domingo, 13 de setembro de 2015

A maldição da herança

O governo Dilma Rousseff fica cada vez mais parecido com o fim dos governos Figueiredo e Sarney. A diferença crucial é que o atual mandato da presidente está no começo. João e José saíram aos farrapos; Dilma, aos frangalhos, talvez não consiga prosseguir.

Em qualquer situação, completando o mandato ou não, deixará ao sucessor uma herança maldita. Não o legado imputado ao governo Fernando Henrique Cardoso pelo populismo oportunista de Luiz Inácio da Silva, mas um espólio objetiva e concretamente malévolo que acaba de se materializar na volta do Brasil ao clube dos países desprovidos de credibilidade internacional, arrastando junto a Petrobrás, para citar apenas a maior das várias empresas agora consideradas investimento de risco.

Por ocupar a Presidência, Dilma personifica o desastre, mas evidentemente não é a única responsável por ele. Atribuir responsabilidade só a ela significa ignorar todo o conjunto de uma obra coletiva construída com a finalidade de submeter o Brasil à dominação de um partido.

Projeto que, por força da boa saúde das instituições e do despertar (tardio) da sociedade, não deu certo, embora tenha provocado desacertos profundos e nos levado a retroceder 20 anos no processo de recuperação da credibilidade do País.

Os governos do PT puseram esse trabalho a perder. Por orientação do chefe, Luiz Inácio da Silva, uma perfeita encarnação do herói sem caráter descrito por Mário de Andrade. Quando assumiu a Presidência, Lula adotou a política econômica do antecessor. Foi, por isso, muito elogiado, saudado pela escolha do bom caminho.

Nessa visão otimista faltou, contudo, analisar o dado essencial da motivação: nada foi feito por convicção, mas pela percepção de que ou incorporava as posições do adversário ou não governaria. De onde não hesitou em incorporá-las na economia e explorá-las na política ao expropriar o patrimônio dos governos Itamar Franco e Fernando Henrique Cardoso, atribuindo a si a autoria da estabilização e ao antecessor a maldição de uma herança, na realidade bendita.

Lula e o PT herdaram uma casa senão totalmente em ordem, muito bem encaminhada com os pressupostos da reorganização implantados e muitos obstáculos devidamente removidos ao custo de intensas negociações externas e internas. Aos herdeiros caberia completar o trabalho, dando prosseguimento às reformas de estrutura e usando os princípios defendidos por eles desde sempre para, com a força do apoio popular e a presença de um líder, formar maioria no Congresso mediante parâmetros programáticos.

Como nem a convicção na economia nem o princípio da ética na política eram genuínos, evidente que mais dia menos dia a casa cairia. Os escombros soterraram o PT, mas o conceito do vale-tudo, traduzido na expressão da presidente Dilma de que é legítimo fazer “o diabo” para ganhar eleições, levou o País inteiro ao inferno.


Parafraseando a cantiga infantil, a canoa virou e foi por causa dos governos que não souberam remar. Agora, nosso descendente de Macunaíma joga a sucessora ao mar jactando-se de ter solucionado uma crise econômica “cuidando dos pobres”, em mais uma demonstração do cinismo que presidiu o retrocesso ético que assola o País.

Dilma fracassou? Já havia sido um fiasco gerencial antes, nos anos 90, quando levou à falência duas lojas de produtos R$ 1,99 em Porto Alegre. Foi Lula quem garantiu que a dona dos estabelecimentos poderia governar o Brasil.

Foi ele também o avalista das alianças políticas financiadas com dinheiro público. Por essas e possíveis outras que a Polícia Federal pede agora que dê explicações à Justiça no âmbito da Operação Lava Jato.

O fascínio pelo poder

Se meu nobre amigo Augusto Nunes me permite a indicação, é excelente o artigo de Ricardo Vélez Rodrígues hoje replicado no vizinho distante, Aluízio Amorim. Um retrato bastante preciso e sem retoques do que é a petralharia no poder. Só volto a discordar do Olavão e seus discípulos quando todos insistem em traduzir para um refinado planejamento intelectual desses carcamanos o que é uma mentalidade pura e simples.

Já disse aqui que conheço uma seita por dentro. Posso afirmar de cátedra que as decisões não se dão milimetricamente calculadas; pelo contrário. Tal como uma reunião de vespas raivosas, a coisa se dá na base do “vibrar na mesma onda” e ganha adeptos imediatos entre aqueles que só pensam com a metade esquerda do cérebro baldio. Alguém inventa lá: “Vamos enganar nossos otários assim? Logo uma multidão de falsários, vigaristas, ascendentes sociais e militantes marretas se oferecem para o pedido de gincana da vez. É um erro acreditar que gente com tanta deficiência intelectual saiba o que está fazendo.


O que existe e que une essa galera torta feito cola de sapateiro é um fascínio desmesurado pelo poder. Onde se esconde Dilmita bacana? A dona colhida pela maior crise republicana brasileira vai para o meio do mato entregar casinhas. Bem se vê o que resta de toda sua ideologia marreta e sua baioneta retórica. Uma espécie de osmose com o Sílvio Santos. Um “quem quer dinheiro” picareta, elegendo a compra de apoios e armistícios como a muleta da vez para a sua oceânica antipatia crônica. O sonho dourado de Dilma e Lula é a aceitação. Para isso não poupam os cofres públicos, em busca de apoio para aplacar a gigantesca síndrome de preteridos. Este é exatamente o ponto, meus caros.

Evidente que tal crise de identidade acaba por reverberar em muito brasileiro. Todos aqui querem subir pelo atalho. Ganhar tempo em meio ao terreno baldio e à pirambeira moral aqui erigida. Se o governo oferece esse atalho via alinhamento, dinheiro fácil, compadrio e um “corruptos anônimos”; um tipo de apoio psicológico onde você encontra outros na mesma condição para sublimar as culpas, a coisa se torna um grande clube de batedores de carteira, não é mesmo? É o que eu vejo vicejar no país; uma mentalidade e um culto ao tacanhismo. Tal como as pirâmides, evidente que a corrente um dia se quebra. Evidente que os últimos elos da corrente não receberão o que lhes foi prometido.

O que falta saber aqui, e isso todo brasileiro de bem anda esperando, é se a polícia, que já foi acionada para desbaratar a quadrilha, vai chegar a tempo de prender seus principais executores. Ou eles continuarão com essa desfaçatez, humilhando os decentes, ameaçando a sociedade pagante com mais impostos, stédiles amestrados e mais roubalheiras?

Dilmita bacana, lá da Martinica, não consegue se divertir com um cacho de banana nanica. Precisa seviciar uma nação inteira. É claro que a síndrome de rejeição dela e do pai, Lula da Silva, assumirá contornos de patologia extrema ao saberem que o que fizeram ao país gera cadeia. Acho, no entanto, que a civilidade, as relações humanas, o apreço pelo pátria e os valores nacionais deveriam vir primeiro, na escala natural das coisas. É didático impor ao cidadão a responsabilidade pelos seus atos, mandos e desmandos.

Mais que isso: é fundamental para um país que se quer nação. Se estes dois senhores não tiverem o fim que a sociedade vem exigindo, o país estará condenado. Que os homens da lei pensem bem nisso. Trabalhar numa seara onde o bandido é o dono do pedaço definitivamente não faz do policial um homem correto. Ser presidido por bandidos não faz o país trilhar um bom caminho. Ter estes políticos que aí estão, relativizando as coisas, não leva o país um milímetro sequer adiante. E o preço a pagar por tudo isso sobe a cada dia. Precisa desenhar?

Helio Bicudo, o Senhor Impeachment

O pacto deles - e o nosso

Primeiro, foi Michel Temer, com seu “alguém precisa unificar este país”. Depois, o empresário Abilio Diniz sugeriu preencher o sujeito oculto com três nomes, os de FH, Lula e o próprio Temer, que seriam “trancados numa sala para encontrar a solução”. Na sequência, o sociólogo André Singer, porta-voz de Lula no primeiro mandato, propôs uma correção no esquema de Diniz, opinando que o chamado à reunião salvadora deve partir de Dilma Rousseff — e que a presidente precisa estar na sala lacrada. Finalmente, segundo informa a jornalista Dora Kramer, o ministro da Comunicação Social, Edinho Silva, um conselheiro do círculo direto de Dilma, peregrinou até o Instituto Fernando Henrique Cardoso para solicitar, sem sucesso, uma audiência não agendada com o ex-presidente. Paira no ar a palavra “pacto”.

A Alemanha tem algo a ensinar, quando se trata de pacto. Perante o Bundestag (Parlamento), em março de 2003, o chanceler social-democrata Gerhard Schröder expôs sua Agenda 2010, um plano de reformas nas relações de trabalho e no sistema previdenciário. O país concluíra o penoso processo de incorporação da antiga Alemanha Oriental, liderava a União Europeia no lançamento do euro e enfrentava as novas condições de concorrência global geradas pela ascensão chinesa. As reformas destinavam-se a alavancar a produtividade, que estagnara, de modo a reativar a capacidade exportadora da indústria alemã.

