sexta-feira, 23 de dezembro de 2016

Como trabalhar pela igualdade

Fim de ano, sucedem-se os cálculos: quantos nasceram no mundo, quantos morreram, quantos seremos, em que espaço de tempo? E a partir daí, muitas equações. Quantos médicos? Quantas mulheres não se casarão? Quanto ganharão, comparando com os homens? Etc., etc.

O capítulo mais difícil certamente estará nas cifras nacionais, que nos falam muito de perto das desigualdades. As mulheres continuam trabalhando em média cinco horas por dia mais que os homens e ganham apenas 76% do salário médio masculino. Elas têm menos oportunidades de assumir cargos de chefia ou direção, até mesmo porque são discriminadas em razão da dupla jornada (horas no emprego e em casa), que reduz em algumas horas diárias a sua disponibilidade – sua jornada semanal de trabalho fora é inferior em cinco horas e meia à dos homens (50 horas ante 55,5). Além disso, as mulheres dedicam duas vezes mais tempo do que os homens às atividades domésticas (Instituto Humanistas Unisinos, 6/12) – eles dedicam às atividades em casa apenas dez horas por semana.

A Powerful Picture:
É um panorama que não mudou em uma década, embora 70% das mulheres estejam fora do mercado de trabalho. Mesmo que exerçam funções de chefia e direção muito semelhantes às dos homens, mulheres recebem (pelo nível de chefia, além do salário) cerca de 25% menos do que eles.

E continua a aumentar o número de mulheres que são chefes de família: elas têm essa responsabilidade em 40% das casas; homens na mesma situação são poucos, quase exceção. Mulheres que não trabalham, dos 15 aos 29 anos, são 21,1%; na mesma idade e na mesma situação, só 4,7% dos homens.

De 2005 a 2015 cresceu de 11,4% para 17,8% a proporção de negros entre os brasileiros ricos. Entre os mais abonados, oito em cada dez são brancos; entre os mais pobres, três em quatro pessoas são negras, diz o IBGE. Mais de metade da nosso população (54%) é de pretos ou pardos. A cada dez pessoas, três são mulheres negras.

Embora tenha melhorado em dez anos – de 36,9% para 26,4%, entre 2005 e 2015, na faixa etária de 15 a 17 anos –, o atraso escolar no Brasil ainda é alto, segundo a Síntese dos Indicadores Sociais do IBGE publicada no início do mês (Estado, 3/12). Entre os 20% de famílias mais pobres, o índice chega a 40,7%, “quase cinco vezes maior que o indicado nos 20% mais ricos (8,2%)”. Explicou o IBGE que “a distorção idade/série”, de acordo com a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad), “se refere à proporção de estudantes com idade pelo menos dois anos acima da esperada para a série em que estão matriculados”. A defasagem chega a 36,4% no Nordeste; é “mais dramática entre os jovens que moram em áreas rurais e também entre pretos e pardos”. Mais de um terço dos jovens acima de 15 anos já repetiu de ano mais de uma vez. “Na rede pública o atraso é 3,6 vezes maior.” Um em cada quatro jovens não estuda nem trabalha – são os chamados “nem-nem”, aos quais se referem, em tom zombeteiro, os seus contemporâneos.

A diferença entre áreas urbana e rural no País também é grande, na faixa de estudantes de 15 a 17 anos com até dois anos de atraso na escola, assim como entre estudantes pretos e pardos (31,4%), de um lado, e brancos (18,9%), do outro (em 2015). Para além da defasagem entre brancos e pretos, nas universidades públicas, em 2005, apenas 0,9% dos estudantes figuravam entre os 20% mais pobres; em 2015 já eram 8,3%.

É penoso tentar trabalhar com indicadores sociais no Brasil. Por exemplo, a questão do aborto, que ainda há poucos dias ocupou muitos espaços na comunidade, quando o Supremo Tribunal Federal decidiu não ser crime a interrupção voluntária da gravidez praticada nos três primeiros meses de gestação. Os favoráveis e os contrários serão dezenas de milhões; de ambos os lados, pessoas capazes de chegar às vias de fato em defesa de seus argumentos. Mas houve também, nos jornais, quem defendesse uma política nacional que abranja uma “cultura de cautela sexual”, uma discussão civilizada que faça avançar as práticas nessa área – e não apenas a defesa do uso regular de preservativos.

E é possível avançar. Todos os dias se ouvem debates acalorados a respeito da falta ou penúria de recursos para campanhas e ações a respeito de tudo. Por que governos e instituições não se dedicam a discussões públicas e civilizadas em que um lado possa ouvir o outro lado manifestar-se sobre o que for importante para a sociedade, do aborto à prioridade de políticas e obras governamentais?

Não se pode mais ouvir a cantilena demagógica dos julgadores indiferentes – fantasiados de sisudos defensores dos interesses coletivos, que ocupam posições importantes para a sociedade, mas fecham os olhos a problemas vitais em tantas áreas, como, por exemplo, a da defesa sanitária.

Ainda há poucos dias Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura advertiu: mais de 2 bilhões de pessoas no mundo sofrem de deficiências nutricionais e cerca de 450 milhões de crianças com menos de 5 anos de idade têm o crescimento atrofiado por dietas pobres; ao mesmo tempo, 1,9 bilhão de indivíduos estão acima do peso ideal; a alimentação inadequada custa US$ 3,5 trilhões por ano ao desenvolvimento econômico e aos investimentos em saúde dos países.

Não há tempo a perder. Os fatos no mundo das atividades econômicas desenvolvem-se no ritmo acelerado do cotidiano: quem perder tempo será ultrapassado. Então, é preciso adaptar sem perda de tempo os currículos educacionais, principalmente universitários, às necessidades da vida fora dos campus. Mas sem esquecer estas últimas – para que se tenha uma educação que possa ser mais abrangente, mais próxima da vida concreta de todos os segmentos sociais. A igualdade, aí, começa pela justiça, em todos o segmentos, da formulação de todos os currículos. Pelo ensino e pela prática da igualdade.

'O lugar mais perigoso deste planeta é um hospital'

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Uma das coisas que sabemos é que temos de mudar a forma em que distribuímos a saúde. Temos de levá-la às pessoas nas suas casas. Em suas comunidades, fora dos hospitais, em lugares especializados. E só usar o hospital como último recurso
William A. Haseltine

Brasil corre perigo

O Brasil corre riscos sérios. Estou longe, mas acompanho sempre que posso o que está acontecendo aí — e com preocupação cada vez maior. A situação mundial, marcada por aguda polarização, oferece grandes perigos para nações fragilizadas por conflitos internos. Existem certamente casos mais graves que o brasileiro, países destroçados por intervenções externas e/ou crises domésticas: Síria, Iraque, Líbia, Grécia — para citar casos mais notórios.

Não chegamos a esses extremos, mas não há como negar que o nosso país está em perigo. Dos Brics, o Brasil é no momento o mais vulnerável. E repare, leitor, que a situação da Rússia e da África do Sul é bem complicada. A China também enfrenta desafios econômicos, institucionais e políticos. A Índia acaba de lançar uma reforma monetária radical, com efeito desestabilizador. Em todos os quatro países, a corrupção é problema grave.

Mas, entre os Brics, o Brasil é “hors concours”. Não necessariamente em corrupção, mas na fragilidade do quadro econômico, social e político. As razões parecem claras. Primeiro, a intensa polarização interna. O que antes era patrimônio dos nossos vizinhos ao Sul — a incapacidade crônica dos argentinos de conciliar e chegar a entendimentos — parece ter sido importado maciçamente pelos brasileiros. A intolerância, o colapso do diálogo, a perda de legitimidade de instituições fundamentais, o enfraquecimento da democracia — tudo isso representa um imenso perigo para a nação brasileira. E mais o seguinte: o triunfo da mais profunda e radical ignorância em diversos campos da vida nacional.

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A essa degradação política e social se acrescenta uma das piores crises econômica da nossa história. Recessão forte e prolongada, desemprego crescente, redução dos salários reais — “em casa onde falta pão...” A crise econômica alimenta a crise política, e vice-versa. Nesse ambiente, os governos brasileiros perderam apoio e legitimidade, a classe política atingiu o seu nadir, a Justiça perdeu o Norte.

Criou-se, leitor, um terreno fértil para a intervenção estrangeira — e era neste ponto que queria chegar. A intervenção externa não precisa ser ostensiva — e muito menos militar. Ela toma formas mais sutis. Com o enfraquecimento dos governos e a crise econômica, fica mais fácil para investidores de outros países, não raro com apoio estratégico de seus governos, aterrissar no Brasil e comprar empresas, terras e outros ativos brasileiros sem controle ou restrições — e na bacia das almas. O Brasil está à venda, em liquidação? Quem protege os nossos interesses? Quem nos representa no plano internacional?

Leitor, não se iluda, para determinados fins estratégicos não há substituto para o Estado nacional. Os setores privados, as organizações da sociedade civil, as universidades, os intelectuais, os artistas — todos eles carregam de alguma forma, bem ou mal, o estandarte nacional, por onde quer que andem e circulem. Mas não existem instâncias supranacionais a quem um país possa confiar a defesa dos seus interesses nacionais e dos seus objetivos vitais. Ou existem? Peço ao leitor que me aponte uma, pelo menos uma.

As entidades multilaterais mais relevantes são internacionais, vale dizer são associações entre nações, entre Estados — e delas só se beneficiam aqueles países que têm um mínimo de coesão interna e um Estado razoavelmente estruturado.

O Brasil precisa encontrar um meio legítimo de superar o quadro de polarização destrutiva e frear o processo de desintegração em curso.

Paulo Nogueira Batista Jr.

