terça-feira, 11 de agosto de 2015

'Como é que você vai botar o pobre ali"

Carlos Carvalho, dono das áreas onde ficam o Centro
Metropolitano e a Vila dos Atletas da Rio 2016
Dono de mais de 10 milhões de metros quadrados de terras na Barra da Tijuca – bairro que sediará grande parte das instalações da Olimpíada do Rio 2016 – , o engenheiro Carlos Carvalho, conhecido como "dono da Barra", classifica os Jogos como uma "benesse de Deus" para o Rio de Janeiro.

Aos 91 anos e, desde 1951, único acionista à frente da empreiteira Carvalho Hosken (avaliada em R$ 15 bilhões), ele participa de obras no Parque Olímpico, ao lado da Odebrecht e da Andrade Gutierrez, onde, por meio de uma Parceria Público Privada (PPP), o consórcio construirá empreendimentos imobiliários a partir de 2018, em troca de quase R$ 1 bilhão de investimentos para custear a Olimpíada.

Além disso, a Vila dos Atletas, com 31 edifícios, está sendo erguida em suas terras, e caberá a ele comercializar 3.604 apartamentos no já batizado condomínio Ilha Pura, tão logo o Comitê Olímpico Internacional libere as acomodações dos mais de 17 mil competidores e equipes técnicas após os Jogos.
Se houvesse a invasão de todas as áreas, que era o que iam fazer em 1982, isso aqui ia ser um bairro para o populismo, para eleger gente de esquerda, prometendo aos pobres o que não iam dar
Ao contrário de Londres, onde a hospedagem dos atletas deu lugar a moradias acessíveis numa área revitalizada da capital britânica, no Rio os prédios seguirão a lógica do alto padrão, com direito aos "Jardins do Rei", com mais de 70 mil metros quadrados, e apartamentos que podem valer mais de R$ 1 milhão.

Quarenta anos depois de ter apostado na direção contrária ao desenvolvimento tradicional do Rio, quando começou a comprar terras na Barra (ainda um grande areal cercado de lagoas e manguezais e distante da Zona Sul), Carvalho vem colhendo os frutos da "aventura", após construir condomínios, shoppings e hotéis de sucesso – e há espaço para expansão, já que 2,5 milhões de metros quadrados de suas terras ainda estão vazios.

Sem papas na língua, em entrevista à BBC Brasil na sede de sua empresa, ele falou sobre sua história, os impactos da Olimpíada para o Rio, e respondeu a críticas sobre remoções e declarações dadas recentemente ao jornal britânico The Guardian, quando disse que a Barra representa o "novo Rio de Janeiro" como uma "cidade da elite, do bom gosto" e que, por esta razão, a Ilha Pura "precisava ser moradia nobre, e não moradia para os pobres".

Questionado pela BBC Brasil, disse que gosta dos ricos porque precisa deles, mas "prefere os pobres". Ele afirma que foi do povo e "continua sendo povo", embora admita que prefira "encher de rico" seu novo empreendimento na Vila dos Atletas.

"Você não pode pensar em tirar um favelado de onde ele vive, do habitat dele, para que ele venha a pagar aluguel e condomínio. Se ele não for preparado e se não houver um apoio correto para ensiná-lo sobre o seu novo habitat, o plano realmente não vai poder dar certo."

Foto: ReutersVocê não pode ficar morando num apartamento e convivendo com índio do lado, por exemplo. Nós não temos nada contra o índio, mas tem certas coisas que não dá. Você está fedendo. O que eu vou fazer? Vou ficar perto de você? Eu não, vou procurar outro lugar para ficar

É bom lembrar

Assuma o vale-tudo, Dilma

O Brasil precisa, muito mais do que nunca, que as pessoas pensem primeiro nele, Brasil, pensem no que serve à nação, à população brasileira, e só depois pensem em seus partidos e nos seus projetos pessoais
Senhora presidente, sua afirmativa chegou com anos de atraso e ainda eivada de seu próprio interesse. Um governante de respeito, que se faz respeitar, não pede à população que deve pensar no seu país quando os governantes nunca pensam nele, como a senhora.

Não são as pessoas que pensaram em partidos e projetos pessoais, mas a canalhada à toa com agrados governamentais seus e do ex Lula, gestos repetidos em outras esferas por seus cúmplices.

O vale-tudo foi protagonizado pelo PT em 13 anos; foi a senhora quem disse fazer o diabo para vencer em 2014. Portanto o vale tudo tem o selo Dilma-PT, que implantaram o sistema do Planalto aos municípios. .

A senhora também pensou todos estes anos na própria biografia de ser a primeira presidente mulher e ainda mais fazendo o diabo, inclusive levando um país à bancarrota. Era manter o projeto de aparelhamento governamental a qualquer custo mesmo tirando o couro dos mais pobres. Com que autoridade hoje pede união para livrá-la da queda e pagar a conta sua e do PT ?

Senhora presidente, seu discurso não é de uma governante, mas de uma governanta defendendo os seus patrões partidários e garantindo o seu emprego. Se fosse sincera, em algum momento, pediria as contas porque mentiu e continua mentindo, enganando no cargo. Seus eleitores votaram numa presidente mas que se revelou o que sempre foi e não deixará de ser: um poste como qualquer um outro pelas ruas, entregue às intempéries e aos cachorros. Merecidamente, há que se dizer.

Não há em suas declarações nem um pingo de desculpas pelo desastre e o sofrimento provocados por sua destrambelhada e interesseira administração. Quem deveria ter pensado, e muito, nos milhares de sofredores seria a senhora, mas sentimento por quem sofre não faz parte do seu DNA. Choro por sofrimento só em discurso, pois o importante é manter a canalhada, o governo aparelhado, e o povo pagando a conta de uma bancarrota provocada por outros.

Dilma, seus discursinhos de agenda positiva inaugurando casas, envergonhariam quem tenha vergonha na cara. Mas continua a insistir que é a presidente quando hoje é apenas um retrato na parede.

Por que odiar o PT

A primeira vez que me deparei com uma urna eletrônica foi para votar no Lula. E Lula se elegeu, depois de três tentativas malfadadas. Lágrimas grossas escorriam pelo meu rosto: com a prepotência característica dos 16 anos, tive a certeza de que era o meu voto que tinha feito toda a diferença.

A rua estava cheia de pessoas da minha idade que tinham essa mesma certeza. O Brasil tinha acabado de ganhar uma Copa do Mundo, mas a euforia agora era ainda maior: foi a gente que fez o gol da virada. Parecia que o Brasil tinha jeito, e o jeito era a gente –essa gente que nasceu de 1982 a 1986 e votava agora pela primeira vez.


Acabaram-se os problemas do Brasil –a gente chegou. Lembro das ruas cheias, das bandeiras do PT, lembro de abraçar desconhecidos na Cinelândia –Lula lá, brilha uma estrela.

Logo vi que não era o meu voto que tinha feito o Lula se eleger, nem o dos meus amigos, nem o da minha geração. Quem elegeu o Lula – isso logo ficou claro – foi o José Alencar, os Sarney, o Garotinho, foi aquela Carta aos Brasileiros e a promessa de que o Lulinha era Paz, Amor e Continuidade. Sobretudo continuidade.

Lula só alugou esse apartamento por quatro anos porque assinou um contrato de locação onde prometia entregar o imóvel i-gual-zi-nho. E Lula, por quatro anos, foi um inquilino dos sonhos – tanto é que renovou o contrato e ainda foi fiador da locatária seguinte. Fizeram algumas mudanças – as empregadas passaram a ganhar mais –, mas não fizeram o mais importante: uma desratização. Muito pelo contrário: os ratos de sempre fizeram a festa.

Caros amigos que odeiam o PT: podem ter certeza de que odeio o PT tanto quanto vocês – mas por razões diferentes. Odeio porque ele cumpriu a promessa de continuidade. Odeio porque ele não rompeu com os esquemas que o antecederam. Odeio por causa de Belo Monte e do total descompromisso com qualquer questão ambiental e indígena. Odeio porque nunca os bancos lucraram tanto. Odeio pela liberdade e pelos ministérios que ele deu ao PMDB. Odeio pelos incentivos à indústria automobilística e à indústria bélica. Odeio porque o Brasil hoje exporta armas para Iêmen, Paquistão, Israel e porque as revoltas do Oriente Médio foram sufocadas com armas brasileiras. Odeio porque acabaram de cortar 3/4 das bolsas da Capes.

O PT é indefensável – cavou esse abismo com seus pés. Mas assim como não fomos nós que elegemos Lula, engana-se quem vai às ruas e acha que está tirando Dilma do poder. Quem está movendo essa ação de despejo são os ratos que o PT não teve coragem de expulsar.

Boa sorte, presidente

"O choque de Poderes independentes deflagra um processo de aperfeiçoamento em busca das melhores práticas republicanas"
A presidente Dilma Rousseff exibe enorme disposição em defesa de seu mandato. Energizada por uma bem-sucedida dieta, que, como sabemos, é inequívoca demonstração de força de vontade, declarou em discurso sua legitimidade pelas urnas, amparada pelo voto popular. O ex-presidente FHC reafirmou, a propósito, que considera Dilma uma pessoa honrada, atribuindo malfeitos naturalmente a seus "tratores" partidários, que atuariam nos "limites da irresponsabilidade". Haveria, segundo ele, lobos e cordeiros na selva política. E o importante é se precaver contra os lobos em pele de cordeiro. Como FHC reclama de Lula por ter dividido a sociedade entre "nós", os do bem, e "eles", os do mal, devemos supor que admita ter conhecido lobos também no PSDB. A emenda da reeleição e o projeto "20 anos de poder" podem ter sido obras desses lobos, que perderam uma suja batalha política ante espécimes mais vorazes do PT.