Schröder obteve apoio da Democracia-Cristã, o principal partido oposicionista, do empresariado e de líderes cívicos e religiosos. Enfrentou batalhas com os sindicatos mas, em 2004, conseguiu o suporte decisivo dos dirigentes da maior central sindical. O pacto alemão implicou cortes significativos nos salários reais e no welfare state. Em compensação, propiciou a retomada do crescimento e, mais adiante, conferiu à Alemanha a musculatura indispensável para resistir à crise geral da zona do euro.

Bem antes, a Espanha fizera uma experiência de sucesso no terreno perigoso do pacto nacional. O Pacto de Moncloa, de agosto de 1977, funcionou como ponte pela qual o país transitou do franquismo à democracia e, no fim do arco-íris, ingressou na Comunidade Europeia. Menos de dois anos após a morte do ditador Francisco Franco, a Espanha ingressava no quinto ano de uma recessão marcada por fortes desequilíbrios nas contas externas, inflação crescente e altas taxas de desemprego. Por iniciativa do presidente de governo de centro-direita Adolfo Suárez, uma comissão pluripartidária redigiu os textos dos acordos, que foram aprovados no Parlamento.

Nos acordos econômicos, definiu-se uma política de austeridade fiscal e de contenção salarial. Nos políticos, garantiu-se o direito de associação, a reforma do Código Penal e a reorganização da polícia. O Palácio da Moncloa, sede do governo, serviu de palco para a conclusão do pacto, assinado pelos líderes de todos os grandes partidos: o social-democrata Felipe González, o eurocomunista Santiago Carrillo, e o ex-franquista Manuel Fraga, do Partido Popular, que apenas não subscreveu o capítulo de reforma politica.


O Brasil carece da condição prévia que permitiu os pactos alemão e espanhol: a crença compartilhada na legitimidade dos partidos políticos. Os dois grandes partidos alemães aprenderam a lição da parceria no jogo democrático durante a Guerra Fria, quando conviveram na trincheira de resistência à URSS e à Alemanha Oriental. Na Espanha, apesar da memória indelével da Guerra Civil, os principais partidos tinham um objetivo comum, que era a democratização e o acesso à Comunidade Europeia. Por aqui, em contraste, o PT não enxerga os outros grandes partidos como rivais políticos e competidores eleitorais, mas como “inimigos do povo”.

A linguagem lulopetista liga-se à tradição da esquerda nacionalista latino-americana, que usa o conceito de imperialismo para exibir os demais partidos como representações internas de um “inimigo externo”. Do ponto de vista do PT, o PSDB está devotado a vender o “patrimônio nacional” às empresas estrangeiras. Os clássicos discursos petistas sobre a Petrobras e, meses atrás, as acusações eleitorais de Dilma contra Aécio Neves e Marina Silva evidenciam a impossibilidade de um pacto legítimo.

Um pacto distingue-se de um conchavo porque se articula em torno de uma nítida, detalhada plataforma política e econômica. No Brasil, o lulopetismo impede a formulação de consensos básicos como os que sustentaram a Agenda 2010 e o Pacto de Moncloa. Nosso pacto nacional teria que associar a consolidação fiscal a reformas estruturais destinadas a incrementar a produtividade. O pensamento econômico do PT, porém, continua hipnotizado pela combinação fracassada de estatismo e expansão fiscal do primeiro mandato de Dilma — e qualifica qualquer alternativa como uma maléfica conspiração “neoliberal”. Além disso, um pacto só teria sentido se atendesse à exigência cidadã de libertar a administração pública da colonização político-partidária, algo impensável tanto para o PT quanto para um relevante setor do PMDB.

As vozes petistas que, de repente, descobriram as virtudes do “pacto” buscam apenas uma saída tática para o desastre histórico do lulopetismo. O Brasil precisa, realmente, de um pacto nacional, cujos contornos esboçam-se em meio à crise atual. Mas, infelizmente, ao contrário dos precedentes alemão e espanhol, ele não será conduzido pelo governo e excluirá a participação de um dos grandes partidos, que é o PT. Nosso pacto é para o pós-Dilma, seja isso daqui a poucos meses ou apenas em 2018.

Há pouco, FH escreveu sobre a necessidade da formação de “um novo bloco de poder que tenha força suficiente para reconstruir o Estado brasileiro”. Nessa fórmula, encontra-se o reconhecimento de que a chave do futuro não é propriedade do PSDB e nem mesmo de uma coalizão partidária. Pacto, dito de outro modo.

Demétrio Magnoli

Doendo no corpo

Cidade vive a somatização da crise: sintomas físicos em consequência da insegurança econômica, da desorientação do governo e da incerteza geral

Recebi do deputado federal Índio da Costa um e-mail em que ele dá o seu testemunho sobre a violência na cidade. “A política me faz caminhar nas comunidades e tenho visto com os próprios olhos que traficantes e milicianos estão novamente armados como estavam antes das UPPs.

O conjunto de violência, crime e desilusão crescente com o projeto de ocupação aumenta a percepção de insegurança. Pesquisa feita nos dias 22 e 23 de agosto deste ano com 1.200 pessoas no Rio (capital) mostra que 85,2% dos entrevistados sentem medo ao sair de casa e 73,5% temem andar nas ruas”.

A pesquisa confirma a sensação de que tem aumentado — e não só no Rio — a somatização das crises, ou seja, o número dos que na televisão, nos jornais e na internet se queixam de sintomas físicos em consequência da insegurança econômica, da desorientação do governo e da incerteza geral.

Uns se dizem estressados por causa da violência. Um casal não consegue dormir direito com medo de que o marido perca o emprego. Uma pequena empresária tem permanente dores de cabeça e enjoos desde que constatou uma queda brutal no movimento de sua loja.

A jovem que não consegue emprego se revolta quando lê sobre a corrupção e os escândalos. Uma dona de casa que teve de reduzir gastos com alimentos entrou em depressão.

Como não acredita que o governo do estado sozinho possa resolver tudo — “ainda mais com o déficit de R$ 1 bilhão ao mês causado pela perda dos royalties e a rápida desaceleração da economia” — o deputado pretende mobilizar a classe política e a sociedade em torno de um projeto conjunto.

Nesse sentido, um seminário está marcado para o próximo dia 10, quando ele aproveitará para debater o conceito das janelas quebradas, que Rudolph Giuliani (com quem conversou quando ele esteve aqui recentemente) aplicou como prefeito de NY para combater a desordem urbana.

Mas embora a crise se apresente mais dramática no Rio sob a forma de violência, as manchetes dos últimos dias mostram que ela atinge todo o país sob a dimensão econômica. “Levy não descarta aumentar IR”, “Governo planeja elevar Cide, IOF e IPI” e, se não fosse suficiente, a notícia de que o Brasil foi rebaixado, isto é, perdeu o selo internacional de bom pagador.

Mesmo antes, se em vez de ajustar suas contas, a presidente tinha anunciado que adotaria “alguns remédios amargos, mas necessários”, imagina o que virá. O pior é que são remédios que devem aumentar o sofrimento psicológico e físico do paciente, que é quem paga a conta, e não garantem a cura.

De qual utopia precisa o Brasil?

O título deste post me ocorreu quando li, recentemente, o artigo de um economista no jornal que argumentava que a Constituição de 1988 é ainda a grande utopia brasileira. Constituição cidadã, como se disse à época de sua promulgação. Constituição que prevê a erradicação da pobreza, na qual a educação, a saúde, a alimentação e o trabalho são direitos sociais. Em suas páginas a segurança pública é dever do Estado e a ordem econômica tem por fim assegurar a todos existência digna. O ensino público deve garantir “padrão de qualidade”. De fato, um Brasil bem melhor do que o que temos.


Quando li que seria essa a nossa utopia, porém, fiquei acabrunhado: então é isso, o básico é o nosso ideal? De repente a palavra utopia pareceu forte demais: pertence ao reino do sonho, do impossível – e se é assim, então por que não pensar em termos mais audaciosos? Mas depois e consultando, em seus termos políticos, o sentido da palavra no dicionário (“qualquer descrição imaginativa de uma sociedade ideal”), ponderei que talvez a Constituição de 1988 seja de fato a nossa utopia. Que qualquer idealização de sociedade passaria, afinal, por aquilo que está escrito na Constituição brasileira no formato de seções, artigos e depois emendas, pois se trata de uma obra aberta, que vai sendo reescrita ao longo do tempo (para que isso ocorra são necessários 2/3 dos votos dos congressistas).

Seja como for, saúde, educação e tudo o mais são uma utopia ou o essencial?

Voltei a raciocinar nesses termos nesta semana quando vi a fotografia de um cartaz colocado no local onde 18 pessoas foram executadas em Osasco e Barueri, em São Paulo. No lugar da chacina, flores e a faixa: “A quebrada só pede paz, e mesmo assim é um sonho”.

