvo de ameaças de morte: "Merece uma 9 mm na nuca."

E, na Rocinha, recentemente um policial de UPP falou em plena rua para uma amiga minha de 24 anos que luta pelos direitos de jovens negros na área: "Você é gostosa demais pra virar outra Marielle".

São exemplos extremos, mas ilustram como é impedido o progresso no Brasil. Enquanto outras sociedades promovem jovens talentos, os já privilegiados desse país se agarram a seus postos até caírem. Políticos e muitos jornalistas consagrados se acham insubstituíveis e atuam como se fossem semideuses. Por não terem concorrência, assentaram na mediocridade e ficam se repetindo dia após dia. Ideias novas e originais? Que nada.

Assim, os brasileiros terão que suportar o eterno Galvão Bueno durante mais essa Copa. É o preço que o país paga por sua meritocracia – que não estimula novos talentos nem contribui para a diversidade. Ao contrário, apenas protege um establishment que mantém o Brasil preso no seu próprio passado.

Philipp Lichterbeck

Não culpe o eleitor

Aquilo que institutos de pesquisa chamam de indecisão é na verdade resultado da ausência de elementos objetivos para o eleitor fazer a sua escolha. A ele ainda não foram oferecidas as condições para apontar em quem vai votar para presidente. Os partidos não apresentaram programas, e os pré-candidatos tampouco tiveram chance de mostrar o que pretendem fazer. Até agora, tudo de que o eleitor dispõe são biografias, discursos e entrevistas recortados por aí. Não são suficientes. O eleitor só decidirá depois de reunidos os dados necessários.

O que se pode dizer a esta altura é que a história do Brasil prova que o eleitor é muito mais cuidadoso e racional quando vota em candidato a cargo executivo. Quando decide quem vai cuidar da sua rua, da sua cidade, do seu estado ou do país, ele tende a ser mais racional e caprichoso no seu voto. Desde Collor, talvez com essa única exceção que confirma a regra, os presidentes eleitos do Brasil foram melhores do que os seus Congressos.

Não há dúvida de que Fernando Henrique Cardoso era melhor que os deputados e senadores que ocuparam as cadeiras do Congresso durante seus dois mandatos. Pode-se afirmar a mesma coisa de Lula e até de Dilma, apesar de o primeiro estar preso por corrupção e lavagem de dinheiro e a segunda ter sido afastada do cargo por crime na execução do orçamento, as famosas pedaladas fiscais.


Mas você pode dizer que esta regra para valer precisa ser comprovada nos estados e nos municípios. Se você prestar atenção, verá que ela se comprova. Mesmo no Rio. Alguém discorda de que Cabral, antes de começar a meter a mão no cofre público, era melhor que a Assembleia Legislativa, a famosa Alerj? Acho que não.

Embora cada eleição seja uma nova corrida, o que o eleitor quer em todas é ver os seus problemas resolvidos ou pelo menos encaminhados. O eleitor brasileiro sabe que a eleição presidencial de outubro é a mais importante do país desde a redemocratização. Sabe que o que está em jogo é o futuro do país, da coletividade, o seu próprio futuro. O eleitor é pragmático. Não é por outra razão que muitos deixam para decidir apenas na última hora.

Entre os pré-candidatos a presidente já lançados, há os que atendem às demandas do eleitor e outros que jamais as alcançarão. Aquele que promete colocar bandido na cadeia e acabar com a corrupção na porrada não cola. O eleitor sabe que quem prende bandido e corrupto é juiz, não presidente. Ele reconhece, de longe, quem está mentindo, quem está enrolando, quem está jogando para a plateia. E sabe também até onde um candidato pode ir. Poucos ainda caem em promessas mirabolantes.

