Um povo já não acredita nas promessas dos governantes, porque perdeu a vontade fanática que o levava a acreditar e a tecer razões para issoAgustina Bessa-Luís
segunda-feira, 12 de março de 2018
Promessa não mata fome
Aos infiéis, os milhões
Começou na quinta-feira e vai até 7 de abril o leilão eleitoral que deve arrematar mais de 50 dos 513 deputados federais e uma centena dos 1.024 estaduais do país. Ainda que amparado por lei, aprovada pelos próprios beneficiários no ano passado, o troca-troca é um dos absurdos do sistema brasileiro. Um desrespeito desmedido ao eleitor.
E não é o único: somam-se a ele os fundos públicos (o eleitoral, de R$ 1,7 bilhão, e o partidário, de R$ 888 milhões), o privilégio para os ricos, que poderão empenhar suas fortunas pessoais na campanha, o conto da carochinha de que o caixa 2 foi excluído com o advento do financiamento do Tesouro. E ainda a permissão para coligações de conveniência ou os olhos vesgos para os palanques antecipados – sabe-se lá custeados por quem -, visíveis a olho nu e sem qualquer punição.
A janela da infidelidade, que há dois anos mexeu com a filiação de 90 deputados federais, é um escândalo. Contraria o princípio da proporcionalidade, critério pelo qual, goste-se ou não, os parlamentares são eleitos. Por ele, candidatos com poucos votos chegam ao Olimpo puxados por campeões, e votos conferidos só à legenda contam para aumentar a bancada do partido.
A família e apoiadores do deputado-candidato Jair Bolsonaro inauguraram a janela 2018, levando sete parlamentares para o minúsculo PSL, que pulou de três para 11 deputados e imagina fechar a vidraça com pelo menos 20. O DEM elegeu 31 federais em 2014, tem 33, e sonha entrar abril com 45. O PR quer pular dos atuais 37 para 42, e o PP, hoje com 45, sete a mais do que elegeu há quatro anos, imagina chegar a 60 deputados.
As perdas devem sobrar para o PT e o PSDB, que de 2014 para cá já viram suas bancadas serem reduzidas de 68 para 58 e de 54 para 46, respectivamente.
A pulação de galho em galho sempre foi uma excrecência, mas hoje a barganha é ainda mais desavergonhada.
Até 2014, a corrida atrás dos deputados de outras siglas se dava, basicamente, para ampliar segundos no horário de propaganda eletrônica dito gratuito. Não raro – e nada garante que não irá se repetir – utilizavam-se também coligações com partidos de aluguel para satisfazer a mesma cobiça.
Agora, além do rádio e TV, o argumento é dinheiro vivo de fundos pagos por todos os brasileiros – R$ 1,5 milhão ofertam o PT, MDB e PSDB, R$ 1,8 milhão a R$ 2 milhões cobre o PTB, R$ 2,5 milhões grita o DEM.
Lances feitos e administrados diretamente pelos donos dos partidos.
Em pleno século XXI, o Brasil caminha firme e forte para institucionalizar o coronelismo. Só terá dinheiro na campanha eleitoral quem o chefe mandar. Ou os ricos e muito ricos, o que no es lo mismo pero es igual.
Só o eleitor, negando votos aos oportunistas, pode consertar esse descalabro.
Mary Zaidan
E não é o único: somam-se a ele os fundos públicos (o eleitoral, de R$ 1,7 bilhão, e o partidário, de R$ 888 milhões), o privilégio para os ricos, que poderão empenhar suas fortunas pessoais na campanha, o conto da carochinha de que o caixa 2 foi excluído com o advento do financiamento do Tesouro. E ainda a permissão para coligações de conveniência ou os olhos vesgos para os palanques antecipados – sabe-se lá custeados por quem -, visíveis a olho nu e sem qualquer punição.
A família e apoiadores do deputado-candidato Jair Bolsonaro inauguraram a janela 2018, levando sete parlamentares para o minúsculo PSL, que pulou de três para 11 deputados e imagina fechar a vidraça com pelo menos 20. O DEM elegeu 31 federais em 2014, tem 33, e sonha entrar abril com 45. O PR quer pular dos atuais 37 para 42, e o PP, hoje com 45, sete a mais do que elegeu há quatro anos, imagina chegar a 60 deputados.
As perdas devem sobrar para o PT e o PSDB, que de 2014 para cá já viram suas bancadas serem reduzidas de 68 para 58 e de 54 para 46, respectivamente.
A pulação de galho em galho sempre foi uma excrecência, mas hoje a barganha é ainda mais desavergonhada.
Até 2014, a corrida atrás dos deputados de outras siglas se dava, basicamente, para ampliar segundos no horário de propaganda eletrônica dito gratuito. Não raro – e nada garante que não irá se repetir – utilizavam-se também coligações com partidos de aluguel para satisfazer a mesma cobiça.
Agora, além do rádio e TV, o argumento é dinheiro vivo de fundos pagos por todos os brasileiros – R$ 1,5 milhão ofertam o PT, MDB e PSDB, R$ 1,8 milhão a R$ 2 milhões cobre o PTB, R$ 2,5 milhões grita o DEM.
Lances feitos e administrados diretamente pelos donos dos partidos.
Em pleno século XXI, o Brasil caminha firme e forte para institucionalizar o coronelismo. Só terá dinheiro na campanha eleitoral quem o chefe mandar. Ou os ricos e muito ricos, o que no es lo mismo pero es igual.
Só o eleitor, negando votos aos oportunistas, pode consertar esse descalabro.
Mary Zaidan
domingo, 11 de março de 2018
Desigualdade maior
A concentração aguda de riqueza em mãos privadas veio acompanhada de uma perda do poder da população geral. As pessoas se sentem menos representadas e levam uma vida precária, com trabalhos cada vez piores. O resultado é uma mistura de aborrecimento, medo e escapismoNoam Chomsky
Covil de pilantras
Tem uma cabeça de burro enterrada no Ministério do Trabalho. Quem o diz é o ex-deputado Roberto Jefferson, presidente do PTB, que entende de cabeça de burro, de PTB e de Ministério do Trabalho.
Foi um funcionário indicado pelo PTB para a empresa dos Correios que em 2005 desatou o escândalo do mensalão do PT. Ele pediu e foi filmado recebendo uma “merreca” de propina, como diria Lula.
Recentemente, Jefferson tentou emplacar a filha Cristiane Brasil como ministra do Trabalho. Compreensível. No loteamento da administração pública, governo após governo, o ministério sempre coube ao PTB.
Deu no que deu: Cristiane foi vítima da cabeça de burro por lá enterrada. Acabou sem tomar posse porque foi alvo de uma ação trabalhista. Depois de muito desgaste, desistiu da nomeação.
Descobriu-se agora que um rapaz chamado de “inexperiente” por Jefferson, de apenas 19 anos de idade, foi empregado pelo PTB no estratégico cargo de gestor financeiro de uma área do ministério.
No seu primeiro dia de trabalho, ele liberou o pagamento de R$ 22 milhões à uma empresa de tecnologia ligada ao deputado Jovair Arantes, líder do PTB na Câmara. Deveria gerir cerca de meio bilhão de reais.
Um governo que se diz sério como o de Michel Temer (é verdade que todos se dizem sérios) não deveria assistir calado a mais um escândalo. Porque é disso que se trata: um escândalo de bom tamanho.
Se foi capaz de intervir num estado como o do Rio, apesar do risco de fracassar, Temer deveria intervir no Ministério do Trabalho e limpá-lo dos pilantras que o tomaram de assalto. Seria menos arriscado. Ou não seria?
Foi um funcionário indicado pelo PTB para a empresa dos Correios que em 2005 desatou o escândalo do mensalão do PT. Ele pediu e foi filmado recebendo uma “merreca” de propina, como diria Lula.

Recentemente, Jefferson tentou emplacar a filha Cristiane Brasil como ministra do Trabalho. Compreensível. No loteamento da administração pública, governo após governo, o ministério sempre coube ao PTB.
Deu no que deu: Cristiane foi vítima da cabeça de burro por lá enterrada. Acabou sem tomar posse porque foi alvo de uma ação trabalhista. Depois de muito desgaste, desistiu da nomeação.
Descobriu-se agora que um rapaz chamado de “inexperiente” por Jefferson, de apenas 19 anos de idade, foi empregado pelo PTB no estratégico cargo de gestor financeiro de uma área do ministério.
No seu primeiro dia de trabalho, ele liberou o pagamento de R$ 22 milhões à uma empresa de tecnologia ligada ao deputado Jovair Arantes, líder do PTB na Câmara. Deveria gerir cerca de meio bilhão de reais.
Um governo que se diz sério como o de Michel Temer (é verdade que todos se dizem sérios) não deveria assistir calado a mais um escândalo. Porque é disso que se trata: um escândalo de bom tamanho.
Se foi capaz de intervir num estado como o do Rio, apesar do risco de fracassar, Temer deveria intervir no Ministério do Trabalho e limpá-lo dos pilantras que o tomaram de assalto. Seria menos arriscado. Ou não seria?
Partidos mudaram de ramo e viraram prostíbulos
Os partidos políticos brasileiros, como se sabe, estão em crise. Perderam a função. A própria política caiu em descrédito. Não há mais debate de ideias. Pouco importa que legenda está no poder. Muita gente pedia uma reforma política. Pois ela chegou. Os partidos legalizaram a infidelidade, instalaram uma porta giratória na entrada, reservaram R$ 2,6 bilhões do Tesouro Nacional para a compra de mandatos e mudaram de ramo. Os partidos viraram prostíbulos.
A expressão decoro parlamentar frequenta as constituições brasileiras desde 1946. O primeiro caso de cassação de mandato por falta de decoro ocorreu em 1949, contra o deputado Barreto Pinto, por ter posado de cuecas para uma revista. Hoje, essa expressão “falta de decoro” parece insuficiente para descrever a atual fase pornográfica da política. Decorosa ao extremo, a Constituição não contém palavra mais forte para descrever a sem-vergonhice que tomou conta da Câmara. Os parlamentares estão nus.
Eles se autoconcederam um prazo de 30 dias para o livre exercício da infidelidade. Até o dia 6 de abril, está liberado o troca-troca partidário. Vale tudo. E ninguém será punido. Para aumentar suas bancadas e, com isso, elevar sua cota de dinheiro público, ampliar sua vitrine eletrônica e aumentar seu poder de chantagem sobre o governo, os partidos compram deputados por até R$ 2,5 milhões —dinheiro para a campanha, dizem.
Costuma-se afirmar que a política é a segunda atividade mais antiga do mundo. Mas ela ficou muito parecida com a primeira. Com uma diferença: quem paga o michê é o déficit público.

Eles se autoconcederam um prazo de 30 dias para o livre exercício da infidelidade. Até o dia 6 de abril, está liberado o troca-troca partidário. Vale tudo. E ninguém será punido. Para aumentar suas bancadas e, com isso, elevar sua cota de dinheiro público, ampliar sua vitrine eletrônica e aumentar seu poder de chantagem sobre o governo, os partidos compram deputados por até R$ 2,5 milhões —dinheiro para a campanha, dizem.
Costuma-se afirmar que a política é a segunda atividade mais antiga do mundo. Mas ela ficou muito parecida com a primeira. Com uma diferença: quem paga o michê é o déficit público.
Um dia vou pescar no Tietê
Para José de Souza Martins e German Lorca
Há na mídia assuntos periódicos, constantes nas pautas como presentes e frutas de Natal; material escolar em fevereiro; ovos de chocolate na Páscoa; flores no Finados; bacalhau na Semana Santa, fantasias no carnaval (certa época, um tema era o lança-perfume, mas o Jânio Quadros estragou a festa). Desde que entrei em jornal, em 1957, sigo uma reportagem recorrente, repetitiva, a despoluição do Rio Tietê. Volta e meia ela agita, brigam os ambientalistas, os burocratas inertes e os políticos ávidos por propinas. A limpeza do Tietê se eterniza, assim como se adia a abertura da estação do metrô Oscar Freire, já apelidada pelo povo de “estação virtual.”

O rio continua a correr grosso, viscoso. Triste cartão de visita. Passar pelas avenidas marginais devia nos valer uma taxa de insalubridade, a ser acrescentada a nossas minguadas aposentadorias. Esta abertura me veio a propósito de uma deliciosa cançonetinha que me foi enviada por Hélio Ziskind. Se você conhece o Hélio está bem, sabe do que falo, o talento que ele tem. Se não conhece, é pena, principalmente para seus filhos e netos.
Um dos formadores do Grupo Rumo, ícone da “vanguarda paulista” nos anos 80, Hélio passou pela TV Cultura de São Paulo produzindo, entre mil coisas, os programas infantis Glub Glub, X-Tudo, Lá Vem História e Rá-Tim-Bum. Um prêmio Sharp de Música de melhor disco infantil e melhor canção por A Noite no Castelo, em 1987 e outro em 1995 com a Sono de Gibi, melhor canção infantil. Em 1997, lançou seu primeiro disco solo, Meu Pé, Meu Querido Pé, pela MCD. Consultor Pedagógico do programa Castelo Rá-Tim-Bum. Ah, as trilhas sonoras do Museu do Amanhã, no Rio de Janeiro, são dele.
Essas são mínimas coisas entre as centenas que sei do Hélio, de quem me aproximei quando vi o musical O Gigante na Floresta criado por ele, que narra a história verídica do Jequitibá de Carangola, Minas Gerais, uma árvore histórica de 1.500 anos, 54 metros de altura e 13 de largura, que foi vítima de um incêndio criminoso. Belíssimo tema. Ora, tínhamos tudo a ver um com outro, tendo eu escrito Não Verás País Nenhum e O Manifesto Verde, com temas ambientais. Hélio e eu frequentamos um a casa do outro, afinal ele é meu concunhado, ainda que cunhado não seja parente.
Adoro ouvir as conversas dele que vão de bactérias à física quântica, das propriedades dermatológicas do óleo de abacate à ficção científica e computação. A partir de março, no primeiro domingo do mês, todos poderão rever na Pinacoteca o Pinacanção: Uma História Cantada, desvendando o mundo da pintura, que mexe com a garotada.
Voltando ao abandonado infame rio. Dia desses, recebi o vídeo Utopia do Tietê, que adorei pela singeleza, humor, pela utopia e otimismo. Tomara as minhas distopias ambientais não se realizem, mas gostaria de viver a do Hélio. Ainda iremos para as margens do rio? Vejam só o que Hélio canta:
Um dia vai ter peixe no Tietê
um dia eu vou poder ir lá pescar
Eu vou chegar
pedalando a bicicleta
deito na grama
na beira do rio
Se der jogo
um futebol
dou uma nadadinha
me seco no sol
À tardinha vem peixe na beira do rio
Fico pescando, olhando o céu
e a cidade se acender
Eu pego um barco-bar vou
navegando pelo rio
Passo por baixo
da ponte do Limão
vou tomando meu suquinho
cantando uma canção
abacaxi (sh sh)
com hortelã (sh sh)
Tietê até’manhã
Um dia vai ter peixe no Tietê
um dia eu vou poder ir lá pescar
Sábado à tarde, na marginal
o rio vai trazer o meu jantar.
