quarta-feira, 8 de dezembro de 2021

Pensamento do Dia

 

Agus Widodo (Indonésia)

Desmatamento na Amazônia não traz progresso social

Na Amazônia Legal, as condições sociais e ambientais das pessoas que vivem em seus 772 municípios estão se deteriorando. O cenário é capturado pelo Índice de Progresso Social (IPS) feito para a região, que atingiu a pontuação de 54,59 para todos os nove estados – abaixo dos 54,64 verificados no último levantamento, de 2018.

O IPS Amazônia 2021 é baseado numa metodologia internacional e realizado no país pelo Imazon (Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia). Os resultados, divulgados pelos pesquisadores na noite desta segunda-feira (06/12), mostram que a nota da região é inferior à média do Brasil, que é de 63,29.

As cidades onde o desmatamento mais avançou nos últimos anos têm as piores colocações no índice. "Isso mostra que o desmatamento em geral é acompanhado de pobreza e baixo progresso social. Desmatamento não melhora a vida das pessoas. Isso o estudo mostra de forma categórica", comenta um dos autores do relatório, Adalberto Veríssimo.

Altamira e São Félix do Xingu, campeãs de destruição florestal, receberam pontuação abaixo da média da Amazônia: 52,95 e 52,94, respectivamente. No ranking dos 772 municípios listados, elas aparecem nas colocações 509 e 513.

Entre as cidades nas últimas posições, muitas são marcadas pela degradação florestal e conflitos sociais, como Pacajá (771º) e Pau D'Arco (763º); e o garimpo ilegal, como Jacareacanga (762º). Todas estão localizadas no Pará.

"A Amazônia é muito importante para o Brasil e para o mundo em termos de recursos naturais. Mas ela sofre com um quadro grave em termos sociais. Isso é incompatível e insustentável em relação à sua importância ambiental para o planeta", pontua Veríssimo.

Ao contrário de outros índices, o IPS exclui de propósito dados econômicos. Desenvolvida por pesquisadores da organização Social Progress Imperative, baseada em Washington, nos Estados Unidos, a ferramenta analisa apenas indicadores sociais e ambientais.

Segundo seus fundadores, os critérios rigorosos do índice têm sido aplicados para que países possam entender seus desafios sociais e acelerar esforços para a construção de sociedades inclusivas, igualitárias e sustentáveis.

O novo IPS Amazônia trabalha com 45 indicadores organizados em três dimensões. O grupo "necessidades humanas básicas" analisa componentes como mortalidade infantil, coleta de lixo e homicídios. Em "fundamentos para o bem-estar", são analisadas informações referentes à qualidade da educação, densidade internet banda larga, desmatamento e emissões de CO2, entre outros.

Já em "oportunidades", são considerados dados como mobilidade urbana, violência contra indígenas e contra a mulher, empregados com ensino superior.

No ranking de pontuação dos noves estados amazônicos, que vai 0 a 100, Mato Grosso tem a melhor colocação (57,94). Pará (52,94) e Roraima (52,37) ficam com as piores posições.

Quanto às cidades, Cuiabá (74,42), em Mato Grosso, e Palmas (70,23), em Tocantins, são as bem avaliadas. No geral, as capitais e parte dos municípios mais populosos obtiveram notas mais altas.

"São variações dentro de uma realidade difícil. A Amazônia está muito abaixo; e o Brasil já está muito atrás do resto do mundo", afirma Veríssimo.

No ranking global do Social Progress Index, a Noruega tem a melhor avaliação, 

Dentre os fatores que mais influenciam o progresso social e, portanto o IPS, estão acesso à saneamento básico, segurança pública, capacidade de atrair e reter mão de obra com ensino superior.

Segundo o relatório, a pontuação da componente segurança pessoal (56,25) demonstra que a violência se tornou um problema crônico em toda a Amazônia. "Isso é atestado pela alta taxa de homicídios nos municípios", conclui o documento.

Acesso à internet rápida também é visto como um ponto crítico. "Essa é uma componente importante para o progresso social. Se não tem internet, não tem cidadania plena no século 21. Não tem como fazer trabalho remoto, ter acesso a serviços públicos e ao ensino", argumenta Veríssimo.

Dos 12 componentes do IPS Amazônia, a metade (água e saneamento, segurança pessoal, acesso à informação e comunicação, direitos individuais, liberdades individuais e acesso à educação superior) possui um baixo índice médio, ou seja, menor que 60.

A Amazônia Legal é um conceito criado ainda na década de 1950 para promover uma agenda de desenvolvimento para a região. Sua delimitação não é baseada exclusivamente na vegetação, mas inclui conceitos geopolíticos. Por isso que, além da Floresta Amazônica, há uma parte de Cerrado e do Pantanal em seu mapa.

Segundo dados atualizados do IBGE, Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, a região tem uma área de 5,2 milhões de km², o que corresponde a 59% do território brasileiro. Ela engloba os estados do Acre, Amapá, Amazonas, Mato Grosso, Pará, Rondônia, Roraima,Tocantins e parte do Maranhão, onde vivem atualmente cerca de 28 milhões de habitantes.

Estados da região ocupam também posições inferiores em diversos outros indicadores sociais e econômicos: os que menos contribuem para o Produto Interno Bruto nacional, por exemplo, são Roraima, Acre e Amapá.

Por outro lado, a Amazônia tem sido nos últimos anos o epicentro da destruição ambiental no planeta, com aumento do desmatamento, invasão de terras indígenas e áreas protegidas, aumento do garimpo ilegal e grilagem.

"Desde o início do ciclo de ocupação da Amazônia com base no desmatamento, na década de 1970, até os dias atuais, os resultados sociais, econômicos e ambientais têm sido desastrosos", alerta o relatório. Um exemplo é o fato de, em 2020, a Amazônia ter contribuído com apenas cerca de 9% do PIB nacional, mas ter gerado 52% das emissões de gases de efeito estufa do país.

Para Veríssimo, o que é visível aos olhos de quem vive na Amazônia fica evidente nas análises científicas. "Desmatamento não compensa, não melhora as condições sociais. Ao contrário. A gente tem visto que desmatamento tende a agravar a situação de desigualdade, de conflito, de violência", conclui.
Nádia Pontes

Frase do Dia

 


Curió, Heleno e Bolsonaro

O buraco que ficou em Serra Pelada é a metáfora perfeita do Brasil que deixa gente, terra, meio ambiente e Amazônia aniquilados para o proveito de poucos

Quem é mais velho lembra, quem não lembra basta digitar "Serra Pelada" para encontrar imagens do que um dia foi o maior garimpo a céu aberto do mundo, nos anos 1980, no sul do Pará. Fotografias de Sebastião Salgado mostram homens cobertos de lama, arqueados sob o peso dos detritos que tiravam das entranhas da terra, na esperança de enriquecer.



Pouquíssimos ficaram ricos com o ouro. A maioria morreu de doenças, tiro, faca ou foi soterrada. No lugar, restou uma imensa cratera e um lago de mercúrio. Esse inferno foi controlado com mão de ferro por um militar do Exército, o Major Curió, que participara da repressão à Guerrilha do Araguaia, nos anos 1970. Em denúncias do Ministério Público Federal, Curió é acusado de tortura e assassinato. Não por acaso, é amigo de quem? Sim, Bolsonaro.

Lembrei de tudo isso ao ler a reportagem de Vinicius Sassine, nesta Folha, mostrando a rapidez do ministro da Segurança Institucional, general Augusto Heleno, o decrépito, em autorizar projetos de pesquisa de ouro, em São Gabriel da Cachoeira, no oeste da Amazônia.

Alguns dos empresários beneficiados são infratores ambientais, com histórico de problemas com o Ibama. E é a primeira vez que empresas recebem autorizações para pesquisar ouro nessa região, bem preservada e com várias terras indígenas. O buraco que ficou em Serra Pelada é a metáfora perfeita do Brasil que une na mesma linha do tempo Curió, Bolsonaro e Heleno. Gente, terra, meio ambiente, Amazônia, tudo aniquilado para o proveito de poucos.

Bolsonaro sabe que 2022 será seu último ano no poder, então vai correr para fazer (ou desfazer) tudo que não conseguiu até agora. Movimentos do Executivo e do Congresso andam juntos. A Câmara pode dar um "liberou geral" para as mineradoras se aprovar o novo Código de Mineração. Ficaria faltando o projeto que permite mineração em terras indígenas. Por enquanto, tal vilania encontrou resistência. A sensação é de que o Brasil só sai do lugar se for para dar um passo atrás.

Bolsonaro blinda a corrupção

Jair Bolsonaro gostava de encher a boca para dizer que em seu governo não há corrupção. Gostava, porque, nas últimas vezes em que tratou do assunto, afirmou que não sabe dizer se há ou não.

