segunda-feira, 21 de novembro de 2016

Muros

Ao longo do tempo, médicos, cirurgiões e boticários disputaram entre si a autoridade sobre a identificação e o tratamento de doenças. Na Inglaterra do século XVII, aos médicos, à aristocracia médica, competia a realização de diagnósticos e prescrições, mas não a dispensação de medicamentos. Os cirurgiões realizavam procedimentos manuais, e os boticários, que se destacaram da Companhia Adorável de Mercearias, deveriam permanecer em seus estabelecimentos e preparar as receitas. Conflitos éticos, profissionais e pecuniários inspiraram diversos personagens da literatura.

Na comédia “Hemorragia de mentiras médicas”, de Thomas Brown, escrita em 1697, tendo Londres como cenário, o médico é arrogante, um tanto hipócrita, e os boticários, gananciosos e desonestos. Poucos anos depois, o Colégio Real de Médicos e a Câmara dos Lordes divergiram sobre o caso Rose, um boticário acusado de exorbitar de suas funções ao prescrever e administrar medicamentos. Os argumentos dos médicos baseados nos danos relacionados com “desencorajar a Medicina e privar a nobreza de uma das profissões por meio da qual seus filhos podem subsistir” foram considerados antes como tentativa de preservação de privilégios do que preocupação do bem-estar dos pacientes. A decisão favorável a Rose constituiu uma das bases para o reconhecimento legal dos modernos médicos generalistas e farmacêuticos.

Lydgate (fictional):
Lydgate (ilustração)
Outros médicos, como o doutor Lydgate criado por George Eliot (Mary Ann Evans) em “Middlemarch”, 1871, também perturbaram cânones profissionais. O jovem sério e talentoso, ao trazer para a província conhecimentos de anatomia e patologia, procura tornar a Medicina mais cientifica e enfatiza os poderes de cura da natureza. O protagonista foi inspirado pelas ideias de Thomas Wakley, fundador do periódico cientifico “The Lancet”, que mantinha críticas permanentes à ganancia, ao nepotismo e aos baixos padrões de formação. O interesse pela política de saúde e pela vida dos médicos contribuiu para retratar oportunistas que, apesar de receberem salário, pretendem complementar a renda mediante casamento com viúva rica. E médicos competentes, mas extremamente pobres, que encontram imensas dificuldades para cursar a faculdade, são presos por dívidas ou embarcam em navios como cirurgiões.

A essa mesma época, o romancista Charles Dickens ficou fascinado com as possibilidades terapêuticas do hipnotismo. Wakley inicialmente manifestou uma curiosa simpatia pela técnica, logo depois, contribuiu para desmistificá-la. “The Lancet” publicou relatos de tentativas de cura, mas realizou avaliações públicas por juntas médicas, demonstrando a inocuidade do método, que foi decisivo para conferir-lhe credibilidade e torná-lo uma das principais publicações científicas do mundo.

No fim do século XIX e ao longo do XX, as sátiras envolvendo médicos e profissionais de saúde não deixaram de destacar a avidez e o despojamento de homens e mulheres dedicados a atender doentes. Atualmente, os elevados preços de determinados medicamentos e dispositivos médicos e comissões desafiam a ficção. Pode-se ganhar muito, não sendo bem formado e atendendo poucos e a assistência à saúde nucleia os negócios de imensos grupos econômicos. Embora não seja incompatível obter elevadas remunerações com o tratamento de pobres e se evidencie facilmente que os atuais médicos não pertencem à nobreza, predomina a seleção dos mais aptos a pagar — a menos que as políticas públicas afirmem direitos sociais. Muros desfeitos por uma história de dedicação a uma medicina e oferta de medicamentos para todos foram reconstruídos.

As vitórias eleitorais da rejeição ao Obamacare e das propostas de filas especiais para pacientes em várias cidades no Brasil servirão como material de edificação de barreiras mais sólidas de acesso, inclusive a pesquisas e inovação. Certamente, a natureza política do “enorme, bonito e poderoso muro na fronteira sul”, prometido por Trump, seja como metáfora ou ação concreta, é distinta das propostas brasileiras de tratamento de saúde diferenciado para os pobres. Sobre os cinco milhões de mexicanos ilegais pesa a ameaça de deportação imediata. Aqui está valendo a promessa de resolução dos longos tempos de espera para consultas, exames e internações.

Pelo sim ou não, um ponto comum a muitos dos defensores de levantamento de muros na saúde é o modelo Lydgate. Pretendem que reais médicos, bem formados praticantes da Medicina baseada em evidências deem um jeito de consertar a bagunça no lado rico e no pobre. Fica assim: médicos-cirurgiões-boticários, julgados como responsáveis individualmente por produzir intervenções desnecessárias e receber percentagens de prescrições, seriam controlados ou estimulados a seguir bons exemplos dos que retornaram à boa e velha clínica. Caricaturas de Lydgate, estão à frente de grandes negócios movidos pela interação entre os planos de pré-pagamento, os fundos de investimentos e os médicos intervencionistas. As contraditórias tentativas de aproximação do mundo empresarial à imagem do médico idealista são dignas de nota, mas não fazem jus ao personagem. Sem drama, sem a luta contra a pobreza, a compreensão dos processos saúde-doença e possibilidades de interrompê-los, sem a perspectiva de superar as injustiças na saúde, não haveria Lydgate na ficção e Wakley e seus sucessores na realidade.

Ligia Bahia

O STF no bordel brasileiro

Enquanto petistas, tucanos e peemedebistas dançam juntos, de rostinhos colados no ménage à trois da degradação final do sistema político brasileiro, vemos que também o “Poder Judiciário” se vai ensopando de merda.

A mídia divulgou que, nos últimos dez anos, boa parte das ações penais que ingressaram no STF – desde que tratassem de bandidos com foro privilegiado, é claro – foram simplesmente “prescritas”. Vale dizer: apagadas da memória judiciária nacional.

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Ou – o que realmente importa – os bandidos continuaram soltos em seus palácios, posando calhordamente de impolutos, tripudiando de todos e impondo sacrifícios pesados à maioria da população brasileira.

Argumenta-se que isto acontece em consequência de atrasos nas chamadas “instâncias inferiores”, feudos dos juizecos, para usar a gíria da moda. Vá lá, mas só em parte. O STF também tem a sua culpa no cartório. E não é pouca.

Precisa provar? Tudo bem: quem adiou o recente julgamento sobre réus e linha sucessória presidencial, que atingiria Renan Canalha, não fui eu, nem foram vocês. Foram os boçais de toga da doutora Cármen Lúcia.

O jeitinho pouco judiciário de empurrar com a barriga o caso de Renan, somando-se a tantas outras coisas – como a jogada de Lewandowski fatiando a punição a Dilma Rousseff –, conduz a uma só coisa: a crescente desmoralização da Justiça diante do conjunto da sociedade brasileira.

Desse jeito, vamos acabar respeitando mais – muito mais – a Polícia Federal do que o STF. Fica bonito para a cara engomada de vossas excelências? Claro que não. Mas, pelo visto, não é outra coisa o que os nossos magistrados-celebridades estão pedindo que aconteça.

Não vai demorar a aparecer quem diga que aquelas togas de excelência servem, na verdade, para disfarçar ou esconder as excelentes cagadas das tribunícias excelências federais.

Quanto a nós, meros cidadãos brasileiros sujeitos a arbitrariedades de todo tipo, o que mais vai cansando é essa história de político só ser preso depois que perde o mandato e/ou cai em desgraça.

O que nos resta, portanto, a não ser o caminho das ruas? Dar uma banana solene para o STF e despachar pedradas em direção às vidraças do Congresso?

É o que nos perguntamos, mais e mais. E a verdade é que já passou da hora de os cidadãos articularem um movimento público para escorraçar Renan Canalha do cenário político-institucional do país.

Depois que esse patife for destronado e conduzido à cela que o espera, será possível cuidar de liquidar outros gângsters.

Uma velha e inesquecível canção

Kathryn Grayson (1922 - 2010) soprano norte-americana

'Governar é escolher prioridades'

A frase do título é atribuída ao presidente John F. Kennedy, em plena crise dos mísseis cubanos (1962), que quase levou os Estados Unidos e a União Soviética a uma guerra nuclear. A habilidade do jovem presidente americano permitiu uma solução negociada com os soviéticos, que retiraram seus mísseis nucleares de Cuba em troca da preservação de Fidel Castro no poder.

Escolher prioridades é o que fazem o tempo todo os governantes em todos os níveis, desde o prefeito de um pequeno município até governadores, ministros e o próprio presidente da República. Quando acertam na escolha são aplaudidos, quando erram são execrados e até perdem suas posições, como aconteceu recentemente no País.

Geralmente as pessoas fazem o que pretendem fazer. Se suas atitudes não são compatíveis com seus desejos, avalie suas prioridades antes de responsabilizar a má sorte pelos seus resultados.:
Estamos agora diante de uma situação em que a responsabilidade fiscal, negligenciada nos últimos dez anos, precisa ser restabelecida para que o País volte à normalidade. A adoção de um limite para os gastos públicos vai exigir, mais do que nunca, escolher prioridades. E haverá, portanto, como resultado, ganhadores e perdedores.

É nestas situações que emergem líderes com visão de estadista, como já tivemos no passado, e demagogos, como também já tivemos.

A PEC do Teto limita os gastos públicos no seu conjunto, sem especificar quais setores serão preservados. Mas é evidente que os recursos destinados a educação e saúde não poderão ser reduzidos, por duas razões. Em primeiro lugar, porque já são hoje, de modo geral, insuficientes e, em segundo, porque gastos nessas áreas não podem ser postergados. Fazê-lo no caso de saúde pode significar deixar pacientes morrer. Na educação, não se pode “hibernar”, como fazem os ursos no inverno nas regiões frias do globo. Se as crianças não forem alfabetizadas aos 7 anos de idade, correm o sério risco de se tornar analfabetas reais ou funcionais pelo resto da sua vida. Se não aprenderem matemática, ciências naturais e humanidades, não serão preparadas para o mercado de trabalho.