Um presente para a cidade na berlinda. Vale tentar acesso pelo link
Funcionalidade criminosa
Há três facções no Rio de Janeiro, grandes compradoras de armas pesadas em virtude dos entreveros entre elas ou de cada facção com as forças policiais. O CV foi criado dentro de prisão federal em 1977, para assegurar aos assaltantes de bancos, enquadrados na Lei de Segurança Nacional, respeito à sua integridade física, ameaçada por prisioneiros ou por agentes do Estado. Depois, passaram a cobrar contribuição dos assaltantes que estavam na rua como garantia de respeito na prisão. Só em 1986 perceberam que havia outra atividade criminosa mais lucrativa e contínua (tráfico de drogas) e que traficantes já haviam iniciado uma corrida armamentista para proteger as bocas de fumo nas favelas. Começaram então a aliciá-los para o CV, espalhando o controle territorial pela cidade. Só que o dono da boca se estabeleceu no local onde cresceu, onde conhecia e era conhecido pelos vizinhos, ou seja, era “cria” da favela. Esse caráter de pequeno negócio local, no varejo das drogas, baseado nas relações de reciprocidade dentro ou entre favelas, vai marcar as facções cariocas que nunca chegaram a ser empresas modernas.
O PCC foi fundado em 1993, também dentro da prisão, usando o mesmo lema e código de conduta do CV. O recrutamento, ao contrário, se deu pela indicação de um membro que se tornaria o “padrinho” do novo adepto, como na máfia italiana. O PCC logo assumiu um caráter empresarial com complexa hierarquia de decisões, em diferentes setores de atuação (sintonia geral e final, sintonia dos gravatas, uma sintonia para cada crime, uma sintonia para cada estado da Federação, sintonia dos presídios subdividida por unidades, sintonia do PCC no Paraguai e na Bolívia). No código atualizado, qualquer pessoa que prejudique os negócios do crime, ou por traição ou por incompetência, recebe um “salve”, tem o seu caso discutido nas sintonias a que está conectada e será punida com a morte. Apenas os casos mais difíceis de decidir chegam até a sintonia geral final, que dá a permissão para matar ou expulsar.
Foi assim que o PCC ajudou a controlar a taxa de homicídios em SP, tornando-se uma organização mais eficiente e capaz de monitorar as ações de seus membros. Além disso, enquanto o tráfico de drogas permaneceu durante muitos anos como o negócio do CV, complementado por assaltos feitos por iniciativa pessoal, o PCC coordenou várias atividades criminosas, tais como tráfico de armas e de drogas no atacado, roubo de cargas, roubo a bancos, assaltos milionários a carros forte e transportadora de valores, explosão de terminais eletrônicos. Essas ações espetaculares e de grande apropriação de dinheiro são motivo de orgulho dos que se aliam ao PCC e escrevem nas várias páginas de notícias das facões na internet. Mais claramente contra o Estado e as empresas, foram se espalhando por outros estados da Federação, acompanhando a expansão do PCC.
A partir de 2010, houve aumento crescente do roubo de cargas, que passou de 12.300 nesse ano para 17.500 em 2014, e também do prejuízo dado às empresas: R$ 800 mil em 2010, R$ 1 bilhão em 2014. Em 2011, os casos no RJ (3.073) eram menos da metade dos casos de SP (6.958). Em 2014, segundo a Firjan, 48% dos roubos de carga ocorreram em SP e 33% no RJ. Em 2017, já era mais do que o triplo (9.862) do que no início da década. Juntos, os dois estados respondem por 87,8% dos roubos no Brasil, que é o oitavo país em risco no transporte de carga em 2017, perdendo apenas para os países em guerra no Oriente Médio ou da África.
Os roubos de carga não cresceram espontaneamente no Rio. Foram resultado da presença do PCC e suas preferências sobre o modo de conseguir mais dinheiro rapidamente. Notícias sobre sua expansão no país tornam-se corriqueiras. O projeto da sintonia final é chegar a 40 mil membros em 2018, afrouxando os protocolos da inclusão, sem a necessária indicação de um padrinho já membro da facção com a aprovação de mais dois outros membros. Só então aparecem fissuras na forma de controle e críticas aos padrinhos que trouxeram novos membros vacilões ou traidores. O PCC se expandiu, mas afrouxou o controle interno sobre seus membros. Daí tantos assassinatos recentes, que revelam uma feroz luta interna pelo poder dentro e fora da prisão.
Sem resolver a questão penitenciária nem desmantelar a companhia do crime organizado que se expande por todo o Brasil, não há solução para a violência no país.
Alba Zaluar
Foi assim que o PCC ajudou a controlar a taxa de homicídios em SP, tornando-se uma organização mais eficiente e capaz de monitorar as ações de seus membros. Além disso, enquanto o tráfico de drogas permaneceu durante muitos anos como o negócio do CV, complementado por assaltos feitos por iniciativa pessoal, o PCC coordenou várias atividades criminosas, tais como tráfico de armas e de drogas no atacado, roubo de cargas, roubo a bancos, assaltos milionários a carros forte e transportadora de valores, explosão de terminais eletrônicos. Essas ações espetaculares e de grande apropriação de dinheiro são motivo de orgulho dos que se aliam ao PCC e escrevem nas várias páginas de notícias das facões na internet. Mais claramente contra o Estado e as empresas, foram se espalhando por outros estados da Federação, acompanhando a expansão do PCC.
A partir de 2010, houve aumento crescente do roubo de cargas, que passou de 12.300 nesse ano para 17.500 em 2014, e também do prejuízo dado às empresas: R$ 800 mil em 2010, R$ 1 bilhão em 2014. Em 2011, os casos no RJ (3.073) eram menos da metade dos casos de SP (6.958). Em 2014, segundo a Firjan, 48% dos roubos de carga ocorreram em SP e 33% no RJ. Em 2017, já era mais do que o triplo (9.862) do que no início da década. Juntos, os dois estados respondem por 87,8% dos roubos no Brasil, que é o oitavo país em risco no transporte de carga em 2017, perdendo apenas para os países em guerra no Oriente Médio ou da África.
Os roubos de carga não cresceram espontaneamente no Rio. Foram resultado da presença do PCC e suas preferências sobre o modo de conseguir mais dinheiro rapidamente. Notícias sobre sua expansão no país tornam-se corriqueiras. O projeto da sintonia final é chegar a 40 mil membros em 2018, afrouxando os protocolos da inclusão, sem a necessária indicação de um padrinho já membro da facção com a aprovação de mais dois outros membros. Só então aparecem fissuras na forma de controle e críticas aos padrinhos que trouxeram novos membros vacilões ou traidores. O PCC se expandiu, mas afrouxou o controle interno sobre seus membros. Daí tantos assassinatos recentes, que revelam uma feroz luta interna pelo poder dentro e fora da prisão.
Sem resolver a questão penitenciária nem desmantelar a companhia do crime organizado que se expande por todo o Brasil, não há solução para a violência no país.
Alba Zaluar
sábado, 10 de março de 2018
Por que a liturgia bélico-religiosa de Bolsonaro me dá calafrios
Muitos jovens brasileiros terão dificuldade em entender o arrepio que me produziu a cerimônia de filiação do deputado e ex-militar Jair Bolsonaro ao PSL e a liturgia que o acompanhou, em que se mesclaram orações, armas, alusões ao derramamento de sangue, gestos fascistas e a autoproclamação: “Eu sou o Messias”. É preciso ter sido filho de uma ditadura militar de 40 anos, aquela que vivemos os espanhóis sob o cristianíssimo general Franco, para analisar friamente essa cerimônia.
Na Espanha, durante a ditadura, os republicanos e antifranquistas eram chamados de “vermelhos”. Na quarta-feira passada, Bolsonaro, que se apresenta como paladino da antiesquerda, tomando a bandeira do Brasil nas mãos, declarou: “Só tem uma maneira dessa bandeira ficar vermelha: com o meu sangue.” Ao seu lado, o Delegado Waldir profetizou: “Quando este homem subir a rampa do Planalto, as crianças voltarão a cantar o hino nacional nas escolas e o Brasil voltará a ser um país cristão”. Jair Messias Bolsonaro, fazendo um jogo de palavras com seu segundo nome, proclamou: “Eu sou o Messias”. E todos se puseram a rezar.
Se o único vermelho que Bolsonaro suporta é o do seu sangue, e sendo o PSL o nono partido pelo qual já transitou, caberia perguntar quais são as cores de sua bandeira e de seu deus. Sabemos que, no pensamento de Bolsonaro e seus satélites, a ideia de crianças cantando o hino nacional nas escolas e o Brasil “voltando a ser cristão” significa nostalgia de uma teocracia em que se governa mais com a bíblia que com a constituição. Durante o franquismo dizia-se que se era espanhol “pela graça de Deus” e também o único vermelho suportado era o do sangue dos torturados e fuzilados.
Bolsonaro, que sonha em colher alguns despojos do PT de Lula, mas prefere morrer a ver a bandeira brasileira se tornar vermelha, poderia, por um cruel paradoxo, estar reforçando essa esquerda que ele demoniza. A esquerda brasileira, de fato, apesar de suas corrupções e do afastamento dos ideais, acaba sendo menos indigesta que essa mistura explosiva de extrema direita com a Bíblia em uma mão e a metralhadora na outra. E, no meio, o desprezo pela mulher e o pânico ao que aparenta ser diferente.
Também durante o franquismo, o generalíssimo Franco, por privilégio concedido pelo Vaticano, saía de manhã em procissão pelas ruas, cercado de bispos e cardeais sob o baldaquim litúrgico usado para levar a Eucaristia, e à tarde preparava a lista dos que deviam morrer por serem “vermelhos”. Nas escolas, como na de meus pais, as crianças, fazendo a saudação fascista, cantavam obrigatoriamente o hino nacional enquanto se hasteava a bandeira e gritavam o nome de Franco. É aquela lúgubre lembrança de uma Espanha que eu sempre quis esquecer que gostaria de evocar aos jovens brasileiros a quem desejo que nunca tenham de bater continência a nenhum messias e a nenhuma outra bandeira que não a da democracia. Nem a outras cores que não as da liberdade.
Na Espanha, durante a ditadura, os republicanos e antifranquistas eram chamados de “vermelhos”. Na quarta-feira passada, Bolsonaro, que se apresenta como paladino da antiesquerda, tomando a bandeira do Brasil nas mãos, declarou: “Só tem uma maneira dessa bandeira ficar vermelha: com o meu sangue.” Ao seu lado, o Delegado Waldir profetizou: “Quando este homem subir a rampa do Planalto, as crianças voltarão a cantar o hino nacional nas escolas e o Brasil voltará a ser um país cristão”. Jair Messias Bolsonaro, fazendo um jogo de palavras com seu segundo nome, proclamou: “Eu sou o Messias”. E todos se puseram a rezar.
Se o único vermelho que Bolsonaro suporta é o do seu sangue, e sendo o PSL o nono partido pelo qual já transitou, caberia perguntar quais são as cores de sua bandeira e de seu deus. Sabemos que, no pensamento de Bolsonaro e seus satélites, a ideia de crianças cantando o hino nacional nas escolas e o Brasil “voltando a ser cristão” significa nostalgia de uma teocracia em que se governa mais com a bíblia que com a constituição. Durante o franquismo dizia-se que se era espanhol “pela graça de Deus” e também o único vermelho suportado era o do sangue dos torturados e fuzilados.

Bolsonaro, que sonha em colher alguns despojos do PT de Lula, mas prefere morrer a ver a bandeira brasileira se tornar vermelha, poderia, por um cruel paradoxo, estar reforçando essa esquerda que ele demoniza. A esquerda brasileira, de fato, apesar de suas corrupções e do afastamento dos ideais, acaba sendo menos indigesta que essa mistura explosiva de extrema direita com a Bíblia em uma mão e a metralhadora na outra. E, no meio, o desprezo pela mulher e o pânico ao que aparenta ser diferente.
Também durante o franquismo, o generalíssimo Franco, por privilégio concedido pelo Vaticano, saía de manhã em procissão pelas ruas, cercado de bispos e cardeais sob o baldaquim litúrgico usado para levar a Eucaristia, e à tarde preparava a lista dos que deviam morrer por serem “vermelhos”. Nas escolas, como na de meus pais, as crianças, fazendo a saudação fascista, cantavam obrigatoriamente o hino nacional enquanto se hasteava a bandeira e gritavam o nome de Franco. É aquela lúgubre lembrança de uma Espanha que eu sempre quis esquecer que gostaria de evocar aos jovens brasileiros a quem desejo que nunca tenham de bater continência a nenhum messias e a nenhuma outra bandeira que não a da democracia. Nem a outras cores que não as da liberdade.
A última esperança
Ninguém sabe o seu nome real.
Conheci pelo apelido do bar, que pegou: Brasílio.
Brasílio é o último brasileiro que ainda tem esperança no Brasil.
Esperança mesmo. Inabalável.
E não é de hoje, vou dar uns exemplos.
Quando Tancredo foi internado, Brasílio garantiu:
– ‘Ces sabem o que é isso? Apendicite. Meu primo teve. Em uma semana está de volta à ativa. — explicando porque tinha comprado uma passagem para Brasília para assistir à posse.
O bar, alias, é o palanque do Brasílio.
É ali que, nos finais de tarde, ele divide sua esperança infindável no País.
Os amigos, claro, já sabem e se divertem.
Fazem perguntas justamente para provocar.
Como o dia que perguntaram para ele o que achava do período da ditadura militar.
– Olha, a gente tem sempre que ver o lado bom, por exemplo…
Percebem?
Brasílio é assim. Tem esperança no futuro e até no passado!
Tem fé. Não só em Deus, mas nas coisas e nas pessoas.
Nas diretas já, Brasílio dormiu com a cara pintada por duas semanas.
– Tem de apostar, gente. Tem que se comprometer. Senão a vida não muda!
Foi fiscal do Sarney.
Tanto que o gerente do supermercado do bairro proibiu sua entrada, de tão chato que era.
Na época do Collor, quando a Zélia arrancou o dinheiro de todo mundo, ele mandou essa:
– Se precisam de dinheiro, nada mais justo que nós colaborarmos.
Quando a inflação era de quatro dígitos, Brasílio foi visto comprando uma geladeira à prazo.
– É simples: se a gente parar de consumir, aí é que o País para mesmo.
Desemprego, corrupção, segurança não é problema para o Brasílio.
– Sabe o que é isso tudo? Dores do crescimento. Um sinal de que o País está crescendo.
Não importa o assunto, Brasílio sempre tinha uma palavra de otimismo.
De crença num futuro melhor.
No Maracanã, quando estava cinco a um para a Alemanha, ele, na arquibancada, levantou para puxar o coro:
– Vai virar! Vai virar! Vai virar!.
Tomou um copo de urina na nuca.
No dia que Lula afirmou que a crise de 2008 era só uma marolinha, Brasílio comprou ações da Petrobras.
Mas não achem, por isso, que Brasílio é petista ou mesmo de esquerda.
Brasílio nunca teve uma posição política clara.
– Eu voto no candidato que está na frente das pesquisas. Eleição não é jogo. Se o povo aposta, eu aposto também.
Veio o Mensalão e o Petrolão.
Veio a Dilma.
Nada do Brasílio desanimar.
Para ele o importante não eram os problemas.
– Mas gente, não estão investigando? Não estão prendendo? Então, pô. Democracia é isso mesmo. Um processo. Leva tempo mas a gente chega lá.
Faz um tempão que eu não via o Brasílio.