Acontece que ele sabe, sim, a corrupção que acompanha não só seu governo, mas sua família, desde a gênese da construção de um império patrimonial erguido à custa de mandatos eletivos, lançando mão de toda a sorte de expedientes rasteiros para “otimizar” os ganhos provenientes deles.

E, desde que assumiu a Presidência da República, se utiliza do peso de seu poder para exigir de subordinados que usem a estrutura do Estado para blindar a família e os aliados e para impedir que esses esquemas nebulosos sejam apurados a fundo.


O que acontece agora, simultaneamente, na Polícia Federal, no Coaf, na Receita Federal e no Departamento de Recuperação de Ativos e Cooperação Jurídica Internacional (DRCI), órgão do Ministério da Justiça, é uma tentativa desesperada de proteger o filho Zero Um do presidente, o senador Flávio Bolsonaro, e o blogueiro explosivo Allan dos Santos, foragido da Justiça com extradição determinada pelo ministro Alexandre de Moraes.

No caso de Flávio, não há novidade no<em> modus operandi</em> do clã. Desde sempre, Bolsonaro concebeu família e política como uma extensão uma da outra. O esquema no gabinete do filho Zero Um na Assembleia Legislativa do Rio está de tal forma mapeado e comprovado que só resta ao presidente deixar a impressão digital em demissões, perseguições, exigências a ministros e remanejamentos de órgãos de lá para cá, com o único e indisfarçado objetivo de impedir que prossigam as investigações contra ele. O aparcelamento desavergonhado das pastas da Justiça e da Economia para esse fim, sob a anuência escandalosa dos ministros Anderson Torres e Paulo Guedes, corre em paralelo com uma pesada estratégia de melar os processos também na Justiça, até aqui com o beneplácito de sucessivas instâncias, começando pelo Tribunal de Justiça do Rio e transbordando para o Superior Tribunal de Justiça e a Segunda Turma do Supremo Tribunal Federal (STF).

O afã de proteger Allan dos Santos, investigado em dois inquéritos no STF, é mais atípico. Outros soldados das fake news bolsonaristas que cometeram crimes semelhantes e receberam castigos igualmente duros, como Roberto Jefferson, Daniel Silveira ou a extremista Sara Giromini, não contaram com tamanha preocupação da parte de Bolsonaro e dos filhos para limpar sua barra.

O que será que Allan dos Santos sabe, e ameaça contar caso seja capturado, que faz com que Bolsonaro determine a um ministro e a um preposto dos filhos transformado em secretário nacional de Justiça que demitam delegados e servidores em série, editem portarias em desacordo com a lei e exijam ter acesso a informações que não lhes são devidas, tudo referente ao processo de extradição do pseudojornalista?

Agora se está diante da esquizofrênica situação em que a Polícia Federal tem de investigar se o DRCI está ou não submetido a uma tentativa de obstrução de investigação a que ela também está!

Nesse caso, como no do orçamento secreto, o STF, depois de tentar atuar como freio a abusos, faz vista grossa ao que acontece. Rosa Weber finge não ter visto que senadores e deputados desobedeceram a sua ordem de dar transparência às emendas do relator.

E Alexandre de Moraes, depois de meses de atuação implacável, parece disposto a um fim de ano mais light, desde que Michel Temer entrou no circuito, e demora a dar um basta a essa explícita tentativa de melar a extradição de um foragido que ele mesmo ordenou.

Dessa maneira bipolar não se contém uma praga de gafanhotos institucional como são a família e o governo Bolsonaro. Assim, sobrará muito pouco da estrutura de fiscalização e controle do Estado quando essa turma finalmente largar o osso.

'Vamos virar uma grande fazenda': Brasil vive acelerada desindustrialização

“Sou o terceirizado, do terceirizado, do terceirizado do Mercado livre”. É assim que Diego Machado Ferreira, de 34 anos, explica sua situação trabalhista. Demitido da Ford em 2019, o ex-metalúrgico tem uma rotina semelhante à do personagem principal do filme Você não estava aqui, de Ken Loach. Sai às 6h da manhã para encarar a fila de entrega do galpão localizado no Parque São Lourenço, extremo Leste da capital paulista. Quanto mais pacote ele consegue despachar, mais ele recebe, o que significa comprometer o almoço e, com frequência, contar com uma ajudante para acelerar as entregas. A diferença entre ficção e realidade é que, ao contrário do personagem do filme, Ferreira não comprou a ideia de que ele é seu próprio patrão por ter aberto uma microempresa. “Não me sinto empreendedor.”

Ferreira faz hoje parte do grupo de trabalhadores jovens, altamente escolarizados e frustrados com as expectativas de emprego e melhoria de condições de vida, que o sociólogo Giovanni Alves chama de precariado. Essa classe social foi forjada pela promessa de ascensão social por meio da educação e do emprego. Porém, o futuro que se projetava para o país durante dos governos petistas ―com uma política industrial voltada para fortalecer e modernizar empresas nacionais― , não se concretizou. “Está em curso no Brasil um processo de desconstrução do sistema de segurança e saúde do trabalho que visa atender à demanda de um novo projeto econômico em desenvolvimento”, explica o cientista social Fausto Augusto Júnior, diretor técnico do Dieese.

O acirramento do processo de desindustrialização no país é um sintoma dessa mudança. Em setembro, a norte-americana Ford fechou a fábrica da Troller em Horizonte, região metropolitana de Fortaleza (CE), deixando 446 trabalhadores desempregados. Essa medida finalizou a saída da empresa do Brasil, anunciada no começo do ano. Com a transferência de sua produção para a Argentina, foram fechados também suas unidades em Camaçari (BA) e Taubaté (SP) com a demissão de 5.000 pessoas. E a Ford não foi a única. Nos últimos dois anos, as montadoras alemãs Mercedes Benz e Audi, as farmacêuticas Roche (Suíça) e Eli Lily (EUA) e a empresa de eletroeletrônicos japonesa Sony também anunciaram sua saída do Brasil.


“A visão de futuro do Governo Bolsonaro é a de um país produtor de comida, minério e energia”, afirma Augusto, por isso o abandono de tudo relacionado com políticas industriais, inclusive os cortes de investimentos em ciência e tecnologia. “Temos ouvido ministros falarem que o Brasil será a grande fazenda do mundo, pois será também a grande mina. Não espere nenhuma indústria de carro elétrico chegando por aqui”, lamenta.

Dados do Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (Iedi) mostram que o setor manufatureiro atingiu mínimas históricas na pandemia. A indústria de transformação (que enolve tecnologia para transformar matéria prima em produto final) caiu de uma participação de 11,79% do Produto Interno Bruto (PIB) em 2019 para 11,30% do PIB em preços correntes em 2020, o menor patamar desde 1947, quando se dá início a série histórica das contas nacionais calculada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

O auge da comparação da indústria de transformação aconteceu em 1985, quando chegou a representar 24,5% da economia do país. No terceiro trimestre deste ano, o peso do setor voltou a subir um pouco, chegando a 12,5% da geração de riquezas do país, mais como um soluço do que como retomada consistente. “A pandemia atingiu a indústria com significativa capacidade produtiva ociosa devido às perdas industriais de 2014-2016 e a crise político-institucional aguda de 2015 e 2016. Apesar da recuperação no triênio 2017-2019, o produto manufatureiro em 2019 ainda era 14% inferior ao de 2013″, informa o Iedi. O saldo de 2021 é negativo, segundo a entidade, que considera que “a segunda onda da pandemia para a indústria ainda não terminou.” Só o setor de alta tecnologia teve queda de 7,6% entre julho e dezembro.

Um fenômeno contrário aconteceu com o agricultura, que ganhou espaço mesmo no desafiador ano de 2020. O setor alcançou uma participação de 6,8% no PIB nacional em 2020 ― com uma leve alta em relação ao ano anterior, quando representou 6,5%, conforme dados da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA). A expectativa é que a peso da agricultura no PIB chegue a 7,9% neste ano e matenha uma trajetória de crescimento até 2022, quando chegará a 8,3%. “A partir de 2023, [a participação] deve cair de volta para a média da série histórica, algo próximo a 6%”, afirma Renato Conchon, coordenador do Núcleo Econômico da CNA. Estes dados ainda serão revisados a partir do ajuste feito pelo IBGE nos dados trimestrais.

