segunda-feira, 7 de março de 2022

Política e patologia no planeta em crise

O que extraio de verdadeiro dessa gritaria nas ruas é uma frase que sobrevive na velhice: “O povo, unido, jamais será vencido”. Um país pode ser invadido por forças militares superiores, o governo pode ser desfeito, mas, no médio e longo prazos, essa verdade essencial acabará se impondo.

Escrevo num momento de transição. Sei que o mundo mudou e seguirá mudando. Mas a simples eclosão da guerra não consegue ofuscar, para mim, o novo relatório dos cientistas da ONU mostrando como avançam o aquecimento global e o perigo de tragédias climáticas.

Do nível nacional ao internacional, o instinto de morte parece estar numa ofensiva sem precedentes. Não pretendo abordá-lo com mais uma análise da correlação de forças, nem das negativas consequências econômicas. Essa tarefa, já a cumpri durante a semana, analisando o papel estratégico dos fertilizantes no agronegócio e, consequentemente, na economia e na segurança alimentar do Brasil.

Ao encerrar meu trabalho noturno, tenho visto uma série chamada “Mind hunters”. É a história de agentes do FBI que, no fim do século passado, percebem que os crimes não se explicam mais pelos velhos motivos: ciúmes, dívidas a cobrar. Eles se interessam por criminosos em série, cujas razões só podem ser entendidas com um mergulho nas suas mentes doentias.

Lembrei-me disso ao ler um artigo em que o autor cita o escritor alemão Hans Magnus Enzensberger, para quem, no período pós-Guerra Fria, a violência já não se explicaria mais por razões ideológicas, ela se autonomizou das clássicas justificativas.

Gosto da capacidade de previsão de Enzensberger porque, há 30 anos, li um livro dele, “Política e delito”, em que, em vários ensaios, ele mostrava como boatos foram capazes de derrubar governos. Era uma antecipação do poder corrosivo das modernas fake news.

Pode parecer audacioso dizer que a violência se libertou da justificação ideológica. Putin afirma que atacou a Ucrânia para livrá-la do nazismo. Mas como aceitar que o país seja nazista se é presidido por um judeu?

O próprio Putin parece não acreditar no seu argumento. Tanto que acrescenta uma nova acusação: nazistas e consumidores de droga.

Existe algo de patológico nos argumentos de Putin e, infelizmente, não é tão raro assim. Logo após a revolução bolchevique, Lênin defendeu que a Ucrânia fosse um país, falasse sua própria língua e ensinasse sua História nas escolas.

Para ele, que já estava um pouco doente, a Ucrânia não era uma mentira. O problema é que foi sucedido por Stálin, precisamente o comissário das nacionalidades, que queria centralizar tudo na Rússia, a despeito de sua origem georgiana.

Essa recusa à diversidade não existe apenas no stalinismo que sobrevive na cabeça de Putin. Ela é também uma presença nos argumentos da extrema direita. Guardadas as proporções, quantos não afirmam que nossas populações indígenas deveriam abrir mão de suas terras, costumes e cultura, para desaparecer no todo nacional?

Steve Bannon, um dos teóricos que influenciam a família Bolsonaro, chegou a dizer que a Rússia era digna de apoio porque o Exército americano tolera transgêneros.

Circula nas redes, a partir de Bolsonaro, um manifesto contra o Ocidente, para ele dominado pelo comunismo. Em quem se apoiar contra o comunismo europeu? Na Rússia, na China e nos países árabes.

Assim como na década de 1960 o crime passou a ser visto de uma outra maneira, talvez agora a política também só será apreendida a partir da patologia. Não há dúvida de que intelectuais alemães de Frankfurt, psicólogos como Erich Fromm, fizeram um trabalho profundo no Pós-Guerra, a partir do estudo do nazismo.

Mas tudo isso poderia ser enriquecido e atualizado num planeta que se esforça para destruir a vida humana, seja pela poluição, seja pela guerra, seja por políticas locais de armamentos e gabinetes de ódio.

Com todo o respeito pela análise política pura, talvez fosse interessante considerar a hipótese de que muitos seres humanos no topo do poder simplesmente enlouqueceram.

Guerra semeia morte, destruição e miséria. Alguém discorda?

Envergonhada, a esquerda que admira a Rússia deixa a guerra de escolha de Putin de lado e culpa por ela o imperialismo americano. Esquece, porém, que a Rússia sempre foi imperialista.

Mais honestos são os extremistas de direita que dão razão à Rússia porque Bolsonaro e Putin compartilham as mesmas ideias; são dois fanáticos nacionalistas que ambicionam o poder solitário.

Não é sobre o PT, que até aqui não condenou a invasão da Ucrânia por Putin, nem antes quando ele invadiu a Geórgia e a Crimeia. Guerras só interessam aos radicais de qualquer cor.

A agência de refugiados das Nações Unidas atualizou a contagem de civis que fugiram da Ucrânia desde o início da guerra. Agora são impressionantes 1,5 milhão de pessoas, de uma população de 43 milhões.

Esta é a crise de refugiados que mais cresce na Europa desde a Segunda Guerra Mundial. Como quase todos eles são louros de olhos azuis, a Europa dará um jeito de acolhê-los. Já os ciganos…



Pergunte aos russos se são a favor da invasão? Leve em conta que na Rússia não há liberdade de imprensa; a mídia chama a invasão de “operação especial em defesa da Rússia”.

Quem insistir em chamar a invasão pelo próprio nome, ou de guerra contra a Ucrânia, ou referir-se às mortes como “massacre”, está sujeito a 15 anos de cadeia por crime de lesa pátria.

Mãe e dois filhos mortos na Ucrânia quando fugiam do bombardeio russo

Somente ontem, a polícia de Putin prendeu cerca de 4 mil pessoas em Moscou e em outras cidades por protestarem contra a guerra. (Êpa, perdão! Contra a “operação especial em defesa da Rússia”).

A primeira vítima da guerra é a verdade, a segunda, a língua. A verdade requer poucas palavras; a mentira, muitas. “Danos colaterais”, por exemplo, significa a morte de civis.

Quando não é possível ocultar a morte de inocentes, como os quatro de uma mesma família assassinados por soldados russos perto de Kiev, joga-se a culpa em nacionalistas ucranianos.

Semear a dúvida é uma poderosa arma de guerra. Com as redes sociais, a verdade passou a ser uma questão de escolha. Fatos objetivos influenciam menos que apelos às crenças pessoais.

Donald Trump deu uma sugestão incomum para combater o avanço russo na Ucrânia: trocar bandeiras de aviões americanos, adesivar com a bandeira da China e atacar os russos.

Não foi piada (o cômico é o presidente da Ucrânia). Trump não estava de porre, falava em um evento do Partido Republicano. Metade dos americanos costuma acreditar no que ele diz.

Aqui, 30% dos eleitores brasileiros ainda acreditam no que diz Bolsonaro; ele, ontem, taxou de “asquerosas” as confissões sexistas do deputado Mamãe Falei sobre as mulheres ucranianas.

Alguém se recorda de Bolsonaro condenar declarações machistas? Logo ele que disse a uma deputada que ela não merecia ser estuprada porque é feia? Ano eleitoral é uma beleza…

Os mais instruídos devem recordar que o papa Pio XII, nos anos 1930, saudou Mussolini, o fascista governante da Itália, como “o homem da Providência”, porque ele era contra o comunismo.