Essa semana meio desanimado com tanta bandalheira e principalmente com a frase que mais se ouve: “o pior é que não tem em quem votar, é ou não é?”, resolvi passar pelo bar para ouvir o que ele tem a dizer.
Quem sabe, né?
Cheguei lá e encontrei a turma toda reunida, como sempre.
Menos o Brasílio.
Sentei, pedi uma cerveja, esperei uma brecha no papo e perguntei:
– E o Brasílio, hein pessoal? Por onde anda?
– Como assim? Você não sabe o que aconteceu com o Brasílio??? — o Gordo perguntou.
– Nossa…não sei…coisa grave, morreu?
Não tinha morrido.
O Gordo mesmo respondeu.
– Quem dera tivesse morrido. Muito pior. Mudou para a Argentina.
Aí complicou.
Conheci pelo apelido do bar, que pegou: Brasílio.
Brasílio é o último brasileiro que ainda tem esperança no Brasil.

Esperança mesmo. Inabalável.
E não é de hoje, vou dar uns exemplos.
Quando Tancredo foi internado, Brasílio garantiu:
– ‘Ces sabem o que é isso? Apendicite. Meu primo teve. Em uma semana está de volta à ativa. — explicando porque tinha comprado uma passagem para Brasília para assistir à posse.
O bar, alias, é o palanque do Brasílio.
É ali que, nos finais de tarde, ele divide sua esperança infindável no País.
Os amigos, claro, já sabem e se divertem.
Fazem perguntas justamente para provocar.
Como o dia que perguntaram para ele o que achava do período da ditadura militar.
– Olha, a gente tem sempre que ver o lado bom, por exemplo…
Percebem?
Brasílio é assim. Tem esperança no futuro e até no passado!
Tem fé. Não só em Deus, mas nas coisas e nas pessoas.
Nas diretas já, Brasílio dormiu com a cara pintada por duas semanas.
– Tem de apostar, gente. Tem que se comprometer. Senão a vida não muda!
Foi fiscal do Sarney.
Tanto que o gerente do supermercado do bairro proibiu sua entrada, de tão chato que era.
Na época do Collor, quando a Zélia arrancou o dinheiro de todo mundo, ele mandou essa:
– Se precisam de dinheiro, nada mais justo que nós colaborarmos.
Quando a inflação era de quatro dígitos, Brasílio foi visto comprando uma geladeira à prazo.
– É simples: se a gente parar de consumir, aí é que o País para mesmo.
Desemprego, corrupção, segurança não é problema para o Brasílio.
– Sabe o que é isso tudo? Dores do crescimento. Um sinal de que o País está crescendo.
Não importa o assunto, Brasílio sempre tinha uma palavra de otimismo.
De crença num futuro melhor.
No Maracanã, quando estava cinco a um para a Alemanha, ele, na arquibancada, levantou para puxar o coro:
– Vai virar! Vai virar! Vai virar!.
Tomou um copo de urina na nuca.
No dia que Lula afirmou que a crise de 2008 era só uma marolinha, Brasílio comprou ações da Petrobras.
Mas não achem, por isso, que Brasílio é petista ou mesmo de esquerda.
Brasílio nunca teve uma posição política clara.
– Eu voto no candidato que está na frente das pesquisas. Eleição não é jogo. Se o povo aposta, eu aposto também.
Veio o Mensalão e o Petrolão.
Veio a Dilma.
Nada do Brasílio desanimar.
Para ele o importante não eram os problemas.
– Mas gente, não estão investigando? Não estão prendendo? Então, pô. Democracia é isso mesmo. Um processo. Leva tempo mas a gente chega lá.
Faz um tempão que eu não via o Brasílio.
Essa semana meio desanimado com tanta bandalheira e principalmente com a frase que mais se ouve: “o pior é que não tem em quem votar, é ou não é?”, resolvi passar pelo bar para ouvir o que ele tem a dizer.
Quem sabe, né?
Cheguei lá e encontrei a turma toda reunida, como sempre.
Menos o Brasílio.
Sentei, pedi uma cerveja, esperei uma brecha no papo e perguntei:
– E o Brasílio, hein pessoal? Por onde anda?
– Como assim? Você não sabe o que aconteceu com o Brasílio??? — o Gordo perguntou.
– Nossa…não sei…coisa grave, morreu?
Não tinha morrido.
O Gordo mesmo respondeu.
– Quem dera tivesse morrido. Muito pior. Mudou para a Argentina.
Aí complicou.
Onze candidatos e nenhuma ideia
Será que somente o reduzido grupo dos que defendem e valorizam a necessidade de uma nova pactuação democrática consegue ver o tamanho do buraco em que caiu o País?
A fragmentação continua a avançar, trazendo consigo a sensação de que o próximo governo será marcado pela inoperância, pelo artificialismo da concorrência político-partidária e pela tensão ideológica. Ninguém parece se preocupar com o quadro e todos continuam a correr rumo ao precipício, que a cada dia fica mais próximo.
Cada candidato faz de conta que o problema não é com ele, mas com os outros, sempre tidos e havidos como “inimigos” e adversários.
Por enquanto são onze, que a preguiça analítica distribui entre esquerda, centro e direita, mas que a rigor pouco se diferenciam entre si, a não ser pelo tamanho da língua e pela volúpia de chegar ao poder. Outros mais deverão aparecer e embolar ainda mais a corrida. Como não há ideias postas na mesa, a atribuição do lugar que cada candidato ocupa no tabuleiro político e ideológico não passa de exercício classificatório desprovido de sentido. Serve tão-somente para que se delineie uma situação “ideal”, com polos que se contradizem. As contradições, porém, não são explicitadas. Nem as diferenças.
Dizem que é cedo para que pense em coligações. A incerteza geral, a fragilidade das postulações e a inexistência de conteúdos programáticos claros impediriam que se cogitasse, no momento, da formação de frentes políticas desenhadas para maximizar o poder de fogo de propostas perfiladas no mesmo espaço político-ideológico. A hora é de cada um testar sua densidade.
Pode ser. Mas nunca é cedo para se fazer o certo. A ideia de se levar o eleitor ao limite e de conclamá-lo a pensar no país só no segundo turno é uma opção suicida, que pode implicar a organização de uma disputa desconectada dos interesses populares e nacionais: daquilo que precisa ser feito.
A sociedade não merece ser tratada como se fosse uma coisa qualquer, menos importante que os caprichos, os interesses e as manias dos políticos.
A articulação dos democratas entre si, feita com generosidade, sem vetos e com programas claros, é uma saída tão evidente e tão plena de possibilidades que chega a surpreender que poucos se deem conta dela.
A fragmentação continua a avançar, trazendo consigo a sensação de que o próximo governo será marcado pela inoperância, pelo artificialismo da concorrência político-partidária e pela tensão ideológica. Ninguém parece se preocupar com o quadro e todos continuam a correr rumo ao precipício, que a cada dia fica mais próximo.
Cada candidato faz de conta que o problema não é com ele, mas com os outros, sempre tidos e havidos como “inimigos” e adversários.
Por enquanto são onze, que a preguiça analítica distribui entre esquerda, centro e direita, mas que a rigor pouco se diferenciam entre si, a não ser pelo tamanho da língua e pela volúpia de chegar ao poder. Outros mais deverão aparecer e embolar ainda mais a corrida. Como não há ideias postas na mesa, a atribuição do lugar que cada candidato ocupa no tabuleiro político e ideológico não passa de exercício classificatório desprovido de sentido. Serve tão-somente para que se delineie uma situação “ideal”, com polos que se contradizem. As contradições, porém, não são explicitadas. Nem as diferenças.
Dizem que é cedo para que pense em coligações. A incerteza geral, a fragilidade das postulações e a inexistência de conteúdos programáticos claros impediriam que se cogitasse, no momento, da formação de frentes políticas desenhadas para maximizar o poder de fogo de propostas perfiladas no mesmo espaço político-ideológico. A hora é de cada um testar sua densidade.
Pode ser. Mas nunca é cedo para se fazer o certo. A ideia de se levar o eleitor ao limite e de conclamá-lo a pensar no país só no segundo turno é uma opção suicida, que pode implicar a organização de uma disputa desconectada dos interesses populares e nacionais: daquilo que precisa ser feito.
A sociedade não merece ser tratada como se fosse uma coisa qualquer, menos importante que os caprichos, os interesses e as manias dos políticos.
A articulação dos democratas entre si, feita com generosidade, sem vetos e com programas claros, é uma saída tão evidente e tão plena de possibilidades que chega a surpreender que poucos se deem conta dela.
Nada para nada
Dia desses lia - em publicação estrangeira - uma notícia que deveria nos encher a todos de orgulho. Uma brasileira, Nadia Ayad, venceu uma competição de nível mundial, a "Graphene Challenge". Trata-se de um certame destinado a selecionar os melhores projetos de uso de um novo material, o grafeno.
Trata-se de uma forma cristalina do carbono, cuja utilização pode promover uma revolução tecnológica superior até à que a humanidade alcançou com o plástico e o silício. Até onde estudei, o grafeno é mais forte que o aço, porém muito leve e quase transparente, além de excelente condutor de calor e eletricidade.
Nadia, estudante de engenharia de materiais do IME (Instituto Militar de Engenharia), foi convidada a visitar centros de pesquisa sobre o grafeno em funcionamento na Suécia. Seu projeto, qual o de utilizar este material para filtrar e dessalinizar a água do mar, tornando-a potável, certamente renderá boas conversas durante as visitas.
Meu primeiro pensamento, ao ler esta notícia, foi o de lamentar o quão pouco divulgado foi este feito aqui no Brasil! Coloquei o nome da nossa conterrânea no "Google", e na primeira página de resultados apenas apareceram, quanto ao Brasil, referências quase que pessoais - nenhuma matéria de grande envergadura por um grande veículo. Passei para a segunda página, e nada! Somente lá pela terceira página começaram a aparecer algumas poucas reportagens.
Minha segunda reflexão foi dirigida ao Professor César Grisólia, do Departamento de Genética da Universidade de Brasília. Há alguns anos foi adquirido, para o laboratório daquele instituto, um potente microscópio norte-americano - os recursos vieram do CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico).
Tão logo aportou por estas bandas, o instrumento foi retido pela alfândega. Ao longo de cinco meses, o professor tentou liberá-lo, sem sucesso. Houve a necessidade de se contratar um despachante - que o professor teve que pagar do próprio bolso, pois a universidade não dispõe de verba para tal fim.
Dizia Câmara Cascudo que o melhor produto do Brasil é o brasileiro. Quão bom seria que, do governo à imprensa, da burocracia às instituições, todos percebêssemos isso - à semelhança dos estrangeiros, que tantos cérebros brilhantes levam daqui, junto com nosso futuro.
Pedro Valls Feu Rosa
Nadia, estudante de engenharia de materiais do IME (Instituto Militar de Engenharia), foi convidada a visitar centros de pesquisa sobre o grafeno em funcionamento na Suécia. Seu projeto, qual o de utilizar este material para filtrar e dessalinizar a água do mar, tornando-a potável, certamente renderá boas conversas durante as visitas.
Meu primeiro pensamento, ao ler esta notícia, foi o de lamentar o quão pouco divulgado foi este feito aqui no Brasil! Coloquei o nome da nossa conterrânea no "Google", e na primeira página de resultados apenas apareceram, quanto ao Brasil, referências quase que pessoais - nenhuma matéria de grande envergadura por um grande veículo. Passei para a segunda página, e nada! Somente lá pela terceira página começaram a aparecer algumas poucas reportagens.
Minha segunda reflexão foi dirigida ao Professor César Grisólia, do Departamento de Genética da Universidade de Brasília. Há alguns anos foi adquirido, para o laboratório daquele instituto, um potente microscópio norte-americano - os recursos vieram do CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico).
Tão logo aportou por estas bandas, o instrumento foi retido pela alfândega. Ao longo de cinco meses, o professor tentou liberá-lo, sem sucesso. Houve a necessidade de se contratar um despachante - que o professor teve que pagar do próprio bolso, pois a universidade não dispõe de verba para tal fim.
Dizia Câmara Cascudo que o melhor produto do Brasil é o brasileiro. Quão bom seria que, do governo à imprensa, da burocracia às instituições, todos percebêssemos isso - à semelhança dos estrangeiros, que tantos cérebros brilhantes levam daqui, junto com nosso futuro.
Pedro Valls Feu Rosa
Cravos da nossa cruz
A ditadura calou à baioneta a liberdade.
A demagogia populista roubou a riqueza e a dignidade
A república dos investigados reescreve a Justiça segundo o Privilégio
A demagogia populista roubou a riqueza e a dignidade
A república dos investigados reescreve a Justiça segundo o Privilégio
Luiz Gadelha
Gleisi prova que, no Brasil do PT, é o bandido que procura o juiz
Bandidos profissionais guardam distância de camburões, delegacias, tribunais e outros veículos ou imóveis que abrigam homens da lei. É assim em qualquer país. Mas o Brasil não é um país qualquer, confirmou a segunda invasão do Supremo Tribunal Federal por Gleisi Hoffmann, afundada até o pescoço em maracutaias descobertas pela Lava Jato.
No mundo inteiro, são os juízes que fecham o certo aos delinquentes. Aqui, meliantes protegidos pelo foro privilegiado sitiam juízes, desembargadores ou ministros de instâncias superiores. Na terça-feira, ao aparecer no STF à caça de uma reunião com a ministra Cármen Lúcia, Gleisi mostrou que nem a mais alta autoridade do Judiciário está livre da inversão inverossímil.
Afundada em bandalheiras multimilionárias, a tuiteira sem cérebro, conhecida nos meios policiais pelos codinomes Amante e Coxa, deveria estar concentrada na busca da vaga no Congresso que talvez adie por alguns anos aquelas batidas na porta às seis da manhã. Mas Gleisi prefere fazer o diabo para livrar Lula do “boi” e do beliche.
No dia seguinte, Gleisi reincidiu no espetáculo da insolência e tornou a invadir o STF, de novo à procura de Cármen Lúcia. Como a ministra tinha mais o que fazer, a visitante sem convite teve de contentar-se com Dias Toffoli, o ex-advogado do PT permanentemente à disposição dos antigos e eternos chefes.
A dupla transformou o que deveria ser uma audiência num animado reencontro de discípulos de Lula. Trocaram lembranças, trocaram elogios, trocaram gentilezas. Só não trocaram ideias. Nenhum deles tem ideias para trocar.
Afundada em bandalheiras multimilionárias, a tuiteira sem cérebro, conhecida nos meios policiais pelos codinomes Amante e Coxa, deveria estar concentrada na busca da vaga no Congresso que talvez adie por alguns anos aquelas batidas na porta às seis da manhã. Mas Gleisi prefere fazer o diabo para livrar Lula do “boi” e do beliche.
No dia seguinte, Gleisi reincidiu no espetáculo da insolência e tornou a invadir o STF, de novo à procura de Cármen Lúcia. Como a ministra tinha mais o que fazer, a visitante sem convite teve de contentar-se com Dias Toffoli, o ex-advogado do PT permanentemente à disposição dos antigos e eternos chefes.
