quinta-feira, 15 de setembro de 2016

Falta Dilma

Perpexlos e assustados, deputados, senadores e juristas se indagavam ontem à noite em Brasília em diversas rodas de conversas: o que mais poderá acontecer depois da mais contundente e arrasadora denúncia jamais oferecida pelo Ministério Público Federal contra um político?

Referiam-se menos à denuncia por corrupção contra Lula, e mais, muito mais, aos termos empregados pelos procuradores da República no ato de apresentá-la. Estavam chocados. E propensos a acreditar que a Lava Jato atingiu seu cume.

Foi um espetáculo digno de ser encenado na Praça da Apoteose do Sambódromo, no Rio de Janeiro. Depois dele, por mais que a Lava Jato ainda posse durar, a tendência é de que ela se esgote. E que os procuradores de dispersem aos gritos de “já ganhou, já ganhou”.

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Talvez não seja assim. Falta alguém em Curitiba. E esse alguém pode ser a ex-presidente Dilma Rousseff. Ela já foi citada por delatores. E por mais que se diga honesta, honestíssima, e por mais que ninguém tenha ousado até aqui duvidar de sua honestidade, ela está sendo investigada.

Não só pelos procuradores acampados em Curitiba, mas também por aqueles que obedecem às ordens de Rodrigo Janot, Procurador-Geral da República. Ela e Lula, por exemplo, foram denunciados por Janot por tentativa de obstrução da Justiça.

Segundo Janot, esse é o crime no qual eles incorreram quando Dilma, às pressas, nomeou Lula ministro-chefe da Casa Civil da presidência da República para livrá-lo de uma eventual prisão decretada por Moro. Na denúncia, Janot aponta Lula como o líder de uma organização criminosa.

De Dilma, na delação premiada que negociou, o marqueteiro João Santana disse que ela sabia, sim, que dinheiro desviado do saque à Petrobras pagara despesas de sua campanha à reeleição. Marcelo Odebrecht está disposto a confessar que pagou despesas de Dilma com dinheiro sujo.

O ex-senador Delcídio Amaral, então líder do governo no Senado, contou que advertira Dilma sobre o uso de dinheiro ilegal em sua campanha. E que a pedido dela, peitou um ministro do Superior Tribunal de Justiça para votar a favor da libertação de Odebrecht.

A compra da refinaria de Pasadena, nos Estados Unidos, causou grave prejuízo à Petrobras, bem como a compra de plataformas para extrair petróleo do fundo do mar. Dilma era presidente do Conselho de Administração da Petrobras quando parte desses negócios foi feita.

Ela de fato ignorava que esses e outros negócios serviram para irrigar os bolsos de diretores da empresa e de políticos, e os cofres de partidos? Ela era tão desinformada assim, logo ela dada a minúcias e a meter-se com tudo, que simplesmente não sabia o que se passava ao seu redor?

Foi Lula que nomeou os diretores da Petrobras personagens do petrolão. Dilma não sabia a quem eles serviam, e para o quê? O cortejo da Lava-Jato ainda está distante da Praça da Apoteose.

Dilma foi 'saída', Cunha cassado. E os outros?

O mês do desgosto terminou com o chutaço na ex-presidente e setembro mal começou com uma acachapante humilhação do ex-capo da Câmara. E veio a quarta-feira espetaculosa do MPF, de três horas, mais concorrida do que abertura olímpica.

Lula, o estranho na posse da nova presidente do STF junto com outros eméritos detentores de inquéritos, na mesma semana viu-se também empossado como Chefão da 'Propinocracia' . Os procuradores federais denunciaram ao mundo o nome há muitos anos conhecido como o capo di tutti cappi. Não foi novidade no país, hoje, o mais corrupto do universo.
A conta chega para todo mundo. Essa fila ainda vai andar
Ex-senador Delcídio Amaral


Mas há uma enorme diferença entre afastamento, cassação e denúncia e efetivamente a punição e o ressarcimento do roubo. Os crimes são conhecidos e a lentidão judiciária caminha a passos de tartaruga, quando não tropeça nas chicanas armadas pelo caminho.

O Brasil pode exibir com vergonha o maior mural da corrupção, mas precisa agir rapidamente para que se cumpra a lei quanto à politicanalha que impera no país. Ações televisivas de altos ibopes não matam a fome de justiça.

Enquanto as 'penas' aos políticos, a massa dos envolvidos, ficarem apenas em processos se arrastando pelas prateleiras será um estímulo à roubalheira geral e irrestrita em todos os níveis de governança. A Justiça tem que agilizar a assepsia para que a roubalheira, já profundamente entranhada, não se torne um sistema crônico no jeito Brasil de governar.
E Viva a Farofa

Casa da moeda

Comercializa-se de tudo no Legislativo: relatórios de CPIs, contrabandos em medidas provisórias… 
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Vendem-se almas no varejo e a consciências no atacado. Só não há na gôndola do Parlamento um tipo de mercadoria: honra. Os 10% que ainda prezam a própria honra não vendem. Os outros 90% topariam vender até a honra, mas não têm como oferecer certificado de garantia
Josias de Souza

As orelhas ardem

Na sessão de posse da ministra Cármen Lúcia na presidência do Supremo Tribunal Federal, o ministro Celso de Mello, decano do STF, disse em discurso: "Fatos notórios [...] revelaram que se formou, em passado recente, no âmago do aparelho estatal e nas diversas esferas governamentais da Federação, uma estranha e perigosa aliança entre determinados setores do Poder Público, de um lado, e agentes empresariais, de outro, reunidos em imoral sodalício com o objetivo ousado, perverso e ilícito de cometer uma pluralidade de delitos profundamente vulneradores do ordenamento jurídico instituído pelo Estado brasileiro".

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Fernando Pimentel, governador de Minas, e os exs Lula e José Sarney
E continuou: "A corrupção traduz um gesto de perversão da ética e do poder e da erosão da integridade da ordem jurídica, cabendo ressaltar que o dever de probidade e de comportamento honesto e transparente configura obrigação, cuja observância impõe-se a todos os cidadãos desta República, que não tolera o poder que corrompe nem admite o poder que se deixa corromper".

O procurador-geral da República, Rodrigo Janot, também discursou: "Os trabalhos de investigação desenvolvidos na Lava Jato conduziram-nos por caminhos ainda não percorridos. Descobrimos a latitude exata do entroncamento entre o submundo criminoso dos políticos e o capitalismo tropicalizado do compadrio, favorecimento e ineficiência".

E mais: "As forças do atraso, que não desejam mudança de nenhuma ordem, já nos bafejam com os mesmos ares insidiosamente asfixiantes do logro e da mentira. Tem-se observado diuturnamente um trabalho desonesto, de desconstrução da imagem de investigadores e juízes. Atos midiáticos buscam ainda conspurcar o trabalho sério e isento desenvolvido nas investigações da Lava Jato".

Sentados ao redor deles, com as orelhas em fogo, o ex-presidente Lula e seus confrades.

Soube que vocês nada querem aprender

illustration. Would be awesome and humorous if it was actually put on a box of uncooked spaghetti noodles:
Soube que vocês nada querem aprender 
Então devo concluir que são milionários.
Seu futuro está garantido – á sua frente
Iluminado. Seus pais
Cuidaram para que seus pés
Não topassem com nenhuma pedra. Neste caso
Vocês nada precisam aprender. Assim como estão
Podem ficar.

Havendo dificuldades, pois os tempos
Como ouvi dizer, são incertos
Vocês têm seus líderes, que lhes dizem exatamente
O que têm a fazer para que fiquem bem.
Eles leram aqueles que sabem
As verdades válidas para todos os tempos
E as receitas que sempre funcionam.
Onde há tantos a seu favor
Vocês não precisam levantar um dedo.
Sem dúvida, porém, se fosse diferente
Vocês teriam muito o que aprender.

Bertolt Brecht

'É uma estupidez não ter esperança e um pecado perder a esperança'

Equilíbrio é a chave.:
O ex-deputado e ex-presidente da Câmara Eduardo Cunha teve destino semelhante ao da ex-presidente Dilma. Ambos ainda estão sob a mira de investigações. O ex-todo-poderoso Cunha responde a dez ou mais processos e já se tornou réu em dois deles. Dilma foi impedida, mas, por ora, se livrou da pena de inabilitação para função pública. Cunha acabou no sereno e terá graves problemas pela frente. Haja advogado para defendê-lo! Dilma ainda terá que se explicar muito. Além de presidente do Conselho da Petrobras, foi ministra de Minas e Energia. A compra da refinaria de Pasadena é um de seus pesadelos.