Mussolini aliou-se a Hitler e foi à guerra para dominar a Europa. Capturado pela resistência italiana, acabou fuzilado; seu corpo foi exposto de cabeça para baixo em uma praça, em Milão.

Peço sua compreensão por ser contra guerras, qualquer uma. Que bem me lembre, a última que se justificou foi quando grande parte do mundo se uniu para derrotar o nazismo.

A Pio XII e outros papas tão autocratas quanto ele, prefiro Francisco, que, no domingo, ao pregar para uma multidão na Praça de São Pedro, no Vaticano, bateu de frente com Putin e disse:

“Na Ucrânia, correm rios de sangue e lágrimas. Esta não é apenas uma operação militar, mas uma guerra que semeia morte, destruição e miséria”.

Pensamento do Dia

 


As ideologias jogam bombas

Neste espaço, dia 24 janeiro de 2021, publiquei artigo intitulado O pesadelo. Tema: livro Guerra Pela Eternidade (Ed. Unicamp, 2020). Destaquei a análise do autor Benjamim Teitelbaum sobre o Tradicionalismo, fonte de inspiração ideológica dos populismos de extrema-direita como ameaça real às democracias liberais do ocidente.

Persistente, o autor ouviu três ideólogos do Tradicionalismo: o americano Steve Bannon, o brasileiro Olavo de Carvalho e o russo Aleksandr Dugin a partir da obra do patriarca René Guénon (1886-1951) e Julius Evola (1898-1974).

Descontadas divergências pontuais, todos exerceram real influência sobre governantes de três grandes países: EUA, Trump; Brasil, Bolsonaro; Rússia, Putin, cada qual com estilos e estratégias distintas.

Bannon ajudou a eleger Trump; indicou secretários de Estado em áreas estratégicas. (O conflito com a filha e o genro do Presidente causou uma demissão humilhante). Fortaleceu a direita americana com o legado do trumpismo; teve decisiva participação no resultado do Brexit: segue dando conselhos a peso de ouro.


O autor aproximou-se do ideólogo de Bolsonaro, Olavo de Carvalho a quem definia como um Tradicionalista heterodoxo. Língua solta e agressiva gerou frequentes atritos. Indicou Velez Rodriguez e Ernesto Araújo, genuíno tradicionalista, em áreas estratégicas para uma frustrada revolução cultural.

Dugin é o intelectual de maior densidade e ativista/guerreiro presente na brutalidade do conflito entre a Ossétia do Sul e a Geórgia. Rebelde e ousado, se movia no espaços de poder, lembrando Gregori Rasputin. Não tinha relacionamento oficial com o governo Putin.

Expressava o ódio às democracias ocidentais, em especial aos EUA, com a frase: “Tudo que é antiliberal é bom”. No seu livro, Fundamentos da geopolítica, encoraja os russos “a introduzir a desordem na atividade interna americana”. O secularismo corrompido era o grande adversário espiritual da guerra pela eternidade.

O objetivo estratégico Tradicionalista é a destruição dos valores iluministas: estado-nação, secularismo, direitos humanos, ciência, feminismo, instituições, globalismo. A proposta se alicerça no tempo cíclico e na hierarquia: a Idade do ouro (sacerdotes), prata (guerreiros), bronze (mercadores), sombria (escravos). A motivação central: a espiritualidade. Eles veem caos na estrutura, ordem nas ruínas e o passado no futuro.

A regeneração do tempo como um fim em si mesma é violenta. Múltiplas causas estão por trás dos bombardeios. A ideologia é o gatilho. Em 2014, Dugin convocou, em entrevista, os ouvintes a “matar, matar e matar” os leais a Kiev. Sonha com a unipolaridade eurasiana.

O cleptocrata Putin, hoje, obedece a voz cruel que ordena os crimes de guerra.

Desabituamos do trabalho de verificar

Todos nós hoje nos desabituamos, ou antes nos desembaraçamos alegremente, do penoso trabalho de verificar. É com impressões fluídas que formamos as nossas maciças conclusões. Para julgar em Política o facto mais complexo, largamente nos contentamos com um boato, mal escutado a uma esquina, numa manhã de vento. Para apreciar em Literatura o livro mais profundo, atulhado de ideias novas, que o amor de extensos anos fortemente encadeou—apenas nos basta folhear aqui e além uma página, através do fumo escurecedor do charuto. Principalmente para condenar, a nossa ligeireza é fulminante. Com que soberana facilidade declaramos—"Este é uma besta! Aquele é um maroto!" Para proclamar—"É um génio!" ou "É um santo!" oferecemos uma resistência mais considerada. 

Mas ainda assim, quando uma boa digestão ou a macia luz dum céu de Maio nos inclinam à benevolência, também concedemos bizarramente, e só com lançar um olhar distraído sobre o eleito, a coroa ou a auréola, e aí empurramos para a popularidade um maganão enfeitado de louros ou nimbado de raios. Assim passamos o nosso bendito dia a estampar rótulos definitivos no dorso dos homens e das coisas. Não há ação individual ou coletiva, personalidade ou obra humana, sobre que não estejamos prontos a promulgar rotundamente uma opinião bojuda E a opinião tem sempre, e apenas, por base aquele pequenino lado do fato, do homem, da obra, que perpassou num relance ante os nossos olhos escorregadios e fortuitos. Por um gesto julgamos um carácter: por um carácter avaliamos um povo.
Eça de Queirós, "A Correspondência de Fradique Mendes"'

Um novo modo de ver as coisas

A invenção da imprensa, no século XV, mudou o mundo. Sobretudo porque o conhecimento passou a ficar ao alcance de todos, independente do nível cultural, social ou financeiro de cada um. A imprensa acabou sendo crucial para a multiplicação de tendências surgidas com o Renascimento e o fim político do domínio da Igreja sobre a humanidade civil. Curiosamente, o Papa Pio II, ao ser posto diante da invenção, ficou encantado com ela e a saudou como instrumento futuro de registro e cobrança das benesses da Igreja a seus fiéis.

Mas quem ficou ligado para sempre à invenção da imprensa, além de Johannes Gutemberg, seu criador técnico, foi Martinho Lutero que produziu o primeiro livro impresso, a Bíblia traduzida do latim chique para um alemão popular. Essa Bíblia de Lutero, com 641 páginas, seria inspiradora e guia da Reforma Protestante, um dos acontecimentos mais importantes do Renascimento que, por enquanto, talvez seja o momento mais radical na transformação da humanidade no que ela é hoje.

Esse pequeno conto acima, sobre a imprensa e o que ela provocou de mudança no mundo do conhecimento, serve também para ilustrar o que tem se passado nas relações humanas desde o nascimento da cultura digital. Nunca mais fomos os mesmos. E, agora, quando uma guerra pouco convencional explode na Europa, podemos avaliar o que se passa de um modo inédito entre os envolvidos.

Não se trata mais de só saber quem está ganhando a guerra e quem a vencerá, no final das contas. Não se trata mais de avaliar o número de batalhas vitoriosas, ou de simplesmente saber como julgá-las vencidas ou perdidas, para estabelecer um placar que nos permita reconhecer quem tem mais chances de ganhá-la no final do jogo no tempo convencional. É claro que o embate entre Rússia e Ucrânia pode ser avaliado ainda hoje e agora mesmo, mas na verdade só ousamos fazê-lo relativamente. As regras da guerra talvez sejam mais ou menos as mesmas. Mas aferir o resultado delas já é outra ciência. 