A dupla transformou o que deveria ser uma audiência num animado reencontro de discípulos de Lula. Trocaram lembranças, trocaram elogios, trocaram gentilezas. Só não trocaram ideias. Nenhum deles tem ideias para trocar.
sexta-feira, 9 de março de 2018
Não há plano, faz-se um plano
Planejava escrever mais um artigo sobre política de segurança nacional, tal como espero que seja discutida em 2018. Celso Rocha de Barros, em sua coluna na Folha, me fez uma pergunta pertinente: afinal, qual a intervenção que apoio? Já tratei parcialmente do tema em artigos anteriores. Mas não gostaria de parecer vago a respeito do lugar onde vivo, sobretudo diante de um interlocutor qualificado.
Defendo uma intervenção completa num governo em ruínas. Mas já que se deu apenas no campo da segurança e tem como instrumento o Exército, ela deve deixar bem claro o momento de terminar. Esse marco final não é definido pela rigidez do calendário, mas pela execução da tarefa: reduzir, ainda que modestamente, os índices de criminalidade e reestruturar a polícia para que possa cumprir sua tarefa. Nesse campo, dois pontos são essenciais: o combate à corrupção, pois ela enfraquece as chances de reduzir a criminalidade; e dotá-la de equipamentos, treino e meios técnico-científicos de investigação.
Desde repórter policial, ainda garoto, percebia que a polícia estava atrás de seu tempo. Foi uma opção da sociedade brasileira, que subestimou sua importância. Essa escolha é uma fonte de violência, pois sem inteligência e métodos de investigação a busca de alguma eficácia induz à tortura e à intimidação. No caso da polícia do Rio de Janeiro, existe ainda uma questão elementar: pagar os salários em dia.
Quanto aos métodos, defendo uma intervenção que não veja as favelas como território hostil, mas como território amigo controlado por forças hostis. Isso implica o compromisso de respeitar as pessoas, algo que alguns já percebem também como o desejo dos militares.
E quais são as forças hostis? Os grupos armados ocupando territórios: traficantes de drogas, que se desdobram em ladrões de cargas, e as milícias, que vendem segurança, gás e transporte alternativo.
Sou contra a ocupação militar das comunidades. Há anos afirmo que nem o Exército chinês exerceria folgadamente essa tarefa. São mais de 800 só na capital, sem contar a Baixada Fluminense e cidades médias, como Campos e Macaé.
Como combater esses grupos sem ocupar? Essa é uma questão que inteligência e meios técnicos podem responder ao menos parcialmente. A tática de ocupar as comunidades leva os grupos armados a utilizar, instintivamente, um princípio da guerrilha: dispersar quando o inimigo se concentra, concentrar-se quando ele se dispersa.
Em 2010, no contexto da campanha política, traçamos um mapa da ocupação armada no território do Rio, indicando quem a dominava. Esta semana recebi um esboço que mostra como a mancha de território ocupado se expandiu.
Defendo também uma intervenção que estimule, por sua presença, o avanço da Lava Jato sobre o mundo político do Rio. Há muita coisa a fazer, até porque o atual governo era parte do esquema criminoso de Sérgio Cabral.
Finalmente, afirmei que a sociedade, que já se movimenta, via aplicativos como Onde Tem Tiroteio e Fogo Cruzado, poderia ajudar as forças de intervenção. Mas precisaria conhecer seu plano.
Os militares foram convocados de surpresa e precisam estudar melhor o quadro. E de mais treino no contato com a imprensa, que não é de seu cotidiano
Tenho consciência de que o governo Temer é impopular e terá grandes problemas com a Justiça quando perder o foro privilegiado. Mas sinto que vivemos no Rio uma situação emergencial. Outros Estados também sofrem com a violência. Constatei isso no Amazonas, no Maranhão, em Alagoas e pretendo mostrar os casos do Ceará e do Rio Grande do Norte.
Mas em nenhum ponto do País perdemos tanto território para grupos armados.
Os números sobre mortes no Brasil, superando os de muitos países em guerra, já eram um argumento para o tema subir ao topo da agenda nacional. Temer é o presidente que existe, o único capaz de convocar as Forças Armadas. Se alguém acha isso um golpe de mestre político, é porque tem visão curta.
O próprio Exército, com alta credibilidade, não se lançaria numa tarefa dessas para salvar um governo com alguns já na cadeia e outros arrumando a mala. Se Temer não cumprir as condições mínimas para a execução da tarefa, espero que isso fique claro no balanço dos interventores e o desgaste caia nas mãos de quem merece.
Em linhas gerais, essa é a intervenção que defendo. Posso alterar minha visão diante de argumentos contrários.
O mais difícil, entretanto, é convencer as pessoas que, como todos nós, acreditam que a segurança é limitada, que é preciso melhorar as condições sociais, a educação. Não percebem a emergência. Como chegar com serviços sociais a uma favela ocupada? Como ter eleições livres em áreas onde só podem entrar alguns candidatos?
Arruinado, o Rio não consegue sozinho ocupar seu território. Mesmo com ajuda federal e a presença do Exército é uma tarefa de longo prazo. Quem vê os militares se preparando para combater os grupos armados vê também um horizonte para a libertação territorial da cidade.
Defendi apenas alguns princípios da intervenção. Não explicitei planos porque isso é tarefa dos militares. Admito até que não tinham nenhum. O que fazer? Foram convocados para uma emergência. Não temos plano? Faz-se um. Visto com seriedade, para quem foi convocado de surpresa isso leva tempo.
O atraso na aceitação da segurança pública na agenda nacional atravessou a redemocratização. Entre nossos presidentes, havia um desprezo aristocrático pelo tema.
Com todas as críticas que faço ao governo Temer, procuro ter uma visão política; não reclamar quando o outro chega atrasado às evidências, mas simplesmente afirmar: é bom que, finalmente, tenha chegado.
Não vejo alternativa melhor para o Rio. Prefiro ajudá-la, contra os ventos e marés da esquerda. Não é a primeira vez que discordamos. Já estamos acostumados.
Desde repórter policial, ainda garoto, percebia que a polícia estava atrás de seu tempo. Foi uma opção da sociedade brasileira, que subestimou sua importância. Essa escolha é uma fonte de violência, pois sem inteligência e métodos de investigação a busca de alguma eficácia induz à tortura e à intimidação. No caso da polícia do Rio de Janeiro, existe ainda uma questão elementar: pagar os salários em dia.
Quanto aos métodos, defendo uma intervenção que não veja as favelas como território hostil, mas como território amigo controlado por forças hostis. Isso implica o compromisso de respeitar as pessoas, algo que alguns já percebem também como o desejo dos militares.
E quais são as forças hostis? Os grupos armados ocupando territórios: traficantes de drogas, que se desdobram em ladrões de cargas, e as milícias, que vendem segurança, gás e transporte alternativo.
Sou contra a ocupação militar das comunidades. Há anos afirmo que nem o Exército chinês exerceria folgadamente essa tarefa. São mais de 800 só na capital, sem contar a Baixada Fluminense e cidades médias, como Campos e Macaé.
Como combater esses grupos sem ocupar? Essa é uma questão que inteligência e meios técnicos podem responder ao menos parcialmente. A tática de ocupar as comunidades leva os grupos armados a utilizar, instintivamente, um princípio da guerrilha: dispersar quando o inimigo se concentra, concentrar-se quando ele se dispersa.
Em 2010, no contexto da campanha política, traçamos um mapa da ocupação armada no território do Rio, indicando quem a dominava. Esta semana recebi um esboço que mostra como a mancha de território ocupado se expandiu.
Defendo também uma intervenção que estimule, por sua presença, o avanço da Lava Jato sobre o mundo político do Rio. Há muita coisa a fazer, até porque o atual governo era parte do esquema criminoso de Sérgio Cabral.
Finalmente, afirmei que a sociedade, que já se movimenta, via aplicativos como Onde Tem Tiroteio e Fogo Cruzado, poderia ajudar as forças de intervenção. Mas precisaria conhecer seu plano.
Os militares foram convocados de surpresa e precisam estudar melhor o quadro. E de mais treino no contato com a imprensa, que não é de seu cotidiano
Tenho consciência de que o governo Temer é impopular e terá grandes problemas com a Justiça quando perder o foro privilegiado. Mas sinto que vivemos no Rio uma situação emergencial. Outros Estados também sofrem com a violência. Constatei isso no Amazonas, no Maranhão, em Alagoas e pretendo mostrar os casos do Ceará e do Rio Grande do Norte.
Mas em nenhum ponto do País perdemos tanto território para grupos armados.
Os números sobre mortes no Brasil, superando os de muitos países em guerra, já eram um argumento para o tema subir ao topo da agenda nacional. Temer é o presidente que existe, o único capaz de convocar as Forças Armadas. Se alguém acha isso um golpe de mestre político, é porque tem visão curta.
O próprio Exército, com alta credibilidade, não se lançaria numa tarefa dessas para salvar um governo com alguns já na cadeia e outros arrumando a mala. Se Temer não cumprir as condições mínimas para a execução da tarefa, espero que isso fique claro no balanço dos interventores e o desgaste caia nas mãos de quem merece.
Em linhas gerais, essa é a intervenção que defendo. Posso alterar minha visão diante de argumentos contrários.
O mais difícil, entretanto, é convencer as pessoas que, como todos nós, acreditam que a segurança é limitada, que é preciso melhorar as condições sociais, a educação. Não percebem a emergência. Como chegar com serviços sociais a uma favela ocupada? Como ter eleições livres em áreas onde só podem entrar alguns candidatos?
Arruinado, o Rio não consegue sozinho ocupar seu território. Mesmo com ajuda federal e a presença do Exército é uma tarefa de longo prazo. Quem vê os militares se preparando para combater os grupos armados vê também um horizonte para a libertação territorial da cidade.
Defendi apenas alguns princípios da intervenção. Não explicitei planos porque isso é tarefa dos militares. Admito até que não tinham nenhum. O que fazer? Foram convocados para uma emergência. Não temos plano? Faz-se um. Visto com seriedade, para quem foi convocado de surpresa isso leva tempo.
O atraso na aceitação da segurança pública na agenda nacional atravessou a redemocratização. Entre nossos presidentes, havia um desprezo aristocrático pelo tema.
Com todas as críticas que faço ao governo Temer, procuro ter uma visão política; não reclamar quando o outro chega atrasado às evidências, mas simplesmente afirmar: é bom que, finalmente, tenha chegado.
Não vejo alternativa melhor para o Rio. Prefiro ajudá-la, contra os ventos e marés da esquerda. Não é a primeira vez que discordamos. Já estamos acostumados.
Gente fora do mapa
| Criança do Congo mineram minérios utilizados em eletrônicos como celulares e laptops |
Improvisações seculares
Ainda no século XIX, um dos maiores brasileiros da história, Joaquim Nabuco, disse que a Abolição ficaria incompleta se os escravos não recebessem terra para trabalhar e seus filhos não recebessem escolas para estudar. Não lhe deram atenção. Cem anos depois, outro dos maiores brasileiros da história, Darcy Ribeiro, disse que, se o Brasil não construísse escolas naquele momento, teria de construir cadeias no futuro.
Junto com o então governador Leonel Brizola, Darcy iniciou a construção de um sistema estadual de escolas públicas com máxima qualidade: os Centros Integrados de Educação Pública (CIEPs). Os outros governadores não deram continuidade à escola em horário integral. Em 1990, o ex-presidente Collor tentou levar a ideia para o resto do Brasil com os Centros Integrados de Atenção à Criança e ao Adolescente (CIACs), mas, com o impeachment, a federalização foi abortada.
A sociedade brasileira continuou a marcha na pobreza, violência e desigualdade, improvisando soluções parciais para cada problema. Eleitos e eleitores não percebem que o berço dos problemas está na falta de um sistema nacional de educação com máxima qualidade; que o futuro de um povo tem a cara de sua escola no presente (83% dos jovens infratores abandonaram a escola ainda na educação de base). A população vê a ameaça de uma pessoa portando fuzil, mas não vê a esperança em um professor segurando um lápis, um livro, um computador dentro de uma escola.
No momento, quase todo carioca apoia e os demais brasileiros invejam a decisão de federalizar a segurança do Rio de Janeiro, mas nem imaginam que a maior parte se opõe a uma federalização da educação de base. Preferimos continuar nas improvisações seculares: “abolição”, “república”, “desenvolvimento”, “democracia” e “segurança” sem educação. A urgência de cuidar do fuzil nos faz desprezar a importância do lápis, mas guiar-se apenas pelo desespero com a violência não leva à construção da paz.
Em sete meses, teremos eleições, mas nenhum candidato a presidente parece consciente da dimensão do problema, nem interessado em oferecer resposta que não seja a improvisação pontual. Ainda menos enfrentar problemas imediatos, considerando que a solução de longo prazo está na construção do sistema nacional de educação com máxima qualidade.
Querendo apenas agradar ao eleitor assustado com o presente, ficam presos às improvisadas trapalhadas seculares dos discursos demagógicos. Partidos boicotam seus candidatos que defendem a educação como solução porque isso não dá voto. Por mais consistência lógica que tenham, a urgência destrói sólidos argumentos. Quem está com sede não aceita o aviso de que a água do poço em frente está contaminada e devemos cavar novo poço em outro lugar. Poucos votam em quem propõe enfrentar o fuzil também com o lápis.
Por isso, não há ouvidos para a fala de Nabuco, nem de Darcy, nem da ex-senadora Heloísa Helena quando, mais recentemente, disse: “Se adotássemos uma geração de brasileiros, ela depois adotaria o Brasil”.
Cristovam Buarque
Junto com o então governador Leonel Brizola, Darcy iniciou a construção de um sistema estadual de escolas públicas com máxima qualidade: os Centros Integrados de Educação Pública (CIEPs). Os outros governadores não deram continuidade à escola em horário integral. Em 1990, o ex-presidente Collor tentou levar a ideia para o resto do Brasil com os Centros Integrados de Atenção à Criança e ao Adolescente (CIACs), mas, com o impeachment, a federalização foi abortada.
A sociedade brasileira continuou a marcha na pobreza, violência e desigualdade, improvisando soluções parciais para cada problema. Eleitos e eleitores não percebem que o berço dos problemas está na falta de um sistema nacional de educação com máxima qualidade; que o futuro de um povo tem a cara de sua escola no presente (83% dos jovens infratores abandonaram a escola ainda na educação de base). A população vê a ameaça de uma pessoa portando fuzil, mas não vê a esperança em um professor segurando um lápis, um livro, um computador dentro de uma escola.
No momento, quase todo carioca apoia e os demais brasileiros invejam a decisão de federalizar a segurança do Rio de Janeiro, mas nem imaginam que a maior parte se opõe a uma federalização da educação de base. Preferimos continuar nas improvisações seculares: “abolição”, “república”, “desenvolvimento”, “democracia” e “segurança” sem educação. A urgência de cuidar do fuzil nos faz desprezar a importância do lápis, mas guiar-se apenas pelo desespero com a violência não leva à construção da paz.
Em sete meses, teremos eleições, mas nenhum candidato a presidente parece consciente da dimensão do problema, nem interessado em oferecer resposta que não seja a improvisação pontual. Ainda menos enfrentar problemas imediatos, considerando que a solução de longo prazo está na construção do sistema nacional de educação com máxima qualidade.
Querendo apenas agradar ao eleitor assustado com o presente, ficam presos às improvisadas trapalhadas seculares dos discursos demagógicos. Partidos boicotam seus candidatos que defendem a educação como solução porque isso não dá voto. Por mais consistência lógica que tenham, a urgência destrói sólidos argumentos. Quem está com sede não aceita o aviso de que a água do poço em frente está contaminada e devemos cavar novo poço em outro lugar. Poucos votam em quem propõe enfrentar o fuzil também com o lápis.