E a situação de Michel Temer? À frente dos destinos deste sofrido e controvertido país, no qual minha geração tem sido mais vítima do que algoz (não estou fugindo da parcela de culpa que nos cabe), e tendo em vista o imoral “jeitinho brasileiro”, nada indica que, daqui para a frente, contará com céu de brigadeiro. Muito ao contrário.

Antes integrante da base política do governo Dilma Rousseff, e perfeitamente ciente, como seu vice-presidente duas vezes, do que vinha sendo feito contra o país pelo governo da desastrada e despreparada presidente, Temer só tem uma saída: convencer-se de que possui em mãos uma chance única e histórica, que exige dele não só trabalho e coragem, mas, sobretudo, superação no exercício do cargo que, a partir de 2019, terá que passar ao candidato eleito pelas urnas.

As manifestações de “Fora, Temer”, ocorridas a mãos-cheias, só confirmam o porte do risco de ser, hoje, presidente de um país conflagrado e, o que é pior, empossado depois de um processo traumático como é o impeachment, que se tornou mais traumático por ter sido conduzido por um deputado moralmente destruído e finalmente cassado. Minimizá-las, como fizeram ele próprio e alguns de seus auxiliares diretos, não é apenas inegável soberba, mas burrice mesmo, inadmissível sob todo aspecto. Afinal, por onde anda sua experiência?

A sensação de alívio consequente do afastamento de uma presidente que não mais reunia condições para governar, que se viu em muitos setores no país, até mesmo dentro do PT, por si só, vale pouco. E vale menos ainda, por outro lado, a quase certeza de que, nas mãos do presidente hoje efetivado, o país corre muito menos risco do que correria se o impeachment não tivesse sido aprovado no Senado.
Temer tem que provar, por atos, que a desmoralizada esquerda populista que, nesses últimos 13 anos, quis tomar conta do Brasil, e sempre inebriada pela tentação totalitária, apesar de um ou outro mérito que possa ter tido, precisa ficar para trás e rapidamente dar lugar a uma nação efetivamente democrática e socialmente justa.

Seria oportuno que Michel Temer afixasse, na porta do gabinete no Palácio da Alvorada, uma placa com a seguinte frase, dita pelo então candidato a presidente Eduardo Campos: “A velha política vai morrer, e quem não mudar vai morrer junto com ela”. Alguma dúvida?

Se eu tenho esperança em nosso país?

Cito o personagem Santiago, de Ernest Hemingway (“O Velho e o Mar”), lembrado por Roberto DaMatta, em artigo (“O velho e a política”) no jornal “O Globo”: “É uma estupidez não ter esperança, pensou. Além disso, acho que é um pecado perder a esperança”.

Se isso não nos basta, reacendo-lhe o ânimo, leitor, com as palavras da ministra Cármen Lúcia: “O tempo é de esperança. Quer-se um país mais justo, e é imprescindível que o construamos”.

quarta-feira, 14 de setembro de 2016


Deficiência e milagre

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Basta olhar ou ouvir o noticiário para ver como somos devedores, desonestos, ineficientes, autodepreciativos, pessimistas, inábeis, fingidos e deficientes na constituição da nossa vida pública. A maioria tem o sentimento de que está tudo errado. Não há, porém, suicídio ou emigração em massa porque quem sabe ler e escrever tem a vida “arrumada”. E o orgulho da Olimpíada dos atletas deficientes – esses verdadeiros heróis de nossos tempos.

Temos casa, família e um dinheirinho no banco. Residimos num bairro, há o carro, vimos um pouco do mundo, funcionários públicos ou aposentados. Somos “arrumados” porque éramos imunes ao “governo” e, ao lado disso, não tomávamos conhecimento do Brasil como uma comunidade com território, leis universais, moeda e projetos e valores com os quais havia algum acordo. O maior deles sendo, provavelmente, essa imunidade que só atingia os “pobres” e não nós, “cidadãos”: os “arrumados”.

Mas o mundo e esse Brasil abstrato ficaram menores. Eles encolheram e nós, paradoxalmente, crescemos e verificamos que se não era possível resolver todos os problemas, porque eles existiam em toda parte, algumas mazelas podiam ser controladas e até mesmo resgatadas.

Como não estranhar a não existência de desigualdades vergonhosas em alguns países em confronto com a nossa vivência diária em meio a cidades nas quais basta olhar para cima para ver a miséria que cresce em vez de diminuir? Como não achar que há algo errado no nosso sistema educacional, quando pagamos escolas primárias caríssimas, mas temos um ensino superior gratuito ao qual, obviamente, tem mais acesso quem está “arrumado”? Como não enxergar que confundimos governar gerenciamento público com “política” no seu mais baixo sentido – como mentira e roubalheira em nome do povo e dos pobres?

Em suma, como não considerar que continuamos acreditando nas fórmulas feitas e não em ações diretas e concretas? Será mesmo possível continuar arrumadinhos e em casa, mas sendo assaltados e agredidos na rua por batedores de celulares e relógios e, em Brasília, por ladrões de fundos de pensão? A menos, é claro, se formos aposentados do governo federal, altos funcionários com a “vida garantida”. Acho que é tempo de meditar que essa “vida” está prestes a ruir com a crise que já entrou nas nossas casas.

Até quando a casa vai ser refratária à rua?

De portas fechadas ao que ocorre lá fora, por que todo o nosso desenho institucional foi realizado para impedir esse encontro? E o cargo público que permitia pequenas ou enormes fidalguias é impossível com um Estado falido exatamente por ter como único projeto o de satisfazer seus segmentos políticos em detrimento da necessidade de imensas maiorias?
*
Somos todos deficientes. O governo é uma decepção, todo governante faz o jogo do autoempoderamento e as instituições derretem em todo lugar. Estamos caindo aos pedaços. Já não ouvimos, falamos e vemos. Acidentes devidos a um processo de urbanização sem urbanidade multiplicaram o número de deficientes. O que era lido como incapacidade, inabilidade e imperfeição está em toda a parte e ocupa todos os espaços. Lida como corrupção, ela nos envergonha; vista como paralisia, ela nos rouba a esperança; assumida como um mal inato do mercado, ela nos condena ao inferno da exploração e do atraso.
*
Somos todos deficientes!

Seja como coletividade ou seres humanos, não temos o que queremos e não realizamos tudo o que podemos.

Reconhecer a incapacidade, porém, é descobrir que só se sai da deficiência quando se decide superá-la. Quando se admite que ela é indisfarçável e deve ser vencida.

Um governo endividado não pode aumentar salários justamente dos mais bem pagos. Ou fazer jogo de cena com o orçamento nacional. Para ganhar legitimidade social, ele tem que propor o sacrifício da superação de si mesmo. Só cortando suas despesas num largo gesto nacional, ele pode ganhar a fidelidade, o respeito e a confiança da sociedade. É necessário um movimento dramático de autocontrole. Decretos e discursos não fazem milagres.

*
Uma pessoa dos tempos de Cristo não acreditaria numa competição realizada por atletas portadores de deficiências físicas. E eis que temos uma Olimpíada com atletas outrora condenados à exclusão ou ao milagre.

Eu duvido do milagre? De modo algum. O milagre era o modo de fazer um cego enxergar e de um deficiente andar. Mas quando ele se supera usando a sua espantosa vontade, realiza-se o milagre que ambicionamos, mas não enxergamos. Todos somos deficientes e, a despeito de nos encontramos no fundo do poço da nossa inabilitação, podemos ultrapassá-la. Sem, entretanto, o desejar correto, não se sai da deficiência. Porque o milagre jaz na consciência da impossibilidade e na coragem de ultrapassá-la.

Os marginais da República

A cassação do deputado Eduardo Cunha e a posse da ministra Carmem Lúcia como presidente do Supremo Tribunal Federal nos remetem a dois marcos da nossa literatura: “Viva o povo brasileiro”, de João Ubaldo Ribeiro e “O homem cordial”, de Sérgio Buarque de Holanda.

No primeiro, o escritor baiano narra de forma crítica e meio escrachada a trajetória do Brasil e da formação de sua identidade, numa versão bem distinta dos livros e documentos oficiais. Já o texto de Sérgio Buarque, publicado no livro “Raízes do Brasil”, analisa como as elites se apropriaram da cordialidade e da informalidade, traços da alma dos brasileiros, para fazer do Estado uma extensão dos seus interesses – pessoais ou políticos.

