sexta-feira, 17 de maio de 2024

Pensamento do Dia

 


Desastres institucionais

Quais os efeitos de longo prazo do desastre no Rio Grande do Sul? Sempre iluminador, Cesar Zucco me enviou um belo artigo dos economistas Guglielmo Barone e Sauro Mocetti que dá o que pensar. O paper se vale de um daqueles experimentos naturais com que as Parcas às vezes nos presenteiam.

Em 1976, um terremoto atingiu o Friul, no nordeste da Itália. Quatro anos depois, foi a vez do distrito de Irpinia, no sul do país, ser afetado por um sismo comparável. Os efeitos imediatos foram arrasadores em escala local, mas pouco significativos no plano nacional, o que permitiu aos autores criar controles para comparar o desempenho de cada uma das áreas com o que teria acontecido caso não tivessem sofrido os tremores.


A hipótese de Barone e Mocetti é que a recuperação seria afetada pela qualidade das instituições políticas e o nível de participação da sociedade civil. Eles mediram isso através de indicadores como processos por corrupção, comparecimento eleitoral e leitura de jornais.

A devastação inicial costuma ser reduzida ou até neutralizada pela ajuda financeira. Depois, se tudo funciona direitinho, a boa alocação dos recursos na reconstrução melhora a infraestrutura, o que leva a um aumento da produtividade. Se as instituições são ruins e a vigilância é baixa, o dinheiro vai para a corrupção ou é gasto em projetos que não ampliam o PIB potencial. Desanimados, moradores podem deixar a região.

Os resultados da dupla são de encher os olhos de economistas institucionalistas. Vinte anos após o sismo, o PIB per capita do Friul, que tinha instituições melhores que a média da Itália, apresentava crescimento de 23% em relação ao controle. Já em Irpinia, de baixa institucionalidade, houve queda de 12%. Mais surpreendente, os desastres parecem ter levado a uma melhora dos indicadores institucionais no Friul e a uma piora em Irpinia.

Os próximos anos dirão se o RS está mais para Friul ou para Irpinia.

A falta de representatividade no Brasil

A representatividade no mundo está em baixa. As teorias de democracia, que previam a eleição dos melhores, a representatividade dos grupos sociais, e a distribuição de renda, falharam. Na concentração do capital, a distância entre os ricos e os pobres inviabiliza a democracia, desterrados pela ignomínia do nada.


Vejamos o Brasil. O Brasil é a 9ª economia do mundo, com PIB estimado em US$ 2,1 trilhões em 2023. Em renda per capita, estamos na 63ª colocação, com US$ 11.073,00 anuais. No IDH, que mede a qualidade de vida em função de bens e serviços para 191 países, estamos na 87ª posição. No índice de GINI, que mede a distribuição de riqueza para 162 países, estamos na 154ª posição. No PISA, que mede o desempenho de alunos do ensino médio em 81 países, o Brasil encontra-se na 52ª posição em leitura, 61ª em ciências, e 65ª em matemática. Onde pode estar a nossa democracia?

As Emendas Parlamentares são o maior indicador da dissensão social. Em 2014, com Dilma, o valor total das Emendas Parlamentares atingiu R$ 10 bilhões; em 2017, com Temer, R$ 15 bilhões; em 2020, com Bolsonaro, R$ 35 bilhões; neste ano de 2024, com Lula, chegamos a R$ 55 bilhões.

O Orçamento da União para 2024 é de R$ 5,5 trilhões. Destes, 95% estão comprometidos com gastos correntes, como pessoal, dívida pública, e outras despesas comprometidas. O total previsto para investimentos é de R$ 279 bilhões, 5% do orçamento total. Destes, R$ 151 bilhões são para investimentos em estatais, 2,7% do orçamento total. Sobram, portanto, R$ 128 bilhões para investimentos de livre alocação, 2,3% do orçamento total. Destes, R$ 73 bilhões são para investimentos pelo Executivo, e R$ 55 bilhões em Emendas Parlamentares. Ou seja, dos R$ 128 bilhões para investimento de livre alocação, 57% são por parte do Governo, e 47% por parte dos Parlamentares. Em percentuais, no total do Orçamento da União, 1,4% é para investimentos pelo Governo, e 1,0% pelos Parlamentares. Ou seja, 1,0% do total do Orçamento da União cabe à alocação pelos 594 Senadores e Deputados no Congresso, equivalente a R$ 92,5 milhões em aplicações “per capita”. Um desvio de função. Assim, sobra pouco tempo para se pensar na população.

Caso exacerbado o do Brasil. Como se diz no dito popular, “ninguém aguenta”.

Ainda há só rebanho

A comunidade  é uma coisa muito bela. Mas o que vemos florescer agora não é a verdadeira comunidade. Essa surgirá, nova, do conhecimento mútuo dos indivíduos e transformará por algum tempo o mundo. O que hoje existe não é comunidade: é simplesmente o rebanho. Os homens se unem porque têm medo uns dos outros e cada um se refugia entre seus iguais: rebanho de patrões, rebanho de operários, rebanho de intelectuais… E por que têm medo? Só se tem medo quando não se está de acordo consigo mesmo. Têm medo porque jamais se atreveram a perseguir seus próprios impulsos interiores. Uma comunidade formada por indivíduos atemorizados com o desconhecido que levam dentro de si. Sentem que já periclitaram todas as leis em que baseiam suas vidas, que vivem conforme mandamentos antiquados e que nem sua religião nem sua moral são aquelas de que ora necessitamos.

Hermann Hesse

A era das catástrofes

As enchentes diluvianas que devastam o Rio Grande do Sul, somadas a outros desastres ambientais em todo o planeta, não deixam dúvida: vivemos uma era de eventos catastróficos que só tendem a se ampliar e se intensificar. Mesmo assim, os governantes e as sociedades se comportam como ébrios delirantes que caminham alegremente para o abismo.

Não existem mais dúvidas científicas de que essa era é provocada pela ação depredadora dos seres humanos. Catástrofes ambientais ocorreram no passado, mas, pela primeira vez na história do planeta, as violentas mudanças ambientais são provocadas pelas ações humanas. O antropocentrismo tem gerado o caminho de uma mudança de era geológica, caracterizada como Antropoceno. Embora o Comitê da União Internacional de Ciências Geológicas, em votação realizada em fevereiro de 2024, tenha recusado reconhecer a presente era como Antropogênica, muitos cientistas e pesquisadores argumentam que as evidências e as marcas das ações humanas no planeta legitimam a adoção da tese.


