sábado, 3 de janeiro de 2015

Esse tempo seco da vida


Parafraseando o poeta, eu diria que, apesar de tudo, amanhã de manhã já será outro dia... Outro ano, melhor dizendo. O tempo está passando depressa, como se fosse um caminheiro andante seguindo num rumo certo, quem sabe, o rumo do sertão, à procura daquela cruz abandonada que o poeta maior aconselhou deixar em paz na solidão...

Divaguei, mas é sempre assim quando me deparo com o tempo. Quando me deparo... E, por acaso, pode-se viver fora dele? Nem morto... O tempo é uno, não passa, nós é que passamos por ele, repito. E, se ele passasse, para onde iria? Para a eternidade? Sim, mas onde fica isso? Isso é assunto para filósofos da categoria de um ex-Luiz, Rosemére, Erenice, Palocci, Genoino, Youssef “et caterva”...

Gosto do diálogo interior, o que, às vezes, me coloca em conflito, mas faz que eu nunca esteja sozinho, pois estou sempre conversando comigo. Quando comecei falando em tempo seco da vida, não pensei na falta de chuvas por que passamos. Até não compreendo a preocupação das autoridades públicas com uma possível falta d’água num futuro que nunca será de alguém. O mundo é água. Eu e você também. Tudo é água, inclusive a vida... Os políticos em geral e, em particular, os atuais governos criam ameaças para disfarçar sua incompetência e amedrontar o cidadão – esta a pior forma de dominação: pelo medo. O mundo pode até acabar por excesso de água – como, aliás, dizem que acabou, quando da Arca de Noé –, nunca por falta. Agora, a preocupação é com o sistema Cantareira, em São Paulo. De quem a culpa? Dos políticos, claro, não da natureza. Esquecem eles, uns mais que os outros, que a variação do clima é normal. Se fizermos um estudo sobre a média anual de precipitação, constataremos que em um ano chove muito e em outro chove menos, mas, na média, fica tudo igual. A população é que aumenta em ritmo geométrico e, como consequência, o consumo aumenta. Políticos, em geral, têm visão curta; estadistas é que enxergam distâncias, mas essa classe de gente é cada vez mais escassa.

Na vida tudo passa e tudo passará; nada fica e nada ficará, diz um cantante... Nós, brasileiros, já fomos um povo melhor e, há muito, sofremos dos males das multidões. Já somos um povão de muito mais de 200 milhões de almas. Também é verdade que são muitos os desalmados. Parece que a cada dia mais enfraquece nosso sentimento de solidariedade e nosso orgulho de ser aquele povo humilde de que fala Chico Buarque, com aquela tristeza no peito, feito despeito de não ter como lutar e que dá até vontade de chorar...

Neste último dia do ano, não vou lembrar as desgraças que tanto nos magoam. Abstraio e fico pensando como tudo poderia ter sido diferente. Enquanto isso, desejo felicidades para todos nós, ainda que sejam petralhas... Eu ficarei ouvindo a sanfona pé de bode, zoando em minha saudade, como diz o poeta no sertão.

“Ex-corde”, até mais ver...

sexta-feira, 2 de janeiro de 2015

E ela tossiu


Dilma esqueceu de descer do palanque!


Faltaram verdades no discurso. Sobraram falácias

Eis o nó da questão: Dilma 2 tentará compatibilizar o ambicioso ajuste fiscal concebido por sua nova equipe econômica com a preservação das conquistas sociais alcançadas por Lula 1 e 2 e Dilma 1.

A certa altura do seu discurso de posse, ontem, no Congresso, disse a presidente reeleita:

- Mais que ninguém eu sei que o Brasil precisa voltar a crescer. Os primeiros passos desta caminhada passam por um ajuste nas contas públicas, um aumento na poupança interna, a ampliação do investimento e a elevação da produtividade da economia. [...] Faremos isso com o menor sacrifício possível para a população, em especial para os mais necessitados. Reafirmo meu profundo compromisso com a manutenção de todos os direitos trabalhistas e previdenciários.

Palavras ao vento...

Dilma é economista por formação. E sabe que o arranjo das contas públicas atingirá de alguma forma as contas particulares de muita gente. Dos mais pobres, inclusive. Daí... Daí que ela sofisma.

Não sei de onde os mais puros de coração tiram a certeza de que políticos que mentem durante campanhas dizem a verdade depois que se elegem. Negativo.

Faltaram verdades mesmo que incômodas no discurso de Dilma e sobraram falácias.

Dilma afirmou, por exemplo, que o Brasil é a sétima maior economia do mundo. Omitiu que era a sexta maior economia quando seu primeiro governo começou.

“Governo novo, ideias novas” cedeu a vez a “Brasil, pátria educadora”, nova palavra de ordem a orientar o governo de caras velhas e de ideias repetitivas.

Nem o Departamento de Imprensa e Propaganda (DIP) do governo Getúlio Vargas no século passado teria sido capaz de imaginar um slogan tão antigo.

Não faltou lugar no discurso para o mantra da reforma política. Nem para a quimera da corrupção que pede para ser extirpada. Mantra e quimera que frequentaram em 2011 o discurso de posse de Dilma 1.

Faltou lugar no discurso para que Dilma fizesse algum aceno à oposição. Com mais razão ainda por ter sido reeleita por uma margem estreita de votos.

Cadê o “diálogo” que pontuou uma dezena de vezes o discurso da vitória de Dilma em outubro do ano passado?

O gato comeu. Ou a arrogância de Dilma.

A presidente reeleita comportou-se no Congresso como a candidata à caça de votos. Esqueceu-se de descer do palanque.

Foi incapaz de pronunciar uma frase inspiradora. De propor um desafio instigante. De arrancar aplausos entusiasmados da assistência.

O que é “um grande pacto nacional” para combater a corrupção? Não explicou.

O que significa defender a Petrobras dos seus inimigos internos e externos? De que modo fará isso?

Blábláblá!

De fato, Dilma perdeu uma preciosa oportunidade de inspirar confiança a seus governados.

Dois em um


Não há Dilma sem Lula e até 2018 não haverá Lula sem Dilma. Eles não podem se aproximar a ponto de parecer que ela não governa, nem se distanciar a ponto de a doutora dispensar o carisma de Nosso Guia. (...)As almas intercambiáveis permitem a Lula e Dilma serem ao mesmo tempo governo e oposição.
Elio Gaspari

As máscaras no chão



As máscaras não caíram porque já estavam no chão faz muito tempo. No caso, máscaras da presidente Dilma, do PT, do Lula e até de parte da mídia. No crepúsculo do ano, o governo dos trabalhadores aproveitou para suprimir mais algumas fatias dos direitos trabalhistas. Claro que na recente campanha presidencial, foram eles que acusaram Aécio Neves e o PSDB de, se eleitos, dilapidarem o que restou da herança social um dia estabelecida por Getúlio Vargas. Pois garantido o segundo mandato, partiram para demonstrar sua desfaçatez e falta de vergonha. Com o adendo de aguardarem o recesso do Congresso para anunciar as maldades, evitando críticas.

Perderiam a eleição se tivessem afirmado durante a campanha que cortariam pela metade o abono salarial a que todo trabalhador faz jus, quando recebe até no máximo dois salários mínimos. A partir da entrada em vigência da nova Medida Provisória, ontem, não basta ao miserável haver no ano anterior trabalhado um mês em determinada empresa. Exige-se, agora, seis meses.

Destroçaram, também, o seguro-desemprego, que ampara quem foi mandado embora sem motivo justo depois de seis meses com carteira assinada. De agora em diante só recebe o seguro-desemprego quem trabalhou no mínimo 18 meses.

O auxílio-doença terá fixado um teto para quem dele precisar valer-se, não mais pela média dos oitenta últimos salários, mas algo bem menor.

As pensões por morte do cônjuge até hoje eram integrais e vitalícias, mas passam a ser cortadas pela metade, acrescendo que para recebê-las a viúva ou o viúvo precisarão provar que o ente falecido contribuiu no mínimo por dois anos para a Previdência Social. Isso se tiverem dois anos de casamento ou união estável. E mais de 35 anos. A nova regra vale para os funcionários públicos.

Mas tem mais, nesse saco de maldades: o pescador artesanal deixará de receber automaticamente um salário mínimo no período em que a pesca é proibida. Perderá o benefício se não provar três anos de profissão anteriores e se não estiver contribuindo para a Previdência Social há um ano.