Georges Le Mercenaire:
Georges Le Mercenaire
Esses dois protagonistas – povo e elite – apareceram de maneira diferente, nessa segunda-feira. Sua excelência o cidadão foi o grande sujeito do discurso da ministra Carmem Lúcia e tem sido, de uma forma ou de outra, o elemento impulsionador para que, aos trancos e barrancos, os poderes da República se movam e o país venha sendo passado a limpo.

Sem a pressão da sociedade, Eduardo Cunha não seria cassado, não teria havido o impeachment de Dilma Rousseff, um ex-presidente não estaria correndo riscos de ser processado e condenado e a Lava-jato não teria chegado onde chegou, com a prisão e condenação de uma parte da fina flor do empresariado.

As instituições de Estado, como a Procuradoria Geral da República, Polícia Federal, instâncias da Justiça, inclusive o STF na maioria de suas decisões, também jogaram papel importantíssimo, claro. Não sabemos, contudo, até onde iriam se não houvesse o respaldo das ruas.

Não faz o menor sentido cair no endeusamento desse ente, o povo, ou transformar em virtudes traços negativos de nossa identidade, de nossa formação. O “jeitinho” perpassa toda a pirâmide social. Sua elite, mas também sua base, embora seja injusto dar a esses dois polos o mesmo peso na balança.

Para o andar de baixo, é a forma da sobrevivência, para o andar de cima, a de manter seus privilégios.

Somos uma sociedade de incipiente consciência política, até bem pouco tempo paralisada pelo desencanto e pela sensação da impunidade. Tudo pode voltar a ser como dantes, no quartel de Abrantes, se não forem superados gargalos, alguns dos quais seculares, de nossas instituições.

A Justiça, como destacou a ministra Carmem Lúcia, continua distante do cidadão comum. Opera com letargia e ainda gera a percepção de que o “homem cordial” de hoje é tão inatingível quanto nos tempos da Casa Grande, do Sinhôzinho.

O que dizer então do fosso abismal entre o mundo da política formal e o sentimento da sociedade? O sistema político está absolutamente falido, inteiramente de costas para o povo que a palavra da presidente da Suprema Corte quis expressar.

Um bom exemplo são as eleições municipais: o que mudou na campanha televisiva?

Os candidatos continuam sendo vendidos como um produto, dando tapinhas nas costas dos eleitores e pegando criancinhas no colo. É a própria figura descrita por Sérgio Buarque de Holanda, em 1936.

O sujeito cordial dos tempos atuais está em todas. Está na TV com promessas mil e juras de que não é político, fez discurso inflamado na Câmara pela cassação de Cunha e esteve na posse da nova presidente da Suprema Corte como convidado. Ou Lula, Sarney, e Renan não se enquadram no protótipo do homem cordial?

No caso de Lula, nem se fale. Simpático, paternalista, é chegado ao compadrio moderno; aquele onde o Estado não é apenas extensão do círculo familiar ou de ambições pessoais. É também extensão de um projeto de poder, de partido.

Talvez por isto tenha cofiado tanto a barba, com ar de preocupado, ao ouvir as palavras do ministro Celso de Mello. O decano do STF, em um discurso certamente acertado com seus pares, foi absolutamente cristalino. Não haverá cordialidades com os “marginais da República, cuja atuação criminosa tem o efeito deletério de subverter a dignidade da função política e da própria atividade governamental”.

Quem sentou no banco de convidados, amanhã pode estar no banco dos réus.

Imagem do Dia

Scotland:
Escócia

Pior que a depressão é a vergonha que existe nos deprimidos

Depressão com o café da manhã: eis o meu histórico da semana. Leio o jornal e encontro Bruce Springsteen, uma grata memória da adolescência. O "Boss", hoje com 66 anos, tem autobiografia na praça ("Born to Run", obviamente). E confessa no livro que luta contra a depressão há 30 anos. Há momentos bons, há momentos maus. E depois vêm os bons, e depois os maus. Pelo meio, psicoterapia e medicação.

No dia seguinte, é a vez de Andrés Iniesta, um dos gênios do futebol. Quando o Barcelona venceu a Champions League em 2009 e a Espanha foi campeã do mundo na Copa de 2010, Iniesta afirma que estava destroçado. Havia uma sombra que sugava toda a sua "joie de vivre" e o jogador não via fim para tão longa noite.

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Não sei que figura pública irá surgir amanhã para falar do "cachorro negro". Apenas sei que todas essas histórias vêm sempre embaladas com um secretismo envergonhado. Springsteen aguenta há 30 anos uma depressão crônica. Iniesta venceu os principais troféus da carreira quando habitava o abismo –e relatou o fato com uma mistura de culpa e alívio. Pior que a depressão é a vergonha que existe nos deprimidos.

Alguns dirão que fingir é necessário: o público gosta da máscara, não do rosto que existe por detrás. Aceito. Mas se Springsteen fosse diabético ou Iniesta tivesse um problema na tireoide, alguém acredita que a doença seria secreta durante anos ou até décadas?

A depressão habita um território à parte. E, no caso dos homens, um planeta a anos-luz dos terráqueos. Por quê?

O escritor Andrew Solomon, ele próprio um deprimido crônico, investigou o assunto em "O Demônio do Meio-Dia". O livro é uma mistura de relato pessoal sobre a doença e estudo histórico e científico apurado. Mas é a história que me interessa –ou, melhor dizendo, a forma como a "melancolia" foi sendo olhada ao longo dos séculos pelos "sábios" de cada época.

Nem sempre a depressão foi uma mancha indigna: no Renascimento e, sobretudo, com o Romantismo, a figura do deprimido transportava uma aura de genialidade e incompreensão que era, ao mesmo tempo, uma afirmação de humanidade (e autenticidade) acima da banalidade das massas.

Para os românticos, aliás, a grandeza de um homem era inseparável de uma certa inconstância do espírito, diagnóstico que assenta perfeitamente em líderes eminentes como Abraham Lincoln ou Winston Churchill.

Mas o interesse maior do livro de Solomon está na parelha que ele estabelece entre dois momentos do pensamento humano que sempre nos pareceram antagônicos: a religiosidade medieval e o racionalismo iluminista.

Para os medievais, a tristeza do espírito era contrária à vontade de Deus. O deprimido pecava porque sofria –ou, em alternativa, sofria porque pecara. Nas palavras da religiosa Hildegarda de Bingen, "no momento em que Adão desobedeceu à lei divina, nesse preciso instante, a melancolia coagulou no seu sangue".

Sempre que o homem deixa entrar no seu espírito "o demônio do meio-dia", ele apenas experimenta o que Adão sofreu quando se afastou do Pai.

O racionalismo iluminista apenas secularizou uma mensagem geneticamente cristã. Com uma diferença: a depressão, entendida como um insulto à graça de Deus, era agora um insulto à majestade da Razão.

A proliferação de asilos para os alienados a partir do século 18 não se explica apenas por motivos "médicos" ou "securitários". A filosofia tem uma palavra maior: era preciso remover da paisagem seres humanos que eram a negação visível do otimismo progressista. O futuro era solar; e um futuro solar não pode permitir criaturas lunares.

Hoje, no esplendoroso século 21, gostamos de afirmar que os tabus fazem parte da mobília de nossos antepassados. Mentira, claro. O estigma da depressão é uma cópia dos preconceitos religiosos e racionalistas de tempos idos.

"Depressão é moleza." "Depressão é fraqueza de caráter." "Seja forte." "Comporte-se como um homem." "Você tem de ser racional." "Tanta tristeza é pecado." Quantas vezes o leitor disse isso a um familiar ou amigo deprimido?

Passaram anos, e até décadas, para que Andrés Iniesta ou Bruce Springsteen confessassem suas dores.

Outros não tiveram tanta sorte: terminaram a vida balançando na corda, derrotados pela doença mas também pela culpa, só porque nós gostamos de falar merda de vez em quando.

Piano brasileiro


Mozart Bicalho (1902 -1986) 

Partidários da Trambicagem

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O governo foi picareta com a Petrobrás, fundos de pensão. As leis em geral foram traídas. Quem traiu foi o PT. A esquerda arcaica traiu o Brasil porque ficou arcaica e traiu o conceito de esquerda

Eleições: Livrar-nos dos maus e escolher entre os bons

A assim chamada classe política, há muitos anos, vem perdendo prestígio. Não é para menos. Os espaços de decisão nos parlamentos foram gradualmente sendo tomados de assalto por pessoas e grupos que conferem caráter criminoso a essa atividade. No sentido amplo da palavra - note-se - criminosos na vida pública não são apenas aqueles que se valem de métodos ilícitos para ascender na escalada financeira ou política. São-no igualmente os que usam de seu poder de decisão cuidando exclusivamente do interesse próprio, ou acovardando-se ante grupos de pressão, ou negociando apoios em troca de votos contra o bem comum. O crime que estes últimos cometem, embora não esteja capitulado em lei alguma, ofende a moral e exerce sobre o erário efeito mais devastador do que a corrupção. Seria ainda maior a insatisfação contra os políticos se os eleitores prestassem atenção à insensata criação de despesas, à concessão de privilégios a alguns às custas do que é de todos e ao pouco caso de tantos homens públicos para com seus deveres funcionais.

