domingo, 9 de abril de 2017

Se não saiu na mídia, não aconteceu

Já faz anos que exploro o mundo dos códigos e dos signos pelo estudo da linguagem, da comunicação, da psicanálise, do saber e de muitas outras formas. No entanto, nunca defini meu objeto! Porque cada linguagem propõe um paradigma de mundo diferente.

Quando jovem , meu professor de Semiótica, Naief Sàfady afirmou:

- Nascemos apenas com uma ideia na cabeça e não fazemos outra coisa senão desenvolvê-la ao longo de toda a nossa existência. Disse para mim mesmo:

- Será, então, que não é possível que haja uma mudança de vida? Que reacionário! Perto dos 68 anos de idade, entendi que meu professor tinha razão: de fato, durante toda a minha vida persegui tão-somente uma única ideia. O único problema é que não sei que ideia é essa!

Creio que estou chegando lá. De tanto me dedicar à semiologia, estou cada vez mais convencido da possibilidade de que o mundo não existe, de que ele nada mais é do que um produto da linguagem.

Houve momentos, no decorrer do século passado, que a filosofia se recusou a falar do mental sob o pretexto de que não podia vê-lo.

Hoje em dia, com as ciências cognitivas, as questões do conhecimento - o que quer dizer conhecer, perceber, aprender? - tornaram-se centrais. Os progressos da ciência permitem tocar naquilo que antigamente era invisível, o que obriga a Semiótica questionar: como é que a linguagem estrutura a percepção que temos das coisas?

Em famoso pensamento de Peirce, temos o entendimento de que o pensamento não está em nós, nós é que estamos em pensamento. Não reagimos mecanicamente às situações, de forma sempre igual. Estamos sempre em movimento, criando novos signos, aprendendo.

O código hegemônico não é apenas verbal, tampouco apenas imagem. É sim o cruzamento, a junção de diversas linguagens, presente na rede de computadores, nos vídeos, na publicidade, na linguagem do shopping center.

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Com a internet não temos mais informações, e sim menos. Em megalivrarias localizadas em shopping centers tem-se menos informação do que numa pequena livraria nas imediações da USP. Temos menos informação depois que a televisão multiplicou o número de canais. E quando peço na internet uma bibliografia e recebo uma lista com 10 mil títulos - não tenho nenhum ganho de informação com isso. Com a internet, temos uma diminuição trágica de informações. Corremos o risco de nos tornar autodidatas.

O autodidata é aquele que absorve uma enorme quantidade de informações, muito mais certamente do que um professor universitário, mas não sabe filtrá-las. A memória é um mecanismo que permite não somente conservar, mas também filtrar. Caso contrário, seríamos com Funes, el Memorioso, o personagem de Jorge Luis Borges que se lembrava de todas as folhas que havia visto durante 30 anos e ficou louco.

No ano passado fui a Blumenau (SC). Passei muito tempo dentro de táxis, mas só me lembro de um deles: o que tentou me roubar. Minha memória, felizmente, fez uma seleção, ou ficaria com a cabeça cheia de motoristas blumenauenses.

As mudanças impulsionadas pelas novas tecnologias digitais colocaram na tela da TV e na internet a informação massificada, onde está tudo disponível, de fácil acesso, condensado, daí a dúvida: será o fim do livro? As pessoas vão deixar de ler? Apesar de tudo isso, a escrita triunfou, e voltamos à civilização da escrita.

O computador teria obrigado McLuhan a reescrever A galáxia de Gutenberg. Vivemos incontestavelmente o retorno da escrita. Nas nossas telas lemos os textos que imprimimos. Nunca se publicaram tantos livros, construíram catedrais aos livros, como essas imensas livrarias. Portanto, quando eu ouço os escritores dizerem que o livro está prestes a desaparecer não consigo me conformar com tamanha má-fé.

No imaginário popular, o que importa é como a mídia descreve, interpreta, fotografa e divulga o mundo. A mídia pauta o mundo e forma ou deforma mentalidades. Se não saiu na mídia não aconteceu.

No mundo midiático, digital, instantâneo, a informação é cada vez mais estilizada, pasteurizada, e os fatos recortados da realidade sem nexo, sem contexto, sem passado, sem história, sem memória, numa destruição clara da temporalidade, como se o mundo fosse um eterno videoclipe. Dessa forma, mais confunde do que esclarece e mais deforma do que forma.

Com o uso da internet, o volume de informação dificulta a compreensão num mundo caleidoscópico, que se apresenta em forma de mosaico sem nexo, que vive transfigurando e refigurando o espetáculo da vida como se o confundisse com um reality show. Se deixarmos de ser "zumbis" culturais e aprendermos a ler o mundo, enquanto linguagem, aprenderemos a pesquisar, aprenderemos a aprender o essencial no mundo moderno.

Sempre construímos a imagem do amanhã pensando no estudante da periferia. Hoje, o modelo é o internauta obcecado que se pluga e não lê mais? Isso não se aplica à maior parte das pessoas.

As mudanças impulsionadas pelas novas tecnologias digitais colocaram na tela da TV e na Internet a informação massificada, onde está tudo disponível, de fácil acesso, condensado, daí a dúvida: será o fim do livro ? As pessoas vão deixar de ler ? A resposta é não. A leitura, com o tempo e a prática vira êxtase, é semelhante a um transe. Ler é participar de uma das mais extraordinárias invenções e revoluções tecnológicas de todos os tempos, que são os sistemas de escrita. Nós não teríamos a Internet hoje, sem os códigos da escrita.

Há menos de duas décadas, as crianças e jovens tinham um acesso limitado às informações e os pais podiam, de algum modo, selecionar aquelas que possuíam um conteúdo condizente com cada idade e capacidade de compreensão, direcionando os interesses para boas fontes como livros clássicos da literatura infantil, bons filmes, etc.

As tecnologias atuais, em particular a Internet, mudaram toda essa perspectiva. O acesso a Internet dissemina-se aceleradamente e hoje a maioria das crianças e jovens, mesmo aquelas de classe menos favorecidas, conseguem ter contato com ela. Se não possui um computador em casa, a escola disponibiliza ou um amigo tem. E quando a telinha do computador se abre, o portal do mundo está aberto. Entretanto, permeando tais informações, há uma grande quantidade de "lixo informacional" invadindo nossos lares todos os dias. O cerne da questão está no fato de que o volume de informação não garante a qualidade.
Nelson Valente

Paisagem brasileira

Marinha, Jose Pancetti

Para Dilma, só santificação de Lula salva o país

Ainda não surgiu melhor definição para democracia do que a fornecida por Churchill: é o pior regime imaginável com exceção de todos os outros. Neste sábado, Dilma Rousseff decidiu associar-se ao pelotão dos que cultuam as alternativas muito piores. Ao participar de seminário organizado por alunos brasileiros da universidade americana de Harvard, em Boston, a presidente deposta insinuou que a democracia brasileira só terá futuro se Lula for canonizado.

Dilma declarou estar muito preocupada com o risco de que “mudem as regras do jogo democrático” no Brasil. “Vou dar nome aos bois”, ela prosseguiu. “Me preocupa muito que prendam o Lula. Me preocupa que tirem o Lula da parada.” Ouviram-se risos na plateia. Mas Dilma não se deu por achada: “Todo mundo aqui pode rir. Infelizmente, para as oposições, ele tem nas pesquisas 38%. Com tudo o que fizeram com ele! Não acho que o Lula tem de ganhar ou perder. Eu acho que ele tem de concorrer.”

O contrário de um anti-Lula raivoso é um pró-Lula ingênuo, que aceita todas as presunções de Lula a seu próprio respeito. Em matéria de direito penal, isso inclui concordar com a tese segundo a qual Lula, a “alma viva mais honesta” que a República já viu, tem uma missão de inspiração divina a cumprir. Uma missão tão sublime que é indiscutível. Réu em cinco ações penais, Lula continua sendo, para Dilma, uma superpotência moral que não deve explicações senão à sua própria noção de superioridade.

Dilma já fareja o triunfo eleitoral de Lula. “Isso é uma possibilidade concreta”, declarou ela em Harvard. “Desculpem-me as pessoas que riram, mas é uma possibilidade concreta, meus caros. Deixa ele concorrer, para ver se ele não ganha!” O que Dilma considera “gravíssimo” é que, diante da perspectiva de retorno do ser supremo ao poder, queiram agora “inventar todos os possíveis cenários alternativos para tirá-lo da parada.” É o que madame costuma chamar de “golpe dentro do golpe.”

O mais assustador na pregação de Dilma não é o timbre ingênuo. O que espanta de verdade é a sensação de que a oradora não percebe que está soando cínica. É como se ela acreditasse mesmo no que diz. Embora conheça a perversão por dentro, Dilma é movida pela mesma fé que leva o petismo a tratar sua divindade como santo de procissão, gritando efusivamente sob o andor: “Lula, guerreiro do povo brasileiro…”

Investigado pela Polícia Federal, Lula foi indiciado. Submetido ao crivo da Procuradoria, foi denunciado à Justiça Federal. Ao folhear os processos, magistrados de Brasília e de Curitiba enviaram-no ao banco dos réus em cinco ações penais. No momento, a divindade petista exerce o sacrossanto direito de defesa. Dispõe dos melhores advogados que a fortuna amealhada em palestras às empreiteiras pode pagar.