A Pesquisa Industrial Anual (PIA) 2019, divulgados neste ano pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), mostra em números o tamanho do estrago: de 2013 a 2019, o país perdeu 28.700 empresas e 1,4 milhão de postos de trabalho. Em 2019, o país tinha 306.300 indústrias, um encolhimento de 8,5% em relação ao seu auge seis anos antes. Essas empresas empregavam antes da crise sanitária 7,6 milhões de pessoas, uma redução de 15,6% sobre 2013. O salários do setor, geralmente mais elevados do que em outros segmentos, também sofreram perdas. Na indústria extrativa, a remuneração saiu de uma média de 5,9 salários mínimos (s.m.), em 2013, para 4,6 s.m., em 2019. Nas indústrias de transformação a redução foi de 3,3 s.m. para 3,1 s.m.

A situação do setor se complicou ainda mais com a crise sanitária. “A pandemia da covid-19 foi a pá de cal na indústria brasileira, que já vem perdendo espaço desde 2005, com o boom de commodities e valorização do câmbio”, explica o economista José Luis Oreiro, professor da Universidade de Brasília. O primeiro segmento afetado pelo processo de desindustrialização foi o de bens intermediários, ou seja, aquelas que produzem insumos para a própria indústria. Oreiro afirma que de 2005 a 2015, os elos da cadeia industrial brasileira começaram a sumir. Foi um período de substituição de compra de matéria-prima da cadeia brasileira por produtos importados. A partir de 2014, o que começou a desaparecer são as indústrias de bens finais, como as fábricas de automóveis.

O Brasil vive um fenômeno diferente do que aconteceu em países desenvolvidos que tiveram a chamada desindustrialização positiva, fruto do amadurecimento de suas economias. Esse fenômeno foi marcado pelo abandono de atividades que já não interessavam ao plano de desenvolvimento, como a indústria extrativa ―terceirizada aos países pobres―, para focar em alta tecnologia. Trata-se de uma tendência que tem como base a utilização de novas tecnologias, como robótica, inteligência artificial, internet das coisas.

Augusto explica que o reposicionamento da economia pelo Governo Bolsonaro segue o caminho contrário. O caso da indústria naval é um exemplo. Foram anos de investimento para formar mão de obra especializada e ter um desenvolvimento tecnológico capazes de permitir a construção de plataformas de alta profundidade. “Hoje temos o esvaziamento desses estaleiros, teoricamente, com a Petrobras em busca de melhores preços no mercado internacional. A alternativa que se discute é trazer para o país a indústria de desmontagem de navios, mais comum em países como Bangladesh e Índia. É uma indústria suja, que polui e mata trabalhadores”, explica o diretor do Dieese.

A expectativa é que novas ferramentas trazidas pela chamada Quarta Revolução industrial ―ou Indústria 4.0―, tornem as atividades industriais mais produtivas, mas também mais sustentáveis, uma nova demanda dos consumidores. Estados Unidos, Europa, Japão e China vem investindo nessas mudanças nos últimos dez anos. “Quem não se adaptar, está fora do comércio internacional, fora do investimento produtivo”, afirma Oreiro. “As fábricas estão indo embora do Brasil porque o país não está mudando. Vivemos um período de transformação no paradigma tecnológico: em alguns anos só teremos transportes elétricos, por exemplo”, analisa o economista.

No entanto, o Brasil, que já foi líder em produção de automóveis menos poluentes, não soube aproveitar essa vantagem competitiva. “Temos zero política para transformar o parque automotivo brasileiro num transporte sustentável. O Governo segue uma agenda ultrapassada e não consegue visualizar a nova revolução industrial que está acontecendo no mundo”, diz Oreiro.

Segundo Rafael Cagnin, economista do Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (Iedi), a pandemia trouxe de volta à esfera internacional a questão da reconstrução das cadeiras produtivas com o objetivo de evitar a interrupção na oferta de insumos estratégicos, como aconteceu com produtos da área médica na primeira fase da crise sanitária. “Esses temas entraram na agenda de política de desenvolvimento dos países. China, União Europeia e EUA estão alocando recursos para incentivar indústrias consideradas estratégicas”, afirma.

Cagnin defende que este também deve ser o caminho para o Brasil. O problema é que o país ainda tem questões antigas para resolver paralelamente aos novos desafios. “Temos problemas seculares, saneamento é deplorável, o restante do mundo resolveu essa questão no século XIX. Imposto de valor adicionado foi tema dos anos 80 no resto do mundo. Não temos mais espaço para fazer remendos, precisamos de reformas profundas que mudem o ambiente empresarial da água para o vinho”, defende.

Segundo o economista do Iedi, mesmo em relação à política industrial houve muito equívoco no que foi feito no passado. “O que o Brasil vem fazendo desde os anos 90 é uma política industrial compensatória, que não resolve os problemas. A estrutura tributária completamente disfuncional que temos hoje não será resolvida com política industrial”, alerta. De acordo com ele, muito do que passou como política industrial eram apenas subsídios. “Política industrial mira as tendências de desenvolvimento do que temos que apostar, não é para cobrir buracos e suprir deficiências cuja origem está em outra esfera, como na tributação”, afirma.

segunda-feira, 6 de dezembro de 2021

Cara do Brasil lá fora

 

Maarten Wolterink


Um passo para a teocracia

No momento em que o país afunda na recessão, e cresce a insegurança alimentar, começo com um tema secundário, desses que os analistas políticos acham que mereciam apenas uma nota de pé de página na história.

O tema são os gastos do cartão corporativo de Bolsonaro. Ele gasta a média de R$ 1,3 milhão por mês, e suas despesas estão sendo julgadas, em segredo, pelo Tribunal de Contas.

É muito dinheiro para quem tem casa, comida, conexão e transporte gratuitos. O relator do processo é o ministro Raimundo Carreiro, o mesmo que Bolsonaro designou embaixador do Brasil em Portugal. Um prêmio.

O deputado Elias Vaz (PSB- GO) pediu que o relator se declarasse impedido. Mas é duvidoso que aceite isso ou que seja levado a isso.

Carreiro foi um grande amigo de Sarney. Nasceu num distrito de Nova Iorque, no Maranhão, e aos 16 anos votou pela primeira vez na UDN. Dizem que se declarou dois anos mais velho para ser eleitor de Sarney.

Sempre foi protegido do cacique maranhense. No Senado, saiu da área de produção de atas e acabou sendo um assessor vital para os presidentes. Sua fidelidade o levou ao Tribunal de Contas, e agora parece cruzar o oceano com ele.

Sou das poucas pessoas que gostariam de saber como Bolsonaro gasta tanto dinheiro. E se isso é legal e razoável.


Como isso escapa um pouco do radar da oposição no conjunto, o melhor é tratar o fato da semana: a eleição de André Mendonça para o STF.

A demora em sabatiná-lo estava ficando constrangedora. Suas declarações ao Senado foram estudadas na medida para impressionar os senadores que, por sua vez, estavam ansiosos para agradar à grande força eleitoral evangélica.

Mendonça disse que, em casa, seguia a Bíblia, e no STF, a Constituição. Mal se sentiu vitorioso, disse que sua vitória era um passo para o homem e um salto para os evangélicos. Como assim?

O Brasil tem uma bancada evangélica que se dispersa por diferentes partidos. Não temos bancadas católica, protestante ou umbandista. Os evangélicos funcionam como um partido político.

Mendonça deu a entender que o processo de infiltração religiosa no poder alcançara um novo patamar com sua eleição.

É espantoso como a oposição e os deputados independentes que fizeram a CPI da Covid-19 embarcaram nessa. Parecem não ter a visão histórica do que é uma teocracia e do que representará para o país. Quando uma confissão religiosa se articula como partido político e busca o poder, lança sinais muito inquietantes.

Na revolução teocrática do Irã, um intelectual de peso como Michel Foucault embarcou na canoa furada de apoiá-la, era popular, antiamericana, deu no que deu.

Estamos longe do Irã, muito mais longe dos talibãs. Mas a mistura da religião com política leva à ditadura teocrática. As religiões pretendem dizer como devemos viver, partidos políticos democráticos apenas apontam soluções para nossos impasses, saídas coletivas que preservam a pluralidade de nossas escolhas.

Quando vi todo aquele esforço para agradar aos evangélicos e ganhar alguns votinhos em troca, quando vi um deputado evangélico que, no passado, foi preso com um avião carregado de dinheiro ao lado do novo ministro do STF, pensei: as coisas não caminham bem no Brasil. Pelo menos, no meu modo de avaliar, baseado em experiência própria.

Ao aprovar Mendonça, os senadores não consideraram o absurdo de invocar a Lei de Segurança Nacional para punir adversários de Bolsonaro, a existência de lista de pessoas suspeitas de ser antifascistas.

E foram enganados na resposta sobre apoio aos direitos dos gays e LGBT.

Se você perguntar a eles se querem um Brasil teocrático, responderão que não. Mas não estabelecem nenhuma conexão entre suas escolhas e as consequências futuras.

Semana de isolamento. Ainda bem que estou em viagem. Preocupar-se com os astronômicos gastos de Bolsonaro e com um possível futuro teocrático do Brasil é coisa de minoria.