À sombra dessa realidade, prospera entre os eleitores uma rejeição "aos políticos" que se faz acompanhar, por vezes, da decisão de não mais votar. "Já me desiludi com tantos!", exclamava-se recentemente um amigo com quem conversava sobre isso. Aquela frase levou-me a uma reflexão que, em seguida, me trouxe às linhas que agora escrevo. Pus-me a listar os candidatos a cargos legislativos nos quais votei ao longo dos anos, até onde a lembrança alcançava. E - surpresa! - não encontrei uma única razão para arrependimento. Alguns se elegeram, outros não, mas todos tinham e mantiveram as qualidades que me levaram a lhes conferir confiança e voto. Aliás, em eleições parlamentares (deputados estaduais e federais, e vereadores), nunca me faltaram bons nomes em quem votar. O que muitas vezes faltou a tantos deles foram votos para obter o mandato que buscavam. Eu tinha um voto para dar e alguns a orientar, mas para os demais candidatos não tinha o que fazer.

Não tinha o que fazer, até hoje. O Brasil precisa que deixemos de lado a inibição. Entre as muitas coisas de que a nação carece, de que a vida pública está a exigir, estão muitos desses homens e mulheres que, por falta de voto, frustram suas vocações enquanto, na mesma proporção, a representação política perde qualidade.

O motivo pelo qual nunca me arrependi dos votos que dei está no fato de sempre os haver direcionado para pessoas cujos princípios, valores, ideais e convicções conhecia e compartilhava. A finalidade deste artigo, então, é disponibilizar pequena lista de candidatos que integram meu círculo de relações com proximidade e convivência. São pessoas nas quais eu votaria se tivesse vários votos a dar. Obviamente, existem muitos bons nomes nas listas de diversos partidos. Alguns, inclusive, são pessoas que conheço, mas com as quais mantenho um nível menor de relacionamento.

Os primeiros listados a seguir por ordem alfabética são membros do grupo Pensar +, candidatos a prefeito e a vereador de Porto Alegre, e têm o apoio do grupo. A prefeito: Fábio Ostermann e Nelson Marchezan. A vereador: Fernanda Barth, Felipe Camozzato e Ricardo Gomes. Também concorrem, e os destaco como merecedores de confiança: Fernando Coronel, João Carlos Nedel e Mônica Leal.

Os espaços da política são inóspitos às pessoas de bem. Por isso nos faltam estadistas. Então, quando pessoas assim se dispõem a atuar nesses ambientes, o melhor que podemos fazer é apoiá-las de modo decidido para que alcancem os votos necessários. Faça isso você também, esteja em que recanto deste país estiver. O Brasil precisa tanto dos bons quanto de livrar-se dos maus.

Percival Puggina 

Imitações de vidas

O caro leitor e a prezada leitora podem reparar: Eduardo Cunha e os petistas de modo geral usam a mesma linguagem. Adotam métodos semelhantes e argumentos muito parecidos para justificar as respectivas descidas ao inferno depois de experimentarem as delícias do paraíso. A começar pela adoção do ataque como defesa, estratégia que, no caso deles, nem sempre se mostrou a melhor prática.

Aqui desmentem o velho lema, mas, no conjunto das desastrosas obras, confirmam o ensinamento do dito segundo o qual quem almeja em excesso acaba perdendo tudo. Sendo o pecado original e deflagrador da derrocada, a perda de noção da realidade, atributo dos insensatos. 


Começam satisfeitos com a conquista do poder, logo se deixam embriagar por ele, em seguida se convencem da condição de onipotentes e em pouco tempo transformam-se em napoleões de hospício, dizendo qualquer coisa que lhes venha às cabeças, crentes de que são invencíveis a despeito das circunstâncias adversas criadas por eles em sua incapacidade de reconhecer o equívoco – quando lhes bate à porta ou quando já materializado na forma de péssimas consequências.

A culpa é sempre dos outros. Dos primeiros aos últimos escândalos de corrupção nos quase quatro governos do PT, Luiz Inácio da Silva e Dilma Rousseff nunca sabiam de nada daquilo que o País via exposto em denúncias, investigações, processos e condenações. A responsabilidade no início era de grupos isolados ou de “traidores” da confiança alheia.

À medida que foi ficando impossível sustentar a alegação que colocava ambos na condição de presidentes néscios, a culpa passou a ser da perseguição dos adversários, da elite insatisfeita com a alegria dos pobres, da ingratidão dos agraciados. Da arbitrariedade da Suprema Corte de Justiça, dos excessos da Polícia Federal, da leviandade do Ministério Público, da maldade de Joaquim Barbosa, da pérfida vaidade do juiz Sérgio Moro, dos golpistas conspiradores, dos vingativos congressistas, do traiçoeiro vice-presidente Temer, de Cunha o anjo mau maior.

Nada, nada mesmo a ver com a irresponsável e populista gastança, com a abertura dos cofres públicos e do aparelho de Estado à sanha de ladrões, com o menosprezo pelo contraditório, com a soberba petista no trato dos aliados como subordinados. Com a arrogância de Dilma na imposição de suas convicções erráticas, com a suposição de que popularidade e votos sirvam de salvo-conduto ao vale tudo. Com a cínica negativa de evidências, impertinência autodefinidos como heróis da resistência, com a compra de brigas erradas, as alianças espúrias e a recusa em ouvir os que aconselhavam na direção do acerto e eram mandados à companhia do agourento Velho do Restelo sem escusas pelo desrespeito a Camões.

Eduardo Cunha também quis cair atirando sem dispor de munição essencial: credibilidade. Anunciou a publicação de um livro “contando” tudo. José Dirceu fizera o mesmo e desistiu da empreitada. Antes da carreira de escritor, Cunha tem outras preocupações mais atinentes à residência onde Dirceu vive restrição de liberdade.

Tido e havido como poderoso incondicional e visto em sua imaginação como presidente da República, terminou na noite de segunda-feira dono de escassos 10 votos. Frutos de seus tropeços. Da mentira, do uso da Casa (por extensão dos colegas) como instrumento de seu desejo, da crença no lema “comigo ninguém pode”. Nem o Ministério Público a quem desafiou na pessoa de Rodrigo Janot nem a sociedade a quem pretendeu convencer da posição de perseguido político, herói do impeachment, vítima de um golpe. Tudo culpa do PT, da covardia eleitoral dos colegas, de uma urdidura do governo.

Há mais um traço de união entre Cunha e o PT, expresso em antigo dístico: são anjos de candura amarrados pela cintura.

Até petistas miram vaga no segundo escalão de Temer

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Enquanto no primeiro escalão as trocas são quase instantâneas na gestão Michel Temer (PMDB) – já foram quatro ministros substituídos –, no subterrâneo da política brasiliense, indicados pelo PT permanecem em cargos chaves e alimentam uma disputa fratricida no segundo e terceiro escalão do Governo. Cálculos extraoficiais apontam que quase 40% dessas funções ainda estão nas mãos de petistas. São cerca de 50 cargos com salários que variam entre 8.000 e 14.000 reais. O Governo queria esperar passar o impeachment de Dilma Rousseff (PT) para ocupar todos os cargos.

Vice-presidências, diretorias e superintendências de órgãos como a a Caixa, o Banco do Brasil, a Fundação Nacional do Índio (Funai), a Empresa Brasileira de Infraestrutura Aeroportuária (Infraero) e a Empresa de Tecnologia e Informações da Previdência Social (Dataprev) têm sido disputadas por vários dos aliados do novo presidente brasileiro.

A corrida pelo cargo comissionado é tamanha que até petistas, hoje ferrenhos opositores à gestão Temer, tentam emplacar seus apadrinhados em alguma função. O caso mais emblemático neste sentido é o de Paulo de Tarso Campolina, um nome defendido nos bastidores pelo ex-ministro Carlos Gabas, que atuou na gestão Rousseff, e pelo ex-deputado federal pelo PT Cândido Vaccarezza para presidir a Dataprev. Atualmente o órgão tem como presidente Rodrigo Ortiz D’Avila Assumpção, na função desde 2008, ainda no governo Luiz Inácio Lula da Silva.
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terça-feira, 13 de setembro de 2016

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Meio sérculo perdido?