A paz é “mesmo assim” um sonho. Distante. Inalcançável. Mas no final é apenas isso: paz. Uma espécie de utopia brasileira que de algum modo remete à Constituição de 1988: a segurança é um dever do Estado. Mas ter segurança não deveria ser algo tão utópico assim! Onde erramos? Onde está o fundo da questão? Como sair coletivamente do buraco ou dos vários atoleiros brasileiros? São tantos!

No que diz respeito aos serviços públicos, tem-se um quadro de insatisfação há muito tempo. Segundo uma pesquisa recente feita pela FGV-DAPP, 86% dos brasileiros estão insatisfeitos com a saúde pública, 82% com a segurança pública, 74% com educação e 67% com os transportes. Foram entrevistadas 3.600 pessoas em cinco regiões metropolitanas (São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Recife e Porto Alegre).

Os números não espelham nenhuma novidade, mas exatamente por isso, por seu caráter de repetição, é que preocupam. São os sintomas de uma Constituição não cumprida. De um pacto anunciado e não levado inteiramente a cabo. Muitos serviços melhoraram nos últimos 30 anos, é verdade, a própria educação se universalizou – mas e a qualidade? E os novos e incessantes desafios?

Por conta disso não espanta que, segundo o levantamento da FGV, três em cada cinco brasileiros estejam insatisfeitos com o funcionamento da democracia. Banalizar esta situação será um erro. O que refletir sobre ela?

Creio que uma parcela do desalento brasileiro atual é fruto da distância entre o que foi prometido e o alcançado, não por este ou aquele governo, mas no acumulado das décadas (talvez isso ajude a entender a rejeição generalizada aos partidos existentes). Leis podem melhorar ou piorar uma sociedade, e no caso da Constituição de 1988, ajudaram a estabelecer um marco abrangente de direitos.

OK, mas isto não basta. A vida das pessoas precisa melhorar na vida real e de forma continuada. Quem sabe não estaria justamente aí a brecha para a utopia? “Sonho que se sonha junto é realidade”, já disse o poeta. Quais lideranças vão saber captar e constituir este sonho?

sábado, 12 de setembro de 2015

Lula ira depor na lava jato ventilador ar condicionado sorvete gelo para gripar e perder a voz Marisa susto

O quinto dos infernos


Entre os desserviços proporcionados pela Era PT, um tem efeito devastador e exigirá muito tempo para ser recomposto: a perda do grau de investimento moral da sociedade civil organizada.

Em certo sentido, esse dano é ainda maior que o da perda do grau de investimento, recuperável pela adoção de medidas econômicas adequadas, em ambiente político mais confiável.

Mas o dano moral de privar a sociedade de tribunas qualificadas, espaços não estatais de interlocução pública, não tem preço. Entidades como OAB, ABI, CNBB e UNE levaram décadas para construir sua reputação, com participação ativa em todos os movimentos cívicos de envergadura do século XX.

São, porém, os grandes omissos em uma das maiores crises da história republicana brasileira – e, em certos aspectos, a maior.
Não se ouviu delas uma única palavra condenatória a respeito da roubalheira na Petrobras, que o jornal mais importante dos EUA, o The New York Times, considerou, em volume e abrangência, o maior caso de corrupção da história humana. Muito ao contrário, houve quem relativizasse o escândalo.


Aparelhadas pelo PT, hoje vocalizam os interesses desse partido, cuja própria sobrevivência está em risco, tal a diversidade de delitos já capitulados. Os ditos movimentos sociais – CUT, MST, MTST, entre outros – já nasceram sob a égide partidária, com a missão de cumprir uma agenda ideológica que está longe de exprimir um ideário comum à sociedade brasileira.

Têm, pois, coerência e representatividade a soldo. Seu declínio acompanha o do governo petista e das legendas que os patrocinam. Vivem de dinheiro público, à revelia do público.

Já as entidades da sociedade civil não pertencem a ninguém em especial. Foram forjadas nas lutas políticas hoje inscritas na história. A OAB, por exemplo, surge na sequência da Revolução de 1930 e tem participação ativa na luta contra a ditadura do Estado Novo, a partir de 1937.

Apoiou a queda do governo Goulart, em 1964, mas, uma vez configurada a determinação militar de não devolver o governo aos civis, tornou-se voz destacada na luta pela redemocratização.

Exerceu, por meio de seu então presidente, Raymundo Faoro, interlocução junto ao governo Geisel para construir a agenda da transição para a democracia, de que constavam, entre outras coisas, o restabelecimento do habeas corpus e das eleições diretas para presidente da República, que só retornariam de fato com a Constituinte, em 1988.

A CNBB, por sua vez, num país que já foi bem mais católico, perdeu musculatura moral ao se tornar força militante atrelada aos chamados movimentos sociais – que, por sua vez, obedecem a comando partidário. Deixou de ter qualquer importância, ao ponto de escassos católicos saberem o nome de quem a preside.

A sociedade foi às ruas, somente este ano, por três vezes, em manifestações que lotaram as ruas e avenidas das principais capitais. Disseram, por conta própria, tudo o que esperavam ouvir das entidades que sempre se ocuparam em vocalizá-la.

E o que elas disseram, quando ousaram romper o silêncio? Exatamente o que o PT e seus aliados à esquerda repetiam: que se tratava de gente rica, coxinhas, que nada tinham a ver com o verdadeiro povo (entidade abstrata que só ganha concretude se se filiar aos movimentos sociais).


O aparelhamento supôs ser possível promover uma revolução em silêncio, a revolução bolivariana, privada de qualquer debate público, a partir de uma engenharia política restrita a essas entidades, às quais se somou o que se pode classificar como uma síntese delas: o Foro de São Paulo.

O logro foi percebido a tempo de sustá-lo.

Alguns dos principais cabeças, na órbita partidária, como José Dirceu, estão na cadeia. Outros, como o próprio Lula, têm tudo para lá chegar. A revolução, sob o patrocínio de Simon Bolívar, personagem estranho à nossa história, abusou do princípio de que os fins justificam os meios e concentrou-se nos meios, de que a rapina à Petrobras dá um pálido exemplo – e que não é único.

A Era PT chegou ao fim, ainda que a remoção do governo possa levar algum tempo. A classe média, sem a qual não haveria PT, nem muito menos as revoluções – tudo começa e termina nela e com ela -, rompeu com o establishment petista.

E é sob seus escombros que se buscará algum remédio para o recomeço, para a sofrida tentativa de recolocar o Brasil de volta não a um paraíso, cada vez mais distante, mas ao singelo Terceiro Mundo. No momento, estamos no quinto – o quinto dos infernos.

Crise boa

É bom ver como artistas e cronistas apoiadores do poder, durante décadas, agora contorcem a boca e suas palavras se retorcem para inexplicar o fracasso de suas crenças ou conveniências.

A direita era ruim e a esquerda não é melhor, finalmente chegamos ao empate para começar um novo jogo.

Afinal, porque direita ou esquerda se temos dois olhos, duas pernas e dois braços? Ninguém anda só com uma perna ou vê bem só com um olho – e pouco podemos fazer só com uma das mãos.

Não quero me guiar nem por direita nem por esquerda, quero é ver governo funcionando bem e custando pouco.

O movimento para enxugar as câmaras municipais começou em pequenas cidades, mas pode ser o grande sinal de que começamos a enxergar o Mal.

O Mal, senhores padres, pastores, pais, patriotas, cidadãos e irmãos, o Mal é serviços públicos custando tanto e servindo tão pouco, Estado castigando a nação.

Mas que bom: isso gerou a crise em que tanto se purga e tanto se aprende.

A água, por exemplo, começou a ter a atenção que sempre mereceu. Talvez até aprendamos, com a crise, a apagar a luz e acender a mente.

Que seria de nós sem crises? O vento que castiga a planta também espalha suas sementes.

Embora ache (“e quem acha pode se perder”, já ensinou Noel) que o melhor para o Brasil seria Dilma fora, mas também acho que só pela lei. A esta altura, rua deve voltar a servir apenas ao trânsito.

Conforme a Constituição, Temer será o presidente. Se não puder ou não quiser, será Cunha, se ainda for presidente da Câmara, ou então Renan ou, em pela ordem, o presidente do Supremo (artigo 80) Isso, enquanto se organiza nova eleição, pois “vagando os cargos de Presidente e vice-presidente da República, a eleição para ambos os cargos será feita trinta dias depois da última vaga, pelo Congresso Nacional” (artigo 81).


Fora da Lei de novo, jamais! Precisamos da Constituição – e de sua renovação – se quisermos continuar em frente.

Enquanto isso, no mundo de quem trabalha e sustenta o Estado, grandes e pequenas empresas crescem e prosperam ou micham e quebram, driblando ou sofrendo a crise, que bom.

A Crise é um jogo, e pode apostar que vai render melhoramentos para a Civilização, time do meu coração.