É bom nem fazer as contas sobre quantos milhares de trabalhadores serão atingidos nesse patamar que a dignidade humana deixou para trás. Legisla-se para pior em torno da mentira do salário mínimo. Como Dilma, Lula, Mercadante e todo o bando jamais souberam o que é viver com o salário mínimo, lavam as mãos e dão de ombros.

O grave em mais essa investida contra os direitos do trabalhador é que a CUT não protestou. Assim como a chamada grande imprensa até aplaudiu. Sem tirar nem pôr, desde o governo Lula que o PT segue a cartilha neoliberal, ou seja, dificuldades econômicas se enfrentam às custas dos mais humildes. Estes que paguem a conta através da supressão de direitos, cortes nos projetos sociais, aumento de juros e desemprego. O perfil do segundo mandato vai-se desenhando e é horrível.

Carlos Chagas


Patética, Dilma tenta assumir 'autoria' do combate à corrupção

Não há mais dúvida. A presidente Dilma Rousseff inspira cuidados e precisa de terapia, o mais rápido possível. No primeiro pronunciamento do segundo mandato, a chefe do governo mostrou que está vivendo num mundo à parte, que nada tem a ver com a realidade da conjuntura negativa que o país atravessa.

Ela se comporta como se estivesse permanentemente em campanha eleitoral e governar fosse apenas um detalhe. Em seu longo e enfadonho discurso de posse, delirou à vontade, discorrendo sobre o que considera as grandes conquistas do “extraordinário trabalho” do ex-presidente Lula e dela própria, como se o país estivesse às mil maravilhas.

Esquecida de que não tem recursos para nada e o governo está até cortando direitos sociais dos trabalhadores, Dilma anunciou o imaginário lançamento do PAC-3, como se tivesse concluído as prometidas obras do PAC-1 e do PAC-2. Vamos então conferir as delirantes promessas da presidente:

“Agora, vamos lançar o terceiro PAC, o terceiro Programa de Aceleração do Crescimento e o segundo Programa de Investimento em Logística. Assim, a partir de 2015 iniciaremos a implantação de uma nova carteira de investimento em logística, energia, infraestrutura social e urbana, combinando investimento público e, sobretudo, parcerias privadas. Vamos aprimorar os modelos de regulação do mercado, garantir que o mercado privado de crédito de longo prazo, por exemplo, se expanda. Garantir também que haja sustentação para os projetos de financiamento de grande vulto”, disse ela, como se fosse possível obrigar os bancos a fornecerem empréstimos de longo prazo com juros baixos, como faz o BNDES.

Lendo o discurso escrito pela criatividade dos marqueteiros do Planalto, Dilma viajou ao descrever um país irreal, imaginário, em que tudo está dando certo e não existem maiores problemas. O mais grave, porém, foi tentar assumir a autoria do combate à corrupção, quando na verdade ela fez exatamente o contrário em seu primeiro mandato, reduzindo as verbas da Polícia Federal e da Controladoria-Geral da União, conforme ficou claro no pronunciamento com que o corregedor Jorge Hage recentemente pediu demissão, alegando impossibilidade de executar suas obrigações funcionais.

Vejam o que disse essa incansável caçadora de corruptos, que convive amigavelmente com eles e na semana passada recebeu sigilosamente no Palácio da Alvorada o mensaleiro José Dirceu para um longo entendimento:

“Democratizar o poder significa combater energicamente a corrupção. A corrupção rouba o poder legítimo do povo. A corrupção ofende e humilha os trabalhadores, os empresários e os brasileiros honestos e de bem. A corrupção deve ser extirpada.

O Brasil sabe que jamais compactuei com qualquer ilícito ou malfeito. Meu governo foi o que mais apoiou o combate à corrupção, por meio da criação de leis mais severas, pela ação incisiva e livre de amarras dos órgãos de controle interno, pela absoluta autonomia da Polícia Federal como instituição de Estado, e pela independência sempre respeitada diante do Ministério Público. Os governos e a Justiça estarão cumprindo os papéis que se espera deles: se punirem exemplarmente os corruptos e os corruptores.

A luta que vimos empreendendo contra a corrupção e, principalmente, contra a impunidade, ganhará ainda mais força com o pacote de medidas com o qual me comprometi durante a campanha, e me comprometo a submeter à apreciação do Congresso Nacional ainda neste primeiro semestre”, afirmou a criativa presidente Dilma, que mais parece o professor Pangloss imortalizado por Voltaire

Resumindo: o problema é grave. Nossa governante está mesmo necessitando de terapia, para voltar ao normal e enxergar o que está acontecendo à sua volta. Seu comportamento é tão patético que nem mesmo Freud conseguiria explicaria. Vai ser preciso convocar uma junta médica.

quinta-feira, 1 de janeiro de 2015

A última (e melhor) mensagem de 2014


Sem dúvida, os graves acontecimentos de corrupção, surgidos recentemente, pedem uma séria e consciente conversão dos coração para um renascimento espiritual e moral, como também para um renovado compromisso para construir uma cidade mais justa e solidária, onde os pobres, os fracos e os marginalizados estejam no centro de nossas preocupação e do nosso agir cotidiano. É necessário um grande e cotidiano comportamento de liberdade cristã para ter a coragem de proclamar na nossa cidade, que é necessário defender os pobres e não defender-se dos pobres, que é necessário servir os mais fracos, e não servir-se dos mais fracos!
O ensinamento de um simples diácono romano nos pode ajudar. Quando pediram a São Lorenço para levar e mostrar os tesouros da Igreja, levou simplesmente alguns pobres. Quando em uma cidade os pobres e os fracos são cuidados, socorridos e promovidos na sociedade, eles se revelam o tesouro da Igreja e um tesouro na sociedade. Ao contrário, quando uma sociedade ignora os pobres, os persegue, os criminaliza, os obriga a “mafiarem-se”, esta sociedade se empobrece até a miséria, perde a liberdade e prefere “o alho e as cebolas” da escravidão, da escravidão do seu egoísmo, da escravidão da sua pusilanimidade e esta sociedade cessa de ser cristã.

(Mensagem papal do último dia do ano calha à medida para fazer os brasileiros pensarem)

A poética da corrupção


Com a corrupção, a carne apodrece, a fruta definha e o alimento se despedaça em nossas mãos.
A corrupção enfeia nossos corpos e apaga a luz que brilharia em nossas almas, com a corrupção ninguém faz uma casa de boas pedras, com a corrupção ninguém pinta um paraíso no muro de uma igreja, nenhuma pintura será feita para durar nem para brilhar diante de nossos olhos, com a corrupção seu pão cada vez mais será de farrapos dormidos, seu pão será seco como papel sem trigo da montanha e sem nutritiva farinha, com a corrupção ninguém encontra um bom sítio para fazer sua casa, os tecelões são afastados de seus teares, a corrupção embota a agulha nas mãos das donzelas e desbota a graça dos tecidos, Dante não nasceu da corrupção, nem Piero della Francesca, nem Giotto, a corrupção enferruja o cinzel do escultor, e as estátuas não se erguem, o azul vira um câncer na corrupção, e não se bordam de ouro as vestes púrpuras, a corrupção apunhala a criança no ventre, e a esmeralda não será lapidada, e mata o prazer dos jovens amantes deitando-se entre seus corpos paralisados na cama, cadáveres se sentarão à mesa dos banquetes sob as ordens da corrupção, a corrupção é obesa, a corrupção cria esposas desprezadas se consumindo e amantes cobertas de pérolas e juras de amor, a corrupção cria súbita dignidade em tribunais, cria ladrões de olhos em brasa, dedos espetados, uivos de falsas virtudes, negando os contratos de gaveta, os recibos falsos, os laranjas desdentados nas portas de empresas inexistentes. A corrupção provoca brados de honradez, socos nas mesas, babas indignadas nas negações em tribunais, hipócritas lágrimas de esguicho, punhos batidos no peito e clamores a Deus. A corrupção se sente superior à ridícula moralidade de classe média. A corrupção tem uma única vontade: vingar-se de inimigos, cobrar lealdade dos seguidores, exigir pagamentos de propina em dia.

A corrupção cria firmas sem dono, sem obras, vagando num deserto jurídico e contábil que leva ao caos proposital, a corrupção aumenta a amizade entre as famílias de safados, cria os cálidos abraços, os sussurros de segredo nos cantos das varandas, o piscar de olhos matreiros, as cotoveladas cúmplices, os charutos comemorativos, vastos jantares repletos de moquecas e gargalhadas, piadas, dichotes, sacanagens jucundas.

