sábado, 30 de maio de 2020
E daí?
A proximidade excessiva, quase obscena, com o presidente Bolsonaro, a quem cabe a Aras julgar no caso da interferência na Polícia Federal, traz o descrédito ao corpo de procuradores. Não é por acaso que surgiu o abaixo-assinado, com assinaturas de mais da metade dos componentes do Ministério Público, para tornar lei a praxe de o presidente da República ter que escolher de uma lista tríplice o ocupante do cargo.
Aras colocou-se à margem da corporação, não participando da disputa, atitude que agradou a Bolsonaro. Mesmo assim, a revolta interna o atinge, a ponto de ter havido uma reação branca dos procuradores, que se recusaram a ajudá-lo a escrever a manifestação da PGR contra o inquérito das fake news.

Em Brasília, já há quem o chame de procurador-geral do Bolsonaro. Ou quem diga que o governo tem hoje três pessoas exercendo o cargo de advogado-geral da União: o próprio, José Levi, o atual ministro da Justiça e Segurança Pública, André Mendonça, e o procurador-geral da República, Augusto Aras.
Os dois últimos, por sinal, disputando vagas no Supremo Tribunal Federal, a cenoura com que Bolsonaro lhes acena para conseguir que assumam tarefas incompatíveis com os cargos que ocupam. Por isso, há no Congresso uma movimentação para aprovar uma lei que impediria que o procurador-geral da República fosse reconduzido ao cargo, e também exigiria uma quarentena para que pudesse assumir cargo no governo depois de terminar seu mandato.
Mendonça, por exemplo, não seria o mais indicado para assinar a petição do habeas corpus para o ministro da Educação, Abraham Weintraub, no Supremo Tribunal Federal. Seria tarefa de José Levi, mas Bolsonaro queria que o ato tivesse uma demonstração política de repúdio à convocação de seu ministro e de todos os que foram alvo da ação da Polícia Federal na quarta-feira. É esse tipo de solidariedade política que Bolsonaro exigia, e nunca obteve, de Sergio Moro.
Aliás, este governo é tão disfuncional que, na fatídica reunião ministerial, Bolsonaro estranhou que ministros fossem elogiados enquanto ele recebia críticas da imprensa. Criou-se até uma campanha nas mídias sociais estimulando elogios ao ministro da Educação, Abraham Weintraub, para que fosse demitido por ciúmes de Bolsonaro.
O humor tem sua razão de ser, mas, de repente, Weintraub, que estava sob críticas de alas do Planalto que o consideram, além de incompetente, um gerador de atritos com a sociedade, passou a ser um símbolo dos extremistas após ter dito na reunião que colocaria “os vagabundos do Supremo” na cadeia.
Temeu ser preso, exigiu uma proteção oficial, gerando o tal habeas corpus. Chamado a depor, ficou em silêncio, numa atitude de protesto, embora legal. Ganhou alguns meses de vida. Ontem, foi condecorado pelo presidente Bolsonaro com a Ordem do Mérito Naval, ao lado do procurador-geral da República (do Bolsonaro?), Augusto Aras.
A desenvoltura com que o presidente utiliza-se dos instrumentos institucionais para fazer política é surpreendente. Usa condecorações oficiais para mandar recados, vai a posse de procuradores sem ser convidado para elogiá-los numa tentativa de constrangê-los, coloca Augusto Aras oficialmente numa lista de nomes para o Supremo Tribunal Federal, humilhando-o publicamente. Distribui cargos a rodo para o centrão, sem o menor pudor.
Talvez esteja indo com muita sede ao pote, temendo que os inquéritos em andamento o peguem desprevenido no meio do caminho. Tal qual o governador do Rio, Wilson Witzel, seu antigo amigo e hoje inimigo figadal, Bolsonaro e seus filhos foram apanhados muito cedo pela Justiça. Como Michel Temer, terá que dedicar o resto do mandato a salvar a sua pele e a dos seus. E daí?