Aprendi a me consolar com essa ideia e, ainda assim, a sobreviver nos trópicos.
Fernando Gabeira

Poema do Aviso Final

É preciso que haja alguma coisa
alimentando o meu povo;
uma vontade
uma certeza
uma qualquer esperança.

É preciso que alguma coisa atraia
a vida

ou tudo será posto de lado
e na procura da vida
a morte virá na frente
e abrirá caminhos.

É preciso que haja algum respeito,
ao menos um esboço

ou a dignidade humana se afirmará
a machadadas.

Torquato Neto

A nova política do Brasil da religião barulhenta e da fome quieta

A gente anda esquecida de dar importância a transformações graves que acontecem bem diante das fuças, que mudam o ar social e político que se respira.

Não se trata apenas da normalização de horrores sob Jair Bolsonaro: golpe, tortura, ditadura, ignorância e ódio à diversidade humana, por exemplo. Vai além do bolsonarismo, que foi veículo ou catalisador de mudanças, mas é menor do que essas torrentes.

A religião voltou a se tornar assunto de Estado, oficialmente, com a indicação e a aprovação de André Mendonça para uma cadeira do Supremo, por exemplo.

Sim, já tivemos crença oficial ou oficiosa. A Igreja Católica, muita vez reacionária e monopolista, teve peso enorme na política e na sociedade. Esqueceu-se disso talvez porque tenha havido um vácuo de política religiosa. Imaginou-se então que o país evoluía para a laicidade civilizada, de liberdade para todas as crenças, que seriam assunto privado, se não íntimo. Esse lapso ocorreu entre o começo da decadência da influência do catolicismo, a partir do final dos 1960, e o fortalecimento político-econômico do que se chama hoje genericamente de "evangélicos", no começo dos 1990. Foi lapso no sentido de tempo e de engano.


Os tataravôs da ciência política diziam que, quando um grupo social, em geral emergente, se considera pouco representado ou poderoso, abandona a coalizão em que se abrigava e cria um novo partido, no sentido amplo do termo. É o caso dos "evangélicos", mas também da agrolândia ou do sertanejistão ou dos militares reemergentes.

O ano de 2022 será o nono de renda (PIB) per capita menor do que no pico de 2013. Com muita competência e sorte voltaremos a esse nível apenas em 2026. Seria de resto mera recuperação de terreno perdido: não entra nessa conta o que deixamos de crescer nesse período. A geração que se tornou adulta em 2014, que fazia então seus 21 anos, chegará a ser trintona sem jamais ter visto o país crescer.

Ainda mais impressionante, a Grande Estagnação, piorada por outras crises, não provocou o surgimento de nenhum grande movimento social ou político dos desvalidos, nem ao menos um tumulto de protesto. A fome está quieta no país da religião barulhenta ou do ruído das tretas do sectarismo ignorante, da grande ascensão do idiota.

A gente não nota também que algumas relações socioeconômicas passaram por transformações profundas, que em muito país provocariam conflito. A lei do trabalho foi eviscerada e não houve transplante de novas proteções (ao contrário, a informalidade come o que sobrou das entranhas). A lei das aposentadorias passou por mudança grande (tanto faz se "não resolve o problema fiscal", trata-se de outro assunto aqui). O Estado continuou grande e regulador da economia de favores de mercado, mas falta Estado democrático.

A crise econômica crônica, a mudança estrutural do trabalho e a falta de debate social e político do destino econômico vão fazendo com que o país se divida em uma massa de plebeus aos quais se quer entregar não mais do que uma ração de pão (rendas mínimas) e uma elite restrita a um enclave que vive de rendas ou do trabalho que restará.

Este país em que não se fala mais de desenvolvimento (ou em que tal processo se tornou inviável) corre o risco de se tornar uma caricatura pop de pós-apocalipse moderno com traços de despotismo antigo, de pão, algum circo e nenhum trabalho, com regiões feudalizadas por duques do dinheiro e por milícias-facções, no que sobrar do incêndio ou da seca do desastre climático, talvez sob uma política teocratizada.

Descambamos aos poucos para esses destinos, desapercebidos.

Carta ao próximo presidente

O mais provável é que o senhor não leia esta coluna, não sou ninguém importante e minha opinião vale pouco ou nada. Estou entre os 99% dos 213 milhões de brasileiros. Mesmo assim tem vezes que dou sorte: quem sabe algum assessor ou parente esquece este jornal no seu banheiro? Ou então o seu dentista atrasa e o senhor não tem mais nada para ler na sala de espera?

Milagres, mesmo no Brasil atual, acontecem.

O senhor, o próximo presidente, pode ser o quer voltar, o que quer ficar ou um dos que vão pela primeira vez. Tanto faz, o que tenho a dizer é o mesmo para todos: apontar que X é corrupto, Y é incompetente, Z é comunista ou fascista, não o fará um bom governante. A gente está cansado de saber. O povo pode até ser ignorante, mas burro não é. Basta dar uma olhada ao redor para ver o buraco em que estamos. O que quero saber é o que o senhor pretende fazer para consertar o estrago? Quais as suas soluções? Seja claro, objetivo e diga a verdade. Lembre também que o senhor não vai ser apresentador de programa policial, diretor de DCE universitário ou operador da Bolsa de Valores. Sua função é encontrar soluções que atendam aos 213 milhões, principalmente os 99% de baixo, não apenas os seus amigos, que costumam estar entre o 1% de cima. Parece óbvio? Então olhe em volta e me diga o que viu. 

Não quero tomar o seu tempo na sala de espera e muito menos no banheiro, então serei rápido com o outro pedido, que é o principal: dedique-se a diminuir a desigualdade neste país.



É o nosso maior problema. Nunca seremos uma nação enquanto a diferença entre nós não diminuir. Há séculos seguimos o mantra do “O de cima sobe, o de baixo desce” e o fosso só aumenta. Os ricos são cada vez mais ricos, os pobres cada vez mais pobres. A situação está se tornando insustentável, até para os muito ricos. Para começar a melhorar precisamos de educação e saúde decentes para todos, absolutamente todos, e uma tributação mais justa também. 

Os seus amigos, esses que lhe financiam a campanha, têm que pagar mais impostos. É o óbvio: quem tem mais paga mais, quem tem menos, paga menos. Ah, mas já é assim, aqui o imposto é progressivo, responderá o senhor com ar inocente, de quem finge que não sabe como a banda toca. Como já lhe disse antes, a gente pode até ser ignorante, mas não é burro: não adianta não cobrar imposto de renda dos menos favorecidos e taxar o feijão e o arroz que comem ou a geladeira e o fogão que usam. O senhor acha mesmo que ninguém percebe a jogada?

Tem mais.

Da importância da saúde para todos, do SUS, nem preciso falar, a pandemia deixou claro até para o mais ignorante. Quanto à educação pública decente, é o mínimo para que todos os 213 milhões tenham as mesmas chances. Pergunte aos apóstolos dessa meritocracia marota que inventaram — essa do cada um por si — quanto herdaram, onde estudaram: a resposta também é óbvia. Aliás, o senhor e seus filhos deveriam ter acesso apenas a escolas e hospitais públicos. Se acha isso absurdo não precisa falar mais nada, já disse ao que veio antes de começar.

Imagino que neste momento o senhor, cansado de me ler, já está procurando um papel mais urgente do que um jornal. Ou então já foi chamado para entrar no consultório. Ficam por aqui os meus pedidos. Sou um em 213 milhões, mas acho que não estou sozinho.

domingo, 5 de dezembro de 2021

Um conselho a André Mendonça

O medo da maior parte das pessoas com Bolsonaro emplacar no STF um ministro “terrivelmente evangélico” é que André Mendonça, ao se deixar adjetivar dessa forma, coloque em risco a laicidade do Poder Judiciário.

Não tenho esse medo. Não me importo com o adjetivo atribuído a ele, mas com o advérbio. O problema é ser escolhido como alguém que é terrivelmente alguma coisa, seja qual for.

Meu incômodo gramatical pode parecer uma preocupação tola, mas não é. De todas as classes de palavras da língua portuguesa, os advérbios são os mais traiçoeiros: deslizam pela frase, modificam o sentido, tonteiam o leitor. Nada disso ocorre com adjetivos, sempre dependentes e acessórios do substantivo.

Não há mal nenhum em um ministro ser evangélico; há tantos que são e foram ligados a religiões e nada disso os fez melhores ou piores. Ministros têm religião, time de futebol, preferências culinárias. São seres humanos como nós, embora nem sempre assim se enxerguem.