Se Lula for condenado, recorrerá aos tribunais de segunda instância. Mantida a sentença, vai em cana. E torna-se um ficha-suja, impróprio para o consumo eleitoral. Absolvido, vai à sorte das urnas em 2018. Qualquer coisa fora desse scriptseria, aí sim, uma mudança inaceitável nas regras do jogo democrático, uma afronta ao preceito constitucional segundo o qual todos são iguais perante a lei. à Constituição.

Alguém poderia argumentar que todos os defeitos de Lula estão perdoados e seus eventuais crimes prescritos, no entendimento tático de que ser responsável pela eleição Dilma Rousseff e ter a tragédia como defensora já é castigo suficiente para qualquer um. Mas Lula não é qualquer um. Ainda não foi formalmente canonizado, mas já virou símbolo. E precisa responder judicialmente por tudo o que passou a simbolizar. Ninguém transforma um partido numa máquina coletora de propinas ou chefia um governo tisnado por dois escândalos do porto do mensalão e do petrolão impunemente.

Momentos stand-up do ministro

Se o médico solicita muitos exames que dão resultado normal, ele não está agindo de forma correta com o sistema.
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Investimos por ano US$ 230 bilhões em serviços públicos de saúde no Brasil
Ricardo Barros, ministro da Saúde

Esculachando a sociedade

A roubalheira institucionalizada e a violência urbana são hoje os assuntos de maior destaque no noticiário nacional. Nesse cenário desolador, o Rio de Janeiro vem desempenhando um papel relevante graças às falcatruas do seu ex-governador, à falência financeira do estado e aos recorrentes conflitos armados nas suas favelas.

Quase uma década após a bem-sucedida implantação da primeira Unidade de Polícia Pacificadora (UPP), no Morro Dona Marta, em Botafogo, o Rio voltou a viver momentos de grande apreensão com os enfrentamentos entre facções do tráfico e forças policiais. A reação à política de pacificação das favelas faz parte de um movimento organizado por traficantes para retomar o controle territorial das comunidades pacificadas e permitir que os chamados “soldados do tráfico” garantam a segurança dos seus negócios através do poder arbitrário imposto aos moradores.

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Enquanto isso, observamos pelas ruas da cidade os semblantes tensos e preocupados das pessoas que temem ser assaltadas em seus trajetos diários. São roubos que infernizam a vida das pessoas que andam a pé, de bicicleta, de moto, de ônibus ou de automóvel. Assalto seguido de morte se tornou uma banalidade no Rio de Janeiro. Mesmo nos recantos bucólicos do Parque Nacional da Tijuca, esportistas e visitantes não escapam da sanha dos assaltantes.

A esses exemplos acrescentamos os sequestros-relâmpagos, os assaltos praticados por motoqueiros armados a qualquer hora do dia e da noite, e em qualquer lugar da cidade, e os arrastões feitos por bandos de jovens desordeiros que agem em grupo com a certeza da impunidade. O que assistimos hoje no Rio são cidadãos de bem sendo vítimas de criminosos que não poupam sequer as camadas mais pobres da população.

Reconhecermos que a questão social está na origem do problema, todavia a sua disseminação não configura uma decorrência exclusiva dos conflitos sociais. Portanto, não dá para pactuar com a política vacilante de combate à criminalidade. Há que se agir com extremo rigor antes que a esperança de pacificação da cidade se perca definitivamente. Ao contrário do que preconiza a “bancada da bala” no Congresso Nacional, portar arma de fogo sem autorização deveria resultar em prisão automática e inafiançável. Os criminosos não podem continuar esculachando os cidadãos honrados, e o poder público permanecer assistindo de braços cruzados.

Enquanto não houver uma estratégia de ações preventivas, será difícil reverter a situação atual. Existem exemplos bem-sucedidos de cidades no exterior que adotaram medidas de prevenção ao crime e alcançaram bons resultados. Nova York é uma delas. Todavia, com a lentidão do nosso poder Judiciário, com o estado deplorável do nosso sistema carcerário e com a corrupção rolando solta, fica difícil melhorar as condições da segurança pública.

Em uma sociedade como a nossa, marcada por expressivos contrastes sociais, é fundamental elevar a autoestima dos jovens através do estudo e de um trabalho digno que os desestimulem a seguir os caminhos da criminalidade. Nesse sentido, é fundamental promover atividades econômicas, sociais e culturais que atendam a essas camadas desfavorecidas da população. Caso contrário, não haverá modelo de segurança pública capaz de evitar o comprometimento definitivo do convívio social nos ambientes coletivos.

Não basta culpar o desequilíbrio das finanças públicas para justificar o imobilismo das autoridades governamentais diante dessa grave situação. O projeto da prefeitura para blindar as escolas municipais em áreas de risco é um equívoco tanto do ponto de vista técnico como conceitual, além de ser um desperdício de recursos públicos em tempos de escassez orçamentária. Da mesma forma, é um erro anunciar megaprojetos de intervenção urbana cuja viabilidade econômica sequer está assegurada. Refiro-me, nesse caso, às propostas de expansão do metrô até o Recreio e de reaproveitamento do conjunto de armazéns na Zona Portuária.

Além da conclusão das obras paralisadas, os novos investimentos em infraestrutura urbana devem se concentrar prioritariamente nas áreas mais populosas da cidade — Zona Norte e Zona Oeste — onde se concentram as camadas mais pobres da população. Desta forma, será possível estabelecer um caminho mais profícuo para reduzir as distâncias sociais e propiciar uma cidade mais justa, solidária e segura.

sábado, 8 de abril de 2017

Tudo é enorme no Brasil, menos o biquini

A primeira coisa que entendi ao chegar ao Brasil, há alguns anos, foi que aqui tudo é enorme – dos letreiros das lojas até os cartazes publicitários. Da cordialidade das pessoas à violência. É enorme a desigualdade social (entre as dez maiores do planeta), assim como a solidariedade entre os mais pobres.

Tudo é grande, menos os biquínis, embora eles também contenham uma sensualidade gigante. Uma amiga espanhola que veio nos visitar quis comprar um, mas desistiu: “São mínimos!” Quando ainda era presidente, Lula cunhou, para exaltar a dimensão de suas proezas, a frase “nunca antes neste país”.
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É enorme também a capacidade que os brasileiros demonstram para aceitar os estrangeiros, assim como os resquícios da escravidão, que continuam provocando discriminação entre brancos e negros. É um lugar em que o sentido mais aguçado é o tato. Ninguém se abraça e beija mais, e com maior entusiasmo, do que os brasileiros. Até os homens.

São enormes a resignação e a aceitação da fatalidade. E grande o medo da modernidade. É desmedida a corrupção de muitos de seus políticos, e enormes os seus privilégios, suas filas de carros oficiais e seus exércitos de assessores. Suas aposentadorias de luxo e seus salários escandalosos. É imensa a exibição dos milionários. Não escondem sua riqueza; vangloriam-se dela.

Uma de minhas primeiras crônicas de costumes ao chegar ao Brasil abordou as dimensões do país. Falava sobre um empresário da construção que havia comprado seis milhões de hectares na Amazônia porque, segundo me disse, ali sua mãe “havia enterrado o umbigo”. Quando lhe perguntei se para isso precisava comprar tanta terra, respondeu: “Bem, como já decidi comprar...”. Havia em seu terreninho vários rios e comunidades indígenas. Ele nem sabia disso.

O Brasil é um gigante em suas dimensões geográficas. Só o estado de São Paulo equivale à Espanha em número de habitantes. É enorme a sua floresta, sua biodiversidade, sua quantidade de água doce (cerca de 20% do total mundial) e suas abundantes colheitas. Tudo aqui cresce rápido. Deixem um terreno baldio e, em pouco tempo, terá se transformado em bosque. É enorme o número de sindicatos (17.000) e de pessoas com foro privilegiado (33.000), de templos evangélicos (220.000) e de denominações religiosas (20.000). Existe até a Igreja Evangélica Pentecostal do Cuspe de Cristo.

São volumosas suas carências sociais. Falta moradia para oito milhões de famílias que se amontoam nas favelas. Treze milhões de pessoas estão sem trabalho. Cerca de 60% da população adulta é analfabeta funcional, e 30% dos jovens que entram na universidade têm dificuldade para entender um texto. Todo ano, um milhão de crianças abandonam a escola. Ao mesmo tempo, o Brasil possui uma robusta e moderna tecnologia. Exporta até aviões.

É grande também a força da criatividade dos jovens brasileiros. É imensa a dor de milhões de cidadãos e quase infinito o seu desejo de felicidade, assim como a sua extraordinária e invejável capacidade de fazer frente às dificuldades da vida. E são assim, sem limite, sua simpatia e seu amor pela festa.