Por tudo isso, pouco me interessa a fulanização da política brasileira. É evidente que há lobos e cordeiros em todos os partidos, embora o aparelhamento do Estado pela permanência no poder indique que uma alcateia possa ter assumido o comando do PT. O que falta em todos os partidos são os estadistas. Razão pela qual a dinâmica dos eventos atuais é dirigida pelo Ministério Público, pela Polícia Federal e por um novo Judiciário que se afirma como Poder independente. O que fariam os estadistas no Congresso? Estariam elaborando simultaneamente uma profunda reforma das degeneradas práticas político-eleitorais e outra profunda mudança do regime fiscal em torno de um pacto federativo. É perturbador o ranger das engrenagens da governabilidade quando não estão lubrificadas pelo dinheiro sujo dos propinodutos bloqueados pela Justiça.

Estamos construindo as instituições de uma Grande Sociedade Aberta. O choque de Poderes independentes deflagra um processo de purificação em busca das melhores práticas, desde que os atores atuem dentro de seus limites constitucionais. O ex-presidente Collor tinha também a legitimidade pelas urnas. Mas renunciou sitiado pelo Congresso em um processo de impeachment, pois a legalidade das práticas políticas é também uma exigência do regime democrático. Boa sorte, presidente... mas, acima de tudo, viva a República. 

Paulo Guedes

segunda-feira, 10 de agosto de 2015

Receita de Lula para salvar Dilma

Está nas mãos da presidente Dilma Rousseff a chance de escapar da degola. Ou da hemorragia que a levará a se esvair até o último dia do seu mandato. Basta que concorde com tudo o que seu Lula mandar.

É assim que pensam os que rodeiam Lula, e ele. Mas que se apresse porque o tempo passa, a Lusitana roda e daqui a pouco nem mesmo Lula, o aspirante a milagreiro, conseguirá operar o milagre prometido.

Dilma-aliados

Esqueçamos que, outro dia, Lula fez pesadas críticas a Dilma. Acusou-a, por exemplo, de ter mentido durante a última campanha eleitoral. Como se ele fizesse política sem mentir.

Acusou-a de fazer um governo de surdos, distante dos chamados movimentos sociais. E de estar, em resumo, no “volume morto”. Assim como o PT estaria abaixo do “volume morto”.

Não quis relembrar as críticas, mas relembrei. Era tentador! Asiante.

Lula ainda vê uma forma de, salvando Dilma – quem sabe? –, salvar o projeto de continuidade do PT no poder. Passaria por uma série de providências.

A primeira: uma reforma ministerial ampla, geral e irrestrita. Para reforçar a presença de partidos aliados no governo, mesmo que à custa do sacrifício do PT.

Sairia Aloizio Mercadante da chefia da Casa Civil da presidência da República. No lugar dele entraria Jaques Wagner, atual ministro da Defesa.

Sairia do Ministério da Justiça José Eduardo Cardoso, e entraria Michel Temer, vice-presidente da República.

Sairia da Secretaria-Geral da presidência da República Miguel Rosseto, e entraria Gilberto Carvalho, amigo de fé, irmão de Lula, camarada.

Sairia Pepe Vargas, ministro da Secretaria de Direitos Humanos do Brasil, para a entrada de qualquer outro.

Eliseu Padilha, ministro da Viação Civil, assumiria o ministério das Relações Institucionais.

O jornalista Franklin Martins substituiria Edinho Silva, ministro da Secretaria de Comunicação Social, ex-tesoureiro da campanha de Dilma no ano passado, e enrolado com a Operação Lava Jato.

Aproximação com o PSDB? Aproxime-se pra lá! O trunfo é pau, ô meu! Nada de demonstrar fraqueza.

Reduzir o número de ministérios? Nem pensar. A economia não significaria grande coisa.

Seria reaberta a temporada de loteamento de cargos no governo e de pagamento de obras construídas nos redutos eleitorais dos parlamentares. Velharia? Mas funciona, não duvide.

Eduardo Cunha: venha para cá, meu velho!

Sinto muito, Dr. Levy, mas o senhor perderia o emprego porque virou o ministro símbolo da rendição do PT ao arrocho.

Entraria outro para manter a mesma política, entendendo, porém, que de nada servirá mantê-la se isso implicar na queda do governo.

Algum dinheiro irrigaria os cofres dos movimentos sociais. E, sem grandes custos, seriam feitos acenos demagógicos para o populacho.

Quanto a Lula...

Em caso extremo, observadas essas e outras condições inconfessáveis de público, ele iria para o sacrifício de assumir algum ministério.

O das Relações Exteriores, não. Ficaria obrigado a viajar muito por aí com a imprensa em seu encalço.

O ministério da Defesa? O lugar seria adequado, sim, para um ex-presidente da República. E o livraria das garras do juiz Sérgio Moro.

Quanto a Dilma...

É para dizer a verdade? Dilma continuaria desempenhando todos os papéis de representação que cabem a um presidente. Aumentaria sua agenda de viagens ao exterior e aos Estados.

Mas na prática deixaria que Lula, com a discrição possível, coordenasse o governo. Ou melhor: governasse.

É pegar ou largar! Se não pegar, olha o Temer aí, gente!

Cuidado para não exagerarem na mão

O senador Aécio Neves é mesmo um moçoilo de bem, aliás como todo o tucanato. Agradam pela elegância no falar e no trajar. Procuram uma política asséptica, higiênica. É o maior pecado. Não saem para o bate-boca nem para a bofetada.

No fim de semana, Aécio pontificou que "o PT atrasou o Brasil em 20 anos". Descobriu a pólvora sem manipular qualquer de seus elementos e ainda usou mãos enluvadas.

É de se procurar saber por onde andou o senador, e seu partido, nos últimos 13 anos.

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Com a brancura de sua oposição, serviram de escada e praticamente fizeram escadinha para o PT, o mesmo acusado criminalmente de hoje, assumir o governo com tranquilidade por três vezes seguidas. Essa professoral política de barões do café com leite serviu como uma oposição de teatro.

Se o Brasil recuou 20 anos, não foi só por culpa do PT, que teve a maior parcela de culpa no processo. Os outros partidos também são culpados em menor grau, mas principalmente o PSDB, que se arvorou estes anos todos como oposicionista. Se omitiu, cruzou os braços, ficou nos gabinetes refrigerados e deixou o PT mandar e desmandar com a muleta peemedebista.

Se Michel Temer, vice-presidente e articulador do governo Dilma, foi infeliz em dizer na última semana que precisava haver "alguém" para mobilizar o país, não menos infeliz agora foi Aécio ao falar em "chamado para tirar o Brasil da crise gravíssima que o PT criou".

A crise é gravíssima, sem dúvida, mas nenhum político brasileiro, de que partido for, pode se eximir de culpa em levar o Brasil para esta situação, nem mesmo o tucanato café com leite. Ou até sequer Aécio, confiante em seus milhões de votos, pode condenar quem quer que seja, quando participou dessa politicalha subserviente.

Os únicos inocentes, que ainda acreditam no voto como atitude séria, mas infelizmente dão carta branca a uma cambada, são os eleitores. Nenhum político no Brasil hoje pode se eximir de ter metido o país nesta sinuca de bico. 

E mais serão culpados pelas articulações que tramam sem colocar em nenhum momento o que interessa à população, mas a seus interesses carreiristas.

Estão disputando nas armações para ver quem fica com a carcaça do PT. Mas precisam urgentemente deixar de lado as estocadas e pensar no país sem interesses políticos de poder. Se não colocarem o Brasil como 200 milhões de pessoas, vão desandar a receita de ordem e progresso.     

Um cerco de muitos anéis

Estava na Lagoa da Confusão, na cidade do mesmo nome, em Tocantins. José Dirceu foi preso. A televisão do quarto na pousada era cheia de chuviscos, ruídos e fantasmas. Sobretudo fantasmas. Em aparelhos ainda do século passado, acompanho no interior as operações da Lava-Jato. A julgar apenas pelo que vejo nas telas sempre divido o número de presos por dois. José Dirceu preso. Ou foi irmão preso? Ou ambos?

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Vejo esses programas, às vezes, ao lado de cozinheiras, porteiros noturnos, costumo ouvir essa frase: “eles roubaram demais”. É uma expressão comum entre o povo e pressupõe que exista um nível tradicional, moderado e regular de roubo com o que Brasil conviveu.

Vejo aí uma das razões do fracasso do PT ao se defender dizendo que não inventou a corrupção pois ela sempre existiu na política brasileira. Isso é uma espécie de senso comum. O que as pessoas acham é que o PT e aliados ultrapassaram todos os níveis anteriores, fizeram da corrupção uma política de governo, arruinando, simultaneamente, a credibilidade do sistema político e empresas estatais.

Saí da Lagoa em busca de melhor contato com as notícias. Em Palmas, descubro, diante de uma tela bem definida, que desemboquei num mar de confusão. Está tudo desmoronando. Temer acha que o Brasil precisa de alguém que o lidere na crise. Mas e a presidente para quem ele pediu voto? Ele queria dizer que Dilma já era.

