terça-feira, 14 de fevereiro de 2017

A 'pós-mentira'

“Pós-verdade” é a nova palavra para justificar o caos psicológico do mundo atual. Que p*** é essa? É o seguinte: a história ficou mais imprevisível. Ninguém sabe a solução, e, pior, nem entendemos ainda a extensão do problema.

As pessoas passam a buscar uma certeza qualquer. No entanto, já sabemos que o presente é inexplicável e não nos levará a plenitude alguma. A ideia de “futuro” mixou. E, como não há em que acreditar, como não há verdades sólidas, inventaram esse termo para travestir a boa e velha mentira.

Parece filosofia barata (e talvez seja), mas o grande vazio atual pode ser simplesmente a saudade dos “universais”. Ou seja, conceitos que servem para nomear definitivamente, totalmente, fenômenos e sentimentos humanos: liberdade, amor, solidariedade, compaixão, direitos e deveres morais, dignidade na vida. A propósito, disse uma vez o Baudrillard: “Hoje não há mais o ‘universal’, só o singular e o mundial”. Na mosca.


É isso. Em seu lugar, surgiram os universais do mal: egoísmo, beleza da vingança, desprezo pelos fracos, elogio da religião mais bruta, ódio ao presente, desprezo pela ciência, pela arte. É a crença no mal contra um bem ineficaz – a defesa do absurdo contra a lentidão da razão e da democracia.

Cito de novo o Baudrillard (para a desconfiança de acadêmicos que o consideram “menor”). Bem, ele falava que no tempo em que vivemos, não há mais bandeiras possíveis – só nos resta a frágil defesa dos “direitos humanos”.

É verdade: como influir num mundo que virou um pesadelo humorístico, regido por seres repulsivos como Putin, o porquinho da Coreia do Norte, o Assad assassino e, agora, um dos piores seres vivos criou uma subideologia de extrema direita: o “trumpismo”, ou seja, a rebelião dos imbecis contra qualquer progresso na qualidade de vida.

Assim, a ignorância passa a ser uma virtude: dentro dela mora a recusa contra os labirintos da vida reflexiva. A ignorância encarnaria uma verdade acima de complexidades entediantes. Assim foi eleito o Bush, assim temos agora o grande espantalho no poder (nunca pensei que teria saudades do Bush...). Bush é um hippie perto do Trump (em inglês, “to trump” quer dizer planejar fraudes!...)

E para os pobres diabos do povão, incrivelmente, as ideias mais malucas parecem revolucionárias e corajosas. Vejam o muro contra o México. Vejam seu boquete no Putin.

A fragilidade da democracia animou os canalhas do mundo inteiro. Em nome dela, Erdogan arrasa o progresso secular da Turquia, Dutarte queima veados e drogados na Filipinas, Assad bombardeia, o Putin envenena e prende adversários, e por aí vai...

A nova forma de ditadura é um design de democracia autoritária, populista; mas essa forma de tomar o poder não tem a solidez finalista de projetos ideológicos como o nazismo ou o fascismo. Não, são delírios pessoais de sujeitos malucos e carismáticos que criaram a tal “pós-verdade”, como apelidaram oportunistamente...

Trata-se de um universo de ideias (falsas) que, se repetidas persistentemente, criam uma nova plataforma de fatos alternativos que explicariam o mundo de forma simplista e dogmática: quem duvidar é inimigo e mentiroso. Buscam uma verdade absoluta que, no duro, é um sonho totalitário. O que seria da sociedade sem o uso da mentira? O que seria do homem sem a privacidade de sua loucura?

Tweets, e-mails, Facebook, são os canais das grandes mentiras digitais, com milhões de idiotas “compartilhando” informações que desconhecem. A mídia tradicional fica acuada pela velocidade de panfletos odiosos que querem mudar a vida social, como fizeram no passado os jornalecos que inundaram o século XIX e provocaram em parte a Guerra da Secessão.

Pós-verdade é uma política cultural em que os debates são caracterizados por emoções, desconectadas dos fatos. Na pós-verdade é que os demagogos repetem e reafirmam seus argumentos, mesmo que eles sejam falsos. Para a chamada “pós-verdade”, os fatos são negativos. Os fatos são pessimistas. Os fatos são pouco patrióticos. Sempre que o Trump é flagrado em mais uma mentira, ele e sua equipe inventam outra maior do que a primeira. Mesmo com fotos provando, o rato declarou que em sua posse havia mais pessoas do que na posse do Obama. E os idiotas acreditam.

O que está acontecendo hoje já tinha sido previsto pelo Tocqueville em 1831, quando ele esteve na América, durante o governo de Andrew Jackson, sórdido matador de índios e negros, além de ter jogado o país numa recessão pesada. Claro que ele é o homem do retrato no gabinete do Trump.

O trágico e o patético é que o elemento acima não tem projeto algum a não ser desmoralizar os USA, ou melhor, desmoralizar a democracia. E desmoralizar também os sentimentos humanos, como faz sempre o Estado Islâmico. E ele já conseguiu. Em 15 dias, a América virou uma piada internacional. Todos riem: como elegeram um escroto como ele?

Trump vai criar grandes crises mundiais somente para festejar seu ego. É um perigo esse psicótico no poder, como naquele filme do “Dr. Fantástico”, lembram? Ou então – o grande livro de Orwell – “1984” – só que agora em forma de chanchada criada por um cara mentalmente doente.

Trump é uma espécie de terrorista, um homem-bomba americano que pode topar até a destruição do país para provar sua doença narcísica, a psicopatia que não admite oposição alguma. Pois, no meio de um discurso presidencial, ele não protestou contra uma loja que não vendia mais roupas de sua filha Ivanka? Um presidente perder tempo com isso só prova que ele é doido.

O que fazer? Ninguém sabe. Mas é difícil imaginar esse cara por quatro anos no poder. Se bobear, o mundo acaba antes. Boa viagem.

Temer inventa demissão em suaves prestações

Incomodado com o noticiário sobre o complô anti-Lava Jato que se move no eixo Planalto-Congresso, Michel Temer veio à boca do palco para dizer meio dúzia de palavras. Rodeado de auxiliares tóxicos, Temer esclareceu: se algum ministro for denunciado pela Procuradoria, será afastado temporariamente do governo (pode me chamar de licença com vencimentos e foro privilegiado). O denunciado só será demitido se for transformado em réu pelo Supremo Tribunal Federal. Espremendo-se as palavras do presidente, ficou entendido o seguinte: não adianta empurrar, porque Temer não se afastará dos amigos facilmente. Enquanto for possível, permanecerá abraçado a delatados como Moreira Franco e Eliseu Padilha.

Quem ouve de relance, imagina que Temer está sendo rígido. Denunciados subirão no telhado. Réus irão para o olho da rua. Mas, na verdade, o que há é um rebaixamento dos padrões éticos do governo. Romero Jucá, você se lembra, foi afastado do Ministério do Planejamento 13 dias depois de assumir porque sua voz soou num grampo dizendo que era preciso “estancar a sangria” da Lava Jato. Jucá é investigado. Não foi denunciado. Tampouco virou réu. Pelo novo padrão de Temer, Jucá ainda seria ministro.

Há uma esperteza primária no modelo criado por Temer para lidar com auxiliares suspeitos. Em Brasília, a Lava Jato caminha num ritmo de lesma. Na Capital, a Procuradoria é mais lenta do que em Curitiba. A lentidão também é uma das marcas do Supremo. Não é incomum que uma denúncia demore mais de dois anos para ser apreciada na Suprema Corte. Ou seja: o governo Temer vai avabar e ele ta;lvez nao precise demitir os amigos.

Foi por isso que Temer inventou a demissão em suaves prestações. Passa a delação. Vem a denúncia. E o sujeito só começa a pagar se virar réu. Temer subestima a inteligência da plateia. O brasileiro não é precisamente contra a embromação. Só não gosta de ser embromado.

Falta combinar com a rua

Aconteceu há 25 anos. No fim da tarde de sexta-feira, 17 de fevereiro de 1992, um empresário do setor de higiene hospitalar foi recebido pelo presidente de uma instituição pública de saúde. Tenso, entregou-lhe um envelope com dinheiro, sete milhões, já explicando que ainda não conseguira os outros sete combinados. Era parte da propina de 10% exigida para novo contrato de limpeza.

— Quando vem o resto?

Luca Magni ouviu, ajeitou o paletó com a caneta transmissora no bolso, e respondeu:

— Na próxima semana.

O empresário saiu, policiais entraram e prenderam o presidente do serviço de Saúde, Mario Chiesa, político do Partido Socialista Italiano que sonhava ser prefeito de Milão.

Ninguém ali podia imaginar, mas protagonizavam um evento que, pela década seguinte, revelaria uma Itália dominada pela corrupção. Empresários, políticos e servidores compunham uma engrenagem de roubo de dinheiro público.



Mãos Limpas, codinome dessa ação judicial italiana, está no DNA da Lava-Jato brasileira. Foi relatada em obra dos repórteres Gianni Barbacetto, Peter Gomez e Marco Travaglio. A recente edição no Brasil tem prefácio de um juiz federal em Curitiba, Sérgio Moro. Exige fôlego (896 páginas), mas a leitura flui como em “Lava Jato”, de Vladimir Netto. São livros complementares.

Os italianos narram uma história de império da Justiça até a forte reação legislativa dos corrompidos, apoiados pelos corruptores. Nessa encruzilhada hoje se encontra a Lava-Jato.

Lá, em oito anos, foram investigadas 6.059 pessoas — entre elas, 483 parlamentares, dos quais quatro ex-primeiros-ministros. Contaram-se 2.993 prisões e cerca de mil condenações. Empresários se suicidaram, sobreviventes se beneficiaram da anistia autoconcedida pelos políticos.

Aqui, em quase três anos, são 788 investigados com 188 prisões — 90% empresários, e um político com mandato. Contam-se 120 condenações na primeira instância judicial.

Até dezembro, apenas três ações haviam sido abertas contra parlamentares no Supremo. Uma contra o deputado federal Nelson Meurer (PP-PR) e duas contra Eduardo Cunha (PMDB-RJ), enviadas a Curitiba depois da sua cassação.

O Supremo terminou 2016 aguardando decisão da Procuradoria-Geral sobre 58 inquéritos sem denúncia formalizada, de acordo com o relator no STF, Teori Zavascki. Desses, 25 (ou 43%) estavam na polícia ou no Ministério Público. O restante fora ao arquivo (seis casos), juntados ou redistribuídos a outros juízes (27).