Substitua-se na bandeira o lema 'Ordem e Progresso' por 'Não repara a bagunça'
Um presidente negacionista decidiu que a Covid é “uma gripezinha”, recusou-se a organizar o respaldo econômico à emergência sanitária, fechou o Ministério da Saúde, engajou-se em atos de sabotagem das regras de distanciamento social.
O STF reagiu transformando o país numa confederação de 27 entidades territoriais mais ou menos independentes. Na ausência de coordenação nacional, governadores, prefeitos e até juízes intrometidos costuraram uma colcha de retalhos de medidas sanitárias incongruentes.
A bagunça esvaziou menos as ruas que o sentido das palavras. Do Maranhão ao Ceará, quarentenas parciais ganharam o nome de “lockdown”.

O governo paulista anunciou uma “quarentena inteligente”, confessando involuntariamente que experimentamos dez semanas de quarentena burra. Na etapa da burrice, fechou-se às pressas a economia de centenas de cidades do interior quase livres da epidemia. Na da inteligência, essas áreas serão desconfinadas, justamente na hora da chegada do vírus.
A bagunça é, às vezes, cálculo eleitoral. O prefeito paulistano, um administrador que executa antes para depois planejar, o gênio de bloqueios viários e megarrodízios, clamou por um “lockdown” imposto pelo governador, sobre quem recairia o peso do fracasso, antes de girar 180 graus, temendo a paralisação de obras de apelo eleitoral.
Na capital paulista, ninguém pode andar em parques, atividade saudável e segura, mas todos já podem visitar os shoppings. No Rio, cidade que declina sem elegância, as praias continuam proibidas, mas o prefeito puro e santo excetuou as igrejas, permitindo aglomerações nos templos. Há jornalistas que culpam o povo pela dissolução das quarentenas.
Às vezes, a bagunça é método. No estado do Rio, sob um governador-juiz que prega a eliminação extrajudicial de suspeitos, a corrupção adaptou-se celeremente ao cenário epidemiológico. Seguindo a clássica receita de autoajuda dos investidores, de converter crises em oportunidades, firmaram-se contratos fraudulentos para a construção de hospitais de campanha.
Saúde antes de tudo. O extinto Ministério da Saúde, reduzido à condição de acampamento militar, foi colonizado por curandeiros charlatães. Curvado às ordens presidenciais, ele recomenda o uso indiscriminado da cloroquina em pacientes de Covid, contrariando as conclusões de investigações científicas abrangentes. Às vezes, a bagunça é crime.
Não damos sopa para o azar. Os países europeus, bagunceiros, só exigem o uso de máscara em lugares fechados. No Brasil, somos ordeiros, rígidos, implacáveis: a Câmara estendeu a obrigação aos espaços abertos. Obedientes, as pessoas percorrem as calçadas com o apetrecho na testa ou no pescoço, manuseando-o irrestritamente, enquanto as máscaras dos motoqueiros se cobrem de películas de fuligem. Fazemos leis para chinês ver.
Nunca relaxamos. O fechamento geral de escolas é medida de eficácia improvável no combate ao coronavírus, concluiu um estudo publicado pela Lancet, revista médica de referência.
Na Europa, a reabertura escolar figura entre as medidas pioneiras da flexibilização, pois a longa interrupção atinge devastadoramente famílias e alunos pobres. Mas, por aqui, isso foi relegado ao epílogo do cronograma das autoridades. “Vire-se, povinho!” —eis a mensagem de governantes tementes a Deus ou à “Ciência”.
Nossa epidemia seguirá crepitando, enquanto o mundo vira uma página. Temos tempo para substituir o lema que atravessa a esfera azul celeste da bandeira tão amada.Demétrio Magnoli
O risco do novo pretorianismo
Quanto menos popular, mais um governo tende a recorrer à força e a aparelhos de repressão do Estado. É assim numa ditadura. Pode ser assim numa democracia que vai sendo paulatinamente desgastada, erodida, envergonhada, como a brasileira. Esse é o assunto do momento, em que o país se vê perplexo com a tentativa de controle do Planalto sobre a Polícia Federal e as renovadas pressões das Forças Armadas sobre o sistema político. O Executivo ataca, o Supremo Tribunal Federal (STF) busca reagir - como na operação desta quarta-feira que acossou a suposta associação criminosa que dissemina “fakenews” - e o fragmentado Congresso leva tudo no banho-maria. Mas antes há o quadro geral.