De Brasília, recebo mensagem de um deputado: PTB e PDT saem do bloco, governo entrou em fase agônica. É a crônica dessa agonia que começo a escrever ao som das panelas.

No seu patético programa, o PT nos tratou como os portugueses trataram os índios. Estão unidos pela fé na imagem. Os portugueses deram espelhos para os índios maravilhados. O PT nos ofereceu um espelho mágico: as pessoas batem panelas vazias nas ruas, a superfície da tela reflete panelas cheias de alimentos coloridos.

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É uma estupidez política ironizar a opinião da maioria do país que os rejeita. Marcham para um processo pessoal doloroso. Outro dia, o senador Delcídio do Amaral foi vaiado numa casa noturna de Fomentera.

Não conheço o lugar, sei apenas, através da canção de Gil, que Fomentera é uma ilha aonde se chega de barco, mãe. Delcídio foi celebrar num lugar onde havia brasileiros. Isso no auge do escândalo na Petrobras. Gritaram “ladrão” e sacaram os celulares.

Ainda é uma sorte frequentar lugares em que, ao grito de ladrão, as pessoas sacam os smartphones. Em outros, sacam objetos mais contundentes.

O juiz Sérgio Moro bloqueou R$ 20 milhões de José Dirceu. Alô, alô, velho guerreiro. Mais grana do que qualquer marechal.

Se roubassem por uma causa e adotassem o estilo de vida de José Mujica, o ex-presidente do Uruguai, já seria condenável, pois seria uma opção autoritária, ilegal e secreta.
Mas para desfrutar o estilo de vida da elite que tanto condenam é uma opção de vida que merece um cerco de vários anéis, grades cada vez mais próximas.
A vaia que Lula e seus amigos levaram no Copacabana Palace é um momento cinematográfico. 

Escolheram os melhores quartos, mas não puderam ocupá-los depois de ouvir os gritos na pérgola.

Não conseguem perceber os anéis do cerco. José Dirceu os viveu nos extremos: preso em casa, terminou na cadeia.

Quando é que o PT vai fazer uma delação premiada? Mercadante desceu um degrau na autoestima e reconheceu que o governo teve erros, como todos os outros. É um pouco como dizer “errar é humano”. E para o Mercadante admitir que é humano foi preciso a maior crise dos últimos 20 anos. Se as coisas se agravarem, acabará admitindo que também é mortal.

Tudo bem, diria a cozinheira na Lagoa da Confusão: “Mas vocês erraram demais, roubaram demais. Quando vão reconhecer isso, assumir as consequências?”

No dia 16 de agosto, o PT verá que o espelho não funcionou. Não há marketing para a desgraça de um projeto político. Na minha experiência de queda em trilhas e barrancos, ao senti-la inevitável, o melhor é cair com jeito. Dói menos.

O PT aprendeu a derrubar, em 1989, precisa agora aprender a cair. A melhor saída é a renúncia de Dilma, a menos traumática. É inacreditável que, num momento agônico, ela ainda pense em governar por três anos. Não há espaço para uma rainha da Inglaterra com o peso de tanta rejeição, cortando fitas simbólicas ao som de panelaços.

O PT usou o programa de televisão pedindo juízo aos opositores. Nesse mar de confusão, o que se espera é que o PT tenha juízo.

Mais uma vez as coisas podem não acontecer como espero. De qualquer forma, continuo cantando na estrada: Cai, cai, balão. Eu não vou te segurar. Cai, cai Dilma. Cai, cai Cunha. Cai, cai Renan, eu não vou te segurar.

O imponderável Curvilíneo da Silva

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Há muita especulação no ar. Que o clima está fervilhando, não há dúvida. Que Dilma é a mais impopular presidente da República da história republicana, também procede. Que Lula tem receio de que as coisas cheguem a seu colo, é bem provável. Que o pacote fiscal do governo, desidratado pelo Congresso, prolongará a recessão econômica, é quase certeza. Que a presidente poderá ser condenada pelo Tribunal de Contas da União pelas “pedaladas” fiscais, é possível. Que o Tribunal Superior Eleitoral tome a decisão de desaprovar as contas de Dilma e Michel Temer, é uma tese a se levar em conta. Que o mesmo TSE possa separar as contas da presidente das contas do vice-presidente, desaprovando uma e aprovando outra, é alternativa viável. Que as delações premiadas continuarão a puxar políticos para o meio do furacão, é uma reta à vista.

Mas a política é balizada, como se sabe, pelo Senhor Imponderável Curvilíneo da Silva. Curvilíneo, em função da montanha de dúvidas que o jogo político oferece, e Silva, pela crença popular na única hipótese que escapa à imponderabilidade: o mar não está prá peixe.

A começar pelo Silva do sobrenome do ex-presidente Luiz Inácio. A certeza é que o carismático (?) Lula está nervoso, à procura da melhor saída do atoleiro em que se encontram o PT, o governo Dilma e ele próprio. Quanto a uma eventual cena de Lula com as mãos para trás, embarcando num camburão da PF, trata-se de um desfecho que só o Senhor Curvilíneo explica, a começar pelas circunstâncias, os depoimentos consistentes dos delatores premiados, a efetividade de provas de que circulou pelo propinudoto da Petrobras, a força (?) do carisma, a aprovação/desaprovação das ruas etc.

Sabe-se que, a depender do juiz Sérgio Moro, não haverá argumento que o livre da convicção de que todos os que frequentaram os desvãos da Petrobras deverão atravessar as salas da PF em Curitiba. Quem quiser conhecer o roteiro do juiz Moro, basta ler seu trabalho sobre Considerações sobre a Mani Pulite, onde descreve os passos da Operação italiana, com destaque para a independência e a coragem dos promotores e juízes, a imagem desgastada da esfera política, o apoio da opinião pública, o papel da imprensa, as vantagens da delação premiada, a amplitude da investigação, os resultados alcançados, entre outros vetores. Moro se imbuiu da “missão divina” de limpar o Brasil da sujeira por cima e por baixo do pano. Pelo visto, não fraquejará, indo até o fim e deixando aberta a possibilidade de condenar pessoas do mais alto calibre. Na Mani Pulite, foram condenados quatro ex-primeiros ministros.

Quanto ao impedimento da presidente Dilma, o argumento mais sólido, até o momento, é que falta o leit-motiv, o fato deflagrador para a decisão, algo como a prova concreta de recebimento de propina, coisa desse tipo. O domínio de fato, que inspirou decisões no STF por ocasião do julgamento do mensalão, é afastado do processo do petrolão. E por enquanto, não há indicação do envolvimento pessoal da dirigente na lista de propineiros. Outro argumento de vulto é sobre os atos cometidos no primeiro mandato da presidente. Não poderiam ser transportados para o segundo, apesar de teses contrárias, em menor escala, de que o governante, em dois períodos de quatro anos, é uno, não podendo repartir sua identidade. Mesmo se a situação comportasse tais abordagens, o affaire se prolongaria até o término do mandato na esteira de um denso contencioso jurídico.

Quanto às pedaladas fiscais, que teriam sido por ela cometidos, persiste a informação –procedente – de que outros governos teriam cometido o mesmo erro, particularmente as administrações de FHC e Lula. Ademais, a imagem do TCU, um ente com viés político, padece de corrosão face à suspeição de intermediação envolvendo o filho do presidente Aroldo Cedraz.

Se a questão das contas de campanha entrar na agenda do TSE, haveria duas vertentes a se considerar: uma, que a chapa Dilma/Temer, comprovando-se uso de caixa dois, seria cassada; outra, que as contas da presidente e de seu vice seriam separadas, na medida em que os dois apresentaram contas separadas ao Tribunal, cada qual com doações, receitas e despesas devidamente arroladas. Nesse caso, as contas da presidente, em caso de desaprovação, poderiam ensejar um pedido de impeachment no Parlamento.

Ora, todas as hipóteses baterão nas casas da representação política. Como se sabe, a decisão de afastar um mandatário, em qualquer nível, ingressa na esfera político-parlamentar. Os representantes, porém, costumam atrelar suas decisões ao momento social do país, o que significa avaliar demandas e carências da comunidade, ouvir o grito das ruas, sentir a indignação das massas. Esse poder acabará fazendo eco nas instituições políticas. E como decide o político?

Com um olho no cargo, outro nas ruas. Os postos na administração pública seguram os votos a favor ou contra o governo. Nesse ponto, a dúvida persiste: em tempos de vacas magras, o que o governo pode distribuir? A divisão de comandos na administração saciará o apetite de todos os partidos da base? O governo tem munição para enfrentar a luta por cargos, quando ele mesmo pensa em cortar o número de Ministérios, hoje somando 39? A economia é a locomotiva da política. Se a locomotiva não tem combustível, o trem para. Aos ocupantes dos carros, resta ouvir o clamor da turba. Se o caso for esse, os representantes tomarão distância do Executivo, fazendo fila para contestar a chefe do Executivo. E quando dirigentes das casas representativas entram na lista de suspeitos envolvidos na Mani Pulite brasileira? Eis o imbróglio que dá vida à Sua Excelência, o Senhor Imponderável Curvilíneo da Silva, cujo sobrenome exprime a única certeza que se tem: a crise vai longe. 