Com a Crise, veja que bom, a arrogância entra em crise e a criatividade se atiça!

Quem dança com a nova música, cresce; quem não cresce, dança com qualquer música.

As crises derrubam, elevam, incubam, cevam, amadurecem, a felicidade das crises é mexer com o mundo, senão apodrece!

E só a Crise ensina direitinho que numa república temos de ter direitos e também deveres.

Não vamos sair da crise maiores, mas melhores com certeza. Então vivamos a crise!

Corda em casa de enforcado

Temer falou que Dilma não se mantém no governo com o baixo índice de popularidade. Foi um deus-nos-acuda. Não se fala em corda em casa de enforcado.


O governo só pensa em sobreviver, e paradoxalmente, cava seu próprio abismo. Não me refiro apenas às notícias ruins que os dados econômicos nos transmitem. Refiro-me à performance autodestrutiva do governo. Dilma viveu um 7 de Setembro isolada por placas de ferro, não teve condições de se dirigir ao País, com hora marcada na televisão.
No entanto, na véspera, acordou com uma ideia genial: vou sacanear os militares. Eles estão muito quietos. E assinou um decreto reduzindo os poderes dos comandos das Forças Armadas. Às vezes fico pensando se não é uma tática. Mas não consigo entender sua lógica. Como Dilma não é uma articuladora diabólica, prefiro pensar que é só incapacidade.
Levy, em Paris, disse que a elevação do Imposto de Renda pode ser um caminho para cobrir o rombo fiscal. É ou não é um caminho?

Ele vai apanhar muito por sua ideia. E talvez nem chegue a apresentá-la. Qualquer Maquiavel de botequim o aconselharia ou a fazer de uma vez ou, então, silenciar.

O erro de Levy ainda se pode explicar pelo desespero de buscar recursos para um Orçamento estourado. Mas é um erro que encobre outro maior: a ideia de aumentar impostos depois de o governo ter perdido a credibilidade.

O raciocínio de Temer, que deu inúmeras explicações sobre a frase, completava-se com a expectativa de que a crise seria superada e Dilma iria recuperar um nível de popularidade”razoável”. Mas é a própria expectativa de Temer que não é razoável. Como Dilma vai recuperar a popularidade? Como vai conduzir a recuperação econômica? Como uma presidente sem experiência política vai fazer a travessia, uma vez que a maioria a considera mentirosa e responsável pelo buraco em que nos metemos?

As raposas do PMDB diriam: para bom entendedor meia palavra basta. Não é bem assim. Carlos Lacerda, no livro "República das Abelhas", dizia que o Brasil parecia um homem que foi bêbado para a cama, dormiu pouco e mal, mas precisa acordar bem cedo pela manhã. Você tem de sacudi-lo, estapeá-lo. Se ficar fazendo festinha, ele não se levanta.

Lacerda apoiou alguns socos abaixo da linha da cintura, como o golpe militar de 64. Mas sua frase me fez refletir um pouco sobre esse possível despertar do Brasil.

Os fatos negativos se sucedem. Essa incrível quantidade levará a um salto de qualidade por si própria? Ou vai surgir da esfera da política, no sentido mais amplo, o impulso para que o salto se dê?

As manifestações de 16 de agosto indicaram uma grande confiança na Operação Lava Jato. Uma confiança merecida. No entanto, será que ela basta?
Estamos entrando numa crise de longa duração. Quanto mais tempo perdermos, mais vamos impor ao País, inclusive às novas gerações, grandes dificuldades futuras.

Será preciso uma intervenção maior da sociedade. De todas as maneiras. Em Nova York o cantor Fábio Junior denunciou a quadrilha que domina o Brasil. 

Alguns discutiram os termos do protesto, o público do cantor, seus recursos estéticos. Mas o cantor e os brasileiros que estavam lá, não importa sua opção estética, são morenos como nós, pagam impostos, têm sonhos e gostam do Brasil. Eles se manifestaram como inúmeros outros o fazem aqui, dentro do País.

Essa pressão social sobre um governo incapaz funciona como algumas sacudidas para o País acordar. Mas como um homem que dormiu tarde e precisa acordar cedo, será preciso ainda mais.


Já está ficando ridícula essa história de Dilma se desculpar pela metade. O governo não tem de responder apenas pelos seus erros, que ela nem admite completamente, usando o condicional: se cometi erros, é possível... Ora, os governos de Dilma e Lula estão na iminência de responder por crimes, no petrolão e nas campanhas presidenciais.

Nesse emaranhado de problemas, há os que, como Temer, têm uma expectativa de que Dilma faça a travessia. Ninguém, no entanto, é capaz de analisar desafio por desafio e nos convencer de como ela vai superá-los.

Da crença num suposto respeito à legalidade 
eleitoral, desloca-se rapidamente para a crença num milagre. Esperam que Dilma acorde renovada e conduza a grande travessia. Aí, ela acorda invocada e vai mexer com os militares – que, por sinal, foram bastante discretos na reação.

A cada semana inventam um novo imposto. A cada semana fracassam. O governo é um Sísifo ao contrário. Sísifo pelo menos, segundo a lenda, levava a pedra até o alto da montanha e a recolocava incessantemente. O governo está no alto da montanha jogando pedra para baixo. Quebrou o País, dirigi-lo tornou-se uma responsabilidade tão áspera que a própria oposição hesita em assumi-la.

Então, como vamos sair dessa? As pessoas na rua pedem impeachment, de uma forma que as vezes me preocupa. Acham que o impeachment vai resolver todos os problemas. Na verdade, é só um passo. Se as forças políticas não conseguem discutir nem o impeachment, abertamente, o que dirá de um programa nacional para se sair da crise?

Muitos analistas concordam que a crise pode levar-nos a um retrocesso, dependendo da maneira como a enfrentamos. O problema é que nem sequer a estamos enfrentando de forma coordenada. Essa lentidão pode nos custar alguns anos a mais de sufoco.

Dilma naufragou no oceano de suas mentiras, nas correntes geladas da crise, na trajetória de delinquência institucional do PT. No momento, somos como um barco de refugiados à deriva no Mediterrâneo.

Não podemos naufragar, nem esperar resgate. Somos grandes demais para a Europa, ou qualquer outro continente. Ou nadamos ou afundamos.
Fernando Gabeira

A desobediência civil

Aceito de bom grado a divisa “O melhor governo é o que menos governa”, e gostaria de vê-la aplicada de modo mais rápido e sistemático. Levada a cabo, ela resulta por fim nisto, em que também acredito: “O melhor governo é o que absolutamente não governa”, e quando os homens estiverem preparados para tanto, esse será o tipo de regência que terão. Na melhor das hipóteses, o governo não é mais que uma conveniência; mas a maioria deles é, em geral (e alguns o são às vezes), conveniente.
As objeções levantadas contra um exército permanente — e elas são muitas e convincentes, e merecem se impor — podem também ser levantadas afinal contra um governo permanente. O exército permanente é somente um braço do governo permanente. O governo em si, que é apenas o modo que o povo escolheu para executar sua vontade, está igualmente sujeito ao abuso e à perversão antes que o povo possa agir por meio dele.
Henry David Thoreau

A volta do Febeapá

Em 1964, diante da sucessão de asneiras cometidas sob a nova ordem instaurada no país –militares invadem casa de professor e confiscam o clássico marxista “A Capital”, de Eça de Queiroz; artista plástico vai preso por fazer exposição cubista, estilo de pintura originário de Cuba; neto de general obriga neto de coronel a bater continência para ele na escola–, Stanislaw Ponte Preta criou na “Última Hora” o Febeapá –o festival de besteira que assolava o país.

Era para rir e, ao mesmo tempo, para chorar. A que ponto chegara o Brasil, com aquela gente no poder. Bem, há muito deixamos de ser uma ditadura, mas o Febeapá nunca morreu de todo. De alguns anos para cá, por exemplo, parece mais potente do que nunca. Com uma diferença: as besteiras agora só se voltam contra quem as comete. Como a presidente Dilma, uma renitente praticante.

Certa vez, disse que o filme “Vidas Secas” mostrava o drama dos nordestinos que saíam “do Nordeste para o Brasil”. De outra, situou no Rio a Baixada Santista. Classificou a mandioca como “uma das maiores conquistas do país”. No mesmo discurso, criou uma nova espécie humana: a “mulher sapiens”. E sempre foi distraída, não? Na campanha para sua primeira eleição, em 2010, seus assessores ousaram confundi-la com Norma Bengell numa foto da Passeata dos 100 mil, em 1968, e Dilma achou muito natural; depois, inventaram-lhe um doutorado em ciências econômicas pela Unicamp, e ela também não protestou.

Outro dia, justo ao ser acusada de praticar “pedaladas” para falsificar os números da economia, Dilma começou a pedalar de verdade, deixando-se fotografar andando de bicicleta em Brasília. Que festa seria Stanislaw entre nós!