Muitos de vocês ainda se lembram da “década perdida” vivida pelo Brasil nos anos 80 e que, na verdade, se prolongou até o início dos anos 90, quando o plano real conseguiu colocar o país no caminho do desenvolvimento sustentável.

Foram anos muito difíceis, caracterizados por inflação elevada, variação negativa do produto interno bruto, aumento do endividamento do governo e da população, paralisação do setor produtivo como um todo e escassez de crédito.

As grandes recessões, de uma forma geral, se iniciam com crises internacionais. Entretanto, elas se agravam quando o país não está preparado para enfrentá-las, algumas vezes sem o devido o lastro financeiro e outras, pela adoção de medidas equivocadas, como aconteceu nos últimos anos, quando fomos atingidos por um intervencionismo exagerado, que acabou impedindo o crescimento da economia, diminuindo a produção, aumentando o déficit público, e gerando uma grave crise na oferta do emprego.

Mesmo que o ajuste fiscal venha a ser aprovado nas condições necessárias para a retomada do desenvolvimento, levaremos anos para atingir um patamar razoável numa economia que ainda é a nona do planeta.

Mais de 95% de nossas empresas se inserem na categoria das MPE (micro e pequenas) que, para incrementarem a sua competitividade, precisam ser inseridas no fluxo de comércio internacional. Entretanto, esbarramos em dois problemas: um excessivo protecionismo e um desempenho relativamente baixo no índice de inovação das empresas, determinante para o aumento dessa competitividade.

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Adicionalmente, a situação mudou nos últimos 40 anos e a educação, ao lado da economia, da infraestrutura e da capacidade inovadora, passou a ser uma das causas principais do retrocesso no desenvolvimento de um país.

Hoje há um visível descompasso entre a oferta e a demanda da mão de obra, fruto, em parte, da histórica incapacidade de equacionarmos e solucionarmos os problemas da educação, em todos os níveis.

O desenvolvimento dependerá, inexoravelmente, de quadros técnicos suficientemente bem preparados para atender às crescentes necessidades do setor produtivo.

Recentemente, o MEC divulgou os resultados do IDEB (Índice do Desenvolvimento da Educação Básica) de 2015, e eles são decepcionantes, pois, pelo “andar da carruagem” (como dizia a minha avó), não atingiremos as metas programadas, por nós mesmos, nos prazos esperados.

O IDEB mede o desempenho e as taxas de aprovação dos alunos das redes pública (todos) e privada (por amostragem) nas disciplinas de Língua Portuguesa e Matemática. Embora nas cinco primeiras séries do ensino fundamental tenha ocorrido algum avanço, verifica-se que, nas séries seguintes (da 6ª a 9ª) e no ensino médio, os resultados foram muito ruins.

No caso do ensino médio, precisaremos de décadas para alcançar a meta programada para 2021 (5,2, mas é provável que não passemos de 3,9). O fato é que os estudantes já trazem muitas deficiências, que se acumulam ao longo dos anos cursados.

Além disso, ainda insistimos numa estrutura curricular pesada, com muitas disciplinas, sem levarmos em conta as peculiaridades e vocações das regiões, das escolas, e dos estudantes.

Nossos professores não são valorizados, tanto na carreira, como na remuneração.

Os cursos de licenciatura também necessitam de mudanças urgentes, adaptando-os às novas concepções de estruturas curriculares, centradas em novos processos ensino-aprendizagem, na formação transdisciplinar e no uso das novas tecnologias de informação.

O Ministério da Educação, que considerou a situação vergonhosa, já anunciou alterações positivas para o ensino médio, que pretende, mesmo que por meio de uma medida provisória, implantar. Sem as mudanças, o país correrá o risco de ver meio século perdido.

A era pós-verdade

No caso de Eduardo Cunha, não colou. Acho que nem seus amigos acreditaram que ele ganhou o dinheiro que abastecia suas contas na Suíça vendendo carne enlatada aos africanos. Já Dilma Rousseff teve mais êxito em convencer parte da opinião pública de que a ruína econômica em que ela nos meteu é fruto só da crise internacional.

Cunha e Dilma não são casos isolados. O semanário "The Economist" deu a capa de sua última edição para uma interessante reportagem sobre a política "pós-verdade". Ilustra o conceito com Donald Trump afirmando que Barack Obama é o criador do Estado Islâmico e a campanha do Brexit dizendo que a permanência do Reino Unido na União Europeia custa US$ 470 milhões por semana aos cofres britânicos. Não é preciso mais do que alguns neurônios e um computador para descobrir que ambas as afirmações são falsas, mas, ainda assim, elas prosperaram.

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Obviamente, a centenária publicação reconhece que governantes sempre mentiram, mas conjectura que vivemos uma era em que está ficando cada vez mais fácil para políticos inventar qualquer coisa e se dar bem.

Parte do problema é a natureza humana. Nossos cérebros têm uma perigosa inclinação por acreditar naquilo que nossos sentimentos dizem que está certo e evitam o trabalho de conferir a veracidade das teses de que gostamos. E, se nunca foi fácil estabelecer o que pode ser considerado um fato na política, isso está se tornando cada vez mais difícil.

Para "The Economist" são dois os motivos. Primeiro, instituições que se encarregavam de facilitar a formação de consensos como escolas, ciência, Justiça e mídia vêm sendo vistas com mais desconfiança pelo público. Além disso, passamos a nos informar através de algoritmos que, em vez de nos expor ao contraditório, nos enterram cada vez mais fundo naquelas versões que já estávamos mais dispostos a acreditar. Daí aos reinos mágicos é só um pulinho.

Hélio Schwartsman

Em defesa de um governo republicano

" No sólo estamos en el universo , el universo está en nosotros . "- Neil…:
O governo Michel Temer tem apenas duas semanas. Não parece. Dá sinais de envelhecimento precoce. O curioso é que a área econômica vai bem. O mesmo se aplica às relações exteriores. Já no restante dos ministérios vai muito mal. A falta de coordenação política sinaliza para a sociedade que Temer ainda é apenas o presidente interino. Cada ministro administra a sua pasta como se não houvesse uma autoridade maior, o presidente da República. Continuam enclausurados, não viajam, não divulgam suas ações e, mais grave, priorizam cada um o seu projeto político. Assim, o ministério assemelha-se a uma federação de ministros, isolados uns dos outros, sem uma ação coletiva.

Paradoxalmente, a relação com o Congresso Nacional vai bem. Temer tem maioria nas duas casas. Até o momento, a desarticulação no interior do governo não se refletiu no outro lado da Praça dos Três Poderes. Mas a necessidade de dar um rumo seguro é indispensável para garantir apoio congressual às reformas e demais ações do governo. Nenhum Congresso apoia presidente fraco — ou, quando isto ocorre, há uma sarneyzação, uma paralisia do Executivo. E na situação que vivemos — em plena depressão econômica — não há cenário pior que esse. A economia necessita da estabilidade política. É uma condição sine qua non para retirar o país da crise e buscar, no ano que vem, um crescimento positivo do PIB.

Hoje, a instabilidade não é produto da insatisfação na sociedade. As ações do PT e de seus asseclas eram esperadas. Afinal, perderam milhares de cargos na estrutura de Estado e as facilidades para negócios lesivos ao interesse público, como vimos no mensalão e no petrolão. Não há resistência ideológica. Nada disso, a resistência é financeira. Perderam a boquinha, daí a ira. No conjunto da sociedade, as manifestações têm pouco expressão. Mas desqualificá-las significa dar a elas um protagonismo que não têm. Depois do impeachment, a sociedade aguarda um governo responsável, atuante, que respeite as leis, garanta a ordem pública e que enfrente a crise. A preocupação do governo não deve ser com os representantes do derrotado projeto criminoso de poder. Não. Seu foco é o povo brasileiro, especialmente os pobres, os que mais sofrem com a crise produzida pelo petismo.

É inegável que a tarefa de Michel Temer não é fácil. O panorama de hoje é muito distinto em relação à 1992. Naquele momento, Itamar Franco assumiu e formou um governo de união nacional. Permaneceram na oposição o PT e Antonio Carlos Magalhães. Agora, a situação é mais complexa. O PT não é o PRN. Dilma conseguiu 20 votos contra o impeachment, Collor apenas três. E o leninismo tropical tomou durante 13 anos e cinco meses o aparelho de Estado. Usou, abusou e deixou na estrutura estatal seus militantes-funcionários não só nos cargos de confiança, mas também como servidores concursados. Despetizar o Estado é tarefa essencial não apenas para o sucesso do governo, como também para a sobrevivência da democracia no nosso país.