Há outros setores, em compensação, nos quais os investimentos, e até a manutenção, podem ser adiados e reprogramados, como é o caso de estradas, portos, aeroportos, conservação de edifícios e até aumento de salários. As escolhas podem ser difíceis e existem inúmeras reivindicações de todos os setores que se consideram prioritárias, apesar de algumas delas representarem demandas corporativistas.

Outros projetos, porém, não podem ser interrompidos, a exemplo do que acontece com a saúde; o governo precisa identificá-los com clareza e dar-lhes a atenção devida. Cortes lineares em todas as atividades não fazem sentido, isso é o que diferencia governantes lúcidos de burocratas de plantão.

Um dos casos que não admitem esse tipo de corte indiscriminado é a área de ciência e tecnologia, praticamente ausente das discussões no nível federal.

O que é mais importante: desenvolver a área espacial ou a produção de energia nuclear? Quais as melhores políticas e ações que poderão reduzir as emissões de gases que provocam o aquecimento global? Esses são exemplos das questões que precisam ser discutidas.

Ciência e tecnologia jamais tiveram tanto impacto na vida da humanidade como no século 20. Esse foi o “século de ouro”, em que inúmeras doenças foram eliminadas, a eletricidade foi estendida a todos os cantos da Terra, a população cresceu extraordinariamente e a vida média das pessoas subiu de 35 para 70 anos. Rádio, televisão e internet foram desenvolvidos e são agora usados em todos os pontos do planeta. Ferrovias, automóveis, caminhões e aviões revolucionaram a área de transportes.

Discute-se hoje ativamente se esse “século de ouro” acabou e se novas descobertas e progressos tecnológicos não serão feitos para permitir não só melhorar a qualidade de vida, mas eliminar também o subdesenvolvimento. A revolução no setor de informática é uma das áreas em que isso já está sendo realizado.

O que é preciso entender, portanto, é que o progresso na ciência e tecnologia é um processo contínuo, que precisa ser alimentado o tempo todo, tal como o oxigênio do ar que respiramos e nos mantém vivos. Nessa área não é possível “hibernar”.

É a exigência de continuidade que distingue ciência e tecnologia de outros setores. Seus resultados podem aparecer somente em longo prazo, mas podem ser fundamentais na eliminação de doenças ou no aumento da produtividade econômica.

O imediatismo não existe nessa área e governos esclarecidos já se convenceram disso há muito tempo. Apenas para dar um exemplo, essa é a razão por que o assessor de ciência e tecnologia do presidente dos Estados Unidos (entre os inúmeros assessores) tem o seu escritório na própria Casa Branca, sede da Presidência da República. Além de aconselhar o presidente e o seu Ministério em assuntos de ciência e tecnologia, o assessor especial nos Estados Unidos também tem a missão de coordenar todos os esforços dessa área desenvolvidos nos diversos órgãos da administração federal.

Foi pela mesma razão que Josef Stalin, na União Soviética, deu status especial aos cientistas – incluindo dissidentes políticos, como Andrei Sakharov – que tiveram um papel especial em levar o país à vitória na 2.ª Guerra Mundial. É por isso, ainda, que em países como o Reino Unido todos os ministérios têm um “cientista chefe”.

Na escolha de estratégias de desenvolvimento econômico no nível mais alto de governo, ciência e tecnologia precisam estar presentes o tempo todo, apontando os melhores caminhos a seguir e suas consequências. Essa é a razão para preservar o apoio a essas atividades em condições normais, especialmente em tempos de crise.

A misteriosa afinidade entre a mulher e os felinos

Volta a ressuscitar a discussão sobre a preferência das mulheres pelos felinos, enquanto os homens escolheriam os cachorros. Os gatos, além disso, se entenderiam melhor com as mulheres, e os cães, com os varões.

Ignoro se alguns experimentos universitários realizados sobre o tema possuem valor científico. Há quem, para explicar isso, recorra ao fato de, desde tempos remotos, os cães terem sido usados pelos homens para a caça, com os gatos ficando em casa, perto da mulher.

Só isso?

O que é certo é que há mais de 5.000 anos nenhum outro animal foi tão divinizado e associado ao mistério e à mulher quanto o gato. Ainda hoje se discute em psicologia a simbologia do gato associado à mulher.

Seguimos nos perguntando por que os gatos são relacionados à independência, e os cachorros, à submissão. Isso tornaria os cães sempre amados, e os gatos, há séculos seriam divinizados, mas também execrados e amaldiçoados.

Como a mulher?

Nenhum animal teve uma trajetória tão tortuosa em seus simbolismos, medos e atração quanto o felino. No Egito fazia parte da divindade, personalizada na figura da egípcia Bastet, a deusa gata mulher, que protegia a felicidade das pessoas. Talvez por isso o gato seja um dos poucos animais nunca mencionados na Bíblia.

Alma Felina                                                                                                                                                                                 Mais:
Na Índia simbolizava a sabedoria, com a gata sendo a deusa sábia, rainha da fertilidade. A Igreja, mais tarde, satanizou os felinos ao mesmo tempo que apresentou a mulher como obstáculo à virtude e mais facilmente possuída pelo demônio que os homens.

Nos séculos sombrios da Idade Média os gatos, por influência da Igreja, passaram a ser o símbolo do demoníaco e da maldade. Como a mulher? Foram perseguidos, esfolados vivos, queimados nas fogueiras, junto com as mulheres.

Foi o papa Inocêncio VIII, em 1484, que lançou a primeira perseguição contra os gatos, que foram sacrificados aos milhões. A vingança por aquela matança e aquela loucura religiosa foi em parte a chegada da peste negra à Europa, dizimando sua população, transmitida pelos ratos, que proliferaram com o desaparecimento de seus caçadores.

De inocente, aquele Papa culpado pelo massacre dos gatos, que já tinham sido divinos em outras religiões e culturas, tinha só o nome. Enfermo, por medo de ter que deixar o papado aos cardeais que suspiravam por vê-lo morrer para substituí-lo, tentou se curar com leite humano, mamando de uma jovem ama de leite e exigindo transfusões de sangue de crianças.

Tudo inútil. Aquele Papa se foi sem ser chorado.

Maldição dos gatos e das mulheres?

Hoje, envergonhado daquele seu antecessor, o papa Francisco faz diversas declarações a favor dos gatos: “São os animais mais inteligentes. Sempre gostei deles e conversava com eles”, disse a um jornalista francês que lhe perguntou se ele também considerava os gatos como demônios.

O grande artista Leonardo da Vinci chegou a considerar o gato como a “melhor obra de arte”. A mais bela.

Verdade ou não que as mulheres de hoje continuem preferindo os felinos como nos tempos antigos, em que eram vistos como deuses, é certeza que, em meio a tantas vicissitudes o gato, desde a mais remota antiguidade, foi visto como mais próximo do universo feminino.

Cleópatra se pintava imitando a linha curva dos olhos de uma gata. Desse animal se diz que não tem, nem nas horas de sono, uma postura que não reflita elegância.

A escritora italiana Camilla Cederna escreveu que “o gato, como a mulher, é quem escolhe a pessoa, não o contrário”.

Condenadas historicamente a ser dependentes dos homens, as mulheres, como aparece na literatura, talvez tenham visto na liberdade dos gatos um sonho secreto contra sua forçada dependência do varão.

Os gatos não precisam de nome. Não adianta chamá-los. Vêm quando querem, como escreveu em seu diário Marguerite Yourcenar. Eles decidem sempre o que querem fazer.

Os gatos amam estar limpos, são curiosos, independentes, solitários, ternos e selvagens ao mesmo tempo. Como a mulher?

São desconfiados. Preferem a solidão. Comedidos em seus afetos, sinuosos ao ponto de que não gostam de caminhar em linha reta. Margeiam com tato e delicadeza os objetos. São silenciosos e decidem quando receber e dar afeto. É difícil dominá-los e de nada adianta ralhar com eles. Olham para você, dão a volta e seguem seu caminho.

Nunca são óbvios e evidentes e possuem um toque de indiferença.

São introspectivos e sensíveis, aristocráticos e aguçados.

Os gatos são difíceis de entender. É preciso saber interpretá-los.

Escondem uma parte de seu mistério ancestral. E um bocado de seu instinto selvagem. Parecem-se com a mulher?

Entendem nossa linguagem? Minha gata Nana, sim. Posso dizer isso porque tenho minha mulher de testemunha. A gata, de rua, tem o costume de se aboletar nas minhas pernas quando leio ou assisto TV.

Durante alguns dias preferiu dormir numa poltrona a alguns metros de distância. Numa destas noites, enquanto Nada dormia profundamente, disse à minha mulher: “Que estranho a Nana não vir mais ficar comigo!”. Não se passou um segundo. Abriu os olhos, olhou pra mim, deu um salto e veio se acomodar nas minhas pernas.

Minha mulher não conseguiu acreditar.

Os gatos são assim. É inútil querermos entendê-los muito. Como a mulher?

São pequenos deuses ou demônios?

Ou são simplesmente felinos, o que não é pouco?

"Ler um gato é muito diferente do que ler um cachorro. O gato é um texto que se esquiva, se esconde entre duas auroras, na fronteira entre o mágico e o irreal. O gato é sinuoso, seu texto é macio, é poesia, nunca se deixa apreender por inteiro. O gato é escorregadio, vive nas entrelinhas.
Para ler um cachorro não se precisa de óculos especiais. Seu texto é escrito em maiúscula, diz claro e em bom tom o que pensa e a que veio.
O cachorro é prosa, o gato é música, é poesia".
(De Cachorros e Gatos, da poeta brasileira Roseana Murray)
Juan Arias

Falta o torpedo final para acabar com o PT

Cada vez que a Operação Lava Jato manda prender um dos marechais do PT, quantos companheiros desistem e se desligam da legenda, formal ou informalmente? Milhares ou milhões?

A degola de Antônio Palocci constitui-se numa explosão de profundas consequências para o partido, menos porque o ex-ministro será condenado à prisão por longo período, mais porque, depois dele, só resta mesmo disparar o torpedo final sobre o Lula. Nessa hora, estará acabado o PT.

