segunda-feira, 23 de janeiro de 2017

As séries

A televisão finalmente encontrou um produto original e divertido do qual está tirando excelente proveito: as séries. Elas existem há muito tempo no cinema, pois me recordo de que, em minha longínqua infância cochabambina (na Bolívia), todos os domingos, com meu amigo Mario Zapata, o filho do fotógrafo da cidade, depois da missa na La Salle íamos ao cine Achá para ver os três episódios do filme em série da vez – costumavam ter doze–, aventureira e tranquilizante, porque nela os bons ganhavam sempre dos maus. Mas depois o cinema as esqueceu, e agora a televisão as ressuscitou com sucesso.

São geralmente muito bem feitas, com grande estardalhaço na mídia, e mantêm a continuidade, apesar de os roteiristas e diretores mudarem de um capítulo para outro e as histórias se alongarem ou encurtarem conforme o interesse que despertem nos telespectadores. Costumam ser entretenimento puro, sem maiores pretensões, com algumas exceções, como The Wire, fascinante exploração dos guetos e bairros marginais de Baltimore em que, acreditem ou não, quase todos os atores negros que tão bem pronunciam entredentes a gíria local... são ingleses!, e Borgen, sobre as intrigas e dilemas políticos desse civilizado país que é a Dinamarca. Mas talvez a diferença mais significativa entre as séries que distraem milhões de telespectadores e as que eu via no cine Achá é que nas de agora invariavelmente os maus vencem os bons. Nelas, se alguém comete a impertinência de compará-las com o mundo real, ocorrem coisas disparatadas, absurdas, loucas. Mas isso nada importa, porque uma ficção, seja nos livros, no palco ou em uma tela, se estiver bem contada, é crível, quer coincida ou destoe da vida que conhecemos através da experiência.


Algo a admirar nas séries norte-americanas, além da qualidade técnica e da formidável variedade de cenários e figurantes de que costumam dispor, é a liberdade com que utilizam fatos e personagens da história recente, geralmente desnaturalizando-os, e a ferocidade com que, frequentemente, manipulam e distorcem as instituições e autoridades para conseguir maiores efeitos na narrativa e surpreender e envolver mais o seu público. House of Cards, por exemplo, uma das melhores, descreve a irresistível ascensão no labirinto do poder norte-americano de um casal de políticos inescrupulosos, cínicos e delituosos que, deixando ao longo de suas peripécias todo tipo de vítimas inocentes, incluindo algum assassinato, chegam nada menos que à Casa Branca com toda a legalidade. A série é muito divertida, os atores são excelentes, e a moral da história que fica se remoendo na memória do telespectador é que a política é uma atividade desprezível e criminosa, na qual só triunfam os canalhas, e na qual as pessoas decentes e idealistas são sempre esmagadas.

Não menos negativa é a visão da realidade política estadunidense e internacional na magnífica Homeland, cuja sexta temporada acaba de começar e que eu sigo com a avidez com que seguia, quando jovem, as sagas de Alexandre Dumas. Aqui não é a presidência dos Estados Unidos que está contaminada, mas nada menos que todas as agências de inteligência, a começar pela celebérrima CIA, cuja direção é facilmente infiltrada por agentes russos ou jihadistas ou a mando de imbecis aos quais qualquer inimigo faz de bobo ou corrompe, sem que os heroicos Carrie Mathison – um personagem psicopatológico que parece criado para o divã do doutor Freud –, Peter Quinn e Saul Berenson possam fazer nada para salvar o país e o mundo livre de sua inevitável derrota ante as forças do mal.

As séries são uma continuação direta das radionovelas e telenovelas e, sobretudo, dos romances seriados do século XIX – os famosos folhetins –, que, a princípio na França e Inglaterra, mas depois em toda a Europa, os jornais publicavam semanalmente, e nos quais incorreram alguns grandes escritores como Dickens, Balzac e Dumas. Têm como denominador comum a agilidade, a efervescência da narrativa, a indisfarçável vontade de fazer os leitores ou espectadores se divertirem e nada mais, a falta de ambição intelectual ou estética e a simplicidade elementar da estrutura. E, também, a inverossimilhança. Nelas tudo pode acontecer, porque seus autores e seu público fizeram de cara um pacto claríssimo: acreditar que se trata de ficção, invenções divertidas que não têm nada a ver com a realidade.

Isso é mesmo verdade? Se esmiuçarmos com atenção o ano que acaba de terminar, no aspecto fundamentalmente político essa verdade se parece muito com uma mentira. Porque somente em uma série televisiva se concebe que tenha ganhado as eleições presidenciais um senhor como Donald Trump, que, sem que sua voz trema, diz que os mexicanos que emigram para os Estados Unidos são “ladrões, estupradores e assassinos”, que o Brexit é um exemplo que outros países europeus deveriam seguir, que menospreza a OTAN tanto como à União Europeia e que admira Vladimir Putin por sua energia e liderança. As façanhas do ex-agente da KGB na Alemanha Oriental, agora no comando da Rússia, não têm por acaso algo das proezas terríveis e inauditas desses vilões das séries? Desde que subiu ao poder, engoliu parte da Ucrânia, mantém os enclaves coloniais da Abkházia e da Ossétia do Sul na Geórgia, ameaça invadir os países bálticos e, graças à sua intervenção armada na Síria, tem agora uma influência e protagonismo de primeira ordem no Oriente Médio.

Diferentemente do que ocorria durante a URSS, os jornalistas e opositores incômodos não vão para o Gulag, só morrem envenenados, em ataques a tiros ou espancamento nas ruas por misteriosos delinquentes que depois desaparecem como que num passe de mágica. Na Turquia, uma suposta tentativa de golpe de Estado deu margem à repressão mais selvagem e ao retorno do obscurantismo religioso e o despotismo que se acreditava ser coisa do passado. E a Venezuela, potencialmente um dos países mais ricos da Terra, no ano de 2016 chegou, na frenética corrida para a desintegração para a qual é conduzida pelo bando de demagogos e ineptos que a governam, a uma espécie de apoteose da crise terminal na qual o “socialismo do século XXI” a mergulhou. Será esse o destino da França se, como insinuam as pesquisas, a senhora Marine Le Pen, admiradora sem disfarces de Trump e de Putin, ganhar as próximas eleições presidenciais?

Ou seja, depois de tudo, bem se diria que o melhor espelho das coisas horripilantes que se sucedem ao nosso redor neste despontar do ano 2017 não está na grande literatura nem nos filmes realmente criativos, mas nessas séries que, como os “personagens transitáveis”, assim chamados por Flaubert, são meras pontes que cruzamos e esquecemos no mesmo instante durante esses passeios que damos para desanuviar a cabeça depois de muitas horas de trabalho.

Então, já que as coisas andam deste jeito sinistro, vamos nos distrair vendo séries na tela da TV, neste mundo surpreendente que, depois da extinção do comunismo, alguns ingênuos acreditávamos que havia empreendido um caminho resoluto para a liberdade e a prosperidade em vez de se transformar em nada mais, nada menos, do que um reality show.

'Assaltantes do Erário' são piores do que PCC

 
O dinheiro que desce pelo ralo da corrupção — sistematicamente, enquadrilhadamente —, é o que falta para o Estado desempenhar bem o seu papel no plano da infraestrutura econômica, social, prestação de serviços públicos, educação de qualidade, saúde. O assaltante do erário, no fundo, é um genocida. É o bandido número um
Carlos Ayres Britto

Providências governamentais

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A reunião do ministério foi naquele dia secreta, isto é, não foi anunciada nos jornais. Especialmente convidados, compareceram também, com o informante, o prefeito de polícia e o inspetor dos detetives (aguazil-mor).

El-Rey Pechisbeque abriu a sessão fazendo um gesto de quem ia colher o manto de arminho, crivado de abelhas merovíngias, e depositou em cima da mesa uma magnífica “Santa Luzia” de cinco olhos, todos eles com incrustações de marfim e ouro. Era o seu cetro característico de Carlos Magno com que figurava os seus retratos pululantes.

Dirigiu-se, em primeiro lugar, ao ministro das Tropas Militares. Ao contrário das outras sessões ministeriais, Pechisbeque, o grande rei da Pacóvia, não estava de bom humor e muito menos gaiato. Falou gravemente:

— Sr. dr. Karagafulos: o que vossa excelência sabe de anormal da tropa?

— As praças andam muito contentes com o novo uniforme sudanês que lhes impingi; mas os oficiais não estão contentes. Tenho tomado as providências; mas…

— Bem. Era de esperar. Mas não há nada como um dia atrás do outro.

— O poderoso rei da Nova Zembla não os elogiou tanto?

— Não os cumulou de distinções e condecorações? Quem foi que promoveu a visita do rei Savoff a nossa terra e, portanto, os elogios que eles receberam, e os “crachás”?

— Fui eu? Ingratos! Mil vezes ingratos! Contudo…

— Eles se queixam, acudiu o ministro dos Buquês de Recreios Reais; eles se queixam da carestia da vida.

— Ora, bolas! Soldado é soldado! Deve estar afeito a tudo. Os de vossa excelência, sr. ministro dos meus Buquês, também se queixam?

— Também, majestade; mas a marinhagem, nas horas de recreio, pesca de caniço, crocorocas, micholas, canhanhus, cação-viola; e assim melhoram o rancho ou vendem o pescado, para aumentar o soldo. Encontraram um derivativo…

— E os oficiais?

— Também se entregam à pescaria.

— Sábia gente!

— Assim mesmo, majestade, não andam contentes; murmuram, observa o ministro de Vistas Escuras.

— Como?! — admirou-se Pechisbeque. — Se eles,

para pescar, não pagam imposto, não empatam capital em canoas e botes? Qual! Como é que vossa excelência sabe disso?

— Por informações aqui do excelentíssimo juiz de fora Jemi.

— Sr. Jemi — indagou o rei —, como é que o senhor tem notícia desse fato?

— É, majestade sereníssima, é o que me informa o aguazil-mor que aqui está, a meu lado.

— Seu Manchique — fez arrebatadamente o rei —, como é isso?

— Trago-lhe aqui um relatório completo do que se diz na cidade.

— Dê-mo, Manchique.