Como se forma o poder

 

Demissão? De jeito nenhum

Evidência maior de que o governo bate cabeça, com Madame despencando cada vez mais nas profundezas, está na reunião do conselho político por ela convocada para a noite de ontem, no palácio da Alvorada. Além do vice Michel Temer, lá estiveram sete ministros. Todos discutindo soluções para o país sair da crise, mas saltando de banda diante da proposta maior que seria, mas não foi, a completa reformulação e redução do ministério, para a adoção de um plano capaz de recuperar a economia e pacificar a política.

No caso, “farinha pouca, meu pirão primeiro”. Ou máxima ainda mais antiga, do “Mateus primeiro os teus”. À exceção do vice, com mandato fixo, não cogitaram entregar os cargos Aloísio Mercadante, da Casa Civil, José Eduardo Cardozo, da Justiça, Elizeu Padilha, da Aviação Civil, Nelson Barbosa, do Planejamento, Jacques Wagner, da Defesa, Edinho Silva, da Comunicação Social, e Joaquim Levy, da Fazenda – se é que algum outro compareceu e não está referido. Imagine-se os demais integrantes de uma equipe no total com 39 ministros. Com unhas e dentes, agarra-se a equipe posta em frangalhos para encontrar a saída da crise sem abrir mão de seus espaços, quando o primeiro ato dessa novela de horror seria deixar Dilma à vontade para mudar tudo.

Recompor o governo, e até cortar pela metade o número de ministérios, seria o primeiro passo na busca de novas soluções para evitar a bancarrota nacional. Como todos pretendem ficar, julgando-se detentores de programas para a recuperação, esbarra a tentativa em seu primeiro e insuperável obstáculo. Na verdade, mais do que salvar a economia ou salvar a própria Dilma, pretendem salvar-se.

Nem sempre essas mudanças dão certo, mas sem elas o fracasso torna-se inevitável. Nem se fala dos ministros ausentes da reunião de ontem, parte dos quais a presidente nem saberá o nome, quanto mais suas metas, se é que as tem.

Entregues à sanha dos partidos, os ministérios não desenvolvem objetivos para os respectivos setores, senão para garantir seus espaços de poder, quando não para distribuir benesses e propinas. Como faltam coragem e discernimento a Dilma para compor uma nova equipe, o governo continua a girar em círculos. Logo se constatará não haver mais tempo, como não houve para Fernando Collor, anos atrás. Em queda livre para a defenestração, ele compôs o que terá sido o melhor ministério da República. Não adiantou.

Faltam detalhes sobre o encontro da noite passada, mas não errará quem supuser exortações de fidelidade e confiança na superação do caos, por parte dos ministros presentes e na intenção dos ausentes, quando bastaria um pedido de demissão coletiva e irrevogável de todos.

Por que a esquerda enveredou para o crime

O que está acontecendo com o PT não é um fenômeno isolado. Aconteceu com vários grupos da esquerda autocrática depois da queda do muro de Berlim. Sobretudo na América Latina, em que muitos dirigentes de organizações ditas revolucionárias enveredaram para o crime.

Conheci vários desses militantes que viraram bandidos. Daniel Ortega, da Frente Sandinista, hoje presidente da Nicarágua, foi um deles. Me lembro como se fosse hoje. Ele foi convidado de honra no I Congresso do PT (que coordenei), no final de 1991. Chegando lá, no Hotel Pampa, em São Bernardo, Daniel pediu logo ao tesoureiro do PT à época, se não podia arranjar umas prostitutas. Esse Daniel e seu irmão Humberto, eram teleguiados de Fidel, que lhes passava pitos, aos berros. Reuniões decisivas para o futuro da chamada revolução sandinista foram realizadas em Havana, sob o comando de Fidel. E enquanto as bases petistas da Igreja idolatravam por aqui os sandinistas como expoentes de uma nova espiritualidade dos pobres, esses bandidos assaltavam patrimônio público (inclusive passavam para seus nomes propriedades imóveis) do Estado nicaraguense.


O mesmo ocorreu com gente da Frente Farabundo Marti de Libertação Nacional de El Salvador, que também está no governo. Aconteceu com o Mir (e com o Mir Militar) chileno, com alguns Tupamaros, com as FARC colombianas e, é claro, com a nova leva de bolivarianos, que não tinham tanta tradição de esquerda, como Chávez, Maduro e Cabello (mas aí já estamos falando de delinquentes da pior espécie, que inclusive chefiam o narcotráfico na região) e como Rafael Correa e Evo Morales. Bem, para resumir, aconteceu com boa parte das organizações e pessoas que frequentam as reuniões do Foro de São Paulo (fundado, não por acaso, um ano depois da queda do muro - e eu estava presente na reunião de fundação, no Hotel Danúbio).


Não dando certo a revolução pela insurreição, pelo foquismo ou pela guerra popular prolongada, essa galera chegou à conclusão de que seria preciso fazer a revolução pela corrupção. Bastaria adotar a via eleitoral contra a democracia e depois assaltar o Estado para financiar um esquema de poder de longo prazo. O plano era simples: conquistar hegemonia sobre a sociedade a partir do Estado aparelhado pelo partido. O objetivo era claro: chegar ao governo pela via eleitoral, tomar o poder e nunca mais sair do governo. Para isso, entretanto, era necessário, além do tradicional caixa 2, fazer um caixa 3, encarregado de custear ações legais e ilegais, ostensivas e clandestinas, para controlar as instituições, comprar aliados, remover ou neutralizar obstáculos...

Afinal, pensaram eles: as elites não fizeram sempre assim? Para jogar o jogo duro do poder não se pode ter escrúpulos. Foi essa a conclusão de Lula, Dirceu e dos dirigentes petistas que tomaram o mesmo caminho. É claro que, como ninguém é de ferro e como não se pode amarrar a boca do boi que debulha, alguma compensação em vida esses bravos revolucionários mereciam ter. E foi assim que enriqueceram, abriram contas secretas no exterior para guardar os frutos dos seus crimes, adquiriram bens móveis e imóveis em nome próprio ou de terceiros e foram levando a vida numa boa enquanto o paraíso comunista não chegasse.


O ano de 1989 foi decisivo para essa degeneração política e moral da esquerda. Mas o que aconteceu não foi um resultado do somatório de desvios individuais. Não! Eles viram que seria muito difícil conquistar o mundo e assumir o comando de seus próprios países, contrapondo um bloco a outro bloco. O bloco dito comunista se desfez. A União Soviética derreteu em 1991. Ruiu tudo. E agora? Bem, agora - pensaram eles - seria necessário ter uma nova estratégia. E eis que surgiu uma ideologia pervertida, baseada numa fusão escrota de maquiavelismo (realpolitik exacerbada) com gramscismo. Eles, como operadores políticos, conduziriam a realpolitik sem o menor pudor, enquanto que pediriam ajuda aos universitários para dar tratos à bola do gramscismo (e reproduzir mais militantes nas madrassas em que se transformaram as universidades).

No Brasil, porém, parece que erraram no timing. Precisariam de mais uns três ou quatro anos para ter tudo dominado, dos tribunais superiores, passando pelo Congresso, pelo movimento sindical e pelos fundos de pensão, pelos (falsos) movimentos sociais que atuam como correias de transmissão do partido, pela academia colonizada, pelas ONGs que se transformaram em organizações neo-governamentais, por uma blogosfera suja financiada com dinheiro de estatais e por grandes empresas (com destaque para as empreiteiras, atraídas pela promessa de lucros incessantes quase eternos se estivessem aliadas a um sólido projeto de poder de longo prazo).

Não deu tempo. O plano foi descoberto antes que as instituições fossem completamente degeneradas. E chegamos então a este agosto de 2015, ano em que alguns desses dirigentes vão começar a assistir, de seus camarotes na prisão, o desmoronamento do esquema maléfico que urdiram.

Augusto de Franco  (coordenador do primeiro Congresso do PT).

História mal contada



A História está mal contada. Literalmente. Para subsidiar o relatório final da Comissão Estadual da Verdade do Rio de Janeiro (CEV-RJ), pesquisadores da PUC-Rio se debruçaram sobre 20 de 40 livros da disciplina indicados pelo governo a alunos dos ensinos fundamental e médio. O grupo analisou o conteúdo relacionado ao período da ditadura militar. O resultado decepcionou. A tortura dos presos políticos é abordada superficialmente; as sucessões presidenciais e os Atos Institucionais são enfileiradas em ordem cronológica, sem contextualização; faltam informações sobre o ambiente sociopolítico que antecedeu o golpe de 1964. Não há referência às violações dos direitos humanos nem à luta por anistia e Justiça de transição. São lacunas que explicam muito do Brasil de hoje, três décadas após a redemocratização.

Todas as edições avaliadas pelo grupo coordenado pelo professor José Maria Gomez integram o Programa Nacional do Livro Didático. É via PNLD que o Ministério da Educação influencia o projeto pedagógico das escolas brasileiras. Os vácuos deixados tanto nos livros quanto na formação professores interferem no que os pesquisadores chamam de ferramentas para a não repetição. “A escola tem o papel de analisar de forma exaustiva e pertinente a ditadura e tudo o que ela significou, não só naqueles 21 anos, mas também na História atual do Brasil. Se olharmos os laços do passado com o presente, entenderemos como a violência política da ditadura se relaciona com a violência policial hoje. A compreensão daquele período é fundamental para que experiências autoritárias não se repitam”, explica Gomez.