Também não há mal nenhum em ser a indicação de Bolsonaro destinada especificamente a um evangélico. Se o exercício da magistratura não pode ser político, a indicação de um magistrado pelo presidente – falemos a verdade – sempre é, e isso não começou nesse governo. Para Bolsonaro, é essencial fazer política com sua base aliada de evangélicos, faz parte do jogo.

Portanto, nessa história toda não é descabido Bolsonaro escolher um evangélico ou ele aceitar assim ser adjetivado, o descabido é ele ser terrivelmente algo.

Um julgador –evangélico ou não – precisa aplicar ao caso concreto a justa medida de forma equilibrada, como há tantos e tantos séculos já recomendava Aristóteles em suas lições de Ética sobre a arte de decidir. E ninguém será capaz de alcançar o necessário equilíbrio agindo terrivelmente.

O novo ministro, no exercício de seu cargo, não precisa disfarçar suas crenças, não precisa deixar de ser evangélico, pois sua religião faz parte de sua cultura, e é também investido dela que um juiz examina um caso.

Meu conselho, André Mendonça, se me permite, é: se afaste do advérbio. Fuja dele. Enquanto juiz, corra dessa traiçoeira classe de palavras, e não seja terrivelmente nada. Do contrário, os adjetivos que o povo e a imprensa lhe darão não serão dos melhores.

Pensamento do Dia

 


PIB per capita do Brasil está estagnado há 12 anos

Os indicadores econômicos mais recentes confirmam o que muitos temiam: a economia brasileira está novamente em recessão. E o crescimento não deve voltar no próximo ano.

É um bom sinal, disse na quinta-feira o ministro da Economia, Paulo Guedes, que a Bolsa esteja subindo apesar do desempenho ruim do PIB (Produto Interno Bruto). Isso mostra, segundo ele, que o "Brasil está condenado a crescer".

Mas é exatamente o contrário. O Brasil, ou melhor, os brasileiros, estão condenados porque a economia não cresce. E isso há doze anos.

Os últimos indicadores econômicos do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) acabam de ser divulgados. A economia encolheu 0,1% no terceiro trimestre. Isso se deve principalmente ao fato de que o setor agropecuário, que sempre foi capaz de compensar os pontos fracos do PIB, produziu muito menos desta vez devido à seca e à geada. Como a economia já tinha retraído 0,4% no segundo trimestre em comparação com o trimestre anterior, a economia brasileira está em recessão.

Os bancos de investimento projetam um crescimento anual de somente cerca de 4,8% em 2021, o que colocaria a economia brasileira no final do ano no ponto onde estava antes do início da pandemia, no final de 2019. Dois anos perdidos, então.

Mas se você dividir o PIB pelo número de brasileiros, o resultado é ainda mais decepcionante. Cada brasileiro teria hoje um PIB per capita equivalente ao que foi registrado pela última vez em 2009, o que significa que a economia brasileira vem patinando há doze anos.

Isso dificilmente mudará no próximo ano. Ao contrário do que Guedes afirma, a maioria dos economistas espera uma economia estagnada, e possivelmente até recessiva, em 2022.

Por um lado, isso se deve à alta inflação, que deve chegar a 10% até o final do ano. Para conter a alta dos preços, o Banco Central terá que manter a taxa de juros alta, o que limitará o consumo. Ao mesmo tempo, serão realizadas eleições no ano que vem, cujo resultado ainda está completamente indefinido. Os investidores ficarão cautelosos enquanto não souberem quem irá governar pelos próximos quatro anos.

Somente com investimentos, desenvolvimento tecnológico ou reformas, a renda per capita brasileira poderá crescer novamente no médio prazo.

No curto prazo, apenas o aumento do consumo poderia acelerar o crescimento do Brasil. Afinal, o consumo de massa é o motor tradicional da economia brasileira. Mas o cenário parece ruim nessa área. Devido à alta taxa de desemprego de 12,6%, a média salarial está caindo. Neste ano, caiu 9% em termos nominais. Se considerarmos também a inflação, é possível dizer que o poder de compra dos brasileiros diminuiu em cerca de um quinto neste ano.

E é exatamente aí que reside a tentação populista do governo. É bem possível que o presidente Jair Bolsonaro reaja à sua crescente impopularidade no ano eleitoral com novos programas de gastos. Que ele e Guedes, por exemplo, aumentem ainda mais o valor de benefícios sociais, como acaba de acontecer, a fim de comprar votos no Congresso e, por fim, nas eleições.

Em um primeiro momento, os brasileiros pobres se beneficiariam disso. Mas eles terão que pagar a conta depois com inflação mais alta e recessão. As perspectivas não são boas para os próximos doze meses.

Bolsonaro e Moro talvez se pareçam mais do que se imagina

A política brasileira está em plena ebulição e, enquanto se multiplica o número de pessoas com fome que pegam restos de comida no lixo, todos os olhos estão voltados às próximas eleições presidenciais. Curiosamente, enquanto a cada dia se multiplica o número de pretendentes ao trono, vão se estreitando as possibilidades de vitória e a incerteza sobre o novo Brasil que pode emergir das urnas. Toda uma série de imponderáveis foram se cruzando nas últimas semanas e turvaram ainda mais as águas já agitadas dos candidatos à presidência.

Duas novidades recentes trouxeram novas incógnitas: a aparição na vida política do discutido e enigmático ex-juiz da Lava Jato, Sergio Moro, e a vitória em São Paulo de João Dória nas primárias do PSDB, o que o transforma em um candidato forte e ambicioso que irá agitar as águas políticas.

Enquanto cresce a caravana dos que pretendem disputar as eleições, os candidatos com força e possibilidade de vitória vão se estreitando. Nesse momento, se tivesse que explicar a um estrangeiro, diria que os candidatos hoje indiscutíveis com possibilidade de sucesso se reduzem aos dedos de uma mão, talvez menos.

E a disputa está se tornando cada dia mais estreita porque as pesquisas vão anunciando que a força de Bolsonaro à reeleição está desmoronando com uma aprovação a cada dia menor e um repúdio ainda maior ao seu Governo. Ao mesmo tempo, o único que se mantém firme como vencedor em todas as pesquisas é o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), que poderia vencer até mesmo no primeiro turno. Sem contar que Lula, com a possível decisão de escolher o ex-governador paulista Geraldo Alckmin como seu vice, uma das figuras históricas do PSDB hoje em crise de identidade, se transforma ao mesmo tempo em um candidato do centro, tranquilizando os que ainda o veem como amigo das ditaduras de esquerda.

Tudo isso sem contar a chegada, que assusta a todos, do ex-juiz Moro. Ele aparece, como na história do deus Jano dos romanos, o das duas caras e duas portas, como um duplo de Bolsonaro na substância, ainda que totalmente diferente na forma, o que poderia fazer com que ficasse com os órfãos do bolsonarismo menos fanático, incluindo o mundo empresarial cansado do modo tosco de governar do ex-capitão.



O presidente Bolsonaro e Moro são hoje dois personagens curiosos, porque na aparência não podem ser mais diferentes e na substância podem se parecer mais do que se possa imaginar. Ambos são de uma extrema direita dura, mas aparecem como dois extremos, o que pode confundir muita gente. Enquanto Bolsonaro é um aprendiz de fascista, disperso, sem cultura, imprevisível, atrevido e até vulgar em suas expressões, todas elas marcadas por um forte cunho sexual de bar de periferia, Moro, pelo contrário, é contido, de sua maneira de se vestir aos seus movimentos e palavras, e até refinado, de riso difícil e que esconde mais do que revela, mas que pode acabar sendo tanto ou mais perigoso em matéria de autoritarismo e de aparente falta de sentimentos.

Não por acaso, o partido Podemos, que o abrigou politicamente em suas fileiras, está tentando fazer com ele uma metamorfose que vai das roupas, abandonando a gravata e os ternos escuros e aparecendo sorrindo. E mais, a cada dia revela que tenta suplantar Bolsonaro como mito, até como um chamado por Deus. Como ele mesmo confessou que sua entrada na política foi “uma missão”, algo que equivale a um pedido divino para acabar com os dois extremos que hoje disputam o poder: a extrema esquerda e a extrema direita.

Se a personalidade dispersa e histriônica do capitão reformado já é conhecida e até mais repudiada a cada dia por seus excessos de mau gosto e sua vocação ao autoritarismo e à violência, a de Moro está em boa parte ainda por ser revelada, algo complicado já que, ao contrário de Bolsonaro, que não esconde nada e até confessa que se tranca sozinho no banheiro para chorar e fazer alarde de que em algumas noites satisfaz sua esposa, ele é fechado como uma ostra. É enigmático. Talvez mais rígido e autoritário do que o ex-capitão, mas também mais racional, mais dissimulado, que pode esconder mais surpresas.