A tese do Antropoceno foi formulada em 2000 pelo químico e Prêmio Nobel holandês Paul Crutzen. O Antropoceno expressa a ideia de uma nova era, na qual o ser humano tornou-se a força impulsionadora da degradação ambiental e catalisadora das condições para a catástrofe ecológica. Essa dimensão da crise é consequência da cisão que as pessoas promoveram entre o humano, a vida e o planeta. Todo o sistema de mediações socioeconômicas passou a basear-se apenas no jogo de interesses desmedidos e sem critérios de indivíduos, grupos (classes), nações e povos. A vida, a natureza, as espécies e o planeta passaram a ser considerados instrumentos e meios dos interesses socioeconômicos dos humanos.

O modo de produção capitalista, com suas variantes, é a causa principal da destruição ecológica e da degradação socioambiental. Os paradigmas teóricos, as construções do conhecimento e os padrões industriais e tecnológicos geraram modelos de desenvolvimento depredadores, orientados para a maximização do lucro no curto prazo, a expansão ilimitada do consumo, o crescimento descontrolado da mão de obra e das populações, gerando pesados custos aos sistemas sociais e naturais.

A degradação ambiental, que provoca a morte entrópica do planeta, é resultado de uma concepção de mundo, de formas de conhecimento científico, social e religioso com que a humanidade construiu um mundo no qual se destrói a natureza e mantém bilhões de indivíduos na pobreza. O parâmetro principal da medida de todas as coisas não é a vida ou o bem-estar, mas o lucro rápido.

A combinação das variantes do modelo econômico depredador, do crescimento demográfico e do modelo industrial e tecnológico gerou um processo descontrolado que rompeu os limites da sustentabilidade do planeta. Esse modelo chegou ao limite e tornou-se incompatível com os fundamentos da continuidade adequada da vida na Terra. A agressividade da ação humana sobre e contra a natureza bloqueou a capacidade de regeneração dos ecossistemas. Esse descontrole violento compromete os objetivos econômicos e sociais do próprio sistema depredador.

Vários estudos apontam um limite do crescimento econômico, que não pode mais continuar indefinido. A violência e a velocidade da transformação dos recursos naturais e os resíduos nefastos que produzem são muito mais rápidas do que a capacidade de recuperação, regeneração e reposição da natureza. Tudo isso se agrava quando nos deparamos com políticos e governantes que praticam o negacionismo, outros que se omitem em adotar as medidas urgentes e necessárias para mitigar os efeitos desastrosos das mudanças climáticas e em adotar medidas de resiliência nas cidades, no campo e na produção.

O próprio governador do Rio Grande do Sul, Eduardo Leite, tem patrocinado ações de teor criminoso contra o meio ambiente. Nos últimos anos, promoveu cortes absurdos no orçamento da Defesa Civil e nos projetos de resposta a desastres ambientais. Em 2019, propôs um projeto que alterou 480 pontos do Código Florestal estadual. A prefeitura de Porto Alegre não investiu nenhum centavo na prevenção contra enchentes em 2023. Já em Brasília, em março, a Comissão de Constituição e Justiça da Câmara aprovou, com 38 votos a favor e 18 contra, um projeto que permite devastar campos nativos do tamanho do Rio Grande do Sul e do Paraná juntos.

Os políticos negacionistas e aqueles que agem para afrouxar a legislação de proteção ambiental deveriam passar a ser vistos como criminosos pela sociedade. Eles devem ser denunciados de forma ampla para que paguem o preço de seus crimes contra a sociedade, contra a vida, contra as espécies e contra a natureza.

A ocasião e a maldade

É inegável que a ocasião faz o ladrão, mas não é a única coisa que a ocasião faz.

O argumento da tentação é moralmente duvidoso – não é só por encontrar uma carteira cheia de dinheiro que somos tentados a roubar – mas funciona, porque todos somos capazes de imaginar o ladrão preguiçoso que é incapaz de dar um passo para roubar, mas não resiste quando é Deus Nosso Senhor a pôr-lhe as pérolas da marquesa no caminho.

“Estava mesmo ali à mão de semear” é uma desculpa que põe os juízes de todo o mundo a bocejar. As pessoas que sorriem quando a ouvem, ou quando lêem Oscar Wilde a dizer que resiste a tudo menos à tentação, já acharão menos graça quando é o violador a dizer que a vítima estava de minissaia.

Mas o argumento é sempre o mesmo: um homem não é de ferro e a ocasião é que faz o ladrão, pelo que, no fundo, senhor doutor juiz, a culpa não é só minha!

Na minha vida, tenho-me espantado com pessoas que, não sendo sempre maldosas, são capazes de actos de grande maldade. Se calhar, também elas não resistem à tentação de ser más. A diferença é que não podem ser apanhadas, nem apresentadas a nenhum juiz – precisamente porque só são más quando pressentem que não há maneira de serem castigadas.


Estas maldosas ocasionais são moralmente piores do que as maldosas permanentes, porque estas últimas não têm remédio e é fácil detectá-las e evitá-las.

São más quando têm a faca e o queijo na mão. Não resistem à vertigem da desigualdade. Abusam sempre que o abuso é possível – e indetectável. Isto é, abusam sempre que o abuso não impede que possam continuar toda a vida a abusar.

Diriam estas pessoas, caso pudessem ser chamadas à pedra, que é a ocasião que faz a maldade? Que são como criancinhas, com a crueldade das criancinhas, mas também a inocência?

A verdade é que as ocasiões só despertam o que já lá está. Acontece a mesma coisa com o bem: há muita gente que agradece uma oportunidade de ajudar os outros. A tentação nunca tem culpa.

quinta-feira, 16 de maio de 2024

Pensamento do Dia

 


A liberdade ‘fake’ e o Marquês de Sade

“Mercadores do caos”. É assim que o primeiro editorial do Estado de ontem qualificou aqueles que difundem mentiras sobre as enchentes no Rio Grande do Sul. O texto vai no ponto: “Bolsonaristas andam espalhando desinformação porque, inimigos da democracia que são, a eles interessa minar a capacidade dos cidadãos de confiar uns nos outros.” Palavras precisas. Justas.