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Sunset And Mist:

Falta um número

Dias atrás a Odebrecht pediu homéricas desculpas ao público por haver distribuído propinas a políticos, partidos, governos e administradores do Brasil e de mais onze países das Américas e da África. Foi preciso que esta semana o Departamento de Justiça dos Estados Unidos divulgasse o total do dinheiro podre destinado pela empreiteira a um monte de clientes nacionais e internacionais. Por enquanto, um bilhão de dólares reconhecidos.

Fica faltando o número-chave correspondente a esse que foi, segundo os americanos “o maior caso de pagamento de suborno da História”: quanto a Odebrecht lucrou com a distribuição do suborno?

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Porque nem é preciso argumentar: toda empresa que investe, em especial ilicitamente, tem um único objetivo, o lucro. Se gastou um bilhão de dólares subornando todo tipo de agentes públicos, quanto terá faturado em contrapartida? Dois bilhões? Três ou quatro?

A essa trama agora revelada por completo falta o principal: a empreiteira, e outras também envolvidas na mesma prática, lucraram horrores. Onde estão esses recursos? Não terão saído pelo ralo aberto com as investigações e delações, pelo menos na sua totalidade. Em parte estarão aplicados, depositados ou rendendo juros e sucedâneos. Enriqueceram o patrimônio de seus dirigentes e responsáveis e não se tem notícia de devoluções.

As empreiteiras valeram-se de leis, medidas provisórias e toda sorte de instrumentos votados pelos beneficiários das propinas, parlamentares e políticos. Daí a origem de seus lucros ainda não contabilizados. Portanto, falta um número na relação criminosa.

Pacote de serviços?

A Assembleia Legislativa gaúcha está votando um conjunto de vinte e tantos projetos voltados para a redução do gasto público, com ênfase à supressão de diversas atividades periféricas do Estado. Assistindo aos debates pela TV, presenciei o momento em que um parlamentar petista anunciou da tribuna que o governo Sartori, com essas providências, entraria para a história como o pior da vida administrativa do Estado. Impossível, excelência! Nem Nero, nem Calígula, se governadores do Rio Grande, conseguiriam ser mais destrutivos do que Tarso Genro. Em plena crise determinada pela infeliz conjugação de quatro sucessivos mandatos petistas no governo da União, Tarso Genro seguiu a cartilha dos piores economistas do PT e meteu o pé no acelerador da despesa. Recebeu o Estado gaúcho com as contas equilibradas e entregou um orçamento deficitário em R$ 5 bilhões. Não satisfeito, ao encerrar seu mandato em 2014, legou a seus sucessores aumentos salariais de servidores para serem cumpridos ao longo de cinco exercícios vindouros.

Vejo empresas fechando as portas, empresários vendendo bens para manter ativos os negócios, jovens abandonando os estudos, brasileiros deixando o país. Só o estatal continua como se não houvesse recessão, elevando seu peso sobre a sociedade. Se o poder público no Brasil, nas suas três esferas administrativas e nas correspondentes instituições, fosse um pacote de serviços, você o compraria, leitor? Claro que não! Esse pacote, se de consumo obrigatório e fornecido por uma única instituição, a tornaria campeã de queixas e denúncias ao Procon, por péssima qualidade e preço abusivo. Ele custa a cada "consumidor" de 30% a 50% de seus ganhos, sendo que a maior proporção corresponde às faixas de renda mais baixas.

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Pagamos tudo isso para, bem resumidamente:

• termos educação pública de péssima qualidade;
• morrermos nas filas de espera do "quase perfeito" SUS;
• vivermos numa selva urbana que está a exigir um par de anjos da guarda adicionais, preferivelmente brasileiros, treinados para os sobressaltos do cotidiano nacional;
• termos uma justiça lenta e uma execução criminal que não consegue prender e manter presa a bandidagem que infelicita nossa vida;
• sabermos que os processos referentes aos grandes corruptos da nação, mundialmente notórios ladrões do nosso dinheiro, estão sob proteção da última trincheira da impunidade - o moroso e rumoroso STF;
• dispormos de uma infraestrutura precária e deficitária em saneamento, energia e transportes.

Nas eleições municipais de outubro, a sociedade deu uma lição aos partidos de esquerda que na prática de gestão operam como usinas de desastres. Os eleitores desse último pleito derrubaram o até então todo-poderoso PT para a minguada 6ª posição entre os partidos nacionais. E esse resultado expressa, essencialmente, rejeição ao estatismo, ao aparelhamento partidário do Estado e à irresponsabilidade fiscal que o PT transformou em grife.

Pois mesmo assim, a Assembleia gaúcha vem presenciando, nestes dias, um verdadeiro carrilhão, com os deputados oposicionistas, em rodízio, reproduzindo da tribuna um discurso segundo o qual só sairemos da atual crise deixando tudo como está. No entanto, nenhuma organização que busque a própria sustentabilidade pode dar-se ao luxo, por exemplo, de manter toda uma rede de centros de custo periféricos dela dependente, na ausência dos quais a vida segue exatamente tal e qual.

Após tantos anos assistindo nada ser feito em razão de que "só isso não resolve", finalmente estão sendo tomadas providências para, no tempo, em somatório de sacrifícios, com vistas ao bem comum, transformar o pacote de serviços em mercadoria comprável, por preço compatível.

Percival Puggina

Entre bilionários

O jornal para o qual escrevo sobre o Brasil publica de vez em quando um especial sobre golfe. Para eles, não importa se você é especializado em jornalismo político, econômico ou social: de tempos em tempos, é obrigado a escrever sobre gramados, bolas e tacos. Assim fui parar nos clubes de golfe do Rio de Janeiro e tenho que admitir: que mundo interessante! Cheguei a me oferecer como voluntário, e hoje sou o autor de três artigos sobre golfe.

Na Europa e nos EUA, o golfe é um esporte popular, apesar de monótono. Mas, no Rio, é um evento exclusivo para o 1% mais rico de seus habitantes. Só há dois clubes que podem ser levados a sério – Gávea e Itanhangá – e cada um deles tem menos de 500 sócios. "Aqui na sede do clube se encontram as pessoas responsáveis por um terço do PIB brasileiro", sussurraram em meu ouvido na primeira visita à Gávea, meio que me incentivando a virar sócio.

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Fui apresentado a uma princesa, usando uma camisa pólo na cor rosa-princesa. Era uma descendente de longe do imperador Dom Pedro. Apostamos corrida com nossos carrinhos de golfe pelas colinas pitorescas e, depois, nos desculpamos diante dos demais sócios, incomodados pelo barulho. Recebi ofertas de vinhos tintos selecionados e a "sobremesa para desportistas" à la Itanhangá: crepe com Nutella.

Em seguida, uma viúva próspera me convidou para um expresso forte. Explicou quem realmente faz parte do círculo social dos clubes e quem não faz. "Recomendações da sociedade, um comportamento impecável e altos padrões morais em questões financeiras" seriam os critérios. Quis saber por que, então, tantos industriais e executivos são sócios. Não estão todos envolvidos em escândalos de corrupção? "Haha, não diria que você não tem razão", respondeu a velha dama, e riu com malícia.

Algumas das mil pessoas mais ricas do Rio fazem parte de uma espécie de grupo de trabalho social com carrinho e taco. Elas distribuem nas escolas equipamentos para iniciantes: kits de plástico, que não fazem muito sentido, já que a maioria das crianças nunca vai ter acesso aos campos de golfe. Em um município da periferia do Rio, Japeri, mecenas do golfe instalaram um percurso para crianças de origem muito pobre. Nele, futuros jogadores de golfe jogam entre si. "Golfe como meio de integração social", diz uma placa na sede do clube. Sinceramente, posso imaginar programas sociais melhores.

Mas eu não estava com a menor vontade de escrever um artigo sobre a luta de classes para a revista ZEIT Golf. Para mim, esse só se tornou um tema relevante mais tarde, à noite, quando observava o "pós-golfe". Saí com uma herdeira rica – designer de moda, socialite, modelo ocasional e celebridade de TV. Sentados diante de muitos cocktails premiados em um bar de Ipanema, pedimos carambola com vodca e gengibre, chili, tamarindo, tequila e pimenta e muito mais. Sob a mesa, eu mandava mensagens de texto para o meu editor dizendo que a conta do bar iria ultrapassar o orçamento do mês. Golfe? Minha entrevistada não achava a menor graça. Simplesmente "faz parte" ser sócio de um clube de golfe. "Gosto da piscina", disse, "e gosto do restaurante. Para mim, a Gávea é o melhor country-club da cidade".

Assim não conversamos nada sobre golfe, mas sobre a vida. Falamos de restaurantes caros, balneários idílicos, helicópteros, vilas, trips por cidades de todo o mundo. Só no final me atrevi a perguntar qual era a opinião da herdeira sobre o recém inaugurado campo de golfe olímpico, que fica entre o Recreio e a Barra da Tijuca. Mas talvez tenha sido uma pergunta estúpida.

"A Barra é uma outra cidade", recebi como resposta. Há uma "distância cultural". Entendi. Barra e Recreio são o Eldorado da classe média emergente, ou seja, não é para os ricos dos clubes de golfe. "Gosto de poder alcançar todos os lugares de bicicleta", esclareceu minha entrevistada. Ela vivia, como os de seu meio, nos bairros nobres da zona sul, em Ipanema e no Leblon. Lá se está sempre perto da praia, dá para correr e jogar vôlei. Uma vida próxima da natureza, conforme o seu ideal. E aí a herdeira levantou-se e se foi: tinha um outro compromisso, uma festa nas redondezas esperava por ela.

Thomas Fischermann

quinta-feira, 22 de dezembro de 2016

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Desse jeito acaba em sangue

Os acontecimentos de terça-feira na Câmara dos Deputados e a cobertura que lhes deu a imprensa são a ilustração exata do esquema denunciado no último artigo.