A corrupção valoriza a norma castiça da língua, palavras que dormem em estado de dicionário. A corrupção traz de volta interjeições e adjetivos raros : “ilibado”, “despautério”, “infâmias”, “aleivosias”... A corrupção é o paraíso dos advogados, com ternos brilhantes, sisudos semblantes, liminares na cinta, serenidade cafajeste, “chicanas” decoradas, diplomas comprados.

Com a corrupção, malas pretas voam em todas as direções, os dólares flutuam nos céus estrelados, as luas são sempre minguantes, os rostos nunca mostram o que pensam, as gargalhadas soam como latidos, as bocas salivam, os punhais saem das bainhas, os carros atropelam, as finas cordas apertam os pescoços, os assassinos se fartam, os olhos do povo olham impotentes. A corrupção confunde, é um labirinto, uma grande aranha em sua teia, a corrupção cria firmas em sanfona, uma dentro da outra, subsidiárias sem obras, vagando num labirinto jurídico e contábil que leva a um caos indecifrável, pois o emaranhado de roubalheiras dificulta apurações. No imaginário brasileiro, a corrupção tem uma aura heroica. São heranças da Colônia, quando era belo roubar a Coroa.

A corrupção é a mola mestra do atraso. A corrupção mostra que os lírios que apodrecem fedem mais que as ervas daninhas (Shakespeare). A corrupção desenha as caras deformadas de políticos, as barrigas, a gomalina dos cabelos, a boçalidade dos discursos, tudo compondo um estafermo fabricado com detritos de vergonhas passadas, cérebros encolhidos, olhos baços, irresponsabilidades fiscais, municípios apodrecidos, decapitações, ônibus em fogo. A corrupção escolhe seus peões entre os mais espertos dentre os mais rombudos e boçais. A corrupção transforma a estupidez em uma estranha forma de inteligência, uma rara esperteza para golpes sujos e sacos-puxados. A corrupção é fabricada entre angus e feijoadas do interior, em favores de prefeituras, em pequenos furtos municipais, em conluios perdidos nos grandes sertões.

A corrupção é a torta escultura feita de palha e barro, de gorjetas, de sobras de campanha, de canjica de aniversários e água benta de batismos. A corrupção explica o país, pois tem raízes e tradição: avô ladrão, bisavô negreiro e tataravô degredado. A corrupção durante quatro séculos criou capitanias, igrejas, congressos, golpes e tomadas de poder. A corrupção tem um vago sentimento de poesia brasileira.

A corrupção para muitos se julga revolucionária, roubando para um futuro imaginário e mentiroso, para enganar otários cheios de esperança. A corrupção é um rabo de lagarto que sempre se recompõe, renasce quando cortado.

A corrupção cria, esculpe, organiza as imposturas, as perfídias, os sepulcros caiados, os beijos de Judas, os abraços de tamanduá, as lágrimas de crocodilo.

Com gratidão a Ezra Pound por seu Canto XLV – “A Usura”.

O PT e a versão bananeira do Pacto de Varsóvia


Descobri, há bom tempo, que o Partido dos Trabalhadores tem conceitos próprios sobre democracia e Estado de Direito. Para o PT, democracia é algo que só acontecerá quando ele, partido, exercer a hegemonia e controlar todos os instrumentos do poder. Enquanto isso não se concretiza plenamente, o PT vai manipulando os meios que o regime vigente propicia ao curso de seu projeto.

Graças a isso, o partido conseguiu não ser apenas o PT. Ele é o PT e mais um vasto conjunto de corpos sociais que gravitam ao seu redor. São sindicatos e centrais sindicais; instituições culturais e de ensino; movimentos sociais e grupos minoritários que ele transforma em grupos de pressão a seu favor; grêmios estudantis, diretórios, centros acadêmicos e uniões de estudantes; partidos políticos sem anticorpos contra o uso de recursos públicos; organizações não governamentais; entidades relacionadas às políticas de gênero, ligas pró-aborto e defensoras da liberação das drogas; igrejas e órgãos de peso como a CNBB e a OAB que, convertidos ao rebanho, se entregam à alcateia. Ah, e os conselhos capturados pelo PT! Eles se revelam tão úteis que o partido, agora, pretende “empoderá-los” (coisas da novilíngua petista…) em todo o aparelho estatal federal. A isso e a outro tanto que resultaria exaustivo relacionar, juntam-se, sempre que necessário, organismos e instituições internacionais de isenção mais do que duvidosa.

Para o PT, democrática é toda manifestação desse grupo aí acima. Democrático é o que faz cada tentáculo seu. Ouvi-los, para o PT, é ouvir o povo. E quem o nega passa a ser tratado como cordeiro intrometido no riacho do lobo, acusado das piores ações e intenções.

Tão estranho quanto a democracia petista é o “Estado de Direito” petista. Nele, Direito é o que o partido quer. Por bem ou por mal. Perguntem ao companheiro João Pedro Stédile que, nesses assuntos, fala pelo partido. E Estado de Direito é algo que vai até onde o PT quer. Por bem ou por mal. Sobre essa parte conversem com o companheiro Gilberto Carvalho. O Estado Direito petista é moldável e elástico segundo suas necessidades. Procurem um pouco e não será difícil encontrar por aí traços comuns aos três totalitarismos do século passado.

Mas no jogo que o PT joga, o Brasil é apenas uma peça do tabuleiro. O jogo tem pretensões maiores. Começou em 1990 com o Foro de São Paulo, promovendo uma convergência multifacetária da esquerda na América Latina e desaguou na União das Nações Sul-Americanas, criada em 2006. Em mais recente estágio, no dia 5 de dezembro, em Quito, com a presença de Dilma, esse organismo, que congrega os países do continente, decidiu criar um programa de formação de quadros militares.

Trata-se da Escola de Defesa, que tem dois objetivos explícitos: produzir uma unidade interna que elimine possíveis conflitos intrarregionais e fortalecer a América do Sul contra o inimigo externo, vale dizer, contra o inimigo ianque. Procure no Google por Unasul e por “Escola de Defesa” (em espanhol e em português), e encontrará informação suficiente. Esse estrupício foi instituído pelo bloco para que o conjunto das Forças Armadas de todos os países componham algo que outra coisa não é senão uma versão bananeira do Pacto de Varsóvia.

Percival Puggina

Governo dos trabalhadores ou governo contra os trabalhadores?


Ao tomar posse na presidência da República, em janeiro de 1951, eleito pelo voto direto da população, no plenário do Palácio Tiradentes, no Rio, Getúlio Vargas jurou cumprir a Constituição. Não ficou nisso. Na calçada havia sido montado um palanque, para que ele falasse a milhares de trabalhadores lá reunidos: “Hoje, estais no governo. Amanhã, sereis o governo.”

Em janeiro de 2003, empossado como o primeiro operário que ocuparia a presidência da República, 52 anos depois, o Lula exaltou o fato de estar se iniciando no Brasil o governo dos trabalhadores. Mais ou menos, porque além dos programas sociais de caráter assistencialista, também foi o governo da continuação do neoliberalismo, das privatizações e até do mensalão. A partir de 1964 haviam sido suprimidos dezenas de direitos trabalhistas antes criados por Vargas, imaginando-se que o Lula iria restabelecê-los, a começar pela estabilidade no emprego. Não quis, ou não conseguiu, mas o que acontece hoje, quando assume outro mandato o segundo governo dos trabalhadores?

Dilma Rousseff inaugura mais quatro anos no poder sob a égide de novas supressões de direitos trabalhistas. Acaba de cortar pela metade o abono salarial, o seguro desemprego, o auxilio doença, as pensões por morte do cônjuge e até benefícios a pescadores impedidos de pescar. Demonstra a falência do governo dos trabalhadores, jogando sobre eles a fatura do combate a crises econômicas. Esperar o quê, nos próximos quatro anos, senão mais supressão de direitos, cortes nos projetos sociais, aumento de juros e desemprego?

