quarta-feira, 2 de março de 2022

Pensamento do Dia

 


Guerra, para que serve isso?

O milagre ucraniano poderá durar pouco. A tentativa de Vladimir Putin de vencer rapidamente, numa boa, tomando grandes cidades com forças relativamente brandas, enfrentou grande resistência, mas os tanques e as armas mais pesadas estão a caminho. E apesar do incrível heroísmo do povo da Ucrânia, o mais provável ainda é que a bandeira russa seja eventualmente hasteada em meio aos escombros de Kiev e Kharkiv.

Mas mesmo se isso acontecer, a Federação Russa ficará mais fraca e mais pobre do que era antes da invasão. Conquistar não compensa.

Por que não? Se olharmos para a história, veremos muitos exemplos de países que enriqueceram por meio do poderio militar. Os romanos certamente lucraram com a conquista do mundo helênico, assim como a Espanha com a conquista dos astecas e dos incas.

Mas o mundo moderno é diferente — e por “moderno" quero dizer pelo menos a partir de um século e meio atrás.

O autor britânico Norman Angell publicou seu famoso tratado “A grande ilusão” em 1909 argumentando que a guerra se tornara obsoleta. Seu livro foi amplamente mal interpretado, como se afirmasse que a guerra não poderia mais acontecer, hipótese que se provou horrivelmente equivocada nas duas gerações que se seguiram. Mas o que Angell afirmou, na verdade, foi que os vencedores de uma guerra não seriam mais capazes de obter nenhum lucro de seu sucesso.


E ele certamente estava correto sobre isso. Todos agradecemos pelos Aliados terem prevalecido na 2.ª Guerra, mas o Reino Unido emergiu como uma potência diminuída, sofrendo em meio a anos de austeridade enquanto lutava contra escassez de divisas estrangeiras. Até mesmo os Estados Unidos tiveram um ajuste pós-guerra mais difícil do que muitos se dão conta, experimentando um período de aumentos de preços que ocasionaram inflação acima de 20%.

E pelo outro lado, mesmo a derrota absoluta não evitou que Alemanha e Japão eventualmente alcançassem prosperidades sem precedentes.

Por que e quando a conquista deixou de ser rentável? Angell argumentou que tudo mudou com a ascensão de uma “interdependência vital” entre as nações, “cortando transversalmente fronteiras internacionais”, o que ele sugeriu ser “amplamente obra dos últimos 40 anos” — começando ao redor de 1870. Pareceu um palpite razoável: foi por volta de 1870 que ferrovias, barcos a vapor e telégrafos tornaram possível a criação do que alguns economistas qualificam como a primeira economia global.

Nessa economia global é difícil conquistar outro país sem extirpar esse país — e a si mesmo — da divisão internacional do trabalho, sem mencionar o sistema financeiro internacional, sob um grande custo. Podemos ver essa dinâmica ocorrendo em relação à Rússia neste momento.

Angell também enfatizou os limites do embargo numa economia moderna. Não podemos simplesmente confiscar ativos industriais da maneira que conquistadores pré-industriais confiscavam território, porque confiscos arbitrários destroem incentivos e o senso de segurança de que sociedades avançadas precisam para permanecer produtivas. Novamente, a história comprovou sua análise. Por um certo período, a Alemanha nazista ocupou países que possuíam antes da guerra produtos internos brutos duas vezes maiores que o seu — mas apesar da implacável exploração, os territórios ocupados parecem ter pagado por apenas cerca de 30% do esforço de guerra alemão, em parte porque muitas das economias que a Alemanha tentou explorar ruíram sob seu jugo.

Um aparte: Não é excepcional e terrível nos encontrarmos numa situação em que os fracassos econômicos de Hitler nos dão lições úteis sobre prospectos futuros? Mas aí estamos. Obrigado, Putin.

Eu acrescentaria outros dois fatores para explicar por que conquistar é inútil.

O primeiro é que a guerra moderna usa uma incrível quantidade de recursos. Exércitos pré-modernos dispunham de quantidades limitadas de munição e eram capazes, em certo grau, de viver da terra. Em 1864, as tropas do general no Exército da União William Tecumseh Sherman conseguiram se desligar de suas linhas de abastecimento e marchar sobre a Geórgia supridas com mantimentos suficientes apenas para 20 dias. Mas exércitos modernos requerem grandes quantidades de munição, peças de reposição e, acima de tudo, combustível para seus veículos. E de fato, as mais recentes informações de inteligência do Ministério da Defesa britânico dão conta de que o avanço russo na direção de Kiev empacou temporariamente “provavelmente como resultado de contínuas dificuldades logísticas”. O que isso significa para pretensos conquistadores é que a conquista, mesmo se bem-sucedida, é extremamente cara, o que torna mais difícil ainda que se pague.

O segundo é que vivemos atualmente num mundo de nacionalismos apaixonados. Camponeses da Antiguidade e da Idade Média provavelmente eram indiferentes em relação a quem os explorasse; trabalhadores modernos não são. A tentativa de Putin de tomar a Ucrânia parece ser fundamentada não apenas em sua crença de que a nação ucraniana não existe, mas também na presunção de que os próprios ucranianos podem ser persuadidos a se considerar russos. Parece muito improvável isso acontecer, então mesmo se Kiev e outras grandes cidades caírem, a Rússia levará anos tentando conter uma população hostil.

Portanto, a conquista é uma proposta fracassada. Isso é verdadeiro pelo menos há um século e meio; isso é óbvio para qualquer um disposto a analisar os fatos ocorridos por mais de um século. Desafortunadamente, ainda existem doidos e fanáticos que se recusam a acreditar nisso — e alguns deles controlam nações e exércitos.

Cinzas sem fogo e guerra

Tenho uma memória nítida do meu primeiro carnaval. Dele, há uma velha foto dos anos 1940. Anos em que vivíamos em Maceió, Alagoas, e meu pai, sério e com mapas da Europa na mesa, ouvia pelo rádio os avanços das tropas aliadas derrotando Hitler. Mas hoje, com cinzas na cabeça, descubro que o “imperialismo” não é monopólio dos “ianques capitalistas” — lembram o “ianque, go home”? —, mas pertence também a uma Rússia putinista-comunista.

Na memória, a guerra e a invasão na Europa — as cinzas que abusadamente nos envolvem como um símbolo tenebroso do fim. Na fotografia, o testemunho do mel, que, como aprendi com Lévi-Strauss, contém o doce tão aguçado que se confunde com o fogo. O fogo dos “lábios de mel” da namorada sinalizadora da vida.

Na foto, estamos, meus irmãos e eu, fantasiados de pierrô, personagem clássico da commedia dell’arte. A julgar pelas nossas carinhas cinzentas, éramos a própria imagem do infeliz namorado da Colombina, que se apaixona pelo risonho e meloso Arlequim. Nossa “fantasia” de cetim preto — ornada com pompons brancos e encimada por um chapéu cônico usado quando antigamente as crianças eram castigadas —completa esse momento cinzento do meu primeiro carnaval.

Depois de “grande”, tive a liberdade não falada, mas costumeira, de ver e escrever sobre o carnaval como o ritual da liberdade igualitária e libertina própria de um sistema fortemente marcado por hierarquias e preconceitos.

Deixei de me fantasiar, exceto quando, nos anos 1950, me vesti de “marinheiro”, instado pelo meu amigo Celso, de saudosa memória. Hoje, lembro-me bem de como imaginamos ser figuras que as festas de carnaval convocavam: ao lado do pirata da perna de pau, do caubói de cinema e do marinheiro ancorado pelos preconceitos de sua família, rua, bairro, cor e classe social.

A partir disso, encontrei o famoso mel carnavalesco que Lévi-Strauss contrasta com o tabaco, trazido para o Novo Mundo pelo Velho. Do fumo, que pratiquei igualmente com afinco, imitando o cinema do meu tempo, só restam cinzas. Cinzas requentadas e venenosas que suspendem ou disciplinam aquela festa imaginada como não tendo regras, em que “você podia fazer tudo”.

Mudando de plano e passando dos meninos fantasiados para o idoso que hoje sou, creio que entendo bem esse momesco comando segundo o qual “no carnaval, você pode fazer tudo!”. Eu mesmo disse isso num seminário em Harvard sobre rituais, em que meu mentor, Richard Moneygrand, ficou aturdido.