Talvez por tudo isso e por suas primeiras reações como político começa a se impor como uma peça perigosa e complexa que veio, talvez, para revolver as águas ainda mais do que muitos esperavam.

Hoje o Brasil conhece o Moro juiz implacável, quase insensível, que não hesitou no momento de enviar à cadeia e de o manter lá por quase dois anos o ex-presidente mais popular da história do Brasil com grande projeção mundial. O que ainda não se sabe e será possível observar somente nos dois próximos meses é sua força política. Se será capaz de aparecer rígido, como é, e ao mesmo tempo mais confiável do que Bolsonaro na manutenção da democracia, e se será ou não apreciado pelas classes mais favorecidas, que sabem muito bem que é um liberal na economia e um direitista convicto, do que pela população que hoje passa fome e às que já começou a se apresentar como portador de uma “missão”. Missão que não é difícil de interpretar que se trata de algo de cunho religioso e um primeiro aceno aos evangélicos que acreditaram que Bolsonaro era um enviado por Deus que o salvou da morte no ainda obscuro atentado durante a campanha eleitoral que deu a ele a vitória.

Se no começo a chegada de Moro à política era vista como uma brincadeira que acabaria estourando como uma bolha de sabão, hoje, em poucas semanas, já começa a ser vista como peça fundamental no xadrez das eleições. Há quem tente minimizar sua presença política e aposte que acabará se apagando por si própria. Outros, entretanto, da velha política, acostumados a navegar nas águas escuras e revoltas da vida pública, começam a temer que a chegada do ex-juiz, que nunca hesitou no momento de condenar, possa acabar no mínimo levantando uma tempestade perigosa no mar a cada semana mais agitado do país.

O que esse país precisa é de alguém com capacidade de salvá-lo com as armas da democracia e da esperança do inferno a que foi arrastado pela extrema direita fascista de um presidente não só desacreditado internacionalmente, como considerado incapaz psicologicamente de conduzir um país da envergadura econômica, política e social do Brasil.

Perdeu o juízo

Será que o ministro Paulo Guedes acredita mesmo que a economia brasileira está decolando ou apenas tenta criar uma narrativa otimista para esconder um enorme fracasso?

É intrigante: não há como responder.

Por um lado, os números são avassaladores. Eliminados os indicadores que parecem positivos por causa da comparação com uma base muito baixa, o ano passado, o resto aponta para uma paradeira inequívoca. Números do PIB trimestral (duas quedas seguidas), da produção industrial mensal (cinco quedas em série), do Índice de Atividade Econômica do Banco Central (duas quedas seguidas), do varejo e dos serviços — tudo do IBGE — mostram que, numa visão generosa, a economia está estabilizada em torno de zero. Às vezes cresce um pouco acima, outras um tanto abaixo.

Na verdade, a discussão relevante entre economistas do primeiro time — de visões variadas — trata do seguinte: o Brasil se encaminha para a estagnação, a recessão ou estagflação?

Sim, porque a inflação, passando dos 10% ao ano, já comeu nada menos que 11% da renda do trabalho, reduzindo drasticamente a capacidade de consumo das famílias.

Como o ministro Guedes poderia desconhecer esses fatos? Entretanto, na última quinta-feira, ao comentar os dados do PIB, ele disse que a B3 (a Bolsa brasileira) havia subido 3% em comemoração aos bons resultados da economia real e do equilíbrio das contas públicas.

Ora, como um economista do mercado financeiro, Guedes tinha de saber que aquela alta foi episódica, provocada por investidores que foram às compras de pechinchas. No ano, até novembro, a B3 caiu 14% em reais e quase 20% em dólares. É o pior desempenho entre países relevantes.

Quanto às contas públicas, ficou evidente que a PEC dos Precatórios é uma manobra para legalizar o estouro dos gastos e o rompimento do teto orçamentário.


Com esse conjunto de indicadores, é preciso concluir que Guedes sabe, sim, que a economia vai devagar quase parando, mas inventa uma narrativa para agradar ao chefe e sua turma. É verdade que esse pessoal é ignorante em economia (e em muitas outras coisas, inclusive saúde), mas a narrativa é tão descolada da realidade, tão absurda, que leva as pessoas de mínimo bom senso a perguntar: o ministro perdeu o juízo?

Ou, por outro lado: não é possível que Guedes, com seu conhecimento de economia e mercados, creia que alguém (fora da turma de fanáticos) acreditará nessa incrível farsa.

Então, como ficamos?

Hipótese: a economia brasileira deteriorou-se muito rapidamente neste segundo semestre. No início do ano, esperava-se um PIB crescendo acima de 5%, mais 2,5% em 2022, com inflação controlada e juros reais baixos.

Hoje, mudou tudo. A inflação segue em alta persistente e espalhada, os juros em rota de elevação, o risco Brasil também subindo, e o real como moeda mais desvalorizada entre os emergentes. Mesmo com o avanço da vacinação.

De onde vem essa deterioração? Há fatos: a crise hídrica, que fez aumentar a tarifa de energia, e a alta do petróleo (e, pois, da gasolina, do gás e do diesel). Mas o preço da energia em geral subiu no mundo todo, e muitos países relevantes, mesmo com inflação mais alta, mantêm bom ritmo de crescimento.

Qual a diferença?

O governo.

A gestão Bolsonaro não é “apenas” politicamente equivocada. É de uma incompetência brutal. E destruidora. Acrescente a isso a entrega dos cofres públicos à turma do Centrão — e, pronto, está explicada a enorme falta de confiança que se observa no país.

Isso deve ter virado no avesso a cabeça do ministro Guedes. Ou o que mais seria?

E, por falar em cabeças viradas no avesso, Lula entrou no debate para dizer que o Brasil estava num momento raro, histórico, de crescimento zero. Deve estar fazendo contas de 2017 para cá, pois em 2015 e 2016 o país acumulou uma queda de quase 8% do PIB, consequência da gestão devastadora de Dilma Rousseff.

Lula também não lembra a corrupção na Petrobras, assim como os Bolsonaros juram que não tem rachadinha.

É isso aí. Estamos entre birutas, esquecidos e/ou farsantes.

Carlos Alberto Sardenberg

O menino e a árvore no lixão, o cartão natalino do Brasil dilacerado pela fome

No cenário mais improvável, um tesouro. Entre sacolas plásticas, caixas de papelão e lixo revirado, o menino abre a boca em um sorriso que também é um grito de surpresa e segura entre as mãos um objeto que, aos seus olhos, é quase precioso, apesar de não passar de uma árvore de Natal de 30 centímetros, retorcida, com luzes quebradas e enfeites faltantes. Gabriel, maranhense de 12 anos, não sabia, mas aquele instante de alegria fugaz no lixão em Pinheiro (MA), capturado pelo fotógrafo João Paulo Guimarães, passaria a ser o retrato triste do Brasil em que 20 milhões de pessoas passam fome, de acordo com a Rede Brasileira de Pesquisa em Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional (Rede Penssan), e, como ele, recorrem ao lixo para sobreviver.

Naquela segunda-feira, 8 de novembro, Gabriel revirava o lixão a 112 quilômetros de São Luís ao lado da mãe, Maria, desde as sete da manhã, em busca de alimentos. Um caminhão havia despejado por ali restos de comida de um restaurante e muitas das quase 500 pessoas que compõem as famílias de catadores de Pinheiro faziam o mesmo. Até que, por cerca de dois minutos, Gabriel pode esquecer o imperativo da sobrevivência e viver sua infância. “Parece que tudo aconteceu em câmera lenta. Vi quando ele achou a sacola, abriu um sorriso e começou a puxar a árvore de dentro. Aí, automaticamente, comecei a fotografar”, narra João Paulo Guimarães, natural de Belém (PA), que registrava o abandono e miséria daquela comunidade. “Mãe, olha só, achei essa árvore! Ela está torta, mas a gente pode desentortar, consertar as luzes e colocar na sala no dia do Natal”, ele ouviu o menino dizer.


Muito envergonhado até aquele momento, Gabriel aceitou a oferta do fotógrafo de guardar sua árvore-tesouro enquanto ele voltava à tarefa de revirar os detritos em busca do que levar para casa —feita de barro, onde vive com a mãe e um irmão de três anos. Em seus 13 anos de fotojornalismo, Guimarães registrou diversas imagens que definem momentos do país, desde as onças mortas nos incêndios do Pantanal, profissionais da saúde desolados diante da morte de pacientes por covid-19 ou jovens lideranças indígenas marchando em Brasília por seus direitos. Ele sabe, no entanto, que nenhuma delas é tão representativa quanto a do garoto negro e sua árvore retorcida no meio do lixão de onde tira seu sustento. No Brasil da miséria, a dignidade do menino preto e pobre que, sem sequer ter consciência disso, reivindica seu direito de sonhar com o Natal. Quase imediatamente, a imagem publicada pelo fotógrafo foi reproduzida à exaustão em noticiários e redes sociais.