O chefe dos aguazis passa ao poderoso imperante um calhamaço grande como todos os diabos, Pechisbeque folheia-o, põe-se a lê-lo aqui e ali; e, afinal, vira-se para o ministro das Vistas Escuras e diz:

— Sr. ministro: vossa excelência precisa combinar com meu mano, o condestável do Reino e prefeito do Pretório, diversas providências de urgência. Não há que contar com este povo. Dou-lhe festanças e… sr. ministro das Vistas

Escuras, tome as suas providências?

— Quais, majestade?

— É preciso adquirir mais “tanks”, e dos mais poderosos; requisitar imediatamente canhões do Ministério da Tropa, que neste momento recebe ordem para entregá-los; comprar modernos e poderosos aviões de guerra. Tudo isto deve ser entregue à “Guarda do Pretório”, que está

sob o comando do mano, no mais breve espaço de tempo. A “guarda” será desde já aumentada no dobro do atual efetivo. Res, non verba, sr. ministro.

E, tímido e obediente, o ministro do Tesouro, até ali calado, resolveu então falar:

— Majestade, e a crise? E o câmbio? E a carestia? E a miséria que vai pelo povo?

— Mas — falou o rei amigavelmente —, Homero, você não está vendo que tomei agora mesmo as necessárias providências, para solucionar todas as dificuldades que o país atravessa. Você não ouviu o que eu disse ao “Vistas Escuras”. Está tudo resolvido. Agora temos que tratar dos festejos comemorativos ao aniversário do príncipe herdeiro da Birmânia. Mãos à obra!

Lima Barreto, "Sátiras e outras subversões"

Teori-a da conspiração

A princípio, a queda de um avião durante operações de pouso em Angra dos Reis e Paraty, no Triângulo das Bermudas tupiniquim, não é uma ocorrência estranha. Dezenas de aeronaves na região conhecida como serra do Mar perderam o rumo e se chocaram com algum obstáculo do planeta nos últimos 20 anos.

As condições da baía de Angra e da serra do Mar são naturalmente adversas, as nuvens se acumulam contra o paredão da serra, gerando até 200 dias de chuvas por ano. Neblina, vento, chuvas, trovoadas e muito calor são fenômenos normais e rotineiros, especialmente no verão.

Nesse trecho costeiro desapareceu Ulysses Guimarães, deixaram a vida Eduardo Campos e, agora, Teori Zavascki, como ao menos uma centena de vítimas durante voos malsucedidos.


Pousei, por dez anos, em Angra e Paraty e já me encontrei com ao menos 20 pousos abortados de última hora, ou voltando para Minas, ou descendo no Rio de Janeiro para alcançar Angra excepcionalmente de carro. Também navegando pelas águas da baía homônima, e nas praias, já recolhi destroços de helicópteros e outras aeronaves, abatidos por fenômenos atmosféricos imprevisíveis e repentinos.

Nenhum piloto gosta de pousar em Angra, a não ser nos raros dias de céu de brigadeiro. A aproximação para o pouso não obedece à lógica dos ventos. As pistas são curtas e operam apenas no sentido do mar para a terra, já que a serra do Mar, de 900 metros de altitude, encostada na pista, não permite operar no sentido da terra para o mar.

Quem desce no Espírito Santo ou na Bahia realiza o pouso em 90% das vezes exatamente como é comum. As pistas podem operar no sentido que oferece mais segurança com o vento de proa. O contrário, com vento empurrando pela popa, deixa crítica a operação.

A serra, numa cabeceira da pista, admite operar pouso no sentido mais adverso. E, se necessário for arremeter – transformar o pouso de última hora numa decolagem –, a operação será crítica, de ângulo muito fechado. Nessa situação teria perdido sustentação o moderno jato que carregava Eduardo Campos.
Portanto, estatisticamente o risco de acidente em Angra e Paraty é maior que em outros locais do país. Dessa forma, o acidente da última quinta-feira se deu num local especialmente adverso, ou simplesmente reconhecido como crítico e que recomenda operações, especialmente de pouso, apenas em dia de tempo bom.

Contudo, que azar... para quem esperava que a justiça, enfim, mesmo que tardia, chegasse ao resultado almejado pela nação brasileira, interrompendo o curso da Lava Jato e abrindo a única e rara hipótese para que o rumo da operação de faxina possa sair dos trilhos.

Obviamente o episódio abre brecha para que as centenas de acusados de envolvimento com os bilionários desvios da Petrobras e demais estatais passem por outras mãos, escolhidas pelo presidente e referendadas pelos réus, parlamentares acusados.

Mesmo que a fatalidade seja a principal hipótese do desastre nesse triângulo infausto de Angra, ninguém tira a possibilidade, até o momento (como se deu com o avião de Eduardo Campos), que um artefato programado tenha inutilizado uma turbina próximo da chegada ao destino, impossibilitando a operação normal de pouso.

Se o acidente entra num campo de “aceitabilidade estatística”, o que foge da “normalidade“ é a queda de aeronaves em momentos estranhos e que mudam, ou invertem, o sentido da história do país.

O desastre com o avião da Gol – colocado em rota de colisão por erro (involuntário...?) do controle aéreo (da Aeronáutica) de Brasília em 2006 – barrou a queda nas pesquisas de Lula (encalacrado no escândalo do Hotel Ibis). Não é que afirmo o envolvimento do presidente, mas alguém que tivesse um forte interesse na vitória ter manobrado para “fabricar” o incidente. A morte de Eduardo Campos, em 13 de agosto de 2014, se deu faltando três dias para o início da propaganda eleitoral gratuita que seria o trunfo do pernambucano, de se impor na campanha presidencial. Agora a morte de Teori ocorre de novo num momento “estranho” e capaz de mudar a história, no derradeiro instante em que as 900 delações que envolvem mais de cem parlamentares e políticos, a nata do poder no país, seriam liberadas por ele. Ele mesmo repetiu várias vezes que, voltando desse descanso (férias) na praia, daria asa à fase decisiva da Lava Jato. E ninguém considerava que ele estivesse blefando.

Por norma, o sucessor do ministro do STF herda, além da poltrona, todos os processos do antecessor, indicado pelo presidente e referendado pelos próprios senadores, que são, neste caso, os investigados.

A morte do ministro coincide provavelmente com a única possibilidade de mudar uma história que já estava se consolidando.

Todos esses acidentes não tiveram uma apuração minimamente decente. Foram deixados nas mãos da Aeronáutica brasileira, que tem “autonomia” para fazer exatamente aquilo que interessa aos ocupantes do poder.

Enfim, parece oportuno e dever de Temer deixar que o STF, e não ele, escolha o novo relator da Lava Jato. E ainda dar uma revisada nos demais desastres aéreos que mudaram os rumos da história brasileira. Polícia Federal, PGR e técnicos brasileiros e estrangeiros deveriam ser escalados para uma investigação isenta e insuspeitável, urgente e necessária.

Chegou a hora de, com a morte de Teori, dar um basta à teoria da conspiração, que perturba as consciências mais despertas deste país.

domingo, 22 de janeiro de 2017

Metafísica do secundário

Um dia vou escrever uma metafísica do secundário. A metafísica era o modo de a filosofia cercar o essencial. O Ser, as causas, as categorias que permitem classificar todas as coisas. A substância, que constitui tudo. A matéria e a forma de toda substância. Deus. A metafísica mirava o coração do mundo e da vida. Dela decorriam as éticas e políticas. Hoje, ao contrário, falamos pelas beiradas. Pelo não essencial. Falamos por preposições — pós, pré. E por adjetivos. E, perdido o essencial, não nos entendemos mais.

O dicionário de Oxford definiu a nossa época como a da “pós-verdade”. Fico remoendo uma pergunta, insolente para os pós-verdadeiros: mas o que é verdade? Porque, se não soubermos isso, não saberemos o que é esse “pós”. A verdade acabou, me respondem. Essa referência absoluta perdeu serventia. Tudo agora se define por eficácias e funcionamentos. “O que é maçã?”, “O que é veneno?” são perguntas pela essência dessas coisas, pela sua verdade. Essa conversa acabou, dizem os pós. E eu fico pensando: comam uma maçã e tomem veneno e depois conversamos sobre a importância das essências. Ou não, dependendo da eficácia do veneno.

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A situação é esta. Quem insiste em perguntar sobre o que é um girassol perde seu tempo. Perdeu-se no tempo. Não é pós-moderno. Mas nós sabemos suficientemente o que é “moderno”, para nos aboletarmos no seu pós? Penso que não. Mas há pouca gente interessada nessa dúvida. É verdade que não sabemos mais o que é verdade. Para os antigos era mais fácil, embora tenham até se acendido fogueiras por causa dela. Mas eles sabiam uma coisa, pelo menos: há verdade, e ela é essencial. Nada pode ser e não ser ao mesmo tempo. Ou ser uma coisa e o seu oposto. No século XIII Santo Tomás até definiu a verdade: adequação das coisas ao intelecto e do intelecto às coisas. Hoje essa definição se tornou inadequada. Coisas e intelecto? O que há são funcionalidades e operações. — Isso é até verdade, mas não toda. (Esta frase, aliás, nem pode mais ser dita. Estamos na época da pós-verdade...)

Caramba, penso eu, filosoficamente. Não sabermos mais o que é verdade e não haver mais verdade não são a mesma coisa. Nada a ver. Quando não sabemos é que podemos exercer de novo o prazer de perguntar. “O que é, pois, verdade?” seria a decorrência natural de já não sabermos mais. — Mas isso é filosofia, e a filosofia acabou junto com a verdade. Nossa época tecnológica é pós-filosófica. Dizem: — Ah bom, então já não está aqui quem falou. O filósofo foi cassado.

Outra estrutura secundária da língua são os adjetivos. Os substantivos dizem o nome das coisas. Os adjetivos opinam. Não vejo Aristóteles escrevendo: “O que constitui o ser é magnífico.” Vejo e leio que o que determina ser é substância. Substantivo. Substância pode ser uma coisa magnífica. Ou não. Questão de ponto de vista. “Magnífica” é matéria de opinião. E não cabem opiniões quando se está tratando do que é essencial. Adjetivos não são convidados para o diálogo filosófico. Só com adjetivos o diálogo degenera em bate boca. E hoje é assim.