Esse golpe de graça ou petardo definitivo, porém, exige tornar o ex-presidente inelegível por via judicial.


Por enquanto, a sobrevivência do PT liga-se à sorte do Lula. Procuradores, Polícia Federal, Ministério Público e Receita atuam para levar o combate às últimas consequências, ou seja, ao afastamento do Lula da vida política. É o embate derradeiro, ainda de resultado inconcluso.
Afinal, as acusações contra o primeiro-companheiro, por enquanto costeando o alambrado, restringem-se a um apartamento triplex cuja propriedade ele nega, e ao armazenamento de presentes recebidos durante seus dois mandatos na presidência da República. Crimes, é claro, mas nada parecido com os praticados por Antônio Palocci, orçados em mais de uma centena de milhões carreados para seu bolso. Daí para trás, até chegar a José Dirceu, há munição capaz de implodir o Partido dos Trabalhadores, desde que disparado o último torpedo para atingir o Lula.

Os petistas aferram-se à possibilidade de blindar seu chefe maior para levá-lo até a próxima sucessão presidencial. Difícil é, mas impossível, não será.

Paisagem brasileira

Paraty, Edy Gomes Carollo 

Uma salvadora de camponesas

A menina de jeans tinha mais ou menos a sua idade, 17 anos. Um homem a agarrava na beira da estrada e a arrastava entre a mata da caatinga. Na manhã seguinte, a calça e a camiseta de cor clara estavam rasgadas, penduradas em um arbusto, como restos obscenos de uma refeição criminosa.

Naquela noite, Erbênia viu a jovem desaparecendo no matagal e correu para o vilarejo em busca de socorro. "É uma prostituta, o que você quer?", foi a reação, unânime, das pessoas. E aquela menina, totalmente desfigurada pelo pavor, cuja morte ela não conseguira evitar, visitou-a em pesadelos ao longo de muitos anos. Mas a decisão já tinha sido tomada: abandonar tudo – família, namorado, uma vida tranquila - para se tornar freira e ajudar as mulheres que sofrem, curando-se, ela própria, do trauma da impotência.

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Erbênia de Souza tem 50 anos, mas parece não ter idade alguma. É uma pessoa de corpo miúdo, com um sorriso radiante, que usa roupas normais e não um hábito religioso, além de trazer um pequeno sol pendurado no pescoço. Vive no Nordeste brasileiro, em Crateús, uma cidade com 74.000 habitantes no coração da zona semiárida mais povoada do mundo, o sertão do qual se fala nos livros de João Guimarães Rosa, o Céline brasileiro. Aqui, a seca crônica causa prejuízos para os camponeses já afetados pelo monopólio dos latifundiários; e, quando chega a chuva, ela é violenta, superficial, incapaz de se acumular mais profundamente no solo, que é vocacionado para ser um deserto.

Crateús fica no Ceará, um dos Estados mais pobres do Brasil. Para a população local, os Jogos Olímpicos do Rio são como um universo a anos-luz de distância, assim como a crise política que culminou com a destituição da presidenta Dilma Rousseff, aprovada pelo Senado Federal em agosto passado. No Ceará, 18% da população vivem em situação de extrema pobreza, ante uma média nacional de 6%. Nas zonas rurais do interior, vive mais da metade dos habitantes mais pobres de todo o Brasil.

Filha desta terra rancorosa, Erbênia se tornou, à sua revela, um símbolo. Desde 2005, ela dirige a Cáritas local, uma associação ligada à diocese, embora o Vaticano já não reconheça a sua congregação religiosa, as Irmãs Missionárias de Jesus –algo semelhante ao que aconteceu, também no Brasil, com algumas organizações da Teologia da Libertação, consideradas excessivamente revolucionárias e comunistas. Mas Erbênia continua se sentindo uma irmã, vive em uma comunidade dedicada a ajudar os mais carentes. Mais do que como revolucionária, ela prefere ser definida como uma aventureira: apoia o Movimento dos Sem Terra nas ocupações de áreas improdutivas dos grandes latifundiários, assim como os acampamentos urbanos de movimentos que reivindicam moradia, como as 175 pessoas encurraladas na periferia de Crateús em um assentamento ilegal que leva o nome do padre Gérard Marie Fabert, um sacerdote francês que dedicou a sua vida aos mais pobres, também no Brasil. Elas ocuparam o terreno há quatro anos e cobram da Prefeitura que esta lhes forneça eletricidade, água e saneamento básico, já que não podem arcar com aluguel em outros lugares. Até o momento, porém, suas reivindicações permanecem atoladas na lama da burocracia.

Fica evidente que um temperamento como o de Erbênia, que não se dobra diante das ameaças dos políticos locais e dos latifundiários, não estava destinado a uma vida comum: "Veja só, o meu namorado na juventude volta a aparecer de vez em quando", confessa rindo, "e me pergunta: 'Ainda continua obcecada pelos pobres?". Ele continua esperando por ela, "mas agora eu sou mulher e mãe dessas pessoas".

Esta freira inconformada não demorou muito a perceber que, para evitar que as mulheres fossem vítimas da exploração e da violência, seria necessário primeiro conseguir fazer com que fossem realmente livres; acompanhá-las para fora da miséria e dos túneis sufocantes de uma sociedade machista, partindo justamente da "vocação pela terra" que impregna, aqui, cada projeto e cada esperança. "Construímos escolas para ensinar como fazer para as hortas serem produtivas, inclusive as menores, cultivando milho, mandioca e produtos locais como a castanha de caju, com bons frutos e outros alimentos. Estamos convencendo as pessoas de que a terra não é um lugar apenas de sofrimento e que elas não devem se sentir inferiores por serem trabalhadoras rurais. Ao contrário, a dedicação à terra deve ser motivo de orgulho".

A filosofia é a de Paulo Freire, educador brasileiro da classe trabalhadora. O apoio chega da ONG italiana WeWorld, que trabalha no Nordeste do Brasil com projetos de segurança alimentar. O método é a agricultura familiar biológica, oposta à intensiva e química dos latifundiários, que coloca o Brasil entre os primeiros países do mundo no uso de pesticidas e sementes modificadas geneticamente. As camponesas de Erbênia, no entanto, praticam o respeito à natureza e a si próprias, à espera da reforma agrária que nem mesmo o ex-presidente sindicalista Lula foi capaz de colocar em prática em seus felizes anos de proximidade aos mais pobres.

"Também somos contra o negócio da seca", acrescenta Erbênia. "Os fabricantes de tanques de água mantêm laços com políticos locais, que impõem tanques de plástico de 5.000 reais. Nós fabricamos tanques de cimento, mais ecológicos, a um terço do preço. E, assim, bloqueamos os que querem especular com os pobres. Por isso, chegam as ameaças".

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Duas opções

 quinho
(...) ou Temer é mesmo refém dos caciques do PMDB ou se tornou o chefe da quadrilha. Não há qualquer dúvida, é uma coisa ou outra
Carlos Newton

Caso Geddel mostra o que é normal sob Temer

Nos momentos mais decisivos, a tendência do ser humano é procurar a sua turma. Foi o que fez Michel Temer quando teve que montar sua equipe ministerial. Para o time palaciano, o presidente escalou apenas amigos. É compreensível. Temer tem afinidade com sua turma. Se não há concordância em tudo, ao menos não existe discordância no essencial.

Numa reunião realizada em São Paulo, ficou combinado que, ao menor sinal de anormalidade, os integrantes da turma de Temer desocupariam os cargos. Os amigos não ousariam constranger o presidente. O caso que envolve o ministro Geddel Vieira Lima servirá para mostrar até onde vai a fronteira da normalidade no governo Temer.

jarbas

Marcelo Calero demitiu-se do posto de ministro da Cultura chutando a porta. Acusou Geddel de pressioná-lo para rever decisão do Iphan que embargou a construção de um prédio de apartamentos de luxo com 30 andares, em Salvador. O edifício não pode ter mais do que 13 andares, decidiram os técnicos do Iphan, órgão que zela pelo patrimônio histórico e artístico do país.

Comprador de uma unidade assentada no que viria a ser o 23º andar do prédio cuja altura o Iphan encurtou, Geddel reconhece que procurou Calero. Mas nega ter feito pressão. Acha que se comportou dentro da normalidade ao defender junto ao colega da Cultura a revisão do parecer técnico de um órgão público que contraria o seu interesse privado.

“Em 2015, eu fiz uma promessa de compra e venda de uma unidade que estava lançada, sem nenhum problema, com todas as licenças colocadas e que vários outros adquiriram uma unidade de apartamento”, disse Geddel em entrevista.

Calero declarou que Geddel o procurou cinco vezes. Disse ter ouvido perguntas como esta: ''E aí, como é que eu fico nessa história?'' Classificou a abordagem de Geddel de ''truculenta e assertiva''. Relatou a ameaça do amigo de Temer de trocar o comando do Iphan. ''Se for o caso eu falo até com o presidente da República'', teria dito Geddel.

O coordenador político do Planalto sustenta que o relato de Calero contém “inverdades”. Entre elas a acusação de ameaça. De resto, Geddel diz que o fato de ter sido prejudicado pela decisão do Iphan, em vez de tirar, reforça sua “legitimidade” para se meter nos assuntos da pasta Cultura. Fez isso “por conhecer o que estava ocorrendo, estar preocupado, como todo cidadão fica preocupado em uma situação dessa.”

A encrenca do prédio de Salvador já virou processo judicial. Compreende-se que vendedores e compradores de apartamentos avaliados em cifras que roçam a casa dos R$ 3 milhões constituam advogados para guerrear contra a avaliação técnica do Iphan. É do jogo. O que deixa “todo cidadão preocupado” é o fato de um integrante da turma de Temer achar normal a tentativa, ainda que frustrada, de usar o prestígio do cargo público para defender interesse privado.

Retorne-se, por oportuno, ao primeiro parágrafo. É natural que Temer tenha afinidade com sua turma. Se não concordam em tudo, ao menos não discordam no essencial. Resta agora saber qual é a opinião do presidente da República sobre o caso específico.