Assim como a invenção da imprensa foi parte de uma mudança radical do espírito humano, capaz de orientar seu século e o que veio depois dele em uma inesperada direção, vivemos hoje um momento semelhante de compreensão da realidade. O que acontece no campo de batalha entre Ucrânia e Rússia não pode ser julgado apenas pelo número de perdas de lado a lado. Não é mais o número de baixas que determina a vitória final, não são mais as baixas que servirão como critério de julgamento do resultado da partida.

A Rússia pode destruir fisicamente a Ucrânia, acabar com todos os móveis e imóveis militares ou não do inimigo, que ainda restará aos defensores do aparente derrotado o direito de se proclamar vencedor de uma outra ideia de ser na História, de estar no mundo em defesa de outro modo de vida, revelado por uma permanente e extensa difusão audiovisual que seus principais representantes aprenderam a produzir durante a própria guerra. E isso, além do valor do pensamento, graças ao que esses ucranianos aprenderam a fazer através dos meios de difusão audiovisual.

Parece que o “livro” mais antigo da humanidade é o “I Ching”, o Livro das Mutações, que com cerca de 3 mil anos de existência, se baseia na mudança contínua das forças cósmicas do yin e do yang, a sombra e a luz. Como não havia ainda a imprensa, o “I Ching” não teve edições multiplicadas, mas seu sentido e valor nunca foi totalmente dispensado. Até o que a imprensa acabou por nos proporcionar, foi esse o modo de pensar o mundo de todas as culturas intermediárias.

É mais ou menos o que pode acontecer com certas visões de mundo divulgadas pelo mundo da difusão audiovisual e da cultura digital. O registro visual da internet não vai desaparecer nunca mais. Ou, se preferirmos, o filme da internet.

Ocidente impotente perante campanha assassina de Putin

Se fosse possível transformar manifestações de solidariedade em tanques blindados, lança-mísseis ou aviões de combate, talvez a situação da Ucrânia fosse menos desesperadora. Como está, vemos um excesso de grandes palavras e uma carência de ajuda militar efetiva. E nossos políticos nos preparam para aceitar que as atuais imagens de horror do país invadido são apenas o começo.

Após seu telefonema mais recente com Vladimir Putin, a formulação do presidente francês, Emnanuel Macron, foi quase literalmente a mesma que a do secretário-geral da Otan, Jens Stoltenberg, na sexta-feira (04/03): "Vai ficar ainda pior."

Os militares partem do princípio que em breve o exército russo intensificará os bombardeios e os disparos contra a população civil. Pessimistas temem que Putin vá reduzir Kiev a destroços e cinzas, seguindo o modelo da destruição total de Grozny, em 1999, quando, sob comando do senhor de guerra, as forças armadas russas transformaram da capital tchetchena num deserto de ruínas.


Com esse pesadelo perante os olhos, o presidente ucraniano, Volodimir Zelenski, tem apelado repetidamente por uma zona de exclusão aérea sobre a Ucrânia. E a Otan repetidamente tem que responder: "Não podemos!" Isso significaria a confrontação militar direta com a Rússia, e eclodiria a Terceira Guerra Mundial.

Putin já nos lembrou de suas armas nucleares e insinuou que talvez chegue às últimas consequências para tornar realidade seu desvario de um reino pan-russo, com a anexação da Ucrânia. No entanto, a aparente irracionalidade do chefe do Kremlin, sua loucura real ou fingida, não passa de mais um recurso para nos deixar inseguros.

Alguns observadores acham até que a aliança ocidental deveria se comportar com cautela ainda maior, a fim de evitar o apocalipse nuclear. Putin poderia interpretar até mesmo o fornecimento de armas como uma ultrapassagem da "linha vermelha", dizem.

Em contrapartida, os Estados Unidos creem ser preciso deter o lider russo agora, para que ele não abra a "caixa de Pandora", com ainda mais guerra e instabilidade, como disse o secretário de Estado Antony Blinken. Do mesmo modo que muitos europeus, ele parte do princípio que Putin atacará ainda outros países europeus: Geórgia, Modávia e os Estados bálticos.

As nações ocidentais reagiram com as sanções econômicas mais duras e mais imediatas de sua história. Mas se quisermos deter a campanha de destruição de Putin, vai ser preciso apertar mais ainda os parafusos. Para o início da segunda semana de fevereiro, a União Europeia anunciou a suspensão de ainda mais bancos, do tráfego marítimo e de diversas importações.

Depois disso, como último recurso, só restará sustar as importações de petróleo, gás e carvão mineral russos, No entanto, a medida abalará tanto as economias nacionais quanto a paz social de nossos países. Mas em caso de dúvida, teremos que encarar isso, já que todas as outras opções são piores.

Pois, continuando a comprar petróleo e gás russos, estamos financiando a guerra de Putin. Mesmo que a primeira rodada de sanções já tenha paralisado o Banco Central da Rússia, Moscou embolsa centenas de milhões de dólares por dia em seus negócios conosco.

Só se fecharmos essa torneira, deixando Putin sem nenhuma fonte de divisas e sem acesso a suas reservas, talvez ele se sente à mesa de negociações. Entretanto nem mesmo tais sanções extremas servirão à Ucrânia no curto prazo.

Em todos os outros aspectos, a UE, com frequência tão conflituosa, supera todas as expectativas: sem burocracia, ela oferece proteção a todos os refugiados, e a gigantesca solidariedade humana é emocionante e afetuosa. Os europeus fornecem dinheiro, armas e prestam ajuda humanitária ao povo do país vizinho sob ataque.

Nos limites do possível, as cidadãs e cidadãos da Europa fazem tudo, também por perceber que essa guerra é um ataque contra todos nós, nossa forma de vida liberal, democrática. E porque a inimaginável valentia dos ucranianos sacode quem acredita que a partir do sofá da sala possa dar a sua contribuição pela segurança do nosso futuro.

Contudo, se a intenção de Putin for, de fato, arrasar à base de bombas a capital ucraniana, com suas cúpulas douradas, seu palácio do governo, o heroico presidente Volodimir Zelenski e seus mais de 3 milhões de cidadãos, no fim de contas só vamos mesmo poder assistir.

E essa sensação de nossa impotência, de sermos observadores de mãos atadas da campanha assassina de Putin... vai ser terrivelmente amargo.

domingo, 6 de março de 2022

Pensamento do Dia


 

Das crianças e a guerra


Estas imagens são tão chocantes que não seriam necessárias mais palavras para as legendar. Uma criança com medo de uma guerra que descobriu da maneira mais violenta: os bombardeios aéreos. Não sei como se apazigua o coração de uma criança nesta situação. Não sei como alguém pode provocar tal sofrimento. Não sei como existem ambições desmedidas que levam à destruição indiscriminada do ser humano. Aquelas bombas trazem a mais horrenda mensagem de um vil e mais horrendo ditador: bombardear para ocupar. Matar para reinar.

As crianças não a entendem. Apenas descobrem o medo. Um medo sufocante que não acaba. Um medo que nasce e vem de dentro . Um medo que nem os gritos ou o choro são capazes de estancar. Dilacera e esmurra o coração.

E a história repete-se . A sede de totalitarismo de que fala Arendt é inesgotável. Há sempre um déspota sequioso.

Pude constatar esta verdade. O sofrimento que estes actos abomináveis da guerra causam nas crianças.