Nem seria um problema enorme se o avanço dos adjetivos ficasse um assunto entre filósofos. Mas da metafísica decorrem também a ética e a política, ações diante do mundo e da vida. E não há dúvida de que nos encontramos numa grande crise ética e política. O Bem (ideia cara a Platão e Aristóteles), o Bem comum (sobre o qual meditou Santo Tomás), a potência livre da vida (vigorosa obsessão de Nietzsche) estão sendo catalogadas nos museus. Aliás, estamos também numa fase pós-museus. O destino dessas ideias há de ser o lixão da História. Não fosse o fato de que estamos na pós-história. Na época dos adjetivos. Diz-se: “O catastrófico governo de Fulano”; “o incalculável desvio do dinheiro público”. Coisas assim. E são, muitas vezes, verdadeiras. (Salvo que verdadeiro... etc.) Mas, ditas assim, o que importa são só a catástrofe e a magnitude do que é incalculável. Estamos pós-governo e pós-público. Interessam-nos os escândalos e seus espetáculos. E escândalos, é claro, são mesmo escandalosos, merecem atenção. Mas não há mais atenção. Há fruição, consumo. Escândalos se consomem. Qualificam alguma coisa. Mas a coisa, substantiva, não interessa mais. É escandalosa, ponto. O escandaloso, adjetivo da coisa, toma a cena para si. E vira objeto de consumo. Aprovamos ou não. Estamos ou não de acordo. Damos ou não curtidas no Facebook da ética da eficácia e da política da aparência. Opiniões. Versões, narrativas. E só.

Depois vamos às compras. Fazer nosso cotidiano de seres humanos. — Só que não — dizem-nos os mais afinados com as revoluções tecnológicas. Porque também estamos na fase do pós-humano.

Esperávamos o quê? Chutamos o ser, a verdade, a ética, a política, Deus. A conta chegou. Vamos trabalhar! A tampa ainda não se fechou.

Trump não está só

Usados com fartura pelo recém-empossado presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, populismo e xenofobia, animados por pregações ufanistas, se tornaram ingredientes quase indispensáveis no caldeirão de ideologias extremadas, sejam de direita ou de esquerda. À fórmula, que nada tem de nova, se agregou mais um elemento: a demonização da política e dos políticos, como se o feiticeiro pudesse negar o feitiço quando dele se beneficia.

Vitoriosos em um planeta virado ao avesso, em que chineses comunistas defendem a globalização e capitalistas, o inverso, os adeptos dessa farsa de fazer política dizendo o contrário envenenam o mundo livre com soluções simplistas, discriminatórias, totalitárias.

Não raro, são pessoas que arrogam para si méritos extraordinários, que se consideram acima do bem e do mal, ungidas pela divindade – incriticáveis.

Trump e seus seguidores mais aguerridos dizem pregar a união, mas atiram pedras em qualquer um que se arvore em reprovar suas falas e seu comportamento. A imprensa é o diabo, a oposição, desprezível.

Apegam-se ao resultado eleitoral -- ainda que Trump tenha sido derrotado no voto popular -- como se a vitória conferisse ao eleito o condão de agir sobre todas as coisas, até acima dos princípios que regem a nação. Cabe aqui lembrar os direitos constitucionais das minorias, algo de que Trump faz pouquíssimo caso.

No Brasil, o ex Lula, sua sucessora deposta, Dilma Rousseff, e o PT têm práticas semelhantes. Quando dominavam o cenário, com aprovação nos píncaros, faziam chacota da minoria oposicionista, espaço que agora ocupam e para o qual corretamente exigem respeito. À mídia, exceto aos jornalistas domesticados, sempre atribuíram os piores adjetivos. Dizem-se democratas, mas tratam os discordantes como inimigos. Consideram golpe um impedimento constitucional, conduzido de acordo com a Constituição e aprovado nas devidas instâncias.

Os muitos disparates de Trump contra as mulheres ao longo da campanha também não ficam longe dos pensamentos de Lula. Em janeiro de 2010, o ex não deixou dúvidas quanto ao espaço reservado no seu íntimo ao sexo oposto: “uma mulher não pode ser submissa ao homem por causa de um prato de comida. Tem que ser submissa porque gosta dele”.

No mundo de Trump, da direita fundamentalista que cresce na Europa e da esquerda latino-americana, a não-política se faz com a política de nacionalismo exacerbado, com fechamento de fronteiras e protecionismo. Como se possível fosse dar um cavalo de pau no sistema econômico mundial, nas mazelas e dores – e nas delícias – do mundo globalizado.

É dizer não à tecnologia e à conexão interplanetária, à internet e às redes sociais, incluindo o Twitter que Trump tanto preza.

Ditas de forma chula – “a carnificina americana acaba aqui” – e com excesso de lugares comuns – “Os Estados Unidos começarão a triunfar novamente, como nunca antes” --, as palavras de Trump no seu discurso de posse não se diferem muito das de Adolf Hitler ao convocar arianos para construir “o triunfo de uma nova Alemanha”.

De Hitler a Vladimir Putin, de Getúlio Vargas a Juan e Evita Perón, de Hugo Chávez a Evo Morales e os Kirchners, de Fidel Castro a Lula, todos e outros tantos beberam ou ainda bebem na fonte populista em maior ou menor dose. Para tal, interpretam e distorcem fatos ao bel prazer, abusam da mentira, do vale-tudo.

A voz do papa

awesome Desigualdade social se agrava no mundo:
 Do mundo, preocupa-me a desproporção econômica: que um pequeno grupo da humanidade tenha mais de 80% da riqueza, com o que isso significa na economia líquida, onde no centro do sistema econômico está o deus dinheiro e não o homem e a mulher, o humano! Assim, cria-se essa cultura de que tudo é descartável
Papa Francisco

A sangria, Teori e o esgoto

Entendo perfeitamente as suspeitas implícitas no pedido do delegado federal Marcio Adriano Anselmo para que sejam exaustivamente investigadas as causas do que ele chama de acidente entre aspas com Teori Zavascki. Inimigo número 1 das teorias da conspiração, sou obrigado a convir que, neste caso, há abundantes motivos para alimentá-las. A ver:

1 – Sérgio Machado é pescado no telefone implorando a Romero Jucá para trabalhar pelo impeachment de Dilma. Seria, para Machado, a única maneira de “estancar a sangria” que a Lava Jato estava provocando e ainda iria provocar.

2 – O impeachment veio, mas a “sangria” não foi estancada.

3 – Agora, procuradores federais têm informação absolutamente seguras de que a, digamos, “operação estanca-sangria” continua viva e operante.

4 – O ministro Teori Zavascki era o relator da Lava Jato no Supremo, a única pessoa habilitada, neste momento, a “estancar a sangria”.

5 – No telefonema de Machado a Jucá, os interlocutores “reconheceram a impossibilidade de cooptar o ministro”, no relato do sempre brilhante Bernardo Mello Franco na sexta-feira, 20.

6 – Aí, cai uma avioneta e Zavascki morre.

Morre com ele a Lava Jato? Não necessariamente, porque parte considerável do trabalho está feita, já havia sido entregue, mas cópias de A a Z estão com a Procuradoria. É um trabalho insano: foram 940 depoimentos dos 77 executivos da Odebrecht que entraram no esquema de delação premiada. Procuradores e policiais federais formaram 122 equipes de mais de 200 pessoas para montar o dossiê.

Se prevalecesse a opinião do procurador-geral Rodrigo Janot, Zavascki deveria levantar o sigilo dos depoimentos. No mínimo, evitaria vazamentos parciais e/ou interessados – e os interesses são formidáveis quando se sabe que os nomes de políticos citados são de um ecumenismo extraordinário.

É razoável supor que o ministro agora morto tivesse aproveitado as férias para adiantar o trabalho de analisar a pilha de informações e, com isso, dar andamento mais rápido aos processos. Como é um trabalho de equipe, é igualmente razoável supor que o pessoal de Zavascki tenha avançado o suficiente para impedir que a morte entorpeça demais os procedimentos.
Mas aí entram as perguntas de cunho muito mais político que judicial-administrativo-burocrático: para começar, o substituto de Teori, seja quem for, terá idêntica disposição de trabalhar em conjunto com o Ministério Público e com a força-tarefa da Lava Jato?

Terá coragem para peitar a substancial fatia do mundo político sob suspeita? Terá suficiente isenção para degolar, se e quando for o caso, à direita, à esquerda e ao centro? Por tudo isso, é fundamental que não paire a menor dúvida sobre as causas do acidente.

É simplesmente assustador pensar que permaneça na cabeça do público a hipótese de que se tentou estancar a sangria à custa do sangue do ministro.

O Brasil cairia no esgoto.

Passos mágicos

Fred Astaire e Rita Hayworth no filme "You Were Never Lovelier" (1942),
de William A. Seiter, com a orquestra de Xavier Cugat

Sentimento do tempo

@Sarah Belliston  sent me this pin. THE HORROR. the sad truth behind the circus. *shudder*:
Os sapatos envelheceram depois de usados
Mas fui por mim mesmo aos mesmos descampados
E as borboletas pousavam nos dedos de meus pés.
As coisas estavam mortas, muito mortas,
Mas a vida tem outras portas, muitas portas.
Na terra, três ossos repousavam
Mas há imagens que não podia explicar: me ultrapassavam.
As lágrimas correndo podiam incomodar
Mas ninguém sabe dizer por que deve passar
Como um afogado entre as correntes do mar.
Ninguém sabe dizer por que o eco embrulha a voz
Quando somos crianças e ele corre atrás de nós.
Fizeram muitas vezes minha fotografia
Mas meus pais não souberam impedir
Que o sorriso se mudasse em zombaria
Sempre foi assim: vejo um quarto escuro
Onde só existe a cal de um muro.
Costumo ver nos guindastes do porto
O esqueleto funesto de outro mundo morto
Mas não sei ver coisas mais simples como a água.
Fugi e encontrei a cruz do assassinado
Mas quando voltei, como se não houvesse voltado,
Comecei a ler um livro e nunca mais tive descanso.
Meus pássaros caíam sem sentidos.
No olhar do gato passavam muitas horas
Mas não entendia o tempo àquele tempo como agora.
Não sabia que o tempo cava na face
Um caminho escuro, onde a formiga passe
Lutando com a folha.
O tempo é meu disfarce
Paulo Mendes Campos

Desgraça pouca é bobagem

Três velhas mais velhas do que o tempo, meio surdas, mal-humoradas, dividem um único olho que nunca sabem direito onde largaram entre as rocas e teares da oficina arcaica. Quando dá na cachola louca e mítica de uma delas, Átropos, o fio da vida é cortado. Surpreende, pelo menos a mim, que aviões voem, e não que caiam, especialmente em dias de chuva, e os aparelhos menores têm ainda menos estabilidade do que os maiores. Um avião do mesmo tipo e modelo, em que Teori Zavascki e mais quatro pessoas fizeram a viagem trágica nesta quinta-feira, caiu na mesma região em janeiro do ano passado num dia chuvoso.