As pesquisas feitas hoje, mesmo as sérias, não servem de balizamento para se dizer como votará o eleitor. Apesar de as necessidades do eleitor serem bastante conhecidas, para atendê-las, não basta prometer e jurar. Tem que explicar como vai fazer, quanto vai custar, de onde vai tirar o dinheiro e quem vai pagar a conta. O custo da greve dos caminhoneiros foi muito educativo neste aspecto.

Na hora de votar, o brasileiro precisa que os candidatos a presidente mostrem o que farão com a economia para que o país volte a crescer e gerar empregos; como pretendem resolver o problema da Previdência; como vão controlar os gastos públicos e onde vão fazer cortes; de que maneira tratarão os impostos altíssimos que paga; e que respostas terão para a segurança, a saúde e a educação.

O eleitor, portanto, não é o problema. Atender às suas demandas é objetivo e obrigação de quem entra na vida pública. Sobretudo dos que querem presidir o país. São muitos os candidatos, o Brasil é uma fábrica de fazer partidos e candidatos. Mas são poucas as opções do eleitor. Variando entre a esquerda e a direita, há no máximo três ou quatro alternativas de orientação política disponíveis.

A lista de candidatos é desanimadora. Nas águas turvas da extrema-direita está o PSL (Bolsonaro). No Centro, PSDB (Alckmin), Podemos (Alvaro Dias) e PMDB (Meirelles). No Centro há variações para a esquerda ou para a direita. O PT (o poste de Lula) é centro-esquerda, assim como o PDT (Ciro) e a Rede (Marina). E há inúmeros nanicos na centro-direita. À esquerda estão os pequenos de sempre, PCdoB (Manuela) e PSOL (Boulos). Além dos partidos novos, que ainda terão de mostrar a que vieram, há os irrelevantes de sempre. O novo presidente do Brasil sairá dessa lista, é pegar ou largar.
Ascânio Seleme

Um trago de palavras sobre a bebida

Elizeth Cardoso e Elza Soares tornaram célebres os versos compostos por João do Violão: “Eu bebo, sim, estou vivendo,/tem gente que não bebe,/ está morrendo”.

Mas surge terrível erro de lógica nos próximos versos: “Tem gente que já tá com o pé na cova/ Não bebeu e isso prova/ Que e bebida não faz mal”. É insensata a relação entre morrer e se abster de bebida.

Todos morrem, os que bebem e os que não bebem. O excesso de bebida ─ alcoólica, naturalmente ─ resulta numa doença terrível, a cirrose, palavra vinda do francês cirrhose, vocábulo criado em 1805 pelo médico francês René Laënnec (1781-1826), a partir dos compostos gregos kirro, amarelo, e o sufixo ose, provavelmente radicado também no grego nose, doença. O doutor, comparando um fígado sadio com o de um alcoólatra, registrou a cor amarela das granulações no do bebum.

O famoso humorista gaúcho Aparício Torelly, que adotou o título nobiliárquico de Barão de Itararé, para fazer blague em cima de uma batalha que não houve, na localidade que lhe inspirou o baronato, descobriu o inverso, sem fazer pesquisa nenhuma: ‘o fígado faz muito mal à bebida’.


Não usamos em Português o verbo equivalente ao Latim potare. Dizemos da água boa para beber que é potável, do Latim potare, beber, suplantado pelo Latim bibere, que deu beber em português.

Outra palavra abandonada foi equus, que cedeu a caballus, cavalo. Mas o radical permaneceu em equitação, o exercício, a técnica ou a arte de andar a cavalo. E, claro, transformou-se num esporte em que homem e animal devem ter entendimento que raia a perfeição.

Paradoxalmente, cavalo veio a designar o bruto, a pessoa sem modos, rude. Uma injustiça ao animal, o que, aliás, ocorre também com o burro, invocado para ofender o estúpido, o que não tem inteligência. Ah, se os ofendidos tivessem ao menos um pouco da sabedoria do burro!