Dependendo do modo como reagir, Temer pode aproximar seu governo do bom senso ou reforçar a sensação de que também acha natural que a essência de sua turma seja uma ideia qualquer de excepcionalidade que faz dos amigos do poder seres superiores à turma dos sem-turma.

Trump será o Lula da direita, com rugidos na campanha e miados no poder

O que teria acontecido caso Lula houvesse sido eleito em 1989? Alguém acredita que, realmente, 800 mil empresários fariam as malas para deixar o país, de acordo com o prognóstico alarmista do então presidente da Fiesp, Mário Amato?

Nem a pau, Juvenal! O poder econômico trataria é de iniciar logo o enquadramento do Lula que, a julgar pela maneira como procedeu ao finalmente chegar lá, não oporia muita resistência ao descarte das bandeiras utilizadas para ganhar a eleição.

Desde o sindicalismo, sua trajetória era feita de acordos, com uma greve aqui e ali para que as montadoras, alegando aumento de custos com a mão-de-obra, pudessem contornar os congelamentos de preços impostos pelos ministros da ditadura; se em 1989 os mandachuvas do mercado houvessem sentado com o Zé Dirceu para acertar os ponteiros, como fizeram em 2002, nossa História teria avançado mais depressa… Para o mesmo lugar.
O Brasil não se tornou comunista sob Lula, a Itália não voltou ao fascismo sob Berlusconi e é quase impossível os Estados Unidos serem piores sob Trump do que foram durante a guerra ao terror de Bush, quando justiça, direitos humanos e respeito à soberania das nações viraram balelas no país que mais prega a democracia.

Nos três casos, vale ressaltar, os negócios continuaram sendo tocados conforme a lógica férrea do neoliberalismo dominante, pois há bom tempo o que realmente importa na economia deixou de ser decidido pelos chamados dirigentes políticos, hoje reduzidos a meros fantoches do poder econômico.

As extravagâncias de certos presidentes e premiês se limitam ao varejo, já que no atacado eles não têm permissão para botar as patas. Ou alguém acredita que Trump conseguirá ressuscitar o protecionismo de mercado num país que tanto lucra com o livre comércio, correndo o risco de que ele venha a isolar-se juntamente com o Reino Unido, enquanto Europa e Ásia estariam deitando e rolando?

Por que supormos que, com Donald Trump, virá o apocalipse? Bem mais plausível é que, tendo atingido o objetivo de chegar à Casa Branca, ele tire o macacão de palhaço e volte a se comportar como quem veste terno de empresário.

Parece que, lembrando o grande Shakespeare, continuamos obnubilados pelas tempestades de som e fúria significando nada com que nos hipnotiza a indústria cultural.

A embalagem do capitalismo nos EUA vai mudar um tantinho, mas o produto continuará igual. E o que realmente importa é o seguinte: seu prazo de validade já expirou. Está na hora de deixarmos de desperdiçar tempo com bobagens e encararmos nosso verdadeiro problema, qual seja, o de evitarmos que a agonia do capitalismo, com sua degringolada econômica e catástrofes ambientais, arraste a espécie humana para a extinção.

domingo, 20 de novembro de 2016

Quem vive numa bolha?

Nestes dias de análises pós-eleitorais, em que você pode dar uma de perspicaz porque conta com a vantagem de saber o resultado, fala-se de bolhas. São dias borbulhantes. Fala-se dessas pessoas ingênuas, que vivem em seus mundinhos confortáveis, que consomem cultura para se sentirem elevadas, que participam de organizações humanitárias sem sair de casa para serenar o coração. E que não veem a vida real.

Os que vivem numa bolha costumam ser urbanoides, vão ao cinema com certa frequência, leem vários jornais por dia para tentar entender o mundo e acreditam que a base da justiça social está em igualar a partir de baixo, da educação primária. Os “bolhinhas” são da opinião de que a TV pública precisa ter forma e conteúdo diferenciados em relação à comercial. Acham que o bom jornalismo cria cidadãos, esse jornalismo local que conhece o terreno onde pisa e bate à porta para perguntar.

aí eu me afogo numa taça de champanhe...:
Quando um sujeito como Donald Trump vence as eleições norte-americanas, os inimigos da cultura apontam jocosos para os habitantes da bolha como se fossem idiotas, inocentes, bobos. Os reacionários fazem chacota daqueles que olham o mundo com profunda preocupação; e uma certa esquerda acusa tais pessoas de viver borbulhando, com seus suplementos de jornais e seus documentários, sem sair dos seus bairros para ver como é a classe trabalhadora real. Ser um “bolha” hoje, segundo nos rotulam, é algo que precisamos manter em segredo porque a cultura começa a ser algo mal visto. Como se fizéssemos parte de uma loja maçônica.

E o fato é que, perfeitamente cândidos, vemos nesta semana, na TV pública dos EUA, um documentário sobre Rikers – uma ilha-presídio ao norte de Nova York, onde os presos são amontoados de forma preventiva, alguns deles detidos por entrar no metrô sem pagar ou por um roubo na rua, esperando que chegue o julgamento. Como suas famílias não têm dinheiro para a fiança, eles esperam, às vezes durante anos. E os que não sabiam o que era a violência, as gangues ou a droga, aprendem ali mesmo para sobreviver. Todos os que aparecem no documentário são negros ou latinos. Não surpreende, já que 37% da população carcerária nos EUA é negra, embora os afro-americanos sejam apenas 12% do total do país.
O poder limpa até o mais repulsivo
Qual é a conclusão desses pequenos burgueses que vivem na bolha urbana sobre o grande documentário? Que a questão dos negros não foi resolvida, que continua havendo racismo e segregação, que não por acaso a exclusão social atinge sobretudo as populações não brancas. Inesgotáveis em seu afã por olhar o mundo a partir de sua vida aveludada, os bolhinhas vão ao cinema para assistir a um documentário que acaba de estrear contando a vida de John Coltrane. É uma vida parecida com a de tantos negros que cresceram na segregação, mas que salva seu destino graças a um originalíssimo talento musical. Houve um momento de silêncio quase religioso na sala: quando Coltrane compõe e interpreta Alabama, honrando aquelas quatro meninas que morreram em 1963 durante um serviço religioso numa igreja de Birmingham (Alabama) por uma bomba detonada pela Ku Klux Klan, na época muito ativa. Enquanto ouvíamos a melodia, que é a expressão da dor, víamos na tela os encapuzados brancos, suas fogueiras, seus biocos recortados no azul da noite.

O cinema estava lotado, uma sala grande abarrotada desses bolhas que, segundo se comenta, não querem saber do que ocorre lá fora. O eloquente silêncio continha não apenas a dor por incidentes que têm a minha idade, que ocorreram há não muito tempo; o silêncio estava lá também porque, tenho certeza, todos os espectadores são conscientes de que essa organização racista, antissemita, de supremacia branca, é hoje legal e apoiou Trump em sua campanha. Ao voltar para casa eu procurei no Google. Não fui a única. Esse nome, Ku Klux Klan, tem sido um dos mais buscados nos últimos tempos com uma pergunta: “A KKK é legal?” Como sempre ocorre, aos poucos vai tudo dando na mesma. O senhor Trump legitimará sua presidência fazendo fotos com dirigentes internacionais que encontrarão nele um pragmático, um cara simples. O poder limpa até o mais repulsivo. Mas o que eu me pergunto é: quem vive hoje na bolha? Somos nós, que procuramos desesperadamente uma explicação para essa deriva do mundo? Ou são os que alimentam seu espírito com páginas mentirosas e sectárias, que consolidam sua incapacidade de compreensão e os fazem viver temendo e abominando qualquer um que não lhe seja parecido?

Paisagem brasileira

A três curvas da cidade , José Rosário

Para sair desta maré

Seria uma longa reflexão, menos urgente do que pensar algumas ideias para sair desta maré. Maré brava que desafia a imaginação coletiva, mas que pode começar na cabeça do indivíduo, por mais precárias que sejam nossas ideias ou mais ingênuas que possam parecer. Considero um passo inicial ter os dados exatos sobre o impacto da corrupção nos últimos governos, sobretudo os que surfaram na onda do petróleo. Essa necessidade me pareceu mais necessária ainda quando recebi o bilhete de um amigo lembrando que a missão da sonda Juno, que começou em 2011 e deve terminar em 2017, custou US$ 1,1 bilhão. A sonda viajou 2,3 bilhões de quilômetros e no momento está na órbita de Júpiter. Na mesma época, o Rio implantou a linha 4 do metrô, com 16 quilômetros de extensão e cinco estações. A linha custou US$ 3 bilhões, quase o triplo da Missão Juno.

Era preciso um balanço geral. A Lava-Jato e outras operações policiais trataram até aqui de corrupção em obras da Petrobras e de Angra 3. O único político do PMDB preso era Eduardo Cunha, também por seu papel nacional. Existe uma operação, a Saqueador, que poderia puxar um dos fios da meada. O empresário Fernando Cavendish já oferece um anel de R$ 800 mil, mas ainda não esposou a delação premiada. Com a prisão de Sérgio Cabral talvez se possa ter uma visão aproximada do peso que a corrupção teve nos últimos anos e também da fração de recursos que possam ser restituídos ao Rio.

Pesquisas divulgadas esta semana mostram que a Assembleia do Rio custa mais caro que a de São Paulo e que o Judiciário custa uma vez e meia o do estado de Minas. Minas tem 853 municípios, o Rio, 92. É preciso uma revisão geral do custo da máquina. Ela passa pelos salários, mas envolve outras dimensões, sobretudo o sistema estadual de aposentadoria. Se as instituições mostrassem o quanto se perdeu com a corrupção e o governo demonstrasse que ajustou os custos da máquina à realidade de um estado quebrado, talvez pudesse surgir daí uma centelha de legitimidade. Esta centelha é a única esperança de conduzir um processo pacífico. É evidente que não existe projeto de reconstrução que não desperte protestos, mas num clima mais produtivo.

Se o estado, em todos os níveis, se ajusta à sua realidade falimentar, o diálogo com os funcionários torna-se menos áspero e a própria confiança da sociedade talvez reacenda. Esta semana li uma longa entrevista de Henry Kissinger porque queria saber de sua visão sobre o futuro da política externa americana. No meio do caminho, deparei-me com uma frase em que ele diz que todas as sociedades humanas, num determinado momento de sua história, decaem. É uma arrogância supor que os Estados Unidos escapariam desse destino. Mas observa em seguida: a perda de confiança em si próprio é um sintoma que pode precipitar a decadência.