É claro que o relatório do ministro deve implicar gente poderosa, pois ela é o objeto da Lava Jato, mas isso não suspende os acasos, o destino e tudo o mais que não controlamos e não entendemos. Esse vazio lógico convida a abraçar teorias conspiratórias somente aos mais afobados e de repertório empobrecido por conclusões histéricas onde só cabem dúvidas e perplexidade. A conspiração que o Brasil que presta deve evitar é na escolha do novo relator da Lava Jato no Supremo e na conduta dele.


Fica cada vez mais claro que não houve uma conspiração para matar Teori. De todo modo, isso será apurado; mas até mesmo na imprensa dita séria, que deveria se pautar pelo bom jornalismo, oito horas depois da morte de Teori, li que “as causas ainda não esclarecidas da queda do avião”… Como assim? Um laudo a respeito não sai antes de 30 ou 40 dias! Em momentos como esse, o atrevimento em aceitar a existência do imponderável é necessário. O perigo das teorias conspiratórias é que elas são racionais, fazem sentido naquela racionalização que busca reorganizar nossa experiência do cotidiano esculhambado por assombros sucessivos e convencem os tolos de que eles, sim, é que são espertos na sua racionalização histérica. Em situações que desorganizam nosso caos diário, é produtivo e inteligente sacrificar esse conforto tosco pelo incômodo de iluminar a forma do desconserto antes de dar a ele uma forma prévia.

Evidente que não é tolice investigar, questionar e buscar o esclarecimento de tudo. Tolice é querer ser esperto quando basta a lucidez em aguardar as investigações. Pode não ter sido mero acidente? Ora, tudo é possível. Dá para afirmar com certeza? Claro que não. Por enquanto, a única certeza é que, na grande oficina Brasil, esculhambada e caótica, desgraça pouca é bobagem.

Para voltar a ver

Passei algumas semanas fora. Viajar traz uma excelente possibilidade: exposições. Como já fui curador de mostras e também dou aulas de arte, meu olhar foi treinado para ver algo a mais do que as obras expostas. A origem da palavra “curadoria” é a mesma de cuidado, no sentido de zelar, dar atenção especial. O processo constitutivo do evento é, para mim, tão interessante quanto as peças expostas.

Curadores têm ideias, mas o mundo limita tudo com o espartilho de aço dos custos. A criatividade esbarra na planilha de cálculo. Ninguém recebe verba total, tempo ilimitado ou equipe suficiente. Todo projeto é um ajuste de sonhos, de orçamento, possibilidades materiais e infinitos acidentes de percurso. Grandes museus ou fundações ricas conseguem maiores facilidades, mas nem eles concretizam uma exposição tal como ela foi originalmente concebida.

Ser curador é cruzar a ordenada do real com a abscissa do possível. O resultado é sempre uma curva tensa, por vezes tão linda e bem desenhada que o público recebe o resultado como os juros naturais e justos do investimento genial de alguns. A beleza do capitel terminado oculta o suor do operário e do engenheiro.

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Uma coisa ótima em exposições: recriar ou inventar diálogos. Lembro-me dos óbvios e bons: uma antiga exposição sobre o pai do cubismo no Museu do Prado (Madri, 2006, Picasso. Tradición y vanguardia), colocando próximos Velázquez e o artista malaguenho. Vi agora, no Museu Picasso de Paris, uma aproximação fácil, mas igualmente bem elaborada: Picasso e Giacometti. Os dois tiveram uma relação de amizade e as obras escolhidas foram muito boas. As palavras para classificar ambos (o pintor-escultor e o escultor-pintor) provocam reviravoltas mentais para pensar composição, forma e opções sobre a representação. Tais subjetividades ficam escandalosamente reveladas nas duas obras: A Sombra, quadro de Picasso (1953) e a escultura Homem Que Anda 2 (Giacometti, 1960). Parece que o diálogo sempre esteve ali, e só agora, na exposição, conseguimos integrá-lo mentalmente. Uma boa exposição educa a inteligência e a acuidade do olhar.


Há eventos que não miram a comparação, mas a análise de uma única obra-prima. É o caso da mostra sobre a Porta do Inferno, no Museu Rodin (L’Enfer Selon Rodin). Concebida para um museu que nunca foi construído, a porta é conhecida também pelos elementos separados, como O Pensador, que encima sua massa monumental. A exposição traz esboços, moldes e aproximações com os Portões do Paraíso (de Lorenzo Ghiberti, século 15) e com a obra do poeta Charles Baudelaire. O método é decompor o todo em partes, trazer à luz influências e diálogos, dissecar o projeto e tentar recompor tudo na obra pronta e fundida que encontramos nos jardins do museu.

Outro esforço interessante: recriar um mundo, como ocorre no Museu d’Orsay (Spectaculaire Second Empire, 1852-1870) com o tempo de Napoleão III. Quadros, estátuas, objetos decorativos e cotidianos são apresentados levando o público para o coração do século 19. Assume-se, pois, um olhar histórico e nacional, para explicar as duas décadas que marcaram a França até o trágico desfecho. Se o Museu Picasso oferece uma educação do olhar, o Rodin propõe uma arqueologia da composição. O d’Orsay, por sua vez, oferece uma aula de História e de ambientação entre cristais e tafetás chamalotados.

Uma exposição também pode focar luz sobre uma personagem menos conhecida. O conde Carl Gustaf Tessin era embaixador escandinavo em Paris no século 18. Aproveitou para formar um coleção que traduz um olhar sobre o mercado de arte de seu tempo. Lá, somos apresentados ao gosto de um sueco de elite e à sua avaliação do mundo pictórico e escultórico francês. A tal gosto e avaliação, justapomos as escolhas dos organizadores e, sobre elas, as nossas próprias conjecturas. Curiosa aproximação: sou um estrangeiro lançando o olhar sobre outro estrangeiro que avaliou o mundo da arte da capital francesa. Em comum, a mesma pergunta: o que vale a pena ver/adquirir em Paris? Infelizmente para quem planeja ir agora ao Louvre, a exposição (Un Suédois à Paris au 18e Siècle: La Collection Tessin) acaba de ser encerrada.

Há muito mais. Só para citar algumas: uma grande mostra sobre Magritte no Georges Pompidou e uma visita aos objetos da Fundação Louis Vuitton. Esta última vale pelo prédio e pelo acervo. No fim de fevereiro, o Louvre iniciará uma exposição sobre o genial Johannes Vermeer. Para quem almeja deleitar-se com o novo filme sobre a musa Dalida, pode-se explorar uma mostra sobre o guarda-roupa da icônica cantora no Galliera, a partir da primavera parisiense de 2017.

Uma viagem deve combinar diversas possibilidades. Comer, conhecer pessoas, passear, ver e aprender formam o leque completo. Acima de tudo, acabamos por voltar ao papel de flâneur que o autor das Flores do Mal identificava há quase 200 anos. O olhar agudo que perdemos no cotidiano nas nossas cidades de origem pode ser restaurado na cidade alheia. Criamos um ritmo estetizante e transformador através do cotidiano e da arte em território estrangeiro. Um boulevardier, um homem do boulevard, via as coisas, aprendia, descrevia, com a pena de Zola ou de Proust, a experiência mais vagarosa e analítica dos mundos redesenhados pelo olhar. A vantagem dessas personagens do passado? Não faziam selfies. Mas, através do self, punham-se a pensar o outro. Bom domingo a todos vocês.

Imagem do Dia

Finnich Glen, also known as The Devil’s Pulpit is one of 25 Places In Scotland That Are Straight Out Of A Fantasy Novel. Which ones will be included in your Scotland travel plans?:
Púlpito do Diabo (Escócia)

O inventor do mentirômetro

Mentir faz parte da existência humana desde o começo dos tempos. Há os que dizem que nunca mentem... Mas não têm como comprovar, o que é uma grande injustiça. Álvaro era uma dessas pessoas. Severo, rígido, extremamente religioso. De uma organização impecável, perfeccionista. Sua mania de limpeza chegava a extremos de levar em uma mochila seu próprio copo, talher e desinfetantes para banheiros públicos - quando usava, o que era raro, pois desenvolveu técnica para ficar até 18 horas sem urinar.

Tímido, excêntrico ou “esquisitão”, diziam os colegas. Nota “A” de cabo a rabo. Odiava falar em público e irritava-se com o português arcaico dos colegas (do tipo “nós vai”, “a gente chegavam” ou até o popular “veio”). Falava quatro idiomas e inglês com sotaque britânico.

Cresceu, fez PhD em psicologia experimental, em Montreal, no Canadá. Estudou as áreas cerebrais ligadas ao ato de mentir. Foi a fundo no tal de “detector de mentiras” que os norte-americanos adoram. Provou, com trabalhos publicados nas melhores revistas cientificas, a imprecisão e as falhas do detector.

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Os seus colegas brincavam dizendo que ele, como bom brasileiro, tinha desenvolvido suas teses sobre detector de mentira ao assistir presidentes da República fazendo pronunciamentos na TV: “Brasileiros e brasileiras...” ou “Nunca roubei, nunca traí minha mulher, nem recebi nada que a “Veja” publicou...” ou, pior, “Nunca antes na história desse país...” e “Sempre fizemos o que todos fazem: o inocente caixa dois”.

Era tanto olho revirando para cima, “cara de pau” e músculos faciais inflexíveis, bigodes e barbas sem mexer um fio, que o dr. Álvaro dizia: “Não há detector de mentira que dê conta de político brasileiro!”

Sua tese era simples: o que é verdade é algo que a cognição, a memória, traz naturalmente, não exige esforço, é espontâneo. E as áreas do cérebro agem de forma integrada simples assim: um fato foi fixado, depois armazenado e, quando alguém pergunta sobre ele, é evocado, lembrado ou é algo reflexo: estímulo-resposta. Exemplo: “Meu vestido é bonito?”. “Não”.