Se todo ritual tem regras mais explícitas que o cotidiano e, por isso mesmo, é um momento especial, como ter uma festa em que tudo se pode fazer, exceto se pensarmos numa sociedade onde poucos podem tudo ou muito? E fazem de modo sorrateiro, porque o mundo fora da festa é regido por regras muitos sérias e duras sobre o que se pode fazer. Exceto, é claro, os que tudo podem. Essa ainda é nossa questão, pois todo limite significa um centro, um outro ponto de vista, uma quaresma entre a natividade, a morte e o renascimento, entre corrupção e punição.

Numa guerra há essa mesma regra. Nela, o agressor pode tudo, e seu etnocentrismo, transformado em radical nacionalismo, legitima a brutalidade. Neste sentido, o carnaval é uma guerra ao contrário. E, na quaresma que começa nesta “Quarta de Cinzas”, testemunhamos ao vivo e em cores o brutal assalto russo à Ucrânia. A quaresma, sabem os católicos, é um momento de contenção porque passa pelo Cristo Crucificado e por sua ressurreição. Mas, nesses 40 dias, sofreremos uma dupla frustração. Além de um segundo carnaval perdido pela pandemia, que nos trouxe tantas cinzas, teremos de confiar no mel de nossas esperanças, cujo final, diferentemente do carnaval, é tão imprevisível quanto as cinzas da morte.

Vícios privados, malefícios públicos

É preciso reverter a perda de bem-estar social derivada da captura do Estado por verdadeiros caçadores do erário. É hora de escancarar os custos das políticas públicas, para que a sociedade possa colocar na balança e comparar, por exemplo, uma isenção fiscal para um grupo de empresas ao pagamento de uma transferência social. Surrada, mas inescapável, a palavra chave é transparência. E, a partir dela, ações de governo para rever gastos ruins e abrir espaço para o que importa.

A ideia de que a ação autocentrada pode levar ao progresso econômico tem quase dois séculos e meio. É a lógica da “mão invisível”, de Adam Smith, segundo a qual as forças da oferta e da procura seriam vetores suficientes para o funcionamento da economia, mesmo na presença do egoísmo, digamos assim. O bom funcionamento dos mercados é, de fato, a base para estimular a atividade produtiva, que gera emprego e renda.


Mas há uma condição: a existência de leis, regras e regulamentações da vida em sociedade e da economia. É o papel do Estado e da atividade política. Quando falham, quando a aplicação das leis é torta, lenta ou desigual e, sobretudo, quando a mobilização e a ação de certos grupos distorcem a alocação dos recursos públicos, então o bem-estar social diminui.

Atualmente, há um sem-número de benefícios tributários, regimes especiais, isenções fiscais e vantagens inscritas nos orçamentos públicos.

Isso inclui o pagamento de salários acima do teto constitucional remuneratório. O Estado mostrou, recentemente, que há contracheques, no Judiciário, de mais de R$ 440 mil mensais. O salário mínimo, hoje, está em R$ 1.212,00 e a renda média do brasileiro não passa de cerca de duas vezes esse valor.

A chamada Comissão do Extrateto, criada em 2016 pelo Senado Federal, produziu um bom projeto para resolver o problema. Ele foi aprovado, mas ainda tramita na Câmara dos Deputados. Essa força de setores do alto escalão do funcionalismo público relega a último plano a busca pelo interesse da coletividade. Prejudica, inclusive, a própria necessidade de valorização dentro do serviço público.

Em artigo para o Valor Econômico, em 16 de setembro de 2014 (Transparência e democracia), o economista Marcos Lisboa e eu escrevemos: “Mancur Olson, em A lógica da ação coletiva (1965), argumentou que a possibilidade de obter benefícios do Estado estimula a mobilização coletiva de grupos relativamente pequenos e homogêneos (...) A natureza difusa e pouco transparente dos custos dessas ações, no entanto, que recaem sobre o restante da sociedade, dificulta o debate democrático e a deliberação sobre o uso mais eficiente dos recursos públicos”.

Tal acesso privilegiado ao “poder” garante a perpetuação, por décadas, de programas ruins, além de ensejar a criação de outros. A apropriação de nacos do orçamento público ocorre na penumbra, onde todos os gatos são pardos. As crianças, as famílias pobres, os desempregados, a base do serviço público, os trabalhadores informais, os marginalizados e os seus interesses, que deveriam ser as prioridades de uma nação ainda tão desigual, são preteridos.

Quando não são preteridos, inserem-se no Orçamento, em geral, sem qualquer corte naqueles gastos de péssima qualidade. Aumentou-se, por exemplo, entre 2021 e 2022, o valor previsto para o Auxílio Brasil (sucessor do Bolsa Família), de cerca de R$ 35 bilhões para quase R$ 90 bilhões. Uma despesa nova necessária e legítima, a meu ver. Mas nem um centavo foi cortado em outras rubricas. Ainda, a despesa social serviu de desculpa para mudar o teto de gastos e abrir espaço para outras demandas não relacionadas ao social.

Para ter claro, não prego uma redução geral e irrestrita de gastos de pessoal e de políticas de incentivo à produção. Proponho, sim, transparência, para que a sociedade tenha conhecimento, por exemplo, de que os descontos autorizados no Imposto de Renda podem chegar a R$ 20 bilhões ao ano. Por que manter esse benefício para os ricos?

A Instituição Fiscal Independente (IFI) do Senado Federal, há mais de cinco anos, tem contribuído para aumentar a transparência. Seu papel, no entanto, limita-se a mostrar custos e alertar. Há um segundo desafio, a partir disso, que é introjetar, na prática de governo e no cotidiano da política, a dimensão da responsabilidade com o dinheiro público. A Revisão do Gasto, ou Spending Review, pode ajudar. Amplamente adotada no âmbito da OCDE, essa boa prática propõe-se justamente a questionar a “base orçamentária” existente.

Vale dizer, no caso dos servidores, que há realidades completamente distintas coexistindo. De um lado, os supersalários, que parecem intocáveis. De outro, os baixos salários dos professores da educação básica. Qualquer reforma administrativa deve começar por este ponto: a extinção de todos os privilégios. Sem isso, não terá legitimidade.

Os vícios destes grupos de interesse, esta caça ao tesouro, precisam ser combatidos com veemência. Caso contrário, a necessidade de novos gastos públicos – já imposta pela demografia, pela pobreza e pela desigualdade – terá de ser suprida com mais e mais carga tributária e dívida pública. É preciso espantar os caçadores de renda para longe da administração pública.

A distância entre eles

Num restaurante tradicional de Brasilia, as crianças riam divertidas. Pediam batatas fritas, sucos. Depois, o jantar, e, ao final, a sobremesa preferida. Nada lhes era negado. Os adultos, distraídos entre uma taça de vinho e uma dose de uísque, monitoravam o grupo ruidoso. Em nome de um pretenso sossego, permitiam até o desperdício.

De repente, o toque inesperado no ombro. O cumprimento sorridente e a realidade crua da desigualdade social. O contraste, a distância, surgiram implacáveis na forma daquele menino alto, magro, sorridente. Estava ali Kauã, que, muitas vezes, quando criança, vinha com sua mãe para o trabalho, e frequentava com os meus netos aquela mesa de restaurante.

Kauã oferecia rosas vermelhas, de mesa em mesa. Entrara no universo inclemente, perverso. Mais velho que os meninos, a vida o jogara na noite, não para se divertir. Para ganhar uns trocados.

Um soco no estomago.


Por sorte, aquele menino bonito não abandonara a escola. Não perdera o sorriso. Trabalha nos finais de semana. Continua parceiro da mãe, quer ajudá-la, e ter seu próprio dinheiro. O ângulo positivo da história não consola. Dói ainda mais. Adolescência perdida.Tantos passeios fizera com meus netos. Tamanha dissonância entre o que vive hoje Kauã e o que vivem os filhos do privilégio.

Há o que fazer por ele. A indicação de trabalho diurno, mais segurança para um menino de 16 anos. Há o que fazer sempre. E os outros Kauãs? Pequenos e grandes, crianças que nos abordam na noite? O que fazer por eles?

Fundamental não permitir que continuem invisíveis.