O PT, cujos filiados e militantes são essencialmente os funcionários públicos de quem o partido morde 30% do salário, liderou a “rebelião” à qual se deixaram docemente constranger aquelas figuras gordas e luzidias metidas nos seus ternos e gravatas italianos de dentro e de fora da chamada “base aliada”, contra a proibição de reajustes para servidores, a criação de novos cargos, a realização de concursos públicos, a criação de despesa obrigatória de caráter continuado e o gasto com publicidade oficial em troca do refinanciamento das dividas estaduais pela União.


Isso significa autorizar a transferência do rombo dos estados para a União, o ente de governo com poder de emitir moeda, o que equivale a decretar que, por cima da carga esmagadora de impostos que já nos remeteu a estas profundezas em que estamos, a conta será paga com inflação, a pá de cal sobre os miseráveis do Brasil, sem que os fabricantes dessa miséria fiquem sequer sugestionados a deter qualquer dos expedientes que usam para fabricá-la, muito ao contrário.

E a imprensa em peso, onde todo mundo é pai, filho, irmão ou cônjuge de alguém que é funcionário público, trata isso não como uma derrota do povo brasileiro mas sim como “uma derrota do governo” que todos têm trabalhado furiosamente para solapar por “desonestidade” e “conluio com a corrupção”.

Não tem jeito mesmo. Essa putaria vai acabar em sangue…

O Brasil está precisando de bombeiros, não de incendiários

Quando escrevo meus artigos, torço bastante para que (eu) seja entendido pelo leitor. Quando os envio ao jornal, nem sempre seguro do que escrevi, falo para mim mesmo: “Por que tanto sofrimento? O leitor saberá, com certeza, destrinchar o que escrevi nas entrelinhas”.

Infelizmente, porém, nem sempre acontece assim. Há leitores que me cobram mais clareza. Ou, com energia, um mínimo de coerência. Nunca tenho o que reclamar deles. Sinceramente. A culpa é somente minha. Fui eu quem não soube transmitir, corretamente, o que desejava. Afinal, ninguém me obrigou a tornar público o que penso sobre a política do meu país em tempos bicudos. Sou o único culpado daquilo que me incomoda mais do que ao verdadeiro destinatário destas linhas.

Quando afirmei, por exemplo, que o mais importante para nossa incipiente democracia é que os Poderes Executivo, Legislativo e Judiciário vivam em paz, quis dizer que é desejável que sejam harmônicos e independentes, além de obedientes a nossa Constituição Federal. Isso não significa que ela não possa jamais ser emendada. Pode, sim, mas pelo Poder que a promulgou. É essencial que a Constituição seja o nosso norte. Como afirmei e aqui novamente reitero, ela dará conta do recado.

É verdade que o país nunca passou, simultaneamente, por inúmeras crises graves e profundas. O momento, todavia, requer bombeiros, e não incendiários. Não foi a operação Lava Jato que tornou público esse quadro cruel. Amedrontador. O ambiente político já vinha se deteriorando desde o mensalão, no governo do ex-presidente Lula. E a ex-presidente Dilma Rousseff conseguiu piorar a política e a economia. O presidente Temer poderia tê-lo administrado se outros fossem os atores políticos de seu governo. Nomeou equipe econômica competente na certeza de que, com ela, resolveria todos os problemas. Esqueceu-se de que não se governa mantendo ao lado apenas amigos e correligionários.

O Ministério Público acha que só ele será capaz de salvar o país da corrupção. Um enorme equívoco. Ministros do Supremo Tribunal Federal botam lenha na fogueira e se desentendem entre eles. Esquecem-se de que têm missão política e, por isso, devem funcionar, em certas circunstâncias, como Poder moderador. Como já aconteceu.

Equivocadas foram, leitor, tanto a decisão monocrática do ministro Marco Aurélio Mello – que quis afastar o senador Renan Calheiros (atenção: o que está em jogo é a instituição, não o senador; este está com os dias contados…) não só da linha de substituição do presidente da República, mas, igualmente, da presidência do Senado – quanto a monocrática decisão do ministro Luiz Fux – que considera que “cumpriu seu dever de ofício” ao mandar anular a tramitação do projeto das dez medidas contra a corrupção, que nem sequer se tornara lei. Projeto, aliás, diga-se de passagem, que continha desvairados absurdos!

Penso que pior do que o fato tem sido sua versão. Um cidadão informado sabe que, neste cipoal de investigações, acusações, colaborações e condenações, há distinções que precisam ser feitas. Está certo o jornalista Ricardo Noblat: “Caixa 2 é crime ou infração eleitoral. Uma coisa ou outra merece ser castigada. Mas não é justo que se puna quem se valeu de caixa 2 só para se eleger como se punirá quem se enriqueceu à custa dele, ou quem retribuiu o caixa 2 com contratos públicos superfaturados ou não, ou quem recebeu propina”.

Só isso já daria conta de baixar a bola de muita gente.

Feliz Natal, leitor!

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Anton Pieck:
Anton Pieck (1895-1987) 

2017 será diferente, mas 2018?



Talvez o ano não termine antes do vazamento de mais algumas trapalhadas, com a indicação de seus autores, pinçados das delações premiadas de 77 diretores e ex-diretores da Odebrecht. Não há sala blindada e trancada no Supremo Tribunal Federal que consiga guardar todos os segredos das acusações.

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Conhecidos agora ou em janeiro mais alguns personagens da roubalheira, a conclusão é de que perto de 200 parlamentares andam sem dormir ou dormindo mal, neste fim de ano. Nem todos que são objeto das delações premiadas perderão o pescoço, mas o percentual incomoda. O dinheiro podre da empreiteira movimentou o bolso de muita gente e a menos contundente das punições será devolver o dinheiro roubado. Pior acontecerá com os que tiverem seu futuro interrompido, proibidos de candidatar-se em 2018. Uns que pretendiam subir de patamar, candidatando-se a governador e até a presidente da República, outros à reeleição.

De um total de 513 deputados e 81 senadores, quantos serão processados e perderão seus direitos políticos? Mais importante, quantos serão rejeitados pelo eleitorado, mesmo conseguindo escapar da guilhotina?

Prenuncia-se uma renovação forçada de parte do atual Congresso, sem a garantia de que os eleitos cederão à tentação de enveredar pelo mesmo caminho do atingidos. A ninguém será dado concluir que o país vai mudar completamente, que a longa temporada de corrupção estará encerrada. O ano em vias de começar não se livrará de malfeitos peculiares ao tempo que passou. Mesmo assim, passos fundamentais terão sido dados, em matéria de mudanças. 2017 será diferente de 2016. Mas 2018?

Um clássico natalino

Cartãozinho de Natal

Até que eu não sou de reclamar, puxa! Taí, se há alguém que não é de reclamar, sou eu. Pago sempre e não bufo. Claro que procuro me defender da melhor maneira possível, isto é, chateando o patrão, cobrando cada vez mais, buscando o impossível — como diz Tia Zulmira —, ou seja, equilíbrio orçamentário. Se o Banco do Brasil não tem equilíbrio orçamentário, eu é que vou ter, é ou não é?

Mas a gente luta. Eu ganho cada vez mais e nem por isso deixo de terminar sempre o mês que nem time de Zezé Moreira: 0 x 0. Segundo cálculos da tia acima citada, que é bárbara para assuntos econômicos, eu sou um dos homens mais ricos do Brasil, pois consigo chegar ao fim do mês sem dever. Esta afirmativa não me agrada nada, mas dá uma pequena amostra de como vai mal a organização administrativa do nosso querido Brasil.

Aliás, minto…o cronista pede desculpas, mas estava mentindo. Eu vou no empate até dezembro, porque, quando chega o Natal, é fogo. Aí embaralha tudo. Não há tatu que resista aos compromissos natalinos. São as Festas — dizem.
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O presente das crianças, a ganância do comerciante, as gentilezas obrigatórias, os orçamentos inglórios, a luta do consumidor, a malandragem do fornecedor e olhe nós todos envolvidos nesse bumba-meu-boi dos presentinhos.

E que fossem só os presentinhos. A gente selecionava, largava uma lembrancinha nas mãos dos amigos com o clássico letreiro: “Você não repare, que é presente de pobre” e ia maneirando. Mas tem as listas, tem os cartõezinhos.

O que me chateia são as listas e os cartõezinhos. A gente passa o mês todo comprando coisas pros outros sem a menor esperança de que os outros estejam comprando coisas pra gente. De repente, quando o retrato do falecido Almirante Pedro Álvares Cabral, que, no caminho para as Índias, ao evitar as calmarias, etc., etc. já é um raro no bolso dos coitados do que deputado em Brasília, vem um de lista.

O de lista é sempre meio encabulado. Empurra a lista assim na nossa frente e diz: — O pessoal todo assinou. Fica chato se você não assinar. Então a gente dá uma olhada. A lista abre com uma quantia polpuda — quase sempre fictícia — que é pra animar o sangrado. E tem a lista dos contínuos, tem a lista dos porteiros, tem a lista dos faxineiros, tem a lista das telefonistas, tem a lista do raio que te parta.

A gente assina a lista meio humilhado, porque, no máximo, pode contribuir com duzentas pratas, onde está estampada a figura de Pedro I, que às margens do Ipiranga, desembainhando a espada, etc., etc. e pensa que está livre, embora outras listas estejam de tocaia, esperando a gente.
Stanislaw Ponte Preta

A propinocracia tem muitos reis


Hoje, os brasileiros estão atônitos, foram pegos de calça curta neste final de ano com um terremoto maior do que se esperava. Mas é a mesma população que já se mostrou incansável para reclamar nas ruas quando a ficha cai.  
 
