domingo, 8 de janeiro de 2023

Pensamento do Dia

 


O "eu" sempre isolará o "nós"

Inquietavam-se as terras do oeste sob os efeitos da metamorfose incipiente. Os estados ocidentais estavam intranquilos como cavalos antes de temporal. Os grandes proprietários inquietavam-se, pressentindo a metamorfose e sem atinar com a sua natureza. Os grandes proprietários atacavam o que lhes ficava mais próximo: o governo de poder crescente, a unidade trabalhista cada vez mais firme; atacavam os novos impostos e os novos planos, ignorando que tudo isto era efeito, e não causa. As causas escondiam-se bem no fundo e eram simples — as causas eram a fome, a barriga vazia, multiplicada por milhões; fome na alma, fome de um pouco de prazer e de um pouco de tranquilidade, multiplicada por milhões; músculos e cérebros que queriam crescer, trabalhar, criar, multiplicados por milhões. A última função clara e definida do homem — músculos que querem trabalhar, cérebros que querem criar algo além da mera necessidade — isto é o homem. Construir um muro, construir uma casa, um dique, e pôr nesse muro, nessa casa, nesse dique algo do próprio homem, é retirar para o homem algo desse muro, dessa casa, desse dique; obter músculos fortes à força de movê-los, obter linhas e formas elegantes pela concepção. Porque o homem, ao contrário de qualquer coisa orgânica ou inorgânica do universo, cresce para além de seu trabalho, galga os degraus de suas próprias ideias, emerge acima de suas próprias realizações. É isto o que se pode dizer a respeito do homem. Quando teorias mudam e caem por terra, quando escolas filosóficas, quando caminhos estreitos e obscuros das concepções nacionais, religiosas, econômicas alargam-se e se desintegram, o homem se arrasta para diante, sempre para a frente, muitas vezes cheio de dores, muitas vezes pelo caminho errado. Tendo dado um passo à frente, pode voltar atrás, mas não mais que meio passo, nunca o passo todo que já deu. Isto se pode dizer do homem, dizer-se e saber-se. Isto se constata quando as bombas caem dos aviões negros sobre a praça do mercado, quando prisioneiros são tratados como porcos imundos, e os corpos esmagados se consomem imundos na poeira. Pode ser constatado desta forma. Não tivesse sido dado esse passo, não estivesse vivo no pensamento o desejo de avançar sempre, essas bombas jamais cairiam e nenhum pescoço seria jamais cortado. Tenha-se medo de quando as bombas não mais caem, enquanto os bombardeiros ainda existam, pois que cada bomba é uma demonstração de que o espírito não morreu ainda. E tenha-se medo de quando as greves cessam, enquanto os grandes proprietários estão vivos, pois cada greve vencida é uma prova de que um passo está sendo dado. E isto se pode saber — tenha-se medo da hora em que o homem não mais queira sofrer e morrer por um ideal, pois que esta é a qualidade básica da humanidade, é a que a distingue entre tudo no universo.

Catador de plásticos na Indonésia

Os estados ocidentais inquietavam-se sob os efeitos da metamorfose incipiente. Texas e Oklahoma, Kansas e Arkansas, Novo México, Arizona. Califórnia. Uma família isolada mudava-se de suas terras. O pai pedira dinheiro emprestado ao banco e agora o banco queria as terras. A companhia das terras — que é o banco, quando ocupa essas terras — quer tratores, em vez de pequenas famílias, nas terras. Um trator é mau? A força que produz os profundos sulcos na terra não presta? Se esse trator fosse nosso, não meu, nosso, prestaria. Se esse trator produzisse os sulcos em nossa própria terra, prestaria na certa. Não nas minhas terras, nas nossas. Então, sim, a gente gostaria do trator, gostaria dele como gostava das terras quando ainda eram nossas. Mas esse trator faz duas coisas diferentes: traça sulcos nas terras e expulsa-nos delas. Não há quase diferença entre esse trator e um tanque. Ambos expulsam os homens que lhes barram o caminho, intimidando-os, ferindo-os. Há que pensar sobre isto.

Um homem, uma família, expulsos de suas terras, esse veículo enferrujado arrastando-se e rangendo pela estrada rumo ao Oeste. Perdi as minhas terras; um trator, um só, arrebatou-as. Estou sozinho e apavorado. E uma família pernoita numa vala e outra família chega e as tendas surgem. Os dois homens acocoram-se no chão e as mulheres e as crianças escutam em silêncio. Aqui está o nó, ó tu que odeias as mudanças e temes as revoluções. Mantém esses dois homens apartados; faze com que eles se odeiem, receiem-se, desconfiem um do outro. Porque aí começa aquilo que tu temes. Aí é que está o germe do que te apavora. É o zigoto. Porque aí transforma-se o “Eu perdi minhas terras”; uma célula se rompe e dessa célula rompida brota aquilo que tu tanto odeias, o “Nós perdemos nossas terras”. Aí é que está o perigo, pois que dois homens nunca se sentem tão sozinhos e abatidos como um só. E desse primeiro “nós” nasce algo muito mais perigoso: “Eu tenho um pouco de comida” mais “Eu não tenho nenhuma”. Quando a solução desta soma é “Nós temos um pouco de comida”, aí a coisa toma um rumo, o movimento passa a ter um objetivo. Apenas uma pequena multiplicação, e esse trator, essas terras são nossas. Os dois homens acocorados numa vala, a pequena fogueira, a carne que se cozinha numa frigideira comum, as mulheres caladas, de olhos vidrados; atrás delas as crianças, escutando com o coração palavras que seu cérebro não abrange. A noite desce. A criança sente frio. Aqui, tome esse cobertor. É de lã. Pertenceu à minha mãe — tome, fique com ele para a criança. Sim, é aí que tu deves lançar a tua bomba. É este o começo da passagem do “Eu” para o “Nós”.

Se tu, que tens tudo que os outros precisam ter, puderes compreender isto, saberás também defender-te. Se tu souberes separar causas de efeitos, se tu souberes que Paine, Marx, Jefferson, Lenin foram efeitos e não causas, sobreviverás. Mas tu não poderás compreender. Pois que a qualidade da posse cristalizou-se para sempre na fórmula do “Eu” e sempre te isolarás do “Nós”.
Os estados ocidentais inquietam-se sob os efeitos da metamorfose incipiente. A necessidade é um estimulante do ideal, o ideal, o estímulo para a ação. Meio milhão de homens caminha pelas estradas; um milhão mais prepara-se para a caminhada; dez milhões mais sentem as primeiras inquietudes.
E tratores abrem sulcos múltiplos nas terras abandonadas.
John Steinbeck, "As vinhas da ira"

Ora, direis, ouvir óvnis

O governo Lula dispõe-se a desarmar corpos e espíritos. O problema é saber qual a realidade visada, se a real-histórica ou a paralela. Um lance pertinente: na última sexta-feira de 2022, hasteou-se a bandeira a meio-pau no QG de Brasília, em homenagem a Pelé. Lá fora, para os acampados, era o sinal do golpe imaginado. Seguiu-se uma profusão de louvações aos céus e, frente aos vídeos, um homem corpulento bradava "perdeu, mané".