Mas, como se vê, as besteiras não se voltam só contra quem as comete. Ao fim e ao cabo, todos somos vítimas desse caos mental.

O culpado

Neste capítulo semanal do relato da crise de 2015, o drama mais evidente fica na conta da perda do grau de investimento, a inação do Planalto e subsequente ultimato da indústria pró-Temer a Dilma. Mas o show à parte, e potencialmente tão ou mais importante, coube a Luiz Inácio Lula da Silva.
Sua fala criticando o Grande Outro capitalista é tão risível quanto perversa, por embutir duas enganações.

A primeira é aquela que transmuta o sujeito embevecido que comemorava o "momento mágico" por cortesia da mesma agência de "rating" de 2008 no velho sindicalista se esgoelando contra os gringos em 2015.

Mas a segunda, consequência da primeira, é mais importante. Lula delimita seu já tênue apoio ao ex-governo de Dilma Rousseff. Vão, ele e os seus, martelar a diferença entre o "heyday" lulista e o miserê de hoje.

Dá certo, sempre há ingênuos e viúvas a forçar comparações. Como se Lula não tivesse lançado as sementes que Dilma fez germinar e crescer. Como se Guido Mantega não fosse ministro de ambos, para fulanizar as coisas, ou como se o boom das commodities fosse apenas um detalhe.

O desembarque de Lula, por óbvio, não pode ser escrachado. Foi ele quem inventou Dilma. Por isso, o petista pegou uma causa de fácil apelo, a crítica ao arrocho inevitável, para tentar fazer a transição ao papel de oposição –seja a uma Dilma alquebrada, a Temer ou a qualquer outro.

A meta é 2018, com ou sem o PT que evaporou. Mas, a despeito da popularidade que já foi bem maior, mesmo ela parece distante. Lula vai sendo tragado pela Lava Jato, que diz respeito, afinal, à sua gestão na Presidência e ao tipo de política de Estado aplicada à Petrobras.

Mesmo que sobreviva a isso, há um outro problema: ele é o pai da ruína de sua biografia. Não será com bravatas e desfaçatez que se livrará disso. E o Brasil de 2015 é mais sofisticado, a despeito de sua classe política, do que o país de 2002.
Igor Gielow

As palavras no muro

Adam Smith escreveu, em 1776, que "cada imposto" representa, para os que o pagam, "um emblema de liberdade, não de escravidão". Ele tinha em mente o conceito de contrato social: uma relação de legitimidade vinculando governantes e governados. Anos antes, a Revolução Americana começara como uma revolta de colonos contra os impostos. "Não à tributação sem representação" –a bandeira dos revoltosos apontava a ilegitimidade de atos tributários decididos por um Parlamento distante, que não abrigava representação das Treze Colônias. Dilma Rousseff deveria refletir sobre essa história, na hora em que busca, pela via tributária, uma saída para a quadratura do círculo de seu Orçamento deficitário.


Nos EUA, usa-se a expressão "taxpayer", o "pagador de imposto". No Brasil, "contribuinte", o que é uma aula inteira sobre as relações estabelecidas entre o Estado e a sociedade. O tributo, na versão americana, é "imposto", termo que implica uma tensão essencial: a "imposição" só será aceita se o poder for visto como legítimo. Por aqui, a tensão se dissolve no próprio domínio da linguagem: os indivíduos "contribuem", voluntariamente, para um Estado que não lhes deve explicações. A "contribuição" não é, no caso, "um emblema de liberdade", mas a naturalização da "escravidão". Hoje, porém, para azar de Dilma, os "contribuintes" parecem decididos a falar inglês, convertendo-se em "pagadores de imposto".

A tributação é um ato político tão distintivo quanto o voto. A definição do valor e da incidência social dos impostos solicita, nas democracias, a busca de um mínimo de consenso. Para obtê-lo, o governo precisa cercar-se de argumentos persuasivos e de sólido embasamento técnico. Dilma, porém, está à caça de R$ 30,5 bilhões, o tamanho do buraco no Orçamento. No lugar de uma proposta amparada na noção de justiça tributária, seu governo lança redes afoitas ao mar. Tentando restaurar a CPMF (registre-se o nome: "contribuição"), apelou à mentira, sua companheira de cama e mesa. Agora, numa admissão tácita de que a invocação da "saúde" era só uma alegação oportunista, esboça aumentar as alíquotas do IPI, do IOF e da Cide ("contribuição", ela também), enquanto ensaia a elevação do Imposto de Renda. Nessa trajetória, ao menos, dissolveu uma narrativa lendária: de mestre carpinteiro que entalharia relevos delicados nos gastos e receitas, Joaquim Levy reduziu-se a um ávido, atabalhoado, cobrador de impostos.

"Não à tributação sem representação", está escrito no muro da história. O dilema é de legitimidade: os eleitores não se sentem representados por um governo que traiu o voto e, imerso no fabuloso escândalo do petrolão, quer cobrir com impostos o poço perfurado pela irresponsabilidade fiscal. Quem, exceto néscios incuráveis e governistas profissionais, pode criticar o Congresso por resistir à ofensiva dos mercenários da tributação aleatória?

Há meses, o país pede a Dilma a admissão dos erros de política econômica do primeiro mandato. Não seria "penitência cristã" ou "autocrítica comunista", explicou FHC, mas um gesto tão ousado quanto indispensável. De um lado, pelo recurso inédito à verdade, propiciaria a recuperação de uma réstia de legitimidade. De outro, por meio de uma revisão doutrinária, ofereceria algumas certezas sobre os rumos do segundo mandato. Surda, a presidente prefere zombar de todos, atribuindo a crise a uma súbita, imprevista, mudança na conjuntura externa e, mais ainda, insistindo no conto infantil de que errou por fazer o bem.

Dilma não pode admitir o erro de fundo porque não está disposta a romper com suas crenças ideológicas e, sobretudo, para não romper com o lulopetismo. Presa na dupla teia, tornou-se escrava de seu fracasso, que condena o país à espiral recessiva. O governo já não pode tributar, pois tornou-se incapaz de representar.

Empresas brasileiras migram para o Paraguai

A brasileira X-plast fabrica brinquedos, utilidades domésticas, mesas e cadeiras de plástico em Ciudad del Este: 70% da produção é exportada para o Brasil |
Indústria brasileira no Paraguai
O Paraguai não faz milagre, é o Brasil que abusa dos impostos
Rafael Buddemeyer
Em busca de mão de obra mais barata e de impostos menores, empresas brasileiras de diferentes setores estão cruzando a fronteira e instalando filiais no Paraguai. O país vizinho, que hoje é um dos que mais cresce na região –o PIB paraguaio deve avançar 4% neste ano – se transformou em um parceiro estratégico para as empresas que pretendem baratear os custos da produção em um momento de forte crise da indústria brasileira.

O carro-chefe do Paraguai para atrair os brasileiros é a chamada Lei de Maquila, criada há mais de 15 anos. Inspirada no modelo mexicano, essa lei prevê isenção de impostos para empresas estrangeiras para importar maquinários e matéria-prima, desde que o produto final seja exportado. Há apenas um tributo único de 1% sobre a fatura de exportação quando a mercadoria deixa o Paraguai.

Hoje mais de 40 empresas brasileiras, de indústrias têxteis a fábricas de plástico, já adotaram o método que vem sendo incentivado pela Confederação Nacional da Indústria (CNI). A entidade levou, na última quarta-feira, mais de 90 empresários de 79 empresas para o Paraguai para que eles conheçam as oportunidades de negócios no país. Durante três dias, a comitiva brasileira que será acompanhada pelo ministro do Comércio Exterior, Armando Monteiro Neto, participará de seminários e de um encontro com o presidente paraguaio Horácio Cartes.

“A missão tem como foco mostrar o ambiente de negócio favorável no Paraguai. Não queremos que as empresas fechem suas portas aqui no Brasil, mas que se tornem mais fortes e competitivas, fazendo parte de cadeias internacionais de produção”, afirma a Sarah Saldanha, gerente de Serviços de Internacionalização da CNI. Ainda segundo ela, 80% das empresas que utilizam o método de maquilano Paraguai têm capital brasileiro e dezenas prospectam oportunidades de negócios no setor. O investimento de empresários do Brasil também é uma das causas do aumento desse setor: entre 2013 e 2014, as exportações das maquiladoras cresceram 52%, atingindo mais de 260 milhões de dólares.

“A procura está tão grande que não estamos conseguindo assessorar todos os interessados. Parte dessa demanda é pela crise que atravessa o Brasil, mas também pela própria competitividade do mercado. As concorrentes de empresas que já vieram em uma primeira leva percebem que precisam internacionalizar a marca”, explica Wagner Weber, diretor do Centro Empresarial Brasil-Paraguai (Braspar), que assessora empresários nas negociações.