É inegável que nestas duas semanas o governo se comunicou mal, muito mal. Os boatos espalhados pelo PT tomaram conta do país. E a pecha de que Temer pretende acabar com os direitos sociais e trabalhistas acabou assumindo ares de verossimilhança. É evidente que o país precisa urgentemente das reformas. A questão central é como construí-las dialogando com a sociedade e apresentando seus benefícios. Isso é mais importante do que obter — o que não acontecerá — o apoio das centrais sindicais. Enfrentar as corporações é uma tarefa democrática. Mas é preciso demonstrar que governa para todos e que não admite qualquer tipo de privilégio, independentemente de quem é favorecido.

O Ministério é ruim. Necessita ser modificado. A justificativa para a sua formação — a aprovação do impeachment — já passou. Os ministros têm de estar afinados com as reformas e com o espírito do governo. E serem competentes, o que poucos são. Por outro lado, o presidente tem de evitar, neste momento, deslocamentos ao exterior. A viagem à China foi em má hora e teve um péssimo efeito interno. Foi um anticlímax após a grande vitória do impeachment. Quem assumiu? Rodrigo Maia. Muitos se perguntaram: Rodrigo o quê? E agora Temer ameaça ir à ONU. Que importância tem discursar na ONU? E, pior, na eventual ausência de Maia, quem assumirá o governo será Renan Calheiros!

Ainda há tempo para Temer efetuar os acertos necessários. Necessita apresentar ao país a situação em que encontrou o governo. É fundamental retirar do PT a bandeira recém-alçada de defesa dos direitos dos trabalhadores. Entregaram o país com 12 milhões desempregados e em meio à maior crise econômica da nossa história. É preciso se lembrar da Lava-Jato e de que altos dirigentes petistas foram condenados pela Justiça, alguns pela segunda vez em um lustro — como José Dirceu.

Faz bem para o governo exercer a autoridade — e ainda mais ao Brasil. É preciso dar um basta à baderna. Os criminosos derrotados pelo impeachment não podem ditar o ritmo das mudanças. São uma minoria barulhenta, é verdade, mas apenas uma minoria. Cabe ao governo assumir a direção das reformas, explicá-las à população, convencer os brasileiros de que elas são indispensáveis para o futuro do país. Mas também deve mostrar que não transigirá frente ao grande capital espoliador. Tem de eliminar as benesses recebidas pela burguesia petista, a do capital alheio. E pode começar esta tarefa revelando os criminosos empréstimos do BNDES.

Michel Temer, não tema. A maioria da população brasileira quer que seu governo dê certo.

Marco Antonio Villa

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Golpe para quem?

O discurso petista do golpe já está ultrapassando qualquer índice de poluição sonora. O som estridente da verborragia atinge até os ouvidos menos sensíveis. Os defensores do meio ambiente deveriam protestar contra tamanho disparate barulhento!

Certamente, para os países mais desenvolvidos do Planeta, o novo governo foi plenamente reconhecido. O G-20 expôs um presidente no pleno exercício de suas funções, tornando-se interlocutor dos Estados que representam mais de 85% do PIB global.


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Para os países mais importantes da América Latina, a saber, Argentina, Colômbia e México, o novo governo goza de pleno reconhecimento. Os que se insurgem são Venezuela, Equador e Bolívia, que deveriam ser mais propriamente enquadrados na América Latrina. Eles representam, hoje, a maior poluição de ideias do mundo.

O processo de impeachment demorou longos nove meses, com a ex-presidente exercendo todos os seus direitos. Apesar das chicanas de seu advogado, nenhum de seus recursos para anular o julgamento foi acatado pelo Supremo.

Aliás, o julgamento foi presidido pelo presidente do STF, Ricardo Lewandowski, conhecido por sua simpatia pelo PT e indicado para o cargo pelo ex-presidente Lula. O presidente do Senado, Renan Calheiros, por sua vez, foi um fiel escudeiro da ex-presidente e, em várias ocasiões, demonstrou o seu profundo apreço por ela. Seriam golpistas?

O rito do processo foi determinado pelo Supremo, tendo sido, no início, objeto de sérias disputas envolvendo os grupos favoráveis e contrários ao impeachment. Neste contexto, o PT chegou a festejar as regras finalmente adotadas. Será que o PT também seria golpista?

Talvez o seja, por não aceitar o resultado de todo um processo institucional, em que o país mostrou a vitalidade de suas instituições democráticas. Talvez o seja, também, por não acatar a própria Constituição brasileira, esta mesma sob a qual governou por 13 anos. Renegou a Constituição quando de sua promulgação, usufruiu dela e, agora, se volta contra ela.

O partido não possui, tampouco, nenhum pudor em denegrir o país na esfera da política exterior, sem se importar, minimamente, com o que isto poderia eventualmente significar internamente em termos de investimentos e emprego. A sua política é a do quanto pior melhor.

Golpe, então, para quem? Para o narcisismo petista, os incautos, os militantes e para os quadros partidários que procuram fugir da Lava-Jato e de suas consequências.

Denis Rosenfield

A melhor legenda

Lula na posse da nova ministra do STF
República suja pela corrupção impune tomba nas mãos de demagogos, que, a pretexto de salvá-la, a tiranizam
Celso de Mello, ministro do STF

A marcha dos privilegiados do atraso começa a perder força

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O Brasil não pode ficar refém da agenda do atraso. Isso a que se assiste nas ruas, em número inexpressivo quando comparado com o de brasileiros que se manifestaram em favor do impeachment, é expressão do Brasil que olha para trás, do Brasil do atraso, do Brasil da mistificação.

O país tem uma reforma trabalhista para fazer. E não para cortar direitos, mas para conceder direitos a milhões de pessoas que estão na informalidade. A reação do pior sindicalismo a esse debate é, atenção para a expressão, o berro de uma elite sindical, divorciada da esmagadora maioria do povo brasileiro.

O país tem uma reforma da Previdência para fazer. Não! Não é para punir velhinhos. Ao contrário: é para que os idosos do futuro tenham o que receber.

O país tem de atrair capital para a infraestrutura, e isso implica abrir uma nova rodada de privatizações e concessões, sem as quais o dinheiro não chega, e continuaremos mergulhados no atraso.

O país tem de cortar gastos, ou se faz isso, ou não teremos juros a níveis civilizados, que possma permitir o crescimento sustentável do país.

Não se está aqui a falar de uma agenda “progressista”. Não se está aqui a falar de uma agenda “conservadora”. Estamos apenas tratando de matemática. Esta é uma ciência da natureza. Não se gasta o que não se tem. Ou se gasta, já que países não fecham. Mas se produzem, então, inflação, pobreza, desemprego, recessão… Isso tudo que o PT nos deixa como herança.

Quando os gatos-pingados do sr. Guilherme Boulos vão às ruas, ainda que sejam alguns milhares — em número, reitero, irrisório quando se levam em conta o movimento que depôs Dilma e o conjunto dos brasileiros —, eles representam não o país dos desassistidos, não o país dos humilhados, não o país dos pobres.

Ao contrário: eles estão marchando em defesa de um regime que fez a economia brasileira recuar uma década, que nos condenou ao atraso, que elevou a taxa de desemprego a mais de 11%, que espoliou o povo, que quebrou a Petrobras, que nos colocou na retaguarda do crescimento no mundo e na América Latina.

Então cumpre indagar: quem perdeu com isso? Obviamente foram os mais pobres. Quem ganhou com isso? Obviamente foram essas estruturas encarquilhadas de poder.

O sr. Guilherme Boulos, do MTST, marcha com tanta determinação em favor do Velho Regime porque ele e seu movimento eram beneficiários daquela ordem — ou daquela desordem. O mesmo se diga de João Pedro Stedile, do MST, e de Vagner Freitas, da CUT.

O presidente Michel Temer tem um desafio imenso, sim: governar para a maioria do povo brasileiro, não para meia dúzia de petistas e de outros esquerdistas que se alimentaram das tetas oficiais.

A fábula do golpe

Em 1571 Michel Eyquem, conhecido como Montaigne, o nome das terras que herdou, decidiu dedicar-se à interpretação da natureza humana. Legou-nos um livro brilhante, Os Ensaios” (Companhia das Letras). Foi escolarizado primeiramente em latim e leu todos os clássicos do pensamento social. O volume deveria ser leitura compulsória para todos os que almejam desvendar os mistérios e significados da ação humana.