Kauã não é indigente. Mas a miséria assola o País, exige medidas urgentes. Levantamentos da FGV Social indicam que quase 28 milhões de pessoas vivem hoje abaixo da linha da pobreza no Brasil. Em 2019, antes da pandemia de Covid-19, eram pouco mais de 23 milhões brasileiros.

É vital um governo voltado para pobres e desvalidos É obrigatório e urgente que os miseráveis voltem a ter comida na mesa, e as crianças possam sonhar em viver e estudar à luz do dia.

Passa da hora de nos posicionarmos. Só um governo comprometido em combater a carestia e a ignorância poderá tirar das ruas crianças, jovens, sem teto, abandonados à própria sorte. Brasileiros abandonados que se multiplicam tomando calçadas de todas as cidades, morrendo de fome, de frio, de medo.

O Brasil pede socorro. É remota a possibilidade de reeleição de Bolsonaro, mas, acreditemos, não é impossível. Ou reagimos agora ou não teremos tempo de impedir um novo mandato ruinoso, catastrófico, devastador, multiplicando Kauãs cada vez mais sem esperança.

PS: A distância entre eles me remeteu a Thrity Umrigar, jornalista, professora e romancista de origem indiano-americana, autora, entre outros, de “A distância entre nós”. Na complexidade da Índia dividida pela extrema pobreza e a riqueza visível, Umrigar trata desses dois mundos, observando duas solidões – duas mulheres, Bhima, analfabeta, hindu de casta mais inferior, e sua patroa, Sera, viúva aristocrática parsi. Elas compartilham anos de intimidade. Todas as manhãs, Bhima deixa seu casebre de barro na favela miserável onde vive, para cozinhar e limpar a casa de Sera. Os diálogos valem o livro de Umrigar. Livro para não esquecer.

PS1: Não há mocinhos na Guerra da Rússia contra Ucrânia. A humanidade pagará a conta da insana e letal disputa entre Rússia, Estados Unidos, OTAN, e o resto do mundo.

terça-feira, 1 de março de 2022

Adeus às armas

Miguel Morales Madrigal (Cuba)
A pesquisa apresentada pelo instituto Ipespe esta semana mostra que a sociedade brasileira valoriza a democracia (69%) e é contra o porte de armas (62%), apesar de seguir conservadora em temas como aborto, drogas e maioridade penal.

Em 1929, o romance de Ernest Hemingway (em inglês, A Farewell to Arms) trazia uma espécie de autobiografia emocional. Mesmo não sendo fiel à experiência do autor americano na Primeira Guerra Mundial, espelhava sua angústia em relação à falta de sentido da guerra enquanto evento da realização humana.

O século XX foi marcante em um tema que deveria ser a dimensão mais importante do desenvolvimento humano – a paz. Ao mesmo tempo em que dezenas de milhões de pessoas saíam de suas casas para matar e morrer em fronts de batalha, os que ficaram em seus países criaram movimentos pela paz para as transformações sociais seguintes concorrentes com a doutrina da guerra.

Nesse cenário, um novo setor produtivo cresceu e se consolidou como o mais rentável e influente do planeta, desde então, pautando o destino da geopolítica global e da gente simples, fossem parisienses ou congoleses.

Há quem atribua ao ex-presidente Dwight Eisenhower o desabafo de que a maior ameaça aos EUA após a Segunda Guerra Mundial não seriam os soviéticos, mas sim a indústria de defesa.

Nesse universo estão incluídos desde os fabricantes de cantis até as fábricas de mísseis hipersônicos e submarinos nucleares, passando por artigos de gosto popular como os óculos escuros ou o revólver calibre 38.

No início, os homens matavam-se usando pedras e paus (e digo homens mesmo, porque não foram as mulheres). E não pararam de fazê-lo ao se tornarem seres socialmente mais desenvolvidos (o que seria o esperado). Na verdade, deixaram apenas de usar pedras, cabendo lembrar que não foi por falta de pedras.

Em um paradoxo injustificável sob quaisquer princípios razoáveis, à medida em que a sociedade, o direito, o Estado e a economia se desenvolveram, o esforço de sofisticar as ferramentas de mortes só aumentou. Desse modo evoluiu-se (ou melhor, involuiu-se) das pauladas pré-históricas para o drone Reaper que custa US$11 milhões e lança mísseis Hellfire.

Utilizam-se eufemismos, como o da dualidade tecnológica, para tornar aceitável a produção de armas de alta tecnologia, sob o argumento de que a indústria armamentista produz ciência que melhora a vida civil, como o forno micro-ondas, os motores a jato, o raio-x, a penicilina e a internet. É contraditório que tais avanços só sejam viáveis ao custo de dezenas de milhões de mortes e mutilações.

Em outra ilustração simplória, podemos dizer que o crime organizado só dispõe de fuzis e granadas porque existem fuzis e granadas. Essa questão é fundamental. A causa original dos crimes com armas de fogo não é o fato de as armas serem roubadas ou contrabandeadas, mas, simplesmente, o fato de elas existirem.

Pode soar como um resgate do “faça amor, não faça guerra”, mas não há sentido algum em estarmos enfrentarmos uma pandemia de Covid-19 (num esforço que uniu a humanidade) e ter ao mesmo tempo as forças armadas pelo mundo afora em plena corrida por modernização e expansão.

Seja na fronteira ucraniana ou no Morro do Alemão, seja na Amazônia ou na Síria, o primeiro passo para a paz é não se admitir que seja natural, sob nenhum pretexto, a prática da violência entre indivíduos, ou entre povos.

Os cidadãos comuns querem paz, trabalho e saúde. Seja em democracias ou em regimes autoritários, as pessoas não têm o menor interesse na guerra. Em paródia mais saudável de máxima antiga “se queres a paz, prepara-te para a paz”.

Contar votos ou canhões

A familiaridade com que discutimos se haverá ou não um golpe no Brasil, antes, durante ou depois das eleições, é quase inédita. Em 1964, deu-se um golpe sob o pretexto de que o outro lado —o governo— estava preparando o seu, embora, como se constatou, ele não tivesse nenhuma condição para isso. Os vitoriosos não precisaram disparar um tiro. Agora, não. A ameaça vem de quem não apenas detém o comando efetivo da força como está há anos atiçando e munindo uma força paralela para agir a seu favor.

Munir é sinônimo de municiar, prover munição, armar. É ao que assistimos todos os dias com as medidas de Jair Bolsonaro para facilitar a vida de quem queira ter em casa armamento pesado. O pretexto é o de que são caçadores ou colecionadores. Mas, no primeiro caso, pelo calibre e quantidade de armas que possuem, são capazes de matar um elefante a quinhentos metros ou derrubar um helicóptero que se atreva a sobrevoá-los. Se são colecionadores, como se explica que tenham dezenas de exemplares de um mesmo tipo de arma, e de um tipo recém-saído da fábrica, sem valor de coleção, mas bem cotado no mercado clandestino?

Tudo isso se sabe. Sai nos jornais, dá na televisão, discute-se no botequim, com uma naturalidade só reservada ao noticiário esportivo ou de variedades. Sob Bolsonaro, o brasileiro pode não ter saúde, escola ou emprego, mas conta com notável poder de fogo. Já é um dos países com o maior número de civis engatilhados no mundo. E ninguém duvida de que tal equipamento se destina a fuzilar as instituições.

A depender de Bolsonaro, haverá uma hora em que, depois de contar os votos, se terá de contar canhões. Canhões são uma metáfora, mas não muito longe da realidade. Os que legalmente têm direito a eles —as Forças Armadas— precisarão sair da frente para que os milicianos disparem? Ou irão atuar em conjunto?

Ou, depois de ler a Constituição, elas cumprirão seu papel?

Um presidente sem sorte e que não dá sorte a ninguém

Bolsonaro não sabe distinguir entre agressor e vítima, ou finge não saber. Agressor é a Rússia de Putin, que invadiu a Ucrânia com cerca de 200 mil soldados a pretexto de que ela sempre pertenceu ao seu país. Não foi bem assim. Em tempos imemoriais, foi o contrário. E a Ucrânia é, hoje, um país independente.