A foto de Gabriel é a mais recente de uma sequência de imagens que compõem o álbum do Brasil degradado, famélico, cada vez mais desigual, onde além dos 20 milhões que já passam fome hoje, 24,5 milhões não sabem se vão comer amanhã —de acordo com os mesmos trágicos números do relatório da Rede Penssan. Não bastaram os ossos expostos da menina yanomami de oito anos e 12 quilos, um esqueleto retrato do descaso do país com os povos originários. Não bastou o vídeo de pessoas atracando-se por sobras de verduras, frutas e carnes num caminhão de lixo em Fortaleza (CE). O Brasil onde cidadãos madrugam na fila da doação de ossos com retalhos de carne para não morrer de fome —e onde frigoríficos passaram a vender “ossos de primeira e de segunda” nas periferias das grandes cidades— parece estar fadado a repetir cenas de seu mercado da miséria.

Com uma inflação de 10,7%, depois de aumentos mensais nos preços de mercadorias no último ano, uma “recessão técnica”, e cerca de 14 milhões de desempregados, segundo o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), o país amarga mais do que uma crise econômica. “É uma crise moral”, como bem diz João Paulo Guimarães, que lembra dos preços inflacionados e da crise alimentar dos anos oitenta, marcados pela “fila do leite” ou “fila da carne”. “Hoje temos a fila do osso. Como um restaurante diz que não vai te dar o resto de comida e sim vender? Como um supermercado se atreve a cobrar as pessoas por pedaços de ossos?”, questiona, indignado, ele que voltou para casa “destruído psicologicamente” depois de retratar Gabriel.

O Lixão da Piçarreira, onde o menino e sua família catam os restos de sua sobrevivência, existe há aproximadamente 30 anos, segundo o defensor público Fernando Eurico Arruda, que trabalha há seis meses com a comunidade local. A Lei nº 12.305, que prevê, desde 2 de agosto de 2010, que todos os rejeitos do país tenham uma disposição final ambientalmente adequada não foi eficaz para extinguir os locais que hoje servem como os “mercados” daqueles que estão abaixo da linha da pobreza. “Só em Pinheiro são quase 200 famílias que dependem desses dejetos. Abaixo deles não existe mais miséria, estão no último degrau na degradação humana. É uma realidade humilhante, que gera perplexidade mesmo para quem já está acostumado a lidar com mazelas sociais”, comenta Arruda.

Também ele faz referência à crise moral que faz com que fotos trágicas se repitam em um looping de choque e consternação da opinião pública. “Tem coisas que vão se banalizando em nossa sociedade. As pessoas se chocam, mas, passados alguns dias, tudo volta ao normal. Nossa preocupação é o que vai acontecer depois da viralização”, diz ele, que realizou uma audiência pública para criar a Associação de Catadores de Pinheiro, com o objetivo de organizar o trabalho e a busca por políticas públicas para a comunidade que sobrevive da reciclagem.

Depois de comporem juntos —e involuntariamente— o triste cartão natalino do Brasil para o mundo, o menino e o fotógrafo voltaram a se encontrar. Graças às doações de diferentes pessoas que se comoveram com sua foto, Gabriel recebeu de João Paulo uma árvore de Natal grande, nova e inteiramente decorada, além de nove cestas básicas. Até esta quinta-feira, uma campanha de doação online já havia arrecadado mais de 38.000 reais para que sua mãe termine de construir uma casa de alvenaria para a família. Ambos sabem que a cena que compartilharam é irrepetível. Oxalá fossem irrepetíveis os demais retratos de um país tão desigual.

Cansei de lutar contra o moinho de vento

Eu já estava isolado em casa antes da pandemia. Um isolamento que, em parte, era por motivos econômicos – a crise no mundo da arte é violentíssima há bastante tempo, mesmo antes do Bolsonaro, e para sobreviver fui dando cambalhotas. E fui ficando deprimido. Para me concentrar nos meus trabalhos, me recolhi, deixei de gastar dinheiro indo para a rua. Fui forçado a um retiro sabático, mas passei a ter mais problemas de saúde, porque dentro de casa a cabeça fica girando, sem a reação do mercado. E aí veio a pandemia. Aquela sensação de estar sozinho, isolado, passou a valer para todos. Quando as pessoas se isolaram dentro de casa, em 2020, até brinquei com meus amigos: parecia corrida de Fórmula 1. Eu só vinha tomando volta dos outros carros, mas aí veio esse desastre que obrigou o carro madrinha a entrar na pista e a realinhar todo mundo no ponto de partida.

Hoje moro na Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro, mas nasci em Campo Grande (MS). Foi lá que comecei minha carreira de chargista. Acho que entrei para a profissão por causa do meu temperamento. Sempre fui contestador, não aceito resposta sem argumentar. Além disso, tive os estímulos certos. Meu pai era um cara à frente do tempo: era caminhoneiro, mas falava quatro idiomas e assinava revistas internacionais para que a gente pudesse ler. Por isso eu quis ser desenhista. Aos 15 anos fui trabalhar no Diário da Serra fazendo tirinhas, e em pouco tempo me arrisquei nas charges políticas, desenhando o prefeito, um vereador da cidade… Passei a me enxergar no Ziraldo e em todo o pessoal do Pasquim, que eram os meus ídolos, os heróis da resistência. Foi assim que me descobri chargista.

Aos 21 anos me mudei para o Rio de Janeiro. Pouco depois de chegar, fui contratado como desenhista pela DeMuZa, a empresa que Dedé, Mussum e Zacarias criaram depois de terem se separado do Renato Aragão. Trabalhei num filme deles, Atrapalhando a Suate. Essa foi minha escola de cinema, de roteiro, de tudo o que eu gostava na vida. Ali eu mergulhei no caldeirão do Asterix. Queria simplesmente beber aquilo e sair mais forte.

Em seguida, cheguei aonde queria chegar: no Jornal do Brasil. Conheci o Lan, meu grande amigo. Quando ele teve problemas de saúde, me indicou para ficar no lugar dele. Ele apareceu com um atestado médico de um ano e me disse assim: “Você tem um ano para se virar.” Com vinte e poucos anos eu me tornei o principal chargista do Jornal do Brasil. Acabei ganhando dois Prêmios Esso, em 1990 e 1991. Sou o único chargista que recebeu esse “Oscar” do jornalismo. Trabalhei no JB durante 26 anos, somando todas as minhas passagens por lá. Fiquei até o fim do jornal impresso, em agosto de 2010.

Quando o Jornal do Brasil acabou de vez, pensei que eu conseguiria voltar ao mercado rapidamente. Mas, infelizmente, naquele momento o jornalismo já vinha se enxugando, largando pedaços vitais pelo caminho. Para que um grande jornal iria querer um chargista contundente, que incomoda, que cria problema? Nós fomos descartados.

Sem ter o respaldo de um Exército, fui para a trincheira sozinho. Nunca vou deixar de ser jornalista, e minha indignação sempre foi maior do que tudo, então segui minha vida como chargista independente. Eu sentia que minha missão era continuar dando aquele recado, chovesse pau, chovesse pedra. Fui fazendo charges e publicando nas redes sociais.

Acontece que as coisas não foram como eu planejava. As redes sociais recebem conteúdo gratuitamente e, em contrapartida, elas deveriam dar visibilidade proporcional à qualidade desse conteúdo. Mas não é isso que elas fazem. Elas ditam as regras e ponto. Acaba que um conteúdo relevante é tratado com menos atenção que uma dancinha de TikTok.

Última charge

Com isso, acabei me encontrando numa trincheira escura, isolada no campo de batalha. Sem o respaldo da imprensa, fiquei dando tiro sozinho. Só atingia a bolha, criada por um algoritmo. Me deparei com uma invisibilidade impressionante: eu desenhava uma charge de política, mas só as mesmas pessoas viam. O que vou fazer então para aumentar meu público? Vou pagar a rede social para impulsionar a postagem. Aí eles acendem uma lâmpada na sua trincheira, e você fica mais visível por alguns momentos. Depois disso, mais tiros no vazio. É um jogo comercial em que você entra perdendo, sem chances.

No fim das contas, fui percebendo que meu trabalho de certa forma validava essa bandalheira que acontece hoje na política. Eu acabava divulgando esses bandidos por meio das charges, mesmo eles sendo retratados de forma negativa. Era hora de repensar tudo.