Na realidade paralela, o perdedor transformava-se em vitorioso. No real-histórico, naquela mesma hora, o verdadeiro derrotado já estava a bordo de um avião militar rumo à Flórida. A sequência de eventos é miúda, mas tem carga simbólica. Primeiro, a fuga patética do mandatário pela lateral do palácio, sem aviso público. Depois, Orlando constava como destinação real, mas no imaginário coletivo era mesmo a Disney, o Shangri-la pequeno burguês que o ex-ministro da economia achava incompatível com empregadas domésticas. O desgoverno fantasioso de verdade dava lugar aos parques temáticos da fantasia.


É natural que a descrição dessa passagem de poder oscile entre referências realistas e imaginárias. Estas últimas sempre estiveram e continuam ativas na realidade construída pela rede fechada de desinformação do extremismo, em que a sociedade se desenha como uma Babel de caos e perdição. Não se desarma de um dia para outro uma máquina de destruição do sentido da história e do senso comum, em que o verossímil parece abduzido por aliens. Sobre a transmissão do cargo, disse uma manifestante: "Essas imagens da posse de Lula são montagens da mídia, recuso-me a acreditar".

Em 1975, avaliando a Revolução dos Cravos, Jean-Paul Sartre observou que alguns jornais portugueses ainda não haviam percebido que "acabou a ditadura e querem continuar imbecilizando o povo". Entre nós, ao contrário, a imprensa corporativa dignificou a informação, em confronto com um setor da esfera digital, ávida por monetização de conteúdos a qualquer preço moral. Nesta, ex-mandatário ainda manda.

Esse setor da rede eletrônica constitui-se hoje como intelectual orgânico coletivo de facções extremistas. Como rede e público são culturalmente a mesma coisa, os dispositivos imbecilizam ao mesmo tempo em que são imbecilizados. Em termos hermenêuticos, a expressão "perdeu, mané" é um vigoroso corte real, de fundo psicanalítico. É imperativo aplicá-la com rigor de lei às retropias do terror doméstico que, de tão familiares, na risonha avaliação do novo ministro da Defesa, poderiam "esvair-se". No entanto, persistem. Enquanto isso, na frente do QG, acampam cachorros de rua atraídos por lixo e resquícios de churrasco. Estes não darão ouvidos a ovnis.

Lula 3, o começo

‘Bom dia, democracia. Como é lindo o teu rosto (...)’, postou no 2 de janeiro o imortal da Academia Brasileira de Letras Marco Lucchesi, recém-nomeado presidente da Biblioteca Nacional. Difícil achar palavras mais gostosas para o arrastão de alegria vivenciado pelo Brasil no festão da posse do presidente Lula. Deu até vontade de responder, em voz alta, “Bom dia”, e sorrir. Ninguém, nada, conseguirá apagar da História nacional o radioso domingo inaugural do terceiro mandato presidencial de Lula. Foi o Brasil subindo a ladeira — no caso, a rampa do Palácio do Planalto. Correu mundo a imagem do casal presidencial e vice ladeados por um cacique (o grande Raoni, de 90 anos), um artesão, um professor, um metalúrgico, um ativista de inclusão, uma catadora, um menino da periferia, uma cozinheira e a cadela vira-lata Resistência, tudo junto e misturado, com um mar de povo alegre ao fundo. O Brasil existe, diria dias depois o jurista Silvio Almeida, em seu apaixonado discurso de posse como ministro dos Direitos Humanos.


“Estamos tão habituados à velha antinomia entre razão e paixão, entre espírito e vida, que quase nos assustamos com a ideia de um pensar com paixão — quando o pensamento e o viver pleno se fundem”, escreveu Hannah Arendt mais de meio século atrás. Sim, a alegria coletiva assusta, a autenticidade e a diversidade individual assustam, a realidade e a bagunça democrática assustam quem está impregnado de preconceitos. O medo aprisiona e levou a veterana colunista Anna Marina, do Estado de Minas (cujo caderno de cultura, Pensar, é um dos melhores da imprensa brasileira), a se sentir ofendida com o que viu na TV: “Podemos ter índios, pretos e estropiados compondo nosso povo, mas colocar essa seleção na cara da nação me pareceu uma forçada de mão. Essa gente responsável por representar o novo poder me causou péssima impressão”. O jornal que publica a coluna diária de Anna Marina há décadas é o mais influente de Minas Gerais, estado que, por sua vez, tem o terceiro maior colégio eleitoral do país. A visão racista do “dessa gente” nada tem de excepcional, apenas não costuma ser explicitada de forma tão direta nos jornais.

O Brasil que gostaria de não ter povo, ou aquele para quem o povo deveria ter a gentileza de permanecer invisível, não deixou de existir com a vitória de Lula. Está apenas se recompondo do baque eleitoral.

Para alguns, nem isso. Basta entrar no perfil de Jair Bolsonaro no Twitter. Naquele espaço virtual, onde o ex-mandatário tem 10,8 milhões de seguidores, ele continua a se apresentar como “Capitão Paraquedista do Exército Brasileiro. Presidente da República Federativa do Brasil. Candidato à reeleição com o número 22”. É o negacionismo de fachada, no qual nem ele acredita, mas lhe é indispensável para ganhar tempo. Acovardado em Orlando na casa de um casal brasileiro fraudador do Auxílio Emergencial, Jair mantém no seu perfil virtual um endereço fictício: “Brasília, Brasil”. Em realidade, demonstra pouco apetite para retornar à pátria tão falsamente invocada ao longo de quatro anos. Aqui, mais cedo ou mais tarde, e com desfecho imprevisível, ele tem encontro marcado com a Justiça. Não só ele, como sua prole. Por via das dúvidas, entre o primeiro e o segundo turnos, o primogênito, senador Flávio Bolsonaro, e seu irmão Eduardo, deputado federal, já encaminharam a papelada de requerimento da cidadania italiana.

Enquanto isso, a Brasília oficial vai virando uma colorida nova capital do poder nacional, com vestidos, batas, cocares, terninhos e pantalonas convivendo entre ternos e gravatas. Se o núcleo político do governo anterior abrigava 38% de militares (sendo um da ativa), entre os 37 integrantes do primeiro escalão de Lula os militares representam apenas 2%. Por si só, o refluxo para algum porão brasiliense do general da reserva Augusto Heleno já torna o Palácio do Planalto mais arejado. Os novos ocupantes da casa nem sequer pretenderam confiar no apego à democracia do Gabinete de Segurança Institucional chefiado por ele. Dispensaram seus serviços antes mesmo de serem empossados.