O quadro é alarmante, não só pelas águas que dizimam cidades inteiras, mas também pela propagação industrializada e intencional de desorientação. Com a cidadania submersa, a perversão do fanatismo antidemocrático jorra pelos bueiros. Há mensagens inconcebíveis circulando massivamente. Umas afirmam que não adianta fazer doações porque o governo federal está barrando caminhões que rumam para o Rio Grande do Sul. Falso. Outras sustentam que Exército e os bombeiros negam ajuda aos desabrigados. Invenção dolosa. Os exemplos de má-fé são caudalosos, tóxicos, e, embora sejam desmascarados a toda hora, deixam rastros de devastação moral e cívica.


A produção em larga escala de mais essa leva de fake news é um trabalho de organizações subterrâneas e subaquáticas que operam longe da luz do dia e consomem rios de dinheiro infecto. São usinas superindustriais que geram as falácias aos borbotões e nunca aparecem publicamente – atuam no submundo, clandestinas. Mais que soturnas e esquivas, são usinas invisíveis. Mais do que abjetas, são eficazes. Abastecem caudalosamente as multidões de idiotas inúteis que trabalham de graça, noite e dia, para fazer escoar todas as sandices asfixiantes pelas redes (anti)sociais.

Se as grandes organizações da mentira atuam nas sombras, os operários alienados e alienantes que trabalham para elas como escravos mostram sua cara sorridente. São os tios e tias do Zap, você os conhece. Quando interpelados pelo bom senso do vizinho de condomínio, protegem-se na desculpa de que apenas exercem sua “liberdade de expressão”. Estão errados em tudo, inclusive nisso. Estão errados principalmente nisso.

Em primeiro lugar, as agências camufladas de onde recebem a porcariada que distribuem não têm direito à liberdade de expressão, nem poderiam ter. A liberdade de expressão é um direito da pessoa humana, não de pessoas jurídicas ou de organizações criminosas. O Estado, as empresas e os partidos políticos não têm liberdade de expressão, pois não são pessoas. A liberdade de expressão é um direito humano, um direito de gente de carne e osso, não uma licença econômica ou corporativa.

Portanto, quando um desses grupelhos ilegais ou uma dessas big techs impulsionam falsidades que lesam a saúde pública e a integridade física de milhões de seres humanos, não é de liberdade de expressão que estamos falando, mas de um inaceitável abuso do poder econômico. A finalidade desse tipo de abuso é fazer propaganda do caos e instaurar um ambiente em que “ninguém acredita em mais nada”, como sintetizou Hannah Arendt numa célebre entrevista. Em resumo, não aceitemos mais chamar de “liberdade de expressão” o que não passa de abuso destrutivo do poder econômico.

Isso posto, falemos agora da liberdade das pessoas, as tais idiotas inúteis que se comprazem com a tarefa de disseminar as notícias fraudulentas em troca de nada – ou, melhor dizendo, em troca do gozo imaginário de se olharem no espelho e se chamarem de “patriotas”. As voluntárias do obscurantismo, por certo, contam com o direito de proferir e reproduzir tolices de mau gosto. Sim, elas são livres para pronunciar o impronunciável. Elas só não têm direito de dar seguimento a crimes.

Aí vem o ponto mais embaraçoso. Elas não sabem distinguir uma coisa da outra. A ideia que carregam de liberdade é uma não ideia: elas concebem a liberdade como uma espécie de bocarra, uma porteira aberta nas fronteiras do corpo para dar vazão aos impulsos viscerais, a despeito das convenções e das normas básicas do convívio civilizado. A liberdade seria, enfim, o triunfo do bicho sobre o humano. É como se o sujeito dissesse “eu sou livre para oprimir você e exercer contra você a minha estupidez essencial”.

E qual a origem dessa concepção pulsional de liberdade? Sigo aqui a sugestão do psicanalista Ricardo Goldenberg. Em um breve ensaio, Do cinismo ao descaramento (no livro O MalEstar na Cultura Revisitado, organizado por Lucia Santaella, publicado pela Estação das Letras e Cores), Goldenberg localiza no Marquês de Sade (17401814) fantasia de que a “liberdade individual” incluiria um suposto “direito” de “gozar do próximo sem nenhum entrave” (“gozar”, aqui, é sinônimo de abusar). Em Sade, o sujeito livre é aquele que consegue juntar o pior vício da aristocracia (dispor do corpo do outro como dispõe da terra) ao pior vício da burguesia (explorar energia do outro para acumular dinheiro e prazer). Em suma, o homem livre é amoral, assassino, pedófilo, estuprador e ditador. No meio de tamanha enchente de mentiras, a gente pode acrescentar: e fascista. A liberdade fake, a liberdade sádica, que no fundo é a negação de toda liberdade, está levando o Brasil ao naufrágio total.

O fim do mundo

Nada era mais assustador do que falar naquele assunto. O fim do mundo fazia parte dos medos, na infância, mas contraditoriamente eu gostava de ouvir as histórias. Entre as brincadeiras, havia aquela das contações, eram passatempos como fossem filmes de terror. Os relatos, apocalípticos, nos faziam viajar com os pés em chão firme.

Havia um amigo cuja mãe falava do Velho Testamento em casa e ele, do alto de sua autoridade, nos repetia com os olhos esbugalhados. Dizia que o mundo se acabou com água, da primeira vez, num dilúvio que tomou conta de toda a Terra. E, da próxima, ai de nós, o planeta seria devorado por imensas labaredas. Haveria choro e ranger de dentes.

Tudo seria consumido pelo fogo. Entre apavorado e fascinado por aquelas narrativas, eu rezava minhas ave-marias, que aprendi nas aulas do catecismo, pedindo a Deus para não virar churrasco.

Paulinho recontava o fim do mundo à sua maneira e o medo dele alimentava o nosso, que éramos seus amigos. Não se sabia ao certo como seria aquele incêndio atlântico, onde ele começaria ou quando. Mas com certeza seria algo para além dos limites geográficos de nossa cidade.


Seria um castigo de Deus, segundo ele, devido à maldade das pessoas e, portanto, não era bom questionar as “profecias”. De minha parte eu cuidava de repassar os relatos e claro, ninguém aceitava aquela história de forma tranquila ou desprovido de espantos.