Nos livros de História, chamou atenção, em particular, a falta de menção aos direitos humanos. O tema só aparece em títulos de Sociologia. Quase nenhuma publicação trata da repressão do regime a trabalhadores, camponeses e indígenas. São raras as referências aos atentados planejados e executados pelas Forças Armadas. Mortes e desaparecimentos de presos políticos são abordados genericamente, embora nos últimos anos a apuração dos crimes tenha avançado. Prova disso são a Comissão Nacional da Verdade, cujo relatório final foi publicado em 2014, e a multiplicação das comissões estaduais.

Os nomes dos livros, segundo o professor Gomez, não serão divulgados, porque a intenção da pesquisa não é constranger os autores, mas fazer recomendações para políticas públicas de educação e memória. Uma delas é ampliar o conteúdo dos livros; outra, incrementar a formação continuada dos professores com resultados de investigações recentes sobre o regime militar. Há a ideia de instituir no Estado do Rio o 28 de março como data dedicada às reflexões sobre violações de direitos humanos. Naquele dia, em 1968, o secundarista Edson Luís de Lima Souto foi assassinado por policiais militares do Rio durante a invasão do Calabouço, um restaurante estudantil da capital.

O projeto “Políticas públicas de memórias para o Estado do Rio: pesquisas e ferramentas de não repetição”, da PUC-Rio com financiamento da Faperj, engloba outras dimensões. Será elaborado um livro com localização e história de 90 pontos de repressão e resistência. Vinte e três espaços de dispositivos repressivos já foram mapeados, entre eles DOI-Codi, DOPS, Casa da Morte (Petrópolis). Ypiranga Futebol Clube (Macaé) e Batalhão de Infantaria Blindada (Volta Redonda). Os pesquisadores vão propor a transformação de alguns em centros de memória. Para ninguém deixar de aprender. Nem esquecer. 

Só a propaganda não resolve a crise nacional

O programa do PT veiculado na última quinta-feira desencadeou reações negativas por todo o país. Panelaços, buzinaços e foguetórios retrataram novamente a crise de popularidade anunciada pelas últimas pesquisas, ratificando o que é, seguramente, o pior momento da presidente Dilma Rousseff e de seu partido. Lula, inclusive, confirma a precária situação da estrela vermelha ao dizer que “nosso pior momento ainda é melhor para o trabalhador”. É uma meia verdade que não funciona bem como uma boa mea culpa.

Talvez tenha sido a melhor inserção que o partido produziu desde os tempos da campanha feita por Duda Mendonça para eleger o Lula “paz e amor”. Foi também um bom material informativo. Traz dados que são verdadeiros e relembra o que de bom o PT conseguiu trazer para o Brasil. Do ponto de vista técnico, portanto, a inserção foi uma excelente peça de publicidade, com objetividade, emoção e plástica irretocável.

Porém, para uma propaganda funcionar, não basta apenas um grande comercial. O bom resultado depende da conjugação de outros fatores, sobretudo os externos, como a disposição do interlocutor em ouvir.

Quando o PT de outros tempos colocou na televisão a bandeira brasileira sendo consumida por ratos e depois apostou na emoção de dezenas de grávidas descendo um gramado rumo à esperança de um futuro melhor, três aspectos colaboraram para o sucesso da comunicação petista: a população acreditava no PT, sentia que o partido era algo novo para o Brasil e desejava uma mudança. A publicidade despertou uma predisposição já existente na sociedade.

Em meio à tormenta que vivemos agora, os brasileiros, pelo menos em sua grande maioria, não acreditam mais que o PT possa resolver os dramas do país, sentem raiva de suas principais lideranças e, novamente, desejam mudanças em quase tudo o que permeia a vida pública e política de nosso país.

Portanto, pior que ouvir as panelas de quem é contra o governo de Dilma é não ser ouvido. Tudo o que o PT tenta dizer está sendo usado contra ele próprio. Falta a tal predisposição do interlocutor. O acreditar, o sentir e o querer da população não vão mais ao encontro do PT, mas de encontro às políticas que Dilma e sua equipe de governo, inevitavelmente, terão que perseguir para conseguir recuperar a economia.

O discurso da crise política não é o bastante para recuperar a governabilidade. Em outros tempos, falava-se de um “pacote de bondades”. Sem condições para oferecer isso às massas, devido às finanças do país, o melhor que a presidente pode fazer é resistir à tempestade operação Lava Jato atinja sua cabeça. Dessa vez, a propaganda não poderá ajudar muito.
 Heron Guimarães

A farra dos cargos de confiança

A estrutura governamental da administração Dilma, com seus 39 ministérios, custa perto de R$ 500 bilhões por ano aos cofres públicos e possui mais de 100 mil pessoas em cargos de confiança. Este número é um deboche ao trabalhador e contribuinte que não vê nenhum resultado prático dessa gastança desenfreada.

Dentro dessa triste realidade, chama nossa atenção essa imensa quantidade de cargos de confiança e seus valores. Só no Ministério da Educação, temos mais de 50 mil cargos de confiança, fora os cerca de 300 mil efetivos. Vale lembrar que na época de Juscelino Kubitschek tínhamos 13 ministérios.

Durante a Ditadura Militar nunca passamos de 16. José Sarney tinha 25, Fernando Henrique 24, Lula subiu para 35 e Dilma chegou a 39. Países como Alemanha e Estados Unidos têm respectivamente 14 e 15. Isso mostra claramente que a criação de ministérios e cargos de confiança é uma forma de abrigar a corte governamental e sua base aliada. Faltam professores, médicos, policiais, mas sobram assessores para todos os lados. Cada deputado federal pode ter até 25 assessores.

Para a Presidência e Ministérios não há limites de cargos de confiança, bastando que sejam autorizados pela Presidenta. Com tudo isso, temos um dos piores serviços públicos do mundo. Em termos de salários, um motorista ou uma secretária do IPEA ganha mais que um professor com doutorado no magistério público. Cada senador pode contratar até 50 assessores comissionados, cada deputado até 25 e assim por diante. A Presidência da República tem cerca de 7.000 servidores e esses cargos envolvem gastos absurdos.
No final de 2014, o Planalto adquiriu eletrodomésticos, toalhas de banho, aparelhos de ginástica e outros, pela bagatela de R$ 260 milhões, para melhorar o condicionamento físico dos seus servidores e seguranças. Atualmente, pressionada pelos movimentos das ruas e pesquisas que apontam mais de 93% de rejeição ao seu governo, Dilma Roussef deve ser forçada a diminuir a gigantesca máquina de desperdiçar dinheiro público que ajudou a criar e extinguir alguns ministérios que nem deveriam ter sido criados.

 

Ao mesmo tempo em que aumentam impostos, retiram direitos dos trabalhadores, sufocam as empresas e causam recessão e desemprego, o governo continua com uma máquina inchada, ineficiente e que segue gastando sem limites o nosso dinheiro. Até quando o governo vai continuar com essa gastança, vivendo em outro mundo e rindo da nossa cara? Quando vai desmontar essa máquina imoral, parar de criar cargos inúteis e se concentrar no que realmente importa para o país?

domingo, 9 de agosto de 2015

Os pais estão pedindo

O monstrengo de Lula e Dilma

No meio do furacão que estremece o Congresso, os palácios e gabinetes em Brasília, o governo Dilma tirou da cartola a reforma administrativa para tentar aplacar a tempestade e ganhar sobrevida. Perdido, com a base partidária de apoio se esfacelando, ora o governo fala em reduzir o número de ministérios, ora fala em recorrer ao desgastado toma lá dá cá de cargos e verbas, a esta altura inútil, desacreditado, sem nenhum efeito prático. Se até o PMDB, eterno campeão do fisiologismo, propõe reduzir o ministério pela metade e abrir mão de cargos, desde que o PT faça o mesmo, sobra unicamente ao governo e ao PT o ônus de carregar o fardo político do monstrengo modelado por Lula e Dilma ao criarem 18 ministérios novos – além dos 21 que herdaram de FHC –, com a única finalidade de distribuir cargos, verbas e poder para partidos políticos. Como se o Brasil fosse um brinquedo cobiçado, que precisa ser multiplicado para satisfazer parceiros e, pior, sabendo terem eles intenções suspeitas.



A gestão Dilma cometeu muitos erros e os jogou no colo dos brasileiros, que hoje pagam com desemprego, empobrecimento, economia em frangalhos e ameaçada de piorar ainda mais. Mas foi o ex-presidente Lula quem concebeu a genial ideia de prolongar o reinado do PT no poder, formando a maior base aliada de partidos políticos da história. Para isso, engordou o Estado com 39 ministérios, a maioria desnecessária, gerando gastos que poderiam ser economizados e espetando a conta para 200 milhões de idiotas pagarem. Coube a Dilma dar continuidade à ideia e o último deles, o Ministério da Micro e Pequena Empresa, foi criado como presente ao PSD, partido do ex-prefeito de São Paulo e hoje ministro das Cidades, Gilberto Kassab.

O monstrengo foi certamente um dos maiores erros dos governos petistas, pelo poder de espalhar estragos por toda a gestão pública e impregnar no Estado gordura, desperdício de dinheiro, ineficiência e corrupção. Se, em vez de alimentar o monstrengo por 12 anos, Lula e Dilma fizessem uma verdadeira reforma administrativa em 2003, delimitando o governo no espaço capaz de atender aos interesses do País, não teriam passado esses 12 anos tendo de comprar votos de parlamentares a cada proposta do Executivo enviada ao Congresso. Não se trata de intransigência de nunca ceder aos políticos. Afinal, um governo de coalizão implica dividir o poder entre os partidos que o apoiam, desde que esta divisão seja feita com critérios éticos, na concepção de um Estado eficiente, que sirva às demandas da população e não aos interesses financeiros dos partidos, que resultam em corrupção, degradação moral e descrédito político do Executivo e do Legislativo. Exatamente a situação que prosperou nos últimos 12 anos e hoje vive seu ápice com rejeição popular e panelaços.