Na manhã de sexta-feira, sentado na cabeceira de uma mesa cujo tamanho Vladimir Putin apreciaria, Lula reuniu toda a banda de seu primeiro escalão e as lideranças do seu governo no Congresso.

— Este será o mandato de minha vida — voltou a dizer, refraseando o que já dissera durante a campanha.

Veterano no cargo, desta vez está determinado a errar o mínimo possível. Como primeiro incêndio a apagar está a nomeação, por indicação do União Brasil, de Daniela Carneiro para a pasta do Turismo.

Sob qualquer ângulo que se olhe, ela introduz na cúpula do poder federal, direta ou indiretamente, o veneno miliciano da Baixada Fluminense. O risco é alto. Qualquer decisão será difícil de tomar logo nos primeiros dias de mandato. É Lula 3, o começo. Bom dia, democracia.

Analfabetos, vocês existem e são valiosos

Os discursos de posse dos novos ministros mostraram uma mudança nunca antes vista na politica nacional. Em todas áreas, mostram que viramos uma página. Saímos do obscurantismo para o respeito à ciência, da insensibilidade social para o comprimisso com os pobres, do descuido com o meio ambiente para a defesa da natureza, dos sonhos autoritários à participação democrática, da anti-cultura ao prestígio dos artistas, do desprezo à educação ao educacionismo explícito, do isolamento internacional à presença no mundo.

Cada um e cada uma dos ministros e ministras, sem exceção demonstraram uma visão de mundo diferente do atraso que prevaleceu nos últimos quatro anos. Com o Ministro Silvio Almeida ficou claro que os direitos humanos voltaram a ser preocupação nacional: saímos do esquecimento para a valorização de cada grupo “minoritário”.


No seu discurso de posse, o ministro citou cada grupo social que existe e precisa ser atendido com os respectivos direitos humanos que lhes são privados.

Talvez sem perceber, ao citar cada um deles, esqueceu o grupo que, de tão excluido, nem é considerado privado de direito humano. Brasil esquece que os mais de milhões de seus adultos analfabetos são privados do direito humano fundamental de saber ler seu idioma. Falamos “tortura nunca mais”, como se cada um destes dez milhões não fosse torturado cada minuto em que está acordado: não é capaz de ler o nome do filho, escrever uma carta à mãe, saber qual remédio está tomando ou dando a uma parente, nem mesmo se a bandeira em frente é do seu país. O analfabetismo não é visto como um chicote açoitando permanentemente dentro do cérebro de quem não pode se orientar porque não sabe ler. O analfabeto é um escravo que desde 1988 foi solto, mas até hoje não foi liberto, tem o direito de andar, mas não de se orientar no caminho.

Esta é uma das causas da permanência do analfabetismo, 130 anos depois da proclamação da república: além do abandono da educação das crianças para manter cavada a “última trincheira da escravidão”, o analfabetismo de adultos não é tratado como uma questão de direitos humanos. Considera-se fazer leis necessárias para cuidar das mulheres, dos negros, dos povos originários, dos LGBTQIA+, dos presos. mas não dos analfabetos. O ministro Silvio Almeida tem todas qualidades para tratar o analfabetismo como negação de direito humano fundamental, porque os analfabetos existem e são valiosos.

O Brasil precisa entender que tratar o assunto do analfabetismo como questão apenas de educação, é como considerar a tortura como questão apenas da saúde do torturado. É preciso cuidar dos ferimentos das vítimas da tortura, mas também termos leis que eliminem tortura no futuro. Da mesma forma, é preciso ensinar a ler cada um dos analfabetos adultos, como se fossem vítimas da tortura de viver sem saber ler, e também garantir que todas crianças aprendam a ler na idade certa, porque este é um direito humano fundamental.

sábado, 7 de janeiro de 2023

Pensamento do Dia

 


É Flórida

E olha que meu nome é Ponce de Leon. Miguel Ponce de Leon de Paiva, descendente direto do pirata espanhol Juan Ponce de Leon , descobridor da Flórida e da Fonte da Juventude na cidade de St. Augustine. Juan morreu ao voltar à Cuba, que também descobriu, na certeza de que ia ser aceito pelos indígenas. Levou uma flechada entre os olhos e isso aproxima a história dele à nossa realidade. Nosso pirata Jair fugiu para a Flórida, mais precisamente para Orlando que na época de Ponce de Leon ainda não existia e também tinha certeza que o povo daqui ia mantê-lo no poder. Não deu certo apesar de toda a roubalheira que ele impôs.


Sua ida para a Flórida reforça a tese que aquele estado americano assumiu a fama que o Brasil tinha há alguns anos de ser o refúgio dos bandidos no mundo porque aqui ninguém ia preso. Se ainda estivéssemos no governo Bolsonaro, talvez isso continuasse. Mas agora foi ele quem teve que fugir. A Flórida, uma bela região caribenha é já há algum tempo o porto seguro dos ricos, aposentados e desalmados do mundo. Os cubanos fugidos de Sierra Maestra foram para a Flórida que fica logo ali a oeste de Cuba. Foram e estabeleceram muito desta característica de terra del leche e miel.

Por outro lado, a Flórida de antigamente também abrigou na cidade de Key West a casa de Ernest Hemingway que costumava pescar por aqueles mares. O escritor fez da pequena cidade ao sul da península um ponto de inteligência e criatividade na região.

Quase só se fala espanhol na Flórida e agora, se fala português em qualquer esquina iluminada pelo sol. Foi na Flórida também que Walt Disney decidiu criar sua segunda terra dos sonhos infantis ao fundar o Walt Disney World, justamente em Orlando onde o Jair está morando emprestado na casa do lutador de MMA José Aldo. Será que eles ficam treinando por lá nas horas vagas?

Mas enfim, segundos fora, a Flórida é mais do que tudo o paraíso dos velhos republicanos aposentados. Foi lá que Bush organizou aquela fraude famosa que o levou ao poder e derrubou o candidato democrata Al Gore que vinha na frente. Lembra muito a contestação de Bolsonaro às urnas eletrônicas e depois aos resultados, lá na Flórida Bush conseguiu. Tanto fez e com o apoio do congresso da época, recontou os votos e levou. A Flórida é isso. Lá, tudo que você planta dá, principalmente notícias falsas, falcatruas econômicas, jogos de influência e conspirações internacionais.