Um mês antes de morrer, na segunda-feira 19 de dezembro, o juiz Zavascki exibiu uma planilha com essas informações. Quis deixar claro que estava “em dia” com os processos — numa crítica indireta ao ritmo da Procuradoria-Geral. Sua ausência estimulou alguns no governo e no Congresso a redobrar a aposta num “grande acordo nacional”, como prescrevia o senador Romero Jucá (PMDB-RR), depois do carnaval do ano passado:

— Com o Supremo, com tudo...

— Aí parava tudo — retrucou o dono do gravador, Sérgio Machado, ex-presidente da estatal Transpetro.

— É. Delimitava onde está, pronto — arrematou o senador.

No Congresso sobram evidências de tentativas para um certo “acordo nacional”. O problema é o mesmo do último carnaval: falta combinar com a rua.

José Casado

E tome jazz

De pecados a modus operandi

Os capitais são sete: gula, avareza, luxúria, ira, inveja, preguiça e soberba. Há variações. Um e outro santo ou pensador do ramo amplia a lista. A heresia e a mentira, por exemplo, estão no inferno em funil de Dante, com seus nove andares, onde quanto mais fundo, pior.

No penúltimo andar está a heresia – culto ao demônio ou a outros deuses que não o Deus verdadeiro, aí incluído a idolatria ao dinheiro. O que seria uma variante da avareza e da soberba. O fundo do fundo ficou reservado à mentira. Distorcer a verdade seria pecado gravíssimo. Seria. Não é mais.

Andamos a pecá-los todos de uma vez só, insistente e destemidamente. Sem qualquer medo do inferno presencial ou virtual.

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A Gula, que é compulsão insaciável de comer e beber, além de fazer o mundo gordo e alterado, ainda resulta em egoísmo e cobiça. Mas corre solta, exercida de norte a sul do planeta.

A Avareza, que é o apego excessivo e descontrolado aos bens materiais, leva juros e impostos às alturas, faz Estados cada vez mais gulosos e perdulários, ricos cada vez mais ricos, impondo fome e pobreza a muitos. E daí?

Esse tal prazer de somar dinheiro a dinheiro, que alarga os limites da luxúria para muito além do desejo passional e egoísta por todo o prazer corporal e material, não mete mais medo. Rende selfie.

Como incontido e disseminado desejo de causar mal a outrem, a velha IRA responde pela maior parte dos conflitos humanos, desde o início dos tempos.

Nos dias de hoje, bomba. Quebra a banca. Saiu completamente da caixinha e do controle. Banalizou de um tanto que, sob a forma de raiva, ódio ou cólera por alguém ou alguma causa, é hoje o sentimento humano mais praticado. Não há Deus que nos livre da ira. É pecado estabelecido e prática juramentada.

Na cola da ira, ou antecedendo a ela, vem a Inveja, que é o desejo exagerado por posses, status, habilidades e tudo que o outro tenha. O invejoso é um perigo. Odeia sem declarar. Pode estar longe ou até ali na sua sala, à mesa, sob os seus lençóis, só cobiçando e vuduzando o que é seu.

O invejoso, Deus e o mundo sabem, quer sempre o que não tem. É parasita da sorte alheia, que pelas redes sociais afora destila sua inveja, sua cobiça por tudo que o outro tenha e ele não – particularmente, sucesso e dinheiro. Na forma de ciúme, a inveja costuma matar. E vem matando.

A Preguiça é definida como a prática permanente de negligência, falta de capricho, de esmero, de empenho, desleixo, morosidade, lentidão, descaso. Ex-pecado muito praticado nos nossos serviços públicos. Alcança com voracidade os mais necessitados de atenção e socorro – doentes, crianças e idosos preferencialmente.

No modo descaso, a preguiça costuma debochar dos cidadãos em geral. Nos derradeiros meses, a permanente negligência das administrações de estados brasileiros, que é outra modalidade da preguiça, deixa sem salários servidores públicos de áreas essenciais – professores, médicos e policiais, por exemplo.

Chegamos à Soberba, também conhecida como vaidade ou orgulho, sentimento siamês da arrogância, que dispensa descrição. É plena de exemplos. Com ela vimos esbarrando em volume cada vez maior. Para sairmos da esfera nacional, que é farta em soberbas, vamos nominar um estrangeiro: Trump, o presidente americano, em quem até o topete (capilar) espelha soberba.

Para piorar a cadeia dos pecados em desuso, como leis que não pegam, há ainda, definidos como novos pecados capitais do século 21. Igualmente praticados sem cerimônia. Por exemplo:

A Pressa. Os apressados não têm tempo para coisas de Deus, como solidariedade e compaixão. A pressa também alimenta as iras. Os efeitos colaterais mais visíveis da pressa são a impaciência e a ansiedade, que fazem matar e morrer.

Há ainda o Causar Injustiça Social. Ou seja, manifestar e praticar preconceitos e bullying. Dispensa explicações.

Por falta vaga no purgatório ou no inferno, pecados, antes capitais, foram promovidos a modus operandi. Correm soltos. Sem combate. Ou praticamos ou toleramos.

PS.: Apesar de descriminados, os pecados capitais ainda têm poderosos padrinhos nas profundezas. E é sempre bom conhecer chefias e companhias. Podem render selfies.
1. Luxuria – Asmodeus
2. Gula – Belzebu
3. Ganância – Mommon
4. Preguiça – Belphegor
5. Ira – Azazel
6. Inveja – Leviatã
7. Soberba/Orgulho - Lúcifer

Proibir circulação de jornalistas no Planalto demonstra o desespero de Temer

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A princípio, era apenas a Tribuna da Internet que ficava incomodando o Planalto com a suposta teoria conspiratória de que estava sendo armada uma operação conjunta com o Congresso Nacional para inviabilizar a Lava Jato. Durante meses, revelamos aqui no blog, com absoluta exclusividade, que seria adotada uma estratégia semelhante à que deu certo na Itália nos anos 90 e bloqueou o prosseguimento da operação Mãos Limpas, que teve 2.993 mandados de prisão e atingiu 438 políticos, inclusive quatro ex-primeiros-ministros.

Não mais que de repente, diria Vinicius de Moraes, aqui no Brasil a mídia inteira despertou para o assunto, que virou capa da Veja e nos últimos dias tem sido um festival de denúncias.

Essa reação da mídia brasileira, divulgada pela agência France Press para o mundo inteiro, já era esperada pelo Planalto desde a semana passada, quando mais uma vez o governo Temer proibiu a livre circulação de jornalistas credenciados nos andares em que funcionam a Presidência, a Casa Civil, a Secretaria de Governo e o Gabinete de Segurança Institucional.

Agora, jornalistas só podem entrar no quarto andar se tiverem hora marcada com alguma autoridade, a exemplo do procedimento adotado antes apenas com relação ao terceiro andar, onde fica o gabinete presidencial.

A circulação dos jornalistas no quarto andar sempre foi permitida nos governos militares e nas gestões de Sarney, Collor, Itamar e FHC. Nos governos Lula e Dilma é que a restrição passou a ser imposta. Na gestão interina, Temer chegou a ser elogiado por permitir o acesso a todos os andares, inclusive ao terceiro, onde fica o gabinete presidencial, mas essa liberalidade só durou algumas semanas.

A proibição só passou a incluir o quarto andar em setembro do ano passado, determinada por Márcio de Freitas Gomes, chefe da Assessoria de Imprensa, atendendo a uma ordem dos ministros Eliseu Padilha (Casa Civil) e Geddel Vieira Lima (Secretaria de Governo). Mas foi uma decisão tipo vacina, que não pegou. E pouco a pouco o controle foi sendo atenuado, os jornalistas voltaram a circular no quarto andar.

Com as denúncias da montagem da Operação Abafa, a proibição foi restabelecida na última quinta-feira, com seguranças postados perto dos elevadores e das escadas, para barrar os jornalistas, e o acesso passou a ser permitido somente com o acompanhamento de um funcionário da Secretaria de Comunicação.

A mudança de procedimento ocorreu logo após a nomeação de Moreira Franco para a Secretaria-Geral, que passou a incorporar a Secretaria de Comunicação (incluindo Imprensa), o Cerimonial e a Administração do palácio, com o consequente esvaziamento da Casa Civil, que manteve apenas uma assessoria de relativa importância, a Subchefia de Assuntos Jurídicos.

Assim que Moreira Franco foi nomeado, começou uma movimentação no quarto andar, com mesas de triagem de segurança instaladas na saída do elevador. Na quinta-feira, dia 9, os seguranças começaram a barrar os jornalistas.

Moreira, que está em situação indefinida até que o plenário do Supremo dê uma palavra final sobre sua nomeação, ainda está alojado no antigo gabinete da Vice-Presidência, fora do palácio, no Anexo 1.

O fato concreto é que todos estão assustados com a forte reação à iniciativa palaciana de bloquear a Lava Jato, em manobra já iniciada no Congresso por Rodrigo Maia, Eunício Oliveira e Edison Lobão, os três mosqueteiros que eram quatro e seguem as ordens de Renan Calheiros, uma espécie de D’Artagnan às avessas.

No desespero, Temer convocou os jornalistas para anunciar que não vai blindar ninguém e demitirá todos os ministros que virarem réus na Lava Jato. Em tradução simultânea, disse duas coisas: 1) não pretender blindar mais ninguém, Moreira Franco foi o último; 2) não vai demitir nenhum ministro citado na Lava Jato, não importa a gravidade de acusação, pois só os demitirá depois que virarem réus.

Na verdade, Temer quer apenas ganhar tempo e controlar a situação, enquanto os ridículos mosqueteiros lutam para inviabilizar a Lava Jato, através da aprovação daquela série de projetos já denunciados repetidas vezes aqui na Tribuna da Internet, sempre com exclusividade.

Como encontrar o sono

Leio num almanaque, El Libro de las Mentiras, que contar cabritinhos ou ovelhas não ajuda em nada a pegar no sono.

Dormir, nesse mundo de atribulações, virou grave problema médico, tratado já como distúrbio a afetar uns 45% da população mundial.

Velhos problemas como o terror noturno, provocados pelas histórias de mulas sem cabeças contadas pelas amas de leite, ou o sonambulismo, muito comum entre os que habitavam castelos, com escadarias labirínticas e janelas abissais, agora se transformaram em epidemia global.