A versão definitiva e póstuma é de 1595 e nela Montaigne impôs a si próprio explicar por que “os que se empenham em examinar as ações humanas jamais ficam tão atrapalhados como para juntá-las sob a mesma luz, pois comumente elas se contradizem de modo tão estranho que parece impossível que venham da mesma matriz”. A inconstância humana foi um dos seus temas favoritos, pois “nosso modo habitual é seguir as inclinações de nosso desejo, para a esquerda, para a direita, para cima, para baixo, conforme nos leva o vento das ocasiões”. Em consequência, “não vamos, somos levados, como as coisas que flutuam, ora suavemente, ora com violência”.

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Os episódios políticos recentes em nosso país, até chegar ao impeachment e ao inacreditável “fatiamento” da decisão final, nos remetem à sabedoria contida naquele livro de quase cinco séculos e à explicação que nos propõe acerca das escolhas humanas – “em quem se fiar para saber o que é louvável?”. Ou, então, será que “os que tentaram reformar os costumes do mundo por novas opiniões reformaram os vícios da aparência, (mas) os da essência os deixam lá” e, assim, o que no passado seria condenável passou a ser naturalizado, como temos observado regularmente em outros aspectos da vida social, segundo os “vícios de outrora, costumes de hoje”? Se a presidente foi apeada do poder, por seus malfeitos, mas pode seguir na vida pública, por que todos os demais em situação análoga não serão igualmente beneficiários de tamanha bizarrice? Que maquinações teriam sido urdidas, que os cidadãos, em sua inocência política, desconhecem? Como seria importante saber as reais razões que motivaram a estapafúrdia decisão, pois “é justo que se faça grande diferença entre os erros que vêm de nossa fraqueza e os que vêm de nossa maldade”, destacaria o filósofo seiscentista. Se houve má-fé e intenções inconfessadas, muito em breve a fatura será cobrada e nós, os brasileiros, vamos pagar a conta, como tem sido o costume.

Similarmente, a difundida fabulação de um suposto golpe atende aos mesmos indisfarçados interesses, seja de Dilma, a personagem principal da trama, ou, então, do campo petista diretamente atingido. É a estratégia ideal, que os anos vindouros comprovarão. Os petistas sabem, como alertou Montaigne, que “assim como o prato da balança pende necessariamente quando foi carregado, assim o espírito cede às coisas evidentes” e o uso repetido, ad nauseam, do incriminatório “golpista”, em todos os momentos e situações, acabará se enraizando no coletivo social e se tornará uma “coisa evidente”. É sina da qual o governo Temer não se livrará, pois sempre surgirá um militante para gritar o bordão e gerar o embaraço público. O comportamento social tende à simplificação, aqui se diferenciando dos pensadores, não se aplicando aos cidadãos a frase de Dante que Montaigne cita em Os Ensaios, a qual nos ensina: “não menos que saber, duvidar me agrada”.

Aqui existe outro aprendizado consagrado: na vida social, a repetição, ainda que absurda, acaba aprofundando suas raízes e a vasta maioria dos cidadãos prefere viver sob argumentos dúbios, ou até falsos, a seguir sob incertezas. Se a sintaxe do “golpe” é insustentável, pouco importa, pois é preferível viver em acordo com algum catecismo, qualquer que seja, porque “a alma que não tem objetivo estabelecido se perde”. E com aguda percepção Montaigne ainda insistiu sobre a leveza das decisões humanas, segundo as quais “é preciso tudo explorar e comprar de cada um segundo sua mercadoria, pois em casa tudo serve; e até a tolice e a fraqueza alheia o instruirão”. E assim, infelizmente, “todos nós estamos fechados e encolhidos em nós mesmos e temos a visão limitada ao comprimento de nosso nariz”. O comportamento dos indivíduos, dessa forma, acaba sendo equívoco e sujeito a erros, pois “é em meio de brumas e às apalpadelas que somos levados ao conhecimento da maioria das coisas”.

Encurralado pelos acontecimentos, o campo petista precisa da verborragia do “golpe” para não desaparecer. Sua ambição é a conquista do poder e se se curvar deixará de ser um partido político. Por isso a vitimização servirá tanto à biografia de Dilma como ao partido, segmentando o mundo da política, aos olhos dos cidadãos, entre os “golpistas” e os “perseguidos” petistas. E na política, binômios simplificadores sempre são mais promissores.

É uma fábula pobre, mas em ambiente rebaixado como o nosso será suficiente e talvez em 2018 alguns efeitos do arranjo terminológico já possam ser colhidos. Afinal, como destacou o filósofo das terras de Montaigne, em tais contextos os escrúpulos não contam, porque “quem opõe o custo ao fruto da virtude, este é, decerto, bem indigno de sua companhia e não conhece suas graças nem seu bom uso”. Ao campo petista não interessará, nesta conjuntura, “que sua consciência e sua virtude reluzam em suas palavras, e tenham apenas a razão como guia”. A mentira, esta, sim, tem sido mais produtiva em seus resultados.

Qual será o preço da farsa ora em curso, seja a artimanha do Senado ou o delírio do golpe? Não sabemos, mas novamente o genial pensador nos ensinou: “A maldade absorve a maior parte de seu próprio veneno e envenena-se (…), pois a razão apaga as outras tristezas e dores, mas engendra a do arrependimento, que é mais grave, uma vez que nasce no interior, como o frio e o quente das febres”.

A gente vai levando...

O golpe do papa

O papa Francisco cancelou sua viagem ao Brasil em 2017 afirmando que o país “vive um momento triste”. Vamos traduzir essa tristeza: o líder máximo da Igreja Católica está apoiando Dilma Rousseff, a despachante da quadrilha que depenou o país entristecido. Mas a tristeza sentida pelo sumo pontífice não é com o roubo, é com a punição aos ladrões.

O papa Francisco, de maneira indireta, portanto dissimulada, portanto covarde, está fazendo coro com a militância ideológica que grita contra o golpe de Estado – esse em que a criminosa golpeada dialoga com os golpistas (e ri com eles), sob a regência constitucional da Corte máxima do país. Uma bandeira de mentira, fajuta e imunda, que agora é levantada também pelo papa Francisco.

Isso não teria a menor importância num mundo que soubesse distinguir um líder espiritual de um mercador da bondade. Mas a demagogia supostamente progressista – na verdade reacionária – é hoje a commodity mais valorizada do planeta, e nenhum candidato à popularidade perante as massas admite mais abrir mão dela. Até a alemã Angela Merkel, guardiã quase solitária da responsabilidade europeia, andou fazendo proselitismo com o tema dos refugiados. Se você não der ao menos uma bicadinha na vitamina populista, você morre.

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A gangue que inventou o golpe no Brasil para brincar de resistência democrática – e se encher da preciosa vitamina demagógica – está quebrando tudo. Durante 13 anos quebraram por dentro, agora estão quebrando por fora – o que é bem mais prático e leve. O caixa da revolução está cheio, após a proverbial transfusão da Petrobras, dos bancos públicos e dos fundos de pensão. O lanche é mortadela por questão de estilo, poderia ser caviar. E não existe vida mais fácil: você recruta um bando de inocentes úteis e não inocentes alugados e manda todo mundo para cima da polícia. Fustigar a boçalidade das polícias militares é brincadeira de criança para essa turma. Não tem erro.
O caixa da revolução está cheio. O lanche é mortadela por razão de estilo, mas poderia ser caviar

O papa Francisco e sua falsa tristeza apoiam essa depredação teatral – que tem consequências reais e sujas de sangue. O religioso bonzinho, com seu gesto grave – vamos repetir: grave – de desistir da visita ao Brasil por causa do impeachment, jogou uma tocha nessa gasolina. Não adianta fugir dessa responsabilidade. Não adianta rebolar na retórica. Não adianta fazer cara de piedade. O papa abriu mão da missão de paz do estadista para entrar num jogo partidário. Se meteu num conflito político nacional para exacerbá-lo – para dar sua contribuição incendiária.

A política existe para organizar a vida das sociedades. Só isso, mais nada. Não é um campeonato de siglas, cores e credos, nem um palco para apoteoses românticas. No caso do Brasil, o governo canastrão do PT incensou todos esses símbolos emocionais e fulminou a organização social e institucional. Isso não é política, é contrabando.

O governo Temer assumiu no cenário de terra arrasada e está repetindo o governo Itamar (por questão de sobrevivência): dando espaço a quem entende de administração pública, substituindo militância partidária com o dinheiro dos outros por trabalho. É o PMDB, há os caciques velhos, há a podridão – mas os principais cargos de comando foram entregues aos bons. Assim como fez Itamar, no mesmo PMDB.