O escritor João Guimarães Rosa deixou patente sua admiração por bois, cavalos e burros, especialmente pelo pequeno animal que ele celebrizou no conto O burrinho pedrês. Na história, ameaçado de morte, um bêbado chamado Badu, montado no animal, chega são e salvo ao outro lado de um rio cheio. Oito vaqueiros morrem, mas Francolim também é salvo de modo insólito: agarra-se ao rabo de Sete-de-Ouros, o burrinho pedrês.

Também a palavra morte, radicada no latim em mors, prevaleceu sobre letum, que predominava no latim clássico para indicar o falecimento. No português, letum permaneceu na raiz de palavras como letal, letífico, letífero.

E falecer veio a consolidar-se como sinônimo de morrer, quando originalmente indicava faltar e também enganar, do latim fallescere. Está ainda hoje presente em expressões como ‘se algum dia eu vier a faltar’, em que ‘faltar’ é eufemismo para morrer.

Já defunto, outra designação para morto, veio do latim defunctus, cujo significado é pronto. Também é um eufemismo. Foi criado pela Igreja, sempre cerimoniosa com os atos decisivos de nossa existência ─ nascimento, casamento, morte etc. Defunctus formou-se a partir de defungi, cumprir, acabar, terminar.

Ager, o campo cultivado, cujo genitivo é agris, está embutido em agrário, agrimensor, agricultura. Está na ordem do dia ─ aliás, há mais de quatro séculos ─ a ‘reforma agrária’ que, como as palavras indicam, consiste em reformar, isto é, corrigir, retificar a posse agrária, a propriedade da terra.

Como se vê, faz séculos que as palavras viajam e fazem mudanças de significado. A balzaquiana tinha apenas 30 anos no século 19! Atualmente, com a mesma idade das célebres personagens de Balzac, a mulher é mocinha ainda.

A balzaquiana de hoje tem pelo menos 50 anos. Talvez o mundo beba mais hoje do que no tempo de Balzac, mas uma coisa é certa: nenhum dos grandes facínoras da Humanidade estava bêbado quando deflagrou malefícios duradouros, que resultaram em abomináveis genocídios.

Estavam todos sóbrios e sabiam muito bem o que faziam.

Deonísio da Silva 

Brasil de hoje


Não é a corrupção

A ampla maioria da população brasileira apoiou a greve dos caminhoneiros. Ainda apoia. Pesquisas mostram isso, assim como a minha própria observação como apresentador do programa CBN Brasil. As manifestações dos ouvintes por e-mail e whatsapp indicaram clara tendência: os caminhoneiros tinham o direito de fazer o que fizeram.

Há razões para estranhar: como as pessoas podem endossar um movimento que lhes causou tantos prejuízos? Será que não se importam em ficar sem gasolina ou pagar o dobro pelo quilo de batata?

Não é simples assim. As pessoas ficaram de bronca, reclamaram intensamente da falta e do preço das coisas, mas, esse é o ponto, achavam que não era culpa dos caminhoneiros. De quem, então? Fácil: do governo, dos políticos em geral e dos corruptos em particular.

Tanto é assim que as pessoas não gostaram nada das soluções propostas pelo governo Temer, especialmente o subsídio incluído no preço do diesel. Muitos entenderam que se tratava de dinheiro público, que vinha da arrecadação dos impostos pagos por todos, mas achavam que o governo não devia fazer isso.

Resumindo: por culpa do governo, os caminhoneiros, assim como a maior parte da população, passavam por momentos de dificuldade. A paralisação, portanto, era uma arma legítima. Do mesmo modo, os sacrifícios impostos às pessoas eram consequência da incapacidade do governo em resolver a situação. Logo, querer aumentar imposto para pagar a conta dos caminhoneiros não fazia o menor sentido.

Mas se não há subsídio grátis, como pagar?

Fácil, respondiam nossos ouvintes: cortando salários e outras vantagens de políticos e, sobretudo, cobrando o dinheiro da corrupção.