Foi de lá que partiu a fatídica operação da Baia dos Porcos em Cuba em abril de 1961 que fracassou redondamente ao tentar derrubar Fidel Castro. Na Flórida existe uma espécie de governo paralelo de Cuba que chegou ao extremo de organizar a chamada operação Peter Pan que em 1960. Uma série de fake news que ameaçavam os pais cubanos de perderem o pátrio poder sobre seus filhos foram espalhadas pela ilha com a ajuda da igreja católica. Isso causou uma fuga orquestrada de crianças para a Flórida e algumas delas nunca mais reviram seus parentes.

Hoje a Flórida faz jus à sua fama. É o paraíso do condomínios milionários, dos exilados econômicos do mundo todo, dos russos endinheirados e suas mulheres carregadas de joias, dos imensos apartamentos , muitos deles ocupados por famílias brasileiras, terra do Silvio Santos, do José Aldo e tantos outros patriotas que não se sentem representados pelo país que temos. É preciso olhar a Flórida como um estado distante, mas muito próximo sobretudo porque de lá podem partir propósitos escusos. Existe muito dinheiro, muitos cubanos contrarrevolucionários, muitas palmeiras onde não cantam os sabiás e agora a turma do Jair. Eles se merecem.

Se os tubarões fossem homens

Se os tubarões fossem homens, eles seriam mais gentis com os peixes pequenos. Se os tubarões fossem homens, eles fariam construir resistentes caixas do mar, para os peixes pequenos com todos os tipos de alimentos dentro, tanto vegetais, quanto animais. Eles cuidariam para que as caixas tivessem água sempre renovada e adotariam todas as providências sanitárias cabíveis se por exemplo um peixinho ferisse a barbatana, imediatamente ele faria uma atadura a fim de que não morressem antes do tempo. Para que os peixinhos não ficassem tristonhos, eles dariam cá e lá uma festa aquática, pois os peixes alegres tem gosto melhor que os tristonhos.

Naturalmente também haveria escolas nas grandes caixas, nessas aulas os peixinhos aprenderiam como nadar para a goela dos tubarões. Eles aprenderiam, por exemplo a usar a geografia, a fim de encontrar os grandes tubarões, deitados preguiçosamente por aí. Aula principal seria naturalmente a formação moral dos peixinhos. Eles seriam ensinados de que o ato mais grandioso e mais belo é o sacrifício alegre de um peixinho, e que todos eles deveriam acreditar nos tubarões, sobretudo quando esses dizem que velam pelo belo futuro dos peixinhos. Se encucaria nos peixinhos que esse futuro só estaria garantido se aprendessem a obediência. Antes de tudo os peixinhos deveriam guardar-se antes de qualquer inclinação baixa, materialista, egoísta e marxista. E denunciaria imediatamente os tubarões se qualquer deles manifestasse essas inclinações.

Se os tubarões fossem homens, eles naturalmente fariam guerra entre si a fim de conquistar caixas de peixes e peixinhos estrangeiros. As guerras seriam conduzidas pelos seus próprios peixinhos. Eles ensinariam os peixinhos que, entre os peixinhos e outros tubarões existem gigantescas diferenças. Eles anunciariam que os peixinhos são reconhecidamente mudos e calam nas mais diferentes línguas, sendo assim impossível que entendam um ao outro. Cada peixinho que na guerra matasse alguns peixinhos inimigos da outra língua silenciosos, seria condecorado com uma pequena ordem das algas e receberia o título de herói.

Se os tubarões fossem homens, haveria entre eles naturalmente também uma arte, haveria belos quadros, nos quais os dentes dos tubarões seriam pintados em vistosas cores e suas goelas seriam representadas como inocentes parques de recreio, nas quais se poderia brincar magnificamente. Os teatros do fundo do mar mostrariam como os valorosos peixinhos nadam entusiasmados para as goelas dos tubarões. A música seria tão bela, tão bela, que os peixinhos sob seus acordes e a orquestra na frente, entrariam em massa para as goelas dos tubarões sonhadores e possuídos pelos mais agradáveis pensamentos. Também haveria uma religião ali.

Se os tubarões fossem homens, eles ensinariam essa religião. E só na barriga dos tubarões é que começaria verdadeiramente a vida. Ademais, se os tubarões fossem homens, também acabaria a igualdade que hoje existe entre os peixinhos, alguns deles obteriam cargos e seriam postos acima dos outros. Os que fossem um pouquinho maiores poderiam inclusive comer os menores, isso só seria agradável aos tubarões, pois eles mesmos obteriam assim mais constantemente maiores bocados para devorar. E os peixinhos maiores que deteriam os cargos valeriam pela ordem entre os peixinhos para que estes chegassem a ser, professores, oficiais, engenheiros da construção de caixas e assim por diante. Curto e grosso, só então haveria civilização no mar, se os tubarões fossem homens.
Bertolt Brecht

Lula salvou o Brasil

Lula nos salvou do pior pesadelo, dando vida nova à democracia terrivelmente ameaçada por Jair Bolsonaro. O Brasil deve lhe agradecer por não retroceder aos tempos das trevas.

Lula quer trazer de volta para o orçamento da União os pobres e os miseráveis, só lembrados nos últimos quatro anos durante os poucos meses que antecederam a eleição presidencial. O Brasil deve lhe agradecer por prometer três refeições por dia a mais de 30 milhões de brasileiros que passam fome.

Lula indicou mais mulheres para o Ministério do que Dilma Rousseff, incluiu mulheres, negros, indígenas, pessoas com deficiência e a comunidade LGBTQIA+ na pauta da política nacional. O Brasil deve lhe agradecer por estancar a agenda retrógrada de seu antecessor e restabelecer a voz de grupos que estavam excluídos do debate desde 2018.

Lula devolveu aos direitos humanos a prioridade que o tema necessita num país tão desigual e violento como o nosso. O Brasil deve lhe agradecer por nomear o incrível advogado e filósofo Sílvio Almeida para tocar uma pauta que antes cabia à inacreditável advogada e pastora Damares Alves.

Lula nomeou Nísia Trindade para o Ministério da Saúde. O Brasil deve lhe agradecer por entregar a pasta mais sensível de seu governo à presidente da Fiocruz, entidade que fabrica vacinas, objeto de desprezo do general Pazuello e de Marcelo Queiroga, últimos dois ocupantes do cargo.

Lula tomou medidas contra fake news. O Brasil deve lhe agradecer por ter vencido a eleição e interrompido um projeto de viés autoritário alavancado por mentiras espalhadas nas redes sociais pelo gabinete do ódio instalado no Palácio do Planalto.

Lula não nomeou generais, fora um veterano segurança de seu primeiro mandato para uma pasta técnica. O Brasil deve lhe agradecer por sepultar passado de triste memória.

Lula recriou a Cultura, tirou pastores da Educação e revalorizou a ciência. O Brasil deve lhe agradecer por restabelecer luz e inteligência na Esplanada dos Ministérios.