Bolsonaro não sabe o que é neutralidade, ou finge não saber. Se soubesse, não diria que o Brasil é neutro no caso da invasão da Ucrânia. O Brasil condenou duas vezes a invasão ao votar na ONU. Neutros foram os três países (China, Emirados Árabes Unidos e Índia) que se abstiveram de votar. Só a Rússia votou a favor dela.

Bolsonaro não sabe quando falar a verdade aos seus governados, e, nesse caso, não é puro fingimento; está acostumado a mentir ou ocultar. Os líderes dos países mais importantes começam a preparar seus povos para os efeitos econômicos negativos da guerra na Ucrânia. Bolsonaro guarda silêncio.

Bolsonaro não tem sorte e não dá sorte a ninguém. Em pouco mais de três anos, enfrentou uma pandemia, e, agora, uma guerra. Preferiu negar que houvesse uma pandemia, concedendo passe livre ao vírus para que matasse. Quanto à guerra, apostou que não haveria – e perdeu; por fim, alia-se ao lado errado.


Pode ter sido sorte de Bolsonaro se eleger presidente da República, mas do Brasil não foi sorte.

segunda-feira, 28 de fevereiro de 2022

Os russos precisam derrubar Putin

Vladimir Putin acha que cerca Kiev, mas é Kiev que o cerca. O carniceiro russo esperava fazer uma blitzkrieg na Ucrânia agredida, mas encontrou uma resistência não menos do que heroica do exército oponente, comandada por um presidente que conta hoje com a aprovação de 94% dos ucranianos. Volodymyr Zelensky se tornou um símbolo de coragem e resiliência para os seus compatriotas e para o mundo. O Ocidente, temeroso de uma guerra prolongada que também lhe seria custosa, ofereceu-lhe uma rota de fuga. Ele recusou-se a abandonar a luta, como Vladimir Putin esperava que fizesse — e, com o seu comportamento inspirador e impressionante capacidade de comunicação nas redes sociais, obrigou os líderes ocidentais a mostrar os dentes para a Rússia, seja na forma de sanções econômicas mais duras do que as previstas, seja por meio de ajuda militar efetiva. Ainda que o rolo compressor russo atinja os seus objetivos militares, já está claro que os ucranianos, entre militares e civis, não se dobrarão aos invasores e estão dispostos a transformar o seu país numa espécie de Afeganistão para os russos. Na Europa, a cifra fornecida por Kiev, de que o seus exército matou 3.500 soldados inimigos em cinco dias de conflito, começa a ser levada a sério, depois de ser considerada mera propaganda. Se a informação for mesmo verdadeira, é algo assombroso. Será espantoso ainda que seja um terço disso. Para se ter ideia, em 10 anos de guerra, os russos perderam 14,5 mil homens em território afegão. Moscou anunciou hoje que vai desacelerar a ofensiva.


Volodymyr Zelensky é um ex-comediante que foi subestimado no Kremlin e no Ocidente — e só continua a sê-lo pelos idiotas. Com um simples celular, ele já derrotou Vladimir Putin e a sua máquina de censura e fake news. O carniceiro russo perdeu a batalha de comunicação, como se pode ver pelas manifestações de rua contra a invasão da Ucrânia que ocorrem nos países ocidentais e na própria Rússia. Pelos boicotes esportivos de imensa repercussão. Pelas sanções ocidentais aos canais de notícias falsas patrocinados pelos russos que vinham operando livremente no Ocidente. O mundo livre e moderno constata a diferença entre um Volodymyr Zelinsky, que transmite de lugares públicos de Kiev e sabe se comunicar pelo Twitter (quase 4 milhões de seguidores neste momento) e pelo Instagram (quase 13 milhões de seguidores), e um Vladimir Putin, isolado no cavernoso Kremlin e que faz uso apenas de um TV estatal que lhe é inteiramente submissa, da censura e das fake news. Como disse o jornalista americano Dan Rather no Twitter, “Putin deve estar se mordendo ao ver Zelensky tornar-se um herói mundial, o líder forte e corajoso que se eleva moralmente sobre o pária russo. Isso torna o destino de Zelensky ainda mais precário. E a situação na Ucrânia ainda mais preocupante”.

O ex-agente obscuro da KGB achou que poderia cancelar a Ucrânia como nação, com um discurso montado numa retórica velha da época da Guerra Fria, mas acabou fortalecendo o sentimento nacional ucraniano expresso admiravelmente pelo presidente ex-comediante. Hoje, enquanto a Ucrânia é objeto de solidariedade e ajuda financeira e militar, a Rússia se vê sob um carniceiro que, roído pela vaidade, pela inveja e pela vingança, ameaça não apenas a Ucrânia, mas a humanidade, dizendo que pode lançar mão de armas nucleares, para liquidar um mundo que não reflete a imagem que ele acha ter.

Só há um caminho a seguir para a Rússia. Depois do desmoronamento moral do seu líder e da degradação da imagem do país, da possibilidade de se atolar em outro Afeganistão, mas na Europa, da ruína econômica que se avizinha — o rublo desabou 40%, a taxa de juros foi a 20%, a bolsa de valores não abriu hoje — e, principalmente, do risco de o carniceiro lançar mão de armas atômicas para destruir não somente a Ucrânia, mas a inteira civilização, o que ainda compreende a Rússia, cabe aos próprios russos se livrar de Vladimir Putin. É preciso que eles o derrubem. Zelensky é um líder corajoso e admirável na sua modernidade; Putin é um ditador covarde e perigoso no seu anacronismo. Ele foi longe demais para que a sua palavra possa ser crível em qualquer negociação.

Brasil solidário

 


Idade da Estupidez

Amany Alali
Há quem diga que este período da história da humanidade será conhecido como a Idade da Estupidez. O raciocínio corre sobre o fio da lógica e revela uma contradição. Ao mesmo tempo em que a ciência avança em todas as áreas, no terreno espiritual experimentamos o regresso ao breu da ignorância.

A absoluta maioria dos viventes é beneficiária do avanço, mas não é parte da inteligência que o produziu. Ao contrário, usa os seus resultados para espargir a sua estupidez. A internet é o melhor exemplo. Todas as pessoas podem expor suas ideias, o que é comemorado pelos idiotas da oclocracia com bumbos, trombones e urras à nova democracia. Estudo recente de universidades europeias sobre os conteúdos veiculados nas redes da web informa que 90% dos internautas têm a oferecer apenas sandices, bobagens, preconceitos, pieguices, superstições e todo o tipo de vulgaridade da vida pornográfica. Isso na Europa, onde o padrão intelectual é sabidamente superior ao nosso. Basta comparar a qualificação das nossas universidades no ranking mundial. Perdemos para o Cazaquistão.

O caldo de cultura produzido na internet é espesso em sabedoria extraída do senso comum. Conceitos latrinários de filosofia de boteco adquirem a aura de verdade porque é a verdade da maioria. Os fanáticos de todos os fundamentalismos fazem a festa. Aí incluídos defensores do “politicamente correto”. Gente que insiste em impor à vida pública regras morais e costumes que adotou na vida privada. O que parecia ser parte da luta contra os preconceitos tornou-se instrumento ditatorial de hordas que se organizam contra as liberdades de quem não concorda com suas ideias. Nada mais preconceituoso.

O fenômeno criou um mercado próspero para as teorias de baixa extração intelectual. Os pregadores propõem bobagens absurdas e a maioria, em sua idiotia, repete. A mídia que restou, conformada a esse mercado, reproduz a logorréia que escorre do computador para as manifestações públicas mais deprimentes. Entre elas, essa mania recente de mulheres a mostrar os seios, sendo que algumas deveriam ser proibidas pelo estado de decadência física em que se encontram.

Uma preocupação apresentada no estudo é com a reprodução do lixo cultural por outros meios também poderosos. A pesquisa tomou uma amostra entre professoras do primeiro grau. Todas se mostraram influenciadas por movimentos da ignorância e naturalmente repassam suas ideias aos alunos. Isso indica que teremos uma geração de imbecis bastante fundamentados em teorias estúpidas.