O fato é que o fim do mundo estava próximo e havia o precedente que era comprovado pela Bíblia. No grande dilúvio, salvaram-se somente os que pegaram carona na Arca de Noé, episódio incontestável conhecido pelos adultos e pelas igrejas. Logo, era difícil se contrapor.

Penso agora no fim do mundo, sem aquele sentimento ingênuo e dogmático da infância, quando leio e vejo notícias sobre os desastres no Rio Grande do Sul. As águas do Rio Guaíba avançam sobre cidades e o céu gaúcho dá a entender que pode despencar, a todo instante, num cenário desalentador.

O mundo acabou para muitas pessoas, infelizmente. As enchentes e tempestades são exemplos de fim de mundo, assim como o “final dos tempos” ocorre para várias populações, em diversas regiões, nas secas terríveis que agora são registradas até na Europa; na temperatura da atmosfera que está cada vez mais alta em todo o mundo; nos terremotos, ciclones, furacões e tornados que sacodem os centros urbanos; nos tsunamis, no avanço do mar e nas pandemias; entre outras dores.

Vivemos, em cada episódio, uma terrível sensação de finitude. A cada desastre estamos sendo privados da vida. A crise climática, na verdade, está nos deixando ilhados no mundo que poderia ser mais confortável para todos. Aquele temor do fim do mundo, que tínhamos na infância, é manifestado, na maturidade, com outro sentimento e com o sentido de novas realidades.

A crise do clima é também da existência humana. O fim do mundo, não é mais aquela versão de Paulinho, mas sim causado por um certo projeto de modernidade que é destrutivo demais. Desigual demais, ganancioso demais. As respostas da natureza nos chegam com a mesma intensidade do egoísmo desregrado e deixam claro a quem cabe criar leis, normas técnicas e parâmetros.

Janela do tempo

Cá estamos, no controle a granel de praticamente tudo o que existe sobre a Terra e, mesmo assim, perto de sermos a mais frágil das espécies com que dividimos a existência. À exceção de uma guerra nuclear aniquilante, continuamos a agredir com voracidade suicida o meio ambiente que permite o viver humano. Ao arrepio da ciência e do saber, tudo sofre agressão ininterrupta — oceanos, outras espécies, florestas, rios, pantanais, ecossistemas, biomas, ar, água. Tudo. Na enxurrada, lá se vão muitos sonhos, esperança, planos e expectativas de um amanhã — também essas coisas exigem um planeta habitável.

Uma década atrás o escritor e ambientalista britânico George Monbiot já alertava sobre a degradação do chão em que pisamos — tratamos feito lixo essa estrutura biológica que produz 99% das calorias de que precisamos. Mais recentemente, Monbiot publicou o premiado “Regenesis: feeding the world without devouring the planet”(em tradução livre, “Regênese: alimentando o mundo sem devorar o planeta”), em que destrincha vários caminhos ainda possíveis. Só que a janela do tempo vai se fechando, e preferimos não ver.

Nenhum bípede vive um só dia sem deixar algum impacto no mundo à sua volta, repete à exaustão a grande dama Jane Goodall, do alto de seus 90 anos. Mesmo atos comezinhos, cotidianos, fazem diferença. O que cada um precisa decidir, acrescenta ela, é que tipo de diferença no mundo quer fazer. Para honrar a jornada que nos é dada no chão da Terra, tem pouca serventia a esperança entendida como ato passivo. A esperança real não é almoço grátis — exige ação e comprometimento.

E o Brasil de 2024, tragado pelo desastre ambiental de magnitude acachapante no Sul do país, revela toda sua gama de ações e manifestações contraditórias. Recursos que andavam desperdiçados ou adormecidos avivaram-se, formaram correntes de eficiência, enquanto fabricantes de caos aproveitam para espalhar vilanias. Somente com o baixar das águas, quando o cara a cara com a devastação se fizer mais real, se verá melhor o grau de maturidade da sociedade brasileira. Um fato, contudo, pode ser registrado desde já: sorte do país que tem liberdade de imprensa em tempos horrendos. A cobertura da grande mídia profissional está sendo um dos alicerces nessa dolorosa travessia nacional.

Vem à mente, nesse aparente desarranjo da natureza com seus ocupantes humanos, um trecho lindo do discurso da polonesa Olga Tokarczuk ao receber o Nobel de Literatura em 2019, em tradução de Gabriel Borowski:

— Estamos todos, nós, plantas, animais, objetos, imersos no mesmo espaço regido pelas leis da física. Esse espaço comum tem seu formato, em que essas leis esculpem uma quantidade incontável de formas mútuas e correspondentes. Nosso sistema circulatório se parece com as redes de drenagem, a estrutura de uma folha é semelhante aos sistemas da comunicação humana, o movimento das galáxias faz pensar nos redemoinhos da água que escorre na nossa pia. O desenvolvimento das sociedades lembra as colônias de bactérias. As escalas micro e macro revelam um sistema infinito de semelhanças. O modo como falamos, pensamos e criamos não é nada abstrato e desligado do mundo, mas é antes uma continuação, em outro nível, de seus processos incessantes de transformação.

Na semana passada, um cavalo de ferraduras escorregadias, equilibrado num improvável pedaço de teto ainda não tomado pelas águas, comoveu o mundo. Fotografado do alto, permanecia absurda e teimosamente de pé, imóvel, sozinho, sem chão. Éramos nós que ali estávamos. Para ser salvo, o animal precisou confiar nos humanos que dele se aproximaram — qualquer tentativa de coice ou movimento de defesa poderia lhe ser fatal. Por instinto ou impossibilidade de se mover, ele correu o risco de confiar. E deu-nos de presente um radioso momento de irmandade entre espécies. Quem não se emocionou com a entrega desse animal de 350 quilos aos braços de brigadistas que nunca vira não merece saber o que é ser humano. Nem animal.