Na década de cinquenta, quando os tanques e a força aérea militar russa metralharam a Hungria , muitas crianças húngaras foram evacuadas e acolhidas em alguns países . Famílias portuguesas também as receberam. Essas crianças traziam consigo a memória terrível da guerra. Guerra que se repete agora e é, de novo, o terror de outras crianças. Nas minhas memórias de infância , tenho , nitidamente presente, uma criança húngara que conheci na praia , onde a minha família , pais e cinco irmãos , passava as férias de Verão.

Eis um excerto de um apontamento que fiz, há alguns anos, num irrelevante registo memorialístico.

A parceira que mais nos impressionou foi uma refugiada húngara. Teria uns seis ou sete anos. Tinha sido acolhida por uma família amiga dos meus pais. Nos primeiros anos , falava mal o nosso idioma, passando com o decorrer do tempo a dominá-lo com brilhante segurança e correcta articulação.

Não recordo, com total certeza , o seu nome, mas creio ser Judit. Pois a Judit tinha uma estatura muito mais volumosa que a nossa. Quase nos dominava em tamanho e peso. Era , porém, uma menina doce e afável que participava em todas as brincadeiras que eram muitas. (...)

A Judit entrava em tudo, com elegância e gentileza. O que mais me confundia nesta menina era o pavor que a acometia, quando, muito raramente, nos sobrevoava um avião e se ouvia o ruído do motor. Atirava-se para o chão , tapava os ouvidos, gemia e agitava-se como estivesse a ser vítima de uma convulsão.

Atentos, os familiares adoptivos vinham , de imediato, com uma manta em que a enrolavam e levavam-na para o interior da barraca. À medida que fui crescendo, fui entendendo que tinha havido uma nefasta guerra que marcara profundamente aquela menina. Os aviões, que despejaram bombas sobre o seu país, vinham em som e ruído até ali, sempre que passava qualquer um.

Naquele tempo, não havia psicólogos e , por tal, não se atribuía apoio psicológico como hoje tão apraz fazer. As sequelas eram tratadas dentro de casa. Com carinho e muito afecto familiar. Creio que muitas delas ficaram para sempre e que a Judit, esteja onde estiver, ainda convive com elas.Que Deus não salve Putin.
 

Maria José Vieira de Sousa

O 'não' do Ocidente

Nunca na minha vida vi uma crise internacional onde a linha divisória entre o certo e o errado tenha sido tão nítida, enquanto a máquina de guerra russa desencadeia sua fúria sobre uma democracia legítima.

Já fizemos o suficiente pela Ucrânia? A resposta honesta é não. O ato de agressão de Vladimir Putin deve fracassar e ser visto como um fracasso. Não devemos permitir que ninguém no Kremlin escape impune
Boris Johnson, primeiro-ministro do Reino Unido

Os mesmos cães da Aclimação

Eles não escolhem mais hora, uivam de madrugada, uivam sob o sol matador desses dias. Esse concerto canino de vozes, que deixou Cecília Meireles insone e assombrada em sua primeira noite na Aclimação, esse mistério de cantores “meio sobrenaturais”, que ela ouvia sem ver, tentando alcançar a mensagem (pois alguma devia de haver que lhe valesse a noite em claro), é mistério que continua onde ainda existe o anfiteatro dos velhos quintais abertos para o céu, em casinhas com hera grimpando os muros.

Sim, os cães da Aclimação continuam a uivar por aqui, modulando um coro de azuis, os mesmos cães do passado, apenas agora em voz mais encovilada, trabalhada pelo século. Continuam também invisíveis, embora uivando à luz do dia. Começam à hora deles, sem aviso – outro mistério –, e, um puxando o choro, jamais os outros se omitem, cada um dá seu timbre, sua cor, sua alma, para essa vaga que se alteia sobre as casas e que nos leva.

Cecília foi levada por esse canto até eras e lugares remotos, num sonho de poeta próprio da insônia. Agora sonho eu, a bordo desse choro, e vou até os cães mudos de pânico, abrigados nos metrôs de uma Ucrânia bombardeada, depois até o silêncio de morte do velho Azorka, pobre companheiro estendido no chão, aos pés do velho dono, o focinho coberto pelas patas, Azorka intacto em sua solidão, cumprindo sua sina envolto em asco.

E assim, inesperadamente, tal como vem, esse coro de azuis também se vai. Ele se vai e nos traz de volta. As noites, e agora os dias, os recolhem, a esses azuis, e quem sabe alguns de nós também recolham qualquer coisa dessa obscura mensagem. É uma emergência, eles deixam saber enquanto choram. Depois, o silêncio é uma vaga maior e nós afundamos, desassombrados, ficamos surdos de novo, cegos de novo, de novo nos empanturramos de palavras.
Mariana Ianelli

O desmundo

A ordem emitida sugeria apenas um deslocamento forçado: todos os judeus da cidade de Kiev e vizinhanças deveriam se apresentar às 8 da manhã do 29 de setembro de 1941 na esquina de duas ruas específicas, munidos de documentos, dinheiro e pertences valiosos; além de roupas quentes e lençóis. Quem não obedecesse seria encontrado e fuzilado. O comando nazista que ocupara a cidade uma semana antes esperava atrair não mais de 5 mil vítimas, uma vez que 70% dos 225 mil judeus da cidade já haviam fugido. Restavam, portanto, entre 60 mil e 70 mil, e boa parte deles compareceu ao local.

A logística montada para ludibriá-los foi eficiente, tipo linha de montagem. Mal chegavam, entregavam primeiro os pertences, depois capotes e sapatos, em seguida as roupas do corpo. Até ficarem nus. Tudo muito rápido e atordoante. Quando, finalmente, se aproximavam do ponto em que se ouviam disparos de metralhadora, já era tarde para recuar. Um barranco de 150 metros de comprimento, 30 metros de largura e 15 de profundidade os aguardava. Obrigados a deitar em fila sobre os já executados, cada nova fileira recebia uma rajada de tiros no pescoço. Não é fácil fuzilar individualmente 33.771 mulheres, crianças e homens. Os SS de Hitler e seus colaboradores locais precisaram de 46 horas para completar o massacre de Babi Yar.

Babi Yar, Amy Shapiro

Enquanto a Ucrânia esteve sob domínio soviético, e mesmo após a independência, em 1991, inúmeras foram as tentativas de erguer um monumento oficial aos fuzilados. Mas só em outubro do ano passado o imponente memorial que faz jus à História foi inaugurado em Babi Yar. Na presença de três presidentes: da Alemanha, de Israel e o ucraniano Volodymyr Zelensky —o mesmo que o líder russo Vladimir Putin pretendeu esmagar feito pulga com a invasão desencadeada em 24 de fevereiro.

Nesta segunda semana de guerra, o memorial aos fuzilados em 1941 permanece milagrosamente de pé, apesar de o país estar em via de esmagamento físico pela Rússia. Também Zelensky continuava vivo à frente de sua já histórica resistência cívica. Onipresente, ora em bunkers, ora entre escombros da capital, ele angariou respeito mundial na marra e no improviso da necessidade. Calouro imprensado entre os interesses da Otan e do poderio militar da Rússia, optou pelo risco de resistir com seu povo. Em apenas uma semana de guerra, tornou-se estadista de uma terra arrasada, órfã de mães, avós e crianças em fugas dilacerantes, que deixam nas trincheiras da pátria seus maridos, pais e filhos entre 18 e 60 anos.