Há salvação? O estudo não é conclusivo. E sabemos que o estúpido é, antes de tudo, um forte, porque sua força se tornou expressão coletiva através da rede mundial da internet. Teremos que conviver com a praga de nosso tempo. O estúpido está em todos os lugares. Seja escabroso, rabelaisiano ou ecológico. Religioso fundamentalista ou acadêmico emérito e laureado. Sacerdote nutricionista, teórico dos gêneros e da liberdade sexual. Há estúpido sumítico e valetudinário, como há estúpido que crê na hierarquia de valores, no patriotismo boçal e no direito de extravasar seus recalques no futebol e no carnaval. Há também os que acreditam nos direitos intocáveis de cães, gatos e de todos os animais irracionais. Talvez por solidariedade e identificação.

Eu, com todo o respeito, não acredito que haja estúpido neófito. Sou pessimista. A vida mostrou-me que não há condição para ser idiota. O idiota é idiota independente de gênero, classe social, idade, escolaridade, opção política, profissão ou religião. O estúpido nasce glorioso. A estupidez se impõe porque é a expressão da maioria que está aí para aplaudi-la. E não duvide, a estupidez, se ainda não chegou, está preparada para assumir o poder em todas as instâncias. Argh!

No cercadinho com o inimigo

Vivemos o tempo dos homens ocos, como lá atrás decretou T.S. Eliot. Também o aguçamento das mentiras, na visão de Marcel Proust ao ler as falsas notícias de vitórias francesas na Primeira Guerra Mundial. Em fuga das armadilhas fáceis das generalizações, Thomas Mann discordava de quem colocava o nazismo em igual patamar do comunismo.

— O nazismo é apenas o niilismo diabólico — teria declarado em 1949, alertando ainda que não era comunista.

Os três escritores passaram por guerras — Proust apenas pela Primeira Guerra (morreu em 1922). Já morando em Londres, Eliot, que era americano, permaneceu como professor e, em seu posto bancário, sem muitos percalços ao longo dos dois conflitos mundiais, somente decepcionado com a maldade humana. Basta ler “A terra desolada” e escutar seu mergulho no desencanto.

Mann, dos três, foi quem mais sentiu na pele os dramas de seu tempo. Para quem hoje joga a toalha diante da bozofrenia e da Covid-19, os desterros do escritor alemão, cuja mãe, Júlia, era brasileira, deveriam servir de paralelo.

Com uma homossexualidade sublimada, para desalento de seu filho Klaus, Thomas Mann, Nobel de Literatura em 1929, sentiu o cheiro do demônio já em 1933, com a ascensão de Hitler ao poder. Casado com uma judia, tratou de se mudar para a Suíça. Com o avanço das tropas nazistas na Europa, partiu para os Estados Unidos, onde se tornou um dos intelectuais públicos mais ativos e heroicos na luta contra Hitler.

Após a guerra, Mann, lenda viva da melhor intelectualidade, passou a ser perseguido pelo macarthismo — foi visto como comunista por ser um militante da paz. Ele, um rematado humanista, capaz de raciocinar em desafio aos dogmas políticos, resolveu deixar aquela loucura anticomunista e voltou a morar na Suíça, pouco depois do suicídio de seu filho Klaus Mann, também escritor e homossexual assumido. Se recusaria a permanecer muitos dias na Alemanha, por vergonha e inconformidade com o apoio de seus compatriotas ao nazismo.


Um livro como “The magician: a novel”, do escritor irlandês Colm Tóibín, espécie de biografia romanceada da vida de Mann, ao enveredar por seu diário e cartas pessoais, escande outro de seus dramas — a homossexualidade sublimada (definição de seu filho Klaus).

Era um tempo em que a orientação sexual fora do papai e mamãe dava cadeia. Proust morria de medo de como interpretariam o herói ambíguo de “Em busca do tempo perdido”. A França dele parecia ser mais tolerante que a Inglaterra, onde Oscar Wilde foi condenado por sodomia. Depois de cumprir sua pena, foi em Paris que Wilde passou seus últimos anos.

(Apenas em meados de 1960 a homossexualidade deixou de ser crime na Inglaterra dos Beatles e David Bowie.)

Perseguido pelo nazismo e pelo macarthismo, mas sem disposição de enfrentar mais essa pelota, intolerável mesmo para muitos de seus amigos, o alemão Thomas Mann fez da literatura o bunker confessional de sua sexualidade. “Morte em Veneza” explode o desejo entre um jovem efebo (baseado num personagem real) e um famoso e premiado escritor mais velho (alter ego de Mann). Visconti, ao filmar a obra em 1971, carregou mais na tensão sexual entre os dois amantes — vale dizer, ainda um escândalo naquela época.

A desinformação das redes sociais, reprodução preguiçosa do que foram os programas das rádios AM na década de 1980, sob a voz dos idiotas, teima em tirar de perspectiva e nivelar as atrocidades. Nazismo e comunismo não se assemelham em suas desumanidades. Lula não é comunista (ele é sindicalista), Putin (ao menos até agora) não é Hitler, e Bozo nem sequer chega a ser um Plínio Salgado, já que o integralista não era barrigudo e dominava a sintaxe.

Os tempos da alta conectividade sugerem que a comunicação se tornou apenas mais fácil, porém superficial e ainda mais manipulável. A era dos extremos enfrentada por Thomas Mann e T.S. Eliot recebeu em troca obras como “A montanha mágica” e “A terra desolada” ou “Guernica”, de Pablo Picasso, que também enfrentou duas guerras mundiais.

No Ano III de Bozo, até o momento, só se anotam a bunda de Anitta e o barulho pelo cancelamento de “Com açúcar, com afeto”. Pois é.

Estamos todos vivendo agora no mundo de Vladimir Putin

Jornalistas que escreveram sobre assuntos internacionais nas décadas de 1920 e 1930 se referiram à era como “pós-guerra”. Eles viram os eventos através do prisma da Grande Guerra que havia devastado a Europa apenas alguns anos antes. Os historiadores que escrevem hoje referem-se a esses mesmos anos como o período “entre guerras”, pela simples razão de que analisam o que aconteceu durante esses anos como parte da preparação para a ainda mais destrutiva Segunda Guerra Mundial. Se ao menos os jornalistas que escrevem na Europa dos anos 1930 tivessem a clareza da retrospectiva.

Todos nós devemos ter essa clareza hoje. A agressão militar da Rússia na Ucrânia é um daqueles momentos que nos impele a reinterpretar nossa própria época: o que chamamos de paz de 30 anos que se seguiu à Guerra Fria (com tendência a esquecer, consciente ou inconscientemente, as guerras na ex-Iugoslávia) agora terminou. Os historiadores do futuro vão olhar para essas últimas décadas, em geral, como olham para o período entre guerras, como uma oportunidade desperdiçada.

Quanto mais cedo todos admitirmos isso, melhor poderemos nos preparar para o que vem a seguir. Infelizmente, uma espécie de negacionismo egoísta permeia as capitais ocidentais e nos impede de ver o óbvio. Apelos apaixonados para defender a ordem europeia pós-Guerra Fria não têm sentido porque esta era acabou.

Após a ocupação da Crimeia pela Rússia em 2014, Angela Merkel, então chanceler da Alemanha, conversou com o presidente Vladimir Putin da Rússia e relatou ao presidente Barack Obama que, em sua opinião, Putin havia perdido o contato com a realidade. Ele estava, disse ela, vivendo em “outro mundo”. Hoje, todos nós estamos vivendo nele. Neste mundo, para citar Tucídides, “os fortes fazem o que podem e os fracos sofrem o que devem”.

Como chegamos aqui? Primeiro, devemos entender que esta não é a guerra da Rússia. É do Sr. Putin. Ele vem de uma geração particular de oficiais de segurança russos que nunca conseguiram se reconciliar com a derrota de Moscou na Guerra Fria. Diante de seus olhos, a União Soviética desapareceu do mapa sem perdas militares ou invasão estrangeira. Para eles, o atual ataque à Ucrânia é um ponto de inflexão lógico e necessário. A tabela imperial pode mais uma vez ser redefinida. Essas pessoas não estão interessadas em escrever o futuro, elas querem reescrever o passado.

Emad Hajjaj (Jordânia)

Enquanto observava mísseis russos atacando Kiev em um clima de indignação impotente, de repente percebi que muitos russos devem ter se sentido da mesma forma quando a OTAN estava bombardeando Belgrado há duas décadas. A invasão de Putin pode ser mais uma questão de vingança do que de grande estratégia.