Em 2003 Lula e o PT detinham credibilidade política, arrancada das urnas e de uma história de lutas. Era o momento certo para fazer uma reforma administrativa capaz de ser festejada por longo tempo pelos brasileiros, que neles depositavam esperanças. Fizeram o oposto: com o discurso falso, que não convence ninguém mais, de que os neoliberais é que defendem o Estado mínimo e que ele precisa ser ampliado e fortalecido, incharam o governo com mais 18 ministérios. Para quê? Para loteá-lo e colocá-lo a serviço da classe política. E foram modelando o monstrengo, na contramão do mundo: os EUA têm 15 ministérios; a Alemanha, 14; a Itália, 18 ;e a Argentina, 13.

Agora Dilma fala em reduzir ministérios e encomendou projeto ao Ministério do Planejamento. Mas, em vez de usar critérios de eficiência em gestão, descamba para interesses políticos menores, pois os ligados aos movimentos sociais e ocupados pelo PT serão preservados. Por que Mulheres, Igualdade Racial e Direitos Humanos precisam estar estruturados em ministérios?

O momento da reforma, infelizmente, passou. O governo e o PT perderam credibilidade e não será reduzindo ministérios sem critérios técnicos que vão reconquistar a confiança e o respeito da população.

Suely Caldas

Dilma e a legitimidade pela mentira


Então, no novo perfil da mídia brasileira, a coisa fica assim. Alguns, diante desse erro descomunal que foram os governos petistas, vão além das aparências e abandonam o barco porque percebem as causas. Entre muitas, saliento estas, bem evidentes: o poder como objetivo ao qual tudo se sacrifica; a justificação dos fins pelos meios; o cultivo da insegurança pública como instrumento da luta de classes; o fracasso humano e social do assistencialismo vitalício como política de Estado; a impossibilidade técnica de se produzir desenvolvimento econômico e social sem economia de mercado; a apropriação indébita dos poderes de Estado, da administração pública e da política externa por um partido político, seja qual for.

Outros, no entanto, continuam convencidos de que fora dos fracassos estrondosos da esquerda não há salvação para a humanidade. Apoiaram e votaram sempre no PT e se empenharam em preservar-lhe a imagem muito mais do que os líderes do partido. Aliás, enquanto estes trocavam os pés pelas mãos e enfiavam os quatro nos mais pantanosos negócios, eles cuidavam de espalhar o ônus moral de tais condutas sobre uma linha de tempo que, se a gente deixar, acabará remontando à criação do Reino de Portugal no século 12.
Se há algo que abala os formadores de opinião é constatar que quanto mais escrevem e falam, menos opinião formam. Então, com a credibilidade da presidente caindo para um dígito, ainda por cima quebrado, já não se encontram mais, na mídia, prosélitos com disposição de exaltar as virtudes do petismo reinante. Para os obstinados, porém, o passado ainda pode ser requentado. Tal é a aposta, por exemplo, do sempre oculto Foro de São Paulo (que antes diziam não existir e, agora, afirmam estar morrendo...).

Não havendo condições propícias ao proselitismo puro e simples, resta à mídia esquerdista e seus agentes dois meios de ação. No primeiro, obedecem à regra segundo a qual o contra-ataque é uma forma de defesa na qual dificilmente se passa vexame, porque sempre haverá o que atacar. Então, atacam quem ataca para defender quem não mais se atrevem a defender. No segundo, aí sim, agarram-se no Estado de Direito para proclamar a intangibilidade do mandato da presidente. A esse coro ela mesma aderiu em suas últimas manifestações: "Ninguém vai tirar a legitimidade que o voto me deu", afirmou a presidente, falando em Roraima no dia 7 deste mês.

Dilma está, neste caso, defendendo a legitimidade da mentira como instrumento de ação política e eleitoral. Com efeito, ela foi eleita em 2014 mentindo à nação sobre a realidade nacional e atribuindo a seu adversário os flagelos que ela trazia a tiracolo para enfrentar a macabra situação que seu governo produzira. Nada que não tenhamos visto e não estejamos vendo. Assim, a presidente e os formadores de opinião que a acompanham, ao falarem em "legitimidade" no cenário atual, consagram a soberania do Pinóquio e promovem o linchamento do Grilo Falante.

Alguém

Por favor, apareça, senhora ou senhor esse Alguém - nós aguardamos ansiosos! Esse alguém tão falado essa semana precisa aparecer, antes que não sobre ninguém para contar essa História. Achei bem engraçado esse apelo do vice-presidente. Caramba, ele é o vice-presidente! Se ele que é ele está por aí chamando alguém, melhor gritarmos Socorro! Help! SOS!
Não posso dar os nomes desses alguéns. Vamos deixar indefinidos. Mas, essa semana, ao ouvir o clamor de Michel Temer, não pude deixar de lembrar uma velha história de imprensa que ouvi há tempos de alguém que sabe das coisas. Um grande jornal, aqueles problemas administrativos de sempre que acabam desolando a redação e, em uma reunião, o dono, o próprio, clama: "Alguém tem de fazer alguma coisa!" 

"Empregados fantasmas se apresentem! " - Respondo, quando me pedem coisas que, puxa, faz você!

Nunca esqueci, já brincava com a expressão "Alguém precisa fazer alguma coisa" (tem de falar em tom imperial) vendo aquelas situações meio absurdas onde os próprios culpados por ela fazem cara de santo jogando a culpa emalguém que não teria feito o que eles próprios já deviam ter feito e há muito tempo. Malandragenzinhas e espertezas.

No nosso dia a dia de jornalistas escutamos apelos, recebemos mensagens que invariavelmente nos contam coisas, novidades, notícias sigilosas, "exclusivas", "furos", muitas informações inclusive que nós mesmos tínhamos acabado de publicar - uma espécie de telefone sem fio, que é como anda esse mundo onde ninguém presta mais atenção em nada. Tanto faz como tanto fez.

Vivem reclamando em nossas orelhas como é que a imprensa não faz nada, não diz nada, não publica nada.Alguém tem de fazer alguma coisa e só vocês podem - e escutamos uma quase crítica. Acham mesmo que temos a força do He-man: Pelos poderes de Grayskull!


Mais ou menos o mesmo do que dizerem vai lá, se joga do precipício.

Viram o programa do PT? Vivem reclamando que a grande imprensa distorce, patatipatatá, mas quando precisam o que é que usam na tevê? Os jornais. Nessa hora não servimos para embrulhar peixe.

Quem é Alguém? Quem pode ser alguém aí, tão especial, mas que ainda é diáfano? Esse ser que não se apresenta logo no portão de embarque? Parece aquele povo que ainda não saiu do armário e que diz que vai se encontrar com uma pessoa, vai sair com uma pessoa. Falou isso, pode crer. Pode dar a ela de presente de arco-íris, uma coisa mais delicada, a compilação de Orange is the new black - coisas assim.

Todo mundo quer ser alguém. Talvez por isso mesmo a oposição esteja tão acirrada, haja tanta rejeição ao atual comando. Muitos estavam quase sendo alguém, até ajudados pelas benesses sociais indiscutíveis, e agora caíram do cavalo, ou tropeçando no que ele deixa no caminho. Vide os financiamentos dos estudantes, as mães cheias de filhos vendo a bolsa da família se esmilinguir, e um monte de promessas virarem desencantos. Investimos contra porque há alguém culpado por chegarmos a esse ponto.

Será que tem alguém olhando pela gente? Pensamos assim quando lembramos de quem já nos deixou e acreditamos que esse alguém está lá no céu nos ajudando. Parece que pensar assim nos torna mais fortes. Alguém lá em cima gosta de mim.

Estamos no terreno duro do chão. Não podemos mais fingir de ver alguém que não aparece, porque ninguém cai do céu. E quem aparece quer jogar no nosso colo a bomba para aparecer depois cantando como o Roberto Carlos, esse cara sou eu.

Fingem que não ouvem as panelas, que não somos alguém, fingem que não veem alguém nas ruas.
Ninguém merece. Sabem com quem estão falando?

Marli Gonçalves
Na rua dia 16, porque certamente encontrarei alguém que sabe que, juntos, podemos sim fazer muito. Inclusive achar alguém que aceite essa batata quente.

Missa negra para salvar o moribundo apressou a extrema-unção

O dia e a hora da encenação, o elenco bisonho, o roteiro mambembe, o mestre-de-cerimônias repulsivo, a arrogância dos parteiros da obra – tinha tudo para dar errado o programa partidário de 10 minutos exibido pelo PT na noite desta quinta-feira. E deu. Mas o que se viu superou as previsões mais catastróficas do mais radical antipetista.

As agressões ao Brasil indignado começaram com a entrada em cena de José de Abreu. Cicerone do passeio pelo lixão do PT, o rei de lixão de novela puxou o desfile de ameaças e insinuações belicosas. “O caminho do pessimismo nos leva a lugares bem sombrios e o alçapão mais perigoso é o que nos lança no conflito, com final sempre trágico para todos”.