Pequenos, no Brasil, só encontrei os biquínis e a falta de generosidade desses poucos que acumulam a maior parte da riqueza do país. O Brasil, com todas as suas contradições e corrupções, é essa enormidade que se deixa amar facilmente e que acaba nos conquistando.

O maior dos direitos humanos

Às vezes, no decorrer desta viagem, perguntaram-me o que penso do Brasil. Pergunta rotineira, mas a que eu respondo como se ela fosse a principal: em todo o mundo nós somos como um rebanho mandado para o matadouro enquanto nos preparam para vencedores. Mas no Brasil ainda há uma espécie de predestinação que é o que faz a esperança de um povo. (…)
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No Brasil, onde muitas mudanças se operam, eu notei no homem comum um respeito profundo pela bondade que, de certo modo, não se adota ou se cultiva como identidade coletiva, mas que não está condenada. De repente, ela está presente, arde como uma lâmpada, aparece como o maior dos direitos humanos.
Agustina Bessa-Luís, "Breviário do Brasil"

Paisagem brasileira

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Brasil e a lição dos vizinhos

O Brasil continua sendo um retardatário na marcha da economia latino-americana. A região voltou a crescer em 2017, depois de anos com resultados negativos, fortemente prejudicados, na média, pelo desempenho de uns poucos países. A produção brasileira deve crescer menos de 0,4%, segundo a nova estimativa da Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (Cepal). Sem precisar o novo número, a secretária executiva da instituição, Alicia Bárcena, adiantou a novidade ao Estado, na reunião do Fórum Econômico Mundial em Buenos Aires. A expansão de 0,4% havia aparecido na projeção concluída em dezembro de 2016. Os cálculos atualizados devem sair em breve. Esperava-se uma reação do consumo, explicou Bárcena, mas os dados efetivos ficaram abaixo da previsão, enquanto o desemprego continuou em alta.


As estimativas do crescimento brasileiro podem variar, mas diversas coincidem ao rever suas contas para menos. A expectativa do governo era de expansão de 1,6% neste ano, quando o projeto de Orçamento para 2017 foi elaborado, no segundo semestre de 2016. A projeção foi reduzida para 0,5%. Menor expansão da atividade significa menor arrecadação e isso levou o governo federal a cortar cerca de R$ 42 bilhões dos gastos previstos para 2017. O dado positivo, nesse quadro, foi a preservação da meta fiscal: será mantido o esforço para manter o déficit primário – sem contar os juros da dívida pública – dentro do limite de R$ 139 bilhões.

Na reunião do Fórum, a secretária executiva da Cepal apresentou as projeções divulgadas na virada do ano, sem antecipar as prováveis alterações. Aparentemente o quadro geral pouco deve mudar. A economia regional deve crescer em média 1,3%, resultado afetado pelo fraco desempenho previsto para alguns países, com destaque para o Brasil e, de modo especial, para o desastre venezuelano.

O cenário é basicamente positivo para a maior parte da região, apesar de incertezas quanto ao mercado financeiro internacional e às condições do comércio. Essas incertezas estão em boa parte relacionadas com o novo governo americano e com a ascensão dos movimentos nacionalistas e protecionistas em vários países. Entre as novidades positivas há o repique de preços de produtos básicos de exportação. Mas o mais importante, pelos efeitos de longo prazo, é um movimento amplo de reformas, algumas conduzidas em ambiente de resistência e de pressões.

A greve na Argentina, contra a política reformista do presidente Mauricio Macri, é um exemplo claro. Enquanto ele participava da reunião do Fórum Econômico Mundial, milhares de manifestantes bloqueavam passagens importantes, voos permaneciam suspensos e o centro de Buenos Aires estava sem transporte coletivo e com lojas fechadas.

No Brasil, as dificuldades do governo para conseguir apoio à reforma previdenciária também comprovam a resistência à racionalização das finanças públicas e da administração oficial. Nenhum ajuste será completo sem uma revisão das normas de aposentadoria e de pensões. Pode haver divergência quanto a detalhes, mas o governo, mesmo disposto a negociações, terá de evitar mudanças que desfigurem o projeto. Qualquer solução de alcance limitado tornará inevitável uma nova tentativa de reforma dentro de alguns anos, com dificuldades políticas talvez maiores.

Acima de tudo, a pauta de ajustes e de reformas é condição para uma nova etapa de crescimento econômico mais intenso e duradouro, com real aproveitamento do potencial brasileiro. Sem fundamentos sólidos – contas públicas em ordem, preços estáveis e equilíbrio externo de longo prazo –, qualquer impulso de crescimento terá efeitos limitados e o País logo voltará à estagnação e ao desemprego.

A importância de bons fundamentos é visível em boa parte da América Latina. Países com desempenho melhor que o brasileiro, na média dos últimos dez anos, têm sido beneficiados por inflação controlada e por finanças públicas basicamente em ordem. Pode haver lições muito úteis na experiência de outros países da região.

Os normais

O Partido dos Trabalhadores (PT) soltou uma nota oficial esclarecendo que está tudo normal na Venezuela. Essas notícias horríveis que você recebe são a versão conspiratória da grande imprensa, que junto ao governo brasileiro golpista quer atacar a esquerda no continente (não é licença poética, procure a íntegra). Quase ao mesmo tempo, engrossando a ofensiva fascista da direita, Sérgio Moro condenou o companheiro André Vargas a mais quatro anos de prisão em regime fechado.

Você já se esqueceu de quem é André Vargas — mas não se preocupe, isso é normal. Ninguém é obrigado a decorar James Joyce, nem a literatura completa da Lava-Jato. André Vargas foi um meteoro petista, desses que viravam personalidades proeminentes da República da noite para o dia — na época em que os companheiros mandavam nisso aqui.

Um dia André Vargas não era ninguém, no outro era vice-presidente da Câmara dos Deputados, desafiando publicamente Joaquim Barbosa com o famoso punho cerrado de José Dirceu, o Simón Bolívar do Paraná. Joaquim Barbosa era um ministro do Supremo, que condenou a turma de Dirceu pelo mensalão. Mensalão era um escândalo sem precedentes até surgir a Lava-Jato. E a Lava-Jato começou revelando ao Brasil o segredo da ascensão meteórica de André Vargas no partido governante: dinheiro roubado.

Você pode não se lembrar do meliante, mas o dinheiro era seu.


Está tudo normal na Venezuela, e os companheiros quase iam conseguindo instaurar essa normalidade no Brasil — quando pegaram André Vargas e os doleiros da revolução. Foi ali que a direita começou a matar o sonho de um Brasil bolivariano e igualitário, com todos unidos na fila do papel higiênico.

É preciso muita coragem para apoiar o regime de Nicolás Maduro nas circunstâncias atuais, de cara lavada e à luz do dia. Parabéns ao PT. Do partido estrelado por André Vargas, Vaccari, Delúbio, Paulo Bernardo, Gleisi, Delcídio, João Santana, Pizzolato, Dirceu, Dilma, Lula e cia — enfim, a turma do sol quadrado (os que já viram e os que ainda verão) — pode-se dizer tudo, menos que não seja um partido coerente. O PSOL está morrendo de inveja.

O massacre progressista nas ruas da Venezuela foi aplaudido pelos pacifistas do PSOL até anteontem, quando a ditadura libertária do companheiro Maduro perpetrou seu doce AI-5 sem perder a ternura. A imagem das botinas da guarda bolivariana empoderando uma jornalista caída no chão, entre outras cenas do excesso de democracia aclamado por Lula, confundiu a militância do bem. Enquanto durar o silêncio dos chavistas de butique em Hollywood, na MPB e nas salas de aula (sic), ninguém tem nada com isso. A Venezuela deles é mais embaixo.

Estão todos devidamente abençoados pelo Papa Francisco, o sacerdote da narrativa. No impeachment de Dilma Rousseff, que ceifou a busca da normalidade venezuelana no Brasil, o Pontífice declarou-se “muito triste” e cancelou sua viagem ao país. Agora que a ditadura transformista de Maduro rasgou a fantasia, jogando a força bruta sobre o povo e as instituições, Francisco foi lacônico: convidou os venezuelanos a “perseverar”. É um fofo.

Diante da nova canetada fascista de Moro contra um guerreiro do povo, o menestrel do Vaticano bem que poderia deflagrar a campanha “somos todos André Vargas”. E são mesmo. Estão irmanados pela fé na retórica coitada sobre todas as coisas — inclusive sobre a realidade onde o pau está comendo. Francisco, André e todos os cúmplices intelectuais da barbárie venezuelana são sócios de uma lenda — sublime e grandiosa como um panfleto de João Santana. Vivem disso. São os cafetões da bondade.

Um deputado que se apresenta como representante dos gays cuspiu em plenário, durante o impeachment, num deputado que se apresenta como representante dos militares. Uma guerra de mentirinha, que interessa essencialmente aos balaios eleitorais de ambos. Bate mais, meu amor. Mas a lenda é soberana, e o julgamento do deputado cuspidor terminou com uma advertência (ai, ai, ai) — que lhe permitiu inclusive tripudiar geral, declarando que sua cusparada foi o ato mais digno do Congresso durante o golpe. Filho mimado cospe na cara dos pais.