Há 23 anos isso deu no Plano Real – o momento mais significativo da história recente em que a política serviu para organizar a sociedade. Os veículos da mudança foram o PMDB e o PSDB, mas a virtude não estava neles. Estava nos homens. Sempre está.

Repetindo a ruína do pós-Collor, a ruína do pós-PT abriu uma janela de oportunidade para quem quer usar o poder para organizar, e não para surfar. Os surfistas estão naturalmente desesperados, porque num país organizado as ondas de malandragem somem da política – ou ao menos ficam pequenininhas, sem força para impulsionar os proselitismos coitados e os heroísmos de aluguel. É preciso, portanto, bagunçar.

É claro que alguém que sai de casa para forjar um tumulto e posar de perseguido pela polícia não vale a mortadela que come. Mas o interessante é imaginar o que essa criatura pensa a sós com seu travesseiro. Se o país tivesse de repente um surto de dignidade, a fila do confessionário chegaria a Roma. Puxada pelo papa.

Os asnos do Palácio do Planalto e a lição de Voltaire

De 1715 a 1723, depois da morte de Luís XIV, a França foi governada por um Regente, tio de Luís XV, ainda uma criança. Jovem afoito e estouvado, chegou a Paris François Marie Arouet, para tornar-se um dos principais críticos dos costumes da realeza e do clero. Apelidava-se de Voltaire. O Regente vira-se obrigado a intenso programa de contenção de gastos e despesas, determinando, entre outras medidas, que se vendesse a metade das cavalariças reais. Voltaire escreveu logo depois que melhor faria o Regente se em vez das centenas de cavalos de raça, vendesse o monte de asnos que evoluíam em torno do trono.

Num domingo, passeando pelo Bois de Boulogne, o Regente deparou-se com Voltaire. Cumprimentando-o, disse que daria a Monsieur Arouet a oportunidade de apreciar uma das mais bizarras vistas de Paris, que ele certamente não conhecia.

Logo vieram os soldados e levaram Voltaire para a prisão da Bastilha, onde ficou por quase um ano. Tinha liberdade para escrever, e lá completou a peça “Édipo”, de amplo sucesso na capital francesa por conta das alusões a tiranos, fidalgos e sacerdotes.


Amigo influentes conseguiram que o Regente revogasse a prisão e fizesse mais, assinando decreto que concedia ao jovem autor uma pensão vitalícia “para que enfrentasse as despesas com habitação e alimentação”.

De volta, Voltaire escreveu que aceitava a oferta, mas apenas pela metade. Agradecia que o tesouro real cuidasse de sua alimentação, mas quanto à sua habitação, deixasse que ele mesmo cuidaria…

Nova ordem de prisão foi expedida, mas o Regente tratou de negociar: soltaria Voltaire se ele embarcasse imediatamente para a Inglaterra, o que aconteceu. Ficou proibido de frequentar Paris, o que só fez aos noventa anos de idade.

Esse episódio é pinçado da larga biografia do irreverente gênio da literatura francesa, a propósito das dificuldades que o nosso Regente, versão 2016, vem enfrentando. Seria melhor que oferecesse para seus desafetos uma visão de Brasília, tomada da Papuda. Depois, uma sinecura qualquer para que ninguém recomendasse dever livrar-se dos asnos que evoluem no Palácio do Planalto…

Vagas recordações

O que é um momento? Um segundo, um minuto, o equivalente a uma cena de filme ou de minissérie? Quantos momentos há numa vida? Momentos referem-se necessariamente a acontecimentos, ou existem mesmo na paisagem dos não acontecimentos, aquela que se faz de cotidiano e de esquecimento, tecida em pequenos gestos que se repetem, dia após dia? Tomar banho é um momento? Abrir a janela? Alimentar os gatos?

Uma jornalista me perguntou qual foi o momento mais feliz da minha infância. Levei um tempo para responder, porque vivi vários momentos felizes, mas não consegui me lembrar de nenhum momento único, especial, que sobressaísse em relação aos demais momentos.

Eu me lembro de brincar no gramado do sítio. Não num dia específico, mas em tantos dias que é impossível saber quantos foram. Eu me lembro do cheiro e da cor da grama, e dos meus pés na grama.

Eu me lembro de correr por esse mesmo gramado colhendo castanhas com meu pai. Castanhas são frutas agressivas, que nascem dentro de uma bola de espinhos, e é preciso ter muito cuidado ao manuseá-las.

(Eu me lembro também de bater a cabeça numa paineira num dia em que estávamos brincando de pique, e eu me desequilibrei numa descida: morríamos de medo dos espinhos das castanhas, mas foi um dos espinhos da paineira que ficou espetado um pouco acima da minha orelha. Fiquei assustada, achando que quando arrancasse aquilo de lá o cérebro ia escapar pelo buraco, mas felizmente a previsão não se concretizou.)

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Em me lembro das tardes e noites frias de Friburgo e do cheiro da lenha queimando na lareira. Eu me lembro de ficar quieta num canto lendo. Eu me lembro de me distrair vendo a multidão de insetos que eram atraídos pela luz da sala e ficavam passeando pelos vidros, procurando uma brecha para entrar.

A cidade cresceu desordenadamente, as matas acabaram e, com o tempo, os insetos foram embora.

Sobretudo, eu me lembro do meu avô vindo me tirar da cama, no meio da noite, para irmos lá fora olhar para o céu e para as estrelas, reconhecendo as constelações.

As estrelas continuam lá, mas o céu não é mais tão bonito.
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A jornalista me perguntou qual foi o grande momento de horror da minha vida.

Tenho sorte. Ou não vivi grandes momentos de horror, ou consegui esquecê-los com tanta eficiência que é como se não tivessem acontecido.

Eu me esqueço muito mais do que me lembro.

Conheço gente que guarda datas, que descreve em detalhes coisas que eu nem me dei conta que aconteceram.

Não sei o que é melhor (ou pior). Ter apenas vagas lembranças, como eu tenho, dissolve o passado numa nuvem amorfa, num ruído de fundo em que nada brilha particularmente, mas também nada dói.

A falta de memória é uma espécie de antidepressivo natural, que arredonda as pontas e lixa os cantos.
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Eu me lembro do espanto da tecnologia. Meus netos não têm esse espanto, e provavelmente nunca terão. Nada é impossível no mundo deles, tudo já foi conquistado, e o que não foi é só questão de tempo ou de recursos. Eles acham tudo normal.

Eu me lembro do meu espanto diante de um monitor na Silicon Graphics, na Califórnia, em que a imagem de uma esfera de borracha espelhada quicando num chão quadriculado refletia o grupo embasbacado que contemplava aquele monitor, capturado por uma câmera de vídeo. Naquela época, um PC como o que eu tinha não conseguia sequer renderizar uma esfera imóvel, quem dirá aquela esfera impossível. Éramos umas tantas pessoas e ficamos ali paradas, sem ar, diante daquele prodígio. Eu me lembro de ter visto uma lágrima brilhando no canto do olho de um colega japonês, mas isso, quem sabe, é só mais um truque do tempo.

Eu me lembro do meu espanto sucessivo a cada nova geração de câmeras digitais; eu me lembro do meu espanto com os disquetes de 3”1/2 e sua assombrosa capacidade de armazenagem de 1.44MB.
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Não consegui responder quando foi a última vez em que fiquei inteiramente desconectada do mundo, embora me lembre que isso era possível. Eu me lembro que, para não ter ideia do que estava acontecendo no planeta, bastava sair da cidade.

Eu me lembro de percorrer as ruas de cidadezinhas perdidas no Himalaia, durante uma viagem entre o Nepal e o Tibete, enfrentando um frio pavoroso, para buscar notícias em lanhouses. E nunca vou me esquecer de como eram essas lanhouses, todas iguais, pequenas, xexelentas, tão cheias de fumaça de cigarro que mal se viam os demais usuários.

Por outro lado, eu me lembro exatamente quando foi a primeira vez em que percebi que o mundo tinha ficado de fato pequeno: eu estava atravessando uma planície da Anatólia, na Turquia, mas consegui ligar para o Brasil do celular, que, mesmo em Ipanema, não pegava direito. Foi tão espantosa essa ligação, que gastei muitos e muitos minutos descrevendo para o Millôr, do outro lado da linha, a paisagem que estava vendo.

Mais tarde me explicaram a origem do milagre: graças às bases militares americanas, a Turquia tinha, já naquele distante ano de 1999, uma das melhores redes de telecomunicações do mundo.

Olhando hoje, em retrospecto, imagino que, no mês seguinte, tenha recebido uma das contas de telefone mais salgadas da minha vida; mas disso, felizmente, eu não me lembro mais.

Cora Rónai