Eleito pelo voto da maioria, Jair Bolsonaro não a tem mais. Os simpatizantes que consegue mobilizar nas manifestações dominicais em frente ao Planalto expõem um pequeno rebanho, embora cada vez mais radical, já denominado pelo decano do Supremo, Celso de Mello, de “bolsonaristas fascistóides”.
Pesquisas indicam queda de popularidade e aumento de rejeição após a resposta dada à pandemia do novo coronavírus. Sem qualquer coordenação nacional para enfrentar a crise, o Brasil se tornou, com o descaso propagado por Bolsonaro, o novo epicentro de disseminação e de mortes pela covid-19, que já ceifou mais de 25 mil vidas.
Com o sexto maior número de habitantes do planeta, o país avança em ritmo acelerado para alcançar o segundo lugar no ranking de óbitos, atrás apenas dos Estados Unidos, que têm população 55% superior. Ou seja, seremos o “campeão imoral” da pandemia.
As ideias do presidente não correspondem aos fatos nem à ciência. O mundo vê o brasileiro como uma massa doente de párias, obtusos e obscurantistas que precisam ser mantidos à distância. Mesmo pelo bajulado Donald Trump, que proibiu a entrada de viajantes com passagem pelo Brasil nos aeroportos americanos. O nível de investimento direto no país é o menor em 25 anos. O real é a moeda que mais se desvaloriza em relação ao dólar. Brasil, em tudo, abaixo de todos.
Quanto mais explícita a incapacidade de gestão e de liderança de Bolsonaro, mais o presidente e seu entorno precisam falar mais alto. O vídeo constrangedor da reunião ministerial de 22 de abril foi só amostra vulgar. Nos últimos anos o decoro, a civilidade, a cordialidade, o bom senso, a racionalidade saíram de moda. O movimento desaguou em projeto de índole revolucionária da extrema-direita.
Seu estilo de governo é hierárquico e autoritário. Quanto mais perde a ligação direta com a população, porém, mais se apoia em estruturas contraditórias. Deixou de criticar o toma-lá-dá-cá e abraçou o fisiologismo do Centrão. Fala em suposta democracia, mas sempre defendeu a ditadura militar e procura jogar a opinião pública contra o Congresso, o STF e a imprensa livre. O contínuo ataque às instituições, contudo, ganhou novos contornos com os últimos acontecimentos que dão conta do suposto apoio de Bolsonaro nas Forças Armadas.
Já se sabe que o sonho de Bolsonaro seria governar uma espécie de Coreia do Norte de direita, sem oposição, e com os militares subordinados aos caprichos de uma fonte de poder familiar - do pai, dos filhos e inspirada pelo espírito do guru Olavo de Carvalho.
O que não está - ou estava - tão claro era a disposição das Forças Armadas em se engajar de corpo e alma no projeto. No mínimo, arrisca a credibilidade da corporação. No limite, arrebenta com a democracia. Não foi trivial o episódio da nota do ministro Augusto Heleno, em que o general afirmou que poderia haver “consequências imprevisíveis” se a Justiça decidisse apreender o telefone do presidente, no âmbito da investigação que apura a denúncia de interferência de Bolsonaro na PF, feita pelo ex-ministro Sérgio Moro.
Ao contar com o aval do ministro da Defesa, Fernando Azevedo e Silva, e de quase uma centena de generais da reserva, o texto reforçou as suspeitas da cada vez maior atuação das Forças Armadas como uma instituição de governo, e não de Estado.