Não se espante o trabalhador se lhe forem garfados férias, décimo terceiro, horas extras, vale-transporte e vale-alimentação. De governo dos trabalhadores passamos para o governo contra os trabalhadores. Quando desfilar em carro aberto pela Esplanada dos Ministérios, hoje à tarde, imaginará trabalhadores naqueles que eventualmente venham a aplaudi-la? Ou pelegos pagos pelo seu partido? A presidente descumpre os ideais um dia sonhados. Em vez de impulsionar conquistas, coleciona retrocessos. Logo irá colher fracassos. 

quarta-feira, 31 de dezembro de 2014

Feliz Ano Novo

Esperança

Lá bem no alto do décimo segundo andar do Ano
Vive uma louca chamada Esperança
E ela pensa que quando todas as sirenas
Todas as buzinas
Todos os reco-recos tocarem
– Ó delicioso vôo!
Ela será encontrada miraculosamente incólume na calçada,
Outra vez criança…

E em torno dela indagará o povo:
– Como é teu nome, meninazinha de olhos verdes?
E ela lhes dirá
(É preciso dizer-lhes tudo de novo!)
Ela lhes dirá bem devagarinho, para que não esqueçam:
– O meu nome é ES-PE-RAN-ÇA…

Mário Quintana

Tá na fila também?


Discurso velho num governo velho

Não propriamente pronunciamentos, que devem ser densos e profundos, mas pelo menos dois discursos protocolares a presidente Dilma deverá pronunciar na quinta-feira, início de seu segundo mandato. Um no Congresso, quando jurar pela segunda vez cumprir a Constituição. Outro no parlatório, se não estiver chovendo, ou no salão de recepções do palácio do Planalto.

Houve tempo em que os pronunciamentos dos presidentes da República despertavam as atenções gerais, quando de suas posses. Novos sistemas ou pelo menos novos personagens empolgavam ou desanimavam o país. Agora, será o mais do mesmo. Dilma não terá nada a anunciar em termos de mudanças capazes de sensibilizar a população. Sem o carisma de alguns antecessores, cumprirá apenas a rotina. Por certo terá palavras de otimismo quanto ao futuro, mesmo fazendo referências à necessidade de sacrifícios. É provável que fale da reforma política, ainda que sem muitos detalhes. Assim como da importância de a economia ser agilizada.

Ninguém deve esperar que prometa acabar com o latifúndio, muito pelo contrário. Ou que acabará com a farra da remessa de lucros para o estrangeiro. Muito menos que ampliará os direitos trabalhistas, restabelecendo a estabilidade no emprego. Sequer a participação dos empregados no lucro das empresas. Transportes públicos gratuitos para quem ganha pouco, nem pensar. Nem extinção dos recursos jurídicos fajutos que tiram os criminosos da cadeia, em especial se dispõem de recursos para movimentar os tribunais.

Em suma, nenhuma proposta daquelas em condições de caracterizar mudanças institucionais, sociais e econômicas. A composição de seu novo ministério, aliás, lamentável, dá bem a medida da pasmaceira que assola o governo e o PT. Ficará no plano das intenções evitar a corrupção, porque nenhuma iniciativa de vulto está prevista para punir com rigor corruptos e corruptores. Falta ao segundo governo Dilma a eloquência das convicções.

No auge dos excessos que marcaram a Revolução dos Cravos, em Portugal, o todo-poderoso do dia, brigadeiro Otelo Saraiva de Carvalho, visitou Olof Palme, primeiro-ministro do governo socialista da Suécia. Em dado momento, o governante português anunciou que seu propósito era de acabar com os ricos, em seu país. O sueco, malicioso, retrucou que seu governo tinha objetivo diametralmente oposto: acabar com os pobres…

Carlos Chagas

'A inteligência política do goverrno Dilma é precária'


Não vejo a possibilidade de um autoritarismo de forma clássica, como uma volta dos militares ao poder. Percebo que a disfunção democrática agravará o autoritarismo que hoje já existe na relação entre o Estado e a sociedade. O autoritarismo se manifestará com o caráter subalterno do cidadão perante o Estado, com a prevalência dos interesses das corporações sobre o bem comum, com a apropriação do interesse público em detrimento do interesse da sociedade, com o sequestro da política pelos políticos. Essas soluções autoritárias representam os maiores desafios para o Brasil. Se não melhorarmos o sistema político, a disfunção se agravará

A CPI de Deus


Como Ele é onipresente, onisciente e onipotente, estava na cara: logo, logo seria convocado a depor numa CPI.

Presidente da CPI: O senhor jura por Deus que vai dizer toda a verdade?

Deus: Ora, francamente. Direto às perguntas, por gentileza.

Presidente da CPI: Na criação do mundo, com o Senhor no papel de Todo-Poderoso, houve algum tipo de favorecimento a grupos ou empreiteiras?

Deus: Em absoluto. No princípio, não houve nenhum problema dessa ordem. Só bem mais tarde, quando deleguei o controle das verbas aos descendentes de Adão foi que aconteceram excessos.

Relator: Seja mais específico, por favor. Houve desvio de verbas?

Deus: Só naquele continente, a Atlântida. Mas Eu o afundei.

Presidente da CPI: E no episódio da arca? Dizem que Noé colocou animais protegidos dele no barco em detrimento de outros.

Deus: Noé era um bêbado. Mas não me envolvi na questão do dilúvio e da plantação da vinha, apesar de estar por dentro de tudo. Preferi mais uma vez descentralizar minha administração para não ser demonizado pelo Capeta.

Deputado: E o seu filho? Não seria uma forma de nepotismo Ele continuar suas obras?

Deus: Meu filho é um santo. Por que vocês não perdem essa mania de querer crucificá-lo?

Relator: Procede a informação de que o Senhor estaria por trás de tudo e de todos – o tempo todo?

Deus: Claro que procede.

(Um grande ohhhhhhh!! nas galerias)

Relator: Explique-se melhor, Senhor Deus.

Deus: Eu sei de tudo, sobre todo mundo. Mas mantenho o sigilo, evidentemente.

Deputado: O Senhor afirma que conhece tudo! E não vai abrir numa CPI? Lembre-se que está sob juramento. Não é porque se diz uma divindade que vai avacalhar as investigações!

Deus: Ok, ok. Eu abro então. Vossa Excelência, por exemplo, é freguês de uma cafetina aqui em Brasília. Foi lá nos dias 27, 28 e 29 de setembro. No primeiro dia ficou com a Suélen, nos outros com a Rúbia Regina. Fizeram hidromassagem e tal. Ah! E o relator ali trafica cocaína. Já o…

(Alvoroço nas galerias)

Presidente da CPI: Silêncio! Silêncio nas galerias! Guardas, prendam o deputado e o relator!

Deputado: Isso é uma calúnia, senhor presidente. Essa Pessoa vem aqui, se apresenta como deus, e me calunia assim?

Relator: Isso mesmo! Quem é esse Senhor pra vir dizer que eu cometi um crime?

Presidente da CPI: Infelizmente é a palavra de Deus contra a de vossas excelências. Algemas, algemas…

Carlos Castelo

terça-feira, 30 de dezembro de 2014

Bosta nunca é com o governo


Não aprendo a lição

A lição de conviver,
senão de sobreviver
no mundo feroz dos homens,
me ensina que não convém
permitir que o tempo injusto
e a vida iníqua me impeçam
de dormir tranquilamente.
Pois sucede que não durmo.

Frente à verdade ferida
pelos guardiães da injustiça,
ao escárnio da opulência
e o poderio dourado
cujo esplendor se alimenta
da fome dos humilhados,
o melhor é acostumar-se,
o mundo foi sempre assim.
Contudo, não me acostumo.

A lição persiste sábia:
convém cabeça, cuidado,
que as engrenagens esmagam
o sonho que não se submete.
E que a razão prevaleça
vigilante e não conceda
espaços para a emoção.
Perante a vida ofendida
não vale a indignação.
Complexas são as causas
do desamparo do povo.
Mas não aprendo a lição.
Concedo que me comovo.

Thiago de Mello

O mundo bipolar do PT


O ensaísta mexicano Octavio Paz costumava dizer que a primeira forma de corrupção se dá na linguagem (para desespero da Petrobras, que não admite concorrência nesse quesito…) Pois bem: dê uma passeada nos sites ditos “progressistas”. Ali você encontra o primeiro terreno fértil para esse tipo de corrupção ser colhida. Porque é nesse território em que ocorre a mais sacrossanta distorção do silogismo. Premissa maior: o governo do PT é de esquerda. Premissa menor: quem não é de esquerda é de direita. Conclusão: quem se opõe à esquerda (PT) só pode ser de direita…

Mesmo os que se dizem versados em sociologia e ciências políticas (geralmente pais do auto-desbunde de que são de “esquerda”), indicam que devem voltar para a faculdade fazer DP. São os que mais alimentam a ideia de que o oposto de esquerda é ser de direita.