Mudemos de assunto, para a previdência. Pesquisa nacional do instituto Ipsos, patrocinada pela Federação Nacional de Previdência Privada e Vida, Fenaprevi, mostrou que a metade dos entrevistados (51%) entende que nosso regime de aposentadoria é sustentável. Apenas 28% acham que modelo exige reforma e 21% não têm opinião.

Por outro lado, também uma metade dos brasileiros (49%) acha que o assunto deve ser tratado pelo próximo presidente. E uma maioria de 43% afirma que será necessário fazer uma reforma no futuro, contra 38% para os quais o modelo não requer mudanças nem hoje nem mais à frente.

Com reforma ou sem reforma, a maioria espera se aposentar antes dos 65 anos e afirma que será totalmente dependente do sistema público. A maioria não sabe qual será o valor do benefício, mas desconfia que não será suficiente. Nada menos que 60% acham necessária uma previdência complementar.

Não que a façam – 63% dizem que não fazem investimentos para o futuro.

Resumindo: o sistema é sustentável, a aposentadoria está garantida, mas não será suficiente para uma vida confortável. Seria bom ter uma previdência complementar, se houvesse dinheiro para poupar.

E se houver algum desequilíbrio nas contas da previdência pública? Quem paga? As próprias pessoas, trabalhando mais e se aposentando mais tarde? A resposta é não. Aumentar o valor da contribuição? Negativo. Diminuir o valor da aposentadoria? Também não.

Então não tem problema algum?

Tem – e o leitor já adivinhou: a corrupção. Nada menos dos que 75% dos entrevistados pela Fenaprevi acham que o maior problema do sistema é a roubalheira e o desvio de verbas. E, de novo, cobrem a conta dos políticos.

Olhando os fatos, sem ideologias, é evidente que há um enorme problema na previdência, tanto a do INSS quanto na dos servidores públicos. Aliás, dois desequilíbrios. Primeiro, o dinheiro arrecadado com as contribuições não é suficiente para pagar as aposentadorias. Há um déficit crescente, em ritmo vertiginoso. Segundo, o gasto previdenciário total alcança 13% do PIB, nível de países ricos e velhos.

Voltando aos caminhoneiros, está claro que as suas reivindicações, sem exceção, pediam subsídios, dinheiro público e preços favoráveis tabelados. Ou seja, estavam mandando a conta para algum outro lado da sociedade. Por isso mesmo, não está dando certo.

Tudo considerado, a situação do país é ainda mais complicada do que se sabia. Não apenas há uma crise nas contas públicas e numa economia travada por mecanismos errados. Há um déficit de percepção. Há muita corrupção no Brasil, os políticos estão fazendo de tudo para serem desprezados, mas não se vai pagar as contas simplesmente botando todos para fora , ou melhor, na cadeia.

Vai daí que ou elegemos um presidente que consiga convencer a população sobre a necessidade de reformas – e diga claramente quais reformas, com o fizeram Macri e Macron – ou não haverá políticos suficientes para culpar e prender.