Por isso, não há ouvidos para a fala de Nabuco, nem de Darcy, nem da ex-senadora Heloísa Helena quando, mais recentemente, disse: “Se adotássemos uma geração de brasileiros, ela depois adotaria o Brasil”.
Cristovam Buarque
Lula, um homem comum, nada mais
Não resistem a um sopro os argumentos usados pelos que defendem Lula, quase os mesmos que há dois anos defenderam Dilma às vésperas do colapso do governo dela. Senão vejamos.
“Lula é um perseguido da Justiça”
Somente Lula? E Michel Temer, Eduardo Cunha, Geddel Vieira Lima, Henrique Eduardo Alves, Delcídio Amaral, Gleisi Hoffmann, Renan Calheiros, Romero Jucá, Marcelo Odebrecht e todos os condenados ou apenas processados pela Lava Jato e demais operações de limpeza em curso? O que são? São centenas de pessoas. E só Lula é um perseguido?
“Lula é inocente. Não encontraram um só tostão nas contas dele”
Quatro juízes, por duas vezes até aqui, já condenaram Lula por corrupção passiva e lavagem de dinheiro. Corrupto não é só aquele que acumula dinheiro sujo em suas contas. Ocultação de patrimônio, por exemplo, é crime que não deixa rastros em contas bancárias. Em breve, mais três juízes, dos quatro, confirmarão a sentença que condenou Lula a 12 anos e 1 mês de prisão. Ele responde a mais cinco ou seis processos.
“Lula foi condenado sem provas”
Numa democracia, cabe à Justiça julgar, goste-se disso ou não. É ela quem diz se existem provas de que alguém cometeu determinado crime. Ela disse que há provas suficientes de que Lula é um criminoso. Ponto.
“Querem impedir Lula de ser candidato porque ele lidera todas as pesquisas de intenção de voto”
O que impedirá Lula de ser candidato é uma lei aprovada por unanimidade pelo Congresso durante o seu governo, festejada à época pelo PT e sancionada sem vetos por Lula. Ela barra candidaturas de políticos ficha suja. Lula é um político ficha suja. Fazer o quê? Revogar a lei? Dizer que a lei para ele não vale por que se trata de um “homem incomum”? Onde a Constituição distingue entre homem comum e homem incomum? Foi Lula, uma vez, que classificou José Sarney como “homem incomum”.
“Lula é vítima de um golpe, assim como Dilma foi vítima de outro”
Lula é vítima dele mesmo, do que fez e do que deixou que fosse feito antes, durante e depois do seu período de oito anos de governo. Mensalão foi coisa do primeiro governo dele. Petrolão, do segundo governo. Triplex no Guarujá e sítio em Atibaia foram obras do final do segundo governo dele para usufruto dele e de sua família.
Dilma foi vítima dos erros que cometeu e que lhe custaram mais da metade do segundo mandato. Caiu porque perdeu as mínimas condições para continuar governando. Antes de o Congresso a derrubar, foi derrubada pelas multidões que ocuparam as ruas e rejeitada pela maioria esmagadora dos brasileiros. Será lembrada como a maior responsável pela mais perversa recessão econômica da história recente do país.
“Eleição sem Lula é fraude”
Não, não é. Eleição sem Lula será uma fatalidade, uma vez que ele foi condenado e tornou-se ficha suja. Se eleição sem ele fosse uma fraude, o PT não deveria participar dela para não legitimá-la, mas participará. Como participou de todas as fases do processo de impeachment de Dilma que agora chama de “golpe”.
“Se Lula for preso, será o primeiro preso político depois da ditadura de 64”
Não, não será. Será apenas mais um político preso desde o início da Lava Jato. Simples assim.
“Lula é um perseguido da Justiça”
Somente Lula? E Michel Temer, Eduardo Cunha, Geddel Vieira Lima, Henrique Eduardo Alves, Delcídio Amaral, Gleisi Hoffmann, Renan Calheiros, Romero Jucá, Marcelo Odebrecht e todos os condenados ou apenas processados pela Lava Jato e demais operações de limpeza em curso? O que são? São centenas de pessoas. E só Lula é um perseguido?
“Lula é inocente. Não encontraram um só tostão nas contas dele”
Quatro juízes, por duas vezes até aqui, já condenaram Lula por corrupção passiva e lavagem de dinheiro. Corrupto não é só aquele que acumula dinheiro sujo em suas contas. Ocultação de patrimônio, por exemplo, é crime que não deixa rastros em contas bancárias. Em breve, mais três juízes, dos quatro, confirmarão a sentença que condenou Lula a 12 anos e 1 mês de prisão. Ele responde a mais cinco ou seis processos.

Numa democracia, cabe à Justiça julgar, goste-se disso ou não. É ela quem diz se existem provas de que alguém cometeu determinado crime. Ela disse que há provas suficientes de que Lula é um criminoso. Ponto.
“Querem impedir Lula de ser candidato porque ele lidera todas as pesquisas de intenção de voto”
O que impedirá Lula de ser candidato é uma lei aprovada por unanimidade pelo Congresso durante o seu governo, festejada à época pelo PT e sancionada sem vetos por Lula. Ela barra candidaturas de políticos ficha suja. Lula é um político ficha suja. Fazer o quê? Revogar a lei? Dizer que a lei para ele não vale por que se trata de um “homem incomum”? Onde a Constituição distingue entre homem comum e homem incomum? Foi Lula, uma vez, que classificou José Sarney como “homem incomum”.
“Lula é vítima de um golpe, assim como Dilma foi vítima de outro”
Lula é vítima dele mesmo, do que fez e do que deixou que fosse feito antes, durante e depois do seu período de oito anos de governo. Mensalão foi coisa do primeiro governo dele. Petrolão, do segundo governo. Triplex no Guarujá e sítio em Atibaia foram obras do final do segundo governo dele para usufruto dele e de sua família.
Dilma foi vítima dos erros que cometeu e que lhe custaram mais da metade do segundo mandato. Caiu porque perdeu as mínimas condições para continuar governando. Antes de o Congresso a derrubar, foi derrubada pelas multidões que ocuparam as ruas e rejeitada pela maioria esmagadora dos brasileiros. Será lembrada como a maior responsável pela mais perversa recessão econômica da história recente do país.
“Eleição sem Lula é fraude”
Não, não é. Eleição sem Lula será uma fatalidade, uma vez que ele foi condenado e tornou-se ficha suja. Se eleição sem ele fosse uma fraude, o PT não deveria participar dela para não legitimá-la, mas participará. Como participou de todas as fases do processo de impeachment de Dilma que agora chama de “golpe”.
“Se Lula for preso, será o primeiro preso político depois da ditadura de 64”
Não, não será. Será apenas mais um político preso desde o início da Lava Jato. Simples assim.
A solução é andar para trás?
Os caminhos humanos são quase invariavelmente polêmicos, controversos, despertam discussões intermináveis, formação de grupos e correntes, tal a variedade de posições e interesses que lhes dão origem e/ou suporte. Por isso mesmo eles se perpetuam, na mesma escala de suas origens ou nascedouros. Descoberto um novo caminho, logo surgirá a alternativa – ou mais de uma, até que a realidade se incumba de demonstrar a melhor possibilidade. E, ainda assim, nem sempre prevalecerá a mais verdadeira ou viável.
Agora, por exemplo, Bruxelas, na Bélgica, decidiu oferecer transporte gratuito como forma de reduzir a circulação de veículos particulares, diminuir as emissões de carbono poluente e cumprir as regras da União Europeia sobre a qualidade do ar (Mobilize, 1.º/3). As regras parecem claras: depois de dois dias consecutivos de níveis altos de material particulado no ar (acima de 51 a 70 microgramas por metro cúbico), ônibus, metrô, VLTs terão de abrir suas portas e deixá-las completamente livres, acessíveis a qualquer pessoa, sem que nada pague, seguindo lei agora adotada pelo conselho da cidade.
Mas os carros particulares também sofrerão restrições, seus limites de velocidade serão igualmente reduzidos em cerca de um terço. Outra fonte de poluição atingida é a queima de madeira em fornos, proibida por lei (mas ainda passará por revisão judicial). Espera-se que a nova legislação passe a vigorar já no próximo verão europeu. A nova lei seria uma espécie de correção de rota de políticas anteriores, que beneficiaram os automóveis particulares durante décadas, diz Pascoal Smet, secretário de Mobilidade de Bruxelas.
“Precisamos criar espaços públicos de qualidade”, pondera o secretário. “A pesquisa mostra que, quanto mais espaço você oferece aos carros, mais carros você atrai”. E as cidades mais atraentes para os carros são também as mais congestionadas. “Já os novos fundamentos da política também partem da convicção de quem, ao dar espaço aos pedestres e ciclistas, as cidades podem criar lugares onde as pessoas se encontram e se conectam”.
O propósito central dos planejadores é tentar criar “uma cidade familiar”, boa para crianças, idosos e jovens. A ideia básica, dizem eles, não é proibir carros para as cidades, “mas encontrar um novo equilíbrio”, segundo Smet. No mês passado, Bruxelas passou a delimitar as zonas de baixas emissões, com o objetivo de delas excluir progressivamente os carros mais poluidores. Esperam também os legisladores que 2030 todos os ônibus da cidade sejam eletrificados.
Um ponto de comparação poderia ser Londres, que nos primeiros meses de 2018 já atingiu o limite de poluição previsto para todo o ano – o que já faz desde 2010. Outro exemplo é Paris, que bane temporariamente metade dos seus carros para conter a poluição. A Alemanha também está propondo o transporte gratuito como forma de combater a poluição. Em São Paulo, estudos mostram que sem o metrô a poluição do ar seria 30% maior.
A convicção entre nossos governantes é de que os veículos, principalmente automóveis, são o ponto central dos problemas e dificuldades nas áreas urbanas. Pela legislação, os municípios têm prazos para apresentar seus planos de mobilidade urbana. Terão prioridade para recursos financeiros aqueles com mais de 100 mil habitantes. O cadastramento é feito pelo Ministério das Cidades.
As estatísticas sobre viagens em carros na cidade de São Paulo são impressionantes. A capital paulista é a quarta capital brasileira em número de automóveis por habitante. A pesquisa urbana já de 2012, feita pelo metrô, mostra que a “taxa de motorização da Região Metropolitana, estagnada entre 1997 e 2007, cresceu 15% entre 2007 e 2012. Dos 43,7 milhões de deslocamentos diários na Região Metropolitana de São Paulo, 28,25% são feitos com automóvel próprio, seja dirigindo ou de carona. As viagens a bordo de automóvel particular têm, em média, distância de 6,06 quilômetros na Região Metropolitana e 5,49 quilômetros na cidade. A média de tempo para cada uma é de 31 minutos.
Em 42,1% dos deslocamentos em carro próprio na cidade de São Paulo a distância entre origem e destino não ultrapassa 2,5 quilômetros; os deslocamentos entre 2,5 e 5 quilômetros representam 20,8% do total. A conclusão é de que dois terços dos deslocamentos ficam num raio de 5 quilômetros do ponto de origem.
Outros estudos mostram a área brutal necessária para estacionamento de veículos particulares durante a noite (e a ociosidade no mesmo período, incorrendo sobre números gigantescos de investimentos). Na cidade de Goiânia, por exemplo, as áreas destinadas a veículos “ocupam quase 20% das áreas totais da capital”. São quase 4,7 milhões de metros quadrados na área construída da capital de Goiás, incluindo boxes de garagens nos prédios residenciais e comerciais – ou 11,87% da área construída com estacionamentos (O Popular, 11/2).
Na capital goiana, hoje há apenas 94 quilômetros de rotas “cicláveis”, perante 6 mil quilômetros de ruas. O Plano Diretor, que está sendo atualizado, vai propor a ampliação dos corredores de transporte coletivo e a valorização de “rotas caminháveis”.
E assim se vai: o que era problema, andar a pé, com o tempo se transformou em solução, com a adoção do automóvel; o que era solução, o automóvel, virou problema, sob a forma de custos – estacionamento, combustíveis. O exercício físico – andar a pé – colide com a motorização das ruas, o risco de atropelamento, a ingestão de poluentes.
Talvez se chegue a um novo axioma: a única possibilidade é o retorno aos tempos antigos, em que o caminho seja proibir que só se implantem cidades com 5 mil pessoas, ou 10 mil ou 20 mil. E aí já não faltarão os que proponham cidades com 50 mil, ou 100 mil, ou 1 milhão, ou...
Agora, por exemplo, Bruxelas, na Bélgica, decidiu oferecer transporte gratuito como forma de reduzir a circulação de veículos particulares, diminuir as emissões de carbono poluente e cumprir as regras da União Europeia sobre a qualidade do ar (Mobilize, 1.º/3). As regras parecem claras: depois de dois dias consecutivos de níveis altos de material particulado no ar (acima de 51 a 70 microgramas por metro cúbico), ônibus, metrô, VLTs terão de abrir suas portas e deixá-las completamente livres, acessíveis a qualquer pessoa, sem que nada pague, seguindo lei agora adotada pelo conselho da cidade.
Mas os carros particulares também sofrerão restrições, seus limites de velocidade serão igualmente reduzidos em cerca de um terço. Outra fonte de poluição atingida é a queima de madeira em fornos, proibida por lei (mas ainda passará por revisão judicial). Espera-se que a nova legislação passe a vigorar já no próximo verão europeu. A nova lei seria uma espécie de correção de rota de políticas anteriores, que beneficiaram os automóveis particulares durante décadas, diz Pascoal Smet, secretário de Mobilidade de Bruxelas.
“Precisamos criar espaços públicos de qualidade”, pondera o secretário. “A pesquisa mostra que, quanto mais espaço você oferece aos carros, mais carros você atrai”. E as cidades mais atraentes para os carros são também as mais congestionadas. “Já os novos fundamentos da política também partem da convicção de quem, ao dar espaço aos pedestres e ciclistas, as cidades podem criar lugares onde as pessoas se encontram e se conectam”.

Um ponto de comparação poderia ser Londres, que nos primeiros meses de 2018 já atingiu o limite de poluição previsto para todo o ano – o que já faz desde 2010. Outro exemplo é Paris, que bane temporariamente metade dos seus carros para conter a poluição. A Alemanha também está propondo o transporte gratuito como forma de combater a poluição. Em São Paulo, estudos mostram que sem o metrô a poluição do ar seria 30% maior.
A convicção entre nossos governantes é de que os veículos, principalmente automóveis, são o ponto central dos problemas e dificuldades nas áreas urbanas. Pela legislação, os municípios têm prazos para apresentar seus planos de mobilidade urbana. Terão prioridade para recursos financeiros aqueles com mais de 100 mil habitantes. O cadastramento é feito pelo Ministério das Cidades.
As estatísticas sobre viagens em carros na cidade de São Paulo são impressionantes. A capital paulista é a quarta capital brasileira em número de automóveis por habitante. A pesquisa urbana já de 2012, feita pelo metrô, mostra que a “taxa de motorização da Região Metropolitana, estagnada entre 1997 e 2007, cresceu 15% entre 2007 e 2012. Dos 43,7 milhões de deslocamentos diários na Região Metropolitana de São Paulo, 28,25% são feitos com automóvel próprio, seja dirigindo ou de carona. As viagens a bordo de automóvel particular têm, em média, distância de 6,06 quilômetros na Região Metropolitana e 5,49 quilômetros na cidade. A média de tempo para cada uma é de 31 minutos.