O que dizer a todos esses simpáticos mercenários da lenda? Saiam do armário, companheiros!

E o que dizer ao Brasil, semidestruído pela lenda? Pare de mimar esses canastrões, companheiro! Se não quiser ser escalpelado de vez pela normalidade deles.

Déficit fiscal é gerido a golpes de magia negra

Alguns economistas chamam a economia de “ciência negra”. Eles talvez façam isso porque a única maneira de chamar a economia de ciência é aproximando-a da ideia de magia negra. O governo, você sabe, está quebrado. Previa-se que, em 2018, o Tesouro Nacional gastaria R$ 79 bilhões acima do que será arrecadado em impostos. Informa-se agora que o rombo será maior: R$ 129 bilhões. Por quê? Na expressão do ministro Henrique Meirelles, da Fazenda, “são efeitos defasados” da crise econômica de 2015 e 2016. Ora, mas o governo dizia que esses efeitos da crise já estavam contabilizados. Ou seja: o que Meirelles está dizendo, com outras palavras, é que sua equipe não sabe fazer contas.

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No ano passado, o governo foi muito criticado porque concedeu reajustes salariais a servidores públicos que tiveram impacto bilionário sobre o Orçamento. E todas as autoridades, incluindo Michel Temer e Henrique Meirelles, diziam que não havia problema porque esses reajustes, negociados ainda no governo Dilma, já estavam lançados nas projeções de déficit. Era magia negra. Os economistas do governo atravessaram agulhas nos bonecos de 2016 e os efeitos estão sendo sentidos agora, na pessoa errada: você.

Na semana passada, o governo já tinha informado que, para manter o buraco deste ano de 2017 em R$ 139 bilhões, como havia prometido, terá de arranjar R$ 58 bilhões com cortes de despesas ou algum aumento de receita. Mas fique tranquilo, o governo jura que o equilíbrio fiscal será alcançado em 2020, quando teremos um superávit nas contas públicas de R$ 10 bilhões. Esse número provavelmente está errado. Mas até 2020 Henrique Meirelles estará fora do governo. E uma das mágicas da economia é que os economistas sempre encontram soluções para os problemas do país quando saem do governo e se transformam em consultores e articulistas de jornal. Quer dizer: quando Henrique Meirelles deixar o governo saberemos o que fazer.

Gente fora do mapa

Arte - Fotografia Da série delicadezas www.mesquita.blog.br xi www.facebook.com/mesquitafanpage:

Lá...

Lá na China corruto é fuzilado
e a família inda paga a munição!

Vou-me embora morar na velha China

que tem lá seus defeitos, tudo bem,
mas o nosso defeito ela não tem:
dar guarida a quem vive da rapina.
Deputado que lá ganha propina
pagará com a vida a corrução!
Lá na China político ladrão
bem depressa vai preso e condenado…
Lá na China corruto é fuzilado
e a família inda paga a munição!
Desde o tempo das velhas dinastias
toda vez que um político roubava
na melhor das hipóteses ficava
na prisão pelo resto dos seus dias.
Liminares, renúncias, anistias…
nada disso na China é solução!
O remédio é fuzil e pelotão
e um apito na boca dum soldado…
Lá na China corruto é fuzilado
e a família inda paga a munição!
Se um ministro chinês é desonesto
e é pilhado fazendo trambicagem,
a Justiça deslancha a engrenagem
que liquida a questão sem deixar resto.
Doze balas é um preço bem modesto
e o país nunca perde um só tostão
debita na conta do finado…
Lá na China corruto é fuzilado
e a família inda paga a munição!

Espécie meio esquisita

 A insustentável Síria
A guerra na Síria já consumiu cerca de 500 mil vidas, mas os poucos milhares de mortes provocadas por agentes químicos é que geraram maior reação. Por quê? Por algum motivo associamos o envenenamento deliberado à traição e o julgamos moralmente mais reprovável do que outras formas de matar
Hélio Schwartsman 

Uma inesquecível vassourada

Além do senador Renan Calheiros e do deputado Aníbal Gomes, estão sendo investigados pelo Supremo Tribunal Federal os senadores Valdir Raupp, Garibaldi Alves Filho, Agripino Maia e os deputados Walter Alves, Felipe Maia, Luiz Sérgio e Jandira Feghali, acusados de receber propina com recursos desviados da Transpetro. Também serão incluídos os ex-deputados Henrique Eduardo Alves, Cândido Vaccarezza, Jorge Bittar e Edson Santos, além da ex-senadora Ideli Salvatti.

Por enquanto liberada a conta-gotas, a lista de parlamentares e ex-parlamentares envolvidos com a corrupção chegará a 200, se não for um pouco mais. Deverão ser declarados inelegíveis, se condenados.


Nossos avós repetiam que “Deus escreve certo por linhas tortas”, tornando-se necessário dar-lhes razão. Porque renovação igual dificilmente acontecerá no Congresso. Para melhor ou para pior?

Fica difícil prever. Nunca será demais lembrar o Dr. Ulysses, para quem “pior do que o atual Congresso, só o próximo”.

Em termos de gente nova, até agora a safra é restrita, nos partidos. Aliás, não é obrigatória a conclusão de que candidatos mais jovens venham a candidatar-se, ano que vem. Podem muito bem sair atrás dos votos que não tiveram em 2014 os candidatos de 2018. Se não conseguiram eleger-se antes, suas chances aumentarão, em boa parte, depois? Começarão deficitários.

Imaginá-los cheios de planos e programas, além de prematuro, é um risco. No passado, antes da apresentação dos times titulares, jogavam os reservas. Uma maldade, porque entravam em campo com o sol a pino, por volta das 13 horas, já que as partidas do elenco principal começavam às 15 ou 16 horas. Seria oportunidade para a promoção dos reservas?

Com as novas regras limitando e cerceando as campanhas, proibidas as doações de pessoas jurídicas, levarão vantagem os candidatos mais ricos. Outro descompasso.

Em suma, a renovação constitui uma dúvida, mesmo significando inesquecível vassourada nas representações.

Conta mentirosa

Dia desses li que a Comissão Europeia multou a Áustria por falsificar estatísticas financeiras. Segundo consta, dada investigação revelou uma manobra contábil que permitiu esconder perdas de milhões de Euros, ajudando o país a enganar os demais membros da União Europeia, reportando um valor de dívida nacional muito abaixo da realidade. 

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Trata-se de uma realidade deplorável, esta das estatísticas oficiais fraudadas - ao fim do cabo, fazendo-se de besta, digo, iludindo-se a população, responsabilidades deixam de ser atribuídas e problemas sérios que deveriam ser discutidos e resolvidos permanecem ocultos e intocados.

Decidi fazer uma rápida pesquisa em meu banco de dados, buscando mais informações sobre esta praga. Em poucos segundos descobri uma denúncia segundo a qual a Polícia de Osaka, no sério Japão, deixou de registrar nada menos que 81.000 crimes entre 2008 e 2012 - uma fraude de incríveis 10% nos índices de criminalidade!

No Reino Unido, um recente relatório demonstrou que 25% dos crimes sexuais e 30% dos que importam em violência contra a pessoa não são registrados pela polícia para fins estatísticos. Constatou-se que, entre 2012 e 2013, aconteceram naquele país 4,5 milhões de crimes, e não 3,7 milhões, conforme divulgado pelas autoridades.

Na Irlanda, um inquérito divulgado nos idos de 2011 demonstrou que os índices de criminalidade eram 38% mais altos que aqueles trombeteados pelas autoridades governamentais. Nos EUA, um jornal revelou uma incrível lista de 14.000 crimes violentos que haviam sido registrados pela polícia como singelas "ofensas menores".

Busquei colher exemplos de como se faz o povo de idiota, digo, se maqueiam os números. Descobri até casos nos quais vítimas de homicídio foram registradas como tendo tido "morte decorrente de causas indeterminadas" por conta de a investigação não ter sido encerrada. E o de servidores que acionaram centenas de vezes os próprios serviços nos quais trabalhavam, inflando os índices de atendimento e eficiência!

Mudar esta triste realidade é possível. Eis aí um objetivo ao alcance da sociedade civil organizada - de todos nós, enfim. Há, claro, a alternativa da omissão. Neste caso, tome cuidado para não morrer vítima de algum problema "varrido para debaixo do tapete" e virar estatística - ou nem isso!

Pedro Valls Rosa

O Brasil no golpe venezuelano

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A crise da Venezuela tem raízes brasileiras. Quando o Foro de São Paulo fez 15 anos, em 2005, Lula, então na presidência da República, gabou-se de estar na origem do advento de Hugo Chavez.

E estava. Ali o conheceu, no início das reuniões do Foro e engajou-se no processo político que o levou à presidência em 1998, com reeleições em 2000 e 2006. Só a deixou morto. Nicolas Maduro, seu sucessor, foi – e continua sendo - apoiado por Lula, Dilma e PT.