Quando a Viena da valsa sambou

Viena foi centro da mitologia moderna. É preciso lembrar que Sigmund Freud, o inventor de uma nova concepção humana ali floresceu? Ou basta falar da valsa que pela primeira vez permitiu que homens e mulheres pudessem dançar se abraçando frontalmente, olho no olho, num ritmo que um observador da época chamava preconceituosamente de “africano” — hipnótico, sensual e embriagador. A valsa fabricou Viena tal como o samba inventou um Brasil. Esse mesmo Brasil que roubou o futebol dos seus “colonizadores” ingleses e, no domingo que passou, deu o baile no time austríaco em plena Viena, mais uma vez desbancando as teses de uma velha teoria colonialista. Essa sim, tão vira-lata quanto os seus inventores. Foi quando a Viena da valsa sambou.
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René Descartes inventou o “penso, logo existo”. Freud desmantelou o axioma, afirmando o oposto: quanto mais penso, menos existo; quanto mais controlo minha consciência reprimindo o profundamente desejado, mais faço o indesejado. Quem nos controla é (também) e sobretudo o (in) consciente. A ele pertence esse Brasil oculto que o futebol revela em toda a sua plenitude, talento e orgulhosa honestidade. Tudo o que vergonhosamente tem estado ausente de um mundo público dominado por administradores desonestos — “políticos” que nos levam ao jogo interminável da derrota. Justamente os que afirmam ser o futebol (e não o populismo autoritário e mendaz) o ópio do povo...
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Freud não inventou o reino do esporte e do futebol. Mas asseguro que o esporte é um mecanismo mais do que adequado para viver as agruras do mundo. Nele, perdemos honradamente e vencemos sem arrogância. Pela mesma pauta, podemos pensar em todos os condicionais sem sermos filósofos. Para mim, não há melhor educador do “princípio de realidade” do que o futebol que nos ensina com a frustração, com a compulsão, com as doenças e com a derrota.
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Por que o mundo não é como queremos? Ora, diz a cartomante, porque temos a capacidade de pensar alternativas. Quem pensa em ganhar, pensa em perder, embora a consciência, como o coração, possa ter razões que, como ensinou Pascal, ele não conheça. O desejo do triunfo ocorre com o jogo. Ele é oposto à sociabilidade brasileira corrente do “mais ou menos”. No esporte e na Copa, há o tudo ou nada.

Deus pode ser ou não ser brasileiro...
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Ao refletir sobre o futebol, assinalei essa ausência do “mais ou menos” que exige um novo horizonte na vitória ou derrota. Como o melhor professor de democracia do Brasil, o futebol obriga ao desempenho — a resultados. E, pior que isso, ele tem como premissa uma igualdade absoluta. No futebol — ao contrário da política — sabemos de tudo, menos do resultado. Ademais nele não cabem os triunfos eternos. No Brasil, os ladrões e os ricos jamais perdem; no futebol, os marginalizados viram, por conta exclusiva do seu talento, reis e milionários.

O interesse pelo futebol corre em paralelo à busca pela igualdade como um valor num sistema profundamente desigual. É isso que proporciona a experiência de igualdade, de mobilidade, de vitória e, hoje em dia, de transparência junto do resgate de uma honra coletiva aviltada e perversamente roubada por quem tinha como dever preservá-la.

O populismo e o messianismo negam a esfera do esporte que harmoniza carisma, patrimonialismo e um conjunto de regras que valem para todos, coagindo dirigentes, jogadores, árbitros, comentaristas e torcedores.
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Um mesmo conjunto de regras produz resultado diversos. Ocorrendo em tempos e espaços demarcados, o esporte abre uma trégua entre países e pessoas ricas ou pobres, fracas ou poderosas; ao mesmo tempo em que concilia o jogador excepcional com o seu time. Há um confronto consciente de uma equipe contra outra; mas há também o confronto inconsciente de ambas as equipes com as circunstâncias que elas criam durante a partida.

E assim vai o futebol criando eventos que se transformam em estruturas e estruturas que engendram eventos e ciclos cuja determinação é impossível fora do generoso eixo do “destino”, e do dualismo “sorte/azar”. De qualquer forma, prefiro mil vezes os gastos com uma Copa e uma Olimpíada do que com uma guerra ou roubalheira política como tem sido o caso do Brasil.
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Quebramos a invencibilidade dos austríacos que ganharam da Alemanha. Ambos falantes de uma língua que muitos acham difícil. Tão complicada que só os mais inteligentes a aprendiam. Vejam até onde ia a nossa autodepreciação e, pior que isso, a nossa burrice.
Roberto DaMatta 

Paisagem brasileira

Camocim (CE)

Por que o Brasil ainda não conseguiu erradicar o trabalho infantil

Lugar de criança é na escola. Infelizmente, tal frase ainda precisa ser repetida com frequência no Brasil. A cultura popular, sobretudo nas áreas rurais, de que certos tipos de trabalho ajudam na formação das crianças é um dos fatores que contribuem para que o país ainda esteja longe de erradicar o trabalho infantil. Mas definitivamente não é o único.