Um porta-voz do bloco da barba abriu o cortejo de figurantes escalados para recitar cretinices sobre coisas que ignoram. “Durante seis anos, os governos do PT conseguiram retardar a chegada da crise econômica no (sic) Brasil”, mentiu. “Hoje o país vive problemas passageiros em (sic) economia”, mentiu a representante da elite branca. “E tem gente tentando se aproveitar disso para criar uma crise política”, mentiu o terceiro destaque do grupo de jovens robotizados.

O espetáculo do cinismo encomendado por Lula e dirigido por João Santana estava quase na metade quando irrompeu o bordão ilustrado por imagens de políticos oposicionistas: “Não se deixe enganar por aqueles que só pensam em si mesmos”. E então chegou a vez da trinca de protagonistas. Cada vez mais parecido com um agente funerário que furta o relógio do defunto, Rui Falcão invadiu a tela para repetir a tapeação do momento.

“Tem gente dizendo que só existe crise no Brasil, mas as manchetes provam que há crise em toda a parte”, mentiu o presidente do PT, amparado por dois recortes de jornal. O primeiro noticiava um soluço na bolsa de valores da China, cujo PIB vai crescer além de 6% neste ano. O segundo tratava do agravamento da crise da Grécia, uma espécie de Brasil da Europa.

Além de gregos e brasileiros, só estão aflitos com crises os russos e os venezuelanos. O resto do mundo está muito melhor que o paraíso tropical castigado pela alta da inflação, pela ampliação do desemprego e pela paralisia nos investimentos, fora o resto. Nada disso foi mencionado no programa, que também contornou cuidadosamente a corrupção de dimensões amazônicas, a segunda prisão de José Dirceu ou a destruição da Petrobras.

“Eu sei que a crise já chegou na nossa casa”, fingiu condoer-se Lula já na primeira linha do palavrório. (Não na dele: o chefão de tudo não sabe o que é problema financeiro desde que virou gigolô de empreiteira). Mas tudo vai melhorar, prometeu o mágico de picadeiro que não para de pensar “naqueles que mais precisam”. (O tempo que sobra é consumido na proteção a parentes e amigos multimilionários, como o filhote Lulinha ou os quadrilheiros do Petrolão).

A Ópera dos Malandros foi encerrada por Dilma Rousseff: “Quem pensa que nos falta (sic) ideias está muito enganado”, gabou-se a recordista de impopularidade sem apresentar uma única ideia. Ao som da lira do delírio, os idiotas no poder despediram-se dos espectadores zombando dos 71% de brasileiros exaustos de ladroagem e incompetência. Em vez de pedir desculpas ao país que presta, o exército brancaleônico preferiu chamar para a briga a imensidão de descontentes.

O maior panelaço da história do Brasil foi o ensaio geral para o resposta dos afrontados, que virá em 16 de agosto. A missa negra celebrada para salvar o governo moribundo apressou a extrema-unção. A data do enterro será determinada pelo povo nas ruas.
Augusto Nunes 

Brasil, primeiro a economia

A crise política e econômica brasileira piorou nas últimas semanas. A nova detenção de José Dirceu, homem forte do primeiro Governo Lula – em prisão domiciliar por sua participação no caso Mensalão (o suborno de deputados pelo PT em troca de seus votos), e implicado agora no escândalo de corrupção da Petrobras –, foi seguida por uma pesquisa que coloca a presidenta, Dilma Rousseff, como a líder mais impopular da história da democracia – sua gestão é desaprovada por 71% – e de uma derrota do Executivo no Congresso para a qual contribuíram com seus votos os próprios deputados do partido no poder: foi aprovado um aumento salarial para os altos funcionários que vai na direção oposta à política de austeridade que Rousseff tenta aplicar.

Os três fatos confirmam o descrédito do PT e o isolamento da presidenta em um momento crucial para que o Brasil corrija o rumo e volte a crescer. Mas também aponta dois fatores que podem ser decisivos para sair do atual marasmo. Primeiro, é preciso destacar que nas listas da Operação Lava Jato há nomes de todo o arco parlamentar, e é que a relação muito confortável entre empresários e políticos quando se trata de adjudicação de contratos foi um segredo conhecido no setor público desde os tempos do Império. O fato de que a Justiça esteja conseguindo revelar essa rede, não só prendendo os supostos corruptos, mas também os supostos corruptores, dá um bom sinal do funcionamento de uma instituição na qual o povo brasileiro nunca confiou.

Em segundo lugar, com uma presidência atacada e paralisada, a busca de consenso político no Congresso ganha uma importância crucial. A prioridade do Parlamento deveria ser tomar as medidas necessárias para que a recessão não se prolongue por mais tempo. As outras agendas de suas senhorias poderiam, sim, esperar.

Dilma pede socorro... do povo enganado


Dilma insiste que no Brasil se fala dilmês. Seus improvisos são motivo de chacota e costumam embaralhar alhos com bugalhos. Não foi diferente em Boa Vista, em outra entrega de casas em "petit comité" como diria Ibrahim Sued. Para evitar manifestações dos insatisfeitos, a agenda positiva só inclui eventos reservados a petistas contratados a sanduba de mortadela e cachê de R$ 50.

E é nesse tipo de evento que extrapola. Quase aos berros, com a característica prepotência, vociferou: "Ninguém vai tirar essa legitimidade que o voto me deu".

Dilma, o voto o povo respeita, mas não o voto dado de coração para a mentira, o engodo. O voto que conquistou foi fazendo o diabo, inclusive com acordo com o demo e acertos de gente enrascada com as propinas.

Quem não respeitou o voto foi a própria Dilma.

O berro no Norte do país foi o grito de desespero de uma presidente sem força política e governabilidade no chão. Presidente que em seis meses do novo governo não governa, não mostra liderança necessária, é apenas como sempre foi um poste no Planalto.

Dilma não tem hoje cacife para pedir respeito com o país rolando ribanceira abaixo por seus destrambelhamentos. Ainda assim sua arrogância pede que a população se dedique à estabilidade institucional, política, econômica e social do país. É pedir uma dedicação que a própria presidente nunca teve.

Dilma, legítima e insustentável

Dilma Rousseff está coberta de razão quanto à legitimidade de seu mandato. É absolutamente legítimo. Assim como, goste-se ou não, são legítimos os mandatos dos parlamentares, incluindo os do presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), e do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL). A presidente parece ou prefere não entender que o cerne da crise não é legitimidade, mas credibilidade. Ou melhor, a falta dela.

Charge O Tempo 08/08

Por obedecer aos ritos da legalidade, também são legítimos os movimentos daqueles que discutem vias constitucionais de impedimento da presidente ou que, diante da possibilidade de que a vitória nas urnas tenha sido fruto de campanha financiada com dinheiro sujo, questionam a validade do resultado no Tribunal Superior Eleitoral (TSE).

Ações legítimas, mas de crédito duvidoso, já que contaminadas pelo beneficio direto que proporcionariam aos seus autores. No caso, o PSDB.

Vocábulos sonoramente semelhantes, legitimidade e credibilidade em muito se diferem, embora devessem ser complementares. Normalmente, alguém legitimamente eleito tem créditos suficientes para fazer até o inimaginável. Fernando Collor de Mello conseguiu confiscar o dinheiro dos brasileiros com apoio do Congresso Nacional.

Itamar Franco - que legitimamente assumiu a Presidência depois da renúncia-impeachment de Collor - e Fernando Henrique Cardoso gozaram de credibilidade e, consequentemente, razoáveis condições de governabilidade.

Lula, o maior líder popular da história recente, soube como ninguém acumular créditos. Poderia usufruir deles agora não tivesse cedido à tentação de dominar tudo e todos por métodos que mais tarde se descobririam criminosos.

Ao inaugurar o presidencialismo de coalizão sustentado pelo toma-lá-dá-cá de cargos e dinheiro vivo, Lula manteve-se popular, mas corroeu sua credibilidade.

Dilma seguiu na mesma trilha no primeiro mandato. Conseguiu não só ficar em pé, mas se reeleger, ainda que à custa de mentiras e, sabe-se lá, recursos de campanha surrupiados da Petrobras e de outras empresas públicas, conforme delações já feitas no curso da operação Lava-Jato.

O Mensalão e a Lava-Jato - operações de indiscutível legitimidade, mas tidas pelo PT como golpistas – criaram imensas dificuldades ao presidencialismo de coalizão. Com verbas minguadas, a fantástica maioria congressual forjada pela garantia de mesada começou a se desintegrar. Primeiro, lentamente, agora, em velocidade estonteante.

Já no início do seu legítimo segundo mandato, Dilma teve de lançar mão de seus derradeiros créditos. Viu-se forçada a fazer um ajuste fiscal com o qual não concordava e nomear um ministro da Fazenda que não queria. Traiu, uma a uma, as premissas que a elegeram.

Rejeitada pela maioria esmagadora do país – 71% reprovam o seu governo, segundo o Datafolha -, a presidente não reúne condições de arregimentar tropas para vencer as crises econômica, política e moral que afundam o país.

A legitimidade de Dilma hoje lembra a dos contos de réis ou dos cruzeiros e cruzados velhos e novos. Notas legítimas que perderam o valor de face e tiveram de ser substituídas.

UATAFAC?