Os termos “política de direita” e “política de esquerda” foram cunhados na Revolução Francesa (1789–99). Inicialmente, apenas se referiam ao lugar onde políticos se sentavam no parlamento francês. Aqueles sentados à direita da cadeira do presidente parlamentar eram singularmente favoráveis ao Antigo Regime (defesa cega da hierarquia, tradição e clero).

DIREITA FURIOSA

Aqui e agora, interessa aos zeros à esquerda dizer que no Brasil o oposto da esquerda é tão somente a direita furiosa. Mentira: a maioria oposta à esquerda dita progressista, no Brasil, é composta por conservadores. E eles em sua imensa maioria não são direitistas.

Mesmo os conservadores trazem contradições que chocariam nossas esquerdas: Edmund Burke, bretão pai do conceito de conservadorismo, era dito conservador porque se opunha à Revolução Francesa (mas defendia com unhas e dentes a Revolução Americana, para o arrepio das nossas esquerdas…)

A corrupção da nossa linguagem, tocada sobretudo pelo PT, ensina que conservadores são em essência direitistas vorazes.

Vendem nossos conservadores como se fossem caudilhos golpistas. Caudilho é outra coisa: se vende como semi-deus, seja de direita ou de esquerda. E sempre fica no poder num tempo dilatado além da conta, que arrepia as constituições e os pleitos diretos.

CONSERVADORES

Aqui se vende também que, por exemplo, que Winston Churchill, Ronald Reagan e Margaret Thatcher eram direitistas. Não, eram apenas conservadores. A política “reaganomics”, nos anos 80, visava taxar mais o salário de quem ganha menos: porque, dizia Reagan, quem usa mais serviços públicos é quem ganha menos: por isso deve pagar mais ao estado (na sua última semana de governo, Reagan disse ao “The New York Times” que “os mendigos fizeram uma opção ao ter esse tipo de vida”…)

Thatcher implantou em 1989 o Poll Tax, ou imposto comunitário, impondo a mesma taxa, a ser cobrada igualmente fosse do rico, fosse do pobre (ninguém pagava imposto calculado de acordo com o valor dos imóveis que dispunha, com o é o nosso IPTU). Isso é ser conservador. Não é ser de direita.

Mas é óbvio que toda essa discussão não interessa aos filhos do mundo bipolar. O PT não quer um mundo heteropolar. E ponto final…

A VELHA E O CAOLHO

Quando nos anos 70 o líder egípcio Anuar Saddat começou as negociações de paz com Israel, cunhou uma frase clássica. Achou Golda Meir mais durona do que o general-caolho Moshe Dayan. E disse: “A velha é pior do que o caolho”. (Foi depois disso que o sambista Blecaute dedicou a Moshe uma modinha, que ele cantava com um tapa olho…)

A frase atravessou o tempo e os continentes. Hoje a frase é resgatada pelos políticos que lidam com Cristina Kirchner. Acham ela pior que o finado marido caolho Nestor Kirchner. ”A velha é pior que o caolho”, disse o ex-presidente uruguaio Mujica, sobre Cristina. A frase virou hashtag no twitter: #estaviejaespeorqueeltuerto.

E nessa semana um amigo deste blogueiro, que lida com petróleo, usou a mesma frase, ao se referir da dificuldade de lidar com Graça Foster, muito pior do que o nosso também Nestor Caolho, Nestor Cerveró. “Na Petrobras a velha é pior que o caolho”.

O peso da Graça


Que Lula e Dilma se destruam entre si


Lula procura torpedear todos os membros do PT perante aos quais se acha inferiorizado intelectualmente e que tenham condições de estabelecer um contraditório com ele em condições de superá-lo. Isso ocorreu não somente com Aloizio Mercadante, Nilmário Miranda e Patrus Ananias, mas também com muitos outros, dentre os quais Helio Bicudo e Cristovam Buarque que foi demitido do Ministério da Educação por telefone. Atitude de moleque, de gente sem qualquer qualificação ou escrúpulo, mas foi tomada por um presidente da República.

Lula não passa de um farsante, de um tartufo. Provas? É só entrar no youtube e assistir seus etílicos discursos. Dentre suas tartufarias, temos a eleição da “Doutora” (sem colega de turma, é claro) Dilma Rousseff, eleita em razão da descarada mentira propagada por Lula de que ela “era muito melhor administradora do que ele”.

Aliás, se prestarmos bem a atenção, Lula é apenas um sortudo, um cagão que pegou uma fase excelente no contexto internacional com o preço dos produtos exportados pelo Brasil (minério de ferro, soja, e outros) lá nas alturas.

Frise-se também que esses produtos eram produzidos pela iniciativa privada, sendo que os produtores do setor agropecuário ainda eram molestados pelos sem terra, braço armado do PT – apoiados por Lula, Dilma e outros mamíferos bípedes e financiados com dinheiro oriundo de impostos cobrados dos demais brasileiros que exercem atividade produtiva.

Com aquele contexto internacional favorável, foi fácil “administrar”, pois os dólares entravam abundantemente com a exportação dos produtos. Apesar do assalto aos cofres públicos – que só agora estão vindo à tona – nada podia dar errado a curto prazo. A longo prazo, a coisa muda de figura.

Agora, o contexto é outro, pois os produtos exportados pelo Brasil estão com os preços no fundo do pinico. Aliado a esse fato, ainda temos o crime cometido contra o Brasil e os brasileiros com a roubalheira em todos os setores nos quais os petistas colocaram as patas e encheram as malas.

A Petrobras é apenas o que veio à tona mais rapidamente e vai enlamear o Brasil no exterior, pois tem títulos colocados no mercado internacional. A Eletrobras também tem e lá a gatunagem, pelo que sabemos, também foi apoteótica. Porém, as duas estão sujeitas às leis norte-americanas. E deverá vir chumbo grosso, pois lá a Justiça não foi aparelhada por Lula e Dilma.

Isso, é claro, vai arrastar Dilma e Lula no tsunami, pois, como comandantes supremos – por analogia ao que afirmou a Comissão da Verdade com relação aos ex-presidentes militares – não podiam desconhecer os fatos que ocorriam bem embaixo de suas mandíbulas.

Aliás, a mim parece evidente que o congelamento dos preços dos derivados de petróleo e os descontos nas contas de energia elétrica representaram, apenas, a compra antecipada de votos na eleição que se realizou este ano. Está na cara que quem pagou essa compra de votos foram os acionistas aqui e no exterior.

Votos comprados e eleição ganha, os preços vão subir. No mais, que Lula e Dilma se destruam, pois isso é fato corriqueiro entre criatura e criador, pois, reciprocamente, um é digno do outro.

Celso Serra

segunda-feira, 29 de dezembro de 2014

As críticas de Francisco servem também para políticos?




Os poderosos não deveriam poder nos roubar o direito de ser felizes
O papa Francisco surpreendeu crentes e ateus quando, ao olhar nos olhos das altas hierarquias cardinalícias do Vaticano reunidas para o Natal, diagnosticou-lhes, entre outras enfermidades, a de “Alzheimer espiritual”, por terem-se esquecido de Deus; a da “esquizofrenia assistencial”, por viverem uma “vida dupla”, e a do terrorismo das intrigas”, algo que foi tão abundante nas sombras dos palácios em que tantos papas já foram assassinados.

Estava Francisco, peça-chave da distensão de Cuba, talvez o fato político mais importante do ano que acaba, referindo-se também aos grandes da política? De Roma, os fiéis ao papa, que não teme nem hesita em dizer o que pensa, garantem que sim. De fato, relembram, ele já fazia isso na Argentina quando era cardeal.

O papa “vindo de muito longe para Roma”, como ele destacou ao se tornar o primeiro papa da periferia do mundo, sempre sustentou que o homem é um “animal político” e que a Igreja não pode se desinteressar dessa dimensão, já que são seus líderes os responsáveis pela felicidade ou infelicidade dos cidadãos. O mais duro do histórico discurso de Francisco aos homens da Cúria Romana talvez não tenha sido a lista das 15 doenças que diagnosticou nos cardeais, bispos e monsenhores, mas o remédio que lhes prescreveu contra a doença de acreditarem-se donos da Igreja, poderosos e imortais.