Hoje, esse apoio, é apenas simbólico, já que o PT está fora do poder. Mas, quando estava, foi bem mais amplo - ideológico, logístico e financeiro. Dinheiro público brasileiro bancou o projeto bolivariano chavista, um socialismo cucaracha, que serviria de substrato doutrinário à Pátria Grande, a união socialista do continente.

O BNDES financiou obras de infraestrutura e bancou campanhas eleitorais (e não só lá, mas nos demais países ideologicamente alinhados), com dinheiro roubado da Petrobras, intermediado por propinas veiculadas, entre outras, pela Odebrecht.

Quando a caixa preta do BNDES for, enfim, aberta, mais detalhes virão à tona. Presentemente, o TCU examina contratos irregulares daquele banco, para obras de infraestrutura a países bolivarianos, que montam a mais de R$ 1 trilhão.

Até os serviços de marketing político, que por aqui vendiam ilusões populistas, foram cedidos aos aliados. A Venezuela era uma espécie de laboratório do que se preparava para o Brasil, num segundo estágio do projeto petista, interrompido pelo impeachment.

As urnas eleitorais, aqui utilizadas, cuja vulnerabilidade a manipulações os especialistas atestam – e que põem sob suspeita a reeleição de Dilma -, vieram da Venezuela. Foram rejeitadas em países como os Estados Unidos e Alemanha, mas por aqui foram – e continuam sendo – elogiadas pela Justiça Eleitoral.

Não se pode imaginar a longevidade do regime chavista, de que Maduro é mero continuador, sem o apoio logístico e financeiro do governo brasileiro, nos treze anos de reinado petista.

Nesses termos, não se pode negar coerência à recente nota do PT, apoiando Maduro e os atos arbitrários em que acaba de reincidir.
Lula, nos momentos em que Chavez mais truculências cometia, não hesitava em defendê-lo, sustentando, para espanto geral, que na Venezuela tinha democracia até demais.

Participou pessoalmente das campanhas eleitorais de Chavez e Maduro, gravando vídeos e comparecendo a comícios. O fato de haver presos políticos, repressão violenta às manifestações públicas, desprezo pelos resultados eleitorais, com ações intimidadoras sobre o Congresso, é explicado como decorrente de reação a ações imperialistas de inimigos externos. Mas o inimigo está lá.

A tragédia venezuelana, um país produtor de petróleo, integrante da Opep, hoje reduzido à ruína econômica e à devastação social, sinaliza o que aqui ocorreria, na continuidade do projeto petista, que os correligionários de Lula almejam retomar com o delírio de sua candidatura. Não é um projeto político.

Por aqui, está sendo desvendado pela Lava Jato e mereceu do Ministério Público e de um ministro do STF, Celso de Mello, o epíteto de projeto criminoso de poder, que se apossou do Estado.

A reação débil do governo Temer ao novo golpe de Maduro, com a supressão dos poderes do Congresso pela Corte Suprema e a cassação por 15 anos do mandato do principal líder oposicionista, o governador Henrique Capriles, entre outras truculências, mostra a escassa autoridade moral que tem para expressar a liderança do Brasil no continente. Afinal, foi parceiro conivente ao longo de todo esse processo.

Imagem do Dia

Meteora (Grécia)

As fanfarrices de Lula

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O ex-presidente Lula agora faz proselitismo em horário nobre de TV. Diz que a economia piorou depois que o PT saiu do poder e que tudo pode voltar às mil maravilhas – se o Partido (claro!) recuperar o controle do Planalto. Quem ainda pode acreditar nas lorotas desse senhor, réu em cinco processos, metido num emaranhado inominável de esquemas, que não cansa de cometer atentados aos fatos em prol de uma ambição desmedida? Com a cara mais lavada do mundo, mirada solene, tal qual um restaurador da ordem, cabelos meticulosamente para trás, cada fio em seu lugar, vestindo terno de fino corte, Lula aparece na telinha para exercer o conhecido apego a falácias no intuito de convencer incautos. Alardeia um mundo de fantasias, de programas de educação e saúde que redundaram em rotundos fracassos, com estouros de verbas e pífios resultados, aqui e ali resvalando na corrupção. Vangloria-se da criação de mais de 22 milhões de empregos na era petista (de onde ele tirou esse número?) quando, na prática, o rastro de destruição deixado pela agremiação gerou um saldo de quase 13 milhões de desempregados. Vende exuberância e prosperidade. Abusa de demagogias populistas. Escora-se na propaganda e marketing pessoal, mesmo para tapear, como a alma do negócio. Ele nem toca no assunto dos erros que levaram à pior e mais longa temporada de recessão de nossa história. No conjunto, Lula e Dilma, durante mais de 13 anos, erigiram uma máquina de desperdício, inépcia e ineficiência. Como dar lições de moral com esse currículo? É bom revisitar sistematicamente as chagas abertas nas gestões do PT, para nunca esquecer. De sua lava saíram o “Mensalão”, o “Petrolão”, o aparelhamento sindical do Estado com apaniguados e inexperientes compadres a consumir recursos e saúde das empresas estatais. Quebraram quase tudo. Inviabilizaram as contas da União. Saquearam a riqueza dos brasileiros. Ninguém quer o retorno a esses tempos de tragédia. Qualquer pessoa minimamente informada sente a virada de expectativas desde a recente troca de comando em Brasília. Mas Lula não se cansa de pintar com imagens mais sutis, mais benevolentes e menos reais, os feitos petistas. Se esquece, ou desconsidera propositalmente, que a inflação só começou a cair após a deposição da pupila Dilma. Que os investimentos estão, aos poucos, retornando. Bem como a produção industrial, o financiamento em conta, os juros civilizados, os gastos públicos disciplinados no limite do orçamento. Não precisa ir longe para recordar a marcha da insensatez na qual nos metemos. Em apenas dez meses de lá para cá, mudaram os indicadores, as decisões e planos monetários, os objetivos de governo que hoje luta por reformas estruturais para consertar os estragos deixados e os vícios de origem. Lula ataca as reformas – especialmente a da Previdência – no intuito de sabotar o Brasil. Não pensa no que é melhor para o País. Apenas nele mesmo e em suas costuras eleitorais. Atalho para (quem sabe!) livrá-lo das punições da Justiça. O ex-presidente posa de paladino, de “salvador da pátria”, em um figurino surrado e de baixo crédito. Fala o que lhe dá na telha. Como, aliás, sempre fez, sem medir consequências. E articula as peças do seu tabuleiro em proveito próprio. Repetiu a tática mais uma vez há poucos dias na escolha do candidato a presidir o Partido. O cacique estava mais propenso pela senadora paranaense Gleisi Hoffmann e tentou dissuadir o ex-líder estudantil carioca, Lindbergh Farias, a desistir da pretensão. Sem sucesso. Abriu um racha nas bases. Nada que o lulopetismo não seja capaz de contornar. Tarefa, com certeza, menos inglória do que a de convencer milhões de brasileiros de suas boas intenções numa eventual volta ao governo.

Conta que não fecha

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Ninguém sabia e continua sem saber quantos presos há no país. Se não há dados, não há como fazer planos. O que temos hoje ainda é um conjunto de achismos
Paulo Rabello, presidente do IBGE

Brasil tem 19 entre as 50 cidades mais violentas do mundo

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O Brasil foi o país com o maior número de cidades entre as 50 mais violentas do mundo em 2016, segundo a lista divulgada nesta quinta-feira (07/04) pela ONG mexicana Conselho Cidadão para Segurança Pública e Justiça Penal. O país possui 19 municípios no ranking.

"Das 50 cidades da lista, 19 estão no Brasil, oito no México, sete na Venezuela, quatro nos Estados Unidos, quatro na Colômbia, três na África do Sul, duas em Honduras, uma em El Salvador, uma na Guatemala e uma na Jamaica", afirmou a ONG.

Na décima posição no ranking, Natal é a cidade mais violenta do país, com 69,56 homicídios por 100 mil habitantes. O município é seguido por Belém e Aracaju.

A lista inclui ainda Feira de Santana (15º), Vitória da Conquista (16º), Campos dos Goytacazes (19º), Salvador (20º), Maceió (25º), Recife (28º), João Pessoa (29º), São Luís (33º), Fortaleza (35º), Teresina (38º), Cuiabá (39º), Goiânia (42º), Macapá (45º), Manaus (46º), Vitória (47º) e Curitiba (49º).

Com 130,35 homicídios por 100 mil habitantes, Caracas, na Venezuela, aparece no topo do ranking das mais violentas do mundo, seguida por Acapulco, no México, e San Pedro Sula, em Honduras. Segundo a ONG, a repetição da posição da capital venezuelana por dois anos seguidos confirma a crise criminal no país.

Em relação a 2015, duas cidades brasileiras deixaram o ranking no ano passado: Porto Alegre e Campina Grande.

Segundo a ONG, os níveis de violência na América Latina não são uma surpresa e refletem a impunidade. No Brasil, ela atinge 92% dos homicídios, na Venezuela, El Salvador e em Honduras, chega a 95%.