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Nuns a causa é a depressão ou a ansiedade, noutros a falta de ar, catalogada como Síndrome da Apnéia Hipopnéia Obstrutiva do Sono, a Síndrome das Pernas Inquietas ou as Parassonias. Alguns lutam contra a falta do sono sem causa aparente: os portadores da Insônia Idiopática têm dificuldade de dormir desde a infância. E há os que dormem bem e, no entanto, talvez por distúrbio de memória, estão sempre a queixar-se de que mal dormiram ou dormiram mal, acordando irritadiços e de mau humor.

A leitura do El Libro de las Mentiras poderá ser um bom antídoto para tal transtorno.

Vejam as demolidoras revelações da pesquisa de Aníbal Litvin: a geometria euclidiana não é de Euclides, as tulipas holandesas são, na verdade, originárias da Turquia e as Ilhas Canárias devem seu nome aos cães e não os canários.

É possível espirrar com os olhos abertos, cortar cabelos não os faz crescer mais fortes e tanto cabelos e unhas não continuam a crescer depois da morte; é pura ilusão de ótica.

Nesses tempos de tanta confusão será útil saber que os movimentos do planeta Terra não são dois, mas cinco: rotação, translação, precessão, nutação e bamboleio de Chandler. O raio pode cair duas vezes no mesmo lugar. Fazer exercícios pela manhã queima tantas calorias quanto fazê-los à tarde ou à noite e comer miolo do pão não faz engordar mais do que a casca.

Wolfgang Amadeus Mozart não era Amadeus: chamava-se Joannes Chrysostomus Wolfgangus Theophilus Mozart. Não existiram os cavaleiros da corte do rei Artur, que sequer era rei.

O lava-jato Robin Hood não era o bandido generoso que roubava dos ricos para dar aos pobres. Piratas não enterravam tesouros; talvez usassem as jóias e as moedas de ouro para corromper políticos e suas esposas. Ali Babá não liderava um bando de 40 ladrões. Eram mais de 40 e algumas linhagens continuam ativas até hoje.

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017


Desumano

De tanto ouvir, a gente já se acostumou. Os números já não parecem chocantes. Soam como ecos de realidade distante vivenciada em lugar alheio a nossa paisagem. Baixamos nossas exigências e, principalmente, expectativas.

Deixamos de enxergar as vidas que, afinal de contas, estão atrás dos números. Não mais existem tragédias. Apenas estatísticas. Negativas, sem duvida. Mas frias. Distantes. Números, apenas.


Contar mortos em centenas virou hábito. Tão frequente que a manutenção da sanidade parece exigir distancia e frieza. Buscamos o conforto da ilusão de que são apenas números. Por piores que sejam somente mais um conjunto de estatísticas em terra já arrasada por tragédias incontáveis.

Talvez seja este o maior perigo. Trocar indignação por indiferença gera conforto passageiro, efêmero. E cria ambiente desumano, onde sobreviver é simplesmente função do acaso. E viver é tarefa quase impossível.

Enquanto os preparativos para o carnaval seguem funcionando como relógio, assiste-se a degradação da capacidade do Estado de gerar os seus benefícios mais básicos. Já vai longe a lembrança do tempo em que a rua era bem publico, acessível a todos, e disponível a qualquer hora.

Nestes tempos estranhos, o Estado, que já nunca foi muito justo, falha, abandona, e somente não decepciona porque as expectativas são muito baixas e continuam caindo. Vive-se amostra do caos gerado pela interrupção do processo civilizatório.

No país onde ninguém quer seguir a regra e todos querem ser exceção, é natural que o colapso seja comandado (ou talvez capitaneado) por aqueles que, de alguma maneira, tornaram os recursos públicos em monopólio de corporações.

É o país da insegurança. Do caos total. Da meia-entrada. E de justiça alguma. Onde se segue lógica peculiar onde privilégios e exceções viram regra. E soterram toda e qualquer possibilidade de sobrevivência no curto, no médio, e no longo prazo.

Máquina de transformar impostos em desperdício; indiferença em violência; vidas em números; e tragédias em estatísticas. Onde a pele dura da realidade justifica, mas não perdoa a desumanidade. Nem desculpa comportamento desumano

Sobra alguém?

Charge (Foto: Antonio Lucena)A maioria dos políticos brasileiros tem baixos padrões morais e éticos. (Não se sabe se isto decorre do mecanismo, ou se o mecanismo decorre disto. Sabe-se, todavia, que na vigência do mecanismo este sempre será o caso

Especialista em gente

Resultado de imagem para saúde na balança chargeA demissão sumária de dois médicos motivada por comentários, considerados antiéticos, sobre a doença de Marisa Letícia dá o que falar e pensar. Os empregadores de ambos os profissionais agiram rápido. Tiraram a fruta estragada da cesta para resolver no curto prazo problemas de contágio interno e das reputações de suas instituições junto à opinião pública. Entretanto, as causas que motivaram declarações desfavoráveis à paciente, posteriormente atribuídas ao corretor de texto, precisam ser conhecidas e compreendidas. Um dos temas prediletos de redes sociais organizadas por médicos, desde listas de amigos da turma da faculdade até movimentos que propugnam mudanças nas diretorias de entidades e empresas médicas, é a repercussão das denúncias de corrupção do PT.

O programa Mais Médicos provocou uma clivagem com a dita esquerda pútrida. Médicos eleitores do PT se sentiram traídos, até mesmo pela sociedade que aplaudiu os cubanos, e jamais perdoaram alusões sobre serem elitistas, vindas de quem “roubou e jamais ralou para atender o melhor possível nos serviços precários do SUS”. A reação contou com o apoio entusiasmado de entidades médicas, algumas das quais integraram a lista de assinaturas pró-impeachment, divulgada como matéria paga. A sensação de decomposição é mútua.

Em outros grupos, o papo é similar, xingamentos, desejos de que os denominados petralhas paguem por seus alegados crimes com punições extremas, inclusive a morte. O que chocou a todos, incluindo quem usa a internet para se manifestar contra o PT, foi saber que médicos se destituíram de seus compromissos profissionais e divulgaram informações confidenciais seguidas por comentários de ódio. Quem gostaria de ser atendido por profissionais que não são capazes de discernir entre a liberdade de terem e expressarem ideias e ideais políticos e a necessidade de estrita preservação da ética? Até o final do século passado, as fronteiras entre o que pode e o que não pode na saúde eram transmitidas por professores cultos, humanistas, que foram capazes de produzir um pensamento nacional sobre a Medicina. Jovens médicos conviviam com mestres que atendiam respeitosamente pobres e ricos e ensinavam que só existe uma Medicina. Esse aprendizado se tornava permanente com o ingresso profissional em unidades públicas de saúde, cujos chefes eram notórios médicos e instituíam padrões de conduta inspirados em suas práticas. A privatização do ensino e da assistência desativou o circuito mestre-discípulo e nada ficou no lugar.

A comunicação de médicos entre si, com pacientes e com a sociedade é uma preocupação de diversas entidades profissionais internacionais. Mas, as íntimas relações entre profissionais e usuários de serviços de saúde envolvem expectativas elevadas sobre o comportamento sigiloso dos médicos. A regra é que a conectividade não deve afetar o profissionalismo, isto é, o contrato informal de atividades autorreguladas, segundo o qual existe reciprocidade entre médicos e sociedade em termos de dignidade e respeito. O Colégio Americano de Médicos e o Conselho de Médicos do Reino Unido, por exemplo, consideram que mensagens disseminadas por via eletrônica são úteis para ampliar o contato com pacientes e população, mas requerem normas de uso. Outras desencorajam a participação em redes sociais que possam ser direta ou indiretamente acessadas pela sociedade e ainda advertem para a necessidade de “realizar uma pausa antes de postar”.

O choque gerado pela atitude de médicos brasileiros sacudiu as convicções estruturadas em torno dos nós, os corretos, contra os outros, que não prestam. A velha lição mostrou que ainda está válida. Os médicos serão íntegros se souberem honrar a confiança dos pacientes, seja lá quem forem. A espera de que um dia a realidade apresente suas demandas parece não ser a melhor forma de resolver dilemas que envolvem a vida e a morte. Podemos e devemos nos antecipar ao que vem por aí. A Olympus, fabricante de endoscópios, foi condenada pelo Departamento de Justiça dos EUA por pagar comissões a médicos e hospitais, inclusive na América Latina.

E por aqui, apesar das prisões de médicos, as denúncias sobre a promiscuidade que envolve o pagamento de material médico se acumulam. Foram autorizadas a abertura de mais de cem novas faculdades de medicina, quase todas privadas, menos equipadas e dispondo de professores com menor grau de titulação do que aquelas cujo desempenho tem sido baixíssimo no exame do Conselho de Medicina de São Paulo. No curto e médio prazos, haverá cerca de 200 mil médicos a mais no país com diploma tipo arco-íris, um combo que conjuga formação com pote de ouro. A alcunha de mensalidade cara para uma das faculdades de medicina privada é investimento. Incongruências demais e pausas e providências de menos para resolver os reais desafios da saúde.
Ligia Bahia

Paisagem brasileira

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Paisagem matinal, Mauro Ferreira (1958)

Prepara-se o fim da Lava Jato

Que não se diga depois que os coveiros da Lava Jato atuaram em segredo para enterrá-la sem que houvesse a mínima chance de impedi-los.

O segredo acabou em maio último quando foram reveladas gravações de conversas do empresário Sérgio Machado com os senadores Romero Jucá e Renan Calheiros, e o ex-presidente José Sarney.

Desde então avançaram as providências para que a Lava Jato seja velada em breve.

Na semana passada, o ministro Edson Fachin, novo relator da Lava Jato no Supremo Tribunal Federal (STF), acolheu denúncia da Procuradoria-Geral da República e abriu inquérito para investigar Machado, Jucá, Renan e Sarney por tentativa de obstrução da Justiça.

Numa das conversas, Jucá diz que é necessário "estancar a sangria" da Lava-Jato, do contrário não restará vivo um só dos atuais políticos.

Noutra, Renan fala em restringir as delações, base das acusações mais explosivas contra ele e outros investigados.

Com Sarney, Machado discute a derrubada da então presidente Dilma Rousseff e se queixa da falta de acesso ao ministro Teori Zavascki, na época, relator da Lava Jato. Sarney aconselha Machado a procurar um advogado amigo de Teori, o único com livre acesso a ele.

“Prende, mas não esculacha”, pediu Elias Maluco, traficante de drogas e um dos assassinos do jornalista Tim Lopes, ao se render à polícia em setembro de 2002, no Rio.