Tudo indica que “o pior ainda está por vir”, como disse o presidente da França, Emmanuel Macron, após seu enésimo telefonema com o homem entrincheirado no Kremlin. Das 15 usinas nucleares operacionais distribuídas em quatro regiões do país, a maior delas, Zaporijia, espalhou calafrios mundo afora ao sofrer um ataque e ocupação russos que resultaram num incêndio. Espera-se que pelo menos o medo do imaginado “inverno nuclear” resista como linha vermelha a não ser atravessada pelos dois principais atores por trás dessa guerra: os países da Otan e a Rússia de Putin. Seria este o “iremos até o fim”, anunciado pelo chanceler Sergey Lavrov? Com cinzas a preencher a atmosfera, o bloqueio do nosso sol e o consequente colapso de nossos ecossistemas e da produção alimentar? Nunca é bom sinal quando o chefe da diplomacia de uma superpotência fala em “terceira guerra mundial nuclear e devastadora”.

Mesmo o uso de bombas de fragmentação, não nucleares porém estraçalhantes, além de proibidas por uma convenção da ONU de 2008, é capaz de transformar as cidades ucranianas em cemitérios físicos e humanos. Apesar de a convenção ter sido assinada por mais de 111 países, foi solenemente desprezada por Estados Unidos, Rússia, Brasil e Arábia Saudita, entre outros, e faz parte do arsenal destinado a dobrar a resistência ucraniana. Um segundo tipo de bomba proibida, a de vácuo, capaz de sugar o ar e sufocar suas vítimas, também está a bordo do comboio bélico adentrando a Ucrânia pela fronteira norte. Ao longo de toda a primeira semana da guerra, o veterano Fred Pleitgen, um dos 75 profissionais da rede CNN americana (entre jornalistas, motoristas e intérpretes) atuando no front, conseguiu filmar a entrada desse material a partir do território russo.

Cabe aqui abrir um meritoso parágrafo para o peso duplo de uma cobertura jornalística de guerra em país sem censura. Para a Ucrânia, o influxo de repórteres e cinegrafistas sustentados por sólidas estruturas planetárias foi uma dádiva. Enquanto a população russa vem sendo servida com açucaradas cenas da “operação militar especial” (o termo “guerra” continua proibido), intercaladas por coreografadas reuniões de Putin com assessores, os combatentes ucranianos extraem coragem da ininterrupta cobertura do que estão vivenciando. Graças à imprensa, sabe-se hoje que crematórios móveis fazem parte do arsenal russo enviado à Ucrânia para que seus mortos não sejam fotografados no abandono, nem sejam devolvidos às famílias quando a verdade se impuser.

Mesmo que Putin consiga domínio sobre o território ucraniano, os russos pouco a pouco começarão a conhecer o tamanho do estrago. Virão à tona a extensão do despreparo de suas tropas e as humilhantes falhas iniciais da estratégia de ocupação. Será sentido com impacto pleno o encolhimento drástico da décima potência econômica mundial. Isso sem sequer ainda levar em conta um eventual confronto direto com o poderio assanhado da Otan.

Putin prometeu a seu povo reconquistar a Ucrânia que lhe seria devida e convocou a alta cúpula do país invadido a decapitar o governo “neonazista” do judeu Zelensky e a implantar um novo, livre de “marginais drogados”. Contudo, caso o mundo continue de pé, é Putin que corre o risco não impensável, embora longínquo, de vir a ser ele o destronado pelos seus. O fim deste desmundo não está à vista.

sexta-feira, 4 de março de 2022

Pensamento do Dia

 

Miguel Morales Madrigal (Cuba)

A Ucrânia da minha infância está sendo apagada

Cresci em uma terra de mentiras e ossos, com os mortos sendo apagados pelo Kremlin, que se recusou a ver a Ucrânia como nação, impondo uma identidade soviética sobre todos nós.

Hoje, estamos testemunhando a mesma violência niilista em tempo real, em uma campanha de balas e bombas lançadas sobre a Ucrânia. “Estou bem”, amigos aterrorizados em Kharkiv e Kiev continuam me dizendo. O que mais há para contar? Sabemos que esta guerra não é nova; em alguns aspectos, sempre esperamos que fosse retomada.

Lembro-me das marcas de varíola. Meu pai e eu estávamos voltando para casa depois de um passeio em um pequeno parque cheio de lilases perto de nosso apartamento em Kharkiv (então chamado Kharkov), quando a Ucrânia ainda era uma república soviética. “Por que há buracos lá?” Perguntei ao meu pai, apontando para um aglomerado de crateras feias, lascadas em um canto do nosso bloco de apartamentos.

“É da guerra”, ele me disse. Era meados da década de 1980, quase meio século após o fim da Segunda Guerra Mundial. As cicatrizes da artilharia ainda estão em minha mente. É uma das minhas primeiras memórias de infância.

Era impossível crescer na Ucrânia sem testemunhar a violência que a terra presenciou. Subimos em torno de tanques antigos orgulhosamente exibidos em parques e praças, monumentos pesados da Segunda Guerra Mundial. Aprendemos sobre essa história nas mesas de jantar e nas escolas primárias, em histórias transmitidas de fome e invasões, desde a destruição mongol de Kyivan Rus no século 13 até o ataque nazista em 1941 e aos expurgos soviéticos.

Na década de 1980, o país era, em muitos aspectos, uma gigantesca vala comum, uma sepultura do tamanho do Texas. E, no entanto, não fomos encorajados a vê-la como uma história ucraniana, mas como uma história soviética, uma amnésia coletiva empurrada do Kremlin para todos os estados soviéticos.

Holodomor, genocídio na Ucrânia promovido por Joseph Stalin

A história da Ucrânia moderna começa há pouco mais de 100 anos, no final da Primeira Guerra Mundial, quando novos estados estavam saindo das ruínas de impérios derrotados em toda a Europa. A Ucrânia, no entanto, foi fraturada. A região acabou dividida em duas partes: as parcelas leste e central foram anexadas pela União Soviética; a região ocidental, conhecida como Galícia Oriental, que pertencera ao Império Austro-Húngaro, foi anexada à Polônia. Ambas estavam prestes a entrar em décadas de sofrimento.

Varsóvia, que acabava de recuperar sua soberania pela primeira vez em 123 anos, não queria permitir que uma identidade ucraniana distinta se desenvolvesse no leste da Galícia; a década de 1920 viu uma crescente repressão à cultura, igrejas e escolas ucranianas.

Quando os nacionalistas ucranianos começaram a empreender uma campanha de terrorismo e assassinato contra o que eles consideravam uma ocupação polonesa do solo ucraniano, Varsóvia respondeu com a “ pacificação da Galícia Oriental ”, em 1930 , um eufemismo para a repressão brutal dos ucranianos.

Mas a situação na Polônia empalideceu em comparação com o genocídio que Stalin perpetuou na parte soviética da Ucrânia. De 1932 a 1933, comissários soviéticos começaram a confiscar grãos e alimentos de camponeses ucranianos em nome da coletivização comunista, como parte de uma reação violenta contra os agricultores independentes que Moscou considerava muito bem-sucedidos e, portanto, muito gananciosos.

A apreensão de alimentos transformou a Ucrânia em um deserto apocalíptico atormentado pela fome. As pessoas caíam mortas nas ruas. Os ucranianos comiam sujeira , grama, restos de comida . Relatos de canibalismo foram generalizados , e os pais teriam comido seus filhos. Cerca de 3,9 milhões de ucranianos morreram no que ficou conhecido como Holodomor – “morte por fome” em ucraniano. Mas matá-los não foi suficiente. Como insulto final, Stalin, que era famoso por apagar os inimigos das fotografias, proibiu falar sobre a fome e garantiu que as estatísticas fossem alteradas para esconder as mortes, como se suas vítimas nunca tivessem existido.