Lula não gosta de poor's

A declaração do ex-presidente Lula a respeito da reclassificação do Brasil pela agência Standard & Poor's pode ser compreendida de 3 maneiras bastante diferentes: ou é uma mais uma bravata de petista para desqualificar opositores sem discutir o mérito da argumentação, ou trata-se pura e simplesmente da ignorância a respeito dos métodos utilizados para medição de riscos, refletindo o fato de seus sei lá quantos títulos de doutor não terem sido obtidos pelos méritos acadêmicos normais, ou ainda é o caso de personalidade incapaz de confrontar adversidades, como uma criança que acusa o irmão pela traquinagem descoberta pelos pais.

Sempre foi um método, desde que o grupo que atualmente ocupa o governo começou a despontar como força política considerável no Brasil , ignorar completamente qualquer argumentação, qualquer ato, qualquer fato contrário aos seus interesses, como se não houvesse qualquer verdade ou mérito fora dos manuais do partido. Portanto, qualquer tsunami econômico que balança até a China vira marolinha, qualquer Mensalão vira Ação Penal 470, qualquer censura vira Controle Social da Mídia, etc..

O que aconteceu foi que a agência avaliou seus parâmetors e concluiu, com métodos aceitos pela comunidade acadêmica, que o país está em condições piores que antes, e que somente obterá crédito no mercado internacional sob condições um tanto mais draconianas. Banqueiro é gente que leva muito a sério a questão do comportamento do devedor antes de colocar dinheiro em algum negócio. Portanto, as palavras de Lula "Isso não significa nada. Significa que apenas a gente não pode fazer o que eles querem" não estão em conformidade com os fatos. Aquilo que, conforme o ex-presidente, "eles querem" é apenas que nós, o Brasil, honremos compromissos assumidos, como qualquer pessoa, empresa ou governo com um mínimo de boa índole. Conforme pareça mais difícil que o cliente honre o compromisso assumido ou a assumir, quaisquer que sejam os motivos, os negócios tornam-se mais difíceis e mais caros.

O fato consumado que se apresenta é o que se imaginava: a conta da farra creditícia acabou de ser apresentada ao governo, e, junto com a fatura, veio a informação de que o nome, que ainda não está sujo na praça, está sendo avaliado como candidato um pouco mais sério a figurar no SPC. Ainda não estamos na região daqueles pedintes contumazes de empréstimos que devem ser evitados, mas os bancos (e investidores) estão de olho. Mais um pouco de descontrole, falta de seriedade ou distúrbios políticos ou econômicos e passamos definitivamente para o grupo dos que não devem ser considerados como integrantes sérios do mercado de negócios internacionais. Ao contrário da impressão blasé que Lula pretende dar ao fato, é sim um problema que pode interferir na vida de todos nós, inclusive de quem nem tem conta em banco.

O governo falha e quem trabalha paga

Ensina o sábio dito popular que a corda sempre arrebenta do lado mais fraco. E a política vive a nos mostrar que essa é uma verdade incontestável. Na última quarta-feira o Brasil recebeu a notícia de que uma agência de classificação de risco influente baixou o grau de investimento do país. O que significa isso, em bom português? Que o Brasil não é mais visto pelos analistas de tal agência como um lugar seguro para que empresas multinacionais façam seus investimentos.


Reagir à perda do grau de investimento tentando desqualificar a agência de classificação de risco é perda de tempo. Fato é que a agência sinaliza para o mercado. Assim, a notícia agravará a recessão que já é sentida na indústria, no comércio e, principalmente, nas camadas mais pobres da população.

E qual a primeira proposta desenhada pelo governo da presidente Dilma Rousseff para tentar combater essa crise? Aumento de impostos. Em outras palavras, a conta por uma política econômica atrapalhada, pelos desmazelos de um governo que nem sequer conseguiu estabelecer um diálogo decente com o Congresso Nacional, vai para o trabalhador, que já sustenta uma das mais pesadas cargas tributárias de que se tem notícia.

A crise brasileira, a rigor, não pegou ninguém de surpresa. Ela foi desenhada ao longo de um mandato que se caracterizou pela absoluta falta de diálogo não só com a classe política, mas também com a própria sociedade, e da inabilidade de lidar com quem o contraditório. Consertar o estrago, a essa altura, com o fantasma da inflação, do desemprego e da recessão se materializando, quase sempre descamba para providências improvisadas.

Uma delas foi enviar uma proposta de Orçamento deficitário para o Congresso, na esperança de dividir com o parlamento a responsabilidade pelos arranjos que a economia precisa. Outra foi a de ressuscitar o malfadado imposto sobre as transações financeiras, traiçoeiramente criado no passado para socorrer a saúde, mas que serviu a propósitos outros, sobre os quais nem vale a pena lembrar.

Tudo isso pode ser resumido assim: o contribuinte, mais uma vez, será chamado a quitar uma fatura que não é sua, será responsabilizado por um contrato que não fechou.


A carga tributária no país é de 35% do Produto Interno Bruto, acima de muitos países desenvolvidos. Com um agravante: não há a contraprestação. Sim, porque em países desenvolvidos o cidadão paga mais impostos, mas não tem de se preocupar em pagar por educação, saúde, transporte, segurança e outros quesitos básicos de uma vida cidadã.

Já se passou quase um mês desde que foi prometido, mas até agora não se mexeu no absurdo número de ministérios que compõe a pesada máquina administrativa federal. Que tal começar por aí? O ajuste fiscal começa nas contas públicas, fechando os escoadouros por onde escapa o dinheiro que nós, cidadãos trabalhadores, tiramos de nossas casas, de nossas famílias, para financiar a sociedade.

Não precisamos ser ingênuos para nos permitir esperar mais da política. Sim, sabemos que na chamada real politik os avanços são lentos e condicionados à conveniência dos grupos e de concessões de todos os lados. Porém, depois de 25 anos de vigência da Constituição que nos legou o maior período de normalidade institucional da República, precisamos avançar de fase.  E isso significa dizer que os políticos precisam parar de criar os problemas que depois fingem resolver.
Ibaneis Rocha

sexta-feira, 11 de setembro de 2015

Charge O Tempo 11/09

Sem mapas para enfrentar o curto prazo e o futuro

As nações precisam de dois mapas de voo: para enfrentar as dificuldades de curto prazo e para orientar os rumos históricos em direção ao futuro. Nós estamos sem qualquer desses dois mapas e com os pilotos sem credibilidade pelos equívocos na condução da economia e pelas falsas promessas na campanha, além de incompetência na formulação dos ajustes necessários para corrigir os próprios erros.

No período de poucas horas, a presidente Dilma determinou e voltou atrás no adiamento de parte do 13º salário dos aposentados, lançou e recuou na recriação da CPMF, anunciou a redução de dez ministérios, e não disse quais; e, sobretudo, enviou ao Congresso, pela primeira vez na história, uma proposta orçamentária com déficit primário de R$ 31,5 bilhões, R$ 367 bilhões se contarmos os compromissos com juros para 2016. A impressão é de improvisações e indecisões constantes. Faltam um comando político e um coordenador técnico.

As notícias desses últimos meses mostram o governo quebrado e desorientado. O ministro da Fazenda passa a ideia de que não sabe o que deve ser feito, e a presidente da República, de que não sabe o que quer que seja feito. E a população e os parlamentares não parecem dispostos a pagar o preço pelo enfrentamento dos problemas imediatos e muito menos pela construção de um país eficiente, justo, sustentável, saudável.

A sensação é a de que, sob os olhares passivos da população e suas lideranças, o governo conduziu o Brasil para a recessão e a quebra das finanças públicas, sem definir os rumos para o futuro desejado. Parecemos ter optado pelo caminhar sem direção, sem mapa, sem escolher os caminhos, apenas levando os problemas com pequenos arranjos e ajustes improvisados.

Há décadas agimos sem projeto de longo prazo, pensando apenas nos benefícios para cada um ou cada grupo, no imediato. Preferimos consumir logo, mesmo sacrificando a poupança para o futuro; optamos por aposentadorias ainda jovens, mesmo ao risco de não haver dinheiro para pagá-las quando chegarmos à velhice; aceitamos ser o celeiro de alimentos do mundo, sem cuidar de sermos uma economia produtora de bens de alta tecnologia.

Por isso, apesar de todos os nossos imensos recursos, chegamos ao 193º aniversário de nossa Independência como um país de baixa renda per capita, campeões de concentração de renda e desigualdades social e regional, um país pobre especialmente na educação, na ciência e na tecnologia; despreparados politicamente para construirmos o Brasil que queremos, ou mesmo para definirmos o rumo do que queremos no longo prazo da história futura de nossa nação.

Se fosse uma empresa, o Brasil teria de pedir concordata: substituir diretores, vender patrimônio, renegociar dívidas, reduzir salários, demitir trabalhadores, parar todos os investimentos. Como ele não é empresa, a Constituição impede de tomar quase todas essas medidas, deixando o país quebrado e sem mapa.