Ao capitão Nascimento, do filme “Tropa de Elite”, o traficante de nome Baiano, depois de preso e espancado, suplica antes de ser morto com um tiro à queima roupa: “Na cara não, chefe, para não estragar o velório”.

A Lava Jato corre o risco de ser esculachada e de levar um ou mais tiros na cara à luz do dia sem que se manifestem em seu apoio, salvo nas redes sociais, os que celebraram radiantes nas ruas a derrocada de Dilma e do PT.

Dilma caiu porque desrespeitou a Constituição ao maquiar as contas do governo e gastar além do que estava autorizada. Mas caiu também pelo “conjunto da obra”.

Ela empurrou o país para o buraco da mais grave recessão econômica de sua história. E para se eleger e se reeleger, beneficiou-se do mais gigantesco esquema de corrupção que jamais existira, responsável também pela degradação da Petrobras, e que garfou até mesmo uma fatia do salário de servidores públicos pendurados em empréstimos consignados.

Tal esquema foi desmontado em parte pela Lava Jato. Os que o usufruíam, em sua maioria continua impune. No máximo, responde a inquéritos e processos.

Essa gente, com assento privilegiado em todos os escalões da República, conspira e age sem pudor para limitar, deter ou se possível sepultar a mais bem-sucedida operação de combate à corrupção que já vimos por aqui.

O STF dará a palavra final sobre o destino das mais altas autoridades suspeitas de corrupção? Indica-se para a vaga de Teori o ministro que assumirá o papel de revisor dos feitos da Lava Jato.

Quem será o ministro? Alguém da inteira confiança dos que mais tarde serão julgados por ele. Quem aprovará seu nome no Senado? Ora, os felizes apoiadores de sua indicação.

O que fazer para aplacar a fúria investigatória da República de Curitiba? Transfere-se para outros lugares quem servia, ali, à Polícia Federal. E o que mais? Vota-se no Congresso a lei de anistia do caixa dois.

Por fim, o Congresso acaba com a delação premiada para quem estiver preso. Só valerá para quem estiver solto.

Duvidam? Pois mexam-se!

Salário é que paga a festa


Senador Wilder Morais (PP - Goiás), vestido com farda da PM em festinha na chalana Champagne. O local é o mesmo em que o ministro da Justiça licenciado, Alexandre de Moraes, foi "sabatinado" por sete senadores

Romênia, um país onde a corrupção mata

Teddy Ursulescu perdeu os dedos da mão esquerda e parte dos da direita. Também perdeu muito da sensibilidade nos braços. E nas pernas. Suas extremidades estão marcadas por cicatrizes grandes e rugosas, que se espalham também por baixo da camiseta de listras pretas. São as marcas exteriores provocadas pelas chamas que assolaram o Club Coletiv de Bucareste em outubro de 2015, uma discoteca onde a jovem tinha ido com um grupo de amigas para assistir a um show. Teddy, uma jovem arquiteta, já não as esconde. As cicatrizes são o sinal de que ela conseguiu escapar da tragédia. "Dentro da discoteca, 27 pessoas morreram. As pessoas estavam presas, queimando-se, sufocadas", sussurra, na sala de sua casa em Bucareste. Teddy fez 30 anos neste sábado.
Teddy Ursulescu, vítima do incêndio do Club Colectiv
O terrível incêndio revelou um enorme caso de corrupção na Romênia. O Colectiv não tinha as mínimas condições para funcionar. E, apesar disso, seguia aberto graças a subornos e propinas que pagava aos órgãos de administração, segundo investigações. O escândalo – que derrubou o governo romeno – foi um momento-chave no país. As pessoas viram que a corrupção pode matar. O caso do Colectiv, infelizmente, mostra também até onde pode chegar o problema.

Porque alguns dias, semanas depois do incêndio, outras 37 pessoas que estavam na discoteca morreram, a maioria devido a terríveis infecções hospitalares; uma taxa altíssima. As mortes e a investigação posterior escancararam um sistema de saúde gangrenado pela corrupção, em que as condições dos hospitais eram inadequadas, mas eles acabavam aprovados em fiscalizações compradas - ou simplesmente inexistentes - e em que o pagamento de comissões aos administradores e aos próprios médicos tornou-se habitual. Também foi descoberto que um laboratório farmacêutico romeno, o Hexi Pharma, havia passado anos vendendo, a preços altíssimos, produtos de limpeza hospitalar diluídos, que não serviam para esterilização. Esses produtos eram vendidos a 350 hospitais do país, incluindo o de Queimaduras de Bucareste, onde estava internada a maioria dos feridos do Colectiv, e para onde também foi levada Teddy, antes de ser transferida para Viena, onde chegou com uma infecção muito forte e que não estava em seu prontuário.

Foi no Hospital de Queimaduras, uma antiga maternidade reformada, que morreu Alexandru Iancu, de 22 anos. Um jovem de cabelos compridos e olhar cansado, amante do rock e da poesia, que passava quase todo seu tempo livre tocando guitarra. Principalmente as músicas de Goodbye to Gravity, a banda que tocava no Colectiv no dia da tragédia. "Quando ele sobreviveu ao incêndio na boate, chegamos a acreditar que ele sobreviveria. Não pensamos que, três semanas depois, ele morreria de infecção hospitalar", lamenta o pai do jovem, Eugen. "Meu filho Alexandru foi uma vítima dupla da corrupção: primeiro no Colectiv e depois no hospital. O que aconteceu mostra a que ponto a corrupção pode chegar", reclama Eugen Iancu, que agora preside uma associação de vítimas da tragédia.

As famílias procuram culpados. "Esperamos que este caso, em que há vários processos, provoque uma mudança nas leis, para que nada parecido volte a acontecer", afirma Antoniu Obancia, advogado de Iancu e de outras 19 vítimas ou familiares. Para ele, o que aconteceu no Colectiv é um dos casos mais importantes dos últimos 25 anos. Seu escritório, Zamfirescu, Racoti & Partners, que costuma defender pessoas em casos contra acusados de corrupção, não está cobrando das vítimas.

A Romênia ocupa a posição número 57 no ranking da Transparência Internacional, que mede a corrupção em 197 países. Por lá, as comissões, os subornos ou as situações que envolvem conflitos de interesses são algo absurdamente comum. E, embora a situação tenha melhorado, de acordo com o mesmo índice e com o último relatório da Comissão Europeia – que audita o país desde sua adesão, há 10 anos –, nove em cada 10 romenos continuam considerando a corrupção um problema grave do país. Mais do que isso, dois a cada três romenos dizem ter pagado ou recebido dinheiro para acelerar algum trâmite oficial, para receber atendimento médico ou para garantir uma boa educação.

Muitos destes cidadãos foram às ruas para protestar contra o que aconteceu no Colectiv. E voltaram a fazê-lo, de forma ainda mais forte, para reclamar da corrupção e de um Governo que tentou diminuir, com um decreto, a luta contra o problema. As manifestações, as maiores do país desde a queda da ditadura de Nicolae Ceaucescu, há 27 anos, conseguiram bloquear a lei que descriminaliza alguns casos de corrupção, e foram um marco para a Romênia o resto da Europa.

"As pessoas declararam guerra à corrupção em todos os níveis", afirma Miluta Flueras. O engenheiro, de 33 anos, também estava na boate no dia do incêndio. Fotógrafo e amigo do grupo Goodbye to Gravity, ele estava fotografando o show. Acabou ferido com queimaduras de segundo e terceiro graus em 30% do corpo. Hoje, depois de seis meses internado, ele está praticamente recuperado e participou ativamente dos protestos contra o Executivo do Partido Social-democrata e sua tentativa "sem vergonha" de diminuir a luta anticorrupção.

"Depois destes escândalos e das mortes, a reforma legal foi vista como uma manobra não apenas nociva, mas intolerável", afirma também Codru Vravie, especialista legal da Funky Citizens, uma plataforma online que analisa a transparência na Romênia. Vravrie afirma que, apesar de a Administração ser o setor mais afetado – com propinas para obtenção de documentos, comissões por contratos, uso de materiais inadequados ou com preços superfaturados, etc –, são os escândalos da saúde pública os que causam mais indignação. São vidas humanas em jogo.

"A saúde tem um orçamento de 7 bilhões de euros (24 milhões de reais), a tentação de desviar dinheiro é muito grande: muitos gerentes, e também políticos, cobram comissões de empresas de produtos de saúde, de laboratórios, de contratos de limpeza", denuncia a médica Camelia Roiu, que afirma que os pagamentos a profissionais de saúde são algo comum no sistema romeno, no qual, até o ano passado, um médico não ganhava mais de 700 euros (2.400 reais) por mês. "De novo, entra a tentação", diz. A funcionária pública Laura Popa, por exemplo, pagou 200 euros (650 reais) por uma cesárea. Sua amiga Roluca, 150 (500 reais).

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Quem paga


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Muitas vezes nem se sabe quanto custa o que se está pedindo, mas ‘é o governo que vai pagar’
Paulo Hartung, governador do Espírito Santo

Dependência crônica

Um levantamento do Estadão Dados mostrou o aumento do número de municípios que dependem dos recursos provindos de repasses do Bolsa Família para evitar o colapso financeiro. De 2008 para cá, quase dobrou, nas contas municipais, a proporção de recursos do programa em relação ao Fundo de Participação dos Municípios (FPM) – de 25% para 40% –, que ainda representa a principal fonte de receita para muitas prefeituras. Em vários municípios, apontou a pesquisa, os recursos do Bolsa Família já superam os do FPM. No período avaliado, subiu de 7 para 187 o número de prefeituras nessa situação.

O FPM é uma fonte de recursos para as prefeituras garantida pela Constituição. Uma parte da arrecadação do Imposto de Renda e do Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI) – 22,5%, como determina o art. 159 – deve ser repassada aos municípios pela União de acordo com critérios que levam em conta o número de habitantes. O ânimo do constituinte de 1988 foi atribuir ao FPM um caráter redistributivo. Vale dizer, quanto menor a cidade, maior porcentualmente será o volume de recursos federais repassados por intermédio do FPM.

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Paradoxalmente, o aumento proporcional dos recursos do Bolsa Família nas contas municipais deve-se à grave crise econômica criada durante o governo da ex-presidente Dilma Rousseff, que, entre muitos efeitos deletérios para a vida nacional, levou à diminuição da atividade econômica, da arrecadação de impostos federais e, consequentemente, do repasse de recursos do FPM aos municípios. Ainda que os recursos do Bolsa Família tenham crescido proporcionalmente, isso não significa alívio automático para os cofres das cidades, ao contrário. A maioria dos beneficiários do programa gasta o subsídio em estabelecimentos da economia informal, que não geram aumento de receita tributária para os municípios. Além disso, embora a concessão do benefício esteja a cargo da União, o cadastro, o acompanhamento e a fiscalização do programa são de responsabilidade das prefeituras, e isso ocasiona um custo que muitas delas já não conseguem suportar.