A lista da ONG é baseada no número de homicídios por 100 mil habitantes e analisa municípios com mais de 300 mil habitantes.

Ganância e obscurantismo dos políticos brasileiros

A Lava Jato tem exposto o submundo da República, causando perplexidade pela conduta criminosa de autoridades, em todos os setores do Estado. São tantos desmandos que poucos políticos têm merecido a confiança de cidadãos honestos para permanecer no cargo. Assim, temendo as eleições de 2018, os parlamentares atuais estão inventando mecanismos de autoproteção, como o voto em lista fechada, a anistia do caixa 2, a censura às redes sociais e o projeto de abuso de autoridade.

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Este é o mais nefasto porque agentes públicos querem cercear a atuação de outros agentes públicos do mesmo Estado, ameaçando-os até com cadeia, simplesmente porque esses servidores têm apresentado resultados efetivos ao prender criminosos, dar ciência aos cidadãos dos conchavos nocivos e recuperar o dinheiro desviado. Essa situação torna-se surreal porque a repressão aos crimes não tem inibido a rapinagem; surgem, frequentemente, novas denúncias de pilhagem da riqueza nacional, enquanto os serviços essenciais para a população ficam mais deteriorados, diante do empobrecimento do país.
Torna-se indispensável, portanto, questionar por que muitos mandatários premiados pelo voto popular optaram pela corrupção, ignorando seus eleitores e descartando suas promessas durante a campanha. Tendo recebido a nobre incumbência de promover o desenvolvimento de uma nação com excelente potencial, seriam louvados através dos tempos, mas preferiram aumentar ilicitamente seu patrimônio, enquanto demonstram empáfia para tratar os cidadãos comuns, como se tivessem poderes imperiais para saquear o patrimônio público, arduamente formado nos últimos 200 anos. Sua ganância é insaciável, embora saibam que receberão em troca ressentimento e desprezo da comunidade.

Por que preferem esse caminho? Não se acanham de usufruir uma vida nababesca, enquanto veem, da varanda de suas mansões, mendigos que reviram o lixo à procura de algo para comer? Não se constrangem de saber que milhares de doentes estão estendidos no chão de hospitais públicos sem atendimento digno? Não se angustiam ao ver imagens pela televisão de jovens com politraumatismo, crianças esquálidas com diarreia, gestantes em trabalho de parto, idosos caquéticos e homens devastados pelo câncer?

Essa opção é mais inexplicável porque são os políticos desonestos que estão fomentando o atraso, a ignorância, o desconforto e a insegurança em torno de si mesmo e de suas famílias. Eles vão continuar vivendo em meio a cenas deprimentes de miséria, o que comprometerá seu bem-estar e inviabilizará o futuro de seu país. Está aí seu obscurantismo, porque, tendo as melhores oportunidades para escrever suas biografias em benefício de todos, eles fomentaram sua ambição.

Quando menos esperarem, sofrerão as consequências de uma sociedade ignorante, mal qualificada para o trabalho, fragilizada por inúmeras doenças e ressentida pelo engano de votar em gente tão mesquinha, individualista e desonesta.

sexta-feira, 7 de abril de 2017

Perguntas da rua

Numa entrevista de TV com a escritora norte-americana Sarah Chayes, estudiosa da corrupção e autora do livro 'Ladrões do Estado', o repórter Luis Fernando Silva Pinto perguntou mais ou menos assim: “Uma sociedade tão atingida pela corrupção tem condições de superar isso?”. Chayes respondeu que eram muito poucos os casos de sucesso. Mencionou o Peru, que depois de Fujimori se recuperou, assim mesmo de forma modesta. De fato, houve uma recuperação no Peru, apesar de a Odebrecht ter envolvido ao menos um ex-presidente nas teias da corrupção, Alejandro Toledo. A pergunta que se faz nas ruas é mais simples, mas vai na mesma direção do repórter: o Brasil tem jeito?

Sandra Chayes enumerou uma série de qualidades do País: capital humano, criatividade, energia. E concluiu que sim, o Brasil teria condições de oferecer esse exemplo de superação ao mundo.

Embora as ruas ainda não sintam a chegada do crescimento econômico, surgem sinais positivos e hoje muitos especialistas acham que o Brasil está reencontrando o seu rumo.


Se o front econômico realmente dá sinais visíveis de melhora, as expectativas vão se concentrar nas mudanças políticas. Nesse campo o desafio é gigantesco. Será preciso acionar todas as nossas qualidades e neutralizar os principais defeitos para obter a conquista de dimensão internacional.

Uma verdadeira reforma política só é possível com presidente e Parlamentos eleitos. A legitimidade não basta, é preciso que uma transição prepare o caminho para os vencedores.

De que adianta um novo presidente não querer fazer barganhas, se terá uma miríade de partidos para negociar?

No passado, a cláusula de barreira era um obstáculo para o surgimento de novos partidos com conteúdo político. Mas eles já tiveram seu tempo de conquistar representatividade nacional. Hoje a redução do número de partidos é uma necessidade superior, pois o presidencialismo de coalizão foi para o brejo.

Com tantos marqueteiros enredados com a Justiça, já era tempo de perceber que existe algo errado com o chamado programa eleitoral gratuito. A transformação de um programa político em espetáculo de TV é muito cara. Se os partidos se contentassem com algumas vinhetas, poderiam passar suas mensagens pela TV, desenvolver o debate na internet e, ao mesmo tempo, realizar intervenções eficazes e baratas. Desde que tenham algo a dizer.

As eleições de 2018 serão um processo de depuração. Mesmo que se consiga derrubar o foro privilegiado, é muito possível que o julgamento dos eleitores chegue antes do veredicto dos juízes. Em algumas circunstâncias, os eleitores podem absolver políticos corruptos. Nesse caso, resta confiar na Justiça, pois a aprovação popular não se sobrepõe à lei.

Todas essas possibilidades serão mais bem avaliadas depois que alguns impasses forem superados. O sigilo sobre o conteúdo das delações premiadas é um deles. Enquanto não sairmos do período que se encerra com todos os dados na mesa, o debate sobre o futuro próximo é um pouco capenga.

Alguns acham que os políticos tentarão um ato defensivo para se protegerem da Lava Jato, com a lei do abuso de autoridade. Duvido que consigam emplacar punições contra a interpretação da lei. Se o Supremo aceitar uma lei assim, será difícil até de explicar suas sessões televisionadas em que vemos tantas visões diferentes num choque salutar.

Duvido que consigam a votação em lista fechada, algo que funciona em países em que os partidos ainda gozam um nível de respeito. No Brasil seria um desastre.

Não há dúvida, entretanto, de que os políticos vão fazer tudo para manter o status. Alguns analistas acham até compreensível que num ato de desespero eles tentem mesmo um golpe contra a Lava Jato.

Um Parlamento que tenta sobreviver legislando em causa própria está cavando seu túmulo. E cavará seu túmulo errando o timing.

O primeiro julgamento será dos eleitores. Não é inteligente construir um escudo contra a Lava Jato com os traseiros expostos para as flechadas populares.

Existe um potencial de renovação em 2018. As pesquisas têm indicado forte rejeição ao políticos. Alinho esses fatos para fortalecer a tese de Chayes de que o Brasil pode dar a volta por cima e iniciar uma nova fase.

Nas ruas percebo a sensação de que algo vai mal, não deu certo, e uma dúvida sobre a capacidade de recuperação nacional. Alinho algumas ideias para fortalecer a tese de Chayes de que há um caminho possível de recuperação, apesar de ser algo bastante singular essa volta por cima. Um pouco pelo desejo de ver começar uma etapa, um pouco com uma dose de otimismo, que, aliás, está presente na entrevista de Chayes.

A esperança sozinha, divorciada dos fatos, não resolve nada. No entanto, se as expectativas forem corretas, ela é um elemento indispensável na resposta ao problema em que estamos metidos há algum tempo: como sair dessa maré. A resposta que dou na rua continua a mesma: é difícil, mas não impossível. Mas se a economia dá sinais de retomada e o caminho da reforma política for aplanado para 2018, aí, então, poderemos dar passos mais largos para nos tornamos um país que sobreviveu a um nível devastador de corrupção.

Toda essa expectativa depende de muitos fatores imponderáveis. O PMDB do Nordeste iniciando um movimento desagregador, tendo à frente Renan Calheiros, em princípio é apensas uma reação à impopularidade das reformas. Mas é também uma aproximação com Lula, que tem votos no Nordeste.

Na verdade, é uma resistência regional que parte dos lugares onde o PT é mais forte e alguns políticos simplesmente não podem perder as eleições, porque a Lava Jato está esperando de boca aberta. Se implodirem o governo, vão se deliciar com o estardalhaço. Mas o problema nacional continua. Eles até têm uma força destrutiva. Mas faltam energia e perspectiva para construir a nova situação. Teríamos perdido tempo, mas não a esperança.

Fernando Gabeira

Quem tem medo da verdade?