Menos de uma década depois, os nazistas tomaram a Ucrânia. Cerca de 1,5 milhão de judeus ucranianos foram mortos, a maioria por esquadrões da morte nazistas móveis conhecidos como Einsatzgruppen , auxiliados por colaboradores locais no que mais tarde ficou conhecido como o Holocausto das balas. Babyn Yar, nos arredores de Kiev, tornou-se o local de descanso final para 33.000 judeus ceifados em apenas alguns dias. A destruição não se limitou aos judeus. Cidades, incluindo Kharkiv, foram reduzidas a escombros. Mais de dois milhões de ucranianos foram pressionados ao trabalho escravo na Alemanha. A fome desceu novamente. Ao todo, por causa da guerra, fome e destruição, cinco milhões a sete milhões de ucranianos perderam suas vidas. Quase 200.000 tártaros da Crimeia, muçulmanos que viveram na Ucrânia durante séculos, foram deportados para a Ásia Central; dezenas de milhares morreram como resultado.

O fim da ocupação alemã não acabou com o sofrimento, apenas trouxe uma repressão soviética renovada. A URSS não podia tolerar qualquer identidade que desafiasse o domínio soviético, seja em indivíduos ou nações. Por 40 anos após a guerra, a Rússia metodicamente deixou de lado a língua e a cultura ucraniana, e para trás uma paisagem de kitsch soviéticos sem alma, estrelas vermelhas e slogans e tomos de discursos de Lenin. A identidade ucraniana era vestigial e subserviente. Ainda me lembro de minha escola nos mostrando desenhos de camponeses em vyshyvanki – camisas bordadas ucranianas tradicionais – sorrindo insidiosamente enquanto agitavam bandeiras soviéticas.

O Kremlin também suprimiu a lembrança do Holocausto, que considerava potencialmente perigosa porque facilitava a identidade comunitária judaica. Por décadas, os corpos de centenas de milhares de judeus permaneceram espalhados em valas de extermínio nazistas em toda a Ucrânia sem sequer uma lápide. Quando o regime permitia memoriais, os mortos eram invariavelmente chamados de “ cidadãos soviéticos pacíficos ”, sua identidade judaica propositalmente omitida .

Quando eu ainda era criança, em 1986, uma explosão na usina nuclear de Chernobyl lançou uma nuvem radioativa através da Ucrânia e da Bielorrússia. Heroicos voluntários e bombeiros locais apagaram o inferno radioativo, evitando uma segunda explosão que poderia ter dizimado metade da Europa; muitos tiveram mortes horríveis no processo e no rescaldo. Uma grande área de terra tornou-se inabitável e permanece assim até hoje. Moscou sufocou a discussão sobre Chernobyl como aconteceu, encobrindo o acidente em sigilo e propaganda.

Três anos depois, meus pais, minha avó, minha irmã e eu – junto com milhares de outros judeus soviéticos – fugimos para Viena. Foi da América que vimos, em 1991, a União Soviética desmoronar e a Cortina de Ferro ser retirada. A Ucrânia conquistou sua independência, mas as promessas de democracia logo foram atoladas em corrupção endêmica.

Em 2004, a Revolução Laranja viu centenas de milhares de ucranianos reverterem o resultado de uma eleição presidencial fraudulenta. No inverno de 2013-14, milhões aderiram à revolta Euromaidan , exigindo que a Ucrânia entrasse em um acordo de parceria com a União Europeia. Pouco depois, a Rússia anexou ilegalmente a península da Crimeia, enquanto separatistas apoiados pela Rússia lançaram uma revolta anti-Euromaidan no leste do país.

Eu me pergunto se nosso velho prédio de apartamentos em Kharkiv tem novas cicatrizes, se ainda estará de pé amanhã. Meus amigos americanos estavam enviando e-mails e mensagens de texto, expressando simpatia, perguntando o que eles poderiam fazer. Eu não respondi a alguns deles; não podia. A América quer soluções e finais felizes, e eu não poderia contar a realidade aos meus amigos – não há nada que eles ou eu possamos fazer.

Mas isso não é inteiramente verdade. O presidente Vladimir Putin, da Rússia, que nega que a Ucrânia seja uma nação soberana, está travando muito mais do que uma guerra física: ele, como seus antecessores no Kremlin, está trabalhando para apagar da existência o próprio conceito de Ucrânia. A cada novo relato de um bombardeio russo, me vejo cada vez mais ucraniano, assumindo a identidade que primeiro a União Soviética – e agora a Rússia – há muito luta para suprimir.

Espero que outros possam ajudar a manter a Ucrânia viva. Aprenda a história. Acenda uma vela no Dia da Lembrança do Holodomor em novembro. Lamente os mortos. Lembre-se da Ucrânia.
Lev Golinkin, autor do livro de memórias “A Backpack, a Bear and Eight Crates of Vodka”

Imagine

O mundo assistiria extasiado à maior manifestação de solidariedade jamais vista entre os sapiens. Líderes de todas as nações alinhados para manter a paz entre os povos, dispostos a erradicar toda a miséria e a fome no planeta.

Reuniões intermináveis dariam conta de suprir com o que fosse necessário para garantir a todo o indivíduo uma vida digna, com segurança e tranquilidade. Trilhões de dólares, que serviriam de reservas estratégicas, seriam disponibilizados de forma global.

Comboios, que já alcançariam mais de cem quilômetros, surgiriam de todas as partes e se aproximariam dos continentes mais pobres, levando alimentos, infraestrutura e recursos estratégicos.

Aviões descarregariam flores em alvos civis. Uma frota de navios transpacíficos circunavegaria absoluta, escoltada por submarinos invisíveis e seus torpedos com SMS carregados de esperança. Satélites e drones de alta precisão acompanhariam minuto a minudo o IDH mundial.

A operação já duraria uma semana com forte ofensiva. Não existiriam mais países nem fronteiras delimitadas. Os passaportes também seriam abolidos. Não haveria mais promessas de paraísos nem ameaças de infernos. Todas as raças compartilhariam o mundo inteiro para chamarem de seu.

Missões de construção em massa se deflagrariam a cada instante em áreas carentes ou devastadas. Filas e mais filas de voluntários. Os povos originários, os animais, e os recursos naturais estariam sob cuidado e preservação constantes.

“Você pode dizer que sou um sonhador. Mas não sou o único”. O John, já imaginava isso. Foi morto com quatro tiros.

Tiago Maria

Da compaixão à Ucrânia

Tentar glosar um poema de Fernando Pessoa é um atrevimento para qualquer um. Há quem o faça com talento porque detém uma oficina poética extraordinária. Não é o meu caso e, se o tento, apenas o faço porque a morte nunca foi tanto a curva da estrada como nestes dias. Uma curva que está na Ucrânia e que , na cabeça insana de um ditador, se pode deslocar para qualquer parte deste nosso mundo.


Permitir e assistir, na plateia, à invasão e destruição de um país é abrir a porta à infâmia. Sim , à infâmia. Que mais se pode permitir, quando , perante os nossos olhos, caem bombas, se esmaga com tanques quem circula na estrada, se destrói habitações, se mata e mete em fuga, do seu país, milhares de crianças e mulheres indefesas. Morrer já não é só não ser visto . A morte é a curva da estrada ucraniana destes dias. A vergonha deste tempo. A infâmia que nem o mundo soube erradicar.