Propôs a eles visitar os cemitérios onde estão enterrados personagens famosos da História, aqueles que um dia também se acreditaram donos do mundo, os caudilhos hipnotizadores das massas, os eternos poderosos, os insubstituíveis, que, como Hitler no filme de Charlie Chaplin, se divertia jogando futebol com um globo terrestre.

É muito possível que, naquela manhã, Francisco também tivesse em mente todos os grandes magnatas da política mundial. E que também os estivesse aconselhando visitar um cemitério com túmulos de nomes famosos de reis, ditadores e presidentes de nações e Estados que um dia também se acreditaram donos do mundo.

Se os hierarcas da Igreja sofrem, segundo o papa, de Alzheimer espiritual, ao esquecerem-se de Deus, os políticos sofrem também de “Alzheimer democrático e de representatividade”, assim como de esquizofrenia, ao esquecerem-se daquilo e daqueles pelos quais foram escolhidos, como comentou, lendo o discurso papal, o médico José Augusto Messias, membro da Academia Nacional de Medicina do Brasil, que se surpreendeu ao ver o papa usar o léxico da medicina para se dirigir aos altos prelados da Cúria.

Assim como os cardeais exercem, segundo Francisco, o terrorismo das maledicências, também a política hoje se afoga muitas vezes nas máfias de intrigas e corrupções, agindo mais às sombras, às costas dos cidadãos, do que à luz do sol. Pois é preciso até atropelar leis e constituições para se eternizar no poder, fato mais do que frequente hoje na América Latina.

Leia mais o artigo de Juan Arias

#VemPraRua e muito mais


Para 2015, Dilma anunciou ministros que personificam o atraso. Alguns de arrepiar, como Eduardo Braga (PMDB-AM), que de energia deve saber trocar lâmpadas, se muito

Com vícios que corroem quase todas as suas virtudes, a política encerra mais um ano sob o domínio de práticas menores, repugnantes, de dar vergonha. O vale tudo - até fazer o diabo - para se eternizar no poder, disseminado pelo PT, gangrenou a política na última dúzia de anos. E o que Dilma Rousseff antecipou para 2015 não é nada animador.

Métodos condenáveis de fazer política não foram inventados pelo PT nem por Dilma. Mas é inegável como o ambiente degringolou nos últimos anos.

A começar pela qualidade da representação, feita e mantida para separar os interesses dos eleitos da intenção dos eleitores. Algo que sequer precisa da tão propalada e nunca viabilizada reforma política para existir. Bastaria eliminar a enganação, punir severamente a mentira. Impedir embustes como o da propaganda eleitoral de Dilma que fazia sumir comida dos pratos e letras dos livros no caso de vitória do adversário.

A campanha ajudou. Mas tudo já havia apodrecido.

Interesses partidários e pessoais pairam milhares de quilômetros acima dos da coletividade. Compadrio, corrupção, roubalheira, bolsos abarrotados de dinheiro sujo viraram regra e não exceção. Tomou-se o Estado de assalto.

No plano institucional, as relações entre o Planalto e o Congresso Nacional tornaram-se exclusivamente negociais, com dinheiro correndo solto, legal ou ilegalmente, com o requinte de, por decreto presidencial, se oficializar o toma-lá-dá-cá.

Ideologia virou sucata, cuja serventia se limita a alimentar os xingamentos nas redes sociais, incentivados pela falsa divisão do “nós x eles”, ora travestida de “ricos x pobres”, que o ex Lula inventou e continua a usar, ainda que com menor apelo.

Ideias viraram produto escasso, quase em falta.

Leia mais o artigo de Mary Zaidan

Novidade em ministérios


A cor de cada um


Na República do Espicha-Encolhe cogitava-se de organizar partidos políticos por meio de cores.

Uns optaram pelo partido rosa, outros pelo azul, houve quem preferisse o amarelo, mas vermelho não podia ser. Também era permitido escolher o roxo, o preto com bolinhas e finalmente o branco.

- Esse é o melhor – proclamaram uns tantos. – Sendo resumo de todas as cores, é cor sem cor, e a gente fica mais à vontade.

Alguns hesitavam. Se houvesse o duas-cores, hem? Furta-cor também não seria mau. Idem, o arco-íris. Havia arrependidos de uma cor, que procuravam passar para outra. E os que negociavam: só adotariam uma cor se recebessem antes 100 metros de tecido da mesma cor, que não desbotasse nunca.

- Justamente o ideal é a cor que desbota – sentenciou aquele ali. – Quando o Governo vai chegando ao fim, a fazenda empalidece, e pode-se pintá-la da cor do sol nascente.

Este sábio foi eleito por unanimidade Presidente do Partido de Qualquer Cor.
Carlos Drummond de Andrade

Já vi esse filme. No fim, o bandido ganha


A campanha da presidente Dilma, ela mesma, Lula e boa parte do PT debocharam do que disse a candidata Marina Silva (PSB) sobre como montaria seu governo caso se elegesse.

Marina afirmou que simplesmente governaria com os melhores elementos de cada partido sem discriminar nenhum partido.

É uma boba, garantiram alguns. Uma sonhadora, acusaram outros. Governar com os melhores é impossível, apenas isso.

Ou Marina dominava uma receita que só ela conhecia ou então se pautaria pelo bom senso. E o bom senso lhe aconselhava a procurar gente decente, comprometida com a ética e talentosa para ocupar cargos do primeiro e do segundo escalão da República.

E se essa gente fosse incapaz de lhe garantir a maioria dos votos no Congresso? E se por causa disso o governo capengasse?

Marina confiava que não passaria sufoco porque, em primeiro lugar, governaria apenas por quatro anos. Descartara a reeleição.

O que a seu ver seria o bastante para apaziguar os ânimos no Congresso e refrear as ambições, por suposto.

Segundo porque governaria com transparência, prestando contas aos eleitores de todos os seus passos e discutindo com eles suas dificuldades.

Fernando Collor se elegeu presidente em 1989 sem maioria no Congresso. Quis cooptar o PSDB e não conseguiu.

Chamou de “único tiro” contra a inflação o plano econômico que garfou a poupança dos brasileiros.

Por mais estúpido que tenha sido o plano, o Congresso não se negou a aprová-lo. Caso desse certo, o Congresso ficaria bem na foto. Se desse errado, o presidente é que ficaria mal.

Não foi por falta de apoio do Congresso que Collor acabou deposto. Foi por falta de apoio popular.

O Congresso é sensível ao sentimento das ruas. E todo presidente, a princípio, se beneficia de um período de lua de mel com a opinião pública.

Até que o período se esgote, ele pode se comportar com um grau de liberdade que mais tarde se estreitará. A não ser que o sucesso bata à sua porta.

Ninguém mais do que Lula reuniu condições para governar sem ser obrigado a fazer concessões que por fim o apequenassem, e ao seu partido.

Foi o primeiro nordestino ex-pau de arara, ex-líder sindical, ex-preso político a subir a rampa do Palácio do Planalto.

Ocupou o principal gabinete do terceiro andar com crédito para gastar por muito tempo. Encrencou-se porque piscou primeiro.

Sob pressão para lotear o governo como seus antecessores haviam feito por hábito ou necessidade, Lula subestimou o apoio das ruas.

Preferiu apostar no apoio do Congresso. Logo ele, que no final dos anos 80 do século passado, enxergara ali pelo menos 300 picaretas.

Foi atrás dos picaretas. Beijou a cruz – e de quebra a mão de Jáder Barbalho. O mensalão quase o derrubou.

Dilma atravessou a metade do seu primeiro governo resistindo à ideia de ceder ao “pragmatismo político”.

Em conversa, certo dia, com um amigo, ouviu dele: “Tirando três ou quatro, só tem desonesto no Congresso”. Ela respondeu: “E eu não sei?”

Para se reeleger, cedeu ao apetite dos desonestos. Beijou a cruz. E de quebra a mão de Helder Barbalho, filho de Jáder, seu futuro ministro da Pesca.

Foi medíocre o primeiro ministério de Dilma O governo que resultou disso foi naturalmente medíocre.

Pois bem: ela está perto de cometer o prodígio de montar outro ministério igual ou talvez pior.

O que a diferenciava dos políticos a quem tanto desprezava é, hoje, o que a torna cada vez mais parecida com eles.