Há uma distinção entre revisionismo e revanchismo. Os revisionistas desejam construir uma ordem internacional ao seu gosto. Os revanchistas são movidos pela ideia de retorno. Eles não sonham em mudar o mundo, mas em trocar de lugar com os vencedores da última guerra.

Se Putin está tendo sucesso hoje, o Ocidente só pode culpar a si mesmo. Enquanto a opinião pública ocidental se hipnotizava com a ideia de que a Rússia está em declínio acentuado – “um posto de gasolina com armas nucleares”, alguns gostavam de chamá-lo – o presidente russo começou a realizar sua estratégia. Durante anos, Putin vem consolidando sua esfera de influência sobre a antiga União Soviética, começando com sua guerra contra a Geórgia em 2008 e através da anexação da Crimeia em 2014. Mais recentemente, ele reforçou seu controle sobre a Bielorrússia e a Ásia Central. Agora ele deu o próximo passo dramático.

O presidente Biden disse na quinta-feira que, em resposta à invasão da Ucrânia, pretende fazer de Putin “um pária no cenário internacional”. Essa seria uma punição adequada para essa violação do direito internacional, mas as coisas podem não funcionar dessa maneira. Existe um perigo real de que, em vez disso, seja o Ocidente que se encontre mais isolado.

Nos últimos dois meses, a aliança Moscou-Pequim passou de hipótese para realidade, graças ao objetivo comum de desafiar o domínio americano. Embora as elites chinesas não estejam muito empolgadas com a invasão imprudente da Ucrânia pela Rússia (os chineses valorizam seu compromisso com a não violação da soberania do Estado), não há dúvida de que permanecerão do lado de Moscou. Veja como Pequim se recusou a descrever oficialmente a guerra de Putin como uma invasão. O presidente Xi Jinping pode ser o maior beneficiário da crise atual: os Estados Unidos não apenas parecem fracos, mas também agora se encontram atolados na Europa e incapazes de se concentrar na Ásia.

Muitos países veem o conflito entre a Rússia e o Ocidente como um conflito entre velhos imperialistas que dificilmente os afeta. De mais imediata preocupação é a forma como as sanções impostas pelo Ocidente irão aumentar os preços da energia e dos alimentos. O Ocidente só pode conquistar os céticos de seus esforços para combater Putin se conseguir mostrar aos que estão fora da Europa que o que está em jogo em Kiev não é o destino de um regime pró-Ocidente, mas a soberania de um recém-nascido pós-guerra. estado imperial. Alguns já entendem essa ideia: o embaixador do Quênia nas Nações Unidas captou o que está acontecendo na Ucrânia quando disse: “A situação ecoa nossa história. O Quênia e quase todos os países africanos nasceram com o fim do império.”

O que significa o fim da paz para a Europa? As consequências serão terríveis. A guerra na Ucrânia tem o potencial assustador de aquecer conflitos congelados na periferia do continente, inclusive em outras partes do espaço pós-soviético e nos Balcãs Ocidentais. Os líderes da Republika Srpska podem interpretar a vitória de Putin na Ucrânia como um sinal para desmantelar a Bósnia. Líderes amigos da Rússia dentro da União Européia também se sentirão encorajados pela vitória de Putin. A invasão da Ucrânia uniu a Europa, mas também prejudicará sua autoconfiança.

Mas, mais fundamentalmente, os eventos da semana passada exigirão um repensar radical do projeto europeu. Nos últimos 30 anos, os europeus se convenceram de que a força militar não valia o custo, e que a preeminência militar americana era suficiente para dissuadir outros países de prosseguir a guerra. Os gastos com defesa caíram. O que importava, entoava a sabedoria recebida, era o poder econômico e o poder brando.

Agora sabemos que as sanções não podem parar os tanques. A acalentada convicção da Europa de que a interdependência econômica é a melhor garantia para a paz revelou-se errada. Os europeus cometeram um erro ao universalizar sua experiência pós-Segunda Guerra Mundial para países como a Rússia. O capitalismo não é suficiente para temperar o autoritarismo. O comércio com ditadores não torna seu país mais seguro e manter o dinheiro de líderes corruptos em seus bancos não os civiliza; isso corrompe você. E a adoção dos hidrocarbonetos russos pela Europa só tornou o continente mais inseguro e vulnerável.

O efeito mais desestabilizador da invasão da Rússia pode ser que muitos ao redor do mundo comecem a concordar com o presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky. No Fórum de Segurança de Munique neste mês, ele afirmou que Kiev cometeu um erro ao abandonar as armas nucleares que herdou da União Soviética. A relutância dos Estados Unidos em defender um país amigo como a Ucrânia pode fazer pelo menos alguns aliados americanos acreditarem que as armas nucleares são a única maneira de garantir sua soberania. Não é difícil imaginar que os vizinhos da China também pensem assim. O fato de que a maioria dos sul-coreanos agora é a favor de seu país obter armas nucleares sugere que os movimentos de Putin na Ucrânia colocam em risco o regime mundial de não proliferação nuclear.

Em 1993, o grande poeta e ensaísta alemão Hans Magnus Enzensberger previu que a Guerra Fria seria seguida por uma era de caos, violência e conflito. Refletindo sobre o que observou na Iugoslávia e os distúrbios urbanos nos Estados Unidos, ele viu um mundo definido por uma “incapacidade de distinguir entre destruição e autodestruição”. Neste mundo, “não há mais necessidade de legitimar suas ações. A violência se libertou da ideologia”.

O Sr. Enzensberger estava certo.
Ivan Krastev, presidente do Centro de Estratégias Liberais e membro permanente do Instituto de Ciências Humanas de Viena

O veneno do nacionalismo

Existem minorias russas, mais ou menos importantes, e mais ou menos ostracizadas, em todos os países que resultaram da implosão da União Soviética.

Em 2011, visitei Talín, a capital da Estônia, para apresentar a tradução de um dos meus romances. Na época, cerca de um terço da população era de origem russa. Muitos dos russos estonianos, porém, não possuíam cidadania nenhuma — e nenhum direito.

Os estonianos étnicos acusavam os compatriotas russos, que viviam em condições terríveis, de recusarem uma integração efetiva: “Quer um exemplo? Eles se negam a aprender a nossa língua”. Como rapidamente percebi, aquele era um tema incômodo para todos.

Na Letônia, onde os russos chegaram a constituir quase 40% da população, o conflito entre as duas comunidades é ainda mais aceso. 

Consigo compreender o melancólico sentimento de orfandade dos descendentes dos russos nas antigas repúblicas soviéticas. Na mãe-pátria, uma boa parte dos cidadãos também tem dificuldade em aceitar o colapso da URSS. Os russos podem não ter boas recordações do comunismo, mas sofrem com saudades do império, e do tempo em que eram vistos como uma superpotência, lado a lado com os Estados Unidos.


Ironicamente, como ficou claro enquanto tudo ruía, a URSS era um gigante com pés de barro. O equívoco do seu poder foi sendo alimentado pelos próprios americanos, aos quais convinha a imagem de uma União Soviética forte e perigosa, como forma de justificar o crescimento do arsenal nuclear, e o “combate pela civilização ocidental”. Se não tens um inimigo poderoso, inventa-o. Afinal, a grandeza de um país se mede pela dimensão dos seus inimigos.

Tendo tudo isto em conta, o ataque em curso contra a Ucrânia não parece tão surpreendente. Vladimir Putin nunca hesitou em usar o nacionalismo e a nostalgia imperial (um subproduto do primeiro) para reforçar o seu poder. Talvez acredite na legitimidade russa em proteger os órfãos do império. É até possível que acredite no disparate que disse, na quinta-feira, para justificar a invasão: que a Ucrânia é terra ancestral russa. Acredite ou não, muitos dos seus compatriotas acreditam. Milhões de russos, inclusive alguns que sempre o criticaram, irão agora unir-se à sua volta.

O nacionalismo é uma doença infantil da Humanidade — talvez a mais perversa. Em pleno século XXI, depois de termos criado condições extraordinárias para a partilha de conhecimentos e de manifestações culturais, já não deveria haver espaço para pensamentos nacionalistas e outros atavismos ideológicos.

Vladimir Putin, na Rússia, ou Jair Bolsonaro, no Brasil, são excreções de um passado que nos envergonha a todos. Não pertencem a este tempo. A questão é: como fazê-los regressar ao passado a que pertencem?