Lula assinou decretos para desarmar os brasileiros. O Brasil deve lhe agradecer por salvar vidas e impedir o fluxo de armas para o tráfico e a milícia.

Lula quer salvar a Amazônia, nomeou Marina Silva para o Ministério do Meio Ambiente, revogou decretos que abriam florestas e reservas para madeireiros e garimpeiros. O Brasil e o mundo devem lhe agradecer por trabalhar a favor da preservação da vida no planeta.


De outro lado…

Lula acertou mais do que errou nos primeiros cinco dias de governo, mas o que vira notícia são os erros. Um dos mais visíveis, e para muitos petistas o mais irritante deles, foi a nomeação de Daniela do Waguinho para o Ministério. Bastaram três dias para repórteres descobrirem que a nova ministra teve na campanha o apoio de milicianos cariocas. Ter amigo miliciano era coisa dos graúdos do governo anterior.

Lula não combinou com seus ministros o que era permitido dizer e o que não deveria ser expressado. Achou que todos estavam sintonizados. Enganou-se e teve que mandar o ministro da Casa Civil desmentir o ministro da Previdência, que anunciou uma contrarreforma previdenciária. Teve que fazer o mesmo, por motivos idênticos, com o ministro do Trabalho.

Lula foi obrigado a desautorizar Janja que cogitou barrar a imprensa no jantar da posse no Itamaraty. A primeira dama achou que os jornalistas poderiam constranger convidados, aparentemente ignorando que repórter só constrange quem tem contas a pagar na Justiça. Na posse de Bolsonaro, a imprensa foi varrida de todas as cerimônias. Repetir mesmo que parcialmente medida do antecessor não daria mesmo em boa coisa.

Lula sabe que capital de boa vontade não dura muito. O governo precisa não apenas apresentar resultados em prazo razoável como também mostrar que está encaminhando soluções. Apontar para o lado certo ajuda muito. Não falar bobagem também ajuda. Não tomar iniciativas quem lembrem práticas autoritárias do antecessor ajuda mais ainda.

Lula e somente Lula poderia resgatar o Brasil antes que o país despencasse no precipício aberto por Jair Bolsonaro. Qualquer outro candidato muito provavelmente perderia a eleição para a campanha do ex-presidente, turbinada com bilhões de reais dos cofres públicos e milhões de notícias falsas que invadiram todas as casas brasileiras.

Lula salvou o Brasil, que deve lhe agradecer, mas que também saberá lhe cobrar. Até porque, “um governo não precisa de puxa-sacos nem de tapinhas nas costas”.

O desastre de antecipar 2026

Lula ainda não completou uma semana de mandato, mas as bolsas de apostas para a sucessão presidencial de 2026 estão a todo vapor.

O erro é comum à imprensa e aos integrantes do próprio governo, e, além de ser o caminho certo para fofocas e conchavos que podem inviabilizar a largada da gestão, invariavelmente produzirá análises equivocadas.

Quem escreve coleciona uma série desses equívocos, frutos da tentação de passar a esquadrinhar a eleição seguinte tão logo é anunciado o resultado da última.


Depois de eleger João Doria prefeito de São Paulo em 2016 e na sequência governador do estado, Geraldo Alckmin foi apontado por todos, inclusive por mim, como nome forte para 2018. Teve menos de 5% dos votos válidos.

O próprio Doria, eleito duas vezes em dois anos, responsável por viabilizar a primeira vacina anti-Covid em 2021, era nome dado como certo na cédula de 2022, mas chegou avariado à campanha e bateu em retirada.

Voltando ainda mais no tempo e evocando o passado petista, em 2003, quando Lula subiu a rampa do Planalto, imediatamente se deflagrou uma disputa pelo posto de seu sucessor, entre José Dirceu, então instalado na Casa Civil, e Antonio Palocci, responsável pela Fazenda. Mudança de script: os dois se inviabilizaram por escândalos distintos e não chegaram vivos a 2010; sobrou para Dilma Rousseff, que no bolão dos cotados de sete anos antes não teria sequer um voto.

Um dos primeiros a darem corda para esse tipo de especulação estéril na nova equipe foi o titular da Casa Civil de Lula 3, Rui Costa, em entrevista ao “Roda viva” nesta semana. Depois de orgulhosamente desviar de todas as tentativas de jornalistas de colocá-lo como opositor de colegas de ministério ou candidato a receber a faixa de Lula, ele achou por bem dizer que nada impede que seja o próprio presidente o cabeça de chapa em 2026, a despeito de tudo que ele próprio tem garantido desde que se lançou candidato. Se a ideia era acalmar a disputa entre os ministros, o resultado foi o oposto: catapultar o presidente de volta ao palanque, com Jair Bolsonaro, que nunca desceu, do outro lado.

Lula tem vários defeitos, mas não custa lembrar que, em 2014, ele resistiu aos insistentes apelos do “volta, Lula”. Antes ainda, em 2010, desviou da casca de banana dos que propugnavam que ele tentasse um terceiro mandato. Em suma: nem tentou ser um autocrata com ares de democrata, nem puxou o tapete de Dilma Rousseff, sua criatura, mesmo quando petistas queriam vê-la pelas costas.

Tentar adivinhar em janeiro de 2023 quem será competitivo em 2026 é burrice política e falta de acuidade jornalística. Instados a opinar demais — além de nos espaços de trabalho, também nas redes sociais —, nós, jornalistas, não podemos repetir essa esparrela depois de termos apostado que Jair Bolsonaro encontraria um teto e ficaria pelo caminho em 2018. Sabemos qual foi o desfecho.

É importante escrutinar o novíssimo governo com as lentes de hoje (e do que ele resgata de ontem), sob pena de turvar a análise com a tentativa de adivinhar o grid eleitoral de 2026.

Bolsonaro estará elegível? Se estiver e for competitivo como hoje, haverá algum candidato que não seja Lula capaz de enfrentá-lo com alguma chance? Todas essas e mais muitas são questões de longo prazo a que só o dia a dia do governo que entra poderá responder.

Se repetir escândalos e desastre econômico, Lula não só se inviabilizará, como queimará qualquer um dos aliados de hoje listados como candidatos daqui a três anos e alguns meses. Cabe a ele, portanto, construir o caminho da própria sucessão. E a nós e a seus assessores, o bom senso de não enveredar pela predição supersticiosa no lugar da análise de dados, fatos e evidências.

sexta-feira, 6 de janeiro de 2023

Brasil de mercadinho

 


O presidente fujão

Bolsonaro deixou o país devido à fracassada tentativa de quebra da ordem institucional e o receio sobre sua situação jurídica ao passar do fórum privilegiado do STF para a 1ª instância do judiciário.