Em 42,1% dos deslocamentos em carro próprio na cidade de São Paulo a distância entre origem e destino não ultrapassa 2,5 quilômetros; os deslocamentos entre 2,5 e 5 quilômetros representam 20,8% do total. A conclusão é de que dois terços dos deslocamentos ficam num raio de 5 quilômetros do ponto de origem.
Outros estudos mostram a área brutal necessária para estacionamento de veículos particulares durante a noite (e a ociosidade no mesmo período, incorrendo sobre números gigantescos de investimentos). Na cidade de Goiânia, por exemplo, as áreas destinadas a veículos “ocupam quase 20% das áreas totais da capital”. São quase 4,7 milhões de metros quadrados na área construída da capital de Goiás, incluindo boxes de garagens nos prédios residenciais e comerciais – ou 11,87% da área construída com estacionamentos (O Popular, 11/2).
Na capital goiana, hoje há apenas 94 quilômetros de rotas “cicláveis”, perante 6 mil quilômetros de ruas. O Plano Diretor, que está sendo atualizado, vai propor a ampliação dos corredores de transporte coletivo e a valorização de “rotas caminháveis”.
E assim se vai: o que era problema, andar a pé, com o tempo se transformou em solução, com a adoção do automóvel; o que era solução, o automóvel, virou problema, sob a forma de custos – estacionamento, combustíveis. O exercício físico – andar a pé – colide com a motorização das ruas, o risco de atropelamento, a ingestão de poluentes.
Talvez se chegue a um novo axioma: a única possibilidade é o retorno aos tempos antigos, em que o caminho seja proibir que só se implantem cidades com 5 mil pessoas, ou 10 mil ou 20 mil. E aí já não faltarão os que proponham cidades com 50 mil, ou 100 mil, ou 1 milhão, ou...
As pessoas sensíveis
De matar galinhas
Porém são capazes
De comer galinhas
O dinheiro cheira a pobre e cheira
À roupa do seu corpo
Aquela roupa
Que depois da chuva secou sobre o corpo
Porque não tinham outra
O dinheiro cheira a pobre e cheira
A roupa
Que depois do suor não foi lavada
Porque não tinham outra
«Ganharás o pão com o suor do teu rosto»
Assim nos foi imposto
E não:
«Com o suor dos outros ganharás o pão»
Ó vendilhões do templo
Ó construtores
Das grandes estátuas balofas e pesadas
Ó cheios de devoção e de proveito
Perdoai-lhes Senhor
Porque eles sabem o que fazem
Sophia de Mello Breyner Andresen
Porém são capazes
De comer galinhas
O dinheiro cheira a pobre e cheira
À roupa do seu corpo
Aquela roupa
Que depois da chuva secou sobre o corpo
Porque não tinham outra
O dinheiro cheira a pobre e cheira
A roupa
Que depois do suor não foi lavada
Porque não tinham outra
«Ganharás o pão com o suor do teu rosto»
Assim nos foi imposto
E não:
«Com o suor dos outros ganharás o pão»
Ó vendilhões do templo
Ó construtores
Das grandes estátuas balofas e pesadas
Ó cheios de devoção e de proveito
Perdoai-lhes Senhor
Porque eles sabem o que fazem
Sophia de Mello Breyner Andresen
Fantasmas
Minha tia Amália via fantasmas. Suas visões eram tão rotineiras que eu me perguntava como ela suportava a nossa vidinha materialista do arroz-com-feijão tendo aquele dom de conjugar este mundo esmagado pela concretude com um astral ilimitado.
Titia morreu solteira, embora tivesse sido alvo do amor de um careca que puxava de uma perna, usava bengala e tinha um pecado mortal: era desquitado. Quando meus tios machistas e ciumentos a surpreenderam num banco de jardim de mãos dadas com o Agenor, foi um drama. Duvidaram de sua inocência certamente abusada pelas óbvias más intenções do namorado e até mesmo sua virgindade guardada, aliás, por mais de meio século e com a qual penso que faleceu, foi motivo de preocupação.
Foi nessa ocasião freudiana que ela viu o espectro de sua mãe Jesuína (que havia morrido quando era menina e substituída por uma madrasta dominadora) e muitas almas de homens simpáticos, parecidos com o Clark Gable, seu astro de cinema favorito, que a ela suplicavam ave-marias e padre-nossos que não custam nada a ninguém.
Uma noite, quando displicentemente eu joguei minha calça curta e uma camisa em cima da cadeira no nosso quarto de dormir, ela advertiu: foi no meio de roupas assim largadas que minha mãe apareceu...Viraram a nuvem que desenhou o fantasma. Ele se aproximou de mim, deu-me um beijo na testa e sussurrou: “Eu te amo muito, minha filhinha”.
Pela primeira vez na minha vida, me dei conta da imperiosa necessidade do amor que minha tia Amália jamais vivenciou. Nem do seu namorado banido, nem de nós que dela apreendemos a lição que hoje afeta o desconcertado universo político-social brasileiro: o retorno do reprimido, a volta dos fantasmas, o retorno de atores que saíram do palco.
*

Tia Amália foi interditada. Disciplinar impulsos, restabelecer a ordem é tão arriscado quanto operar o coração. Reformas fazem parte da democracia. Intervenções são um tabu para uma elite neofascista que se pensa – haja paciência! – “aberta” e “socialista”. Intervenções podem fracassar ou serem comédias como foram as que sofreram a cidade do Rio de Janeiro de Sérgio Cabral Filho e no desonesto regime lulopetista.
*
A cidade do Rio de Janeiro tem um fantasma: o Estado do Rio que assombra a “cidade maravilhosa”. Nenhuma coletividade urbana foi tão denegrida como esse Rio que, em 1960, deixou de ser capital do império e da República para virar cidade-Estado. E, em 1975, num gesto de vingança eleitoral, foi sem consulta pública e em pleno regime militar “fundida” ao Estado do Rio como mais uma capital, tendo a glória de desbancar uma modesta Niterói.
*
Esse é o pano de fundo da cidade que rumou para o descontrole e a intervenção. O ideal seria reformar. Mas como seguir a receita quando a cidade se descobre governada por bandidos que, ao longo de confrontos com a polícia, demonstram mais poder, inteligência (planejam absurdamente de dentro dos presídios!) e mais eficácia do que as forças da lei?
A latitude conquistada pelo crime foi tamanha que assaltos são televisionados, ultrapassando os limiares jamais discutidos, da esperteza e da malandragem tão admirados e atribuídos à identidade “carioca” conforme assinalo na minha obra.
O desequilíbrio entre ordem e desordem tem também outras causas. Como ordenar um país e uma cidade quando um ex-presidente é condenado, o governador do Rio está na cadeia para cumprir uma pena de 100 anos, o presidente em exercício e vários ministros são indiciados? Se os “de cima” roubaram e alguns só agora estão sendo presos, por que diabos eu vou seguir a dura senda da honestidade?
*
É dentro desse oceano de ausências morais que se coloca a questão não somente de restabelecer a ordem, mas de descobrir os atores que – além de alguns juízes e promotores – vão assumir a tarefa de estabelecer limites já que todos têm, como dizíamos sorrindo, “todos têm o rabo preso!”.
Como encontrar os ilibados nesse rotineiro teatro de atores que são mocinhos em público, mas com seus amigos e companheiros de partido e revolução assaltam a República em particular? E, indo além, sequestram a ética por meio de um partido que prometia “não roubar e não deixar roubar”, mas que foi a agremiação capaz do maior assalto jamais registrada à economia do Brasil?
*
É nessas circunstâncias que devemos considerar o retorno dos militares. Pois se a democracia exige tanto civilizar o capitalismo quanto as desmedidas ambições e abusos ideológicos ela não pode dispensar um segmento tão importante para a manutenção da ordem como o militar. Na difícil dinâmica democrática, cujo centro é a constante revisão de si mesma, ninguém pode ser antecipadamente demonizado. Nem todo militar é fascista, nem todo comunista é um comedor de criancinhas e nem todo esquerdista é imune a maracutaias. Sabemos como eles adoram prometer tudo para todos, fazer compadrios preferenciais com os ricos e colecionar terrenos e relógios de luxo.
PS: Essa crônica é dedicada a Fernando Gabeira, a Rubem César Fernandes e a todos os exorcistas.
quinta-feira, 8 de março de 2018
O drama é maior do que 2018
O Brasil vive um momento dramático. Os brasileiros vão às urnas em outubro esperando que o País encontre saídas reais para a crise e um novo sentido de futuro. As últimas escolhas e a composição dos últimos governos deixaram sequelas profundas que comprometeram a credibilidade da política. Hoje a crise ética é uma fratura aberta; a segurança pública, um descalabro, acossada pelo crime organizado. Parcas melhoras na economia e no emprego não alteraram esse cenário de desesperança.
Diante da confirmação da condenação de Lula pelo Tribunal Regional Federal da 4.ª Região (TRF-4), que deve ceifar sua candidatura presidencial, o País tem diante de si o desafio de superar o lulismo. A corrupção sistemática que arrasou o País nos anos do lulismo abalou todo o edifício político que havia sido montado nos anos de democratização. O cenário pós-Lula deverá requisitar o concurso do conjunto da sociedade, da opinião pública, dos intelectuais, dos partidos políticos e de todos os que se possam mobilizar pela reconstrução do País.
Lula e o PT nasceram no outono do autoritarismo como peças do “sindicalismo de resultados”, com roupagem e retórica de esquerda. No governo, o lulopetismo foi uma “esquerda de resultados”, nefasta para a sociedade brasileira, em especial para os mais pobres pois os subalternizou, fixando-os em seus interesses individuais e impedindo qualquer perspectiva de elevação cultural e política que os convocasse a formular e compartilhar um projeto nacional e civilizatório. O lulopetismo foi tóxico para a democracia e a esquerda. Como escreveu Demétrio Magnoli em artigo recente, “a ‘esquerda’ lulista escolheu o capitalismo selvagem do consumo privado, do crédito popular, do cartão magnético, das Casas Bahia e do Magazine Luiza” como horizonte de satisfação hedonista das massas. A pragmática petista contou, das origens até agora, com a anuência da “esquerda maximalista” que soldava apoios ao “grande líder” quando julgava necessário e conveniente. Papel desempenhado também pelos intelectuais das universidades públicas. Foi assim que o lulopetismo condenou o Brasil a não ver realizada a social-democracia ou o reformismo que poderiam instaurar um novo cenário histórico no País. Em nome do mito e servindo-se dele, o PT bloqueou a afirmação de uma esquerda democrática, defensora das reformas e aberta ao novo.
No Brasil de hoje, as ruas, que foram essenciais em 2013 e no impeachment de Dilma Rousseff, em 2016, esmoreceram, mas não se despreocuparam. Como se sabia, seria ilusão esperar delas uma saída clara para a crise em que o País mergulhou. Sem conseguir estancar a crise ética, o governo Temer não produziu a expectativa positiva que se esperava, mesmo com uma oposição fraca e prisioneira do lulismo. A política, que havia revivescido, acabou por não se consolidar. Resultado: o drama se instalou, com uma sociedade órfã sem poder confiar no governo ou na oposição.
A expectativa voltou-se para as dimensões externas à política, notadamente para a Operação Lava Jato, que cumpria exemplarmente seu papel republicano e constitucional. Desorientada, a opinião pública passou a admitir saídas ilusórias e despropositadas. Alguns continuaram a ver nas ruas, via democracia direta, a alternativa a esse estado de desorientação. Outros concluíram que decisivo seria “dar o poder” aos “homens de toga”, como substitutos da má política. Embalados pela ânsia de poder, outros ainda viram nas eleições presidenciais de 2018 a salvação mediante apoio a algum outsider, uma sedução pelo transformismo que não faria mais que prolongar nossa agonia; por sorte, parece que essa febre está cedendo.
Mesmo nesse cenário parece haver alguma oxigenação no protagonismo dos chamados “movimentos cívicos” que clamam por renovação da política. Indiscutivelmente positivos, seu exclusivismo e seu finalismo eleitoral merecem, contudo, preocupação, bem como requerem uma checagem do seu real tamanho e sua incidência. Se é preciso evitar o “populismo” como alternativa, também é justo preocupar-se com o que os italianos chamam de qualunquismo, isto é, uma política sem organicidade, que se esgota na identidade do homem comum e das coisas simples, pois sabemos que a política é complexa e exige muito mais do que isso.
Fará bem ao País uma coalizão de forças que se expresse em ideias claras, equipando a sociedade e o Estado para enfrentarem os problemas que derivam da grande transformação advinda da revolução tecnológica em curso. O Brasil tem todas as credenciais para proporcionar a seus cidadãos uma vida digna no momento em que vai completar 200 anos de existência como país independente.
É, certamente, uma batalha dramática e exigente, considerando todos os desafios que temos pela frente, cujo inimigo maior são as promessas, imprudentes e perigosas, que comprometem os horizontes fiscais da República, além de escamotearem, com políticas econômicas dignas de desenhos autárquicos do passado, os equívocos trágicos que a História, mesmo a mais recente, nos tem ensinado.
Não há razão para desejar partir do zero e tampouco há razão para descrer dos brasileiros de bem que construíram, mesmo contraditoriamente, um País cheio de vitalidade e que, transformado, será um excelente lugar para viver. É preciso extrair do esforço democrático de luta dos brasileiros um amplo programa de reformas que deverá, sem as falsas promessas e ilusões da demagogia e da antipolítica, pôr o País para andar. Não surgirá nada de novo nesta quadra se nossos propósitos não visarem uma atualização verdadeira e realista. As ideias-chave para tanto são a valorização do trabalho, da ética e da República, estímulo à inovação e ao crescimento econômico, visão social consonante com o mundo em transformação, democracia e novo reformismo. Com as pessoas no centro das nossas preocupações e dos nossos horizontes
Alberto Aggio
Diante da confirmação da condenação de Lula pelo Tribunal Regional Federal da 4.ª Região (TRF-4), que deve ceifar sua candidatura presidencial, o País tem diante de si o desafio de superar o lulismo. A corrupção sistemática que arrasou o País nos anos do lulismo abalou todo o edifício político que havia sido montado nos anos de democratização. O cenário pós-Lula deverá requisitar o concurso do conjunto da sociedade, da opinião pública, dos intelectuais, dos partidos políticos e de todos os que se possam mobilizar pela reconstrução do País.
Lula e o PT nasceram no outono do autoritarismo como peças do “sindicalismo de resultados”, com roupagem e retórica de esquerda. No governo, o lulopetismo foi uma “esquerda de resultados”, nefasta para a sociedade brasileira, em especial para os mais pobres pois os subalternizou, fixando-os em seus interesses individuais e impedindo qualquer perspectiva de elevação cultural e política que os convocasse a formular e compartilhar um projeto nacional e civilizatório. O lulopetismo foi tóxico para a democracia e a esquerda. Como escreveu Demétrio Magnoli em artigo recente, “a ‘esquerda’ lulista escolheu o capitalismo selvagem do consumo privado, do crédito popular, do cartão magnético, das Casas Bahia e do Magazine Luiza” como horizonte de satisfação hedonista das massas. A pragmática petista contou, das origens até agora, com a anuência da “esquerda maximalista” que soldava apoios ao “grande líder” quando julgava necessário e conveniente. Papel desempenhado também pelos intelectuais das universidades públicas. Foi assim que o lulopetismo condenou o Brasil a não ver realizada a social-democracia ou o reformismo que poderiam instaurar um novo cenário histórico no País. Em nome do mito e servindo-se dele, o PT bloqueou a afirmação de uma esquerda democrática, defensora das reformas e aberta ao novo.