A verdade é que, como artista, estou exausto de lutar contra o moinho de vento – e sozinho. Na pandemia, tudo ficou mais sensível para mim. Pessoas que eu tinha como amigos me surpreenderam de maneira assustadora. Deixaram de ser minhas amigas não por causa de política, não porque votaram no Bolsonaro, mas porque passaram a ter um comportamento tão fascista quanto o do presidente. Essas pessoas saíram dos ralos, dos bueiros, mostrando quem são de verdade. Não sou radical, longe disso: sou maleável, sou carinhoso com as pessoas à minha volta. Mas com algumas coisas eu não consigo mais conviver.

Tudo isso foi se somando dentro de mim e me adoecendo. Eu precisava me preservar para sobreviver. Aproveitei a pandemia e me isolei ainda mais dessa galera que não me fazia bem. Fiquei na minha, enquanto a cabeça girava tentando achar uma saída que me permitisse continuar sendo artista. Fiz esculturas, pinturas, desenhos, projetos, amadureci muito como homem, como pai e como companheiro. Minha relação com a família se fortaleceu. Percebi que era hora de largar as charges. Embora eu seja apaixonado por esse trabalho, não estou mais conseguindo sobreviver com ele – nem economicamente, muito menos emocionalmente.

No final de outubro, publiquei uma mensagem de despedida nas minhas redes sociais. Mas eu já vinha fermentando essa ideia há mais tempo. A gota d’água, o momento em que tomei a decisão de abandonar as charges, foi o Sete de Setembro. É inimaginável que o presidente da República use helicóptero e dinheiro público para ir à rua rasgar a Constituição, pedir a prisão de integrantes do STF, incitar violência, e nenhuma instituição reaja à altura. Isso não existe. Ele está fazendo mal a milhões de pessoas, e nada acontece. Só negociatas e fake news. Foi o momento em que constatei que nós estamos à deriva, e que um grande acordão vai enterrar as denúncias e provas contra essa corja.

Ali eu me dei conta de que a charge, hoje, é inócua. Ela não funciona mais como jornalismo, como arte ou como instrumento político para absolutamente nada. Não tem alcance. Eu, na minha pequena trincheira analógica, era invisível. Pensava que estava dando tiros de canhão, mas na verdade só estava perdendo tempo. Me sinto lisonjeado com minha tribo virtual me aplaudindo, mas só isso não me preenche. Já que meu trabalho não está tendo efeito, penso que agora preciso lutar como cidadão. É hora de partir para outra trincheira.

Para mim, o mais importante dessa decisão é que ela deu um freio de arrumação na minha vida, na minha cabeça e na minha história. Por isso foi importante tornar isso público. Se eu não escrevesse uma despedida, volta e meia eu ficaria pensando: “E agora, faço ou não faço uma charge?” Acho que eu nunca sairia do lugar. Então eu precisava trilhar esse caminho de forma que eu não pudesse dar um passo para trás. Tinha que saltar e ponto.


Estou interrompendo um ciclo para começar um novo, que ainda não sei o que é. Mas só de fazer isso já me senti mais leve. No dia em que anunciei minha aposentadoria das charges, tive a primeira noite de sono ininterrupto em dez anos. Não acordei para tomar água, não tive nenhum pesadelo. Acordei no dia seguinte com uma sensação de euforia. Posso estar falando coisas desconexas, mas é que ainda estou meio tonto. É um momento de virada.

Estou finalizando um livro de charges e textos de humor que fiz durante a pandemia. Também tenho dois livros infantis para terminar, além de alguns projetos de escultura. O artista precisa se reinventar, e é isso que pretendo mostrar: minha arma agora é outra. Vou fazer 60 anos, tenho muita energia e estou muito focado. Acho que posso ser muito mais útil usando minha arte em prol da educação, da cultura, da luta contra o racismo. Tenho vontade, por exemplo, de fazer uma série de esculturas homenageando mulheres negras.

O que eu sei é que não há nada mais delicioso do que recomeçar. Foram 44 anos sendo chargista em tempo integral. Você já acorda pensando na charge que vai fazer naquele dia. No Jornal do Brasil, trabalhei sete dias por semana, sem folga, por mais de dez anos seguidos. Eu não tirava nem férias. Então esse stop mental foi importante para mim e para minha família. Eles são os mais afetados, acabam sofrendo tudo o que eu sofro. Às vezes eu ficava impaciente, irritado. Deixei isso tudo para trás.

A pandemia produziu muita tristeza, mas trouxe novos sentimentos e, para mim, a alegria indescritível de ganhar dois netos. Um deles eu ainda nem conheço. De quebra, é claro, nasceu também um avô. Um avô babão, que tem muito amor para dar e receber. Acho que, no fundo, a decisão de largar esse trabalho cresceu dentro de mim quando chegaram meus netos. Nessa hora, tudo mudou. É como se eu dissesse para eles: “Vovô chegou. Vamos pintar o sete, espalhando arte, espalhando arte, cor, e muito amor nesse mundo. É isso.”
Ique Woitschach, cartunista, jornalista, artista plástico, escultor, autor roteirista

sexta-feira, 3 de dezembro de 2021

Pensamento do Dia

 


Governos contra a política

A política brasileira sempre teve suas extravagâncias e nenhuma delas levou a um bom desfecho. Sempre que a ordem normal das coisas prevaleceu, os resultados foram melhores.

Para as pessoas da minha geração, a primeira anormalidade ocorreu quando a UDN, partido das elites e dos bacharéis, cansada de perder eleições, tomou emprestado um aventureiro de um partido desconhecido, para disputar a eleição em seu nome.

O personagem era Jânio Quadros, que ganhou a eleição com um discurso moralista e demagógico. Sem conseguir verdadeiramente governar, renunciou seis meses depois, precipitando o país num abismo por 24 anos.


Na primeira eleição presidencial da redemocratização, uma nova aventura, chamada Collor, ofereceu-se aos eleitores sem memória, parodiando o discurso moralista de 1960 e prometendo combater os “marajás”, entidade indefinida, feita na medida para satisfazer a todas as formas de ressentimento.

O modelo foi semelhante. Uma novidade, vinda de um partido inventado para a ocasião, chegava para acabar com a política, mesmo que a política naquela hora fosse Ulysses Guimarães, Mário Covas, Aureliano Chaves, Brizola e até o Lula. Ganhou a eleição, mas fez um governo caótico e tumultuado, que terminou com um impeachment e o país desorganizado e em frangalhos.

Volto a esses episódios quase esquecidos para lembrar que a democracia está sempre sujeita a essas extravagâncias e que elas podem voltar a ocorrer. Os juízos políticos nas democracias de massa são quase sempre fundados em emoções de superfície e raramente na razão.

Para conciliar a vontade popular com as exigências de governar sociedades complexas e cada vez mais diversas e informadas – ou mal-informadas –, é necessária a mediação das instituições políticas, em especial o Parlamento e os partidos políticos. Não há caminho alternativo.

Vivemos tempos semelhantes, com a política correndo fora dos trilhos. O atual presidente se elegeu fora dos partidos e com um discurso contra a política. Eleito, descobriu que, em nosso sistema constitucional, governos sem maioria própria no Congresso podem pouca coisa a não ser falar de seus planos e reclamar da falta de poder.

Governar apenas com discurso não é suficiente. Afinal, as pessoas têm problemas reais e esperam que o governo os resolva. Em busca de salvar o governo ainda a tempo, o presidente buscou apoio onde era possível. Acabou deixando seu partido e se associando aos políticos do Centrão, último refúgio de todos os governos em crise, a quem tanto havia criticado nos discursos de campanha.

Os temas da eleição foram arquivados, mas uma parte das pessoas sempre perdoa essas coisas.

Até aí, temos uma história que não é propriamente original. O inusitado é que nosso presidente, pela primeira vez na história, não está mais filiado a qualquer partido e anda à procura de uma legenda para disputar a reeleição e, se vencer, continuar governando do mesmo modo, sem sustentação organizada no Congresso e sem nenhuma ambição de reformar a vida do país. A ideia parece ser apenas estar no poder, mesmo que para nada.

Nosso sistema constitucional funciona dentro de certas regras, que são universais na democracia. Os Poderes são separados e independentes. O Legislativo funciona com base na vontade popular, representada pelos partidos políticos. Escolher um presidente cujo propósito é lutar contra o Judiciário, os partidos e os políticos é, na verdade, ir em busca de um desgoverno, não de um governo.

Ou então é sonhar para que o presidente consiga destruir ou dominar os outros Poderes. Nesse caso, estaremos simplesmente escolhendo a ditadura pelo voto, como estamos vendo em muitas partes do mundo.

As previsões da meteorologia política são inquietantes. Nas eleições, podemos ter candidato contra a política, no governo e até na oposição. Que ninguém se iluda: votar contra a política é votar contra a vida democrática. Que cada um tenha isso claro na consciência, no primeiro domingo de outubro de 2022. O preço pode ser muito alto.