Roberto Damatta em O que faz o brasil, Brasil, diferencia entre o Brasil com b minúsculo dos nossos indicadores sociais, e o Brasil com B maiúsculo do nosso congraçamento cultural. Max Weber, em A Política como Vocação, diferencia entre dois tipos de políticos, o que trata a política como se fosse um negócio, e o que trata a política como representação social. Bolsonaro foi um presidente com p minúsculo, o da quebra da ordem institucional, e não o Presidente com P maiúsculo, da representatividade pelo bem social.


A caneta de Lula usada na posse difere da caneta de Bolsonaro para a ensejada Op GLO – Operação de Garantia da Lei e da Ordem. A caneta de Lula, presente de um eleitor do Piauí, representa o cidadão e o respeito pela democracia. A caneta de Bolsonaro, no uso da Op GLO, em interpretação equivocada por sua parte, representaria um instrumento de exceção para a quebra da ordem institucional.

Foi de fundamental importância a atuação do STF e do TSE na vigilância e manutenção da lei, expresso aqui na pessoa do Ministro Alexandre de Moraes.

Bolsonaro atentou continuamente contra a ordem institucional. Os 300 do Brasil, ataques ao STF, a tentativa de bloqueio do Planalto pelos caminhoneiros no 7 de setembro de 2021, o episódio da prisão do Deputado Daniel Silveira, as investigações do STF sobre fake news, o 7 de setembro de 2022 no Rio de Janeiro, o período pós-eleitoral com os caminhoneiros e patriotas à frente dos quartéis, o silêncio na expectativa do que não ocorreu. Como nada deu certo, Bolsonaro saiu do país.

O legado de Bolsonaro é danoso. De 2018 a 2021, o PIB caiu de US$ 1,9 trilhões para US$ 1,6. No COVID, 693 mil mortes, 10,5% dos óbitos mundiais para 2,7% de sua população. Foram prejudicadas a saúde, a educação, a cultura e o meio ambiente. As relações internacionais se deterioraram. O Brasil foi reincluído no Mapa Mundial da Fome da ONU.

O Bolsonarismo radical é mais diminuto do que se possa imaginar. Nas pesquisas Sensus, somente 2% são bolsonaristas radicais, contra a democracia e dispostos à ação política. Mas Bolsonaro se ausentou perante seus seguidores, não cumprindo seu papel de líder. Como diz Simmel, na liderança existe um processo recíproco de subordinação e superordenação, onde o liderado busca por um líder para se eximir da responsabilidade da ação social. Bolsonaro faltou a seus seguidores.

Bolsonaro não tem futuro na política Presidencial. O gabinete criado pelo PL para Bolsonaro parece mais para “Inglês ver”. Parece mais parte de acordos que possam ter ocorrido entre as partes políticas para melhor amortecer a inevitável saída de Bolsonaro. Bolsonaro foi um ponto fora da curva da história política brasileira. Pregou o inexistente.

Nada é impossível de mudar

Desconfiai do mais trivial, na aparência singelo.

E examinai, sobretudo, o que parece habitual.

Suplicamos expressamente: não aceiteis o que é de hábito como coisa natural, pois em tempo de desordem sangrenta, de confusão organizada, de arbitrariedade consciente, de humanidade desumanizada, nada deve parecer natural nada deve parecer impossível de mudar.

Bertolt Brecht

Ufa! Ou... o valor dos símbolos

Eu sei: já é quinta-feira e a posse foi no domingo, quase uma vida atrás. Mas vou falar da posse mesmo assim, porque há muito tempo eu não via uma cerimônia cívica tão bonita e tão carregada de símbolos positivos. Nós estávamos muito precisados disso, de beleza e de uma simbologia representativa do que temos de bom, do lado melhor da nossa natureza.

Foi exaustivo passar quatro anos sob peso de rancor e ressentimento, exprimidos em mãos fazendo arminhas, em motociatas intermináveis e naquele profundo desprezo a qualquer forma de gentileza, de educação e de diversidade.


Na vida pública tudo é símbolo, e foi uma alegria imensa rever o Brasil simbólico de que tanto gostamos subindo a rampa numa celebração de cores; foi um alívio ver seres verdadeiramente humanos em desfile, na companhia triunfal de Resistência, a Primeira Cã.

O ar está mais leve, respiramos melhor.
______

Por falar em símbolos — tenho duas lembranças marcantes da posse de 2019: a presença imprópria do 02 sentado no capô do Rolls-Royce e a presença suave da primeira dama fazendo um discurso em libras. Um símbolo de psicopatia contrapondo-se a um símbolo de afabilidade, fato e fake na mesma medida.

Que pesadelo.

E que diferença para o Rolls-Royce de 2023, com dois antigos rivais lado a lado, sorridentes, unidos num ideal comum.
______

A ausência do cramulhão permitiu o melhor da festa. Janja encontrou a receita do verdadeiro significado da subida da rampa, aquela que, uma vez vista, parece óbvia. É claro que tem que ser assim, um grupo, a sociedade representada em sua ampla pluralidade.

Haverá tantas combinações possíveis quantas cabeças se dedicarem a pensar no assunto, mas é isso, um conjunto de pessoas, e não aqueles casais solitários, raramente à vontade, em que ela poucas vezes foi mais do que uma sombra.
______

Não tenho dúvidas de que vamos passar muita raiva com Lula e vamos nos desesperar com incontáveis problemas do novo governo; para já, é duro ter que aceitar uma ministra envolvida com milicianos, completamente estranha à pasta e que, ainda por cima, se nomeia “Daniela do Waguinho” em pleno ano de 2023.

(Ou Turismo é um assunto importante e como tal teria que ser tratado, ou não tem importância nenhuma — e, nesse caso, nem precisaria de ministério. Do jeito que ficou é uma ofensa a quem leva a área a sério.)

Ainda assim, daqui para a frente pisaremos no terreno da Democracia, e não na zona minada do golpismo latente, na região patológica de uma perversidade indefinível.

A profunda felicidade que sentimos com a posse não foi necessariamente por Lula, mas pelo Livramento.
______

Quem não acompanha os movimentos de proteção animal talvez não faça ideia da importância da presença de Resistência na posse. Resistência, a Primeira Cã, apareceu no acampamento em frente à Polícia Federal de Curitiba, e passou a dar plantão com a militância. Quando Lula e Janja se casaram, a levaram consigo. Vários recados importantes subiram a rampa nas suas quatro patinhas, sendo o principal deles o de que os animais fazem parte indissociável das nossas vidas e merecem todo o respeito.

As redes sociais festejaram.

— Ela é o segundo animal a subir a rampa!

— É, mas ela está com todas as vacinas em dia.