A ele se somam fatores socieconômicos e a falta de uma legislação específica que penalize criminalmente empresários que empregam crianças. A Constituição brasileira permite o trabalho, em geral, a partir dos 16 anos de idade, e a partir dos 14 anos somente na condição de aprendiz.

O levantamento mais recente sobre o tema é a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) Contínua de 2016, segundo a qual o país tem cerca de 1 milhão de crianças de cinco a 15 anos de idade em situação de trabalho infantil, não permitida pela legislação. Na Pnad anterior, de 2015, o número era de 2,4 milhões.


Para o Ministério Público do Trabalho (MPT), a aparente queda milagrosa do número de crianças afetadas, no intervalo de um ano, foi resultado de uma mudança na metodologia de pesquisa. A Pnad passou a desconsiderar produção familiar como trabalho, entre outras alterações.

Além disso, especialistas apontam que apenas levantamentos mais abrangentes, como o Censo, podem dar um panorama preciso da situação do trabalho infantil no Brasil. No último, de 2010, pesquisadores apontaram que mais de 3,4 milhões de crianças e jovens de dez a 17 anos de idade trabalhavam no país.

"No Brasil ainda persiste uma mentalidade de que é melhor uma criança trabalhando do que roubando. É errado, criança precisa ser protegida e ter seu papel respeitado. Criança não pode trabalhar para a sua subsistência, isso o Estado precisa garantir", afirma Patrícia Mello Sanfelice, procuradora do Trabalho e coordenadora Nacional do Programa da Infância e Juventude do MPT.

A procuradora reforça que há uma subnotificação de casos de trabalho infantil no Brasil, ou seja, muitos hesitam em denunciar. "Há uma cultura de aceitação. Você não vê uma criança no sinal ou na praia e pensa em ligar para denunciar", diz.

Sanfelice vê um retrocesso nos avanços conquistados desde a década de 1990 no país, quando surgiram as primeiras leis que protegem a criança e o adolescente.

Pesquisas reforçam o cenário pouco animador. De acordo com os observatórios do Trabalho Escravo e Digital de Saúde e Segurança do Trabalho, de 2003 a 2017, foram resgatadas 897 crianças e adolescentes em situação análoga à escravidão. Entre 2012 e 2017, 15.675 menores de 18 anos foram vítimas de acidentes de trabalho.

Neste ano, as 24 procuradorias Regionais do Trabalho ajuizaram 83 ações sobre trabalho infantil no país. Se continuar nesse ritmo, o MPT vai terminar o ano com mais de 160 processos, número maior que os 137 registrados em 2017. O resultado também representaria o primeiro aumento no histórico de ações trabalhistas sobre o assunto envolvendo desde 2014, o que, segundo Sanfelice, é algo negativo.

Desde que assumiu o cargo, em meados de 2016, o presidente Michel Temer fez pelo menos dois grandes cortes no principal programa social do governo, o Bolsa Família, retirando quase 1 milhão de famílias da lista de beneficiados. Segundo especialistas, programas como esse fazem com que menos famílias tenham que recorrer ao trabalho infantil.

"Os casos de trabalho puramente por sobrevivência diminuíram nos últimos anos, principalmente por causa da atuação de programas sociais como o Bolsa Família", reconhece Mariana Neris, diretora do Departamento de Proteção Social Especial da Secretaria Nacional de Assistência Social do Ministério do Desenvolvimento Social.

Ela reitera, no entanto, que o principal vilão do combate ao problema é a cultura popular de que criança deve trabalhar. "Informação e mobilização estão entre nosso principais eixos de atuação, justamente para acabar com esse conceito de que a criança deve trabalhar. Isso concorre com atividades que deveriam ser próprias da crianças, como educação e lazer", diz.