Está-se diante de dois casos de dependência crônica. Passados 14 anos de sua criação, o Bolsa Família não serviu ao fim emancipatório que fora alardeado pela propaganda dos governos petistas. Não obstante o nobre intento de atender às necessidades mais prementes de uma significativa parcela da população, o benefício tornou-se, tão somente, um paliativo. Jamais teve o condão de retirar milhões de brasileiros da pobreza. Se é justo creditar-lhe a redução do porcentual de miséria absoluta no País, ao mesmo tempo dele continuam dependentes milhões de brasileiros, seja por falta de políticas públicas que, associadas ao Bolsa Família, de fato, ensejariam a reinserção dos beneficiários no mercado formal de trabalho e na economia produtiva, seja por desvios éticos na própria concessão do benefício pela administração pública e no recebimento indevido por parte daqueles que deveriam ser os primeiros a almejar perspectivas de vida mais prósperas e independentes.

O outro caso de dependência – ainda mais crítico – é o que há entre a saúde financeira de várias prefeituras e os recursos provenientes do FPM, sem os quais elas não sobreviveriam. Criados sem condições fiscais para manutenção dos mais básicos serviços públicos, muitos municípios nem sequer deveriam existir como entes federativos independentes. Sem atividade econômica que gere arrecadação própria, esses municípios foram criados por razões da baixa política. Por interesses eleitoreiros de oligarquias locais, má-fé na obtenção de recursos da União e locupletamento de toda sorte na gestão pública, muitos distritos foram elevados à categoria de municípios sem condições para tal, com efeito pernicioso sobre as contas públicas e sobre a qualidade dos serviços aos munícipes. O grau de dependência desses municípios ao FPM hoje é tal que dificilmente será revertido. O que se pode esperar é que o surto emancipatório não prospere sem as devidas condições que o justifiquem.

Planalto e bancada da corrupção não têm condições de abafar a Lava Jato

No Congresso Nacional, está tudo quase dominado, como se diz na gíria das facções criminosas. Amplamente majoritária, a bancada da corrupção se prepara para colocar em prática a operação destinada a abafar a Lava Jato. A ideia é seguir o exemplo do esvaziamento da operação Mãos Limpas na Itália, que curiosamente foi iniciada no Brasil, com a prisão do chefe mafioso Tommaso Buscetta na cidade de Itapema (SC) pelo delegado federal Pedro Berwanger. Após ser extraditado, Buscetta fez a fabulosa delação premiada que nos anos 90 devassou a corrupção na Itália, envolvendo 438 políticos, e entre eles havia quatro ex-primeiros-ministros. Mas a operação Mãos Limpas acabou inviabilizada por uma série de projetos legislativos e a trama até possibilitou que chegasse ao poder o empresário Silvio Berlusconi. Portanto, deu tudo errado, a corrupção voltou a reinar na política italiana.


No Brasil, a situação é semelhante. A campanha contra a Lava Jato está sendo desfechada pelo próprio governo, com apoio da esmagadora maioria do Congresso, e a estratégia traçada é uma cópia do esquema que deu resultado contra a Mãos Limpas. Aparentemente, tem tudo para conseguir êxito, mas há controvérsias, diria o genial ator Francisco Milani, que foi vereador pelo Partido Comunista Brasileiro (PCB), em 1992.

No caso da Itália, o esvaziamento da Mãos Limpas teve sucesso porque naquela época houve um acerto para amaciar a grande mídia e não existia internet. Além disso, as ações contra a corrupção tinham se tornado tão repetitivas (houve 2.993 mandados de prisão) que ninguém mais dava importância. E o crime organizado – que na Itália é uma espécie de instituição nacional – acabou saindo vitorioso.

Mas no Brasil essa situação não tem como se repetir, porque a internet mudou inteiramente o panorama. A grande mídia perde importância a cada dia e o país já está dominado pelas redes sociais. As notícias mais importantes dos blogs e sites independentes viralizam e são transmitidas por e-mails e celulares, não há quem possa evitar. A reação das redes sociais tornou-se irrepresável, irrefreável, irreparável, é ilusão desconhecer essa realidade.
A morte de Teori Zavascki encheu de esperanças o Planalto e o Congresso, mas a bancada da corrupção não contava com a astúcia da ministra Cármen Lúcia, que convenceu o ministro Edson Fachin a passar para a Segunda Turma e se submeter ao sorteio do novo relator, e as regras do Supremo indicavam que seria ele o escolhido, por ser o mais novo e ter menos processos em estoque.

E logo na primeira semana o relator Fachin mostrou a que veio. Sua primeira decisão de importância foi aceitar a explosiva denúncia da Procuradoria da República contra Renan Calheiros, Romeró Jucá, José Sarney e Sérgio Machado, ex-presidente da Transpetro. O novo relator mandou abrir inquérito contra eles. Uma decepção enorme para o Planalto e o Congresso, pois julgava-se que Fachin fosse mais “compreensivo” em relação à classe política.

Em tradução simultânea, poder-se-ia dizer que não será nada fácil repetir o que aconteceu na Itália e inviabilizar a Lava Jato. Portanto, Karl Marx estava certo ao afirmar que a História somente se repete como farsa, conforme escreveu em seu ensaio “O 18 de Brumário de Luís Bonaparte”. E aqui no Brasil já estamos cansados de farsas.

Nunca houve uma mulher como "Gilda"

O pior governo...

O governo Temer aprovou praticamente tudo o que quis no Congresso, e recuperou o controle das finanças públicas. Os sinais da economia são positivos, pois a inflação entrou numa espiral descendente significativa. Mas está perdendo o controle de segurança pública, cuja responsabilidade principal é dos estados. Depois da crise dos presídios do Maranhão, Amazonas e Roraima, depara-se agora com uma grave crise no Espírito Santo. O jurista italiano Norberto Bobbio dizia que todo governo, mesmo o pior, é a forma mais concentrada de poder. Quando nada nele funciona, as tarefas essenciais do Estado são mantidas: arrecadar, normatizar e coagir. Quando um governo perde a capacidade de manter a ordem pública, deixa de ser um governo ruim para ser desgoverno. É o que está acontecendo no Espírito Santo e pode se generalizar.

É paradoxal a situação capixaba (cujo governo aparentemente fez o dever de casa fiscal), que ameaça se alastrar para o Rio de Janeiro (cujo governo faliu ética e financeiramente), onde uma greve da PM teria consequências, digamos, “iraquianas”. Não é a primeira vez que policiais militares se amotinam, isso aconteceu nos governos FHC e Lula, mas é a primeira vez que o Exército, a Marinha, a Aeronáutica e a Força Nacional intervêm num estado, como agora, e não acontece nada. Os amotinados continuam aquartelados, embora 600 militares já tenham voltado a trabalhar. Já passou a hora de entrar no quartel-general da Polícia Militar do Espírito Santo, em Maruípe, para restabelecer a disciplina da tropa.



A negociação é conduzida pelas autoridades estaduais, que empurram a situação com a barriga porque há mais de 3 mil homens das tropas federais substituindo a PM. Estão convencidos de que uma intervenção do Exército pode resultar numa tragédia. Conversa fiada. Não existe um precedente, desde a Revolução Constitucionalista de 1932, de tropas estaduais se confrontarem com o Exército. A Constituição estabelece a subordinação hierárquica das polícias militares ao Exército, em casos excepcionais, exatamente porque a antiga Força Pública de São Paulo rivalizava com as tropas da União em poderio bélico. Não serão os militares capixabas que cometerão a loucura de patrocinar um confronto dessa espécie, ainda mais com a maioria da população revoltada com seu comportamento irresponsável e perverso.

Alguma coisa de muito estranha acontece. O governador Paulo Hartung, que reassumirá o governo amanhã, faz um discurso com começo, meio e fim, quanto ao ajuste fiscal e ao respeito à disciplina e à ordem, mas tergiversa quando fala do atual comando da Polícia Militar, que perdeu o controle da situação. O quartel-general de Maruípe continua sendo o reduto dos amotinados, que ameaçam reagir a tiros, caso o Exército disperse o grupo de mulheres que protestam à sua porta. É uma situação desmoralizante, que se alastra para vários quartéis do Rio de Janeiro.

O presidente Michel Temer determinou o envio de tropas na segunda-feira, mas manteve distância regulamentar da crise a semana toda, como todo velho político que mergulha quando a onda quebra. Somente na sexta-feira, pela primeira vez, se manifestou oficialmente. Sua nota é conciliadora, mas, se não for levada em conta — como parece que não será —, sua autoridade sairá desgastada. Ontem, o ministro da Defesa, Raul Jungmann, desembarcou no Espírito Santo com o procurador-geral da República, Rodrigo Janot. Reuniu-se com as autoridades do governo local e depois deu uma boa entrevista. Palavras ao vento, porque o estado-maior do motim continua o faz de conta em Maruípe.

Uma das características de Temer é a fleuma. Maquiavel, porém, dizia que nem sempre a prudência é uma virtú. Em determinadas circunstâncias, a fortuna exige certa dose de audácia. A aposta do governo nas reformas da Previdência e trabalhista, por exemplo, são iniciativas audaciosas no terreno do combate à crise fiscal e da retomada do crescimento. Mas enfrentam reações das corporações encasteladas no Estado, entre as quais, os oficiais das polícias militares.

Essa resistência ao ajuste fiscal não existe apenas no Espírito Santo. Imaginemos que a tática das “paisanas” venha a ser adotada em todo o país, como já acontece no Rio de Janeiro, e que o comportamento das tropas também se repita, o que felizmente ainda não aconteceu. Qual será a saída para o impasse? Cada um que imagine a resposta, vamos apenas contextualizá-la: a elite política do país nunca esteve tão desgastada, com o Congresso desmoralizado e vários ministros citados nas delações premiadas da Operação Lava-Jato. O que garante o Estado democrático de direito no Brasil não são seus líderes, é o funcionamento de suas instituições políticas. A nossa elite política afronta a sociedade com atitudes e decisões voltadas exclusivamente para seus próprios interesses, num momento em que o bem comum deve falar mais alto. É aí que está o perigo de os governos serem volatilizados, como no Espírito Santo.