Embora tenha feito as escolhas políticas, não foi a sociedade, mas os dirigentes que jogaram o Rio neste buraco. De um lado, a exuberância do petróleo, de outro, o estímulo federal para que o estado se endividasse. E, no meio, a corrupção. Não há razão para que ela perca a confiança em si própria. O que faliu foi uma visão política, o que se vive é uma ressaca do petróleo, a descoberta de uma caríssima e incapaz máquina de governo. O corte decisivo nos gastos públicos, a punição dos corruptos, a canalização dos recursos salvos do desastre para a saúde e a educação podem ser um roteiro geral. Sem falar na urgência de manter programas como o aluguel social e restaurante popular.

O estado vive uma situação tão grave que aquela frase de Kennedy, tantas vezes citada, por força da realidade, aplica-se aqui: não me pergunte o que Rio pode fazer por você, mas sim o que você pode fazer pelo Rio. Desde que haja confiança de que um outro rumo está sendo trilhado. Não vejo outras saídas, exceto a energia e a criatividade das pessoas, sobretudo quando as coisas estão desmoronando. Uma época chega ao fim e os que estão por cima são incapazes de iniciar uma nova.

É apenas uma opinião na esperança de que a intensa troca de ideias possa nos ajudar a sair dessa maré. Estamos sós, o cenário é desolador, mas é preciso prosseguir. Mesmo sem saber precisamente para onde e por que, é preciso prosseguir.

Fernando Gabeira

Leis demais em um país sem lei

Para coibir safadezas com o dinheiro público, o Brasil precisa de leis específicas e rigorosas. Essa foi a inspiração do Ministério Público Federal ao propor as 10 medidas contra a corrupção, que, seguramente, serão desfiguradas no cabo de guerra em que se tornou a apreciação da matéria na Câmara. Tanto ali quanto no Senado, todos defendem, da boca para fora, as investigações da Lava Jato e adjacentes. Mas no confronto com a realidade tudo muda de figura. E uma lei a mais pode ser a salvação de quem quer fugir da lei.

No país em que leis são feitas para anular outras leis ou simplesmente para não serem cumpridas, é difícil ter otimismo quanto à batalha final em torno da lei anticorrupção. Até porque, no avesso da intenção, a proposta do MPF abriu possibilidades infindas para que os parlamentares adicionassem no projeto incisos de perdão para crimes cometidos. Além disso, sabe-se, de antemão, que não há garantia de que a lei vingue. Mesmo se aprovada.

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Lei no Brasil nem sempre é lei. Ironicamente, há as que pegam e as que não pegam. E ninguém faz nada a respeito disso. Por exemplo: desde 1995, a lei 9.503 obriga o uso de cinto de segurança para o motorista e todos os passageiros de um veículo. Uma lei que pegou. Mas parcialmente: só vale para quem está nos bancos da frente. E não há santo que a faça viger para o assento traseiro.

Tudo que abunda não prejudica, diz o dito popular. Com as leis, vale o inverso. São tantas -- muitas delas contraditórias -- que, em vez de contribuir, não raro agem contra o cidadão.

Ninguém sabe com segurança quantas leis existem no país. Segundo o Grupo de Trabalho de Consolidação das Leis, instituído pela Câmara em 2009 -- até hoje com sua tarefa inconclusa --, o país acumula 1,7 milhão de leis. Dessas, 53 mil estariam em vigor. Levantamento feito pelo Instituto Brasileiro de Planejamento Tributário em 2008, quando a Constituição completou 20 anos, aponta que o país tem 3,7 milhões de normas jurídicas, uma média de 517 normas criadas por dia.

Existe lei para tudo. Há duplicidade e triplicidade de leis. Se tiver de cumprir todas elas o cidadão não se mexe. Só se mexem os que estão acima da lei.

Lei não é empecilho para quem, como o ex Lula dizia sobre o ex José Sarney, não pode ser tratado como “pessoa comum”. Ou para o próprio Lula, que não admite nem mesmo ser considerado como réu nos processos em que já foi denunciado. Para esses privilegiados, se toda a rede de proteção ameaçar falhar, tergiversa-se com a criação de novas leis em cima de leis que já existem.

É disso que se trata a punição ao abuso de poder de promotores e juízes que o presidente do Senado, Renan Calheiros, quer votar. Na verdade, legislação para tal existe há mais de 50 anos (lei 4898/65), com punições para servidores públicos de todos os níveis. Está, inclusive, sendo usada pelos advogados de Lula na queixa-crime que protocolaram no Tribunal Regional Federal contra o juiz Sérgio Moro. Prova cabal que a iniciativa de Renan não passa de tridente para espetar o MP e a Justiça, que já autorizou 12 investigações contra ele. Nada mais do que bravata cozida ao molho de ameaça.

A punição à corrupção de entes públicos também conta com um cardápio de leis claríssimas que, no máximo, poderiam ter suas punições apimentadas.

O mesmo acontece com o caixa 2 para campanhas eleitorais, como bem lembrou à época do julgamento do mensalão a ministra Cármen Lúcia, hoje presidente da Suprema Corte – “Caixa 2 é crime; caixa 2 é uma agressão à sociedade brasileira”. Agora, no bojo da discussão das 10 medidas anticorrupção, abriu-se uma brecha para o Parlamento introduzir um parágrafo, um artigo, ou uma simples alínea específica para punir a execrável prática. Uma criação perfeita para os criadores: duras penalidades para o futuro com o dom de perdoar o passado.

Enquanto os que fazem as leis buscam se proteger por meio de novas leis, a maioria que cumpre as leis convive com o Brasil sem lei, ditado pelos acima da lei.

Sobre escritas imóveis

1. Logo nas primeiras páginas de “A paixão segundo G. H.” (1964) Clarice Lispector nos apresenta uma sentença iluminadora: “Talvez desilusão seja o medo de não pertencer mais a um sistema. No entanto se deveria dizer assim: ele está muito feliz porque finalmente foi desiludido”. A personagem em transe no quarto de empregada nos indica uma saída vitalista para o sentimento que nos abate quando as coisas parecem ter chegado a impensáveis limites. Mesmo quando a desilusão nos deixa imóveis, ainda devemos inventar mundos. Até porque sabemos que o limite nunca chegará.

2. Alguns dos pensamentos mais radicais sobre nossos impasses foram traçados na literatura. Ela, aliás, permanece entre nós em seu estágio paradoxal de afasia e exuberância. Segue seu fluxo através de gerações e classes sociais. Em uma era de youtubers, a poesia ainda come tudo e a escrita se espalha em múltiplas plataformas. Mesmo com a hegemonia da imagem, um contrafluxo da palavra se faz presente. O livro, esse objeto ainda pulsante, está em pleno vigor através de novas editoras com diferentes vocações e propostas. Para quem escreve e trabalha com a literatura, sempre parece que algo imenso está ocorrendo e, simultaneamente, que isso não faz diferença para a cidade, o país e o mundo. As duas perspectivas, talvez, estejam certas. Mesmo crescendo, parecemos imóveis.

suggestiva biblio-arca!  [Michael Lassel, Die Arche]:
Michael Lassel, Die Arche
3. Aí você abre o livro — abrir livros em qualquer parte como se você pegasse fôlego para mergulhar no meio de um mar. E aí você encontra novamente G.H. lhe explicando que “o mundo só não me amedrontaria se eu passasse a ser o mundo. Se eu for o mundo, não terei medo. Se a gente é o mundo, a gente é movida por um delicado radar que guia”. Ser mundo é ser vasto nos mínimos gestos. A literatura é um mínimo gesto nos dias de hoje?

4. Lendo a obra de Franz Kafka, Walter Benjamin chama atenção para suas passagens velozes que vão do detalhe de uma cena ao destino da Humanidade. São trechos em que o crítico sugere uma narrativa que se move por “períodos cósmicos”. Movimentos de escritas em que a literatura ganha a espessura do mundo. Nas horas em que escrevemos (ou lemos), nos tornamos outros e perdemos os medos. Ou, pelo menos, ampliamos a perspectiva dos nossos problemas.

5. Até mesmo um personagem imóvel pode mover “períodos cósmicos”? Para o escritor mexicano Mario Bellatin, sim. Em seu livro de 2011 intitulado “Cães heróis”, temos no seu longo subtítulo esse desejo de mover o mundo através do mínimo gesto: “Tratado sobre o futuro da América Latina visto através de um homem imóvel e seus trinta pastores belgas malinois”. Quase funcionando como um resumo da história, o livro traz uma trama que envolve um enfermeiro-treinador de cães, além da mãe e da irmã do homem imóvel. Em uma rotina perturbadora vivida dentro de um quarto cujas visitas diárias dos trinta pastores belgas pontuam as relações complexas com o enfermeiro e sua família, o homem imóvel grunhe sons com um gancho de telefone preso em sua cabeça. Ele traz dentro de si uma obsessão: saber quantos pastores belgas malinois cabem dentro de uma nave espacial. Pede aos outros que recortem imagens de naves e cães para colar os segundos dentro das primeiras. Liga diariamente para a Central de Informações buscando esclarecer a questão cósmica — sem nunca ser atendido.

6. O homem imóvel tem na parede de seu quarto um grande mapa da América Latina. Algumas cidades apresentam círculos misteriosos que apontam os melhores lugares para se criar pastores belgas malinois. É ali que reside o mistério sobre o futuro de sua população. Os parcos visitantes que vão ouvir o especialista em cães se instalam na frente do mapa e “são levados a pensar no futuro do continente”. A obsessão do homem imóvel com o espaço sideral, porém, nos indica que ele pode estar de fato esperando uma invasão massiva de pastores belgas malinois extraterrestres. O futuro da América Latina, talvez, seja uma população de cães treinados e homens imóveis.