Nos bastidores, militares acenam com a possibilidade de uma “guerra civil” quando, na verdade, a população só vê como inimigo imediato um vírus invisível, e quando só um lado faz apologia da violência ou da desobediência civil. Dois ex-presidentes, Lula e Dilma, tiveram conversas telefônicas grampeadas e vazadas, mas Bolsonaro antecipadamente afirma que descumpriria decisão que lhe obrigasse a entregar o celular. Ontem, mesmo num dia de investigação a pleno vapor contra o chamado “gabinete do ódio”, o grupo bolsonarista “300 do Brasil”, que defende uma revolução e foi classificado como “milícia” pelo Ministério Público do Distrito Federal e Territórios (MPDFT), montava acampamento em frente ao Supremo.
Tão ciosas com a preservação da ordem, não se ouviu das Forças Armadas uma condenação à organização paramilitar. Ou à proposta de Bolsonaro de armar a população para defender o governo dele. Ou à declaração, também exposta na reunião ministerial, em que o presidente afirmou ter um sistema paralelo de inteligência, o que seria ilegal.
A história do militarismo remonta à fase embrionária das guardas pretorianas dos imperadores romanos, passou pela profissionalização do Exército na Prússia e encontrou, sobretudo no Brasil, sua forma contemporânea como um “novo pretorianismo”. Aqui, a alternância no poder de presidentes-generais elevou o que poderia ter sido uma cirúrgica intervenção, em 1964, ao patamar de um regime.
A prevalência dos militares - o que ocorre com Bolsonaro em grau maior do que durante a ditadura militar - é geralmente explicada quando o Exército é a parte mais moderna da sociedade ou quando a estrutura política procura por legitimidade.
Há cem anos, quando o Brasil deixava de ser agrário e começava seu processo de modernização, o tenentismo até dava sentido à primeira hipótese. Com a forte adesão das Forças Armadas a teses olavistas e mistificações como “guerra cultural”, em meio à longa crise política, nova submissão do governo federal à caserna só leva a outra definição usual como denominador comum do militarismo: degeneração da sociedade civil.
Cristian Klein
Eleito pelo voto da maioria, Jair Bolsonaro não a tem mais. Os simpatizantes que consegue mobilizar nas manifestações dominicais em frente ao Planalto expõem um pequeno rebanho, embora cada vez mais radical, já denominado pelo decano do Supremo, Celso de Mello, de “bolsonaristas fascistóides”.
Pesquisas indicam queda de popularidade e aumento de rejeição após a resposta dada à pandemia do novo coronavírus. Sem qualquer coordenação nacional para enfrentar a crise, o Brasil se tornou, com o descaso propagado por Bolsonaro, o novo epicentro de disseminação e de mortes pela covid-19, que já ceifou mais de 25 mil vidas.
Com o sexto maior número de habitantes do planeta, o país avança em ritmo acelerado para alcançar o segundo lugar no ranking de óbitos, atrás apenas dos Estados Unidos, que têm população 55% superior. Ou seja, seremos o “campeão imoral” da pandemia.
As ideias do presidente não correspondem aos fatos nem à ciência. O mundo vê o brasileiro como uma massa doente de párias, obtusos e obscurantistas que precisam ser mantidos à distância. Mesmo pelo bajulado Donald Trump, que proibiu a entrada de viajantes com passagem pelo Brasil nos aeroportos americanos. O nível de investimento direto no país é o menor em 25 anos. O real é a moeda que mais se desvaloriza em relação ao dólar. Brasil, em tudo, abaixo de todos.
Quanto mais explícita a incapacidade de gestão e de liderança de Bolsonaro, mais o presidente e seu entorno precisam falar mais alto. O vídeo constrangedor da reunião ministerial de 22 de abril foi só amostra vulgar. Nos últimos anos o decoro, a civilidade, a cordialidade, o bom senso, a racionalidade saíram de moda. O movimento desaguou em projeto de índole revolucionária da extrema-direita.