Tenho vários pontos onde encostar o susto

Tenho vários pontos de vista. Alguns deles tão altos que nem eu mesmo alcanço. Outros são rasteiros e não me dou ao trabalho de me abaixar para entender. Os que alcanço facilmente não me interessam. Estão batidos e não me dão mais prazer. Dessa maneira, o que me sobra são os pontos de vista dos outros. Alcançando ou não, mudo partes ou tudo. Entendo mal, me divido na opinião final, deixo passar coisas importantes, incorporo corpúsculos digitalizados. Pobres daqueles que escrevem livros e fazem jornais ou televisão querendo passar fora do meu quintal, rente à cerca de ilusões.


Dando voltas em volta da mente, o homem que pensa é sempre contra. Voltaire nunca se vai. Ele sugeriu que o mal maior não é a desigualdade entre as pessoas. A dependência é que é. Somos tão dependentes uns dos outros que, por isso, cultivamos uma ilusão chamada sociedade. Agora sou eu divagando. Não acuse Voltaire, que não pode se defender. Que não depende mais de você. Única forma de não depender de ninguém é morrer. O cultivo da sociedade como algo inerente ao ser humano é uma balela. Quem de sã consciência ficaria dentro de um escritório por oito horas, sem ver a luz do Astro-Rei? Quem deixaria as pernas lindas das mulheres vagando solitárias pelas ruas e shoppings para se enfiar dentro da cabina de um avião a jato e ficar doze horas sobrevoando o Pacífico? Nossa fragilidade como seres é absurda.

Um beija-flor não bate na porta de outro, duas da manhã, para pedir que o escute. Precisa o belo pássaro contar suas mágoas, seus desamores, suas angústias? Um cavalo não se queixa para o outro porque perdeu um páreo pela diferença de um pelo do focinho. O lambe-lambe, os elogios rasgados, a opressão, as ameaças veladas, a indiferença, as fofocas… São apenas armas da nossa fragilidade. São armas mortais que cada um usa para sobreviver como indivíduo. O ‘salvo eu, danem-se os outros’ seria o slogan ideal do ser humano.

Os negacionistas estão matando

Negacionistas não somente rejeitam a verdade. Sequer participam de disputa sincera pela verdade. Não estão interessados. Todo negacionismo é, antes, negação da responsabilidade que a verdade imputa. Estratégia diversionista, esconde causalidades entre ações e consequências. E rejeita a norma jurídica ou moral que sanciona o comportamento danoso.

Não se equiparam aos sofistas ou aos céticos, nem aos ateus ou agnósticos. Estão mais próximos ao que Harry Frankfurt chamou de "bullshiters". Diferente do mentiroso e do hipócrita, que conhecem a verdade e sabem que mentem, o "bullshiter" tem indiferença à verdade e joga outro jogo. Sua empreitada não é intelectual, mas política e sectária.

Muitos negacionismos contaminam a conjuntura brasileira: negacionismo do golpe, da ditadura, do racismo, da homofobia, dos conflitos de interesses da magistocracia, da corrupção e do autoritarismo; dos efeitos da desigualdade e da boçalidade pública; da correlação entre liberação de armas e aumento de homicídios, parecido com o da causalidade entre cigarro e câncer; do dever constitucional de manter o meio ambiente equilibrado e do direito de gerações presentes e futuras.


Não interessa ao negacionista cultivar o hábito intelectual da dúvida nem a atitude política da desconfiança. Quer apenas destruir inimigos com a melhor arma em mãos. É uma técnica sintonizada ao extremismo político, hoje armado de canhões desregulados de desinformação com alta precisão algorítmica. Financiar a fabricação de negacionismo com cara de ciência é comum a indústrias que impactam a saúde e o meio ambiente.

O Rio Grande do Sul sedia nesse momento o encontro do extremismo político com a desigualdade extrema e o evento climático extremo. Ainda não conhecemos todos os danos que uma reunião explosiva desse calibre produz, mas já somos capazes de perceber a multiplicação desnecessária e discriminatória de mortes, sofrimento e empobrecimento material.

Negacionistas têm tentado corroer o esforço da sociedade e do Estado brasileiro em enfrentar as consequências da tragédia. Sua produção torrencial de notícia falsa se dirige a bloquear e deslegitimar iniciativas estatais de ajuda aos atingidos.

Em paralelo, a solidariedade social, traduzida na dedicação voluntária de indivíduos e organizações, em colaboração com esforços públicos, é tumultuada por oportunistas que, mais do que participar, tentam individualizar os méritos do heroísmo coletivo em redes sociais.

Nesse momento, o negacionista luta dois combates: um contra o Estado, cujas instituições precisam continuar a ser evisceradas de capacidade de compreender a estrutura do desastre, de preveni-lo e de responder a ele; outra contra o conhecimento que demonstra, justamente, a relação de causalidade entre o que o negacionista faz e a consequência para a coletividade.

A tragédia precisa ser desvinculada da ação negacionista. O negacionista precisa ser exonerado de sua responsabilidade.

Exemplos recentes da responsabilidade negacionista: o governo do RS ignorou plano de prevenção a desastres desde 2017; flexibilizou regras sobre barragens em áreas de preservação permanente; enfraqueceu o código florestal; o Congresso Nacional vem desmontando a proteção ambiental nos últimos anos e tenta aprovar o "pacote da destruição" com mais de 20 projetos contra o meio ambiente. O governo federal não dá sinais de ter a causa da proteção ambiental como prioridade.

Ainda não conseguimos construir ferramentas de responsabilização de organizações, empresas e atores políticos que, desinteressados nas consequências humanas e econômicas do que fazem, e ansiosos por ganhos de curto prazo, contribuem para o desastre. Nem conseguimos construir instituições que traduzam o compromisso constitucional da precaução em prática real.

Enquanto isso, os negacionistas estão matando e vão continuar a matar.

quarta-feira, 15 de maio de 2024

Pensamento do Dia

 


Rousseau e o clima

Jean-Jacques Rousseau errou em quase tudo, mas, no que diz respeito a desastres naturais, suas reflexões são certeiras. Para ele, os efeitos de um cataclismo dependem não só do evento geológico ou climático que os precipita mas também da forma como humanos ocupam o solo e se comportam.

Como observou o bom Jean-Jacques na "Carta sobre a Providência", escrita após o grande terremoto de Lisboa, de 1755, não foi a natureza que, numa área exígua, "reuniu 20 mil casas de seis ou sete andares". E arrematou: "quantos infelizes pereceram neste desastre, porque quiseram pegar, um suas roupas, outro, sua papelada, outro, seu dinheiro?". Hoje as ideias de Rousseau parecem óbvias, mas não o eram no século 18. Ali, a reação das pessoas era a de acorrer às igrejas e caprichar nas rezas e penitências.