Ricardo Noblat

domingo, 28 de dezembro de 2014

O canalha fundamental

Não consigo encontrar relevância maior neste momento, mesmo premido pela lógica destes dias que antecedem o Natal, esqueço a força da compaixão coletiva transformada em compulsão consumista, penso no arquetípico canalha que assola este país.

Penso nele porque é nesta época do ano que o canalha fundamental se torna mais evidente, fica impossível para ele se esconder do que é genuíno no coração das famílias, dos humildes, das minorias. Eu desconfio que o canalha já nasça com o caráter estampado na testa, chega no berçário e a galera já o reconhece como guia, será ele a deter entre os grupos as qualidades que forjarão uma imagem do bem, de parceiro, de amigo de toda a gente. Com este apoio desde o berço, esta vantagem social inata, é que será capaz de obter todos os títulos ostentáveis, porque será um mestre das picuinhas e pequenezas, dos abraços e beijinhos. Conhecedor de nossas fraquezas e ambições, o canalha fundamental quer subir na vida e então ele começa a escalada.

É preciso ser limo para que este canalha não nos monte nas costas. Ele é incapaz do trabalho árduo que uma sociedade sã exige, promete gratidão, frequenta os amigos, graceja, exala perfume e conta piadas boas.

Canalha tem de todo jeito, o gênero é amplo, mas o que mais interessa a esta crônica é aquele que forma o brasileiro: o canalha que fura filas, que bloqueia cruzamentos, que compra carro do ano mas não paga empréstimos, aquele que puxa o tapete por recalque e que sobrevive de adulação, aquele que corrompe e aquele que é corrompido. Que age como o camelo e não consegue enxergar outra oportunidade que a poça a brilhar diante de todos os olhos. Sua personalidade movediça o carrega, explora qualquer fonte até que reste seca, não é capaz de cultivar uma planta, imagina sempre que amanhã será pior o dia.

O canalha fundamental desconstitui a esperança, pois vive de explorá-la nos ingênuos, nos cabisbaixos e nos distraídos. Vive em todo brasileiro, de uma forma que hoje dele somos indissociáveis, vez ou outra o canalha em nós toma o controle e cumprimos o que era impensável, o mal que criticamos semana passada. Eu nunca! Por conta deste canalha lotamos as academias, lotamos as praias, pois precisamos estar em forma para lidar com suas artimanhas. Alertas! Quem não quer desferir um murro nas fuças deste canalha? Mas preferimos ser seu amigo.

Nosso canalha fundamental vive do que se convencionou chamar de esperteza, ele está é no princípio de nossa burrice. Ele viceja desde os tempos da fundação deste povo, quer se dar bem desde lá, todos conhecemos este gene, ele é um com nossa sociedade. Porque admiramos o canalha secretamente. Porque ele exibe, nós sabemos, uma loucura nos olhos que desejamos, aquela capacidade de sobrevivência enquanto o outro cochila, ainda que esteja por dever no turno de vigília, que se dane! É a hora de passar o rodo, de fazer o ganho, de me dar bem.

Destaco o canalha fundamental nestes dias de Natal porque nesta época a compaixão descola dele de tonta e envenenada, nestes dias seu humor azeda e sua tolerância emocional zera diante do pernil da ceia montada para seu desgosto. Mas ele não permite ausência, por isso discursa no vácuo dos bons, e suas palavras soam frágeis, o bebum atento sabe que soam frágeis porque falsas.

Só que o Natal passa logo, passa, passa o dia 25 de dezembro e o canalha retorna para o seu posto de gozo costumeiro. Ele é o brasileiro por quem protestam e creio que nunca será por nós derrotado. O canalha fundamental está registrado na certidão de nascimento, no RG, em nosso CPF, está no registro de quando casamos. Muita gente o admira, quer ser igual. Muita gente faria, feito ele, qualquer coisa pelo sucesso deste incrível país.

Marco Antonio Martire

Cadê a saída?


O mais do mesmo

A extinção do latifúndio virou ampliação do agronegócio e limitação da propriedade rural familiar. A limitação de remessa de lucros para o exterior transformou-se em demolição das barreiras fiscais que impediam o envio do produto da corrupção daqui de dentro lá para fora. O voto do analfabeto é cercado de tantos impedimentos que só tem diminuído, enquanto aumenta o número dos brasileiros que não sabem ler nem escrever. A participação dos empregados no lucro das empresas continua sonho de noite de verão. O estímulo ao crescimento da indústria nacional desapareceu, ao tempo em que murchou a influência dos sindicatos na formulação da política social e trabalhista. A proteção ao trabalho do menor deu lugar à multiplicação do número de crianças exploradas no campo e nas ruas das grandes cidades. A garantia do trabalho virou fumaça em prol das demissões amplas e irrestritas. Exportamos cada vez mais produtos primários do que importamos produtos estrangeiros de valor agregado sempre maior.

Acabamos de alinhar um programa do PSDB ou a cartilha neoliberal dos tempos de Fernando Henrique Cardoso? Nem pensar. A realidade acima referida é praticada pelo governo do PT. Os companheiros abandonaram as propostas do tempo da fundação de um partido que seria diferente dos demais. Importa menos saber se foi o Lula o primeiro responsável pela mudança ou se coube a Dilma consolidá-la. A verdade é que ambos cederam, se é que um dia imaginaram construir um país socialmente adiantado. Assim chegamos ao final do ano e do mandato inicial da presidente da República. Ironicamente, bafejada pelas urnas do mês de outubro. Por isso não houve a apresentação de um plano de metas, durante a campanha.

O pífio ministério que vem sendo definido, mesmo com alguns nomes petistas, carece de defensores de reformas econômicas, políticas e sociais. Pelo contrário, compõe-se, no mínimo, de adeptos do vigente modelo conservador. A única mudança em pauta parece da criação de limitações para as atividades da mídia. Prevalece o modelo do mais do mesmo, apesar dos 53 milhões de votos dados a Dilma Rousseff. Os eleitores foram enganados ou enganaram?

Fica para outro dia analisar o papel do marechal Costa e Silva na presidência da República, registrando-se apenas que morreu tentando acabar com o AI-5, inclusive num último esforço para assinar o nome, que já não conseguia em função do derrame cerebral que o acometeu. O problema é que acabamos de assistir o prefeito de sua cidade natal, Taquari, no Rio Grande do Sul, mobilizar um guindaste para demolir estátua feita em sua homenagem numa das praças principais.

A iniciativa lembra outra, acontecida em 24 de agosto de 1954, quando Getúlio Vargas estava para ser deposto do palácio do Catete. Horas antes de dar um tiro no peito e mudar a História do Brasil através de um dos mais importantes documentos da República, a carta-testamento, seus adversários confeccionaram cartazes de papelão com os dizeres “Avenida Castro Alves”, que foram colados em cima das placas onde há anos se lia “Avenida Getúlio Vargas”. A reação popular arrancou os inusitados cartazes e botou os energúmenos para correr.

A gente fica pensando o que acontecerá daqui a cinquenta ou cem anos com as estátuas que fatalmente serão erigidas para homenagear o Lula e a Dilma…

Nada a fazer


A propósito, uma indagação: como será tratada pelo Executivo a descoberta de que membros da classe política indicaram para funções públicas pessoas que não o mereciam? A resposta é simples: nada a fazer. No Brasil — e em quase todo o mundo — não há castigo para isso. Em nome, claro, das liberdades democráticas

E se Machado de Assis escrevesse sobre a Petrobras hoje?

Talvez, em vez de sair à procura de cidadãos loucos, ele se voltaria para os corruptos
Uma escritora brasileira me pergunta: “Se Machado de Assis escrevesse agora sua famosa novela O Alienista, que tema de fundo escolheria?”.
Dando uma olhada nas manchetes dos jornais sobre a minha mesa de trabalho, sou levado a pensar que o gênio machadiano teria centrado sua obra hoje não tanto na loucura em contraposição à prudência, e sim na corrupção frente à ética.

O personagem central da primeira obra de realismo literário de Machado de Assis é o médico alienista (psiquiatra) Simão Bacamarte. Repleto de conhecimentos médicos adquiridos nas universidades europeias, decide voltar à sua pequena cidade de Itaguaí, na então província do Rio de Janeiro, para colocar em prática o seu saber psiquiátrico. Quem seria hoje o personagem central da obra?

E os outros personagens variados, do barbeiro ao padre e à própria mulher do alienista – seriam eles hoje os mesmos que foram em O Alienista?