No entanto, a humanidade vai sendo treinada para agradar, falar o que o outro quer ouvir, puxar o saco, querer ser mais do que é, impressionar. Aí a coisa pega. Falamos o que não pensamos, expressamos o que não sentimos, fazemos o que não queremos só para obter vantagens e não ficar mal com o outro. Dr. Álvaro pegou esse fato, “os conflitos intrapsíquicos”, e viu que, quando “sim” vira “não” e vice-versa, há grande alteração das áreas cerebrais envolvidos nisso. Os que dizem a verdade ativam partes absolutamente distintas dos que mentem. E mais: mentir é muito mais complexo, pois o mentiroso “cria histórias imaginárias, fantasias” e quase escreve um romance todo o tempo para camuflar a verdade anos e anos.

Todos queriam ver o aparelho que o dr. Álvaro criaria a partir daí: o “mentirômetro”. Capaz de detectar desde infidelidade conjugal, desvio de dinheiro nas empresas, fofocas banais de artistas nas revistas, até traidores da CIA, FBI, hackers, filhos que usam drogas, enfim, o fim do fingimento.
A hora da verdade! Foi chamado para entrevista no programa da “Oprah”. Recorde de audiência, até que... A Universidade de Montreal convoca a imprensa. O professor dr. Álvaro era um impostor. Seu aparelho era uma farsa, e ele foi expulso da instituição.

Uma guerra nas redes sociais e programas de todo mundo: especulações, mentiras, fofocas. Ora estava preso em Guantánamo ou confinado pela CIA e FBI, ora era realmente um charlatão. Suas patentes canceladas tinham ido parar no serviço secreto inglês ou israelense. Era membro da Al-Qaeda.

No fim, ninguém sabia mais o que era verdade ou mentira, apenas que, graças a Deus, o tal do “mentirômetro” não seria usado. Ufa! Traidores, corruptos, políticos, puxa-sacos, enfim, todo mundo, principalmente os advogados, de mensaleiros estavam a salvo! Afinal, a realidade não é mesmo uma grande ilusão e mentira?!

Os novos tempos chegaram

Sexta-feira, desnudou-se a sociedade americana. Em Washington e montes de outras cidades, o povão foi para a rua, em boa parte protestando contra a posse de Donald Trump. Muita gente apelou para a violência, quebrando vitrinas, depredando carros, jogando pedras, virando e botando fogo em latas de lixo. A polícia fez a sua parte, avançando com gás de pimenta, gás lacrimogêneo, cassetetes e ocupação das principais avenidas, além de prisões.

Demonstraram ser um povo igual aos demais, participando do inconformismo e de excessos verificados em todo o planeta. Faltava apenas a comprovação que os aparelhos de televisão forneceram nos mínimos detalhes.

Era mera ilusão, provocada pela propaganda e a truculência, supor que formavam um mundo à parte. Até porque a História tem provado serem os Estados Unidos uma das nações mais violentas do mundo, que de uns tempos para cá até guerras vem perdendo.

O novo presidente promete acelerar o processo de ebulição da sociedade que passou a conduzir, ampliando o fosso entre ricos e pobres e deixando de lado sonhos e ideais de igualdade e aprimoramento social.

O egoísmo sempre foi a principal característica dos americanos, mas agora chegou a níveis nunca antes alcançados. Há quem julgue estar próximo o rompimento social, com parte das gerações mais jovens dispostas a enfrentar a minoria voltada apenas para os próprios interesses. Deveríamos acostumar-nos a esses novos tempos.

A diva do feminicídio

Como se sabe, índio quer apito e socialista quer dinheiro. Com o desalojamento do PT do poder central, a fonte secou. Claro que a nobreza petista continua milionária – afinal, foi mais de década de belos rendimentos –, mas os companheiros são prevenidos e pensam no futuro. O jeito de tentar retomar a linha direta com o bolso do contribuinte é recauchutar o conto de fadas. Prepare-se, porque doravante no Brasil cada enxaqueca será de direita – e os heróis da resistência democrática se oferecerão, limpinhos, para salvar você desse pesadelo.

A frase inicial deste texto não é uma piada. Ou melhor: é uma piada. Mas foi pronunciada, escrita e vociferada por uma série de indivíduos que pretendiam ser levados a sério. Vamos citar apenas um desses indivíduos – que por sua elevada carga simbólica resume o bando inteiro: Dilma Rousseff.

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Você pode não estar ligando o nome à pessoa, mas estamos aqui para ajudá-lo. A Sra. Rousseff, segundo registros confiáveis e impressionantes, presidiu a República Federativa do Brasil por cinco anos e uns quebrados – e foram justamente os quebrados que puseram fim ao seu incomparável reinado. Os quebrados, os falidos, os vilipendiados e os esfolados se uniram para convidar a diva da Lava Jato a cantar em outra freguesia. Ela foi. E de lá vem entoando coisas do tipo: “É intolerável que o machismo encontre eco no pensamento conservador e justifique o feminicídio”.

Sabem o que a diva do petrolão está fazendo, com a sutileza de uma baleia? Transformando a dor e o sangue de pessoas que ela nem conhece em investimento político-ideológico. Convertendo tragédia em proselitismo – com fins lucrativos. Os urubus estão sobrevoando a cena chocados, sem coragem de se aproximar.

Quem fez um sobrevoo tranquilo foi o melhor amigo da diva, Fernando Pimentel – indo buscar seu pimpolho numa festa de Réveillon com o helicóptero do estado. A Sra. Rousseff, nova cronista da vida alheia, bem que poderia fazer um paralelo com essa família feliz, progressista e solidária, na qual papai ajuda os filhinhos e não ataca ninguém – só os cofres públicos, que ninguém é de ferro. Escreva aí, companheira: enquanto o sangue corria em Campinas, seu amigo chupava sangue em Minas.

Sejamos justos: não é correto afirmar que Fernando Pimentel chupou o sangue dos mineiros. Na verdade, ele chupou o sangue dos brasileiros – ao lado da cronista do feminismo. É o que indicam os investigadores da Polícia Federal. Suas consultorias imaginárias e suas aventuras no BNDES foram uma modesta contribuição com as obras completas da amiga de fé e protetora incondicional, a senhora do petrolão – que presidiu a devastação da economia nacional em tempo recorde. O “pensamento conservador”, seja lá o que isso signifique, precisará de um exército inteiro para alcançar a eficácia da diva do feminicídio.

Depois os brasileiros reclamam que são roubados à luz do dia. Enquanto gente que deveria estar presa puder ficar por aí fazendo demagogia politicamente correta com a dor alheia, sem sequer passar vergonha por causa disso, tudo será permitido. Ratazanas que sugaram bilhões da Petrobras se apresentam como paladinos da moral e procuradores das causas humanitárias, numa boa. E fazem escola, liderando uma patrulha surrealista contra o inimigo imaginário – o homem branco, os conservadores, o monstro neoliberal do Lago Ness, tanto faz. Como disse o companheiro Delúbio quando o mensalão foi descoberto: “É uma conspiração da direita contra o governo popular”. Com essa fantasia, o bloco dos sujos continuará batendo a sua carteira sem perder a ternura – e o rebolado.

A não ser que você pare de dançar conforme a música deles. Que exponha os contrabandistas intelectuais ao ridículo que lhes é intrínseco. Que acabe com esse papo de guinada conservadora para justificar um projeto parasitário. Conservador é quem usa retórica e ideologia para conservar bocas e tetas. Desafie os gigolôs da bondade a ver quem sobreviverá melhor quanto maior for a liberdade. Cumpra o seu dever cívico: desmascare um progressista gourmet. Antes que seja tarde.

sábado, 21 de janeiro de 2017

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Reforma, reflexão, mistura

É velho o dilema entre revolução e reformas. Neste ano de 2017, o calendário assinala em outubro os 100 anos da Revolução Russa, e certamente propiciará análises, discussão do socialismo e do comunismo, dos rumos que tomaram, da inevitabilidade ou não de se apoiarem em ditadura e repressão. Mas teremos também o transcurso de meio milênio da Reforma — a original, religiosa, de Martinho Lutero, marco de um movimento moralizador e libertário que propunha que os fieis pudessem ler os textos bíblicos e tratar de interpretá-los. Sem autoritarismo e escapando a práticas de ética duvidosa, como a de comprar indulgências, privilégios pseudoespirituais adquiridos por favores materiais. Essa coincidência de datas propicia a oportunidade de refletir sobre muitas questões.

Na semana que vem, em uma grande festa literária, o Hay Festival de Cartagena, escritores de diversos países estão convidados a repetir o gesto original de Lutero ao afixar numa igreja suas 95 teses propondo reformas às autoridades eclesiásticas. De minha parte, a proposta que faço se dirige à autoridade que me parece suprema: a consciência individual de cada um de nós.

Rede Esgoto de televisão. 15062012 / "Muitos falam, mas d q adianta, se até na bíblia está escrito: "Estenderei a minha mão sobre os habitantes da terra. Pq desde o menor até o maior, todos eles são gananciosos." Jeremias 6,12-13 "A ganância insaciável é um dos tristes fenomenos q apressam a autodestruição do homem." Isaac Carmona "A ganância do ter não só engoliu o ser e a convivência pacífica, mas até privou a maior parte dos homens do ter indispensável, p/ acumular nas mãos d uns poucos..:
Trata-se de uma reforma interior. Consiste em que cada um se disponha a ouvir com respeito os argumentos e razões alheias, de modo a se deixar eventualmente fecundar por alguma contribuição de outros pensamentos além dos que já traz consigo. Ou seja, proponho que celebremos o convívio e o diálogo, bem como a leitura atenta e acolhedora de ficção e ensaios, entendidos como parte de um processo fundamental para o humanismo.

Olhando a evolução do homo sapiens, constatamos que nos desenvolvemos a partir de duas atitudes que serviram como garantia para nossas condições de sobrevivência.