O gravíssimo pecado dos omissos


1. O PAÍS PERDE TRINTA ANOS EM 13

Os responsáveis pela crise brasileira podem ser classificados em três grupos principais. O primeiro inclui políticos, governantes e formadores de opinião que, numa rara e fecunda combinação de ignorância, incompetência e desonestidade, jogaram o país no abismo. O segundo é formado pelos que se beneficiando do governo concederam sucessivos mandatos a quem, diligentemente, conduzia o país de volta aos anos 80. Uniram-se no palco para a grande mágica petista: o país perde trinta anos em 13! O terceiro é o dos tão descontentes quanto omissos. Refiro-me à turma que não sai do sofá. Quando a água bate nas canelas, pegam as velhas listas telefônicas e sentam em cima. Estes últimos incorrem no gravíssimo pecado de omissão. Eu ficaria feliz se os ônus do que vem por aí incidisse, direta e pessoalmente, sobre cada um desses três grupos em vez de se repartir de modo tão injusto sobre o conjunto da população

2. OMISSOS!

É gravíssimo o pecado dos omissos no atual momento histórico brasileiro! O sujeito lê uma pesquisa e fica sabendo que quase 70% da população quer o impeachment da presidente e que ela conta com a confiança de menos de 8% da sociedade. Diante desses dados, em seu comodismo, ele se considera contado e se dá por representado. Naquela cabeça de cidadão omisso, o dado da pesquisa fala por ele. Representa-o.

3. TERCEIRIZAM O PRÓPRIO DEVER

Pouco importa se seu congressista, ou o Congresso inteiro, não o fazem. Pouco lhe interessa se o único assunto das lideranças com poder de fogo no parlamento é a formação de um "acordão" que mantenha tudo como está. Não o perturba a inconfiabilidade dos tribunais superiores. Ele terceirizou todas as suas responsabilidades cívicas. Ou o fez para as Forças Armadas, que não podem e não devem intervir fora das previsões constitucionais. Ou o fez para o juiz Sérgio Moro, como se o bravo magistrado e a sala onde trabalha não estivesse situada no andar térreo do enorme e pouco confiável edifício judiciário. A pachorra dos processos criminais contra personalidades do mundo político é simétrica à pachorra dos cidadãos omissos. E esta serve àquela.

4. MOBILIZAÇÃO OU CAOS

No entanto, o fio pelo qual pende esse trágico governo, só poderá ser rompido quando a mobilização do povo, fonte legítima de todo poder, alcançar proporções multitudinárias, se dezenas de milhões (e não centenas de milhares) forem às ruas, pacífica e ordeiramente, rugir de modo reiterado e insistente sua inconformidade para desestabilizar a quietude das instituições.

Uma das páginas mais aviltantes da nossa história está sendo escrita no tempo presente com as tintas da ignorância, da incompetência, da desonestidade e da omissão.

Percival Puggina

Fala sério, eles não são engraçados?

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“O que dá pra rir, dá pra chorar, questão só de peso e medida, problema de hora e lugar, mas tudo são coisas da vida... O que dá pra rir, dá pra chorar...”
O presidente do Senado Federal foi enfático em sua declaração contra aumento de impostos. Seu tom era o mesmo que nós, simples mortais, usamos ao reclamar do governo: “onde já se viu aumentar impostos? De modo algum, o governo que não venha com mais essa barbaridade para cima de nós!”.

Renan saía de um jantar com governadores e outras doutas figuras de seu partido quando afirmou que para o PMDB, em primeiro lugar, vem o "dever de casa que é cortar despesas e dar eficiência ao gasto público".

Meninos, fiquei boquiaberta! Mas, como boa brasileira, aceitei o milagre e vibrei com a entrada do bom senso na cabeça do senador. Confesso que ainda pensei: “mais uma que devemos ao extraordinário médico do Recife que fez nascer cabelos na careca do senador. Vai ver aproveitou e deu uma sacudidela nos neurônios do alagoano que, livres da poeira de anos, passaram a pensar melhor”.

Passou rápido minha fé no tratamento pois logo em seguida li duas coisas estarrecedoras: a troca da frota de veículos usados pelos senadores, assim como a colocação de um novo carpete azul pavão no Plenário e no Salão Azul onde os membros do Senado Federal nos favorecem com seus discursos inflamados e... inflamados.

Não é pouca coisa a troca dos carpetes. São quase quatro mil metros quadrados de tapetes, com muita mão de obra. A um precinho simpático: R$550 mil. Mas era imprescindível pois – copio do portal do Senado – havia “necessidade de uma apresentação compatível com a importância da Instituição Senado Federal”.

Já os carros oficiais serão trocados porque os atuais Renault Fluence têm dois anos de uso! Sou péssima em contas portanto peço a um leitor de alma generosa que faça as contas para mim: quantos dias por ano um senador usa seu carro oficial em Brasília (não se esqueça, leitor amigo, das férias)?

Quantos carros são ao todo? Sei que temos 81 senadores, mas Renan tem direito a dois carros por motivos “nunca dantes navegados”, como diria Camões. Fora os carros da segurança dos senhores senadores, sempre tão ameaçados.

Será que os carros novos, Nissan Sentra, durarão mais do que os Renault Fluence? Eu ia dizer os velhos Renault, mas o grilo falante que habita minha cabeça me impediu de chamar de velhos um carro com dois anos de uso.

Mas não é só o Legislativo que é engraçado. No Executivo temos Joaquim Levy, que chegou ao governo Dilma precedido por um mantra ecoado de Norte a Sul, “Agora Vai!”. Só que não deu uma dentro. E nunca foi tão curioso como nos últimos dias em Paris.

É verdade que Paris mexe com nossa cabeça. Uma caminhada ao longo do Sena é um perigo! Um sorvete no Bertillon pode mudar nosso destino. Isso é sabido. Mas a ponto do ministro da Fazenda deste Brasil tão estropiado dizer, diante da nota vermelha do S&P, que seu ministério não falhou: “A gente tem dado diagnóstico transparente, verdadeiro e agora as pessoas têm de tomar a sua responsabilidade. O governo deve cortar mais do que já cortou, mas (a população) tem de ter a disposição de fazer um sacrifício maior para todo mundo poder voltar a ver a economia crescendo”, isso foi um pouco demais.

Lá ele declarou que nós pagamos menos IR que muitos países e que isso não pode continuar. Onde já se viu uma coisa dessas? A sociedade brasileira quer continuar com essa vida farta: boas estradas, boas escolas, serviços de saúde de primeiríssimo mundo, moradias populares e esgoto sanitário em todos os municípios, transportes que cruzam o país? Que façam um sacrifício, ora vejam!

Quando dona Dilma o nomeou ministro, achei que não ia dar certo: eram de mundos opostos. Que nada! Foram feitos um para o outro!

Só mesmo cantando com Billy Blanco: 

Reforma política fake e o velho truque de 'mudar para nada mudar'

Em meio ao barata voa da conjuntura nacional, o Congresso aprovou esta semana a tão propalada (durante a campanha eleitoral) reforma política. Mas em versão para inglês ver. Tirando o fim da reeleição, ainda a ser votada no Senado, e que nos faz retroagir a como era antes de 1997, a dita reforma nada reforma de essencial. Reforça, antes, o velho bordão brasileiro de ‘mudar para nada mudar’. O sistema eleitoral resta intacto e o financiamento empresarial de campanha foi aprovado ou “constitucionalizado”, medida que segue agora para sanção de Dilma.



Depois de tantos escândalos, e de a corrupção se tornar a segunda preocupação nacional, conforme pesquisas de opinião, o Congresso não conseguiu levar a discussão sobre financiamento de campanhas em termos a pelo menos sinalizar para o público mais geral que existe algum tipo de incômodo real em relação ao sistema político atual. Problema do qual a relação empresas/dinheiro/partidos certamente faz parte.

Mas pelo visto não há incômodo algum para a maioria dos Congressistas. Apenas aquele medido por seguidos levantamentos de opinião e que aponta um profundo grau de descrédito da política em geral no Brasil. Quase oito em cada dez brasileiros rejeitam os partidos atuais e menos de 1% da população confia neles. Em termos de confiança nas instituições, os partidos estão na lanterna, atrás de Igreja (43% confiam), Forças Armadas (19,2%), Imprensa (13,2%), Justiça (10,5%), Polícia (8,9%) e Governo (2%), de acordo com pesquisa CNT/MDA de julho. O que pensar disso?

Depois das manifestações de junho de 2013, de uma campanha presidencial na qual os principais candidatos enfatizaram a necessidade de uma reforma profunda e das seguidas pesquisas de opinião que mostram um pico de rejeição aos partidos em geral, o Congresso não conseguiu parir, sequer, um rato. Os parlamentares não se mostraram interessados em encarar de frente a grave crise de representatividade que assola o sistema político; a nau parlamentar, fragmentada em 28 legendas, decidiu não embicar para lugar algum. Ou melhor: o país segue sua travessia, em círculos.

Nota baixa

Algaravia é uma tremenda duma palavra feia. Mas existe. E se existe podemos, então, usá-la.