Precisaremos cada vez mais dar ouvidos ao genebrino, porque o que há de mais certo sobre a mudança climática é que ela aumentará a frequência de eventos extremos. As "enchentes do século" ocorrerão ao passo de décadas; habitar áreas de encosta, que sempre foi algo arriscado, se tornará extremamente perigoso. Como boa parte do aquecimento futuro já está contratada, muito dos nossos esforços terá de ir para a adaptação, tanto a prevenção como a gestão de catástrofes. E essas são áreas em que o Brasil vai tradicionalmente mal.

Nosso sistema político favorece o curto-prazismo (é só ver a situação do saneamento básico) e atomiza a aplicação de recursos, o que dificulta investimentos em redes de maior abrangência, como uma defesa civil integrada.

É interessante observar que Rousseau escreveu sua "Carta..." para livrar a cara de Deus de uma acusação feita por Voltaire: como poderia uma entidade benevolente e onipotente permitir tal tragédia? O genebrino não resolveu o problema da justiça divina, mas apontou para uma área de atuação em que os homens não podem fugir a suas responsabilidades.

Prevenção zero


Todo mundo fala: 'Não poderíamos ter previsto'". Isso é categoricamente falso. Sempre há pilhas e pilhas de relatórios onde isso foi analisado. Sabemos das vulnerabilidades, mas optamos por não nos preparar.
Jeffrey Schlegelmilch, diretor do Centro Nacional de Preparação para Desastres da Universidade Columbia, em Nova York, sobre o Katlina

Roleta russa com a natureza

Em 1986, em “O relojoeiro cego”, Richard Dawkins mostrou que o darwinismo não é obra do acaso. Os seres vivos não surgem da soma de casualidades favoráveis, mas de um jogo (evolutivo) muito complexo, mas com regras bem definidas. A natureza, assim, não é o acúmulo de eventos aleatórios, e sim o contrário. A natureza não joga dados.

A ministra Marina Silva, em entrevista à Globo News no dia 3, ao falar da tragédia do Rio Grande Sul (RS), ilustrou a tese de Dawkins. Ela disse mais ou menos o seguinte: a humanidade levou séculos a transformar a natureza em dinheiro. Agora precisa gastar mais dinheiro para ajudar a natureza a superar obstáculos.

Desde junho de 2022, com o banal assassinato de Dom Phillips, jornalista britânico, e do indigenista Bruno Pereira, comecei a pensar no valor da vida. O assunto voltou ao radar em agosto passado, com o assassinato da dona Bernadete Pacífico, líder quilombola, e, agora, com a catástrofe do RS. Não parece, mas a banalização da vida, como numa roleta russa, é um dos gatilhos de eventos climáticos extremos. E a roleta russa contra a natureza é uma aposta perdedora.


O valor da vida foi tema do doutorado de Richard Thaler, Nobel da Economia em 2017. Antes dele, Thomas Schelling, Nobel da Economia em 2005, num célebre e provocador artigo de 1968 (“The life you save may be your own”), enfatizou que o empenho em salvar vidas é fortemente influenciado por duas características comportamentais: da “vida identificada” - como a de um filho baleado em assalto - e da “vida estatística” - como as milhares de mortes no trânsito.

Os jornais têm dado merecido destaque à tragédia das enchentes no RS. Mas por que o desastre assumiu tamanha proporção? A resposta mais contundente está na própria fala da ministra Marina, já sublinhada no início deste artigo. Mas isso ainda não explica por que jogamos dados com a natureza.

Veja o caso de uma atividade de risco não desprezível. Suponha ser de 5 em 1.000 (0,5%) a probabilidade de um acidente fatal para alguém que, a serpentear no trânsito numa pequena moto, faz entregas em São Paulo. Quanto vale a vida dessa pessoa? Uma conclusão é imediata: essas pessoas se arriscam uma barbaridade e se dispõem a ganhar muito pouco.

Coisa semelhante ocorre com as famílias que vivem no Vale do Taquari, no RS, onde também viveram seus pais e avós. E às vezes pagam muito para permanecer nesse ambiente de risco. Numa espécie de autoengano, pensam que estão seguras.

A explicação é muito mais psicológica que econômica ou mesmo filosófica. Na falta de opção, o entregador sente como perda os R$ 20/hora que deixa de receber se não executar o trabalho. E a aversão a perdas é maior que a aversão ao risco, o que o torna mais propenso a enfrentar situações perigosas.

Isso também pode ser explicado pelo efeito dotação - quando é valorizado em excesso o que se imagina ser um bem. Para muitos, viver no Vale do Taquari, a origem de seus antepassados, é um bem valioso. Abrir mão desse “bem” tem um razoável custo, que, veja só, também vai na direção de desvalorizar a vida.

Aqui entraria a política pública, para minimizar os efeitos dessa propensão ao risco. Admita ser também de 0,5% a probabilidade de roubos com mortes em residências no bairro da Tristeza, região de classe média alta na orla do Guaíba. Mesmo com baixa possibilidade de latrocínio, muitos buscam proteção para suas casas e famílias. Instalam sofisticadas fechaduras e outras barreiras. A família é uma vida identificada.

Admita que é novamente 0,5% a possibilidade de, a cada 80 anos, ser superada a cheia do Guaíba de 1941. Como se comportaria o responsável pelos diques e bombas d’água? Nesse cenário, as autoridades percebem os eventuais danos, mesmo que fatais, apenas como estatísticas, isto é, como vidas estatísticas (como a dos entregadores nas ruas das grandes cidades).

O mais grave ocorre quando a autoridade despreza os alertas da ciência, incentiva o relaxamento da legislação e fecha os olhos para diferentes crimes ambientais. São decisões que, não tenha dúvida, tornam a vida mais vulnerável a eventos climáticos severos, como o de agora no RS. A autoridade, então, põe mais balas na arma com que faz roleta russa com a natureza.