Ao contrário de Sanfelice, Neris aponta avanços no combate ao trabalho infantil no país nas últimas décadas. "Há uma evolução das ações contra o trabalho infantil no Brasil há pelo menos 20 anos. "Desde 1996, mais de 4 milhões de crianças foram retiradas da situação de trabalho infantil no Brasil", afirma.

"Isso é [o resultado de] um esforço de várias instituições e Poderes. A meta ambiciosa que foi acordada com diversos setores é de erradicação do trabalho infantil até 2025."

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Desinteresse fatal

Ouvi a vida inteira uma frase sobre a política no Brasil, especialmente em época de Copa do Mundo: “Se as pessoas se interessassem menos por futebol, as coisas seriam diferentes”. Pois bem, pela primeira vez desde que existem pesquisas de opinião a maioria da população no Brasil diz que nem sequer se interessa pelo maior evento esportivo do planeta. Parece razoável supor que as coisas tenham mudado na política brasileira. Em qual direção?

Sou da geração que entrou na universidade em 1971 e que viveu uma situação quase esquizofrênica: como torcer para um time tão maravilhoso como o de 1970 se a paixão pelo futebol era vista por nós, estudantes engajados em política, como um alicerce do regime militar? Tínhamos a ideia, por sinal tão arraigada sobretudo nos países comunistas, que a paixão pelo esporte cria identificação com o regime político (a ponto de lhe conferir legitimidade). Portanto, vitórias ou derrotas influenciariam diretamente disputas políticas. Como eleições, por exemplo.

Demorou para os comunistas entenderem que medalhas olímpicas (só a Hungria comunista chegou perto de conquistar um mundial de futebol da Fifa – alguns dizem que foi a derrota na final de 1954 que impulsionou a revolução de 1956, mas não há provas...) não salvariam seus regimes. Assim como demorou para nós entendermos aqui no Brasil que o fato do nosso time levantar o caneco não garante ou não condena candidato algum. FHC e Lula que o digam. Então, como é que o futebol mexe com a política?

Os economistas mencionam frequentemente o “feel good factor”, segundo o qual a percepção por parte de consumidores da situação econômica ao seu redor, mais irracional do que qualquer outra coisa, condiciona de alguma maneira comportamentos políticos. Ganhar uma Copa faz esquecer desemprego, por exemplo? Ou inflação? Acredito que não. Acho que não é tanto a vitória ou derrota nos jogos em si que nos diz alguma coisa sobre o “clima” político mas, sim, a forma como nossa sociedade evoluiu na dedicação a esse jogo.

Neste sentido, é possível detectar grosso modo uma transformação que mantém paralelos com o que está acontecendo na política. Torcer pela seleção em época de Mundial era um acontecimento compartilhado. Havia uma espécie de solidariedade em pintar as calçadas, as caras, decorar as janelas – um “fervor” que correspondia (embora totalmente fútil, admito) a um tipo de “esperança”.

Onde vejo hoje uma correlação entre futebol e a situação política é na ausência de “heróis” (no caso do PT, o “herói” Lula tem mais a ver com a veneração com que seitas tratam seus guias). Depois de muitos anos na reportagem reluto em acolher teses de causa/efeito mecânicas, por isso não consigo afirmar que o desânimo com a política explica em parte o desinteresse pelo futebol (onde antes era tão vibrante) e vice versa. Mas não consigo ignorar que um é o espelho do outro.

Acho até mais fácil explicar o desinteresse pelo Mundial, que tem a ver com a própria forma como mudaram os hábitos de consumo de entretenimento, entre eles o esporte. Tecnologias digitais, disruptivas na sua essência, espalharam o espetáculo futebol, que continua presente, mas agora também on demand. No caso da política, é o próprio “espetáculo” que passou a ser visto como um jogo sujo no qual as pessoas nada tem a dizer, dominado por elementos (partidos e políticos) corruptos e distantes.