Neste momento, a sociedade está dividida e nocauteada. Mas basta apenas uma fagulha para brigar de novo. Pode demorar meses para reagir, mas reage. Do jeito que está, decididamente, não pode ficar
Carla Jiménez

Perdidos no tempo

O tempo não é uma afecção das coisas, mas apenas um modo de pensar 
Baruch Espinoza

Ao final de 2016, é hora de separar os mortos dos sobreviventes (que parecem mais mortos ainda). Foi-se embora uma presidente da República, que expirou antes que lhe expirasse o mandato. Do outro lado da praça, um presidente da Câmara dos Deputados, de olhar muito vivo, teve de trocar sua cadeira por uma cela de cadeia, assim como um ex-governador do Estado do Rio de Janeiro, vivíssimo, que fixou residência atrás das grades. Os três estão politicamente mortos, embora seus substitutos zumbis não estejam propriamente vivos.

Não que a Justiça tenha sido feita, não nos precipitemos. A harmonia entre os poderes deu um “até logo” abrupto, deixando em seu lugar um pêndulo que balança discórdia malcriada ao conchavo surdo. Quanto ao emprego dos brasileiros, foi comprar cigarro na esquina e não voltou mais. A saúde pública, que sempre foi meio delinquente, vira de uma vez por todas um insolúvel caso de polícia. O Natal vai ter um gosto de chão derretendo sob os pés de multidões desorientadas, que se sabem perdidas – e nisso, somente nisso, têm toda a razão.

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Mesmo assim, há cânticos de otimismo no ar. Eis que, dos auto-falantes e das telas eletrônicas, brotam campanhas publicitárias que prometem reconciliar o povo com sua história descarrilada. É algo espantoso. As tais festas natalinas, que se intercalam como tréguas os padecimentos cíclicos daqueles que guerreiam em tempos de paz, agora chegam embaladas por mensagens que vêm devolver nada menos que o tempo para os que sentem a vida ir embora sem deixar o endereço. O mais espantoso ainda é que quem manda essas mensagens não é outro que não o dinheiro, ou o Papai Noel do dinheiro. Os bancos, ninguém menos que os bancos, são os anjos que anunciam a felicidade.

Ligue a TV e ouça: “O que faz um ano inesquecível são aqueles segundos que se tornam eternos dentro da gente”. No comercial, um pai passeia com a filha, ao som de uma canção conhecida (“isso me acalma, me acolhe a alma...”). Tudo está bem, tudo está certo, tudo nos conformes. “Feliz 2017. E conte com o Banco do Brasil em cada segundo.”

Um concorrente privado do Banco do Brasil concorda. Também para o Itaú o tempo que conta, que tilinta, é aquele que, digamos, “se torna eterno dentro da gente”. Mas o Itaú deu um jeito de dizer isso com palavras menos modestas.

“Eu sou o tempo”, diz a voz atemporal. “Eu gostaria de te dar um conselho. Pense menos em mim, e mais em você. É perdendo tempo que se ganha a vida. O segredo do tempo não está nas horas que passam, está nos momentos que ficam. Porque são eles que vão contar a sua história. Eu sei disso. Eu sou o tempo.” Ao fim da mensagem, lá está a assinatura do anunciante: “Itaú. Digital, para você ter mais tempo para ser pessoal”.

Sejamos, pois, pessoais, bem pessoais, mesmo sem tomar a coisa no plano “pessoal”. O capital só se acumula quando ganha sua corrida contra o relógio. Mesmo que diga para você relaxar e “perder tempo para ganhar a vida”, o dinheiro não cochila por um segundo sequer. Aliás, foi uma campanha do Citibank, há poucos anos, que cuidou de nos lembrar disso: “The Citi never sleeps”. Bem antes, em 1987, num filme americano chamado Wall Street (dirigido por Oliver Stone), o especulador Gordon Gekko (Michael Douglas) – que termina na cadeia, ele também – alertava o seu aprendiz Bud Fox (Charlie Sheen): “Money never sleeps, pal”.

O dinheiro não dorme, o dinheiro não perde tempo e, principalmente, o dinheiro não perde do tempo. Se ele pede a você que perca tempo para ganhar a vida, existe aí uma conta que não fecha: ou o dinheiro mente sobre si mesmo, ou mente sobre você, porque, numa engrenagem de acumulação que só se faz possível pelo incremento da velocidade (e, na era digital, o dinheiro viaja na velocidade da luz), ou o seu ócio é financiado pelo cochilo dos outros, ou quem cochila é você. Tente se localizar nessa equação e você entenderá um pouco, bem pouco, do discurso que promete reconciliar sujeitos perdidos no tempo com uma história perdida no ano “inesquecível” que, esperemos, vai se encerrar.

Além do que, o tempo não é bem isso que os bancos anunciam. O tempo, lamento dizer, não é um dado da natureza, uma “afecção das coisas”, por mais que seja o tecido de que somos feitos, tecido do qual vivemos e morremos. O tempo é um “ente da Razão” (Espinoza), ou uma construção da cultura – da cultura publicitária, inclusive. É bem verdade que Newton acreditava que o tempo fluía “uniformemente sem relação com nada que lhe seja externo” e, com base nisso, construiu uma Física que deu conta de mandar o homem à Lua. Desde Newton, porém, ficou mais perceptível que “o tempo, tal como o concebemos, é uma consequência da história” (Gerald James Whitrow). Segundo os nossos sentidos, a gente ocupa um lugar no espaço e percorre um segmento minúsculo na extensa e imutável linha do tempo, mas o tempo, “tal como o concebemos”, nós é que o construímos, com os nossos tempos verbais e os sistemas tecnológicos que medem os intervalos entre um evento e outro.

Dizem que feliz é aquele que tem tempo. Menos enganoso seria dizer que feliz é aquele cujos dias de vida não foram roubados por outro – ou pelo dinheiro.

Não obstante, vai chegando o Natal. Parece que, como tem sido desde a travessia do Mar Vermelho, Roberto Carlos vai ter um programa especial só para ele na televisão. Não há marcador de tempo como Roberto Carlos. Talvez ele cante aquela “o importante é que emoções eu vivi”, ressoando a receita de felicidade que o dinheiro, vivíssimo, o dinheiro que não dorme nunca, prescreve para os seres humanos. Embalado nas canções de Roberto, quem é vivo tenta desaparecer (e não consegue), enquanto a penitenciária espreita o réveillon dos que até mandaram, mas não podem dizer que são o tempo.

Paisagem brasileira

AAF de Artes, de Arquitetura, de Fotografia. E mais ideias...: OS SABORES E AS…:
Paraty (RJ)

Odebrecht devolve menos do que desviou comprando MPs no Congresso

O acordo firmado pela Odebrecht e pela Brasken, braço petroquímico da construtora, para devolver o equivalente a R$ 6,9 bilhões aos governos dos Estados Unidos, da Suíça e do Brasil foi comemorado pelos procuradores da Lava Jato como um feito histórico —o maior acordo do gênero já celebrado no mundo.

O fato realmente merece celebração. Sobretudo porque o Brasil vai ficar com a maior parte da grana: R$ 5,3 bilhões. Mas é preciso levar em conta o seguinte: a corrupção rendeu à construtora muito mais do que isso. A Folha noticiou dias atrás que apenas com duas medidas provisórias que um de seus ex-diretores confessou ter comprado no Congresso o grupo Odebrecht obteve benefícios de R$ 8,4 bilhões entre 2006 e 2015.


De todo modo não se deve diminuir a importância do que está acontecendo. Uma empresa corrupta devolvendo dinheiro roubado no Brasil é sempre motivo de festa. Mesmo que esse dinheiro vá retornar em suaves prestações. Pelo acordo, a Odebrecht resssarcirá o erário em 23 anos.

A verba assaltada retornará aos pouquinhos, ao longo de mais de duas décadas. Mas a Odebrecht passa a usufruir imediatamente do direito de voltar a firmar contratos com o Estado. O que é motivo de festa também para a empresa. Na prática, esse tipo de acordo funciona como um negócio convencional. Quando as duas partes concordam cada uma acha que levou vantagem sobre a outra.

O custo do improviso

Quanto mais bem planejada é uma obra, mais barata ela fica, mais rapidamente é executada e melhor a sua qualidade. Esta máxima serve tanto para a reforma de uma cozinha como para a construção de uma ponte ou usina hidrelétrica. No caso das obras públicas, porém, o planejamento adequado não é apenas uma prática salutar: deve ser uma obrigação dos governos com a sociedade.

Boa parte dos problemas e desperdícios ocorridos nas grandes obras de infraestrutura realizadas no país resulta de licitações feitas com base em projetos incompletos — de forma intencional ou não. Isso porque, quanto menos detalhado é o planejamento, maior o espaço para erros, improvisos e para a ingerência de interesses não necessariamente alinhados com os da sociedade.

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A exigência de projetos completos, portanto, deveria ser um dos pilares da nova Lei Geral de Licitações, que está sendo discutida pelo Congresso e irá substituir a 8.666/1993, em vigor. Dessa forma, tornaria os erros do passado mais raros e as brechas, menores. Mas é exatamente o oposto que ocorre neste momento.

O Senado acaba de aprovar em segunda discussão um texto substitutivo ao PLS 559/2013, que incorpora a “contratação integrada” na legislação licitatória do país. Isso significa que obras públicas poderão ser licitadas com base apenas em anteprojetos. O texto prevê essa possibilidade para as obras com valor acima de R$ 20 milhões, o que transforma as atuais brechas em verdadeiros rombos nas futuras licitações feitas no país. Seria um enorme retrocesso.