E onde está a compaixão? Quando se mata , se chacina sem complacência, em nome de uma inverdade criminosa , onde está a compaixão do mundo?! Sim, a compaixão?

Se a compaixão não pode ser permissiva nem contemplativa, como é possível dizimar um país que nada mais anseia do que viver a sua liberdade, a sua identidade, a sua própria independência ?! A compaixão não pode aceitar que um povo deixe de ter o seu lugar no mundo. Como é possível a esse mundo tornar-se espectador de tão vil atrocidade?! Não haverá infâmia maior do que dar alimento a alguém e permitir que o vizinho do lado o roube e o deixe morrer de fome?!
E que compaixão é tão frouxa que apenas enche de lágrimas os olhos e o coração ao ver matar uma criança de seis anos?! A ausência de compaixão não semeia paz. O ódio, o desamor são as suas virtudes.

Mas a real e inequívoca infâmia está no silêncio complacente que propiciou o aniquilamento de outras regiões do leste caucasiano, da Ucrânia e, agora, de todo esse grande país: a Ucrânia. Nem Prometeu o sonhou.

Os tiranos, os déspotas traduzem o silêncio numa anuência consentida. E Putin soube sempre que, só do silêncio, poderia sair reescrita, com letra escarlate, a infame história do seu império perdido.

Que Deus não salve Putin. Viva a Ucrânia!
Maria José Vieira de Sousa

quinta-feira, 3 de março de 2022

No Brasil do Guarujá

 


Vladimir, o Terrível

Há uma figura histórica na qual Vladimir Putin se espelha: Ivã, o Terrível, fundador do czarado e primeiro autocrata a assumir o poder como o Czar de Todas as Rússias, em 1547. Explosivo, paranoico e implacável, Ivã IV – seu nome oficial – inspirava terror a outros povos e à sua própria corte.

A ferro e fogo transformou seu país em um estado multiétnico, com um território de quase um bilhão de hectares. O império russo construído por ele tinha como pilar a concepção de que a pequena Rússia (Ucrânia), a Rússia Branca (Belarus) e a Grande Rússia eram constituídas por um mesmo povo e partes indissolúveis de uma mesma nação.


O Império Russo existiu até a vitória da revolução bolchevique de 1917, e seu conceito continuou praticamente intocável na formulação da União Soviética. O mesmo estado forte concentrado nas mãos de um autocrata, no qual a Rússia era a mais igual entre repúblicas teoricamente iguais, se manteve inalterado até o fim da “Pátria-mãe do socialismo”. Não por acaso, Ivã, o Terrível, também era admirado por Stalin.

O fim da União Soviética gerou um mundo unipolar com a divisão do império bolchevique em quinze países independentes. É no quadro de uma Rússia enfraquecida e sem autoestima que surge a figura de Vladimir, o Terrível do terceiro milênio. Sua personalidade tem os mesmos traços de seu ancestral: paranoico e implacável na sua obstinação de reconstruir o antigo Império Russo.


Putin surge em uma Rússia nostálgica e sem cultura democrática. Saiu do czarismo para a ditadura do partido único e do regime bolchevique, constituiu-se em um capitalismo de estado autocrático. Uma pesquisa de 2017 apontou Joseph Stalin e Vladimir Putin como as duas personalidades mais admiradas pelos russos.

Na Rússia pós-socialismo real, a “acumulação primitiva” se deu com membros da antiga burocracia partidária e dos serviços de segurança, que se transformaram, da noite para o dia, em capitalistas, ao comprar a preço de banana antigas empresas estatais. O próprio Vladimir Putin vem daí. O núcleo duro de seu governo também está povoado por ex-membros da KGB e de seu sucedâneo, o FSB.

Na guerra da Ucrânia o presidente russo inicialmente camuflou o seu real objetivo estratégico – a reconstrução do Império Russo – sob o pretexto de se basear em uma reivindicação reconhecida por legítima por muitos especialistas e historiadores.

Quando foi à TV para anunciar a sua guerra, reencarnou o espírito de Ivã, o Terrível ao declarar que a Ucrânia jamais deveria ser um país independente. E ainda criticou Lenin por ter dado o status de república ao país ucraniano.

Como a roda da história não gira para trás, o delírio da reconstrução do antigo Império Russo é impossível. Nem mesmo a “união de todas as Rússias”, que parece ser seu objetivo imediato. O teatro de operações no qual Putin se move não é o mesmo dos primórdios do czarismo.

Falta combinar com os russos, ou melhor, com os ucranianos. E mais ainda com o restante do mundo.

Ao ameaçar apertar o botão da arma nuclear, o Ivan do século 21 deu provas de não ter limites na sua paranoia. Pode ser um blefe, mas não se deve subestimar um autocrata calculista e frio. O uso de bombas fragmentárias e de mísseis termobáricos, ambos com imenso poder de destruição, está no seu cardápio de terror.

Se leu o artigo de Kissinger, “Como o conflito da Ucrânia termina”, Putin parece não ter entendido nada. Se meteu numa guerra que não sabe como termina para seu próprio povo e seu país. Cometeu o mesmo erro de Stalin de 1939, na “guerra de inverno”, entre a União Soviética a Finlândia. O ditador soviético pensava que seria um passeio, uma guerra de poucos dias e indolor. Levou três meses e teve de pagar um preço altíssimo em termos de derramamento de sangue do seu próprio povo.

Inegavelmente os russos enfrentam uma resistência dos ucranianos que não estava nos planos. Podem, ao final, até dominar Kiev, mas a estratégia de uma blitzkrieg entrou em colapso. Batalhas urbanas costumam ter um preço altíssimo. Vide Stalingrado e a batalha de Berlim. O soldado russo é excelente quando trata de defender a sua própria pátria. Derrotaram Napoleão e Hitler, mas, certamente, sua determinação não é a mesma numa guerra onde desempenham o papel de agressor.

O autocrata russo já perdeu uma guerra muito maior: a da opinião pública. Está absolutamente isolado no concerto das nações. Uma guerra é envolve muitos fatores, não só o poderio bélico. Os fatores extra palco de operações pendem desfavoravelmente para Putin. O rublo desvalorizou-se e os juros subiram exponencialmente, já como reflexo das represálias econômicas ao seu país.

Mais dia, menos dia, a opinião pública russa se colocará em sintonia com o sentimento mundial. A guerra não é um bom negócio para ninguém. Se o plano de Putin é reconstruir o império czarista, sua estratégia pode levar a abreviar a sua era.

Volta-se a Ivã, o Terrível, que, em um dos seus surtos paranoicos, matou o próprio filho. Vladimir, o Terrível, pode matar todos os filhos do mundo se apertar o botão nuclear. Impedi-lo passou a ser uma questão de sobrevivência da humanidade.

Em defesa do futuro

A invasão da Ucrânia pela Rússia marca uma guinada na história europeia.

Nas últimas décadas, muitos se iludiram de que a guerra não encontraria mais lugar na Europa. Que os horrores que caracterizaram o século XX eram monstruosidades irrepetíveis. Que a integração econômica e política que buscamos com a União Européia nos protegeria da violência. Em outras palavras, que pudéssemos dar por garantidas as conquistas de paz, segurança, bem-estar que as gerações que nos precederam alcançaram com enormes sacrifícios.

As imagens que nos chegam de Kiev, Kharkiv, Maripol e outras cidades da Ucrânia lutando pela liberdade da Europa marcam o fim dessas ilusões.