Mourão sentiu o impacto das primeiras medidas de Lula

Lula tem, acertadamente, revogado medidas de última hora do governo Jair Bolsonaro e outras que fazem parte de uma visão ideológica equivocada do ex-presidente da República, como a distribuição descontrolada de armas. Para o senador eleito Hamilton Mourão, contudo, uma eleição como a do ano passado – voto a voto – dá ao bolsonarismo algum tipo de salvo conduto eterno.

Disse o general da reserva à Folha: “[Lula] chegou com espírito de revanche e sem entender que venceu uma eleição no photochart, portanto sem um apoio francamente majoritário”.

Depois de ser a linha auxiliar de uma gestão que colocou o país no retrocesso, no negacionismo e no obscurantismo – ou seja, nas trevas – Mourão quer que o presidente eleito mantenha as bizarrices que, em parte, incomodavam até ele mesmo.

Como se sabe, Mourão virou pária para a família do ex-presidente. E muitas vezes por ter uma postura menos extremista (o senador também é afeito ao extremismo) que a do seu companheiro de chapa de 2018. Não à toa, foi preterido da chapa de 2022.

Outro dia, o vereador Carlos Bolsonaro chamou o senador eleito de “bosta”. E sabem o que Mourão fez para merecer isso? Com razão, afirmou que o silêncio de Bolsonaro após o resultado das urnas estava criando o caos no país.

Aliás, o caos foi criado em vários momentos do mandato anterior. Caos institucional, caos na Saúde, caos no meio ambiente, caos na Cultura, caos nas Forças Armadas, caos na Polícia Federal, caos nos direitos humanos, caos nas Relações Internacionais.

Mas, segundo o senador eleito, o que está mesmo na hora, após dois dias de governo, é de o PT “compreender o país que precisam governar, despindo seus preconceitos políticos, econômicos e ideológicos”.

Mourão bem que poderia ter dito isso nos últimos quatro anos.

Assim se passaram quatro anos

Há dias, numa roda de amigos que falavam dos 21 anos da ditadura (1964-1985) e de como os militares tinham vergonha de sair à rua fardados, o filho adolescente de um de nós perguntou: "Se eles eram tão impopulares, por que vocês deixaram que ficassem tanto tempo no poder?".

Boa pergunta e difícil de responder. Alguém explicou que os militares não estavam sozinhos, que contavam com civis dispostos a alterar e corromper as instituições para lhes dar respaldo jurídico. Que, em certo momento, rapazes e moças, com coragem e ingenuidade suicidas, pegaram em armas para tentar derrubá-los, mas foram esmagados à custa de prisão, tortura e mortes; e que, em outro, fomos às ruas aos milhões exigindo eleições diretas — em vão. Derrotados, conformamo-nos em esperar que os milicos se cansassem e nos devolvessem o país.


No futuro, outro adolescente perguntará por que aturamos viver sob Jair Bolsonaro durante quatro anos se, já no dia de sua posse, em 2019, ele declarou que iria destruir tudo para depois "reconstruir". Significava fazer do Brasil ruínas e imperar sobre elas no primeiro mandato e, no segundo, consolidar uma nova ordem legal de modo a se eternizar no poder. Para tanto, Bolsonaro passou quatro anos nos ameaçando com o Exército (o "seu Exército"), o feitor armado a seu serviço, pronto a um golpe para nos enquadrar.

Um dia, de fato, a constatação de que o Exército se deixou usar por um desclassificado será uma resposta. Mas não a única. Deveremos olhar para nós mesmos e perguntar por que, quando a situação exigia, não saímos às ruas para protestar, promover comícios, denunciar as fake news, apoiar a imprensa independente, a CPI da Covid e os ministros do STF e do TSE, chamar os liras e aras pelos nomes que mereciam, enfim, mostrar que existíamos —como os bolsonaristas de então e até hoje.

Não fizemos isso, e assim se passaram quatro anos.

quarta-feira, 4 de janeiro de 2023

Pensamento do Dia

 


Feliz Nova Década, Brasil

Neste momento, em que iniciamos um novo tempo, é esperançoso ouvir o novo presidente dizer que foi eleito para reduzir a desigualdade social; e vê-lo chorar no instante em que se refere aos que ficam nas esquinas pedindo ajuda para comer. Desejo que nesta década o país saia do mapa da fome para não voltar e enfrente o problema estrutural da desnutrição, ao lado da abundância e do desperdício.Para isto, desejo o Brasil entender que a mãe da desigualdade social está na desigualdade educacional.

Que, ao longo da próxima década, implantemos um sistema público de educação para nossas crianças, todas elas; nenhum talento desperdiçado por falta de escola com a máxima e mesma qualidade para cada uma delas, independente da renda e do endereço da família.


A população educada aumentará a riqueza nacional e fará a distribuição entre todos, não apenas para uma minoria privilegiada.

Para tanto, recuperemos e inspiremos confiança graças à responsabilidade como trataremos nossos recursos humanos, naturais e fiscais. Não usando mais do que é sustentável nas florestas, rios e finanças; e formando o maior de nossos recursos: o talento de cada brasileiro. Ao cuidarmos de nossos recursos, adquirirmos e passarmos confiança, teremos o futuro que desejamos e é possível, se tivermos uma década que aproveite a força e o equilíbrio da democracia.

Desejo que o Brasil não relaxe na prática da democracia e no respeito às nossas instituições. Para tanto, que a democracia não se suicide pela tentação autoritária, nem pelos devaneios corporativos, nem pela depredação de nossos recursos: nossas florestas derrubadas, nossas finanças desrespeitadas, nossos cérebros incinerados por falta de escola na hora certa. Neste primeiro ano depois do bicentenário,

desejo que a democracia não seja sequestrada por militares sem consciência de que as armas devem ser submissas às urnas; nem por civis sem patriotismo que submetem o país aos interesses de classes.

Desejo que o talento beneficie cada um conforme o esforço e a vocação, mas sem beneficiar-se por vantagens contrárias aos interesses nacionais, nem às necessidades das camadas mais pobres. Que o Estado não restrinja o talento, nem o esforço de cada um, nem o empreendedorismo que aumenta o produto social do país; nem que esta riqueza se mantenha a concentrada, beneficiando a poucos, como tem sido nas 52 décadas passadas de nossa história; e que nossas organizações estatais sejam eficientes, sem privilégios, nem mordomias para seus dirigentes. Que o futuro se recuse a manter privilégios injustos das elites dirigentes, e respeite os direitos e tradições dos povos originários.

Desejo que o governo que se inicia cumpra as esperanças com que foi eleito. E o país vença ao reacionarismo, ao negacionismo, aos preconceitos, ao anti-humanismo disfarçado de patriotismo, ao corporativismo disfarçado de democracia e ao populismo disfarçado de popular.

Feliz Nova Década, Brasil, e que, depois desta, estes desejos fiquem desnecessários, por terem sido atendidos.