Aposentadorias e “Benefícios de Prestação Continuada” (BCPs) pagos a funcionários “incapacitados” representam 54% do gasto da União. A folha do funcionalismo ativo, outros 41%. Sobram 5% para financiar todos os investimentos públicos. Nos Estados e municípios é tal a fome dos marajás que nem para pagar a parcela do funcionalismo que, bem ou mal, de fato “serve” ao público tem sobrado.

A carga de impostos é de 36% do PIB e o déficit, de pelo menos outros 10%. São 46% do PIB, mais de R$ 2,5 trilhões, apropriados anualmente pelo Estado, R$ 2 trilhões e 375 bilhões dos quais (95%) consumidos com salários, aposentadorias, pensões, bolsas e quejandos. Um oceano dentro do qual tudo quanto se roubou em todos os anos investigados pela Lava Jato e, provavelmente, nos séculos 20 e 21 somados, ou talvez, até, de 1500 até hoje, vira uma gota ou, vá lá, um balde d’água.

Não é preciso mais nada para explicar por que estamos arrebentados. Um simples olhar para as parcelas dessa conta basta, também, para tornar instantaneamente lógica a aparente confusão política em que vivemos. Quinze dias atrás Marcos Mendes e Mansueto Almeida, secretário de Acompanhamento Econômico da Fazenda, publicaram na Folha de S.Paulo extenso artigo destrinchando aspectos centrais da reforma da Previdência. Todo servidor se aposenta com 100% do que ganhava no último dia de trabalho, coisa inédita no mundo. (Na verdade, costumam ter uma ou duas “promoções” pouco antes de cruzar a linha aos 50 anos.) Com 30 anos ou mais pela frente de puro desfrute, camadas sucessivas se vêm acumulando. Todas essas aposentadorias têm sido “reajustadas” muito acima da inflação junto com os salários dos servidores ativos (estes com aumentos contratados até 2020, no meio do pânico do resto do Brasil). Já os súditos no País real “se aposentam” com 70% do último salário (que paga imposto a partir de R$ 2 mil e pouco) e continuam trabalhando até morrer, pois se já viviam no limiar da miséria com 100%, que dirá com 70%. Essa situação é tão generalizada que o governo está criando o Regime Especial para o Trabalhador Aposentado, isentando o trabalho na velhice de alguns impostos. Aposentadoria “por tempo de serviço” aos 50 anos é, portanto, um luxo exclusivo dos donos do Estado. A maioria se aposenta antes disso, aliás, graças aos “regimes especiais”, mais uma das inúmeras formas de roubo legalizadas com que nos sangram, exatamente semelhante aos “auxílios” e outros apelidos que dão a pedaços do salário para aumentá-lo além do teto e sonegar imposto, só que aplicado ao tempo contado para se aposentar.

Pensões por morte são outro luxo hereditário exclusivo do marajalato. Custam 3% do PIB no Brasil, quando o padrão mundial é abaixo de 1%. 32% dessas pensões são pagas a funcionários que já recebem aposentadoria. 73% vão para apenas 30% dos domicílios, todos na categoria dos de maior renda do Brasil. O gasto com “Benefícios de Prestação Continuada” pagos a “incapacitados”, valendo em média dez Bolsas Família cada, cresceu de R$ 14 bilhões em 2003 para R$ 49 bilhões em 2016. A maior parte foi conseguida por ação judicial, dispensando, portanto, a evidência de dedos ou membros faltantes ou outras deficiências perceptíveis a olho nu. Só juízes, mais de 10 mil dos quais recebem acima do teto constitucional e, frequentemente, salários acima de seis dígitos, e “peritos judiciais” foram capazes de “enxergá-las”. 43% dos BPCs pagos vão para a faixa dos 40% mais ricos do Brasil.

Vai por aí o escárnio e, por essas e outras, a maioria dos servidores públicos federais está na faixa dos 1% mais ricos do Brasil e quase nenhum está aquém dos 5% mais ricos. Isso antes de contar as frotas de jatos, as dezenas de milhares de automóveis, os planos de saúde eternos e as mordomias mil que a favela paga para os palácios.

Uns poucos, muito poucos, entre esses abusos seriam coibidos pela reforma da Previdência proposta por Michel Temer, que, por ter ousado tanto, está, com todos os seus “negociadores” de reformas no Congresso, varejado de delações e a um passo de ser apeado da Presidência.

O problema brasileiro é “biodegradável”. Expostos os dados ao sol, a única resposta decente, a única resposta aritmeticamente possível, impõe-se por si só. A sobrevida da “privilegiatura” depende estritamente, portanto, de mantê-los escondidos sob uma barragem o mais ruidosa possível de mentiras. Não é por outra razão que a luta pelo poder se tem resumido à luta pelo controle dos meios de difusão de “narrativas”, o novo nome da mentira, seja pela martelação da discurseira sem contraditório daquela gente sinistra dos “horários gratuitos”, seja pelo “aparelhamento” de escolas e redações. Agora querem dar o golpe final fechando o último canal de expressão sem “tradução” da voz do povo com essa “lista fechada”.

Meu coração tem tentado, mas meu cérebro se recusa a se convencer de que é apenas ingênua e distraída essa Justiça sem prioridades que, sempre em perfeita afinação com a imprensa e consonância com o trâmite das reformas, arregala um olho para ladrões individuais de milhões, porém sistematicamente fecha os dois para a ladroagem coletiva de trilhões sem o fim da qual o Brasil não se salva.

O passado condena? Pode ser. Mas a verdade é que Temer não pode dizer a verdade num país onde ninguém mais diz a verdade. Como não é dele, é do Brasil que se trata, é preciso lançar uma campanha impessoal para demonstrar, sem eufemismos, a relação direta de causa e efeito entre cada marajá excluído da reforma e cada aumento de imposto, e entre cada aumento de imposto e cada emprego a menos. O Brasil precisa ser instado a fazer as escolhas que lhe restam sabendo claramente o que pode ser trocado pelo quê; quanta dor adicional e quanto alívio podem ser contratados pelo mesmo dinheiro escasso. Sem isso fica fácil demais para lobos se apresentarem como cordeiros e bandidos como mocinhos enquanto nos empurram todos juntos para o ponto de onde não há retorno.

Fernão Lara Mesquita

Alimentos adulterados matam 3 mil por ano nos EUA

Num momento em que o país se questiona sobre a qualidade dos alimentos que consome — indagação motivada pela Operação Carne Fraca da Polícia Federal — vale a pena ouvir o que têm a dizer os especialistas Jon Woody e Colin Barthel, do Food and Drug Administration (FDA), a agência norte-americana que regula os setores de alimentos e medicamentos. Eles participam, nesta sexta-feira, 07, em Taguatinga, de workshop organizado pelo Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (Senai).

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Woody e Barthel destacam que adulterações intencionais em alimentos ocorrem por várias razões, que vão de questões econômicas, sabotagem e falsificações até terrorismo, e todas diferem dos casos acidentais, que resultam de falhas de sistemas de controle. Pelos cálculos dos especialistas, apenas as adulterações motivadas por fraudes econômicas resultam em perdas anuais de US$ 10 bilhões a US$ 15 bilhões para as indústrias prejudicadas. Além disso, um em cada seis norte-americanos adoece por ano em decorrência de contaminação de alimentos. O problema resulta em três mil mortes anuais no país.

Esses dados foram apresentados por Woody e Barthel em palestra recente em Florianópolis, Santa Catarina, onde também listaram as ferramentas usadas pelo FDA, como softwares gratuitos disponíveis na internet, e os principais passos que as indústrias devem seguir para atender aos requisitos exigidos pela legislação norte-americana. As regras foram adotadas pelos Estados Unidos, em maio de 2016, para coibir o comércio de alimentos adulterados intencionalmente. O regulamento é o mais recente dos sete adotados desde 2011 a partir do Food Safety Modernization Act, Lei de Modernização da Segurança de Alimentos dos EUA.

As indústrias exportadores têm até julho de 2019 para adotar programas que previnam os riscos de contaminação em produtos. O setor de alimentos representa 30% das exportações industriais no Brasil. As vendas brasileiras do setor para os Estados Unidos em 2016 totalizaram US$ 1,5 bilhão (7,5% do total industrial exportado pelo Brasil).

Gente fora do mapa

France, Charente-Maritime, Saintes 1953 by Henri Cartier Bresson:
Henri Cartier Bresson (1953)

Adeus às ilusões

Preocupado com a devastação sofrida nas últimas eleições, o PT encomendou uma pesquisa entre seus ex-eleitores da periferia de São Paulo e recebeu resultados surpreendentes. Ou nem tanto. No imaginário desse eleitorado de baixa renda, a “luta de classes" agora não é entre burguesia e proletariado, mas entre o cidadão e o Estado, entre os que pagam impostos e não recebem bons serviços do Estado perdulário e corrupto. As pessoas não têm mais os patrões como inimigos, mas os políticos.