As mudanças climáticas são, por tudo isso, consequências de uma arquitetura de escolhas, sobretudo políticas, nem um pouco racionais. E isso tem transformado tais escolhas numa típica tragédia dos comuns, quando decisões individuais prejudicam o bem-estar da coletividade. O caso concreto são as décadas sem investimentos, manutenção e atualização do sistema de controle de cheias de Porto Alegre.

Corre-se agora para gastar bilhões de reais em medidas de contenção dos danos das escolhas estúpidas. Ok. Mas são negligenciadas as ações para evitar a estupidez. Foi iniciada a maratona para construir infraestruturas que minimizam os efeitos das enchentes, mas não para evitar os recordes de chuva nos vales do Taquari e do Itajaí, Região Serrana do Rio, Litoral Norte de São Paulo ou na Grande Recife.

A notícia relevante não deveria ser a disposição dos governos em gastar bilhões para conter os efeitos dos danos já provocados, que até soará como propaganda eleitoral, mas sim o que não fizeram para evitar a causa dos danos.

A humanidade jogou dados com a natureza. E perdeu. Apostou contra a natureza, quando jogava contra si própria. A humanidade pôs mais balas no revólver da insensatez, quando deveria retirá-las. Agora, ficou muito mais caro retirar uma bala, depois outra e outra. E esse custo é medido pela sucessão de eventos como em 2023, com recordes de calor, e, em 2024, com inéditos 250 mm de chuva em Dubai num só dia, 300 mm em Nairóbi em sete dias e mais de 500 mm no Vale do Taquari em quatro dias, o gatilho para a tragédia gaúcha.

E o revólver da insensatez segue carregado.

O amor tem que vir antes da economia e da democracia

Às vezes, as pessoas mais simples, sem excessivas pretensões científicas, são as que oferecem as verdades mais profundas. Foi o que acabou de acontecer com Satish Kumar, um antigo monge da Índia que, aos 85 anos, continua a viajar pelo mundo lembrando que nos tornámos “meros recursos humanos”. Ele apenas explicou isso em uma longa entrevista ao jornal brasileiro O Globo .

Abordando a questão atual das doenças mentais que afligem toda a humanidade, sem que a ciência seja capaz de fornecer uma explicação convincente, Kumar apresentou o seu diagnóstico. Segundo ele, não são as ansiedades da era digital, da inteligência artificial, da crise da democracia, que estão fazendo com que a dor da alma, da insatisfação universal, cresça como uma epidemia. E as receitas crescem, levando inexoravelmente às farmácias e aos seus lucros.

A filosofia do guru espiritual é mais simples. Segundo ele, a causa da ansiedade universal que nos aflige se deve ao fato de que o crescimento e o desejo pelo puramente econômico não são capazes de preencher o nosso vazio espiritual. “Não importa quanto você tenha e ganhe, nunca será suficiente, você nunca será totalmente feliz”, afirma. E pede mais. E isso até o infinito. Serão realmente os mais felizes, os menos angustiados, os mais serenos, os que menos adoecem, os que têm menos medo da morte, os que acumulam mais poder e riqueza?


O amor viria antes da democracia. “Por si só, não é sequer garantia de um bom governo”, algo que hoje vivemos com mais força do que nunca, pois se há algo no mundo da política atual é que até a democracia, que era uma espécie de religião que garantiu as liberdades individuais e sociais, está mais em crise do que nunca.

Em sua filosofia, o idoso guru que continua viajando pelo mundo espalhando sua utopia de que o amor precede qualquer possibilidade de felicidade profunda e duradoura também insiste que uma vida psíquica e feliz, por mais tecnológica e avançada que seja, é impossível sem contato físico com a natureza, junto às árvores e seus frutos, perto das flores de um jardim ou dos olhos de uma borboleta. Para ele, é incompreensível que no Brasil, um dos países com maior superfície natural virgem, continuem a existir cidades gigantescas como São Paulo ou Rio de Janeiro, com milhões de pessoas aglomeradas nas quais as crianças nunca viram um pássaro voar ou que nunca subiram em uma árvore.

A aparente simplicidade da filosofia da felicidade de Kumar, segundo a qual a solidariedade, a amizade, o amor à natureza, a compreensão da dor dos outros vêm antes da ideologia e da política, coincide neste momento com um tema que envolve o Brasil nesse mesmo mistério.

Desta vez não foi um simples e místico monge, mas o intelectual, presidente da Academia Brasileira de Letras e colunista do jornal O Globo, Merval Pereira, que em sua coluna intitulada Solidariedade aborda do ponto de vista político a força que é ter esse valor e a quebra de preconceitos políticos diante da tragédia humana das enchentes na região Sul do Brasil . Numa das regiões mais ricas do país e ao mesmo tempo mais direitista, como escreve Merval: “A dura tragédia que está a custar tantas vidas e a evacuar cidades inteiras serviu para redescobrir a importância da solidariedade”.

É naquela região onde o país está fortemente dividido entre os seguidores do progressista Lula e do ultradireitista Bolsonaro. E está a ser uma descoberta ao mesmo tempo da tragédia humana e da solidariedade que a acompanha, que leva as pessoas a sacrificarem as suas vidas para salvar outras, onde se torna tangível, como sublinha o colunista, que voltamos a ter um país que une em torno de uma causa independentemente de os voluntários que expõem suas vidas serem lulistas ou bolsonaristas. Assim como os militares que, divididos, estiveram a ponto de cair na tentação oferecida por Bolsonaro de dar um golpe de Estado, hoje estão unidos, sem rótulos políticos, na dura e arriscada ajuda para salvar vidas, sem pedir em quem votaram nas urnas.

Será ou não o amor, a solidariedade, a amizade, o respeito à natureza, uma vida simples, sem ansiedade em acumular riquezas e sem exigir rótulos políticos, não apenas a melhor receita para a felicidade, mas até mesmo o melhor remédio contra as dores da alma?

terça-feira, 14 de maio de 2024

Pensamento do Dia

 


A opinião em palácio

O Rei fartou-se de reinar sozinho e decidiu partilhar o poder com a Opinião Pública.

― Chamem a Opinião Pública ― ordenou aos serviçais.

Eles percorreram as praças da cidade e não a encontraram. Havia muito que a Opinião Pública deixara de frequentar lugares públicos. Recolhera-se ao Beco sem Saída, onde, furtivamente, abria só um olho, isso mesmo lá de vez em quando.