A crítica não se baseia apenas na teoria, mas nos efeitos práticos nefastos deste tipo de flexibilização, que já foram comprovados com o uso do Regime Diferenciado de Contratação/Contratação Integrada nas obras do chamado legado da Copa, das Olimpíadas, da área de transporte, entre outros. Não por acaso, diversas entidades têm se posicionado contrárias à “contratação integrada”, como, por exemplo, o Conselho de Arquitetura e Urbanismo do Brasil (CAU-BR), o Instituto de Arquitetos do Brasil (IAB) e o Sinaenco (Sindicato da Arquitetura e Engenharia Consultiva).

Em vez de dar um passo atrás, é preciso que a legislação avance, e garanta maior controle e transparência. Que as licitações sejam feitas exclusivamente com projeto completo, contratado de preferência por concurso público. Pois esse é um elemento fundamental para garantir mais segurança e qualidade da obra e a confiança no planejamento dos custos e prazos.

Aprovado no Senado, o projeto de lei agora segue para a Câmara, onde já funciona desde o primeiro semestre de 2015 uma comissão especial para discutir o tema. Neste momento, portanto, é preciso que não só os arquitetos e urbanistas brasileiros tomem parte no debate. Mas toda a sociedade. Afinal, esse é um tema crucial para a ética da gestão pública e a qualidade de vida de toda a população brasileira.

Jerônimo de Moraes

Exemplos d'além-mar

Há 70 anos, seis séculos depois das grandes navegações, surgiu o LNEC- Laboratório Nacional de Engenharia Civil de Lisboa, que vem participando ativamente dos programas de melhoria da infraestrutura em Portugal (barragens, hidráulica fluvial e marítima e grandes estruturas, entre outras), da realização de inúmeros estudos e pareceres para cerca de 50 países, como o estudo do alargamento da praia de Copacabana e do Aterro do Flamengo, da construção de inúmeras barragens de grande porte, e ainda da análise dos efeitos dos sismos em muitas localidades.

Portugal vem dando um grande exemplo de como uma pequena nação pode contribuir para os avanços da tecnologia e de sua aplicação.

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Escola de Sagres
No renascimento, Portugal utilizou as inovações desenvolvidas para, por exemplo, viabilizar as expedições dos descobrimentos. As mais conhecidas dessas inovações lusitanas são o astrolábio, a balestilha e a caravela, todos indispensáveis na empreitada de atravessar os oceanos, na busca do caminho para as Índias, ou na tentativa de expansão do império Português.

A balestilha é um instrumento mede a posição dos navios em relação às estrelas.

A caravela, a mais importante das inovações dos portugueses, era uma embarcação ágil e que, pelo seu peso, permitia, em situação adversa, ser movida a remos. Tinha 25 metros de comprimento e velas triangulares, que possibilitavam navegar em ziguezague contra o vento. Esta propriedade foi determinante para o sucesso dos portugueses.

Outra brilhante ideia foi o nó, medida de velocidade, calculada por meio de um cabo com nós espaçados de 14,40 m. Cada nó lançado corresponde a 1851,66 m/h.

Tudo isso foi acompanhado por estudos e pela disseminação da cultura náutica, por meio da Escola de Sagres, e que na verdade, traduzia mais uma corrente de pensamento do que uma instalação física.

O LNEC, fundado por Manuel Rocha, ícone da engenharia no século XX, vem buscando soluções inovadoras para os inúmeros desafios que enfrenta. Ele é um instituto de pesquisas, também voltado para a transferência de tecnologias. Sua participação foi determinante para a utilização de computadores em engenharia civil e para o avanço da Mecânica das Rochas, e ultrapassou largamente as fronteiras de Portugal, alcançando, pelo trabalho de seus pesquisadores, projeção internacional.

No plano das relações com o Brasil, além da duplicação das praias já mencionadas, o Laboratório realizou inúmeros estudos de observação de estruturas, ensaios em modelos reduzidos de barragens, e liderou a realização das Jornadas Luso-Brasileiras de Engenharia Civil, abrindo as portas para a geração de uma cultura de produção científica, notadamente na área de engenharia civil.

Além disso, formou centenas de jovens engenheiros, que lá estiveram para realizar um estágio de tirocínio, uma tese de especialista ou de investigador.

Aliás, este é um modelo interessante, pois o Laboratório oferece graus equivalentes ao de doutor, permitindo que engenheiros de todas as áreas se engajem no processo de desenvolvimento de inovações.

Um dos obstáculos ao nosso desenvolvimento científico e tecnológico reside na incapacidade de assegurar financiamentos contínuos e em montante suficiente para a sustentabilidade dos projetos de pesquisa.

Na era dos descobrimentos, a Escola de Sagres decorreu da vontade política do Infante D. Henrique, traduzida pelo expressivo quantitativo de renomados estudiosos de outros países, e pelo apoio material às expedições. O mesmo ocorreu com o LNEC que, ao longo dos anos, constituiu-se numa prioridade para o governo português.

No Brasil,a adequada articulação universidade-empresa poderá ampliar a capacidade de formação de mestres e doutores, promovendo a elaboração de dissertações e teses capazes de contribuir para o incremento da competitividade da indústria. Embora a FINEP já tenha caminhado nessa direção, há ainda um longo percurso a cumprir.

Apesar da crise, é mandatório garantir ciência, tecnologia e inovação como prioridades para o desenvolvimento.

quarta-feira, 21 de dezembro de 2016


Sobre presentes e relógios

É tranquilo falar de regalos e relógios. Relógio, diria um economista, tem propósitos práticos: serve para marcar o tempo. Já os presentes são instrumentos de afeto e gratidão.

Encerramos a questão?

Dificilmente...

Se “tempo é dinheiro”, há momentos em que relógios são evitados. Oscilamos entre situações controladas pelo tempo e situações nas quais o tempo é controlado. Nas festas os relógios devem ser esquecidos.

O altruísmo — essa marca que desmonta o egoísmo individualista — confunde os fins e os meios. Ele faz o todo ficar mais importante que a parte e revela relatividade do tempo. Uma hora com a amada passa em segundos, e trinta segundos sentado num fogareiro dura uma eternidade! Há tempos sem preço, e tempos que rendem juros e multas.

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Há também ocasiões em que presentes são dados sem simpatia. Chefes de Estado trocam presentes protocolares, namorados trocam flores, chefetes de gangues políticas dão, recebem e retribuem joias, relógios, quadros e festins. Tal como os velhos Potlacht das tribos do noroeste americano, as expedições Kula dos melanésios, e o nosso carnaval, os fins não estão em relação e ultrapassam os meios.

Em 1925, um fundador da moderna antropologia, Marcel Mauss, meditou sobre esse assuntos no seu crucial “Ensaio sobre a dádiva”. O presente, o dom, o regalo, a lembrança, o agrado, ele diz, seriam elementos constitutivos da vida coletiva. Tal como a linguagem que se faz trocando palavras, não há vida social sem trocas. Para Mauss, a troca pressupõe três momentos: dar, receber e reciprocar — ou seja — dar de volta. Todos esses movimentos são obrigatórios e formam uma vasta rede que nos acompanha do nascimento até a morte.

É uma ofensa tanto não aceitar quanto dar em demasia. E — como sabem os santos, os deuses e os caudilhos — é uma safadeza não devolver aos doadores as suas dádivas.
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Não é justamente essa ausência de reciprocidade que estamos testemunhando nessa nossa vergonhosa vidinha pública?

Não estamos todos ultrajados por termos dado tanto e recebido tão pouco em troca? Receber irresponsabilidade pelo nosso trabalho não seria uma ofensa que vai além das leis? Não é uma abominação descobrir que nossos impostos foram embolsado e repassados como doações ou presentes não para nós, o povo, mas para uma súcia da empresários?

A perversão da ética do dar-receber-e-retribuir faz deste cronista não apenas mais um idiota enganado mas o torna, acima de tudo, um cidadão acabrunhado de viver numa sociedade cuja elite tem como objetivo assassinar o cerne da sociabilidade humana. Esse princípio primordial de justiça que em todo lugar exige dos poderosos e dos ricos um mínimo de reciprocidade para com os doadores.

Impostos e votos são presentes.

A crise que vivemos não é um simples fato político, é um execrável incesto. Equivale a lograr a inocência de uma criança. É tão imoral como roubar as esmolas de um cego.
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Antes de Karl Polanyi, Mauss vislumbrou o desafio que uma ética individualista iria erigir às instituições que estudou — trocas institucionalizadas (como as do nosso Natal) e encorpadas em valores que existiam nas chamadas “sociedades primitivas”, mas cujos ecos permanecem em instituições como o juro, a caução, confiança, a previdência social e o cuidado pelo coletivo.

A ausência de reciprocidade leva a desequilíbrios e a uma impensável ameaça: a do esgotamento do planeta pelo seu uso como uma entidade sem alma. Mauss assevera: “A liberalidade é obrigatória, porque Nêmeses (deusa da equidade) vinga os pobres e os deuses pelo excesso de felicidade e riqueza de alguns homens que devem desfazer-se delas: é a velha moral da dádiva transformada em princípio de justiça; e os deuses e os espíritos consentem que as porções que lhes dão e que são destruídas em sacrifícios inúteis sirvam aos pobres e às crianças”.
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E o relógio?

Eis o que ouvi:

Um xamã da tribo dos Other Brecht, conhecidos encenadores de histórias do povo ao contrário, presenteou um Chefe-cantador com um relógio de luxo. Envergonhado, ele jamais usou a joia. Pelas leis das trocas, porém, ele não poderia devolvê-la ou revelar o motivo da doação. O regalo foi escondido até ser descoberto pela bruxaria do clã Republicano. Foi quando ele percebeu que os presentes têm um espírito que liga doadores e recebedores. Seu caro relógio-regalo denunciou-o. Afinal, todo presente excessivo vira veneno.