Seu estilo de governo é hierárquico e autoritário. Quanto mais perde a ligação direta com a população, porém, mais se apoia em estruturas contraditórias. Deixou de criticar o toma-lá-dá-cá e abraçou o fisiologismo do Centrão. Fala em suposta democracia, mas sempre defendeu a ditadura militar e procura jogar a opinião pública contra o Congresso, o STF e a imprensa livre. O contínuo ataque às instituições, contudo, ganhou novos contornos com os últimos acontecimentos que dão conta do suposto apoio de Bolsonaro nas Forças Armadas.
Já se sabe que o sonho de Bolsonaro seria governar uma espécie de Coreia do Norte de direita, sem oposição, e com os militares subordinados aos caprichos de uma fonte de poder familiar - do pai, dos filhos e inspirada pelo espírito do guru Olavo de Carvalho.
O que não está - ou estava - tão claro era a disposição das Forças Armadas em se engajar de corpo e alma no projeto. No mínimo, arrisca a credibilidade da corporação. No limite, arrebenta com a democracia. Não foi trivial o episódio da nota do ministro Augusto Heleno, em que o general afirmou que poderia haver “consequências imprevisíveis” se a Justiça decidisse apreender o telefone do presidente, no âmbito da investigação que apura a denúncia de interferência de Bolsonaro na PF, feita pelo ex-ministro Sérgio Moro.
Ao contar com o aval do ministro da Defesa, Fernando Azevedo e Silva, e de quase uma centena de generais da reserva, o texto reforçou as suspeitas da cada vez maior atuação das Forças Armadas como uma instituição de governo, e não de Estado.
Nos bastidores, militares acenam com a possibilidade de uma “guerra civil” quando, na verdade, a população só vê como inimigo imediato um vírus invisível, e quando só um lado faz apologia da violência ou da desobediência civil. Dois ex-presidentes, Lula e Dilma, tiveram conversas telefônicas grampeadas e vazadas, mas Bolsonaro antecipadamente afirma que descumpriria decisão que lhe obrigasse a entregar o celular. Ontem, mesmo num dia de investigação a pleno vapor contra o chamado “gabinete do ódio”, o grupo bolsonarista “300 do Brasil”, que defende uma revolução e foi classificado como “milícia” pelo Ministério Público do Distrito Federal e Territórios (MPDFT), montava acampamento em frente ao Supremo.
Tão ciosas com a preservação da ordem, não se ouviu das Forças Armadas uma condenação à organização paramilitar. Ou à proposta de Bolsonaro de armar a população para defender o governo dele. Ou à declaração, também exposta na reunião ministerial, em que o presidente afirmou ter um sistema paralelo de inteligência, o que seria ilegal.
A história do militarismo remonta à fase embrionária das guardas pretorianas dos imperadores romanos, passou pela profissionalização do Exército na Prússia e encontrou, sobretudo no Brasil, sua forma contemporânea como um “novo pretorianismo”. Aqui, a alternância no poder de presidentes-generais elevou o que poderia ter sido uma cirúrgica intervenção, em 1964, ao patamar de um regime.
A prevalência dos militares - o que ocorre com Bolsonaro em grau maior do que durante a ditadura militar - é geralmente explicada quando o Exército é a parte mais moderna da sociedade ou quando a estrutura política procura por legitimidade.
Há cem anos, quando o Brasil deixava de ser agrário e começava seu processo de modernização, o tenentismo até dava sentido à primeira hipótese. Com a forte adesão das Forças Armadas a teses olavistas e mistificações como “guerra cultural”, em meio à longa crise política, nova submissão do governo federal à caserna só leva a outra definição usual como denominador comum do militarismo: degeneração da sociedade civil.
Cristian Klein
Comunicado
Na frente ocidental nada de novo.
O povo
Continua a resistir.
Sem ninguém que lhe valha,
Geme e trabalha
Até cair.
Miguel Torga
O povo
Continua a resistir.
Sem ninguém que lhe valha,
Geme e trabalha
Até cair.