É um rude golpe nas crenças mais queridas dos companheiros marxistas. A consequência imediata é o desejo de um “liberalismo popular", com menos Estado e menos poder dos partidos e dos políticos. A grande maioria dos entrevistados quer métodos empresariais na gestão pública, como o eleitorado de João Doria. E de Trump. Como a receita ainda não foi testada nem é infalível, algumas gestões públicas “empresariais” serão bem-sucedidas e outras, fracassadas, dependendo das lideranças e da qualidade da administração.


Nas democracias de hoje prevalece o óbvio: boas administrações de esquerda, ou direita, com a economia crescendo, se mantêm no poder, administrações ruins de esquerda, ou direita, e economia ruim, são substituídas pela oposição. Cada vez se vota menos com o coração ou a cabeça, e mais com o bolso.

É hora de dar adeus às ilusões e encontrar novas formas de representação popular na estrutura de poder da nossa democracia.

Apesar de funcionar muito bem em vários países, como pensar em parlamentarismo no Brasil com os parlamentares que temos? Imaginem os Renans, Lobões, Cunhas e Jucás nos principais postos do Executivo, além de exercer o governo de fato com o primeiro-ministro e o seu gabinete, partilhado com partidos da aliança majoritária. Como cada legislatura é sempre pior do que a anterior, segundo o “Axioma de Ulysses", o parlamentarismo é inviável no Brasil.

Como os partidos não representam mais ninguém, e são vistos de forma cada vez mais negativa pelo eleitorado, seria um grande avanço discutir candidaturas individuais independentes, como em várias democracias modernas.

Nelson Motta

O diabo e a política

Naquela aldeia, todos roubavam de todos, matava-se, fornicava-se, jurava-se em falso, todos caluniavam todos. Horrorizado com os baixos costumes, o frade da aldeia resolveu dar o fora, pegou as sandálias, o bordão e se mandou.

Pouco adiante, já fora dos muros da aldeia, encontrou o Diabo encostado numa árvore, chapéu de palha cobrindo seus chifres. Tomava água de coco por um canudinho, na maior sombra e água fresca desde que se revoltara contra o Senhor, no início dos tempos.

O frade ficou admirado:

"O que está fazendo aí, nessa boa vida? Eu sempre pensei que você estaria lá na aldeia, infernizando a vida dos outros. Tudo de ruim que anda por lá era obra sua, assim eu pensava até agora. Vejo que estava enganado. Você não quer nada com o trabalho. Além de Diabo, você é um vagabundo!".

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Sem pressa, acabando de tomar o seu coco pelo canudinho, o Diabo olhou para o frade com pena:

"Para quê? Eu trabalho desde o início dos tempos para desgraçar os homens e confesso que ando cansado. Mas não tinha outro jeito. Obrigação é obrigação, sempre procurei dar conta do recado. Mas agora, lá na aldeia, o pessoal resolveu se politizar. É partido pra lá, partido pra cá, todos têm razão, denúncias, inquéritos, invocam a ética, a transparência, é um pega-pra-capar generalizado. Eu estava sobrando, não precisavam mais de mim para serem o que são, viverem no inferno em que vivem".

Jogou o coco fora e botou um charuto na boca. Não precisou de fósforo, bastou dar uma baforada e de suas entranhas saiu o fogo que acendeu o charuto:

"Quando entra a política, eu dou o fora, não precisam mais de mim".
Carlos Heitor Cony

Cartolas e coelhos

Ninguém pode dizer que não somos criativos, não é mesmo? Infelizmente, não somos só criativos nas Artes, Também o somos na Política...

Pelo menos eu sou quase que diariamente surpreendida por coelhos dos mais variados tamanhos tirados das cartolas dos brasileiros em posição de destaque. Você está lendo uma entrevista, ou se debruçando sobre um tema que interessa ao Brasil, coisa séria e, de repente, pimba!, lá salta um coelho da cartola do entrevistado ou do autor do texto. Sempre levo um susto!

São hábeis ‘cartoleiros’, se assim posso me referir a esses peritos em sacar coelhos das cartolas. Resolvi listar aqui alguns desses senhores e senhoras, numa ordem sem prejuízo da importância ou do mérito de cada um.

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* Começo com uma emérita ‘cartoleira’, a senadora Kátia Abreu (PMDB/TO). Renan Calheiros, sentindo que ele e seu filho pisam em chapa quente, achou por bem culpar o presidente Michel Temer por sua situação, repetindo em plenário o que já havia dito em um jantar em casa da senadora pelo Tocantins: “a presidente Dilma não sabia para onde ir, e o presidente Temer não tem para onde ir”.

A senadora Rose de Freitas (PMDB-ES) não gostou do que ouviu e foi tirar satisfação. “Como assim, Renan? Você está falando como líder? Você sabe o que eu penso sobre isso?”.

Foi o que bastou para um coelho saltar da cartola da senadora Kátia Abreu: “Você tem que entender o problema dele em Alagoas”.

Não é um lindo coelho? Não é o senador que tem que compreender seus eleitores e respeitar seus liderados. São eles que têm que entender que os Calheiros, aflitos, podem desabafar do modo que preferirem.

* Um ex- executivo da Odebrecht, Fernando Migliaccio da Silva, tirou de sua cartola, após confessar que era o responsável pela entrega em dinheiro vivo do Departamento de Propina da empreiteira, o recorde, imagino que imbatível, de sua atividade: em um único dia entregou R$35 milhões! Não posso jurar, mas senti certo orgulho nessa declaração.

* E o Jair Bolsonaro, essa flor de pessoa, que concluiu que nossos afrodescendentes, saídos dos quilombos, não servem nem para procriar? Onde ele disse isso? Onde? Na Hebraica, aqui no Rio. Não é um espanto?

* É um espanto, sim. Tal qual a carta aberta do ator José Mayer que resolveu se desculpar da agressão vil e muito baixa que cometeu contra uma colega de trabalho na Globo. Olhem o que ele tirou da cartola: "Tristemente, sou sim fruto de uma geração que aprendeu, erradamente, que atitudes machistas, invasivas e abusivas podem ser disfarçadas de brincadeiras ou piadas. Não podem. Não são”.

Que geração é essa, senhor Mayer? A minha é a nascida em 1937 e nós sempre preferimos homens carinhosos, amáveis, delicados, charmosos, elegantes. Fomos criadas como dependentes dos homens? É verdade. Mas de homens e não de animais. Cai na real, senhor Mayer.

* Já Dilma Rousseff, entrevistada pela Folha de S. Paulo, foi pródiga em sacar de sua cartola coelhos dos mais variados tamanhos. Chamou a delação do empresário Marcelo Odebrecht de delaçãozinha e garante que o que ele disse é fruto da coação que sofreu, e que ele jamais ousaria conversar com ela sobre doação. Não é um fenômeno? O homem que bancou as peripécias do PT não ousaria falar com a grande Dilma sobre dinheiro?

Não vi grandes novidades na entrevista, a não ser Dilma afirmar que apertada para ir ao banheiro, ao fim de uma reunião na Cidade do México, saiu da sala VIP para ir ao toalete e ao acabar de “fazer aquilo que tinha para fazer”, encontrou Marcelo Odebrecht na salinha e ele começou a falar daquele jeito meio embrulhado dele e ela não entendeu nada. Ou melhor, “Niente”, conforme disse à sua entrevistadora.

Curioso é que ela não entendeu logo a parte mais reveladora da entrevista, a de que sua campanha poderia ter sido contaminada, pois ele havia feito pagamentos no exterior ao marqueteiro dela, João Santana.

E, agora, digo eu: jeito meio embrulhado de falar, qual será o mais embrulhado, o dele ou o dela?

Páreo duro, não é não?

Paisagem brasileira

Rua da Misericórdia (1948), José Maria de Almeida

O tamanho do seu buraco

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Ora, meu querido brasileiro. Você ainda não se deu conta do que significou essa roubalheira toda, não é mesmo? Seu futuro foi pro brejo, junto com a política. Você sabe o que é votar contra o Uber, lista fechada, anistia ao caixa 2? São as formas que esses cretinos – todos eles – resolveram tentar para continuar a meter a mão no seu bolso bobão. Nada de “gópi” ou de volta dos militares, meus caros. O país precisa é de democracia plena. Para isto, é necessário que você tire o seu traseirinho da cadeira e pare de votar em idiotas, que fazem suas necessidades fisiológicas no mandato que conseguiram.

Chega de vigarice. Vote direito. Aprenda a votar e encontrar o seu candidato. Aprenda a cobrar. Você não tem um tijolinho na mão, que se conecta com o mundo? Use-o para se instruir. Pra mudar de rumo. Só assim você deixará de ser enganado pelos partidos das estrelinhas na cueca. Não é simples?

Corte na carne?

Antes havia 8.099 cargos que podiam ser ocupados por pessoas não concursadas. Agora são 5.499, ou 2.600 a menos. Além disso, colocamos restrição para os DAS 5 e 6, que são os mais altos
Dyogo Oliveira, ministro do Planejamento, Orçamento e Gestão

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Os funcionários públicos continuam enriquecendo. Segundo o IBGE, no período de dezembro, janeiro e fevereiro, a renda média dos servidores públicos foi 5,1% maior que o de igual período do ano passado.