Pensamento do Dia

 


Meia volta, volver!Brasil é neutro na guerra da Ucrânia, diz Bolsonaro

À caça de votos para se reeleger, Bolsonaro visitou Putin em Moscou e se disse solidário à Rússia para agradar o pessoal do agronegócio que importa fertilizantes de lá. De resto, Bolsonaro admira Putin como governante mão de ferro. E precisava mostrar que não está tão isolado assim como dizem seus adversários.


Se negócios são negócios, ele deveria vestir a camisa da China, nosso maior parceiro comercial no mundo. Acontece que a China se diz comunista, e a Rússia não é. Sem Donald Trump, Bolsonaro perdeu em quem se espelhar. Putin é o governante autoritário que Bolsonaro sonhou ser um dia, e ainda sonha.

Pressionado pelos Estados Unidos e países da Europa, Bolsonaro cedeu a autorizou Ronaldo Costa Filho, embaixador do Brasil junto à ONU, a condenar a invasão russa à Ucrânia. Então, o embaixador disse na última sexta-feira:

“As preocupações de segurança manifestadas pela Rússia nos últimos anos, particularmente em relação ao equilíbrio estratégico na Europa, não dão à Rússia o direito de ameaçar a integridade territorial e a soberania de outro Estado”.


Nem bem haviam se passado 48 horas, depois de mais um dia de sol na praia do Guarujá, Bolsonaro voltou a alinhar-se a Putin. Criticou quem chama a guerra na Ucrânia de massacre. E defendeu o direito de Putin de ocupar regiões separatistas da Ucrânia:

“Eu entendo que não há interesse por parte do líder russo de praticar um massacre. Ele está se empenhando em duas regiões do Sul da Ucrânia que, em referendo, mais de 90% da população quis se tornar independente”.

“Nós queremos a paz, [somos] pela neutralidade. Não quero trazer sofrimento para nossa Nação. Uma decisão minha pode trazer sérios prejuízos a agricultura do Brasil. Como já disse, a cada cinco pessoas no mundo, uma é alimentada pelo Brasil”.

À falta de notícias positivas para Putin, a imprensa russa deu farta publicidade às declarações de Bolsonaro, que, não satisfeito com o que dissera, debochou do presidente da Ucrânia:

“O comediante que foi eleito presidente da Ucrânia, o povo confiou em um comediante para traçar o destino da nação. Eu vou esperar o relatório da ONU para emitir a minha opinião”

Bolsonaro, boca de aluguel de Putin e do agronegócio, arrisca-se a virar um pária, se já não é.

Se Putin vencer, será o retorno à barbárie

Vladimir Putin precisa vencer rápido a sua guerra de ofensiva contra a Ucrânia. Não porque tenha uma consciência ou escrúpulos. A questão é, antes, que caixões de jovens russos mortos na luta contra o povo-irmão ortodoxo suscitam dúvidas quanto à propaganda estatal de que esta seria uma guerra defensiva.

Em breve chega no Leste Europeu a época de jejum pré-pascoal, que o ex-homem da KGB, o serviço secreto da União Soviética, aproveitará para se apresentar como cristão devoto, de vela na mão. Só que isso não combina com as imagens de mulheres, crianças e homens que, por estes dias, morrem nos ataques do exército da Rússia.

Mas essa guerra não vai passar tão rápido. Mesmo que tenham que lutar com coquetéis molotov e com as mãos nuas, os ucranianos não vão desistir! O povo russo provou grande capacidade de sofrer durante a era soviética, e coragem na Segunda Guerra Mundial, mas os ucranianos não ficam nada atrás. Além disso, têm a primazia moral: estão defendendo seu país, suas famílias, sua vida. Os soldados russos, em contrapartida, chegam como agressores, ocupadores, fratricidas. 
Paz e liberdade não são grátis


Para o tão reticente Ocidente, a questão é a seguinte: até agora, não havia hostilidade em relação à Rùssia. Pelo contrário: fazíamos negócios, cooperávamos na política, cultura e ciência. Milhões de russos vinham como turistas à Espanha, Turquia ou Grécia, lá onde também os europeus ocidentais passam suas férias. Justamente por isso, quase ninguém no Ocidente conseguia imaginar que Putin cometeria esse crime, e que os russos seguiriam essa loucura.

Sim, o presidente da Rússia tem razão: os europeus estão mal equipados, têm tomado a sua vida na prosperidade como um fato inquestionável. Mas isso está mudando, agora mesmo. Pois todo europeu que ame a liberdade e a paz percebe essa ofensiva contra os ucranianos como um ataque contra si mesmo. Todo mundo está vendo que Putin mente quando abre a boca, que não se atém a nenhum pacto nem regra internacional.

De repente, muitos na Alemanha compreendem, com nitidez maior do que lhes conviria, que só os Estados Unidos garantem a sua segurança – e estão gratos por isso. Mas é justo exigir de uma mãe do Mississipi que seus filhos se engajem pela segurança da Europa, quando outra mãe em Berlim não está disposta a isso? A Alemanha precisa acordar e compreender: a paz, a liberdade e a nossa democracia não são de graça.

A disposição de tornar as Forças Armadas alemãs novamente aptas à mobilização e a fortalecer a Otan cresce com cada foto de mulheres e crianças em prantos nos metrôs de Kiev, onde vão buscar proteção das bombas russas. Os europeus de dispõem a fazer sacrifícios em nome de seus valores. E vão fazer frente à declaração de guerra da Rússia contra a ordem pacítica da Europa.
Putin mente, China observa

As perspectivas que o mundo civilizado tem de ganhar essa luta, são boas. Putin pode bem tentar convencer seus compatriotas e o mundo de que a Rússia é forte, mas também isso é uma mentira. A moral dos russos é forte quando eles sabem que estão do lado do bem. Apesar da imprensa manipulada pelo Estado, vão cada vez mais perceber que sua guerra contra o povo-irmão ucraniano é um crime.

Além disso, a Rússia está economicamente fraca, pois Putin é incapaz de modernizar seu país. A atual classe política é ainda mais corrupta do que nos tempos do líder do Soviete Supremo Leonid Brejnev. E o presente chefe do Kremlin só suporta a seu redor servidores submissos, que ainda por cima humilha diante das câmeras.

Sanções econômicas e gastos de defesa significativamente mais altos não bastarão para vencer a confrontação com o ditador. A elite criminosa da Rússia tem que ser isolada; as relações diplomáticas, reduzidas ao mínimo.

Acima de tudo, entretanto, o Ocidente não deve fechar suas portas aos jovens russos. A economia alemã e americana procura desesperadamente centenas de milhares de profissionais. Quem queira emigra da Rússia, a fim de levar uma vida normal em ambiente seguro, deve ser bem-vindo.

Pois uma coisa é certa: a guerra da Rússia contra a Ucrânia vai custar muito dinheiro. Putin só conseguirá manter seu domínio se transformar seu país num grande presídio – como a China.

O que, aliás, é mais um motivo por que a civilização amante da liberdade deve vencer esse conflito: Pequim está acompanhando minuciosamente o que ocorre na Ucrânia. Caso Putin tenha sucesso, a China atacará Taiwan e, em algum momento, também outras nações.

Aí, só o que vai valer por todo o mundo é a lei do mais forte. A humanidade se precipitaria de volta na barbárie. Mas a coisa não precisa ir tão longe se, a partir de já, estivermos dispostos a também fazermos sacrifícios em nome da nossa liberdade.

Miodrag Soric

Roleta-russa e facciosismos

“Aqueles que se sentiram os vencedores após o fim da Guerra Fria e pensaram que escalaram o Monte Olimpo, logo descobriram que o chão estava caindo… desta vez era a vez deles, e ninguém podia parar o momento.” A frase é de Putin, proferida em outubro passado, durante a Conferência de Valdai, que tinha como tema a “Agitação Global no Século 21”. Agitador destemido, o Presidente russo não desiludiu. No seu discurso sobre o novo equilíbrio para o sistema mundial foi muito claro sobre o que vê como o fim do domínio do Ocidente nos assuntos internacionais, anunciando que se guiará por um “saudável conservadorismo”.