7. Mas não. O narrador nos afirma que uma memória de mais de 30 anos é o que realmente mantém vivo o homem imóvel. Quando pequeno, retirado dos braços de uma mãe incapaz de cuidar dele com o devido zelo e recolhido em instituições que se dedicavam a casos raros como o seu, ele recebeu em outubro de 1967 a visita de um menino que viu seus recortes de cachorros na parede e lhe disse que escrevia relatos sobre cães heróis. Após esse encontro decisivo, o homem imóvel quis para sempre rever o escritor e, principalmente, conseguir uma máquina de escrever. Faria uma escrita imóvel? Criaria uma imobilidade que escreve? Seja como for, ele nunca obteve seu objeto de desejo.

O futuro da América Latina são homens imóveis sem poder escrever suas histórias? São seres finalmente felizes na sua desilusão? São sobreviventes que esperam naves espaciais no meio do medo do mundo? São personagens cósmicos entre cães e baratas que nos arremessam no oco dos dias?

Homens imóveis do mundo, uni-vos em livros.

Fred Coelho

Ocaso de um ex

Prisão de Cunha e Garotinho mostra a evangélico que Deus não é 'full time'

No Rio de Janeiro, os três políticos mais identificados com o eleitorado evangélico são Marcelo Crivella (PRB), bispo licenciado da igreja Universal; Anthony Garotinho (PR), fiel da igreja Presbiteriana; e Eduardo Cunha (PMDB), adepto da igreja Sara Nossa Terra. Crivella acaba de se eleger prefeito do Rio. Garotinho e Cunha estão presos. Essa conjuntura demonstra que Deus existe. Mas não é ‘full time’.

Denominações religiosas que se opõem à Universal, igreja de Edir Macedo, tio de Crivella, se articulam para produzir novos candidatos. Avalia-se que Garotinho está condenado à decadência política mesmo que se livre da acusação de chefiar um esquema de compra de votos na cidade de Campos dos Goytacazes. Quanto a Cunha, teme-se que a Lava Jato o torne um ficha-suja, afastando-o das urnas.

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A despeito de seus alentados prontuários, Garotinho e Cunha se autoproclamam evangélicos desde a década de 1990. Em tempos de campanha, são auxiliados por uma legião de pastores, que fazem as vezes de cabos-eleitorais. Ambos utilizaram programas de rádio como palanques eletrônicos. Mais arrojado, Garotinho notabilizou-se por distribuir utensílios domésticos a donas de casa.

Ex-aliados, Garotinho e Cunha tornaram-se inimigos políticos. Um se refere ao outro como “ladrão”. Embora suas fichas indiquem que os dois talvez estejam certos, os líderes evangélicos que buscam novos talentos políticos não parecem preocupados com a debilidade ética, mas com a incapacidade momentânea da dupla de disputar espaço com Crivella e a sua Universal. Os supostos representantes de Deus fazem política com tal descompromisso moral que às vezes passam a impressão de que Ele não merece existir.

Começar de baixo, pelos municípios

Ninguém mora na União, nem no Estado, mas todos no Município. Ou no Distrito Federal. Quem assim dizia era o dr. Ulysses Guimarães. Para ele, as eleições municipais estavam no cerne das decisões nacionais.

Num período de tantas sugestões sobre a reforma política, a hora seria de o país voltar-se para reformular suas primeiras estruturas. Para começar, ampliando as atribuições dos prefeitos. Dando-lhes maiores obrigações em saúde, educação e segurança, claro que aumentando os recursos e evitando a superposição de tarefas nos estados e na União. “Sua Excelência o prefeito” ganharia mais encargos e, certamente, maior cobrança de seus eleitores.


A participação do cidadão comum na administração municipal seria o corolário da responsabilidade, com frequentes aferições do desempenho das autoridades municipais. Uma vez por ano, durante seus mandatos, os prefeitos responderiam por sua atuação, podendo receber votos de rejeição ou aprovação, mas votos mesmo, capazes de mantê-los ou despedi-los de suas funções. Às Câmaras de Vereadores caberia referendar a decisão, dentro de rigorosa vigilância da Justiça. Essa participação popular levaria o eleitorado a começar debaixo o exercício da cidadania. Custos haveria, ainda que compensados pela eficiência do julgamento.

Começar pelos municípios serviria para aprimorar o processo político, quem sabe levando a aferição de competência aos planos estadual e federal. Hoje, depois de árdua campanha, os eleitos ganham carta de alforria para fazer o que bem entendem, tendo sua performance apreciada apenas quatro anos depois, durante os quais a ninguém respondem.

...o teu sofrer, o teu penar

Schadenfreude (IPA: [/ˈʃɑː.dənˌfrɔɪ.də/], literalmente, alegria ao dano) é um empréstimo linguístico da língua alemã também usado em outras línguas do Ocidente para designar o sentimento de alegria ou satisfação perante o dano ou infortúnio de um terceiro.
Prenúncios sugeriam uma semana aguda. Como se não bastassem as já cansativas notícias dessa molecada autoritária, na prática títeres dispostos a atropelar o direito alheio para forçar a sanha de seus guias, o plenário da Câmara fora invadido por idólatras de militares — os mesmos que chegaram a organizar um ato em apoio a Donald Trump na Paulista. Isto tudo sem falar nos protestos pela extinção do Uber que tumultuaram a Alerj.

Pois azar dos prenúncios. Foi uma semana genial.

Capital do império e também federal, cidade que dita moda, modos e o sotaque ao restante do país, não é de hoje que o Rio de Janeiro está habituado a ser o centro das atenções. E mesmo assim, com tanto traquejo para momentos dignos de registro, em sua história política recente nada pode ser comparado às 48 horas em que dois de seus mais populares ex-governadores foram presos.


Dito isto, tanto Anthony Garotinho quanto Sérgio Cabral, sabidamente crápulas e cada vez mais próximos de terem suas famas confirmadas pela Justiça, nem de longe receberam a quantidade de apupos que merecem. Muito pelo contrário, bastou um canastrão chilique do ex-governador quando deixou o hospital para que aflorassem sinais de compaixão desmedida.

Decifrar o que leva o sujeito a nutrir ternura por políticos corruptos não é simples. Passado o estupor pelo inusitado da reação, e no meu caso também um profundo desconforto, comumente associamos este comportamento à cegueira provocada pela paixão política, à ignorância ou ainda à desfaçatez do dito cujo.

Não desta vez.

Arrisco-me a dizer, são duas as hipóteses em condições de destrinchar tão bizarra manifestação, robusta ao ponto de fazer o sujeito ignorar a dificuldade em pagar as contas no fim do mês, ou pelo menos de sensibilizar-se com os apertos do povo para seguir em frente: vaidade e identificação.

O primeiro deles é óbvio. Aparentemente desesperada por autopromoção e, quem sabe, ainda suspirando pelos tempos de adolescência, é cada vez mais comum a figura do indivíduo disposto a embarcar no primeiro discurso disponível desde que este lhe confira a capa da moralidade superior. E quanto mais improvável for a causa em questão, quanto maior for o alarido geral em reação ao posicionamento defendido, mais recompensador será o êxtase deste personagem.

Esta, porém, é a sugestão menos alarmante. Grave mesmo é constatar nosso apreço pela carteirada. Um cacoete ainda mais explícito em casos assim, quando estabelecemos conexão quem detém o poder.

Quando nos compadecemos pela figura maltrapilha de Garotinho sendo forçado a permanecer em uma maca, involuntariamente cedemos a uma espécie de reconhecimento. Não com próprio, claro, mas com o chefia. Endossamos ainda que sem perceber, insisto, o famigerado questionamento: você sabe com quem está falando?

Está tudo certo, nenhum cidadão deve sofrer com ilegalidades, mesmo políticos corruptos quando estiverem sendo presos. Aliás, principalmente nessas horas, sob pena de favorecer artimanhas com o intuito de contornar suas penas. Entretanto, não cabe a tentativa de desumanizar um sentimento tão sincero quanto o apreço do cidadão pela derrocada de seus algozes.

Cabe, isto sim, agradecer a cada uma das instituições que estão dando provas de absoluto compromisso com o país, apoiar suas operações com nomes pitorescos e fiscalizar a classe política desesperada para obstruir a Lava-Jato.

E festejar muito. Sem culpa.

Domingo é alegria

Inveja

Dizem que ela mata. Triste morte. Otimistas de nascença afirmam que, se bem-dosada, estimula. Mas sem dúvida adoece aos que dela se inoculam, envenenando suas vidas, à medida que impotentes assistem ao sucesso alheio. Numa inversão kafkiana, sucesso vira pecado capital, enquanto inveja, um indulto ao bem viver.

Os invejosos ganharam. Tomaram de assalto as redes. Insignificantes, se agigantam desafiando ídolos, odiando ícones da cultura, das artes, dos esportes e de todas as áreas públicas. Odeiam, caluniam, mentem, quando estão escondidos em falsos perfis, nomes e blogs. Eles são chamados de “haters”, “ciberterroristas”, “vaiadores de intimidades alheias”, “hackers”, e por aí vai…

Inveja é paralisante, viciante e delirante. O invejoso não vive a própria vida. Ele vigia a do outro. Deseja muito o insucesso de quem no fundo admira, embora odeie e jamais admita isso. Incapaz de conquistar, o invejoso torce, vibra com o fracasso do seu alvo. Ele saliva com a possibilidade da derrocada de quem está acima na pirâmide social. Sádico, quer ver ao vivo a tragédia, a morte e a falência do "amigo", do irmão, do colega de trabalho. É como uma carpideira, aquela que mais chora as lágrimas de crocodilo no velório, enquanto, na esquina próxima, solta uma piada imprópria ou uma fofoca do defunto ainda fresco.

A inveja impede a paz de espírito, a valorização de si mesmo, o usufruto das próprias vitórias. De tanto ter o outro como parâmetro, o invejoso deixa ou esquece de construir os próprios sonhos. Deixa de curtir o mundo que está a seu lado, de escrever sua própria história. Ele quer ser o ator na ribalta, mas paga um ingresso caro pelo prazer de vaiar.