No Brasil de hoje, as ruas, que foram essenciais em 2013 e no impeachment de Dilma Rousseff, em 2016, esmoreceram, mas não se despreocuparam. Como se sabia, seria ilusão esperar delas uma saída clara para a crise em que o País mergulhou. Sem conseguir estancar a crise ética, o governo Temer não produziu a expectativa positiva que se esperava, mesmo com uma oposição fraca e prisioneira do lulismo. A política, que havia revivescido, acabou por não se consolidar. Resultado: o drama se instalou, com uma sociedade órfã sem poder confiar no governo ou na oposição.
A expectativa voltou-se para as dimensões externas à política, notadamente para a Operação Lava Jato, que cumpria exemplarmente seu papel republicano e constitucional. Desorientada, a opinião pública passou a admitir saídas ilusórias e despropositadas. Alguns continuaram a ver nas ruas, via democracia direta, a alternativa a esse estado de desorientação. Outros concluíram que decisivo seria “dar o poder” aos “homens de toga”, como substitutos da má política. Embalados pela ânsia de poder, outros ainda viram nas eleições presidenciais de 2018 a salvação mediante apoio a algum outsider, uma sedução pelo transformismo que não faria mais que prolongar nossa agonia; por sorte, parece que essa febre está cedendo.
Mesmo nesse cenário parece haver alguma oxigenação no protagonismo dos chamados “movimentos cívicos” que clamam por renovação da política. Indiscutivelmente positivos, seu exclusivismo e seu finalismo eleitoral merecem, contudo, preocupação, bem como requerem uma checagem do seu real tamanho e sua incidência. Se é preciso evitar o “populismo” como alternativa, também é justo preocupar-se com o que os italianos chamam de qualunquismo, isto é, uma política sem organicidade, que se esgota na identidade do homem comum e das coisas simples, pois sabemos que a política é complexa e exige muito mais do que isso.
Fará bem ao País uma coalizão de forças que se expresse em ideias claras, equipando a sociedade e o Estado para enfrentarem os problemas que derivam da grande transformação advinda da revolução tecnológica em curso. O Brasil tem todas as credenciais para proporcionar a seus cidadãos uma vida digna no momento em que vai completar 200 anos de existência como país independente.
É, certamente, uma batalha dramática e exigente, considerando todos os desafios que temos pela frente, cujo inimigo maior são as promessas, imprudentes e perigosas, que comprometem os horizontes fiscais da República, além de escamotearem, com políticas econômicas dignas de desenhos autárquicos do passado, os equívocos trágicos que a História, mesmo a mais recente, nos tem ensinado.
Não há razão para desejar partir do zero e tampouco há razão para descrer dos brasileiros de bem que construíram, mesmo contraditoriamente, um País cheio de vitalidade e que, transformado, será um excelente lugar para viver. É preciso extrair do esforço democrático de luta dos brasileiros um amplo programa de reformas que deverá, sem as falsas promessas e ilusões da demagogia e da antipolítica, pôr o País para andar. Não surgirá nada de novo nesta quadra se nossos propósitos não visarem uma atualização verdadeira e realista. As ideias-chave para tanto são a valorização do trabalho, da ética e da República, estímulo à inovação e ao crescimento econômico, visão social consonante com o mundo em transformação, democracia e novo reformismo. Com as pessoas no centro das nossas preocupações e dos nossos horizontes
Alberto Aggio
A jogada de marketing de Temer
Há três semanas, a imprensa brasileira não conhece outra pauta que não seja a intervenção no Rio de Janeiro. E conforme dito pelo próprio presidente Michel Temer, a ofensiva na segurança pública acabou sendo uma "jogada de mestre". Já são três semanas nas quais não imperam mais as notícias sobre os escândalos de corrupção do governo de Temer e do seu partido, o MDB.
E prontamente brotou no até então impopular presidente a esperança de conseguir alcançar um resultado respeitável nas eleições de outubro. Seu plano de deixar de impor reformas impopulares como a da Previdência em detrimento de temas mais populares, como a segurança pública, parece trazer resultados. De acordo com pesquisas, mais de 80% da população são favoráveis à intervenção.
Temer não pode ser acusado por sua guinada de 180 graus. Afinal, faz parte do repertório da política se abster de reformas impopulares nos meses que antecedem as eleições e mudar para temas populares. No caso de Temer é intrigante, pois até então pouco lhe importavam seus índices de popularidade. E sim, ele até mesmo gostava dos baixos índices – pois, segundo declaração própria, lhe davam carta branca para promover reformas impopulares, mas necessárias.
Mas este não é mais o caso. Já seriam 149 as iniciativas suspensas, incluindo a tão necessária reforma da Previdência. Porque, enquanto uma intervenção federal estiver ativa em um estado, a Constituição brasileira não pode sofrer alterações. A intervenção no Rio de Janeiro deve ocorrer até final de dezembro e, desta forma, não serão mais adotadas reformas pelo governo Temer. Ele deve ter um apreço muito especial pela segurança no Rio de Janeiro, para condenar o Brasil inteiro à paralisação reformista.
No entanto, mesmo três semanas após o início da intervenção, ainda parece não haver um plano claro. O que exatamente devem fazer as unidades estacionadas desde julho no Rio de Janeiro? Onde e quando elas devem ser usadas, e como serão integrados a elas os moradores das favelas? Pode-se ter a impressão de que a intervenção foi anunciada às pressas, sem que houvesse conceito algum. Política profissional parece ser algo bem diferente.
Mas o Rio de Janeiro já vivenciou muitas vezes tais situações em sua história. A reportagem da DW Brasil "Exército no Rio: 25 anos de fracassos" enumera os momentos em que os militares foram convocados para ajudar em meio à crescente violência. E sempre com resultados decepcionantes.
O que não é de se estranhar. Basta abrir livros de história para notar que as questões sociais, incluindo a violência, sempre foram respondidas somente com a mão pesada da repressão. Quase não houve melhorias sociais. E é por isso que, mesmo 130 anos após o fim da escravidão no Brasil, muitos descendentes dos outrora libertados escravos ainda precisam viver nas mesmas circunstâncias precárias. Como uma sociedade pode querer resolver problemas sociais sem uma política social sustentável?
A corrupção dentro da polícia também precisaria finalmente ser abordada. Algo que não ocorrerá no curto prazo, ou seja, até 31 de dezembro, a data do fim da intervenção federal. O tema segurança pública dominará as eleições em outubro, e se Temer conseguir controlar a violência no Rio de Janeiro com a ajuda dos militares, será recompensado nas urnas.
Mas será que a intervenção trará melhorias duradouras, que irão além de 31 de dezembro? A experiência diz que tudo deve ficar na mesmice. A operação do Exército no último fim de semana, na Vila Kennedy, foi emblemática. Depois que centenas de soldados retiraram os bloqueios erguidos pelos narcotraficantes nas vias de acesso à favela no sábado, os militares se retiraram satisfeitos no domingo. Na segunda-feira, os criminosos já haviam reerguido todas as barreiras.
Thomas Milz
Temer não pode ser acusado por sua guinada de 180 graus. Afinal, faz parte do repertório da política se abster de reformas impopulares nos meses que antecedem as eleições e mudar para temas populares. No caso de Temer é intrigante, pois até então pouco lhe importavam seus índices de popularidade. E sim, ele até mesmo gostava dos baixos índices – pois, segundo declaração própria, lhe davam carta branca para promover reformas impopulares, mas necessárias.
Mas este não é mais o caso. Já seriam 149 as iniciativas suspensas, incluindo a tão necessária reforma da Previdência. Porque, enquanto uma intervenção federal estiver ativa em um estado, a Constituição brasileira não pode sofrer alterações. A intervenção no Rio de Janeiro deve ocorrer até final de dezembro e, desta forma, não serão mais adotadas reformas pelo governo Temer. Ele deve ter um apreço muito especial pela segurança no Rio de Janeiro, para condenar o Brasil inteiro à paralisação reformista.
No entanto, mesmo três semanas após o início da intervenção, ainda parece não haver um plano claro. O que exatamente devem fazer as unidades estacionadas desde julho no Rio de Janeiro? Onde e quando elas devem ser usadas, e como serão integrados a elas os moradores das favelas? Pode-se ter a impressão de que a intervenção foi anunciada às pressas, sem que houvesse conceito algum. Política profissional parece ser algo bem diferente.
Mas o Rio de Janeiro já vivenciou muitas vezes tais situações em sua história. A reportagem da DW Brasil "Exército no Rio: 25 anos de fracassos" enumera os momentos em que os militares foram convocados para ajudar em meio à crescente violência. E sempre com resultados decepcionantes.
O que não é de se estranhar. Basta abrir livros de história para notar que as questões sociais, incluindo a violência, sempre foram respondidas somente com a mão pesada da repressão. Quase não houve melhorias sociais. E é por isso que, mesmo 130 anos após o fim da escravidão no Brasil, muitos descendentes dos outrora libertados escravos ainda precisam viver nas mesmas circunstâncias precárias. Como uma sociedade pode querer resolver problemas sociais sem uma política social sustentável?
A corrupção dentro da polícia também precisaria finalmente ser abordada. Algo que não ocorrerá no curto prazo, ou seja, até 31 de dezembro, a data do fim da intervenção federal. O tema segurança pública dominará as eleições em outubro, e se Temer conseguir controlar a violência no Rio de Janeiro com a ajuda dos militares, será recompensado nas urnas.
Mas será que a intervenção trará melhorias duradouras, que irão além de 31 de dezembro? A experiência diz que tudo deve ficar na mesmice. A operação do Exército no último fim de semana, na Vila Kennedy, foi emblemática. Depois que centenas de soldados retiraram os bloqueios erguidos pelos narcotraficantes nas vias de acesso à favela no sábado, os militares se retiraram satisfeitos no domingo. Na segunda-feira, os criminosos já haviam reerguido todas as barreiras.
Thomas Milz
Apenas uma máscara
Como a qualquer cidadão
Num teatro de sombras e interesses, Lula reconheceu as habilidades Michel Temer. Para o ex-presidente, o atual soube se proteger de um golpe — como se estivesse acima de qualquer suspeita (entrevista que concedeu à Mônica Bergamo está aqui). Talvez, Lula meça Temer com sua régua, mas o fato é que ninguém está isento de ser investigado, se houver indícios para isto.
Nos últimos dias, porém, dois fatos sincronizados complicaram a situação do presidente, retirando-lhe a aura de exímio equilibrista que lhe é atribuída. Primeiro, frustrou-se a operação em que o ex-diretor-geral da PF, Fernando Segovia, insinuava arquivar os processos contra o presidente. Depois, os efeitos da intervenção barra forçada no RJ parecem, até aqui, pouco significativos para a diminuição de sua rejeição. Temer voltou a estar vulnerável.
Sem manobras e sem perspectiva de continuidade no poder, haverá inevitavelmente um amanhã; o dia seguinte, que, sem blindagem, sem mandato e sem foro especial, Michel Temer terá mesmo que se submeter à Justiça de primeira instância, muito menos tolerante do que têm sido alguns dos ministros dos Tribunais Superiores. Sua cama, ao que parece, está sendo preparada.
No interior do processo de frustração aos planos de Temer, encontra-se Luís Roberto Barroso. O ministro do STF tem sido implacável nos embates com seus colegas refratários a investigar autoridades com foro privilegiado. Mas, também na condução, como juiz, de processos que envolvam essas autoridades.
Foi nessa condição que, ao puxar as orelhas de Segovia, impediu a trama carnavalesca do arquivamento. É assim, agora, ao definir a quebra de sigilo bancário do presidente e indicar que não haverá condescendência na instrução de um processo que deve seguir para além do mandato.
Não entro em e nem cabem a mim questões jurídicas que não domino. Não sei se Barroso age nos limites da lei e do direito. Deixo aos especialistas verdadeiros ou aos pretensos que façam essa discussão. O fato é que Barroso é hoje, o maior antagonista de Temer e dos ''com foro''. É ainda pedra no sapato que mais incomoda e não permite a grande pizza ''com Supremo, com tudo'', que Romero Jucá proclamou certa feita.
É da lavra Barroso uma das frases que, politicamente, melhor cabem à crônica destes dias: “eu via as malas, eu vi os dinheiros, eu vi a corridinha”, disse no plenário do STF. Ficará para a história, citada ao longo do tempo. E todo viram: são imagens que refutam argumentos que buscam impedir, pelo menos, a investigação dos maleiros e de suas conexões políticas e pessoais.
Imagens que aconselham apurar indícios, dúvidas e suspeitas. Claro, sem prejulgar. Como qualquer cidadão, Michel Temer merece investigação criteriosa, julgamento justo — se a ele for levado. Se é fato que não se pode afirmar que o presidente está envolvido com lambanças atribuídas a pessoas de seu grupo e confiança, tampouco se pode afirmar que não esteja.
Qualquer sujeito intelectualmente honesto sabe disto: ao presidente, não cabem privilégios que desmoralizem a política e a democracia. Como a qualquer cidadão. Até por questão de Justiça e igualdade — uniformidade de critérios, pelo menos —, considerações a respeito da governabilidade não cabem agora, como não couberam para o caso de Dilma Rousseff.
Ao embrenhar-se na defesa de Temer, talvez em causa própria, Lula se precipita como seu advogado político. Elevando-o à condição de vítima de um golpe, vislumbra o quê, um pacto? Ora, também viu ''as malas, os dinheiros, a corridinha”, embora pareça ter-se esquecido, por conveniência.
Analistas políticos dominam umas poucas ferramentas de análise: compreensão lógica de fatos e personagens; uns conceitos. Contudo, a coerência é matéria que vem do caráter: o que se exigiu em relação a Dilma, o que se defende em relação a Lula, deve servir, do mesmo modo, a Michel Temer. Como a qualquer cidadão, mesmo para quem não seja um cidadão qualquer.
Carlos Melo
Nos últimos dias, porém, dois fatos sincronizados complicaram a situação do presidente, retirando-lhe a aura de exímio equilibrista que lhe é atribuída. Primeiro, frustrou-se a operação em que o ex-diretor-geral da PF, Fernando Segovia, insinuava arquivar os processos contra o presidente. Depois, os efeitos da intervenção barra forçada no RJ parecem, até aqui, pouco significativos para a diminuição de sua rejeição. Temer voltou a estar vulnerável.
Sem manobras e sem perspectiva de continuidade no poder, haverá inevitavelmente um amanhã; o dia seguinte, que, sem blindagem, sem mandato e sem foro especial, Michel Temer terá mesmo que se submeter à Justiça de primeira instância, muito menos tolerante do que têm sido alguns dos ministros dos Tribunais Superiores. Sua cama, ao que parece, está sendo preparada.

No interior do processo de frustração aos planos de Temer, encontra-se Luís Roberto Barroso. O ministro do STF tem sido implacável nos embates com seus colegas refratários a investigar autoridades com foro privilegiado. Mas, também na condução, como juiz, de processos que envolvam essas autoridades.