A primeira foi a do sujeito ativo. Frente aos tremendos perigos que ameaçavam a espécie num ambiente hostil, era indispensável uma ação rápida, não sujeita a dúvidas, hesitação ou paralisia. Se uma fera atacasse, o homem primitivo devia correr o mais depressa que pudesse. Subir em uma árvore alta, jogar-se ligeiro na água ou golpear o animal com o objeto duro e pesado mais ao alcance e com maior probabilidade de causar dano ao inimigo que ameaçava. Tudo em decisões rápidas, pouco mais que atos reflexos. A rapidez e a reação automática podiam ser decisivas para salvar a vida.

Passado o auge do perigo, os indivíduos que conseguiam escapar podiam então se dar ao luxo de passar à segunda atitude: a do sujeito reflexivo. Pensar sobre o que ocorrera. Comparar sua sorte com a de outros, menos afortunados, que haviam sido mortos ou atingidos pelo perigo. Recordar os movimentos observados em companheiros que também haviam escapado, graças a ideias diferentes das suas, mas igualmente eficientes. Mais que isso: foi possível aprender que havia uma potencialidade positiva no intercâmbio de experiências, na soma de reflexões, em estratégias conjuntas para enfrentar a ameaça comum. Se o sujeito ativo era importante para garantir a sobrevivência individual, logo se tornou inevitável reconhecer que o sujeito reflexivo se revelava fundamental para assegurar a sobrevivência do grupo.

Hoje em dia, com o desenvolvimento tecnológico, os meios digitais e uma rede de comunicação universal, esse intercâmbio de relatos, experiências e opiniões se oferece com uma amplitude e rapidez antes inimagináveis. Para aproveitá-lo em sua plenitude, precisamos ir além da reação imediata e automática de dar um simples clique ou curtida, escolher mãos aplaudindo ou uma carinha vomitando. É preciso sair dos limites do pequeno grupo que reage como se fosse um único indivíduo, ativo e militante, mas voltado apenas para si mesmo — como o primeiro momento daquele homem primitivo que tratava de sua sobrevivência pessoal, sem qualquer reflexão a partir de narrativas e experiências alheias, que permitiriam progressos para toda a coletividade.

Aprendemos com Hannah Arendt que, para dominar de maneira absoluta, o terror precisa se exercer sobre pessoas que estejam isoladas umas das outras. Por isso, uma das primeiras, mais fortes e constantes preocupações de todo governo tirânico é construir esse isolamento entre os cidadãos. Mais ainda: ela observou também que o súdito ideal para um domínio totalitário é sempre aquele para quem não existe mais a distinção entre fato e ficção. Ou seja, para quem desaparece a realidade da experiência. Ou então, aquele que perdeu a distinção entre verdade e falsidade. Quer dizer, para quem desapareceram os paradigmas de pensamento.

Para evitar que isso se produza, uma boa reforma interior sugere que cada um acolha e ouça atentamente o que os outros têm a dizer, em uma atitude reflexiva, procurando ver o que possa existir de verdadeiro e útil nessa contribuição, sem reforço de palavras de ordem, sem hostilidade prévia, sem belicosidade, sem desqualificação automática do pensamento alheio. E de novo se possa
constatar, com o poeta Drummond, “como a vida é isto misturado àquilo”.
Ana Maria Machado

Teori e o buraco na estrada

É claro que é muito cedo para descartar qualquer possibilidade acerca da queda do avião em que estava o ministro Teori Zavascki. Eu, no entanto, tomei uma medida drástica desde que o senhor Lula da Silva assumiu o poder, mais de uma década atrás: viajante contumaz que eu era pelas estradas brasileiras, nunca mais pus o pé fora da porta.

O motivo é óbvio: aqui se morre de Brasil. De incompetência, de irrelevância, de bala perdida, de buraco na estrada. Não há o menor valor à vida, nem mesmo dos próprios proprietários das mesmas, que se arriscam diariamente nesta pocilga para continuar respirando este ar fétido. Há motivos sim – muitos – para que não tenha sido um acidente. Mas há muito mais motivos para que tenha sido.


A começar pelo fato de que o ministro foi “corajoso” ao assumir uma cadeira num avião daqueles, no momento da vida em que estava. É óbvio que deveria zelar pela própria existência, dada a importância do que estava fazendo. Me parece que um misto de ingenuidade, confiança nas aeronaves de pequeno porte e alcance, confiança no mau tempo, confiança na capacidade do brasileiro de dar um jeitinho em tudo foram as causas principais deste acidente.

Em respeito ao homem público, me abstenho tanto de acreditar nas teorias da conspiração quanto na possibilidade de ter sido uma licenciosidade dele mesmo. Já afirmei por aqui que procuro não parar debaixo das pontes. Sou engenheiro. Sei como elas andam sendo construídas, só com a metade do dinheiro. A outra metade é transferida em tenebrosas transações.

O que fica é o perigo, rondando nossas cabeças incautas, de que tudo desabe num trágico “acidente pavoroso”. Conta agora a do papagaio. Nunca é tarde para lembrar a inutilidade de um atentado dessa monta, uma vez que a equipe toda do ministro continua viva, não é mesmo? Ou será que eles não sabem do que se trata a Lava Jato?

Essa parte de Trump que nos habita

Trump já é mais do que um presidente dos Estados Unidos. É um fenômeno que dá calafrios. Seu nome faz retumbar ecos de tambores de guerra.

Todos os adjetivos que engendram medo ou repulsa já foram usados para descrever sua pessoa e suas ideias. Mas quantos pedaços de Trump existem em nós? Elegeram-no os deuses, ou fomos todos nós, não só os norte-americanos?

Ninguém é totalmente inocente. Onde começa a fronteira entre a vítima e o verdugo?

Trump é uma interrogação. Para uns, uma surpresa sombria; para outros, o líder que ri dos políticos e os julga e despreza. Personagem ainda indecifrável, apesar de sua linguagem óbvia, insubstancial e às vezes até pobre.

É mais do que um problema político. Não é de esquerda nem de direita. Talvez de nada, só de si mesmo. Um palhaço ou algo menos divertido, mais inquietante?


Por ser mais que um político chamado a governar o maior império do planeta, precisaríamos de outras ciências para enquadrá-lo. Talvez a psiquiatria?

E se fosse um cidadão que espelha o sentir de milhões de pessoas, cansadas da desfaçatez e do aburguesamento de seus governantes tradicionais, engordados sob o manto da impunidade e da corrupção que foram marginalizando a metade do Planeta que precisa se conformar com as migalhas caídas da mesa dos seus festins?

Ou será a falsa esperança desses milhões de cidadãos que já não esperam nada dos politicamente corretos e correm em busca da miragem de um “chefe”, o mais macho e incorreto possível?

Trump ainda nem estreou e já é o personagem do mundo. O que há nele de morbidez política ou existencial para que, oco de ideias e saciado de presunção, tenha se tornado o maior fenomenal viral das redes sociais do mundo?

Sobre Trump já se escreveu de tudo, mas talvez pouco sobre nós mesmos frente ao nosso espelho. Há uma pergunta que inquieta não só a psicologia e a psicanálise, mas também a nossa própria consciência: que parte do Trump se esconde em cada um de nós?

Somos todos um reflexo de Trump cada vez que nos inflamamos diante dos diferentes. Não somos uma selfie dele quando sofremos se a nossa filha branca se casa com um negro? Ou quando nosso filho pardo se orgulha de ter se casado com uma branca?

Cada vez que um pai diz: “Prefiro um filho morto a um filho gay”, e quando em algum canto sombrio da nossa alma nos alegramos cada vez que um delinquente é linchado na rua, não estaremos poluídos pelo vírus trumpiano?

Ou quando continuamos acreditando que a cor da pele é um defeito da luz em vez de uma tonalidade do arco-íris?

Ou quando os homens, talvez sem verbalizar, consideram que muitos estupros são causados e justificados pelas mulheres com seus vestidos provocantes, ou quando acreditam que todas elas são facilmente prostituíveis diante do poder ou do dinheiro?

Somos habitantes do planeta Trump quando degradamos os direitos humanos, defendemos a tortura ou a pena de morte e nos opomos a que a mulher possa decidir conscientemente sobre a sua maternidade.

Somos pequenos Trumps quando acreditamos que é a pobreza que causa a violência. E a polícia é trumpiana quando, na dúvida entre um branco e um negro, se inclina pela inocência do branco.

A Justiça, até a mais democrática, espelha Trump cada vez que enche as prisões com os sem-nome e deixa em liberdade os que se gabam de dizer: “Você sabe com quem está falando?”.

Até as democracias mais sólidas, como a europeia, exalam hoje aromas de trumpismo. Basta pensar na incômoda política para os imigrantes e refugiados. No fundo nos irritam porque estariam invadindo nosso território sagrado. São a ameaça à nossa tranquilidade.

Somos um pedaço de Trump quando acreditamos que é necessário pensar antes no nosso pequeno curral do que na grande praça do mundo.

Somos Trump quando já não nos espanta o silêncio de morte daquela parte do mundo à qual condenamos a não ter voz.

Trump não é um alienígena nem um extraterrestre. É a expressão do nosso mundo que está se fechando em si como um ouriço, com seus espinhos em alerta, contra aqueles que não pensam nem amam como ele.

STF põe em risco no petrolão prestígio amealhado no mensalão

Superado o receio de que o novo relator da Lava Jato saia da caneta de Michel Temer, um potencial investigado, o país passa a conviver com o pavor de que o Supremo Tribunal Federal escolha um relator inconfiável. A hipótese de que o substituto de Teori Zavascki seja escolhido por sorteio é horrorizante. A impressão de que nem todos os ministros da Suprema Corte são dignos da função é horripilante.

Nenhum cidadão no mundo recebe mais informações jurídicas do que o brasileiro. Um visitante estrangeiro estranha que o noticiário fale mais sobre inquéritos, denúncias e ações penais do que sobre futebol. A maioria entende de leis apenas o suficiente para saber precisaria entender muito mais.

Entretanto, as transmissões da TV Justiça desenvolveram na plateia habilidades que permitem diferenciar certos magistrados dos magistrados certos. O que tornava Teori especial aos olhos leigos era o estilo de zagueiro de time de várzea, não o notório saber jurídico.

O relator morto da Lava Jato sabia como demarcar o seu território na grande área de um processo. Cara amarrada, mirava a canela já na primeira entrada. Com dois trancos, arrancou Eduardo Cunha da presidência da Câmara e do exercício do mandato. Abriu o caminho para a cassação e a prisão. Com outro tranco, empurrou gente como Lula para dentro do “quadrilhão”, como os investigadores chamam o inquérito-mãe da Lava Jato.