Roberto DaMatta

O golpe nos feios, sujos e malvados

Tento voltar a ser um cronista do amor lírico e louco, mas sempre vem uma notícia ruim e me faz seguir no relato da poeira das ruas, por supuesto. É preciso falar dos feios, sujos e malvados que morrem de morte morrida muito antes de qualquer previdência pública ou privada, muito antes da média das estatísticas, antes dos cálculos dos burocratas, no país onde os meninos cortam cana-de-açúcar antes dos dez e os adultos morrem de morte matada na véspera dos trinta.

Você ai, amigo, não se faça de frio ou desentendido, sem esse papo de reforma sem mexer com os podres de rico, assim é fácil, assim vira manchete limpinha, assim não mexe com os banqueiros, muito menos com os barões da velha casa-grande, assim os comentaristas dos telejornais aplaudem, que lindos infográficos!, vamos cortar na carne, no osso, passa a motosserra, você aí, compadre, cai na metáfora do âncora bonitinho – uma família não pode gastar mais do que arrecada –, só que não sabe que essa economia nada familiar é apenas para pagar juros de uma dívida pública que não tem nada a ver com a sua vida, o seu sal, o seu açúcar, morô?

É o jogo das ilusões, também já caí muito, se liga.


Rasgue esse carnê da dívida eterna, se revolte, vamos à rua contra esses pestes, tente entender melhor o noticiário que é a favor dos ricos e de quem faz dinheiro à sua custa, juro, juros, não importa a cor do partido, o que você tem a ver com quem sempre viveu da sua audiência e agora tenta apenas dividir contigo a velha culpa? Se ligue, cuidado com o truque, quanto mais carece de comentarista mais ilusionismo, mude de canal, please, melhor conversar na esquina.

Não estou aqui de passagem, estou desde 1962, por que tentam aplicar o varejismo do golpe, um dentro do outro, mesmo sabendo que nossas fatigadas retinas estão cansadas de golpismos?

Ah, tá, porque a agenda econômica bate com a superstição neoliberal da hora, que bonito! Aí vem o milagre. A mesma crença unânime da mídia brasileira convencional de que bastaria o vice-traíra assumir no lugar da Dilma para tudo ficar cor-de-rosa. Isso foi vendido página a página, coluna a quinta-coluna. Assim se construí, conta a conta do rosário golpista, o que vivemos agora.

Sim, as instituições estão funcionando, me diz aqui o Ubu-Rei, perdão, o supermacho Alfred Jarry, o filósofo da patafísica, a ciência das soluções imaginárias e das leis que regulam as exceções. Lindo.

Óbvio que mesmo a lógica patafísica é infinitamente mais razoável do que o pensamento da legião que caiu no conto do patinho amarelo da Fiesp do sr. Skaf, pego de calça curta na delação da Odebrecht. Propina braba além do caixa 2. Senhor de escravos modernos da Paulista é isso aí, que beleza, isso dá capoeira na senzala. Bonito.

Não, não vamos rir agora, nem por último, nem por escárnio de saber que hoje só vale a obsessão Lula qual a bíblica cabeça de São João Batista.

Ah, jamais vale a lógica (patafísica?) de saber que o Brasil dos corruptos, sem nenhum distanciamento odebrechtiano – expressão que cunhei quando fiz minhas primeiras reportagens sobre o inocente setor das empreiteiras durante o governo FHC – jamais será punido por inteiro. Só a parte manjada e encarnada. A essa altura da madruga, amigos, sou testemunha ocular da história, o senador Aécio Neves, tucano mineiro, toma tranquilamente o seu uísque no Leblon, Rio de Janeiro. Quem tem amigo no poder Judiciário brasileiro tem tudo! Acho chique!

Xico Sá

Política fora da lei

A Procuradoria-Geral da República (PGR) protocolou ontem 800 depoimentos de 77 executivos e ex-executivos da Odebrecht que negociaram suas delações premiadas no âmbito da Operação Lava-Jato. Eles serão ouvidos, novamente, por juízes designados pelo ministro Teori Zavascki, relator do caso no Supremo Tribunal Federal(STF), para que as citadas delações sejam aceitas. Até lá, tudo está em segredo de Justiça. Pelo teor dos vazamentos, porém, quase toda a elite política do país está enrolada na Lava-Jato, como naquele samba famoso do Bezerra da Silva: “Se gritar pega ladrão…”

Desde o julgamento do mensalão, sabia-se que o sistema de financiamento da política e dos políticos no Brasil estava em aberta contradição com a Constituição de 1988. Seguia uma tradição na qual o que distinguia um político honesto de um desonesto era a formação de patrimônio e o enriquecimento ilícito com recursos públicos, e não a utilização de caixa dois, prática mais ou menos generalizada. O dinheiro do caixa dois, porém, na maioria dos casos, tinha origem ilícita, principalmente no desvio de recursos públicos mediante o superfaturamento ou a não execução de obras e serviços públicos.

Congresso camara Amigo Oculto Honesto de fora lava jato propina corrupto

Esse padrão de financiamento não tinha sustentabilidade legal, mas isso não foi levado em conta, porque havia um pacto corrupto entre o mundo político e o mundo empresarial, beneficiado por contratos e privilégios governamentais. Ocorre que os órgãos de controle da União, responsáveis por zelar pela legitimidade dos meios empregados na política, pouco a pouco foram desvendando os vasos comunicantes do sistema, o que culminou na Operação Lava-Jato. Nesse particular, a autonomia concedida à Polícia Federal, à Receita Federal e ao Ministério Público pela Constituição de 1988 revelou-se um instrumento muito eficaz. Os órgãos de controle do Estado passaram a ter um papel decisivo para que o problema fosse enfrentado. As delações premiadas da Odebrecht são desdobramentos das investigações que tiveram início com a simples suspeita de lavagem de dinheiro em um posto de gasolina de Brasília.

Desnudou-se não somente o maior esquema de corrupção do mundo, mas também um modelo de financiamento político e de acumulação de capital incompatíveis com o Estado de direito democrático. Quase todo o establishment político, a rigor, operava fora da lei. Aí está o maior problema da crise ética, pois isso revela um frágil equilíbrio entre a manutenção da ordem democrática e o funcionamento de suas instituições, a começar pelo Congresso. Como desfazer esse nó? Como punir os políticos que comandavam o esquema e não punir os que dele se beneficiaram sem o saber? Para a opinião pública, o juízo está feito. É só cantar o refrão do Bezerra: “não fica um, meu irmão!”. Para o devido processo legal, porém, é preciso provar a existência de caixa dois e o dolo. É aí que entra o Supremo Tribunal Federal (STF) como o desatador de nós.

Imagem do Dia

Montanhas no Saara, em Ain Sefra, na Argélia, amanheceu coberta por neve. É a segunda vez que neva no Saara desde 1979

'Je suis' Sérgio Cabral

O repórter Ruben Berta informou que em 2010 o então governador Sérgio Cabral mimou seu vice, Pezão, durante as festas de fim de ano hospedando-o no hotel Portobello, em Mangaratiba. As diárias saíram por R$ 5.600. O salário do anfitrião era de R$ 13,4 mil, mas isso não tinha importância.

Aquele réveillon poderia ter sido uma festa qualquer, mas durante o dia 31 de dezembro de 2009 uma chuva matou 46 pessoas na região de Angra dos Reis e outras 21 no estado. Cabral estava na sua casa de Mangaratiba, a 60 quilômetros dos locais da tragédia. Seria uma viagem de poucos minutos em seu meio de transporte preferido, o helicóptero, mas só botou o pé na lama no dia 2, com uma frase emblemática: “Você jamais vai me ver fazendo demagogia”.

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A demofobia foi a marca de sua passagem pelo Rio. Em 2007 ele defendeu o aborto porque na sua opinião a favela da Rocinha era “uma fábrica de produzir marginal”. (Citou estatísticas erradas, mas deixa pra lá.) Dois anos depois propôs que onze favelas do Rio fossem cercadas por muros de três metros de altura. (A voz solitária contra essa maluquice veio de um português, o Prêmio Nobel José Saramago.) Vendeu a ilusão de uma pacificação dos morros, quando sua única iniciativa foi a militarização do cotidiano nessas comunidades. (O fracasso do conjunto dessa obra foi reconhecido neste ano pelo seu marechal-de-campo, o secretário de segurança José Mariano Beltrame.) No morro do Alemão, ocupado com uma coreografia digna da tomada das praias da Normandia no Dia D, ficou o teleférico, símbolo da conjugação da demofobia com a corrupção. Custou R$ 210 milhões num cenário de concorrências viciadas e desde outubro está parado. Foi lá que madame Christine Lagarde, diretora do FMI, sentiu-se “no Alpes”.

Graças à Polícia Federal e ao juiz Marcelo Bretas, Sérgio Cabral está em Bangu 8, vestindo uma camiseta verde. Carnavalizaram-se os deslocamentos do detento com faixas, fogos e festas. De uma hora para outra, Sérgio Cabral tornou-se o estuário de todas as reclamações.

Vá lá, mas Cabral pareceu ser solução. Em 2010, 5,2 milhões de eleitores (66%) deram-lhe um segundo mandato. Quatro anos depois ele elegeu Pezão, o hóspede no hotel Portobello. O “Je suis Sérgio Cabral” foi um grito popular, tanto no andar de baixo como no de cima. A declaração demófoba de 2010 foi amplamente noticiada (e até admitida). Nem todo mundo sabia a extensão de suas relações com o empreiteiro Fernando Cavendish (o do anel da Van Cleef), mas os deputados da CPI do contraventor Carlinhos Cachoeira sabiam muito bem o que estavam fazendo ao blindá-lo. O estouro das verbas de obras públicas foi exposto episodicamente. Era como se todo mundo soubesse que o bicho tinha quatro patas, orelhas imensas e tromba, mas achava-se que o elefante era bonitinho. Era, mas não deixava de ser um elefante, daqueles que comem 125 quilos de folhagem (verdinha) por dia. A manada do PMDB comeu a lavoura do Rio, jantou no Alain Ducasse de Mônaco, quebrou o estado e fechou os restaurantes populares. O doutor era a peça reluzente e modernosa de uma máquina que sobrevive, intacta.