Compromisso com o erro derrotou Bolsonaro

A frase é do presidente Juscelino Kubistchek, o fundador de Brasília:

“Costumo voltar atrás, sim, não tenho compromisso com o erro!”.

Os versos são do compositor, cantor e músico Raul Seixas, um dos pioneiros do rock brasileiro:

“Eu prefiro ser essa Metamorfose Ambulante do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo…”.

Quando governou o Brasil pela primeira vez, Lula admitiu que era uma metamorfose ambulante. Seus adversários, então, o acusaram de querer dizer com isso que não tinha compromisso com as próprias ideias, ou que não tinha ideias. Erraram.

Lula quis apenas atualizar a frase de Juscelino. Por exemplo: ao dar-se conta do erro que foi o mensalão do PT, recuou e desculpou-se. Em seguida, demitiu José Dirceu de Oliveira, chefe da Casa Civil do governo, que mais tarde seria cassado pela Câmara.

No ano seguinte, demitiu Antonio Palocci, ministro da Fazenda, o queridinho da imprensa e do mercado financeiro, envolvido no escândalo da quebra do sigilo bancário de um caseiro que o vira numa mansão palco de tenebrosas transações e de farras épicas.

Em seguida, Lula reelegeu-se, elegeu Dilma e a reelegeu. Condenado, preso, solto, contrariou os que esperavam estar de volta um homem repleto de feridas, vingativo e com gosto de sangue na boca. Bolsonaro foi um dos que se enganaram:

“Se o cara voltar, José Dirceu irá para a Casa Civil, e Dilma para o Ministério da Defesa?”

Dirceu fez parte da turma sem convite para a posse do último domingo; para o Ministério da Defesa foi José Múcio Monteiro, líder do PTB de Roberto Jefferson à época do mensalão. Se Lula quiser e ela topar, Dilma será embaixadora do Brasil na Argentina.

Compromisso com o erro foi o que derrotou Bolsonaro do “morram os que tiverem de morrer”, das armas que foram parar nas mãos do crime organizado, do enfrentamento com a Justiça, dos atos hostis à democracia e do regime autoritário à vista.

Bolsonaro celebrou a chegada do Ano Novo comendo sanduíche de frango frito em uma rede de fast food do KFC, em Orlando, onde se refugiou com medo de ser preso. Lula, ontem, começou a despachar no Palácio do Planalto, previamente dedetizado.

Na galeria dos presidentes do palácio, a foto de Bolsonaro está em preto e branco. Colorida só a foto do presidente que ocupa o cargo.

Matemos os pobres!

Fazia quinze dias que eu estava exilado no meu quarto, cercado de livros em voga na época, isto é, há dezesseis ou dezessete anos atrás. Refiro-me aos livros que tratam da arte de tornar os povos felizes, sábios e ricos, em vinte e quatro horas. Eu digerira, ou melhor, engolira todas as elucubrações de todos esses empresários da felicidade pública, que aconselham os pobres a se tornarem escravos, e de todos os que procuram convencê-los de que são reis destronados. Não será de admirar que eu estivesse, então, num estado de espírito que se aproximava da vertigem ou da estupidez.

Confinado no fundo do meu intelecto, apenas sentia o gérmen obscuro de uma ideia superior a todas as fórmulas de boa mulher, cujo dicionário eu acabara de percorrer. Mas, era simplesmente a ideia de uma ideia, alguma coisa de infinitamente vago.

Afinal, saí com uma grande sede. O gosto apaixonado das más leituras engendra uma necessidade proporcional do ar livre e dos refrescos.


Ao entrar num bar, um mendigo estendeu-me o chapéu, lançando-me um desses olhares inesquecíveis que seriam capazes de derrubar os tronos, se o espírito pudesse abalar a matéria e se os olhos de um magnetizador lograssem amadurecer as uvas.

Ao mesmo tempo, ouvi uma voz cochichar ao meu ouvido, uma voz que reconheci bem: era a voz de um Anjo bom, ou de um bom Demônio, que me acompanha por toda parte. Se Sócrates tinha o seu bom Demônio, porque não teria eu o meu Anjo bom, e porque não teria a honra, como Sócrates, de obter o meu título de loucura, assinado pelo sutil Lelut e pelo circunspecto Baillarger? Entre o Demônio de Sócrates e o meu, existe uma diferença: é que o de Sócrates só se manifestava para evitar, impedir, avisar, ao passo que o meu se digna aconselhar, sugerir, persuadir. O pobre Sócrates tinha apenas um demônio proibidor, e o meu é um grande afirmador, um Demônio de ação, ou de combate.

Mas, aquela voz murmurava-me o seguinte: — Só é igual de outrem quem o prova, e só é digno de liberdade quem sabe conquistá-la.

Imediatamente, saltei sobre o mendigo. Com um único soco, tapei-lhe um olho, que ficou, num segundo, grande como uma bola. Parti uma unha quebrando-lhe os dentes e, como não me sentisse bastante forte, por ter nascido franzino e ser pouco exercitado no box, para liquidar rapidamente o velhote, peguei-o com uma das mãos pela gola do casaco e, com a outra, apertei-lhe a garganta e pus-me a sacudir vigorosamente a cabeça contra um muro. Devo confessar que tomara a preocupação de inspecionar os arredores com um rápido olhar e que verificara que, naquele arrabalde deserto, estaria muito tempo fora do alcance de algum agente de polícia.

Depois, com um pontapé nas costas, bastante violento para quebrar-lhe as omoplatas, joguei por terra o enfraquecido sexagenário e, empunhando um grosso galho de árvore que estava no chão, bati-lhe com a energia dos cozinheiros, quando querem amolecer um bife.

De repente, — oh milagre! Oh satisfação do filósofo que verifica a excelência de sua teoria! — vi aquela velha carcaça voltar-se, endireitar-se com uma energia que eu jamais teria suspeitado numa máquina tão singularmente desarranjada. E, com um olhar de ódio que me pareceu de bom augúrio, o decrépito vagabundo atirou-se sobre mim, contundiu-me os dois olhos, quebrou-me quatro dentes e, com o mesmo galho de árvore, me bateu até mais não poder. Com minha enérgica medicação, eu lhe dera o orgulho e a vida.

Esforcei-me, então, por lhe fazer compreender que considerava a discussão acabada e, levantando-me com a satisfação de um sofista do Pórtico, disse-lhe o seguinte: — Cavalheiro, o sr. é meu igual! Queira dar-me a honra de partilhar comigo a minha bolsa. E, se é realmente filantropo, lembre-se de que é preciso aplicar a todos os seus confrades, quando lhe pedirem uma esmola, a teoria que eu tive o pesar de pôr à prova em suas costas.

Ele jurou que tinha compreendido minha teoria e que obedeceria ao meu conselho.
Charles Baudelaire, "Pequenos poemas em prosa"