Quer dizer que isso aí é isso aí mesmo? A canalhada quer a volta de ninefingers pelo atalho de um ministério picareta? Quer o nojento-chefe escondido num carguinho qualquer que lhe garanta a blindagem de um foro privilegiado? Isso aqui só pode ser o Brasil mesmo. O país da impunidade rampeira. O país dos inimputáveis. O país dos elogios rasgados a tudo o que é essa pilantragem nojenta que nos empurram dia sim e dia também por aqui.

Não é para menos que o brasileiro — qualquer brasileiro — esteja a ponto de explodir. Não é saudável termos no poder gente com essa índole cortejando uns aos outros numa festinha indecente; siameses na rapinagem do Estado elefante que nos gatuna o futuro do país. Lembro muito bem das lições que tive de minha advogada — uma das melhores do país, mas que nunca defendeu bandidos — sobre a tal “consciência jurídica” que se forma num processo. Os caras querem fugir, dissimular, mentir, provocar, negociar com as autoridades, de modo a continuarem inimputáveis, reincidentes, criminosos e servidores públicos.

É um escárnio. Em que lugar decente deste planeta um programa de partido como o de ontem teria voz e vez, escoiceando a plebe rude? O Goebells em compota — mais conhecido como Santanão — bem que tentou dourar o supositório antes de expô-lo ao mundo. Não colou. Ocupado com minhas panelas, não vi, não li, nem entendi do que se tratava aquela tramóia. Vendo depois, tudo fica claro.

O PT quer provocar o país. Quer assustar o cidadão. Quer dissimular. Esconde a roubalheira endêmica com a peneirona da ideologia rombuda e os eufemismos de quem é mestre na prestidigitação. Que eu saiba, toda a história da humanidade está recheada de calhordas que, mais cedo ou mais tarde, revelaram sua reaL natureza. O que vai por aqui é a tentativa mais torpe e pusilânime de enganar a plebe rude mais uma vez.

Não há um cretino agora, daqueles pagos pela mortadela oficial com o nosso dinheiro público, que venha defender o legado desses bandidos. Estão todos assustados com o banho de imersão que pode matar.

Depois da Lava-Jato


O Brasil começou a ficar mais limpo depois que juízes, procuradores e policiais federais conseguiram prender políticos poderosos e empresários ricos. Espera-se que este trabalho continue desvendando tudo de todos, e que a Justiça faça sua parte, sem cair outra vez nos truques que terminam zerando o trabalho de pessoas como o juiz Moro, o procurador Janot e todos aqueles que os ajudam.

A operação Lava-Jato fará o Brasil mais limpo, mas não bastará para construir o país que desejamos, porque nossos problemas vão além da corrupção no comportamento dos políticos e empresários: eles são criados, sobretudo, pela corrupção nas prioridades das políticas que definem como os recursos públicos são usados e para onde levam nosso país.

Além da corrupção que a Lava-Jato está tornando visível, temos uma imensa rede de corrupção invisível: o analfabetismo e a baixa qualidade da educação, que rouba o futuro das crianças e do Brasil; o sistema precário de saúde, que rouba a vida e impõe sofrimento a milhões de pessoas; o ineficiente sistema de transporte público, que impede a mobilidade eficiente e rouba pedaços da vida de milhões de trabalhadores em seus deslocamentos diários; a violência urbana que faz com que nossas ruas matem e assustem mais do que as ruas de países em guerra; um sistema de gestão pública que rouba o valor da moeda, e impede o bom funcionamento e crescimento de nossa economia.

Podemos receber um país limpo da corrupção dos políticos e, mesmo assim, não construirmos o Brasil sem corrupção nas prioridades. Não basta colocar os corruptos na cadeia, é preciso também colocar na vida pública pessoas decentes, no comportamento e nas prioridades, capazes de fazer leis que impeçam a corrupção e que não apenas limpem, mas higienizem eticamente o país e para isso façam uma revolução educacional no Brasil. Terminada a Lava-Jato, será preciso que os políticos comecem a consertar as brechas pelas quais o futuro do Brasil é roubado todos os dias. Para alcançar esse objetivo, teremos de fazer um concerto das forças nacionais para dar sustentação a um novo projeto nacional.

A corrupção desvendada pela Lava-Jato é um serviço ao país que nos deixa em dívida histórica com aqueles que a estão fazendo, mas o trabalho de construir o Brasil que precisamos, queremos e podemos não é uma tarefa dos juízes, procuradores e policiais; é responsabilidade dos políticos. Neste momento, porém, não parecemos estar à altura deste desafio, seja por falta de preocupação com o país, seja por omissão ou incompetência para liderar o Brasil em uma nova direção.

Por isso, a verdadeira e completa Lava-Jato deve ser feita pelos eleitores nas futuras eleições. Por que os juízes, procuradores e policiais podem colocar políticos na cadeia, mas são os eleitores que podem colocá-los nas cadeiras de parlamentares.
Cristovam Buarque

Presidente está abatida e deveria abreviar o seu e o nosso sofrimento

Nesta sexta, militantes petistas foram “abraçar” o Instituto Lula, que teria sido alvo de um “atentado”. Apenas 400 militantes apareceram por lá, embora a convocação tenha sido feita com antecedência e a anunciada presença de Lula. Nem os companheiros levaram o troço muito a sério. Até a eles ocorre que, se alguém quer mesmo praticar um atentado político, não joga uma bomba caseira como aquela. Se joga e se o faz naquelas condições, talvez esteja tentando simular um atentado, entendem? Com que propósito? A lógica responde. Mas sigamos.

O país vivendo em transe, e eis que Lula e seus seguidores se apegam à lógica do “bunker” — também do “bunker” mental. Seria só patético se três ministros não houvessem passado por lá para beijar a mão do Poderoso Chefão do Partido — e três ministros, note-se, que são da cota pessoal de Dilma Rousseff: Aloizio Mercadante (Casa Civil), Edinho Silva (Comunicação Social) e Jaques Wagner (Defesa). Os 403 de Lula se juntaram no dia seguinte a um panelaço que varreu o país em protesto contra o programa do PT no horário político.

O país numa crise gigantesca, e o PT volta a se comportar como grupelho.

Não está melhor, por óbvio, a presidente Dilma Rousseff. Ao participar de um evento do “Minha Casa Minha Vida” em Boa Vista, Roraima, visivelmente abatida, com sinais explícitos de que anda tendo péssimas noites de sono, vociferou em favor da legitimidade do seu governo e anunciou o imperativo das urnas, como se as mesmas leis que a elegeram também não previssem o roteiro da deposição.

E, para não variar, Dilma voltou a apelar a seu passado de membro de grupos que ela chamaria “guerrilheiros”, mas que, sabe-se, eram mesmo terroristas. A atuação lhe rendeu prisão e tortura, num tempo que foi inaugurado com a Constituição sendo rasgada e que foi mantido com arremedos e remendos de legalidade ditatorial.

Em que aquela experiência, por mais traumática e dolorosa que tenha sido, pode instruir a Dilma de agora? A resposta, infelizmente pra ela, é esta: NADA DE POSITIVO PODE TRAZER. Ela não é mais, que se saiba, a militante que queria dar um golpe comunista no país; da mesma sorte, não está sendo perseguida por gente torta em razão de suas ideias tortas. Ao contrário: a presidente da República é chamada a dar uma resposta à legalidade democrática.

Chega a ser desagradável ter de lembrar a Dilma que o fato de um terrorista ou guerrilheiro ter resistido às piores condições do cárcere não o torna inimputável nem o prepara, de modo especial, para enfrentar os rigores das leis democráticas. DILMA NÃO TEM MAIS RESPOSTA NENHUMA A DAR À DITADURA. ELA TEM DE PRESTAR CONTAS É À DEMOCRACIA.

Não obstante, a presidente se apega de um modo que me parece monomaníaco àquele passado, que ela vê, certamente com autocomplacência, como se ele fosse a evidência de sua têmpera de ferro, pronta a enfrentar as maiores adversidades. Ademais, é evidente que ela tenta estabelecer um paralelo entre a tortura que sofreu e as exigências legais às quais têm de responder. Mais ainda: os 71% que acham seu governo ruim ou péssimo e os 66% que querem seu impeachment não são seus torturadores. São apenas brasileiros inconformados expressando a sua contrariedade, muitos deles, dados os números, certamente sufragaram o nome de Dilma há menos de 10 meses.

Sim, é visível que a presidente está sofrendo — o padecimento está estampado em seu rosto de modo inédito. Mas o Brasil não tem o que fazer com o seu sofrimento; ele de nada nos serve. Muito pelo contrário: só empresta uma dramaticidade que mais nos afasta do que nos aproxima de uma resposta. Lula pode voltar lá para o seu cafofo autorreferente e se juntar a seus fanáticos. Dilma não pode. As reminiscências da “guerrilheira” só a farão encontrar os inimigos e os amigos errados.

A crise é, sim, gigantesca. Só não caiam na conversa de que alguma grave ameaça política paira sobre o país — a menos que os vermelhos estejam pensando em fazer coisas feias. Qualquer que seja o desdobramento — impeachment, cassação da chapa ou renúncia —, há uma legalidade sólida que o abriga. Vamos ser claros? A única alternativa que desafia a lei é a permanência de Dilma.

Pense bem, presidente! Mas pense com os olhos em 2015 e no futuro. A ex-presidiária só atrapalha. Não convém confundir a Constituição com o DOI-Codi.

Reinaldo Azevedo