Não são negligenciáveis as chances de que o novo relator saia da Sugunda Turma do Supremo, onde tramita a Lava Jato. Com a morte de Teori, restaram nesse colegiado: Celso de Mello, Gilmar Mendes, Dias Tofoli e Ricardo Lewandowski. Responda rápido: você levaria a mão ao fogo por todos eles?

Em geral, essa gente leiga que conhece o seu valor costuma achar inacreditável que jogadores remunerados pelo teto do serviço public, tratados com todo o pão de ló que o dinheiro público pode pagar, não consiga prevalecer sobre o time dos corruptos de goleada.

O pedaço mais esclarecido da arquibancada raciocina assim: eu, com o mesmo salário e igual tratamento, ficaria envergonhado se não pintasse duas ou três capelas sistinas por mês.

Quer dizer: ou o Supremo Tribunal Federal acomoda na relatoria da Lava Jato um ministro com a disposição de um zagueiro e o talent de um Michelangelo ou vai jogar no ralo todo o prestígio que amealhou no julgamento do mensalão.

Um pouco de alegria

Shirley Temple e George Murphy, que seria depois 
senador americano, em "Little Mis Broadway" (1938)

Pagante nacional

Os governos fingem que combatem as facções. Elas brigam entre si e tentam não se atritar com os governos.
 
Quem paga a conta? Nós, ora 
Ricardo Noblat

Tempos de escolha

Por três anos, a população de Brasília assistiu ao governo do Distrito Federal e ao governo federal construírem, ao custo de R$ 2 bilhões, um estádio para 70 mil espectadores — em uma cidade em que seus times carecem de torcedores — enquanto a poucos quilômetros seu Teatro Nacional estava fechado e se degradando.

Diante deste desperdício de recursos e deste crime contra a cultura brasileira, os artistas de Brasília silenciaram por duas razões: a afinidade em relação aos governos federal e local, e a tradição brasileira de considerar que os recursos fiscais são ilimitados, sem disputa entre as diferentes prioridades.

O caso de Brasília não foi único: nos últimos anos, dezenas de museus, cinemas, teatros foram sendo depredados, degradados e abandonados, ao lado de novos estádios e outros gastos públicos.

Mesmo entre os poucos artistas que se manifestaram em defesa da recuperação do teatro, nenhum protestou contra o desperdício do estádio por não perceberem que cada tijolo usado em uma obra não pode ser utilizado em outra; eles não tinham a percepção de que os gastos públicos exigem escolha: estádios ou teatros, viadutos ou escolas, palácios ou saneamento.

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Felizmente, nesta semana, o ministro Roberto Freire e o presidente Temer assumiram o compromisso de recuperar e reabrir o Teatro Nacional Claudio Santoro (foto).

Mas, diante das novas regras que definem um teto para os gastos da União, a vida política e fiscal brasileira vai entrar em um tempo de realismo na escolha de suas prioridades.

A disponibilidade de recursos orçamentários para uma ou outra finalidade vai depender de luta política na elaboração do Orçamento federal. Por isso, os artistas que até aqui assistiram calados a um teatro definhar na sombra de um estádio que surgia precisam estar atentos.

Será preciso convencer os eleitores para que eles convençam os governos e parlamentares a preferirem um teatro necessário a um estádio sem função. Caso contrário, democraticamente, o teatro continuará fechado e o estádio, vazio.

Os gregos separaram aritmética e dramaturgia, a fantasia nos palcos e a realidade na política.

Foi a aliança dos políticos de todos os partidos com os líderes de classes, patronais ou trabalhistas, que nos passaram a ilusão de que os recursos financeiros públicos seriam ilimitados, permitindo fantasias na política.

A partir de agora não bastará lutar por mais recursos para o teatro, será necessário lutar também para tirar recursos para outras finalidades.

A política subirá para o mundo da realidade, por disputas conforme interesses, preferências, lutas entre classes. A ilusão ficará no palco, nos roteiros das peças, nas partituras, no destino dos personagens, não na política e nas finanças.

Pena que muitos ainda preferem a ilusão fiscal do orçamento à ilusão artística do teatro; e o sectarismo faz com que alguns artistas fiquem contra a recuperação do teatro porque estará sendo feita por um governo ao qual se opõem.

Valeu a pena

Não dá para aceitar a suposição de ter havido um atentado, sabotagem ou coisa igual. Mesmo assim, lá no fundo do cérebro, permanecerá a dúvida. Mesmo sabendo que de nada adiantaria, pois a Operação Lava Jato dobrou a curva da esquina. Quem se tornar relator do processo estará obrigado a seguir adiante na condenação dos corruptos envolvidos no escândalo.

A vida tem dessas surpresas. De Tancredo, Ulysses e Teori, entre tantos outros, já estava escrito. Importa seguir adiante. A delação da Odebrecht não demora a ser conhecida. E outras. Tanto faz quem será o novo relator. Ou quantos corruptos serão denunciados, dispondo ou não de foro especial. A verdade é que montes de políticos, parlamentares ou não, deixarão de ser políticos e certamente, os que tiverem sido parlamentares.


O fundamental, a partir do início da Operação Lava Jato, e tanto faz quem irá encerrá-la, é que conluio entre empreiteiras e políticos está terminado. Claro que crimes continuarão a ser praticados, ainda que em número bem menor. As estrelas de primeira grandeza se apagarão, por ação do ministro Teori Zavaski, abruptamente interrompida mas já completada em sua fase mais importante.

Agora é aguardar as investigações já iniciadas pelas autoridades competentes para apurar o acidente nas águas de Parati. Que o exemplo do morto ilustre permaneça para sempre na crônica do Poder Judiciário. Onde quer que ele se encontre, deixará marcada sua passagem com a lição de que, se a alma não é pequena, valeu a pena…

Imagem do Dia

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Kenia (Lisa Kristine.)

País árvore. Cidade floresta

Parece tão longínqua na memória, face ao acúmulo de fatos violentos desde então, tal qual um Febeapá demoníaco assombrando-nos, a cerimônia de abertura das Olimpíadas no Rio.

A era da informação nos revela a onipresença vacilante do personagem de John Travolta em “Pulp Fiction” ou a frequente aparição do descomunal membro sexual de um homem negro de chapéu como relevantes. Mas podemos também, com poucos cliques, rever a bela abertura dos Jogos de 2016. Sugiro, portanto, ao leitor que deixe um pouco de lado tais informações “pop”, ou poop, e mire novamente seu olhar para aquela ocasião no distante 2016.

Naquela abertura colocamos em bilhões de telas do mundo uma coincidência que raramente acessamos como fenômeno disruptivo e transformador: nosso país, Brasil, é o único do mundo batizado com o nome de uma árvore, o pau-brasil.

Pode parecer anedótico, e quanto mais nos deixamos deprimir pelo conhecimento de como defendem os interesses pátrios, políticos e empresários, mais vulgarizamos a palavra Brasil.

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Açúde Solidão (Floresta da Tijuca)
O tronco da árvore de pau-brasil (Paubrasilia echinata) fornecia um corante vermelho “brasa”, a brasileína, importante tanto para as tintas para escrita quanto, e principalmente, para o tingimento de sedas e veludos tão apreciados pelas cortes europeias.

Assim, o corante sanguíneo da árvore tropical cobria os corpos das monarquias europeias. Essa é uma leitura. A beleza de uma cor ímpar seduzia, abrindo o campo do desejo e do intelecto, ampliando os mundos exteriores e íntimos de uma sociedade envelhecida. Também é uma leitura possível. A brasileína, como meio, também era mensagem, nos ensinou Marshall McLuhan.

O entendimento das mudanças climáticas como anedotas da internet, como quer fazer parecer a nova elite mundial, tem naquela cerimônia dos Jogos Olímpicos do Rio uma contramanifestação global. Há um vazio de saber que precisa ser preenchido com uma nova inteligência planetária, mais amorosa com a Terra. Consigamos nós, brasileiros, mirar nosso olhar para novas cores, mesmo diante das cabeças sem corpos que ocupam posições de autoridade, e poderemos sentar à mesa do mundo e falar de árvores.

Outro Vale do Silício necessário é o Vale Silvícola, a surgir no Brasil, onde a Embrapa pode ser uma nova Apple. Quanto falta para termos políticos da estatura de uma sumaúma?

Pensar o arco temporal de um século é muito difícil numa economia de juros altos. O que torna difícil demonstrar a agenda urbana como urgente para o país, pois cidades são organizações lentas. Priorizar as economias que podemos gerar e compartilhar no território urbano é dar valor estratégico a uma escala que não é menor, mas estrutural para o estabelecimento de um ciclo econômico sustentável e mais pleno de cidadania, onde possamos conjugar o binômio natureza-cidade como conhecimento de que o planeta precisa e que dominamos intimamente.

O reconhecimento como Patrimônio da Humanidade para a Paisagem Cultural do Rio de Janeiro não é um título erudito de burocratas globais, é uma grande vitória geopolítica onde, após dez anos de candidatura, em esforço público e privado, propusemos uma outra perspectiva urbana. A cacofonia do ambiente urbano carioca revelaria uma ordem mais complexa, fruto do esforço de erguer uma grande cidade tropical em dança com a natureza. Amplia-se a história do urbanismo, pois uma nova relação descortina-se, onde não há natureza subjugada, tal qual numa cidade-jardim, mas um baile. A floresta usada inicialmente para fins econômicos e científicos, com o tempo, converte-se em campo poético. No Rio, a preservação, através das continuadas políticas de patrimônio cultural, promoveu uma singularidade urbanística, uma cidade-floresta.

Não só o Rio contém o Parque Nacional da Tijuca como é contido por ele. São inúmeros saberes muito úteis para um planeta quente. Priorizar a arborização urbana como infraestrutura essencial assim como água e esgoto. Inovar no tratamento das favelas como bairros ecológicos. Acessar a natureza como parte da experiência da vida na cidade.