Miguel Torga
Cenas de desgoverno
É impossível ver o vídeo da fatídica reunião ministerial de 22 de abril sem ser tomado por avassaladora apreensão com a forma com que o país vem sendo governado. Calam fundo não só os gritos como os silêncios. Entre muitas outras barbaridades, o presidente da República confessou aos brados, com todas as letras, para quem quisesse ouvir, que está ostensivamente empenhado em levar adiante um projeto com o objetivo deliberado de “armar o povo” para que possa confrontar autoridades constituídas dos governos subnacionais.
Já houve tempo — e não me refiro às duas décadas de regime militar — em que tal confissão faria soar todos os alarmes nas Forças Armadas. Não foi o que se viu. Nenhum dos muitos oficiais-generais presentes na reunião sequer piscou. Mas o que de fato importa, no caso, é o que o Supremo e a PGR terão a dizer sobre tão desafortunada confissão. Acuado como está, o presidente não perde oportunidade de se encalacrar cada vez mais.
Já houve tempo — e não me refiro às duas décadas de regime militar — em que tal confissão faria soar todos os alarmes nas Forças Armadas. Não foi o que se viu. Nenhum dos muitos oficiais-generais presentes na reunião sequer piscou. Mas o que de fato importa, no caso, é o que o Supremo e a PGR terão a dizer sobre tão desafortunada confissão. Acuado como está, o presidente não perde oportunidade de se encalacrar cada vez mais.
Teria sido menos deprimente se os participantes da reunião tivessem se limitado a não contestar os acessos de primitivismo de Bolsonaro. Mas o que se viu foi um torneio de capachismo, em que ministros e outras autoridades presentes se revezavam em louvores aos despropósitos vociferados pelo presidente, sem descuidar do estilo primitivo que parecia ser de uso protocolar na reunião.
Afora uma intervenção curta e anódina do ministro 02 da Saúde, pouco se ouviu sobre a pandemia, a não ser diatribes impublicáveis contra governadores e prefeitos, trovejadas por um presidente inconformado com as limitações que lhe são impostas pelos preceitos constitucionais de uma república federativa.
Nesse ambiente carregado, o ministro da Economia fez o que pôde para tentar dar seu recado, com amplo uso da cota de excessos verbais que lhe cabia na reunião. Arguiu que, por abalado que tenha sido pela crise, o governo não tinha perdido a bússola. E que se souber retomar o trilho da política econômica, tão logo a pandemia esteja sob controle, o país surpreenderá o mundo. E a reeleição do presidente estará assegurada.
O problema é que, na bússola de Bolsonaro, o único rumo a seguir passou a ser o da resistência ao impeachment. E, como bem mostrou a reunião, boa parte do governo e de seus novos aliados no Congresso anda fascinada com a possibilidade de acelerar a recuperação da economia com a adoção de políticas nacional-desenvolvimentistas.
O problema é que, na bússola de Bolsonaro, o único rumo a seguir passou a ser o da resistência ao impeachment. E, como bem mostrou a reunião, boa parte do governo e de seus novos aliados no Congresso anda fascinada com a possibilidade de acelerar a recuperação da economia com a adoção de políticas nacional-desenvolvimentistas.
Não há auto-engano que resolva. É impossível não perceber quão gritante é a desproporção entre a enormidade dos desafios com que o país se defronta e as acanhadas possibilidades de atuação eficaz da cúpula do governo, cruamente desnudadas pelo vídeo da reunião de 22 de abril, em Brasília.
Questão de múltipla escolha
Imagine que você esteja entre os 210 passageiros de um voo intercontinental e, em plena travessia do Atlântico, o avião seja colhido por uma tempestade perfeita. A maior em 100 anos, surgida do nada, para grande surpresa dos meteorologistas. Atribulada com o enfrentamento da tempestade e a tranquilização dos passageiros, a tripulação começa a se dar conta de que o comandante parece estar fora de si, gritando frases desconexas, alheio à gravidade da situação e, o que é pior, insistindo em manobrar o avião com alarmante imprudência, ao arrepio do que, em circunstâncias tão adversas, sugerem regras elementares de condução da aeronave.