Segundo os dicionários, algaravia é uma confusão de vozes, linguagem confusa, embrulhada. Algo assim como um discurso de Cantinflas, aquele cômico mexicano que recitava longas algaravias, recheadas de muitas palavras e nenhum sentido.

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O rebaixamento do grau de investimento do Brasil pela agência de risco Standard & Poors provocou uma tremenda algaravia nas hostes de governistas e assemelhados próximos ou distantes.

A primeira voz, claro, é do condestável da República, o Grande Timoneiro Lula, que é ao mesmo tempo inventor e sustentáculo do governo Dilma e mentor da “oposição por dentro” aos apertos orçamentários que ela precisa mas não consegue fazer.

Lula disse que o rebaixamento da nota do Brasil pela S&P “não significa nada”. Quando a S&P deu o grau de investimento ao Brasil em 2008, ele mesmo disse que estavam dando ao Brasil um “atestado de país sério’. Quando foi que ele falou bobagem: ontem ou em 2008? Não éramos sérios antes ou não somos agora?

Mas o diz-e-depois-desdiz de Lula não significa nada, diante do histórico de contradições que compõem sua trajetória de metamorfose ambulante.

Significativo é que a declaração de Lula tenha sido feita num momento em que ele estava em Buenos Aires ao lado de Cristina Kirchner, a presidente da Argentina, simbolizando que o caminho para a “argentinização” da nossa economia talvez esteja mais perto do que possa imaginar a nossa vã filosofia.

Nelson Barbosa, o ministro do Planejamento, disse que a decisão da agência de risco foi “uma surpresa”. Parece que todos sabiam, menos o ministro que planeja.

A algaravia ganhou a participação especial do heroico ministro da Fazenda, Joaquim Levy, chamado a dar explicações sobre o rebaixamento da nota do Brasil ao Jornal da Globo, ancorado por William Waack, que o bombardeou com perguntas incomodamente pertinentes.

Levy, com aquele olhar levemente vagotônico de quem não entende bem como é que foi parar no meio de um governo sem eira nem beira, onde é visto como uma borboleta num formigueiro, se pôs a recitar algumas banalidades, tipo:

“A baixa popularidade é uma possibilidade de aumentar ela”. Ou: “O rebaixamento (da nota) do Brasil é apenas uma avaliação". Ou ainda: (A Operação Lava Jato) é uma coisa bacana do Brasil”.

Mas essas não foram as frases mais chocantes de Levy. Para o dia seguinte ao do programa da Globo, ele guardou a iguaria mais fina:

“Os brasileiros devem encarar o aumento de impostos como um investimento”.

Essa frase foi demasiada até para um extraterrestre como Joaquim Levy, tanto que ele nem tentou dar-lhe um sentido. Limitou-se a dizer que “o país agora precisa trocar a fiação" e que o governo vai tomar algumas medidas até o fim do mês. Quais medidas? Um mistério.

O governo está estudando aumentos de impostos que não tenham que passar pelo Congresso, simplesmente porque pelo Congresso não passariam. Nem Renan Calheiros nem Eduardo Cunha, presidentes das duas casas do Legislativo, querem ter algo a ver com as desgraças econômicas do País, embora parte da responsabilidade pela aprovação de projetos arrasa-quarteirão dos cofres públicos tenha que ser dividida com eles.

Também do Congresso, que ultimamente tem produzido mais escuridão do que luz, veio o protesto do deputado petista José Guimarães, líder do governo na Câmara, que não levou a sério o rebaixamento da nota do Brasil “por aquela agenciazinha lá do fim do mundo”. (Nota: Jose Guimarães nasceu em Quixeramobim).

Mas do meio da tremenda algaravia produzida pela nota da Standard & Poors (que no dia seguinte, por sinal, rebaixou também a classificação da Petrobras), o silêncio que se tornou mais eloquente foi o da presidente Dilma. Um silêncio ensurdecedor.

Paralisia e antoengano

Imaginem um navio parado naufragando lentamente. De longe se ouve a balbúrdia. Alguns marinheiros tratam de acionar as bombas, enquanto outros abrem buracos para entrar mais água. As ações são contraditórias.  O navio fica mais ou menos na mesma. Contudo, o perigo de naufrágio continua iminente.


A atual conjuntura política no Brasil apresenta um quadro semelhante. O governo não naufraga, mas tampouco se recupera. Não naufraga pela falta de condições políticas para “finalizar” o mandato da presidente Dilma Rousseff. Nem se recupera pela sequência quase inacreditável de trapalhadas que produz.

Prosseguindo nas analogias marítimas, existem alguns no governo que parecem querer jogar a embarcação sobre as pedras. Resistem aos cortes, não dão importância à eventual perda do investment grade nem se mobilizam para atuar na linha do que todos desejam: recuperar o mais rapidamente possível a credibilidade econômica e fiscal.

Ao lado das trapalhadas políticas, o governo Dilma se sacrificou politicamente ao tomar medidas duras no campo dos preços administrados e na política cambial. No entanto, ao enfrentar o rombo fiscal, titubeou e está fugindo da raia. Mandou uma proposta orçamentária covarde. Poderá voltar atrás adiante.

Quando, dias atrás, o vice-presidente, Michel Temer, disse o óbvio – que governo nenhum resiste muito tempo com baixa popularidade —, houve uma grita exagerada. Não foi uma mensagem conspiratória. Foi, simplesmente, a constatação de uma realidade não reconhecida por muitos da alta cúpula.

O risco do autoengano é ainda pior porque as soluções que se apresentam tendem a mascarar o fato. Não há um pleno reconhecimento dos erros. Aqui e ali, de forma tímida e envolvida em muitos véus, surge um mea-culpa. Não convence. As soluções são parciais e mal embaladas. Agora o Planalto pretende aumentar os impostos sem mostrar o corte de gastos que todos esperam. E sem atacar algumas das questões estruturais, como os gastos com a Previdência Social.

Pouco mais de seis meses após a posse de Dilma, o governo envelheceu de forma irreversível. Para sobreviver terá que se reinventar. Elaborar um plano amplo de reestruturação ministerial. Adequar o ministério à base política e não ao contrário. Blindar áreas críticas com nomes acima de qualquer partidarismo. Dar força a uma política fiscal austera. Melhorar radicalmente o ambiente de negócios. Ampliar espaços para o investimento estrangeiro no país. E reafirmar o compromisso com a honestidade e a moralidade públicas.

A receita é simples. Duro é fazer. Governos e governantes devem saber dizer não aos interesses corporativistas. . Devem assumir seus erros e apontar novos caminhos. Não é o que ocorre. Ao contrário. As imagens projetadas e seus atos nos levam ao sentimento de que é preciso o país piorar muito para começar a melhorar. 
Murillo de Aragão

O Brasil vai muito mal, mas a turma de Lula vai muito bem

Ao ex-presidente e milionário Luiz Inácio Lula da Silva (por suas palestras recebeu R$ 27 milhões em quatro anos, dos quais R$ 10 milhões de empresas sob investigação no Lava Jato) não faltarão contratos enquanto houver no mundo líderes autoritários, oportunistas e populistas que queiram eternizar seus paus-mandados no poder a qualquer custo.

O LulaShow está acontecendo agora na Argentina, onde a presidente Cristina Kirchner, com olhos postos nas próximas eleições presidenciais, segue dilapidando as já enfraquecidas contas públicas de seu país, para tentar emplacar no poder seu candidato, um político subserviente, o ex-governador da província de Buenos Aires, Daniel Scioli.

Não foi divulgada a informação sobre as condições do contrato de Lula para essa participação na campanha de Scioli. Mas como se noticia que vai passar alguns dias em Buenos Aires ajudando o candidato, pode-se imaginar que a remuneração promete ser das boas.

A não ser que tenha o ex-presidente passado mais recentemente a se inspirar na Madre Teresa de Calcutá e resolvido trabalhar de graça, em troca de um prato de lentilhas e um bife de chorizo.

Quando Lula anda por perto, a presidente Cristina Kirchner enche-se de entusiasmo. Ontem, por exemplo, criticou a insensibilidade de muitos países diante do drama dos refugiados sírios. Até que algum assessor tenha dado uma piscada, sugerindo a mudança de tema, pois milhares de colombianos estão sendo também expulsos da Venezuela, pelo aliado de Kirchner e Lula, o presidente Nicolás Maduro.

Lula, por sua vez, falou das conquistas econômicas e sociais do Brasil, sob a gestão do Partido dos Trabalhadores. Nenhuma palavra, porém, sobre o desastre dos últimos seis anos, que culminou ontem com a degradação dos títulos do Brasil no mundo financeiro internacional. Não falou também sobre o estouro de nossas contas públicas, nem dos altos níveis de desemprego, nem do aniquilamento do setor industrial.

O Brasil vai mal, muito mal, mas Lula e sua patota regional vão bem, muito bem!

Diário do Polder