Cabral está em Bangu por corrupção porque demofobia não é crime. Para muita gente, é virtude.

Elio Gaspari

Crise moral

O normal nas demissões de ministros são as costuras políticas que exigem que uma vaga seja aberta para se acomodar um novo aliado que chega. Ou mesmo a incompetência descoberta somente depois da nomeação. 

Também não é normal que o grande número de baixas já verificado possa num futuro próximo ser acrescentado de mais nomes. Ainda há alguns na lista de suspeitos que, amanhã ou depois, poderão se ver obrigados a pedir demissão porque a permanência deles no governo criará instabilidade política. Em suma, podem complicar ainda mais a já complicada vida do governo. 

Sem falar que o próprio presidente Michel Temer também costuma frequentar as listas fornecidas por ex-executivos de empreiteiras que fizeram acordo com a Justiça e decidiram contar tudo o que sabem sobre as relações promíscuas de um passado quase nada distante entre empresários, governos, partidos, políticos e lobistas.

Ninguém nega que o Brasil passa por uma crise econômica das mais graves de sua história. Não se nega também que o governo de Dilma Rousseff deixou de legado ao País a crise econômica e uma profunda crise política. Chegou-se até a imaginar que o impeachment e a posse de Michel Temer pusessem um fim à crise política. Afinal, Temer assumiu a Presidência com uma base de sustentação no Congresso tão grande que poderia aprovar as reformas que quisesse. Portanto, teria condição de também pôr fim à crise econômica.

Por que então o País mais do que nunca arde numa crise política e continua vendo a crise econômica no seu horizonte? 

Nenhum texto alternativo automático disponível.

É porque o Brasil passa também por uma crise moral, revelada pelas diversas operações do Ministério Público e da Polícia Federal contra a corrupção, sobretudo a Lava Jato. Quanto mais se cavuca, mais se suspeita de que a imoralidade entranhou-se em parte das instituições. Há suspeitas de influência criminosa em nomeações para tribunais superiores, para as mais diversas estatais, não só a Petrobrás, para bancos, para fundos de pensão e outros locais importantes do aparelho do Estado.

A situação não melhora quando se olha para o Congresso. Preso em Curitiba está o ex-presidente da Câmara Eduardo Cunha (PMDB-RJ), há menos de um ano com poder suficiente para aceitar o pedido de impeachment de Dilma Rousseff, que levou ao fim do ciclo de poder do PT. Na mesma época Cunha alimentava o sonho de se tornar o candidato do PMDB a presidente da República, num plano político muito bem feito. À revelia de seu próprio partido, montou uma base de apoio político pessoal, com 13 partidos e 239 deputados, que se autodenominou “Centrão”. Cunha pretendia se apresentar ao eleitor como um candidato conservador, contrário ao aborto, à união homoafetiva, favorável ao aumento da repressão do Estado e à redução da maioridade penal. Para um País amedrontado pela violência, não se pode negar que teria chances de ser eleito. 

Recorde-se ainda que o Congresso e o Senado são presididos por Renan Calheiros (PMDB-AL), réu no STF, além de ser investigado em mais processos, impedido, por ordem da Corte, de substituir o presidente da República.

A crise moral não poupou também muitos dos dirigentes dos principais partidos, boa parte sob suspeita de recebimento de dinheiro irregular de empreiteiras. Entre eles, comandantes do PT, PMDB, PSDB, PP, só para citar alguns.

O eleitor dará o troco na próxima eleição. Não tem como não dar.

Natal com Doris


Brasil se tornou país sem projeto e, por consequência, sem futuro

Trinta anos atrás, pensei errado que um dia seríamos um povo consciente e que decidiria seu destino. Andamos no sentido contrário da evolução. Escola falida, insegurança total. Serviços públicos? Onde? Os brasileiros sentem tristeza de termos tudo e não sermos nada. Quanto mais se sabe, mais solitário se é. Quanto mais se enxerga, mais tristezas e desesperanças. Reitero: somos um país sem projeto, por consequência, sem futuro…
Quem sabe se por esta razão a maioria, a imensa maioria da sociedade, compreendendo o tamanho da distância da realidade para a ilusão, escolheu ser idiota, nos dois sentidos: imbecis que só veem o próprio umbigo.


Certamente necessitamos de líderes, não para guiar-nos, mas para administrar nossas decisões, coordenar nossos projetos. Se o povo sério não se levantar, de maneira ordeira e inteligente, o buraco crescerá, dia após dia. Reformar as leis partidárias/eleitorais, reduzir as bancadas dos legislativos (nos três níveis), rever os tributos, incentivar segmentos econômicos, tudo isso faz parte da tarefa de reconstrução (ou será construção?) do país.

Se isso não ocorrer, estamos ferrados. É assustadora a relação entre o orçamento do país e suas dividas. Os valores deslocados para pagamento da dívida são, imensamente, maiores do que os investidos em saúde, ensino, segurança e tudo mais.

Mas é necessário que os brasileiros tenham a cabeça no lugar e ajam com honestidade. Uma nação se faz com pessoas de coragem, decisões, projetos.
No fundo, bem lá no fundo, faltam homens/mulheres capazes de assumir a frente do trabalho, colocar suas vidas à disposição da nação e de seu povo, enxergar além do seu tempo ou do que dele resta.

Estamos perdendo a hora, o momento. E não me venham dizer que somos um país novo, com apenas 500 anos. Isto valeria se (e sempre tem um “se”) o resto do mundo e da humanidade vivesse ainda como nos séculos passados.

A roda gira e com muita velocidade. Assim seguindo, em 50 anos estaremos voltando ao século passado. O Brasil é um país que precisa de seus filhos. Ou aparecem ou teremos de mudar nosso hino.

Aquele Natal

No dia 24 de dezembro, há dez anos (tinha eu dezoito), preparei-me tranqüilamente para passar o Natal em solidão. Chegara ao Rio em setembro. Depois do período natural de dificuldades que todo provinciano atravessa, começara a trabalhar numa revista. E agora estava ali, na redação, terminando de escrever uma reportagem e pensando nas ruas festivas, onde multidões faziam compras e em como seria bela a noite para os que tinham parentes e amigos. O crítico cinematográfico da revista aproximou-se de mim e disse:

“Olha eu sei que você não conhece ninguém no Rio, de modo que quero convidá-lo para passar a noite no apartamento de uma amiga minha. Ela vai dar uma festa para gente assim como você.”

Tomei nota do endereço e ele disse: “Ao chegar, é só dizer que você é o José Carlos, que ela já está avisada.”
Papai Noel estufado rs:

Às nove horas da noite, rumei para lá. Os sonhos mais ardentes me dominavam. A moça dona da casa era linda e passaríamos a noite dançando colados! Coisas assim; eu ia andando cheio de esperança. Diante do apartamento, toquei a campainha e então fluíram segundos de espera ansiosa. Abriu-se a porta: uma jovem linda, de vestido vermelho, surgiu à minha frente. Atrás dela vi um corredor, e depois uma sala onde outras moças estavam sentadas, uma das quais conversava com um rapaz. Da vitrola vinha uma canção tristonha.

— Que é que o senhor deseja? — perguntou a moça.

— Eu sou o José Carlos.

Ao ouvir essas palavras, ela me olhou com expressão indefinível: espanto, ou esquecimento, ou então não ouvira direito, o certo é que ficou olhando fixamente o provinciano durante um minuto bastante penoso. Finalmente, falou:

— José Carlos ainda não chegou. Com licença — e bateu a porta na minha cara.

Meia hora depois, outra vez na rua, eu ainda não sabia se devia rir ou chorar. Fui andando sem rumo, e afinal entrei no Alcazar, sentei, pedi cuba-libre e comecei a encher a cara.
José Carlos Oliveira (1934 - 1986) 

Será um alívio!

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Toda essa onda em torno das notícias falsas tem, a meu ver, um lado positivo: talvez com isso as pessoas passem a prestar mais atenção nas bobagens que compartilham

Como antigo esconderijo de criminosos se tornou exemplo de transformação social

Marisqueiras da Ilha de Deus

Sentada na porta de casa diante de uma montanha de conchas, Maria Cláudia da Silva, de 25 anos, separa com agilidade o sururu (molusco típico do Nordeste brasileiro) da sujeira que assola o mangue.

A catadora repete a atividade que a mãe, a avó e centenas de mulheres da Ilha de Deus, no Recife, fazem há pelo menos 50 anos.

Da comunidade que nasceu da ocupação de um manguezal na confluência de três rios (Pina, Jordão e Tejipió), o alimento segue para abastecer supermercados e restaurantes da cidade.

O trabalho é duro - "dá dor nas costas" e até "doença nas mãos", segundo a moradora - e rende apenas R$ 150 por semana. "Isso se catar uns oito baldes por dia."

Mas Silva não reclama. Diz que a situação já foi muito pior, e aponta para os três filhos, de dez, oito e quatro anos.

"Na idade deles, eu não podia brincar na rua porque era perigoso. Quando nem imaginava tinha um tiroteio. A gente morava em palafita. Para ir à escola, precisava tirar o sapato e atravessar a lama."

A trabalhadora se refere a um período em que a vila de pescadores, localizada no maior parque de manguezais em área urbana do país, era mais conhecida como "Ilha sem Deus".

Naquela época, criminosos aproveitavam o isolamento e o abandono do lugar para se esconder. Logo, o tráfico de drogas se instalou. Na fase mais crítica, entre as décadas de 1980 e 1990, a comunidade chegou a registrar um homicídio por semana.