Lava Jato em perigo

Crescem os rumores de que o governo e o Congresso estão conseguindo sufocar a Operação Lava Jato. São tantos os políticos enrolados na corrupção que vem obtendo sucesso a tentativa de enfraquecer a ação contra a maior roubalheira da História da República. Não são promissoras a ida de Alexandre de Moraes para o Supremo Tribunal Federal, de Edison Lobão para a presidência da Comissão de Constituição e Justiça do Senado e dos presidentes das duas casas do Legislativo. Aguarda-se a nomeação do novo ministro da Justiça para evidenciar a construção de uma muralha de defesa dos que têm contas a ajustar com a Justiça.


Enquanto isso, é inexplicável a demora da divulgação da lista da Odebrecht, designando os quase 200 deputados e senadores denunciados como envolvidos na tramoia da empreiteira. Mobiliza-se também a mídia para desmoralizar o juiz Sérgio Moro e os procuradores de Curitiba.

Trata-se de uma armação com a finalidade de empurrar com a barriga o processo de moralização da vida pública. Há frustração na opinião pública, exigindo uma reação daqueles que se colocaram na linha de frente da moralidade. Basta ver quantos dos já condenados pela lambança encontram-se cumprindo suas penas em casa, beneficiados de luxo e regalias.

Seria necessário o Supremo liberar logo as delações feitas pelos diretores e ex-diretores da Odebrecht, bem como das demais empresas envolvidas em atividades criminosas. Não demora vencerá o prazo para as prescrições, fazendo a alegria dos bandidos.

Brasil terá ao menos 2,5 milhões de 'novos pobres' até o fim do ano

Estudo inédito do Banco Mundial, ao qual o GLOBO teve acesso, aponta que o número de pessoas vivendo na pobreza no Brasil aumentará entre 2,5 milhões e 3,6 milhões até o fim deste ano. Denominados de “novos pobres” pela instituição internacional, porque estavam acima da linha da pobreza em 2015 e já caíram ou cairão abaixo dela neste ano, eles são na maioria adultos jovens, de áreas urbanas, com escolaridade média e que foram expulsos do mercado de trabalho formal pelo desemprego.

Se quiser estancar o crescimento da pobreza extrema aos níveis de 2015, base mais atual de dados oficiais sobre renda, o governo terá que aumentar o orçamento do Bolsa Família este ano para R$ 30,4 bilhões no cenário econômico mais otimista e para R$ 31 bilhões no quadro mais pessimista, aponta relatório do Banco Mundial. Para 2017, o programa de transferência de renda tem R$ 29,8 bilhões garantidos.

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Como o benefício do Bolsa Família varia conforme a composição familiar, número e idade dos dependentes, presença ou não de gestantes, entre outros aspectos, os técnicos da instituição internacional fizeram uma análise complexa para estimar o ajuste necessário no programa. Segundo as projeções, de 810 mil a 1,1 milhão de famílias serão elegíveis para receber o benefício este ano, o que demandará o orçamento adicional calculado.

Por meio de simulações, o relatório projetou a taxa de pobreza extrema no país, calculada em 3,4% em 2015, com e sem o incremento no Bolsa Família. Se o programa não aumentar, aponta o Banco Mundial, a proporção de brasileiros em situação de miséria subirá para 4,2% este ano no cenário otimista e para 4,6% no pessimista. Caso a cobertura seja ampliada, conforme recomendado, a taxa terá um leve crescimento para 3,5% e 3,6%, nos dois quadros econômicos traçados.

A partir dos dados oficiais sobre renda mais recentes, coletados pela Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) 2015, o Banco Mundial estima que 8,7% da população, ou 17,3 milhões de brasileiros, viviam abaixo da linha da pobreza naquele ano, contra 7,4% em 2014.

Foi o primeiro aumento da pobreza após uma década de quedas sucessivas. E as projeções do Banco Mundial apontam que a curva continuou ascendente em 2016 e assim permanecerá neste ano.

Segundo a instituição, o número de pobres deve chegar a 19,8 milhões de pessoas num cenário otimista de crescimento econômico em 2017, dos quais 8,5 milhões estarão na extrema pobreza. Na previsão pessimista, de mais um ciclo de recessão, serão 20,9 milhões de pobres, sendo 9,4 milhões em estado de miséria.

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domingo, 12 de fevereiro de 2017

Uma leitura das ruas

Num mundo que enlouquece celeremente, o Brasil deu sua cota na semana passada com a greve dos PMs no Espírito Santo: mortes, saques, assassinatos e assaltos dominaram as grandes cidades capixabas. O medo se ampliou com a possibilidade de outras PMs, notadamente Minas e Rio, seguirem o mesmo caminho. No auge da crise, o governo como sempre se omite, e o próprio ministro da Justiça pede demissão para se dedicar à sabatina para ocupar o STF.

A fórmula de sempre é mandar o Exército, com sua grande força psicológica, baseada na simpatia popular pela instituição. Mais psicológica do que real, uma vez que há 2.000 homens para cobrir a ausência dos 11 mil PMs em greve. Por trás do drama cotidiano, uma grande máquina, açucarada e viscosa, move-se não apenas para neutralizar a Lava-Jato, mas para garantir o poderoso esquema de corrupção que une políticos e empresários no Brasil. O ministro indicado para o STF escreveu uma tese dizendo que presidentes não deveriam escolher seus auxiliares porque passariam a ficar dependentes desse favor.

Ao aceitar o cargo, Moraes é mais uma demonstração de que na prática a teoria é outra. Sua tese acadêmica é correta. É tão simples que a ouço nas próprias conversas de rua: “E o Temer, hein? Indicou o careca”. “Para quê?” “Hahaha”


O interessante é que muitas pessoas inteligentes passaram a defender a escolha do ministro da Justiça, argumentando que houve outros casos assim. É verdade. Mas nossa experiência de redemocratização resultou numa ruína. Apoiar-se nas mesmas práticas envelhecidas é apenas insistir num modelo caduco. Um novo ministro teria de expressar as aspirações de agora: qualidade intelectual e independência. A máquina se move com muitos braços. No Supremo, Gilmar Mendes quer rever as prisões da Lava-Jato. Ele tem condições para fazer isso, uma vez que, como presidente do CNJ, sempre se bateu para alterar o quadro das prisões preventivas, horizontalmente, entre os presos comuns. Mas sua fala se dá num momento em que alguns críticos da Lava-Jato avançam inclusive com a ideia da libertação de Eduardo Cunha. Sem questionar intenções, supondo sempre que as pessoas querem interpretar corretamente a lei, considero uma posição perigosa.

Eduardo Cunha é mestre em eliminar provas e intimidar testemunhas. Fez tudo para esconder os dados de computadores da Câmara que o incriminavam. Seus prepostos ameaçavam a família de testemunhas, como o fizeram com Alberto Youssef, que depunha na Câmara, nessa condição. A máquina se move até em espaços solenes, como o de um funeral. “Como deter a Lava-Jato, como colocar o Supremo contra ela?”, sussurram vozes que deveriam ser de dor e saudade. Para o mundo político, governo inclusive, toda essa tragédia que se desenrola nas ruas brasileiras é apenas um cenário distante. Todos se empenham em garantir sua zona de conforto, a possibilidade de continuar enriquecendo à custa do povo brasileiro. A única mudança que alguns parecem admitir é o ocaso do PT, considerado um rato magro, que ao ganhar o governo foi vítima de indigestão por sua fome acumulada. A tentativa de restaurar o esquema de sempre, e seguir a vidinha política do Congresso como se não estivéssemos numa profunda crise, é comovente. Digo isso porque eles parecem não compreender a gravidade do momento. Assassinatos, saques, cabeças decepadas, tudo isso se transforma num imenso mosaico policial, capítulo à parte em que a sucessão das atrocidades acaba suavizando-as. Em tese, não é nada confortável em ser governo num momento tão tenso no qual a corrupção é detestada.

O Rio está vivendo este drama com intensidade. É governado por um remanescente do grupo que assaltou e quebrou o estado, sem condições políticas de tirá-lo da crise. Mas não larga o osso. Existe uma dificuldade muito grande em perceber que algo acabou, que a sociedade não aceita mais esses padrões. Todo esse gigantesco esforço para retroceder o Brasil ao que havia antes da Lava-Jato é patético. Se olhassem atentamente para o que acontece no Espírito Santo, veriam que estamos no fio da navalha, habitando uma tênue fronteira com a barbárie. Quanto mais tempo perderem maquinando tramas para fugir da Justiça, mais a situação se agrava nas ruas. É urgente adequar as práticas às novas aspirações da sociedade brasileira. Temer deu um pontapé nelas ao nomear Moreira Franco ministro para garantir o foro privilegiado. E com a outra perna chutou a nomeação do próprio ministro da Justiça para o STF. Tantas historinhas na imprensa, mas o que fica para mim é que foram movidos pelo medo da Lava-Jato. Só isso justificaria o desgaste da nomeação. Ou será que vou acreditar que Temer, Padilha e Franco acordam e dizem: um belo dia para levar pancadas; vamos dar o foro privilegiado para o Moreira.

Eles sabiam que iam apanhar e o fizeram com um objetivo claro de autodefesa. Ou desvio de finalidade, visto por um ângulo legal. A tentativa de segurar o país num esquema do passado pode nos custar muito caro. Sobretudo para quem manobra nessa direção. Meu humilde conselho da planície para o planalto: é melhor aceitar a justiça do Estado do que enfrentar a justiça das ruas. E qualquer tentativa de neutralizar a justiça significa um perigo maior de cair nas mãos de pessoas enfurecidas.

Fernando Gabeira

No navio de Temer, mais suspense que no Henrietta

Júlio Verne poderia ter dado um pouco mais de suspense e de emoção à corrida final da Volta ao Mundo em 80 Dias se o herói Phileas Fogg tivesse um ataque de insensatez ou, pelo menos, fizesse algumas besteiras no comando do Henrietta. Mas só houve ousadia, nenhuma besteira. Ele fez queimar na fornalha do barco os mastros, pedaços de camarotes e mais um monte de madeira para ganhar velocidade até o porto de Liverpool. Reduzido quase só ao casco e ao motor, o navio chegou a tempo e foi possível cumprir o prazo da aposta. Mas a história poderia ser mais acidentada. E se Phileas Fogg, além de ter comprado a tripulação, tivesse distribuído responsabilidades de forma imprudente e assumido o risco de um naufrágio a algumas centenas de milhas da costa britânica?