...:
É triste saber que herdamos esse traço. A inveja é tão antiga quanto humana e, se investigarmos comportamentos animais, lá estará essa característica. Talvez negar a inveja seja uma armadilha que nos condenará a um confronto com nosso orgulho, com nossa vaidade, com nossa arrogância e com nossa falsa humildade.

O que proponho é que possamos nos diagnosticar quando estamos sendo infectados pela inveja em cada ação ou local que frequentamos. Olhe a seu redor, em seu ambiente de trabalho. Abra o seu coração. E aí, sente inveja? Aproveite um encontro familiar, o Natal, o Réveillon... quem sabe? Sente uma ponta da inveja do primo, do tio, do irmão, da cunhada? E na praia? Na piscina? No Facebook, no Instagram. Sei lá…

Quanta gente existe mais jovem, mais rica, mais inteligente e mais poderosa que você, não é?! E quantos mais feios, mais ferrados, mais acabados, mais infelizes... Concorda?

Somos únicos, incomparáveis, escrevendo nossa própria história. E dela cuido eu da primeira à última linha. É meu dever e arbítrio. Um dia, se me tornar maduro e sábio, quem sabe transmutando inveja em admiração, não poderá você, amigo e leitor, sentir a alegria que o vencedor sente? Saborear o sucesso dos bem-sucedidos.

É indescritível o prazer de compartilhar a energia positiva dos que constroem. Assim como é doentio o sadismo de reagir destruindo o altruísmo, o humanismo e a fraternidade.

A Força dos diabos

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Toda a política se reduz a isto: aquele que tem a força ou que julga tê-la, pode fazer o que quiser
Paul Valéry

O rabo de foguete

O presidente nacional do PPS, Roberto Freire, ao assumir o Ministério da Cultura, segurou um rabo de foguete maior do que a crise armada pelo pedido de demissão de Marcelo Calero, diplomata de carreira que comandava a pasta, após uma trombada com o secretário de Governo, ministro Geddel Vieira Lima. O episódio desnudou dois dos grandes conflitos que envolvem a gestão da pasta: o choque entre a cultura tradicional nordestina e a urbana contemporânea, envolvendo o eventual veto do presidente Michel Temer à nova lei que regulamenta a vaquejada, tema da versão inicial do Palácio do Planalto à saída de Calero; e a especulação imobiliária nas áreas de preservação do patrimônio histórico e arquitetônico nacional, cujo estopim foi o escandaloso lobby de Geddel, em Salvador, para liberar a construção de um prédio acima do gabarito, no qual comprou um apartamento, verdadeira razão do pedido de demissão.

Em circunstâncias normais, tudo seria resolvido com duas canetadas: a sanção da lei que normatiza e preserva a tradição sertaneja; e o veto à construção da torre de 30 andares, para preservar o patrimônio histórico e urbanístico de Salvador. O rabo de foguete, porém, é muito maior. Além dos interesses econômicos envolvidos nessas questões, existe um grande contencioso entre o mundo artístico e cultural e o governo Temer, em razão do impeachment da presidente Dilma Rousseff. Quando o ex-deputado Hélio Bicudo e a professora Janaína Paschoal entraram com o pedido, Freire os procurou para articular o apoio dos partidos de oposição à proposta.

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Veremos uma queda de braços entre Juca Ferreira, ex-ministro da Cultura dos governos Lula e Dilma, que nunca desencanou da pasta, e o novo ministro da Cultura. Isso já acontecera com a senadora Marta Suplicy, no primeiro mandato de Dilma, e com o próprio Calero, quando assumiu a pasta, após o presidente Michel Temer ser efetivado no cargo pelo Congresso. A Cultura é um terreno minado, que envolve grandes interesses privados e muita verba pública. Artistas e produtores culturais não podem ser apenas a massa de manobra desses interesses.

No Brasil, desde o governo de Getulio Vargas (1930-1945), há uma forte relação entre o Estado e o mundo da cultura. O maior exemplo está justamente na área de preservação do patrimônio, com a criação do Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Sphan), reivindicada desde a década de 1920 pelos intelectuais modernistas, que lutaram pela eservação das cidades históricas, principalmente por causa do barroco mineiro. Na mesma época, foram criados o Instituto Nacional de Cinema Educativo (Ince), o Instituto Nacional do Livro (INL) e o Conselho Nacional de Cultura, todos subordinados ao Ministério da Educação e Cultura. Nos anos 1970, foi criada a Secretaria de Assuntos Culturais, com duas áreas de atuação: uma patrimonial (Iphan e Pró-Memória) e outra de produção, circulação e consumo da cultura (Funarte). Em 1985, o presidente José Sarney finalmente criou o Ministério da Cultura, para o qual foi nomeado um político querido no meio artístico e cultural: o mineiro José Aparecido de Oliveira.

O atual Ministério da Cultura é uma construção de Gilberto Gil, o ministro cantor de Lula, que havia se preparado para o cargo pelas vicissitudes da vida, como compositor e músico, político ambientalista (PMDB e PV) e administrador formado pela Universidade Federal da Bahia. Desde a Tropicália, esteve na vanguarda musical do país; seu ativismo político levou-o à prisão e ao exílio na década de 1970. Juca Ferreira era seu braço direito na política. Gil promoveu uma ruptura com a gestão modernizadora de Francisco Weffort, que fora muito contingenciada pelo ajuste fiscal no governo de Fernando Henrique Cardoso.

Além de estabelecer a atual estrutura do Minc, Gil fez alterações radicais na lei de incentivo à cultura. Criou as secretarias de Políticas Culturais, de Articulação Institucional, da Identidade e da Diversidade Cultural, de Programas e Projetos Culturais e a de Fomento à Cultura, em sintonia com o projeto de poder do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e sua projeção internacional. Do ponto de vista da política cultural, adotou-se o conceito de “hibridização” no lugar da tradicional divisão entre cultura erudita, popular e de massas, mas isso não foi levado à prática.

Na gestão de Juca Ferreira, o novo conceito foi apenas um pretexto para a distribuição de recursos com objetivo de cooptar produtores, agentes e gestores culturais, além de artistas e intelectuais, para o projeto petista, o que foi feito com relativo sucesso. Uma certa esquizofrenia na relação entre eles e o chamado mercado cultural, cujo melhor exemplo são os artistas da TV Globo. Muitos gritam “Fora, Temer!” como uma forma de não serem “patrulhados”, nem passarem por situações como a enfrentada pelo jornalista Caco Barcelos, agredido por manifestantes no Rio de Janeiro na semana passada durante a produção de seu programa. Num ambiente político muito radicalizado e maniqueísta, duas questões estão no centro da pauta cultural: a sua diversidade e a economia da cultura.

Nem imunes, nem impunes

 Garotinho Cama Hospital Ministra do TSE determina retorno de garotinho a hopital
O roubo não explica todo o rombo. A má gestão dá indigestão nos estados. Mas acabar com a imunidade e a impunidade é um bom começo. Um bom presságio
Ruth de Aquino

Hora de avanço no parlamento

O sistema de representação está com a imagem nas profundezas do descrédito. Mesmo aceitando-se a ideia de que a produção legislativa é densa, pontilhada de projetos de alto interesse para o país, como a aprovação da PEC dos gastos, a lei da repatriação, a renegociação da dívida dos Estados, a abertura da exploração do pré-sal, a PEC dos precatórios e outros temas que entrarão em breve na agenda, como a reforma da Previdência e a modernização da legislação trabalhista.

Na verdade, a péssima imagem do Poder Legislativo deriva, em grande parte, da vinculação de atores políticos aos esquemas de corrupção, objeto da Operação Lava Jato. A saída do deputado Eduardo Cunha do comando da Câmara dos Deputados não foi suficiente para amenizar a apreciação negativa que a população tem dos representantes.

Ademais, nas últimas semanas, as matérias em discussão no Senado, que teriam como fundamento aliviar a situação de pessoas e empresas envolvidas nas investigações sobre desvios – Lei do Abuso de Autoridade, Acordo de Leniência etc -, contribuem ainda mais para deteriorar a imagem da representação.

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É bem verdade que o Legislativo se esforça para deixar de ser um poder invertebrado, manobrado, predisposto a convalidar posições dos outros Poderes. Mas conserva certa razão a crítica de que a judicialização da política ocorre na esteira da omissão do Parlamento sobre matérias de alto interesse, o que abre condições para o Judiciário legislar. (Quem não se lembra que, por falta de clareza normativa, foi o Supremo que decretou a “morte” da cláusula de barreira, esse dispositivo que volta ao debate no bojo da reforma política e que é fundamental para a racionalização da vida partidária?)

O fato é que o corpo congressual, ao deixar de legislar sobre importantes temáticas, abre espaço para a Suprema Corte dar a sua interpretação sobre a Carta Magna, suprindo, assim, a ausência de leis infraconstitucionais.

Já o presidencialismo de cunho imperial começa a receber tratamento inusitado por parte do presidente Michel Temer. Ao decidir governar com o Parlamento, ele institui um estilo de governo compartilhado, uma espécie de “semi-parlamentarismo”.

Por seu perfil de conciliador e pela larga experiência no Parlamento, tendo sido três vezes presidente da Câmara, compreende a necessidade de dividir o poder do Executivo com o Legislativo. Dessa forma, provê o conceito de que partilhar o poder não significa apenas distribuir cargos com aliados, mas transferir e delegar decisões sobre políticas públicas.

Essa visão difere completamente do estilo petista de governar, centrado na ideia de não ceder aos aliados decisões sobre programas de governo.

Em suma, os representantes no Parlamento têm se omitido em matéria legislativa, não preenchendo vazios deixados pela Carta de 88. Há inúmeros aspectos ainda em aberto no aguardo de marcos regulatórios. Se não há regra explícita, o Judiciário põe a mão na massa, interpreta a lei e adentra o terreno legislativo.

A constatação de que a representação política tem se apequenado desmonta a equação tripartite do barão de Montesquieu. O Poder Legislativo é formado por representantes do povo soberano; por conseguinte, a lei constitui um produto direto da democracia representativa.