Descoberta, afinal, depois de muitas buscas, ela consentiu em comparecer ao Palácio Real, onde Sua Majestade, acariciando-lhe docemente o queixo, lhe disse:

― Preciso de ti.

A Opinião, muda como entrara, muda se conservou. Perdera o uso da palavra ou preferia não exercitá-lo. O Rei insistia, oferecendo-lhe sequilhos e perguntando o que ela pensava disso e daquilo, se acreditava em discos voadores, horóscopos, correcção monetária, essas coisas. E outras. A Opinião Pública abanava a cabeça: não tinha opinião.

― Vou te obrigar a ter opinião ― disse o Rei, zangado.

― Meus especialistas te dirão o que deves pensar e manifestar. Não posso mais reinar sem o teu concurso. Instruída devidamente sobre todas as matérias, e tendo assimilado o que é preciso achar sobre cada uma em particular e sobre a problemática geral, tu me serás indispensável.

E virando-se para os serviçais:

― Levem esta senhora para o Curso Intensivo de Conceitos Oficiais. E que ela só volte aqui depois de decorar bem as apostilas.
Carlos Drummond de Andrade, “Contos Plausíveis”

A égua no telhado

A foto é emblemática. Uma égua no alto do telhado de uma casa, olhando para a água que a cerca. Sem enxergar um palmo de terra firme que a encoraje a sair do desconforto. Na maior tragédia pluviométrica que assola o Rio Grande do Sul, o cavalo de Canoas, uma das cidades inundadas pelas enchentes, simboliza a perplexidade que toma conta não apenas dos gaúchos, mas de todos os brasileiros que nunca viram cenas tão devastadoras e intensas quanto as que lhe são expostas pela teia midiática. A cena de uma garotinha pedindo que o barqueiro pegasse uma boneca que flutuava na água é comovente. A boneca era um bebê. Realismo fantástico.

O Brasil vive um momento de triste perplexidade. Sem entender como e porque um Estado tão bem-dotado de infraestrutura, um dos mais desenvolvidos da Federação, a 5ª. maior economia nacional, seja impiedosamente destruído por precipitações pluviométricas. Como não se previu tamanha calamidade? Como tem sido possível que os danos às pessoas sejam de tal monta, que a vida de centenas de famílias seja jogada no despenhadeiro? Nietzche, o magistral filósofo, prenunciou: a ampulheta do tempo, vira e mexe, impõe o eterno recomeço como nosso conceito de devir.

A cada estação do ano, o Brasil ganha as cenas de vidas destroçadas. Vai, aqui, pequena memória.


Em 1975, um vazamento de 6 mil toneladas de óleo, do petroleiro Tarik Iba Ziyad, fretado pela Petrobras, contaminou a baía de Guanabara. O maior vazamento de óleo no Brasil. Em 1980, no Vale da Morte, em Cubatão, a liberação de gases tóxicos por indústrias do polo petroquímico, aumentou os problemas de saúde na região. Ainda em Cubatão, em 1984, na Vila Socó, um grande incêndio matou 93 pessoas. Falha na tubulação. Em 1987, foi a vez de Goiânia, com o acidente radiológico com um aparelho de radioterapia abandonado, dentro do qual estava uma cápsula de césio-137. Outro vazamento de óleo na baía de Guanabara, em 2000; responsabilidade da Petrobras. 25 praias contaminadas. Ainda em 2000, no Paraná, houve um vazamento de óleo nos rios Barigui e Iguaçu. 4 milhões de litros de óleo. Vimos, em 2001, o naufrágio da plataforma P-36, na bacia de Campos, que despejou 1500 toneladas de óleo a bordo, matando 11 pessoas. A seguir, em 2003, a indústria Cataguases, em Minas Gerais, despejou 1 bilhão e 400 milhões de lixívia nas águas da bacia hidrográfica do Paraíba do Sul. Em 2007, o rompimento de barragem Bom Jardim em MG. Em 2011, outro vazamento de óleo na bacia de Campos, RJ. No porto de Santos, em 2015, ocorreu o incêndio na Ultracargo, durante transferência de tanques de gasolina e etanol. Ainda em 2015, houve o vazamento da barragem do Fundão, em Mariana, MG, com 62 milhões de m3 de lama. Responsabilidade da empresa Samarco. Em janeiro de 2019, em Brumadinho, MG, viu-se um dos maiores desastres ambientais no Brasil, com o rompimento da barragem Mina do Feijão, sob responsabilidade da companhia Vale do Rio Doce. 270 mortos. Uma tragédia. E agora, a tragédia das tragédias, essa que conta mais de 100 mortos, atinge 83% dos municípios gaúchos e deixa mais de meio milhão de pessoas ao relento. O que essa calamidade expressa? Primeiro, a ausência de políticas voltadas para a prevenção de catástrofes. As forças naturais recebem as críticas, mas a mãe natureza não tem tanta culpa. A obra de devastação a cargo do homem, em sua incessante obstinação para apressar o fim do planeta, é a principal responsável por catástrofes. Quantos parlamentares dedicaram verbas para a prevenção de enchentes? Um, dois, três? Os homens públicos deveriam ir ao paredão da vergonha por não construírem barreiras preventivas nos espaços que administram.

O trabalho voluntário mostra a solidariedade de brasileiros na tragédia gaúcha. E serve de bálsamo para amenizar a dor de milhares de aflitos. Mas é isso que sobra ante a maré de improvisação que grassa na administração de Estados e municípios. Para arrematar o mosaico de desleixo, competências constitucionais são distribuídas de maneira irregular entre os entes federativos. União, estados e municípios repartem áreas comuns como serviços sociais, meio-ambiente e habitação etc. O resultado é uma sobreposição de ações, particularmente nos palanques midiáticos, aqueles que impressionam eleitores. Projetos escondidos, como os de saneamento, são relegados ao segundo plano. Um governo eficaz é aquele com aptidão para prever problemas e antecipar soluções.

É triste concluir que as calamidades de hoje se repetiram no passado e serão vividas no amanhã. Um eterno retorno, um eterno recomeço. O olhar da égua no telhado parece responder ao presidente Lula, que fez a provocação: o que estaria ela pensando? Ora, pensando na malandragem que dita a conduta de demagogos, oportunistas, gente que tenta tirar proveito da miséria humana.