Talvez, em vez de sair à procura de cidadãos loucos para internar na Casa Verde, um manicômio mandado construir por ele, Bacamarte iria hoje atrás de corruptos e corruptores, de juízes, policiais e advogados dispostos a ajudá-lo em seu afã de distinguir aproveitadores de honestos.

O gênio de Machado, o Cervantes brasileiro, fundador da Academia Brasileira de Letras, teria encontrado para seu Alienista personagens tão ou mais interessantes do que aqueles de mais de cem anos atrás, quando escreveu sua obra tragicômica, cheia de humor ácido, bisturi da realidade social de então, povoada como hoje por interesses pessoais e maracutaias políticas.

Machado poderia se divertir amargamente com toda essa caravana de personagens que tingem as atuais notícias a respeito do maior escândalo de corrupção político-empresarial na história deste país.

Entre eles há de tudo: delatores e acobertadores, corruptos e corruptores, vítimas e verdugos; empresários e políticos, assim como um submundo de personagens à sombra, manipulados como bonecos por quem nunca vem à luz. Eles teriam inspirado o realismo e a comicidade de Machado, em quem Alcides Maia dizia ver o humor típico dos escritores britânicos, mas com um verniz tropical.

sábado, 27 de dezembro de 2014

A aliada da corrupção



A sensação de impunidade potencializa a prática de corrupção. A ideia de uma pessoa que se considera fora do alcance do braço da lei fomenta a corrupção. No momento em que essas pessoas, percebem que existem consequências que as respostas serão eficazes, isso tende a mitigar o fenômeno da corrupção. Ou seja, a gente só pode combater a corrupção com efetividade na medida em que o Estado atuar de forma eficiente no enfrentamento


Como se escolhe ministério


As ideologias não têm mais razão de existir


Nosso sistema político – base de tudo que acontece – não tem perigo de melhorar, sendo ele manipulado pelos partidos políticos que se formam com este fim.

Desde 1889, os grupos interessados em dominar o país em benefício próprio aliam-se em torno de partidos quaisquer, desde que atendam seus interesses imediatos.

A história provou que a democracia é o melhor sistema, ou menos pior, que já existiu. Precisamos aperfeiçoá-lo e isto passa pela escolha direta, pelos eleitores, dos candidatos à qualquer cargo eletivo. Democracia para funcionar não precisa de partidos políticos, que eu reputo como organizações criminosas e que, além de tudo, em função de ideologias antagônicas, irreconciliáveis, separam a sociedade em grupos rivais.

Ideologias, no século XXI, não têm mais respaldo.

As estatais são a Disneylândia dos políticos. Desde que me lembro é assim. E assim continuará enquanto elas forem feudos dos políticos. Não importa o partido. Quem estiver com a chave do cofre na mão, faz o que bem entende. Roubam. É para isto que a maioria entra na política. Para roubar! Os otários de sempre, nós, os bobos da Corte, estamos aí para pagar a conta.

Isto só mudará as quando empresas estatais forem transformadas em empresas sociais, e os políticos estiverem proibidos inclusive de passar na calçada em frente à empresa.

A administração das empresas sociais tem de ser altamente profissional. Metade do lucro para os capitalistas, acionistas e investidores, e a outra metade do lucro – fermento do desenvolvimento – para os trabalhadores da empresa, aí incluso também os administradores.

Até isso acontecer, continuaremos pagando a conta da roubalheira perpetrada pelos políticos e seus financiadores.

E o pessoal permanecerá discutindo para ver qual dos partidos rouba mais. Logicamente que é sempre o partido do outro que rouba mais.

Martim Berto Fuchs

Teste de inteligência


Precisamos ser investigados


Não há como obter democracia negando aquilo que é a própria democracia: o direito de discordar. Suprima-se esse princípio e você inventa, em nome da ordem, a subversão e a traição.

A violência surge quando o direito de criticar e discordar é escamoteado ou proibido em nome de alguma coisa. Investigar e se escandalizar com a roubalheira da Petrobras não significa que se quer acabar com ela. Pelo contrário, o que se deseja é salvá-la. O reinado da lei só existe quando a lei não foi rasgada ou controlada por uns poucos ou em nome de algo intocável ou sagrado. Pois a lei é o meio pelo qual, numa sociedade de iguais em direitos, valores são invocados, disputados e discutidos e trocam de lugar como verdades ou mentiras. A mobilidade é parte da vida democrática e ela inclui também crenças, utopias e tabus.

Em gestão, a lei celerada


A provável nomeação de Ricardo Berzoini para o ministério das Comunicações indica o recrudescimento da proposta de controle da mídia, tão a gosto do PT mas até agora rejeitada por Dilma Rousseff ao longo de seu primeiro mandato. A presidente teria cedido à pressão dos companheiros e vai atender a uma imposição do Lula, mesmo preparada para sustentar que não se trata de controle do conteúdo. Para ela e para o seu partido, a liberdade de expressão constitui valor absoluto na Constituição de 1988.

Para que diabo, então, quer o governo regular as atividades dos meios de comunicação? Para desmentir informações divulgadas contra seus interesses não valeria o sacrifício. Basta mobilizar os porta-vozes oficiais ou, em certos casos, os próprios personagens contrariados pelas notícias. Não se tem um exemplo, ao longo dos anos recentes, de que algum jornal, revista, emissora de rádio e de televisão tenham deixado de registrar desmentidos oficiais, que também são noticia. Tome-se o escândalo na Petrobras: sempre que a estatal nega denúncias, suas versões ganham a mídia, mesmo contrariadas pelos fatos.

Não pode ser uma forma de obrigar os meios de comunicação a divulgar a história oficial, porque eles já se comportam assim, em nome do bom senso, se não for da ética. Desejaria o poder público ampliar espaço e tempo para suas versões, bem como os pontos de vista de particulares pretensamente atingidos? Só que esse ritual vigora faz muito, com a Justiça sempre pronta para aplicá-lo e fiscalizá-lo.

Há quem suponha estar o governo tentando reavivar a lei dos segredos oficiais, mas para saber se algum veículo de informação a infringiu, sempre existirá o Poder Judiciário ao qual podemos recorrer, pelo menos nas democracias.

Fica assim a dúvida inicial: com que objetivos os companheiros vão insistir nessa lei celerada? Discriminar a distribuição de publicidade dos órgãos públicos, selecionando a mídia amiga e amestrada também não é necessário. O governo já se comporta assim, bastando atentar para a farta distribuição de anúncios diretos e indiretos pelas estatais do tipo Petrobras, Banco do Brasil, Caixa Econômica, Correios e sucedâneos. Aliás, a exigência de índices de audiência e de circulação faz parte dos regulamentos vigentes, tendo até despertado a má vontade do PT para com os encarregados do setor, quando não se curvaram às imposições fisiológicas do partido.

Vale continuar prospectando: para quê esse monstrengo que o Congresso fatalmente aprovará, em especial por conta da esdrúxula reforma ministerial em curso?

Nos tempos da ditadura militar, por alguns períodos prevaleceu a censura ostensiva, mas sempre foi aplicada a pressão econômica. Mataram o “Correio da Manhã”, o mais completo jornal político do país, cortando não apenas a restrita publicidade estatal distribuída ao matutino, mas principalmente forçando as empresas privadas a não anunciarem em suas páginas, sob pena de corte de crédito em suas operações. No reverso da medalha, privilegiaram os órgãos de informação dispostos a distorcer o noticiário em troca de favores e benefícios variados. Repetir a farsa e a tragédia, cinquenta anos depois, seria no mínimo anacrônico, ainda que as críticas e a exposição de escândalos e malfeitos governamentais sempre leve os governantes à beira de um ataque de nervos.

Deve ser por aí que vão trabalhar, indo ou não Ricardo Berzoini para o ministério. A presidente Dilma negou a especulada transferência das verbas publicitárias oficiais da Secretaria de Comunicação Social para o ministério das Comunicações. Mas dará no mesmo se tiverem como alvo facilidades para a transmissão de notícias favoráveis, bem como dificuldades para as informações desagradáveis. Manipular a publicidade oficial e privada, promover empecilhos econômicos e financeiros ao funcionamento das empresas jornalísticas e distribuir benesses e regalos a quantas se comportem de acordo com seus planos e interesses – essa a característica da lei celerada em gestação.

Artigo de Carlos Chagas