O Henrietta alcançou o porto, devastado, mas com o casco inteiro, e a aventura foi um sucesso. Porém os leitores de Júlio Verne, assim como os expectadores do filme de 1956, premiado com o Oscar, tiveram menos emoções que os brasileiros de hoje, incapazes de dizer como o governo e o País chegarão a 2018, depois da complicada travessia iniciada no meio de 2016. Os 12 meses finais do prazo, se forem alcançados, poderão ser especialmente perigosos, por causa das eleições.

Phileas Fogg queimou os mastros para ganhar
tempo. Temer se arrisca a destruir o barco

O prazo atribuído ao presidente Michel Temer é na prática tão curto quanto os 80 dias fixados na aposta sobre a volta ao mundo. Temer só teve poderes para de fato governar depois do afastamento definitivo da presidente Dilma Rousseff. Escolheu gente com bom currículo para cuidar do conserto das finanças públicas. Mas competência no Ministério da Fazenda e no Banco Central poderiam ser insuficientes. O tempo muito curto e o desafio complexo requeriam habilidade política, astúcia, firmeza e ousadia comparáveis, talvez, às de Phileas Fogg.

Alguma esperteza foi demonstrada, tanto nas barganhas iniciais com a base aliada quanto no encaminhamento de projetos politicamente difíceis, como o do teto de gastos e o da reforma da Previdência. Alguns analistas têm apostado nessa esperteza como garantia de sucesso até o fim do mandato. Pode ser uma aposta muito otimista.

O presidente falhou, para dizer algo suave, nas escolhas da maior parte de sua equipe. Os currículos de vários ministros eram inexpressivos. Os de outros eram preocupantes. Alguns escolhidos caíram em pouco tempo. Houve gente suspeita de envolvimento nos crimes investigados pelo pessoal da Operação Lava Jato. Um secretário afundou, de forma grotesca, depois de uma conversa inoportuna sobre um apartamento em Salvador. Pode-se discutir se essa figura pecou por falta de decoro ou por ingenuidade, mas nenhum dos dois atributos combinava com suas funções administrativas e políticas. Outros auxiliares prejudicaram o governo falando demais e na hora errada. Um dos trapalhões notabilizou-se por suas atitudes infelizes durante a crise nos presídios. Já havia cometido erros indisfarçáveis. Acabou premiado com uma indicação para o Supremo Tribunal Federal (STF).

O próprio Temer tropeçou, bisonhamente, ao classificar a matança no presídio de Manaus como um acidente trágico. Tentou-se consertar a bobagem, depois, caçando no dicionário os sentidos da palavra acidente. Um de seus auxiliares, o secretário nacional da Juventude, condenou as críticas à matança. “Tinha era que matar mais, tinha que fazer uma chacina por semana”, declarou o moço. Sua demissão foi inevitável. O escândalo impediu o presidente de ser tão tolerante quanto em outros casos.

Temer extinguiu ministérios, como o da Cultura, em nome de um programa de reorganização do governo, mas acabou recuando, depois da reação de grupos interessados. Poderia ter resistido a essa e a outras pressões, mas foi, aparentemente, incapaz de avaliar os lucros e perdas. Os lucros teriam sido certamente consideráveis se houvesse alguma demonstração de firmeza. O presidente exibiu a mesma pobreza de avaliação ao cancelar a viagem a Davos, deixando de comparecer à reunião do Fórum Econômico Mundial. A reunião, segundo um de seus auxiliares, seria esvaziada pela posse, na sexta-feira da mesma semana, do presidente Donald Trump.

O encontro de Davos foi aberto, na primeira sessão plenária, pelo presidente Xi Jinping, governante da segunda maior economia do mundo. Seus assessores deviam ter informações diferentes daquelas obtidas pelos auxiliares de Temer. A primeira-ministra Theresa May, do Reino Unido, também apareceu, acompanhada de seu ministro do Tesouro, para falar a respeito do Brexit. O presidente da Colômbia, Juan Manuel Santos, já premiado com o Nobel da Paz, apareceu para receber mais uma distinção. Muitos outros políticos, como sempre, bateram ponto em Davos em busca de espaço político e de investimentos. Trump, ainda sem ocupar oficialmente o governo americano, mandou um dirigente da equipe de transição para defender sua imagem num fórum globalizado.

Como Phileas Fogg, Temer tem queimado mastros e pedaços importantes do navio, mas, ao contrário do inglês, tem tornado mais difícil e mais incerta a travessia. Sua última façanha foi atribuir o status de ministro ao secretário Moreira Franco, num gesto comparado à tentativa da presidente Dilma Rousseff de garantir foro especial a seu amigo Lula.

Certa ou errada, a comparação seria inevitável e Temer acabou sendo convocado para se explicar ao ministro Celso de Mello, do STF. Enquanto isso, no Senado, aliados de Temer, também na mira da Lava Jato, ocupavam a presidência e várias cadeiras da Comissão de Constituição e Justiça, encarregada de sabatinar o novo candidato a juiz do STF, o ex-ministro da Justiça Alexandre de Moraes. A menos de dois anos do fim da travessia, a queima continua, mas sem alimentar a caldeira do navio. Em matéria de suspense, Júlio Verne era um amador.

Imagem do Dia

Harbour of Kowloon, Hong Kong, China, 1952 © Werner Bischof / Magnum Photos:
Kowloon, Hong Kong, foto de Fan Ho (1952) 

O complô

A morte de Teori Zavascki abalou a solidez da Lava Jato, e a substituição da cadeira no STF vem ocorrendo exatamente no pior sentido possível, convocando-se o agora ministro licenciado da Justiça. Por sua vez, o cargo de ministro está próximo de ser ocupado com mais uma indicação que pode mudar o rumo da história.

O grupo dos réus e dos investigados está unido neste momento, mais do que por amizade, para escapar das penas que já se abateram sobre ex-colegas e ex-intocáveis. Outros, para salvarem a própria pele, depois de tentativas anteriores de anistias e arquivamentos terem fracassado. Nunca se sentiu uma união tão sólida e concatenada contra a Lava Jato.

Na era Dilma, perdeu-se o controle por parte do Planalto das então submissas polícias e Procuradoria da República. A metralhadora acabou sendo conquistada pelas instituições do Judiciário, voltando-se contra os “antigos donos”, que nunca pensaram ou se precaveram de autonomia e alinhamento das instituições de controle.



A luta para desarmar a Polícia Federal e o Ministério Público e embrulhar o STF é daquelas que ocorrem em silêncio, dissimuladas, minando e desarticulando os centros nevrálgicos que deixam de funcionar corretamente.

A PF se desvencilhou no primeiro governo Lula do controle da Presidência da República quando agiu sob o comando de Márcio Thomaz Bastos nos pastos políticos, mais do que na repressão aos crimes que estão sob sua tradicional jurisdição. Aprendeu e ganhou autonomia, louvada e incensada pelos mandatários. Daí em diante, o processo se tornou irreversível. O tiro saiu pela culatra.

Com a saída de Bastos, que deixou centenas de milhares de pessoas grampeadas a qualquer pretexto, acabou se expondo o sistema da corrupção de todos os lados. Perdeu-se a capacidade de separar os amigos dos inimigos, como no caso do caseiro que denunciou Antonio Palocci. O fogo amigo passou a ser considerado “autonomia”. Sem querer, abriu as portas para que se fortalecesse a saga investigatória.

Nesse contexto, desencadeou-se uma guerra “fria” de bastidores entre partidos e polícias “partidárias”. Alguns Estados montaram seu sistema guardião para ter munição para ataques aos inimigos.

Não é por acaso que a queda de sete ministros do governo Dilma ocorreu nos primeiros seis meses de 2011 – início do mandato dela. As vítimas apareciam flagradas por arapongas (que trabalhavam ao soldo de alguém), expostas na mídia por meio de dossiês distribuídos pelo contraventor Carlinhos Cachoeira à mídia.

Os mensalões tomaram a luz e colocaram em maus lençóis todos os partidos mais poderosos. A corrupção praticada em ampla escala transformou o sistema numa cleptocracia de gigantescas “operações estruturadas” e propinodutos.

Entre gregos e troianos da política nacional, os mercadores persas se colocaram a serviço de todos, transformando-se nos maiores beneficiários da corrupção. Apenas Odebrecht declarou ter pagado R$ 2,6 bilhões em propinas, isso na primeira rodada de delações.

A morte de Zavascki, a queda da principal peça, fez com que a realidade do tabuleiro mudasse. Novos atores entram em cena para colocar em xeque a Lava Jato. Eunício Oliveira no Senado, Rodrigo Maia na Câmara, Alexandre de Moraes no STF, Edison Lobão na CCJ do Senado e novos diretores da Polícia Federal alteram o equilíbrio de força.

E não é por acaso que se fortalece a tese da revelação em bloco único das delações. Como se diz na Itália, “Mal comune, mezzo gaudio”, ou o mal que atinge todos é uma meia alegria. Com isso, uma caterva de acusados pulveriza a indignação, generaliza, dilui, impossibilita descrever e analisar tantos crimes.

Não paira dúvida de que a Lava Jato continua de pé, mas o ambiente em que tenta sobreviver e avançar se encontra minado para que, a cada passo, esbarre num problema sério. Mais grave ainda é verificar que as forças contrárias se uniram para salvar a própria pele, dispostas a arriscar tudo.

Vive-se um momento decisivo na dura guerra contra a corrupção. A continuação, cada vez mais, liga-se aos movimentos populares de apoio à Lava Jato. E a certeza é que, quanto mais for profunda a limpeza, maior e mais acelerado será o crescimento.

Por isso, o que se espera é que as ruas respondam à altura da gravidade do momento.

A verdade crua dos fatos

Há não muito tempo se dizia assim. Porque havia fatos. E havia verdade. Aliás, os fatos eram, por conta própria, verdadeiros ou falsos. O nosso trabalho era retirar as cascas, as capas, as crostas, e deixar a verdade nua em plena praça. Ela não era a burca dos fatos, para esconder sua nudez. Eles gostavam de andar sem roupa. Era quando podiam mostrar a polpa. Escorrer sumos. Dizia-se: serem objetivos. Não se diz mais. Falar da objetividade dos fatos, hoje, pode indicar uma de três coisas: despreparo filosófico (ignorância); crença na consistência do mundo (ingenuidade); atraso no acompanhamento da marcha da ciência e da tecnologia (desatualização). Porque os fatos (dizem) perderam objetividade e relevância.