O’Brazil, ou Hy’Brazil, é um mito gaélico. As Ilhas Afortunadas, ou Ilha do Brasil, narradas por São Brandão, navegador-santo irlandês do século V, ficariam no Atlântico Norte e seriam um Éden terreno. O isolamento da Irlanda durante o obscurantismo da Idade Média permitiu-lhe proteger e passar conhecimentos adiante. Tal lenda, como conhecimento empírico, ajudaria a impulsionar a Europa às navegações. Iria também ajudar a batizar o pau-brasil. Poderiam um país-árvore e uma cidade-floresta impulsionar seus saberes?

Washington Fajardo

Regra no presídio

Há algo mais de muito errado no sistema prisional. Talvez uma espécie de acordo tácito entre autoridades carcerárias e os chefões do tráfico para manter a paz nos presídios e fora deles, desde quando o PCC tocou o terror em São Paulo, o que só serve para permitir que as quadrilhas se fortaleçam ainda mais.
 
Essa parece ser uma espécie de regra do jogo, na qual os traficantes, e não as autoridades, estabelecem o próprio código de conduta. É aí que está o maior dos problemas 
Luiz Carlos Azedo 

Lava Jato não está em risco! Isso é terrorismo mixuruca

Desde que a Operação Lava jato existe, vamos ser claros, dizem estar ela em risco, não é mesmo? Vocês já perceberam ser essa a principal peça de marketing dos seus integrantes? Se alguém propõe um lei contra abuso de autoridade, grita-se: “Lava Jato em risco!”. E a imprensa ecoa: “risco, isco, isco, isco…”. Se alguém critica propostas fascistoides do Ministério Público Federal, grita-se: “Lava Jato em risco!”. E a imprensa ecoa: “risco, isco, isco…”. Parte do jornalismo virou mero repetidor de uma espécie de lobby que entende ser “do bem”.

Eis que leio os jornais e os principais portais e, ora vejam, dada a morte trágica de Teori Zavascki, o que temos? Grita-se: “A Lava Jato está em risco”. E a imprensa, bem…, “isco, isco, isco”. Leio no Estadão que o procurador-geral da República, Rodrigo Janot, afirmou na Suíça que a operação “está em jogo”.

Como é que é?

Então morre um ministro do Supremo, o que, sem dúvida, é lamentável, e se parte do princípio de que isso pode ameaçar a operação? Ameaçar por quê? Então não há procedimentos institucionais no Brasil? Então as decisões não são tomadas segundo a prescrição e a disciplina legais? Então somos mesmo uma republiqueta de bananas, onde o estado de direito depende do voluntarismo deste ou daquele?

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Teori era, sem dúvida, um nome adequado para a relatoria do petrolão em razão do perfil. Mostrava-se um homem desapaixonado de abstrações. Nunca se viu nele a centelha da ideologia. Ao contrário: brinquei certa feita que havia nele um quê de burocrata búlgaro. Coibiu excessos, deixou passar outros tantos, errou, acertou… Como todo mundo.

Lamento profundamente a sua morte porque, em primeiro lugar, há a dimensão humana da tragédia, que não pode ser ignorada. Mas lastimo também que se perca, vá lá, uma parcela importante de comedimento e racionalidade fria. Acho que isso sempre há de fazer falta quando estamos a falar dessa operação. Vimos nesta quinta, por exemplo, um delegado da força-tarefa a falar bobagem pelos cotovelos…

Mas é preciso que certos setores parem com essa Síndrome do Coelho do Bambi! A qualquer evento que lhes desagrada ou os assusta, lá vem a gritaria: “ A Lava Jato está em risco! A Lava Jato está em jogo!”.

Fogo, fogo na floresta!

Sergio Moro, o juiz, numa manifestação pública que é menos de apreço por Teori do que de desapreço pelo Supremo, diz que a operação não teria existido sem o ministro. Ora, tenham a santa paciência! Algumas almas sirigaitas que andam por aí aproveitam para erigir o cadáver em mártir de uma grande conspiração, embora, até anteontem, acusassem o ministro de ser o principal responsável por Lula ainda estar solto. A suposição era que ele havia manobrado para isso. Antes, ele era o conspirador. Agora que está morto, é vítima da conspiração. Que gente mixuruca! Que gente patética! Que gente sem-vergonha!

O espetáculo é grotesco. O ministro, de resto, não apanhou menos quando passou a fazer parte do julgamento do mensalão. Sim, eu também o critiquei algumas vezes — críticas que mantenho, porque diziam respeito aos votos que proferia, não à pessoa do magistrado.

É evidente que lamento profundamente a morte de Teori também em razão dos desdobramentos políticos, que já começam a mostrar a fuça…

Risco da Lava Jato? Qual risco?

Não gosto de conversa oblíqua. Nunca gostei. Vamos ser claros? Janot, Moro, o delegado Adriano Anselmo estão é ocupando posições no tabuleiro político. Para quê? Para deixar claro que é bom que o futuro relator da Lava Jato seja um fiel servidor de suas respectivas vontades. Ou eles começam a gritar: “A Lava Jato está em risco…”. E a imprensa vai fazer o de sempre: “isco, isco, isco…”.

O Coelho do Bambi é hoje a personagem mais influente do Brasil. Só que, naquele caso, o incêndio existia…

Paisagem brasileira

Catas Altas (MG)

A rota da lesma

Dizem os historiadores que por volta do ano 200 a.C. surgiu uma certa "Rota da Seda", conectando a China à Europa. Dir-se-ia tratar-se de uma mera via comercial. Nada mais falso. Naqueles distantes dias por ela sacolejavam, sobre o lombo dos camelos, muito mais que mercadorias - ia, antes e acima de tudo, o embrião do que hoje denominamos "aldeia global".

Uns bons dois mil anos se passaram - mas a visão daqueles intrépidos mercadores cruzando desertos e montanhas geladas permanece viva, inspirando um mundo cujo potencial ainda fascina a realidade.

Fiquei a pensar nisso há poucos dias, quando do lançamento de um serviço ferroviário ligando Yiwu, na China, a Londres, no Reino Unido - ao fim do cabo, a atualização de uma ideia milenar.

Economizando metade do tempo, quando comparado com o transporte marítimo, e custando a metade do preço do frete aéreo, os trens percorrem 12.000 km, atravessando sete países em 18 dias - Casaquistão, Rússia, Belarus, Polônia, Alemanha, Bélgica e França. Calculou-se que o volume de mercadorias transportados por esta rota alcance a fabulosa cifra de US$ 2,5 trilhões ao longo da próxima década.

Registre-se, ainda, que este serviço complementa dois outros, já em plena operação, que ligam a China à Alemanha e à Espanha.

Anunciou-se, paralelamente, a expansão da parte chinesa deste fabuloso sistema ferroviário. Serão US$ 503 bilhões investidos até 2020, de forma a que 80% das maiores cidades da China sejam interligadas por uns 30 mil km de ferrovias de alta velocidade.

Enquanto isso, em um vergonhoso contraste, 70% de nossas cargas são transportadas em sangrentos matadouros, digo, rodovias caríssimas, no lombo de milhares de caminhões adquiridos a peso de ouro de empresas transnacionais aqui instaladas. Dos 29.798 km de ferrovias que o Brasil tem, uns 10 mil foram construídos por Dom Pedro II. Para completar, 7 mil km de nossas ferrovias estão desativados, e uns 40% do restante em péssimo estado. Por conta de tal estado de coisas, a velocidade média dos nossos trens gira em torno de 20 km/h. Quem ganha com isso? Aliás, por qual motivo este gravíssimo problema nacional é tão pouco discutido?

Pois é. Do outro lado do mundo, uma pujante e moderna Rota da Seda. E aqui, em um país infinitamente mais rico, a humilhante "Rota da Lesma"...

Pedro Valls Feu Rosa

Abandono da escola e a imersão no crime

A educação nunca foi prioridade no Brasil. O colonizador português restringia a abertura de escolas porque considerava povo instruído um risco a seu domínio. Essa postura foi mantida, após a Independência, sem manifestações explícitas porque era importante camuflar as estratégias de preservação das formas mais iníquas de subordinação de alguns em benefício da classe dominante. Assim, desde a Constituição de 1824, prescreve-se a obrigatoriedade do ensino básico para todas as crianças, mas os investimentos estiveram sempre aquém das necessidades, e nunca há (...) um discurso consistente quanto à relevância da escolarização universal para integração plena de cada cidadão ao mundo moderno. Muitas famílias exigem que os filhos façam curso superior, mas financiam fraudes para que eles se deem bem nas avaliações, sem se preocuparem com os índices de aprendizagem, desde que a diplomação esteja garantida. Surgem, então, mensagens subliminares, depreciando a educação como caminho consistente para a qualificação profissional.

Nas classes subalternas, isso se torna mais dramático, contribuindo para a marginalização dos jovens desses segmentos, porque há mais obstáculos para frequentar a escola e eles não têm experiências compatíveis para a imersão no universo das letras, da ciência e das artes. Seu cotidiano é sempre repleto de dificuldades, que incluem trabalho desde a infância, carência material, desnutrição e deslocamento para o colégio, no campo ou na cidade grande.

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O baixo prestígio da educação tem condicionado a péssima rede de ensino, que inclui a precariedade da infraestrutura e o corpo docente desmotivado. As atividades são, então, pouco atraentes, desestimulando os pais a exigir dos filhos dedicação aos estudos, enquanto os imaturos não reconhecem a relevância da instrução para sua vida. Tudo soa como um mundo indecifrável e sem aplicabilidade em seu cotidiano miserável. Logo, as crianças perdem o interesse nas aulas em instituições públicas, interrompendo a formação que lhes garantiria a participação efetiva na sociedade urbano-industrial. Procuram, então, trabalho para ganhar seu sustento, mas encontram apenas atribuições inferiores; portanto, malremuneradas. Ficam, ao mesmo tempo, acessíveis ao recrutamento por gangues que instalaram o terror no país. Elas assumem, primeiro, funções auxiliares, mas vão, em seguida, para as mais complexas, sempre expostas à violência como agentes ou alvos.

As rebeliões nos presídios vêm escancarando a superlotação e a demanda crescente por vagas. Isso mostra que a raiz do problema é a marginalização das novas gerações porque não frequentaram a escola ou não se adaptaram às atividades e aos objetivos de qualificação profissional, que as levariam à inserção no mercado de trabalho. A irresponsabilidade dos governantes em manter uma rede escolar insuficiente, ineficiente e descomprometida com o futuro dos brasileirinhos está, portanto, escancarada. Resta saber até quando.