Foi nessa condição que, ao puxar as orelhas de Segovia, impediu a trama carnavalesca do arquivamento. É assim, agora, ao definir a quebra de sigilo bancário do presidente e indicar que não haverá condescendência na instrução de um processo que deve seguir para além do mandato.
Não entro em e nem cabem a mim questões jurídicas que não domino. Não sei se Barroso age nos limites da lei e do direito. Deixo aos especialistas verdadeiros ou aos pretensos que façam essa discussão. O fato é que Barroso é hoje, o maior antagonista de Temer e dos ''com foro''. É ainda pedra no sapato que mais incomoda e não permite a grande pizza ''com Supremo, com tudo'', que Romero Jucá proclamou certa feita.
É da lavra Barroso uma das frases que, politicamente, melhor cabem à crônica destes dias: “eu via as malas, eu vi os dinheiros, eu vi a corridinha”, disse no plenário do STF. Ficará para a história, citada ao longo do tempo. E todo viram: são imagens que refutam argumentos que buscam impedir, pelo menos, a investigação dos maleiros e de suas conexões políticas e pessoais.
Imagens que aconselham apurar indícios, dúvidas e suspeitas. Claro, sem prejulgar. Como qualquer cidadão, Michel Temer merece investigação criteriosa, julgamento justo — se a ele for levado. Se é fato que não se pode afirmar que o presidente está envolvido com lambanças atribuídas a pessoas de seu grupo e confiança, tampouco se pode afirmar que não esteja.
Qualquer sujeito intelectualmente honesto sabe disto: ao presidente, não cabem privilégios que desmoralizem a política e a democracia. Como a qualquer cidadão. Até por questão de Justiça e igualdade — uniformidade de critérios, pelo menos —, considerações a respeito da governabilidade não cabem agora, como não couberam para o caso de Dilma Rousseff.
Ao embrenhar-se na defesa de Temer, talvez em causa própria, Lula se precipita como seu advogado político. Elevando-o à condição de vítima de um golpe, vislumbra o quê, um pacto? Ora, também viu ''as malas, os dinheiros, a corridinha”, embora pareça ter-se esquecido, por conveniência.
Analistas políticos dominam umas poucas ferramentas de análise: compreensão lógica de fatos e personagens; uns conceitos. Contudo, a coerência é matéria que vem do caráter: o que se exigiu em relação a Dilma, o que se defende em relação a Lula, deve servir, do mesmo modo, a Michel Temer. Como a qualquer cidadão, mesmo para quem não seja um cidadão qualquer.
Carlos Melo
País rico
Brasil ganhou mais de cinco mil milionários em 2017 Número de clientes com mais de R$ 1 milhão investidos chega a 117.421, alta de 4,8% (Chamada de capa de O GLOBO)
Nas ruas da cidade, nas mais centrais até, andam pequenos vadios, a cursar a perigosa universidade da calariça das sarjetas, aos quais o governo não dá destino, o os mete num asilo, num colégio profissional qualquer, porque não tem verba, não tem dinheiro. É o Brasil rico...
Surgem epidemias pasmosas, a matar e a enfermar milhares de pessoas, que vêm mostrar a falta de hospitais na cidade, a má localização dos existentes. Pede-se à construção de outros bem situados; e o governo responde que não pode fazer porque não tem verba, não tem dinheiro. E o Brasil é um país rico.
Anualmente cerca de duas mil mocinhas procuram uma escola anormal ou anormalizada, para aprender disciplinas úteis. Todos observam o caso e perguntam:
- Se há tantas moças que desejam estudar, por que o governo não aumenta o número de escolas a elas destinadas?
O governo responde:
- Não aumento porque não tenho verba, não tenho dinheiro.
E o Brasil é um país rico, muito rico...
As notícias que chegam das nossas guarnições fronteiriças, são desoladoras. Não há quartéis; os regimentos de cavalaria não têm cavalos, etc., etc.
- Mas que faz o governo, raciocina Brás Bocó, que não constrói quartéis e não compra cavalhadas?
O doutor Xisto Beldroegas, funcionário respeitável do governo acode logo:
- Não há verba; o governo não tem dinheiro.
- E o Brasil é um país rico; e tão rico é ele, que apesar de não cuidar dessas coisas que vim enumerando, vai dar trezentos contos para alguns latagões irem ao estrangeiro divertir-se com os jogos de bola como se fossem crianças de calças curtas, a brincar nos recreios dos colégios.
O Brasil é um país rico...
Lima Barreto
Quem foi que disse que o Haiti é aqui?
Não resta dúvida nenhuma de que a adoção do tema da segurança pública como prioridade absoluta do governo federal tem o objetivo de resgatar Temer do fundo do fosso da impopularidade e alçá-lo, se não à eventualidade de uma muito improvável reeleição, pelo menos à de cabo eleitoral com um mínimo de dignidade. Toda polêmica a respeito começou a ser dissolvida quando seu marqueteiro pessoal, Elsinho Mouco, e o especialista em pesquisas Antonio Lavareda contaram à repórter Andrea Sadi, da GloboNews, que a ofensiva contra a violência no Rio serviria para “capitalizá-lo politicamente”.
Logo depois, entrevista do primeiro ao articulista Bernardo Mello Franco, do Globo, não apenas confirmou, como cercou o objetivo de base e premissas indiscutíveis. Os desmentidos posteriores apenas confirmaram que o eco do óbvio ululante (apud Nelson Rodrigues) reverbera até tornar o truísmo ilusório uma verdade indiscutível. A leitura da nota oficial do chefe, feita pelo porta-voz, oportunamente chamado de Parola (palavra em italiano), vai além da confirmação de que palavras têm poder, no caso dos sobrenomes de Mouco e Lavareda, a surdez que queima e não ilumina. Todos os pronunciamentos oficiais e oficiosos a respeito da pendenga deixam claro que o chefe dos oráculos não ficou satisfeito com a revelação de seu segredo de Polichinelo, mas a autoria assumida pelo inconfidente só compromete ainda mais seu “sincericídio”. Afinal, a loquacidade inoportuna dos paus-mandados não foi punida com afastamento nem com alerta de desconfiança. A questão que resta a decidir é se o plano revelado vai, ou não, ser confirmado em pesquisas e urnas.
Para que esse objetivo seja ao menos avaliado convém, antes, passar pela confirmação dos fatos. Os índices de criminalidade deixarão de tornar insuportável a vida das vítimas pacíficas e honestas da insegurança pública vigente a tempo de produzir efeitos no apoio e na preferência eleitoral da cidadania? Tempo não faltará, previu Mouco a Mello Franco.
O problema do prazo agora é mais crucial do que nas experiências anteriores. Na Eco-92, nos Jogos Pan-Americanos de 2013, no Mundial da Fifa de 2014 e na Olimpíada de 2016, o pacto de convivência pacífica entre a autoridade e chefões das quadrilhas teve duração determinada e curta. A expressão “férias para bandidos” não foi criada pela imprensa insubmissa nem pela oposição acuada, mas pelo desde então comandante das forças de ocupação do Rio, o comuno-democrata Raul Jungmann. O prazo atual de dez meses é longo demais para um negócio arriscado e disputado como o é o mercado de entorpecentes sustentado pelo contrabando de armas. Como uma indústria dessas resistiria a folga tão dilatada?
O compromisso de agora não admite pausa para ir ali e voltar já. Agora é pra valer. É entrar na área e ocupá-la sem pensar em deixar os guerreiros dos dois lados tirarem a sesta. A intervenção na Segurança do Rio, com a conveniência de deixar o companheiro Pezão, do MDB, agindo na continuação do desmanche da gestão estadual e das finanças públicas, não pode ser comparada à “ajuda humanitária” no distante e ínfimo Haiti, ministrada longe da vigilância da imprensa, da impertinência do Ministério Público e da atenção do juizado federal de primeira instância. Nenhuma dessas instituições cruzará os braços para o arbítrio ou para a mortandade.
Os invasores do espaço urbano carioca, egressos de quartéis, onde são mantidos longe da realidade e protegidos da lei dos civis por sua Justiça peculiar, começaram a pressentir os efeitos dessa diferença. Os comandantes do Exército pediram à Justiça civil mandados coletivos de busca e apreensão, depois que seu batedor no campo minado das notícias percebeu que exigir capturas seria demais. O presidente do Tribunal de Justiça do Estado do Rio, Milton Fernandes de Souza, negou-as. Outras idas e vindas do gênero ocorrerão.
O sucesso da iniciativa dependerá de fatos alheios ao decreto assinado por Temer. A farda de camuflagem e as regrinhas primárias de convívio com os meios de comunicação com que o general Braga Netto tentou emular o comunicador da ditadura Rubem Ludwig não bastarão para convencer as pessoas submetidas às normas de identificação nas comunidades pobres de que seu desconforto será compensado com segurança. O vício do cachimbo entorta a boca e elas sabem que, quando o poder público as relega à desgraça, são socorridas pelos traficantes.
Cada um sabe onde lhe dói o calo e o desprezo do ministro da Segurança, gerado numa costela da Justiça, pela classe média contrasta com a discriminação escravocrata de quem não submeteu a elite branca da zona sul a métodos para restringir o ir e vir de pobres, pretos e pardos, ninguém sabe se inimigos ou protegidos. Como na Kasbah de Argel, de onde rebeldes saíram para expulsar os franceses, que torturaram quem os derrotaria.
O interventor tenta impor moral de piadas de caserna para domesticar os repórteres escalados para sua primeira entrevista. Mas não conseguiu transformar suas prédicas de ordem unida em notícias de interesse geral. Os R$ 42 bilhões em cinco anos, a perder de vista, bastarão para reequipar as polícias de todos os Estados brasileiros? O que o Exército fará para pôr fim à corrupção policial, sem mudar comandantes e delegados? Como enfrentar as relações íntimas entre crime e corrupção, se o capataz do chefão do “quadrilhão” do MDB do Rio continua no comando, prestigiando o encarregado dos presídios onde o poderoso Cabral vivia em conforto de fazer inveja a don Pablo Escobar? Quem o interventor escolherá para dar à família enlutada a notícia da morte do primeiro combatente inocente baleado por algum criminoso para quem a vida nada vale?
Segundo Samuel Johnson, o patriotismo é o último refúgio dos canalhas. Quando se perceberá que a ilusão é o primeiro pretexto dos oportunistas?
Logo depois, entrevista do primeiro ao articulista Bernardo Mello Franco, do Globo, não apenas confirmou, como cercou o objetivo de base e premissas indiscutíveis. Os desmentidos posteriores apenas confirmaram que o eco do óbvio ululante (apud Nelson Rodrigues) reverbera até tornar o truísmo ilusório uma verdade indiscutível. A leitura da nota oficial do chefe, feita pelo porta-voz, oportunamente chamado de Parola (palavra em italiano), vai além da confirmação de que palavras têm poder, no caso dos sobrenomes de Mouco e Lavareda, a surdez que queima e não ilumina. Todos os pronunciamentos oficiais e oficiosos a respeito da pendenga deixam claro que o chefe dos oráculos não ficou satisfeito com a revelação de seu segredo de Polichinelo, mas a autoria assumida pelo inconfidente só compromete ainda mais seu “sincericídio”. Afinal, a loquacidade inoportuna dos paus-mandados não foi punida com afastamento nem com alerta de desconfiança. A questão que resta a decidir é se o plano revelado vai, ou não, ser confirmado em pesquisas e urnas.
Para que esse objetivo seja ao menos avaliado convém, antes, passar pela confirmação dos fatos. Os índices de criminalidade deixarão de tornar insuportável a vida das vítimas pacíficas e honestas da insegurança pública vigente a tempo de produzir efeitos no apoio e na preferência eleitoral da cidadania? Tempo não faltará, previu Mouco a Mello Franco.
O problema do prazo agora é mais crucial do que nas experiências anteriores. Na Eco-92, nos Jogos Pan-Americanos de 2013, no Mundial da Fifa de 2014 e na Olimpíada de 2016, o pacto de convivência pacífica entre a autoridade e chefões das quadrilhas teve duração determinada e curta. A expressão “férias para bandidos” não foi criada pela imprensa insubmissa nem pela oposição acuada, mas pelo desde então comandante das forças de ocupação do Rio, o comuno-democrata Raul Jungmann. O prazo atual de dez meses é longo demais para um negócio arriscado e disputado como o é o mercado de entorpecentes sustentado pelo contrabando de armas. Como uma indústria dessas resistiria a folga tão dilatada?
O compromisso de agora não admite pausa para ir ali e voltar já. Agora é pra valer. É entrar na área e ocupá-la sem pensar em deixar os guerreiros dos dois lados tirarem a sesta. A intervenção na Segurança do Rio, com a conveniência de deixar o companheiro Pezão, do MDB, agindo na continuação do desmanche da gestão estadual e das finanças públicas, não pode ser comparada à “ajuda humanitária” no distante e ínfimo Haiti, ministrada longe da vigilância da imprensa, da impertinência do Ministério Público e da atenção do juizado federal de primeira instância. Nenhuma dessas instituições cruzará os braços para o arbítrio ou para a mortandade.
Os invasores do espaço urbano carioca, egressos de quartéis, onde são mantidos longe da realidade e protegidos da lei dos civis por sua Justiça peculiar, começaram a pressentir os efeitos dessa diferença. Os comandantes do Exército pediram à Justiça civil mandados coletivos de busca e apreensão, depois que seu batedor no campo minado das notícias percebeu que exigir capturas seria demais. O presidente do Tribunal de Justiça do Estado do Rio, Milton Fernandes de Souza, negou-as. Outras idas e vindas do gênero ocorrerão.
O sucesso da iniciativa dependerá de fatos alheios ao decreto assinado por Temer. A farda de camuflagem e as regrinhas primárias de convívio com os meios de comunicação com que o general Braga Netto tentou emular o comunicador da ditadura Rubem Ludwig não bastarão para convencer as pessoas submetidas às normas de identificação nas comunidades pobres de que seu desconforto será compensado com segurança. O vício do cachimbo entorta a boca e elas sabem que, quando o poder público as relega à desgraça, são socorridas pelos traficantes.
Cada um sabe onde lhe dói o calo e o desprezo do ministro da Segurança, gerado numa costela da Justiça, pela classe média contrasta com a discriminação escravocrata de quem não submeteu a elite branca da zona sul a métodos para restringir o ir e vir de pobres, pretos e pardos, ninguém sabe se inimigos ou protegidos. Como na Kasbah de Argel, de onde rebeldes saíram para expulsar os franceses, que torturaram quem os derrotaria.
O interventor tenta impor moral de piadas de caserna para domesticar os repórteres escalados para sua primeira entrevista. Mas não conseguiu transformar suas prédicas de ordem unida em notícias de interesse geral. Os R$ 42 bilhões em cinco anos, a perder de vista, bastarão para reequipar as polícias de todos os Estados brasileiros? O que o Exército fará para pôr fim à corrupção policial, sem mudar comandantes e delegados? Como enfrentar as relações íntimas entre crime e corrupção, se o capataz do chefão do “quadrilhão” do MDB do Rio continua no comando, prestigiando o encarregado dos presídios onde o poderoso Cabral vivia em conforto de fazer inveja a don Pablo Escobar? Quem o interventor escolherá para dar à família enlutada a notícia da morte do primeiro combatente inocente baleado por algum criminoso para quem a vida nada vale?
Segundo Samuel Johnson, o patriotismo é o último refúgio dos canalhas. Quando se perceberá que a ilusão é o primeiro pretexto dos oportunistas?
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