Interpretações, pontos de vista, perspectivas, versões, isso sim. Verdade é isso. O diabo é que (dizem também) a verdade acabou. Então, nem o mel nem a cabaça.

Já imaginou que o  grumpy cat na verdade pode ser o Garfield ? Ou que o Alien pode ser o E.T? Ou mesmo que a Elza pode ser o Sub-Zero loiro? Por tudo isso voc:
Pontos de vista são importantes, quem negaria? Vamos por uma trilha na montanha e vemos, aqui, isso; mais adiante, aquilo. Depois nos encontramos com os companheiros e dizemos: tem lagoa aí embaixo; não, tem um raso de pedras secas; nada, é tudo mata virgem. Esquecemos de explicar onde estávamos quando olhamos. Estávamos num ponto. De lá tivemos uma vista. Outros, de outros pontos, viram outras imagens. E estão todos certos. A verdade daquele lugar é a totalidade dos pontos de vista. Se isso não for reconhecido vão todos discutir apenas as suas próprias visões. E que vença a melhor. A mais convincente. E a paisagem, coitada, cheia das riquezas que cada ponto de vista percebeu, fica lá, abandonada. Perdeu objetividade. É como se não importasse. A verdade é que não damos mais conta dela.

Toda realidade é hipercomplexa. Tem lisuras e asperezas, é luminosa e opaca. Cada coisa é muitas. A graça está nisso. É por isso também que nos enganamos tanto: a multiplicidade do real nos enreda, ficamos mareados. E aí, para não nos perdermos de vez, simplificamos. Escolhemos um aspecto, concentramo-nos nele, descrevemos, relacionamos, interpretamos. E tudo isso é muito bom. Só não podemos é, depois, nos esquecer de todas as complexidades que precisamos deixar de lado. É não voltar à coisa concreta, às suas boas multiplicidades. Ficarmos simplistas. Sabendo tudo de um pedacinho de nada da realidade complexa. Mas é isso que andamos fazendo. Há muito tempo.

Mas lá um dia o mundo se aborrece. Nossas simplificações intelectuais deixam de ser relevantes. Ele volta a nos impor sua natureza complexa e contraditória, objetiva, que um dia, há muito tempo, já fez a nossa alegria de pensar. Entramos em pânico. E fazemos como o homem que pegou a mulher prevaricando no sofá: tiramos o sofá da sala. Entrincheiramo-nos nas nossas brilhantes abstrações. E nos dizemos, para nos tranquilizarmos: “Qual objetividade, qual nada! Da verdade dos fatos só Deus, olhando totalmente de fora, poderia saber. E Deus (Nietzsche falou) morreu. Fatos, fatos mesmo, de fato, à vera, não existem, pelo menos não para nós. Esqueçam. Estamos pós-verdade-pós-fatos”. — Isso ocorre sobretudo nas ciências humanas, na filosofia. E é triste. Não tem mais mundo aí.

Há outro modo de torcer os fatos, praticado mais pelas ciências “duras” e experimentais: a observação “isenta”. Existe por exemplo uma disciplina chamada neuroteologia. Faz experimentos assim: pluga-se o cérebro de uma pessoa; quando certas conexões neuronais acontecem, a pessoa entra em um estado místico; ocorre, naquele cérebro, o que antigamente se chamava fé. Como eles sabem que a ordem dos acontecimentos é essa? Porque as conexões neuronais são observáveis. Há uma região do cérebro que se acende. Enquanto que a fé, resultado dessas conexões, é nebulosa e complexa, cheia de sinuosidades e recônditos. Não pode ser conhecida como um fato. Mas, e se for o contrário? Se, quando uma pessoa alcança um estado místico, o cérebro ativa certa região sua para dar sustentação a essa experiência não cerebral? Se esse, justamente, for o fato? Ah, não... Aí não estamos no campo da ciência. Não podemos medir. Não há inteligência para dar conta de uma coisa dessas. A fé não é um fato. — É o que, então? — Não sabemos. E diante do que não pode ser dito deve-se calar. (Wittgenstein disse. Muita gente acreditou.)

E ficamos assim, entre os modelos mentais que fabricamos, porque não acreditamos em “fatos externos”, e o silêncio do vasto mundo que a ciência não sabe observar. Jogamos o mundo fora! E entramos na ciranda das opiniões. O modelo mais recente delas chama-se “fatos alternativos”. Ainda não se generalizou. Mas já tem adeptos nos lugares mais altos do poder. Daí para se tornar lei e nos impor obrigações é um passo.

Ora, “fatos alternativos” é o mesmo que “mentira deslavada”. Está entrando na moda. Preciso dizer mais?

Marcio Tavares D'amaral

A Lava Jato como 'soft power'

Nesta semana, numa roda social em Nova York, o jornalista Charlie Rose, sujeito dos mais bem informados do mundo, batia papo com um grupo de brasileiros.

Rose, âncora do melhor programa de entrevistas da TV norte-americana, queria saber: “quando o país de vocês vai levantar-se novamente”?

Há sete anos, o entrevistador recebia em seu programa um símbolo da ‘Brasilmania”, à época disseminada por toda parte —Eike Batista.

Hoje, Rose seguramente lamenta que o soberano do “Império X” esteja na cadeia. Eike era visto por tantos na elite global como símbolo da arremetida brasileira. Um copiloto do Cristo Redentor decolando do Corcovado rumo à constelação das grandes potências, conforme a famosa capa de “The Economist”.

Eike está na prisão. E o Brasil, em círculos acadêmicos e empresarias mundo afora, vem tendo seu status de “país emergente” severamente questionado.



Há muitas formas de metrificar o declínio brasileiro. Temos nos últimos três anos a pior performance dentre as economias do G20. Não existe um “modelo” de crescimento brasileiro com a garantia de inclusão social que possa referenciar outras nações.

A combinação de populismo tarifário, renascimento da política de substituição de importações, desonerações tributárias e gigantismo no gasto público precipitou uma tragédia da qual países querem distância. Exceção a isso é a Trumponomics, que mantém parentesco de primeiro grau com nossa “Nova Matriz Econômica”.

Na segurança pública, não nos legitimamos para concretizar ambições maiores no campo da segurança coletiva. Os mais de 50 mil homicídios por ano ultrapassam o número de óbitos em conflitos na África e no Oriente Médio.

O alarmante nível de violência em centros urbanos como Rio de Janeiro e Vitória e o horror nos presídios brasileiros não credenciam o país, por exemplo, a assento permanente no Conselho de Segurança da ONU, tradicional bandeira de nossa politica externa.

É claro que, na América Latina e na África, programas de cooperação técnica ajudam a projetar influência. Contudo, é o peso relativo do Brasil, e não o sucesso de políticas públicas, que continua a sustentar o desejo de fortalecer laços com o país.

Mesmo iniciativas como o Bolsa Família, cujo modelo se pensou “exportável” para países de renda baixa, tem sua viabilidade e atração limitadas num contexto em que a economia não cresce.

Nos últimos meses, muitos argumentam que o pior já passou. Provavelmente é verdade.

Na macroeconomia, o país parou de piorar. A inflação cai. Petrobras, BNDES e Eletrobras estão bem administradas. Algumas reformas estruturais avançam. O terceiro-mundismo na diplomacia ficou para trás.

É certo que boa gestão monetária, fiscal e governança aprimorada nas estatais ajuda na credibilidade do país. Da mesma forma, uma politica externa que não veja, no plano global, a divisão “Norte/Sul” como pertencente à mesma lógica do maniqueísta discurso interno do “nós/eles” habilita o país a parcerias menos ideologicamente orientadas.

Mas isso tudo não é mais que fazer a obrigação. Boa governança e diplomacia pragmática são pré-condições, não diferenciais.

É como se subdesempenho econômico, arquitetura de corrupção sistêmica e desencanto com a política partidária tivessem subtraído do pais seu acervo de “casos de sucesso”. Por essa ótica, o Brasil oferece pouco do que se orgulhar, muito a se envergonhar.

Assim, no campo das relações internacionais, o país supostamente encontra-se exaurido no estoque de “soft power” —o “poder suave”.

O criador desse conceito, Joseph Nye, cientista político de Harvard, define-o como “a capacidade de um país influenciar e persuadir por meio do poder de inspiração e atração, em contraposição ao poder militar ou de coerção (‘hard power’, ou poder ‘duro’)”.

Dentre atributos geradores de poder suave, Nye identifica a admiração que se tem pela cultura ou língua de um país, mas também seus valores, instituições e a maneira pela qual tal nação busca resolver seus próprios problemas.

Se é assim, em meio ao que já chamei nesta coluna de “eclipse global do Brasil”, o “soft power” brasileiro está se projetando graças a uma dinâmica incidental: a Operação Lava Jato.

Nesta semana, em debates na Universidade Columbia e na New School, em Nova York, a grande maioria dos acadêmicos, formadores de opinião e tomadores de decisão no campo econômico demonstrou entendimento de que a Lava Jato é mais do que motivo de orgulho para os brasileiros. É importante ferramenta para o Brasil nivelar sua capacidade de competir internacionalmente.

Parece expandir-se a percepção, manifestada pioneiramente pelo economista de Harvard, Dani Rodrik, há um ano e meio, de que o Brasil se encontra subestimado perante agentes econômicos e a opinião pública mundial. Ele saudou, num debate público, como promotores e juízes estão combatendo a corrupção no marco da lei, com maturidade política e sem paixões partidárias.

Se este é o caso, então o Brasil não está destinado, como enfatizou o juiz Sérgio Moro na palestra em Columbia, a perenemente sucumbir como vítima indefesa à corrupção. E, tampouco, deve-se entender esse mal como uma espécie de “doença tropical”.

Bem ao contrário, o movimento de combate à corrupção no Brasil pode servir como modelo de mudança de paradigma no âmbito da economia política mesmo de nações industriais mais avançadas.

É bem provável que, dada a sua escala e múltiplas frentes, a operação cometa erros. No entanto, os males que a Lava Jato causa são menores que os males que ela cura.

Apenas o êxito da Operação não basta para responder à pergunta de Charlie Rose sobre quando o Brasil se reerguerá. Além de boa gestão, o país precisa de estratégia para inserir-se competitivamente no turbulento mundo contemporâneo.

Ainda assim, o Brasil sinaliza que, quando o assunto é corrupção, muitas instituições, com apoio da maioria de seus cidadãos, estão fazendo a lição de casa.

Isso inspira, e portanto influencia, outros países. Liderar pelo exemplo —eis a essência do “soft power”.

Paisagem brasileira

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Ilha do Araújo, Paraty (RJ)