Responda para você mesmo: o que deveria fazer a tripulação?
(a) Nada, porque é ao comandante e só a ele que cabe a escolha da melhor forma de enfrentar a tempestade;
(b) Esperar que o avião atravesse a tempestade e reavaliar a situação;
(c) Esperar que o avião chegue a seu destino e avaliar se seria o caso de relatar o ocorrido à ouvidoria da empresa, com a discrição cabível;
(d) Afastar o comandante da cabine de comando, tão logo quanto possível, para que o copiloto possa assumir pleno controle da aeronave em situação tão crítica;
(e) Prefiro não responder, nem para mim mesmo;
(f) Não tenho tempo a perder com questão tão idiota.
A politização da morte
O primeiro é a boa e velha estratégia da “cortina de fumaça”. Com uma economia já estagnada em 2019, o impacto econômico da pandemia ameaçaria os planos de reeleição. A solução? Politizar a Covid-19. De um lado, colocam-se os que “querem trabalhar”, os “defensores da economia” e dos que “prescrevem” a cloroquina; do outro, os que “querem ficar em casa”, os “defensores da vida” e até os “céticos”, que não prescrevem cloroquina. Uma polarização perfeita que coloca a crise como responsabilidade dos outros.
Tudo isso se resume à estratégia de ampliação dos poderes do presidente em face das outras instâncias. A eleição de Bolsonaro explica-se pela polarização, e assim é o seu governo, empenhado em manter suas tropas em permanente estado de mobilização “contra o sistema”, ou seja, contra todos aqueles que discordam das posições do “chefe supremo”.
A estratégia do bolsonarismo é tudo politizar: do combate à pandemia ao desmatamento, passando pela data do Enem. Ao politizar as mortes, Bolsonaro as retira de seus ombros (“e daí?”, “não sou coveiro”).
O governo Bolsonaro não é feito para governar; é feito para implementar um programa conservador de um movimento populista autoritário, cuja lógica é o confronto. Como na anedota do sapo e do escorpião, essa é a sua natureza. Não vai mudar.
Tanques e likes empurram Bolsonaro ara o tudo ou nada
O governo nasceu sob a expectativa positiva de 65% dos brasileiros, segundo uma pesquisa feita antes da posse. Bolsonaro rapidamente jogou fora essa boa vontade e se acomodou sobre uma divisão dos brasileiros em três terços, que consideravam o governo bom, regular e ruim.
O arranjo estava longe de ser confortável para qualquer político, mas deu alguma estabilidade a um presidente que cometeu barbaridades diárias e se mostrou incapaz de apresentar um programa minimamente coerente para o país.

Os números da última pesquisa Datafolha, realizada nos últimos dias, mostraram que esse panorama mudou. As crises sanitária, política e econômica empurraram uma fatia razoável de brasileiros para o campo crítico a Bolsonaro. A proporção de entrevistados que rejeitam o governo subiu para 43%, enquanto sua parcela de apoiadores se manteve em 33%. A diferença entre os dois percentuais representa cerca de 20 milhões de pessoas.
Bolsonaro recorreu a outros métodos para preservar seu poder. Passou a fazer acenos ainda mais frequentes às Forças Armadas e lançou ameaças abertas de intervenção militar. Nesta quinta (28), o presidente divulgou um discurso favorável a uma ação fardada sobre o STF. Nenhum comandante o contestou.
O atrevimento golpista serve para demonstrar força, intimidar autoridades e energizar uma base crescentemente identificada com seu líder. A maioria do núcleo bolsonarista concorda com a ideia de armar a população, apoia a participação de militares no governo e acha que o presidente só queria melhorar sua segurança pessoal —e não interferir na Polícia Federal. Esse grupo empurra Bolsonaro para o tudo ou nada.