Foi imbuído deste “conservadorismo” que esta semana Putin proferiu o seu mais imperialista, colonialista e radical discurso de que há memória, encenado para consumo tanto externo como interno, ao anunciar o reconhecimento da independência das repúblicas separatistas de Donetsk e Lugansk, e dizer que a Ucrânia é uma “colónia de fantoches”, mas que foi inteiramente criada pela Rússia comunista de Lenin. Quase que se ouvia soar em fundo o God Save the Tsar!, o hino nacional do império russo. “Querem descomunização? Está bem. Estamos prontos para vos mostrar o que significa a verdadeira descomunização”, atirou em tom ameaçador.


Há muito que está claro que Putin não acredita na ordem mundial pós-Guerra Fria assente em pactos de não agressão e em princípios democráticos. Sobre a Ucrânia, aliás, Putin já tinha escrito um ensaio em julho em que falava da “união histórica” entre os dois países e deixava claro que via os ucranianos e os russos como “um povo – um único povo”, ligado por uma “unidade espiritual” que determina que “a verdadeira soberania da Ucrânia só é possível em parceria com a Rússia”.

Desde pelo menos 2014, quando a Rússia anexou a Crimeia e se procurou estabelecer nos Acordos de Minsk uma solução para o conflito na região do Donbass, que esta nova desordem mundial era evidente para quem a quisesse ver. Com a demissão de Barack Obama e de David Cameron do tema, é claro hoje que o “formato da Normandia” estabelecido foi um rotundo falhanço de François Hollande e de Angela Merkel, mais interessados em não hostilizar nem fechar a torneira do gás do que em travar as ambições russas. Putin ficou à solta para continuar em busca do império perdido, aliando-se à China na construção do bloco económico oriental contra o bloco ocidental da Europa e dos EUA.

Com uma situação interna pouco entusiasmante, o mundo a sair de uma pandemia e novos líderes mundiais que considera fracos – Scholz na chancelaria alemã, Biden na Casa Branca e o ex-humorista Zelenski como Presidente da Ucrânia –, Putin sentiu que este era o tempo certo para atacar. Não há inocentes nesta matéria (e os EUA e a NATO claramente não são), mas, não tenhamos dúvidas, é de um ataque que se trata, que tem como pano de fundo a maior deslocação militar desde a Guerra Fria.

Com que objetivo final, não sabemos. Ficar-se-á Putin apenas pelos territórios dominados separatistas ou inclui toda a região de Donbass? Avança por outros estados da Ucrânia? Tudo em Putin é imprevisível e potencialmente irremediável, o seu jogo é a roleta-russa. Será preciso nervos de aço para acompanhar o desenrolar da situação que pode ficar-se “apenas” por sanções internacionais, descambar num conflito armado sério na Europa ou escalar para uma guerra mundial. Isto envolvendo um país carregado de arsenal nuclear – que fez questão de exibir nos últimos dias.

Com este pano de fundo, é sintomática mas não surpreendente a posição do PCP. Os comunistas portugueses, que claramente ainda não perceberam que a Rússia de comunista já não tem nada e se transformou num regime autocrata com laivos de fascismo, vieram exigir “o fim da escalada de confrontação promovida pelos EUA e a Nato contra a Rússia”, “uma estratégia agressiva de imperialismo concretizada após o golpe de Estado de 2014 que foi promovido pelos EUA, a NATO e a UE”. Justifica-se, portanto, para o PCP o imperialismo do bem (o russo) contra o imperialismo dos maus (os americanos e seus aliados)…

É muito curioso perceber como os extremos se tocam quando o tema é um herdeiro da derrocada da URSS que se transformou em autocrata nacionalista e conservador. A par dos comunistas e até bloquistas lusos, também a extrema-direita de Le Pen, Éric Zemmour ou Bolsonaro (o Chega não foi ainda tão longe como os “amigos”) relativiza e enquadra Putin. Há coisas que dificilmente mudam, e a tendência para o facciosismo é infelizmente uma delas.

O silêncio da passividade

Primeiro eles vieram atrás dos comunistas, E eu não protestei, porque não era comunista;


Depois, eles vieram pelos socialistas, e eu não disse nada, porque não era socialista;

Mais tarde, eles vieram atrás dos líderes sindicais, E eu calei, porque não era líder sindical;

Então foi a vez dos judeus, E eu permaneci em silêncio porque não era judeu;

Finalmente, vieram me buscar, E já não havia ninguém para protestar.
Martin Niemöller

The end?

É isso mesmo? O fim do mundo? Bem na minha vez? Cinquenta mil anos para eu surgir como ser humano e fui cair justo na geração do Trump, do Putin, do Jair e da dancinha de TikTok? Sacanagem.

Eu não me importaria de ser caçador-coletor no século 170 a.C. Flanar peladão com meu bando, tomando banho de rio, chupando uns cajus, mascando uns Psilocybe cubensis. Ah, mas e o ar-condicionado? A penicilina? O Nike Air? Grandes coisas.

Sabia que a tribo de caçadores-coletores mais ferrada de que se tem notícia trabalhava, para garantir suas necessidades básicas, menos do que oito horas por dia? Viviam lá no deserto da Austrália, numa pindaíba desgraçada, mas não há nos anais da antropologia um único registro de burnout.

Eu nasci em 77. Tá, era ditadura, havia guerra fria, quente e as tragédias de sempre, mas tinha também uns Bobs Marleys e uns Johns Lennons por aí, prospectando possibilidades mais auspiciosas. Evito ser pessimista, mas não me parece que nada de bom virá da imersão intensiva de todos os habitantes do planeta em vídeos do Instagram em que balas Mentos fazem garrafas pet jorrarem Coca-Cola. Imagino os ETs do futuro: “Eles destruíram a atmosfera, as florestas e os mares para produzir energia para trabalhar de graça para o celular?!”. É.

O Bob Marley veio pro Brasil em 1980. Olha isso: teve um dia, em 1980, em que o Bob Marley jogou bola com o Chico Buarque, o Toquinho e outros chegados. Ou seja, teve uma semana, em 1980, em que a conversa nas esquinas foi essa –ainda havia conversas e esquinas, em 1980. Ontem, num grupo de WhatsApp, o debate era sobre as consequências de uma rachadura no casulo de concreto de Tchernóbil. Ó que delícia.


Não quero ser saudosista, mas diante do fim dos tempos vamos focar onde? Os quatro cavaleiros do apocalipse vieram mesmo, juntos e misturados: pandemia, aquecimento global, fome e essa brisinha amena de uma possível Terceira Guerra Mundial. Nunca tinha visto o presidente de um país ameaçar o mundo, ao vivo, com ogivas nucleares. Confesso que foi um tiquinho assustador. Hoje, meu filho de sete anos veio me contar que viu um míssil no céu. Gastei um bocado de saliva diante de um mapa-múndi para convencê-lo de que a guerra é bem longe da gente. (Evitei revelar que a gente faz coisas piores.)

Comparando o Jornal Nacional com o Apocalipse de São João, você pensa: rapaz! Não é que Deus acertou tudinho? Ainda não surgiram os gafanhotos do tamanho de “cavalos aparelhados”, com “rostos de homem”, “cabelos de mulheres” e “dentes como de leões”. Pelo andar da carruagem, contudo, não duvido que já tenha gafanhotão sinistro fazendo escova e luzes em algum hangar cósmico por aí.

Talvez seja Poliana da minha parte, mas cês não acham que teve alguns momentos nos últimos três ou quatro séculos em que a humanidade parecia ter alguma chance? Sei lá, esse lance de substituir o despotismo pela democracia, por exemplo, soava promissor. Agora, se eu entendi bem, o contrato social saiu de moda. Lei –não alguma lei específica, mas a ideia de haver lei– é uma “opinião” que não anda muito em alta. O velho e bom “se organizar direitinho, todo mundo transa”, que vinha sendo elaborado desde Hobbes, Locke e Rousseau, foi trocado pelo “não te estupro porque você não merece”. Aos olhos do Putin, a Ucrânia merece.

Basta de depressão ou nostalgia. Vou fechar essa crônica de forma equilibrada, com uma notícia boa e uma ruim. A ruim primeiro, para terminar por cima: o mundo tá acabando. Agora a boa: é que o mundo tá acabando, também.