A resistência heroica do povo ucraniano e de seu presidente Zelensky colocou uma nova realidade diante de nós, e nos obrigou a fazer escolhas que eram impensáveis ​​até alguns meses atrás.

A agressão – premeditada e sem motivos – da Rússia a um país vizinho remete-nos há mais de oitenta anos, à anexação da Áustria, à ocupação da Checoslováquia e à invasão da Polônia.

Não é apenas um ataque a um país livre e soberano, mas um ataque aos nossos valores de liberdade e democracia e à ordem internacional que construímos juntos.


Como observou o historiador Robert Kagan, a selva da história está de volta, e suas videiras querem envolver o jardim da paz em que estávamos convencidos de que vivíamos.

Agora cabe a todos nós decidir como reagir.

A Itália não pretende virar para o outro lado.

O projeto revanchista do presidente Putin se revela hoje com contornos claros, em suas palavras e atos.

Até agora, os planos de Moscou para uma rápida invasão e conquista de grandes áreas do território ucraniano em poucos dias parecem fracassar, também graças à corajosa oposição do exército e do povo ucraniano e à unidade demonstrada pela União Européia e seus aliados.

As tropas russas continuam seu avanço para tomar posse das principais cidades.

Uma longa coluna de veículos militares está nos arredores de Kiev, onde foram registrados ataques de mísseis e explosões durante a noite, inclusive em detrimento de áreas residenciais.

A Itália respondeu ao apelo do presidente Zelensky por equipamentos militares, armamentos e veículos para se proteger da agressão russa.

O governo democraticamente eleito deve ser capaz de resistir à invasão e defender a independência do país.

A um povo que se defende de um ataque militar e pede ajuda às nossas democracias, não é possível responder apenas com estímulos e atos de dissuasão.

Esta é a posição da Itália, da União Europeia, dos nossos aliados.

A invasão da Rússia não é apenas sobre a Ucrânia. É um ataque à nossa concepção de relações entre Estados baseada em regras e direitos. Não podemos deixar a Europa regressar a um sistema em que as fronteiras são traçadas à força. E onde a guerra é uma forma aceitável de expandir sua área de influência. O respeito pela soberania democrática é um pré-requisito para uma paz duradoura.

A luta que apoiamos hoje e os sacrifícios que faremos amanhã são uma defesa dos nossos princípios e do nosso futuro.
Mario Draghi, primeiro-ministro italiano em discurso no Senado

Como guerra de Putin revela a ignorância no discurso público


Guerras, genocídio, crimes na Europa parecem exercer sobre alguns brasileiros um fascínio especial, o qual os inspira menos à reflexão do que a exibir, com bastante alarde, a própria ignorância








Quando um desses youtubers brasileiros neo-direitistas – o nome dele é Monark – afirmou, simplesmente porque lhe deu na telha, que se devia fundar um partido nazista no Brasil – ou seja, um partido visando o assassinato de adversários políticos, minorias étnicas e deficientes, além de legitimar campos de concentração e guerras ofensivas –, eu considerei tratar-se de mais um sintoma de uma dinâmica que já venho observando há bastante tempo. Sobretudo na internet, mas também nas mídias tradicionais e na política brasileira, estamos sendo confrontados com uma nova geração de ignorantes, prepotentes e burros.


Costumam ser pessoas que, em razão de uma projeção alcançada por caminhos duvidosos, se sentem com autoridade para dizer as maiores imbecilidades, sem pudor nem moderação. Eles se consideram corajosos por dizer coisas supostamente provocadoras ou tabus, ou que simplesmente soam bem aos seus ouvidos.

Na realidade, eles só têm uma boca deste tamanho, mas nenhuma informação. Fazem barulho, mas nunca leram um livro. Consideram-se espertos, mas seus raciocínios são de uma simploriedade arrepiante. Sabem o preço de tudo mas o valor de nada. São pessoas que nada qualifica a manifestar suas ideias ao grande público. Fazem muita confusão, mas por trás não há nada além de ar quente. São aqueles concidadãos sobre quem o filósofo britânico Bertrand Russel certa vez advertiu: "O problema com o mundo é que os estúpidos são excessivamente confiantes, e os inteligentes são cheios de dúvidas."

Pode-se observar esse fenômeno por toda parte, seja no YouTube, no rádio ou na televisão. Mas é também na política onde alardeiam suas opiniões, baseadas menos em saber do que, acima de tudo, numa crença prepotente nas próprias convicções.

Infelizmente há exemplos disso aos montes. Seja o presidente da Fundação Palmares, Sérgio Camargo, afirmando que a escravidão foi "benéfica" para os escravos; ou Mário Frias, o secretário especial da Cultura, qualificado pelo próprio primo, o historiador Raul Milliet, como "inculto", "folgado" e "bajulador" – um julgamento que Frias faz todo possível para confirmar.

Ou o ex-ministro do Meio Ambiente Ricardo Salles, segundo quem Jair Bolsonaro evitou a Terceira Guerra Mundial e merecia o Nobel da Paz porque a visita do mandatário brasileiro ao ditador russo o fez "recuar" da invasão na Ucrânia. Pouco depois, Putin marchava sobre o país vizinho.

E assim chegamos ao tema: a ofensiva russa contra a Ucrânia, sobre a qual circulam no Brasil as mais diversas opiniões e teorias. O que mais me apavora é quanta ressonância a propaganda russa na internet encontra justamente entre certos esquerdistas brasileiros.

Movidos por um reflexo anti-imperialista, eles acreditam e partilham toda opinião em que os Estados Unidos, a Otan e a União Europeia sejam declarados verdadeiros culpados por todo o mal do mundo. Eles justificam o assalto de Putin repetindo o argumento do ditador de que haveria na Ucrânia neonazistas que até mesmo definem a política do país (embora o próprio presidente ucraniano seja judeu). Com o argumento da existência de neonazistas, se poderia invadir e bombardear quase todo país do mundo, inclusive a Alemanha e o Brasil.

Especialmente peculiar é também a admiração do anticomunista ferrenho Jair Bolsonaro pelo ex-agente da KGB Vladimir Putin. Ao declarar a neutralidade do Brasil na guerra na Ucrânia, Bolsonaro alinha o país com as ditaduras socialistas da Venezuela, Cuba, Nicarágua, Belarus, China e Coreia do Norte. E assim, por uma vez na vida, o presidente e uma parte da esquerda brasileira estão de acordo.

Uma prova dos distúrbios intelectuais e hormonais que a guerra na Ucrânia desencadeia no Brasil é a reação do deputado estadual e pré-candidato ao governo de São Paulo, Arthur do Val (Podemos-SP), que está a caminho da fronteira da Ucrânia com a Eslováquia, junto com o coordenador nacional do MBL, Renan Santos. Segundo este, a dupla viajou para relatar o que está ocorrendo na região.

Fico muito curioso sobre o que os dois vão relatar. Pergunto-me se algum deles fala ucraniano ou russo, eslovaco ou polonês? Qual é seu conhecimento prévio sobre a região, com que especialistas falaram, que livros leram? Parece-me uma empreitada cuja meta não é realmente descobrir e relatar algo sobre a guerra, mas sim se colocar em cena, se aproveitar da guerra como palco.

Assim como Monark, para se fazer de importante, usou um acontecimento pavoroso da Europa, do qual não entendia nada e com que não tinha qualquer relação, os dois jovens políticos pretendem transformar o assalto militar da Rússia à Ucrânia num trampolim para suas próprias carreiras.
Philipp Lichterbeck