A situação começou a melhorar à base de conscientização política e organização. Com a ajuda de missionários religiosos, moradores passaram a cobrar atenção do poder público e serviços básicos, como água e iluminação.

Em 1986, construíram uma ponte de madeira ligando pela primeira vez a ilha ao "resto do mundo". Antes, o acesso só era possível de barco.

A passagem de 216 metros de extensão foi refeita em concreto em 2009, em obra do governo do Estado. A ponte Vitória das Mulheres, referência à forte liderança feminina na comunidade, também é um marco da urbanização da Ilha de Deus.

Hoje, as palafitas da ilha deram lugar a casas de alvenaria, as ruas de lama receberam asfalto e saneamento. Já a violência tem recuado diante de ações de transformação social, que vão de revitalização ambiental a programas de educação, comunicação e poupança comunitária.

Além de propiciar condições de vida mais dignas, os projetos inseriram a ilha entre os pontos turísticos da capital, com direito a albergue e rota exclusiva de catamarã.

Paisagem brasileira

Tiradentes, cidade histórica do estado de Minas Gerais, Região Sudeste do Brasil.:
Tiradentes (MG)

Para Michel Temer, governo merece congratulações pelo muito que já fez

Michel Temer está chateado. Acha que seu governo não vem obtendo o reconhecimento que merece. Um auxiliar do presidente conta que ele se considera injustiçado pelo pedaço da imprensa que o imprensa. Herdou de Dilma o caos, gosta de realçar. Poderia resignar-se. Mas prefere encarar a conjuntura com coragem, não cansa de repetir. Enumera os feitos obtidos em escassos sete meses: a PEC do teto dos gastos, a troca do modelo de exploração do pré-sal, a deflagração da reforma do ensino médio, o encaminhamento da proposta de ajustes na Previdência. Temer está satisfeito consigo mesmo. Lamenta que os resultados não aparecem do dia para a noite. Mas avalia que todos têm o dever de reconhecer que as coisas melhoraram.


Num instante em que perde a pouquíssima popularidade de que dispunha, Temer cogita enfrentar as panelas no horário nobre da tevê, para demonstrar à plateia que seu governo é entusiasmante. Muitos brasileiros, depois de ouvir o pronunciamento do presidente talvez resolvam viver no país que ele descreve com tanta convicção, seja ele onde for. No país de Temer, pelo menos, o presidente não é alvejado por denúncias, seus auxiliares não são suspeitos de corrupção, seus líderes no Congresso não respondem a inquéritos, sua base legislativa não está apodrecida, seu partido não cheira mal, não existe Odebrecht, as ruas não roncam e 2017 será próspero.

Temer faz como o avestruz: para não tomar conhecimento do pedaço cinza da realidade, enfia a cabeça nos seus autocritérios. O brasileiro vive um daqueles momentos em que entender o que se passa depende da predisposição de cada um. Ou o país continua na rota do caos ou tomou a trilha da redenção, você decide. Temer é otimista por obrigação. Sua claque é otimista por hipnose. Seus aliados são otimistas por intere$$e. Os 13% que avaliam seu governo como ótimo ou bom são otimistas na esperança de que as medidas do governo sejam boas, pois não há outras. E os 63% que pedem a renúncia de Temer antes do Natal desconfiam que quem é otimista trocou a razão pela comodidade de uma confiança cega.

Alçado ao Planalto nas pegadas de manifestações épicas contra a corrupção, Temer comete o erro primário de imaginar que pode governar de costas para a ética. Ao enaltecer suas realizações sem atentar para o lodo lhe toca o bico do sapato, o presidente está, no fundo, pedindo aos brasileiros que façam como ele: se finjam de bobos pelo bem do Brasil. Temer sabe que a delação coletiva da Odebrechet, trancada na sala-cofre do Supremo Tribunal Federal, transforma sua administração numa superestrutura pendurada no ar. Mas não convém comprometer a salvação do país por algo tão politicamente supérfluo como a moralidade. Enquanto der, o melhor é fingir que nada aconteceu. Fica combinado que os 800 depoimentos dos 77 delatores da Odebrecht não existem.

É preciso reinventar a política para dar alguma esperança às novas gerações

Achei emocionante a última crônica do poeta Ferreira Gullar, em que questionou os regimes capitalista e comunista. Assim como ele, creio que a sociedade igualitária é uma meta inatingível, pois por natureza somos desiguais. No entanto, o que importa é a caminhada em direção a um mundo menos desigual, nesse ir e vir em busca de uma menor exploração do homem pelo homem, que gera grandes fortunas em contradição com a miséria absoluta, que cresce assustadoramente nas grandes cidades da maioria das nações.
Podemos engrandecer o livre mercado, a globalização, o regime capitalista selvagem, enquanto nossos irmãos passam fome e dormem nas marquises das grandes cidades, sendo acordados com baldes de água gelada? Alguns já foram até queimados, sem chance de defesa.

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Na outra ponta, os regimes comunistas também não responderam aos anseios das sociedades, como na Rússia, em Cuba e na China. A antiga URSS (União das Republicas Socialistas Soviéticas) ruiu em meio às reformas Perestróica e a Glasnot, envolta na corrupção e na ditadura feroz do Partido Comunista, cujos dirigentes viviam nababescamente em fazendas e mansões, em contraste com a pobreza do cidadão comum.

Tanto no capitalismo como no comunismo, os líderes acumularam fortunas em paraísos fiscais. Para que acumular tanto dinheiro, cujos pseudos “donos” não conseguiriam gastar mesmo se dez vidas tivessem? Como fazia o cavaleiro de Granada, que alta madrugada brandindo sua espada, rumava em louca disparada. Para quê? Para nada, explicou o genial Miguel de Cervantes.

Por que tanta briga, tanto roubo, tanta arrogância, tantas fazendas, tantas cabeças de gado, tantas viagens à Paris ou Miami, tantas jovens amantes, se no final iremos todos morrer na praia?

Ninguém pode ser feliz vendo o desemprego em massa e crianças sem as necessidades básicas. Precisamos de um sonho calcado num futuro melhor, até para podermos lutar para alcançá-lo. Mas, os jovens não estão tendo esse direito.

O imortal poeta Ferreira Gullar está com a razão. É preciso se reinventar a política para preencher essa lacuna
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Prefeitos, atenção!

O homem contemporâneo vem se condicionando à racionalidade dos sistemas. As cidades, cujo destino irrefutável é sua adaptação a procedimentos sistemáticos impostos pela revolução tecnológica, estarão conduzindo o cidadão à condição de prisioneiro duma máquina eficiente e condenando-o assim a uma vida robotizada. (“Tempos Modernos”, Carlitos)

Com o espírito reprimido, ele está se entregando à atividade material do consumo e se coisificando em ambientes estandardizados.

Como resultado, o ser metropolitano irá perdendo as referências com seu território sensível — costumes, falas, crenças, imaginário, ancestrais, cultura —, se afastando, em consequência, dos valores que particularizam sua identidade.

A despeito da atenção exclusiva com a racionalidade objetiva do uso urbano, a metrópole é o ambiente onde ocorre o imprevisível, o inesperado, o instantâneo e onde estão arquivados a memória e os registros históricos, e, sobretudo, é o lugar do entrecruzamento, virtualmente infinito, de destinos, atos, pensamentos e reminiscências,

Se considerar estes indicadores positivos, de significado eminentemente humano, e o pensamento lúdico de Lewis Munford — “A cidade favorece a arte, é a própria arte” —, conclui-se que a metrópole se fundamenta nos valores humanos e artísticos, ambivalência que revela, por outro lado, sua dimensão subjetiva.

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Afirmam os filósofos que a sistematização é a antítese da criação e que são rubricas incompatíveis. Paradoxalmente, verifica-se que o espaço urbano pode produzir, simultaneamente, a compatibilização entre elas. Em consequência, uma metrópole que mantenha o equilíbrio entre a função e o sensível, entre a ciência e a arte, pode reverter o processo de desumanização que está pondo em risco o homem hodierno.

O espaço público, sujeito à ação lúdica do movimento, excitado pelo lazer ativo e enriquecido pelas atividades culturais, se constitui num permanente happening, que estimula a liberdade criadora e instiga a imaginação dos seus usuários e são a substância de uma ecologia do espírito.

A atribuição principal dos mentores da cidade não é só a de realizar intervenções cientificamente eficientes, mas é, sobretudo, a de oferecer meios para que os atores urbanos sejam estimulados a dar sua parcela de participação, na criação do espetáculo urbano. A partir destes conceitos, é necessário que os insumos de ordem objetiva — tráfego, paisagismo, sinalização, mobiliário — estejam condicionados à nova ética urbana, na qual o pedestre seja considerado o absoluto, e os demais, o relativo.

Além dos insumos objetivos, estes conceitos irão inspirar alguns insumos de ordem subjetiva que servirão de nutrientes para a concepção da espacialidade das cidades.

Desta forma, qualquer proposta para os espaços urbanos deverá se calçar em proposições que sejam indutoras e jamais coatoras, que não cerceiam a liberdade do uso e da escolha dos caminhos, que não violentem o percurso e os eventos consagrados pela comunidade, que estimulem o encontro entre as pessoas e as relações de vizinhança, que estabeleçam a diversidade do uso urbano — residencial, comercial, de serviços — e, sobretudo, que reacenda os significados históricos em todas as suas temporalidades.

Quanto mais competentes forem a forma e a essência dos insumos objetivos e subjetivos aplicados num espaço público tanto maior será o poder de indução do sentimento de afeição, de respeito e de civismo do cidadão pelas coisa da cidade.

A qualidade da vida físico-espiritual do homem cada vez mais se concentra nas cidades, tão depende delas que o equacionamento do problema urbano determinará o porvir da Humanidade.

Paulo Casé