E os juízes? Ora, segundo o autor de O Espírito das Leis, constituem “senão a boca que pronuncia as palavras da lei, seres inanimados que não podem moderar-lhe a força nem o vigor”. Resulta como pa­radigma liberal do Estado de Direito a submissão do Judiciário à lei e, nesse caso, sob o abrigo do Parlamento, já que este Poder exprime a vontade geral.

Ao longo do tempo, as funções clássicas dos Poderes foram se distinguindo de funções atípicas, passando a dominar, cada um, escopos delimitados nos campos legislativo, administrativo e judiciário. Nem por isso a invasão do espaço de um Poder por outro deixa de ocorrer. Quando há espaços não preenchidos por falta de legislação, a invasão acontece de maneira natural. Justificativa: preservar a vida institucional.

O Poder Legislativo amorteceu tanto sua força que na atualidade receia legislar, por exemplo, sobre temas que podem ser entendidos como afrontamento ao Judiciário ou ao Ministério Público. É o caso da Lei de Abuso de Autoridade, acima citada. Trata-se de instrumento que pode servir ao aperfeiçoamento das instituições na medida em que define limites e evita situações arbitrárias.

Mas, no ciclo de intensas investigações em que o país vive, uma lei com o escopo de traçar limites aos procuradores, juízes ou policiais federais, pode ser considerada como tentativa de esmaecer a tarefa de procurar a verdade, defender a sociedade e fazer justiça.

Hoje, apenas 5% dos brasileiros acham que os parlamentares merecem confiança. Esta imagem desgastada do Parlamento é velha. Na tribuna, Rui Barbosa, em junho de 1899, descrevia “um Congresso de mendicantes, janízaros do chefe do Estado e de agentes de negócios dos governadores. Em suma, a decomposição parlamentar na sua extrema fase”.

Onde está a saída para o Parlamento resgatar seu vetor de força? Disposição para mudar de atitude. Como? Avançando em matérias altamente prioritárias. Reforma política é uma delas.

Há um sentimento de que os parlamentares temem avançar em temas complexos. Agem de maneira corporativa. Veja-se a cláusula de barreira. É instrumento de moralização da política. Não se pode permitir que um partido sem votos exista e tenha direito a recursos do fundo partidário e a espaços na mídia eleitoral. Muitos acabam servindo ao interesse de grandes partidos.

Invoca-se o fator ideológico dos pequenos partidos. Ora, que ideologia é essa que não consegue cooptar simpatizantes e militantes? Por que não se juntam em uma Confederação de Partidos?

Resumo do imbróglio: a imagem do Parlamento depende da ação de seus participantes. Sem reforma da política, não haverá luz no fim do túnel.

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The Art Of Animation, Kentaro Kanamoto:
Kentaro Kanamoto

Os males da corrupção

A edição do Estado de domingo passado trouxe mais uma reportagem da série A Reconstrução do Brasil, desta vez tratando do combate à corrupção. Mais do que um assunto entre outros da agenda nacional, pôr fim à impunidade é uma necessidade prioritária, já que a corrupção afeta negativamente todas as esferas da vida da sociedade e do Estado.

A corrupção não é um mal menor. Ela aumenta a desigualdade social, afasta os investimentos, piora o ambiente de negócios, dificulta a criação de empregos, prejudica a qualidade dos serviços públicos, entre outros danos.

Faz-se necessário relembrar os males da corrupção, pois – de forma similar ao que ocorreu nos anos 1960, com o bordão “rouba, mas faz”, dos apoiadores de Ademar de Barros, ex-governador de São Paulo – observa-se atualmente nova tentativa de justificar a corrupção. “Com a descoberta do mensalão, em meados da década passada, e de maneira mais enfática agora, com o petrolão, um contingente expressivo de militantes e simpatizantes do PT fechou os olhos para as acusações de corrupção sofridas pelo partido e continuou a apoiá-lo, com o argumento de que o principal é o que ele faz pelos mais pobres. Numa adaptação livre do velho bordão de Ademar, é como se dissessem que o PT ‘rouba, mas distribui’. Ou, então, que ‘rouba, mas faz obra social’. Na essência, são duas maneiras semelhantes de tentar justificar o mesmo fenômeno, que contamina o País e afeta a vida dos cidadãos e das empresas – a pilhagem de dinheiro público”, dizia a reportagem de José Fucs.

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Felizmente, nas ruas e nas urnas, a população não tem concordado com esse tipo de lassidão ética, manifestando clara oposição a qualquer sinal de tolerância com a corrupção. Sintoma desse cansaço com a impunidade é a adesão popular a toda proposta de combate à corrupção, como se viu com os mais de 2 milhões de assinaturas a favor das medidas anticorrupção propostas pelo Ministério Público Federal. Mais do que um aval definitivo e integral ao conteúdo da proposta – que exige cuidadoso estudo pelo Congresso Nacional –, o massivo apoio indica o grau de ojeriza da sociedade em relação à corrupção.

O clamor social pelo fim da impunidade não é uma reação histérica ou desproporcional. As investigações da Lava Jato dão inequívocas mostras de como a corrupção se instalou no Estado brasileiro, permeando de forma sistemática as relações entre a administração pública, os partidos políticos e a iniciativa privada. Segundo a Polícia Federal, o propinoduto montado na Petrobrás, envolvendo PT, PMDB e PP, deixou um prejuízo de R$ 42,8 bilhões.

Um estudo do Fórum Econômico Mundial indicou que o Brasil só fica à frente da Venezuela e do Chade, empatado com a Bolívia, na lista dos países mais corruptos do mundo. E os números internos corroboram a classificação internacional. Segundo estimativa da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), feita em 2010, as perdas geradas por corrupção no País alcançam entre 1,38% (R$ 80 bilhões) e 2,3% (R$ 140 bilhões) do Produto Interno Bruto (PIB).

“Em comparação com outros países, a corrupção no Brasil é bem diferente, por ser altamente concentrada na esfera política”, afirmou o professor Matthew M. Taylor, da Universidade Americana, em Washington, nos Estados Unidos. Longe de significar uma desculpa para a corrupção – coisa que, de forma nada isenta, agora desejam os adeptos do lulopetismo –, sua proximidade com a esfera política revela a profunda injustiça social que comporta todo e qualquer desvio de dinheiro público.

Ao diminuir a eficiência do setor público e desviar recursos dos contribuintes do destino que deveria ser dado a eles, a corrupção prejudica especialmente quem mais precisa dos serviços públicos. Por exemplo, ela afeta a qualidade da escola pública e do sistema público de saúde dos quais mais dependem os que dispõem de menos recursos. O combate à impunidade não é, portanto, uma bandeira elitista. Deve ser uma prioridade para todos que anseiam pela reconstrução do Brasil.

Editorial - Estdão

Tratamento policial a 'político' é exagero

Por que só o "exagero" na detenção preventiva de políticos, "instrumento jurídico excepcional", mas dentro da lei, provoca tanto bla-bla-blá de um tal comprometimento da vida democrática? Há o mesmo estardalhaço, e ganha até editoriais, quando o detido é tão cidadão, ficha limpa, quanto o político, no caso quilometricamente suja? 

Choram nas pretinhas contra uma certa violência e exposição dos tais detidos políticos com a mesma virulência com que bajuladores da lama na roupa dos nobres. Tudo em nome da vida democrática (brasileira, é claro).

O que não se vê é a mesma retumbância vernácula, no dia a dia, quando a vida democrática do cidadão é vilipendiada por atos desses mesmos tão imaculados. Será que seus delitos tão mais graves merecem uma outra Justiça só porque corre neles o sangue azul da nobreza política?

Bem pode ser. Aqui, há uma diversificada nobreza republicana imperando sobre a multidão de vassalos, que a sustenta em comes, bebes e crimes.
Luiz Gadelha

O camburão

Fosse eu o presidente da república, em minúsculas mesmo, estaria sim preocupado com os acontecimentos. Em primeiro lugar, sua única meta passou a ser ameaçada pelas contingências. Tirar o Brasil da crise é aparentemente simples, mas exige algo que ele não tem e vai jogando fora quando pode: credibilidade. Os índices de confiança num país que rouba até centavos dos seus aposentados subiram um pouquinho em meses anteriores, aliviados pelo impeachment da mulher barbada do palácio. Evidente que isso não bastou.

Era a prisão dos ladravazes, que inundaram o país de lama, a centelha de confiança de que o país precisava para mudar de rumo. Ao declarar que prefere o maior bandido de todos os tempos solto, por medo, Michel Temer vai mostrando de que lado está. De um lado que não vai conseguir enganar a plebe rude por muito tempo. Seriam necessárias mais que gomalina no cabelo, mesóclises e a tal temperança elegante para convencer o país a abandonar a guerrilha e voltar para o batente.

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Primeiro camburão surgiu em 1904 em Curitiba
O Rio de Janeiro é o primeiro e mais visível exemplo do que é ser governado e extorquido por bandidos, até o talo. Um Estado falido, sem dinheiro para honrar seus compromissos a na beira de uma crise sem precedentes, por não poder pagar pelo péssimo funcionalismo público que contratou, todo esse tempo. Um ex-governador celerado, exigindo ser transferido de Bangu para o Copa D’Or é o que temos pra hoje, naquela cidade, um dia, maravilhosa. O engraçado da coisa é que, aparentemente, forças opostas pelo vértice – uma ideologia tacanha – se reuniram para invadir o Congresso e atacar a Alerj, no Rio de Janeiro.

Tanto faz, percebem? Um governo que não agrada gregos nem baianos está a um passo de que todos se unam de novo para tirá-lo de onde está. Sabermos que mais da metade do Congresso é denunciada numa operação policial, que se esforçam para aprovar leis que livrem seus rabos sujos da punição iminente, que juízes em Berlim se esbaldam em supersalários que não deixam dúvidas de que estão de qualquer lado, menos do lado da lei, mostram de forma inequívoca que este governo que mal começou, já acabou.

Sinceramente? Mais uma vez eu queria que minha dissensão fosse meramente ideológica. Não é. É de caráter. De moral. De ética. De perceber que só poderíamos ser governados por bandidos de uma facção com a cumplicidade, cobertura e falta de oposição de todas as demais. A Lava Jato explicou tudo. Pro camburão com todos eles. Não vai sobrar nenhum.