A diferença são as consequências. O desinteresse pelo mundial traz só nostalgia. Desinteresse pela política é fatal.

A crise atual se deve não à política, mas aos que se apropriaram dela

Naquela tarde, no início da greve dos caminhoneiros, ao deixar a recepção de moderno laboratório de análises clínicas, vieram-me à mente os dois Brasis nos quais vivemos – um equiparável ao Primeiro Mundo, responsável pela moderna tecnologia usada pelo laboratório; e o outro, que ocupa a maior parte de nosso território, mas não se enquadra no Terceiro Mundo. E concluí: a crise atual, pela qual passam milhões de brasileiros, tem explicação. Ela se deve não à indispensável política, mas aos maus políticos, que são os únicos responsáveis pela má gestão.

Deixei o laboratório a pé. Minha intenção era, pouco adiante, lá no alto da avenida Afonso Pena, próximo à praça da Bandeira, quase aos pés da serra do Curral, que nos contempla em instigante silêncio, estacionar meu carro ao lado do posto de gasolina que se localiza a dois quarteirões de minha casa. O frentista não me forneceu informação sobre a chegada de combustível naquele dia: “O caminhão – disse ele – pode chegar hoje à noite, até as 24h, amanhã ou qualquer outro dia. Vou dormir aqui, mas não lhe posso garantir nada”.

Embora ainda inseguro, retirei meu carro da garagem e me dirigi ao local mencionado, que antes estava completamente vazio. A operação durou 15 minutos, se tanto. Só que, quando lá cheguei, encontrei, e com idêntico objetivo, 12 ou mais veículos já estacionados. Estávamos realmente dispostos a enfrentar a noite e a madrugada. Nenhuma fila, por maior que viesse a se formar, nos faria voltar atrás.


Na enorme fila que logo se formou, comecei a refletir sobre meu país. Aqui vivi minha infância, minha juventude e aqui espero concluir em paz a maturidade. Chega – disse em voz alta só para mim – de corrupção! Nesse instante, ouvi alguém dizendo que não haveria gasolina naquele dia. Liguei o carro e fui para minha casa com medo.

Tenho medo, leitor, do que vem pela frente. A greve dos caminhoneiros foi apenas um aperitivo. A esperança que se acendeu na eleição indireta de Tancredo Neves e, depois, na promulgação da Constituição de 1988, mas, sobretudo, com os primeiros mandatos de Fernando Henrique e Lula, parece ter chegado ao fim. O povo está saturado das roubalheiras e da incompetência de seus representantes. Chega de mentiras! Mas não somos nós, afinal, que os elegemos e os colocamos na Presidência da República, no Congresso Nacional, nos governos estaduais, nas Assembleias legislativas, nas prefeituras, nas Câmaras de vereadores? Político não nasce em árvore.

Os veículos de comunicação (refiro-me aos jornais e às emissoras de rádio e televisão), em seus noticiários, nos passam a ideia, com realismo, do que poderá acontecer ao país se não fizermos reformas urgentes e profundas. As redes sociais estão inundadas de notícias, umas verdadeiras, outras falsas, mas, curiosamente, repletas de “gozações” sobre a desgraça do povo. Só nós fazemos piada com nossa própria desgraça. Ou isso é só despiste diante do que poderá acontecer?

Não nos iludamos, leitor: a crise não terminou. Os candidatos a presidente da República têm que pensar no país, não em seus egos. Têm que pensar em 210 milhões de brasileiros! A ausência de bons políticos e de boas ideias agrava a crise. A democracia está sob ameaça, e o atual governo, desmoralizado, não tem condições de acionar seus instrumentos de autodefesa. O remédio contra isso só virá com mais democracia e mais liberdade. A arma, leitor, para conquistá-lo, está no voto responsável de cada um de nós no próximo dia 7 de outubro.