Palavrões do presidente revelam homem que só interage agredindo
A reunião dos ministros, de 22 de abril, agora acessível a todos, foi convocada pelo general Braga Netto, ministro-chefe da Casa Civil, para o estabelecimento de um pacto em favor do Plano Pró-Brasil, de retomada do crescimento econômico. Um Plano Marshall brasileiro, explicou, aludindo equivocadamente ao plano americano que, após a Segunda Guerra Mundial (1939-1945), assegurou o dinheiro para a recuperação e o progresso econômico dos países derrotados.
Braga Netto se referia à política do New Deal, que o presidente Franklin Roosevelt pôs em prática para recuperar a economia americana da grande crise econômica de 1929.
Seu plano é, no fundo, um plano de investimentos estatais em infraestrutura, para criar emprego e renda e seus multiplicadores. Um plano de desenvolvimento econômico com efeitos sociais diretos em oposição ao plano neoliberal de Paulo Guedes, que é um plano só de crescimento econômico, com efeitos sociais indiretos. E o objetivo político de eleger Bolsonaro em 2022, proclamou ele.
O plano de Braga Netto não parece limitado a tentar salvar o PIB e os lucros do grande capital, como é o de Guedes. O é, porém, de forma indireta. Induz a interiorização dos centros de decisão do desenvolvimento econômico. Há aí, em germe, um potencial neonacionalismo, oposto à geopolítica bolsonarista de satelização do Brasil em relação aos EUA.
A proposta de Braga Netto talvez se inspire, por ouvir dizer, na “Teoria Geral do Emprego, do Juro e da Moeda”, livro de John Maynard Keynes, economista da Universidade de Cambridge, influente no pós-guerra. No Brasil, ideias que seriam reconhecidas mais tarde como antecipações do keynesianismo já haviam sido aplicadas, com grande êxito, pelo banqueiro brasileiro José Maria Whitaker, ministro da Fazenda do governo provisório de Getúlio Vargas, em 1930-1931.
A compra e queima dos estoques de café, sem mercado em decorrência da crise de 1929, manteve o fluxo de renda, e com ele os fazendeiros seriam pagos pelo café encalhado, e com o dinheiro pagariam os colonos pela colheita pendente. O que manteve a vitalidade do mercado e da indústria brasileira, já estabelecida desde o final do século XIX, com grande capacidade ociosa para substituir importações.
Braga Netto se referia à política do New Deal, que o presidente Franklin Roosevelt pôs em prática para recuperar a economia americana da grande crise econômica de 1929.
Seu plano é, no fundo, um plano de investimentos estatais em infraestrutura, para criar emprego e renda e seus multiplicadores. Um plano de desenvolvimento econômico com efeitos sociais diretos em oposição ao plano neoliberal de Paulo Guedes, que é um plano só de crescimento econômico, com efeitos sociais indiretos. E o objetivo político de eleger Bolsonaro em 2022, proclamou ele.
O plano de Braga Netto não parece limitado a tentar salvar o PIB e os lucros do grande capital, como é o de Guedes. O é, porém, de forma indireta. Induz a interiorização dos centros de decisão do desenvolvimento econômico. Há aí, em germe, um potencial neonacionalismo, oposto à geopolítica bolsonarista de satelização do Brasil em relação aos EUA.
A proposta de Braga Netto talvez se inspire, por ouvir dizer, na “Teoria Geral do Emprego, do Juro e da Moeda”, livro de John Maynard Keynes, economista da Universidade de Cambridge, influente no pós-guerra. No Brasil, ideias que seriam reconhecidas mais tarde como antecipações do keynesianismo já haviam sido aplicadas, com grande êxito, pelo banqueiro brasileiro José Maria Whitaker, ministro da Fazenda do governo provisório de Getúlio Vargas, em 1930-1931.
A compra e queima dos estoques de café, sem mercado em decorrência da crise de 1929, manteve o fluxo de renda, e com ele os fazendeiros seriam pagos pelo café encalhado, e com o dinheiro pagariam os colonos pela colheita pendente. O que manteve a vitalidade do mercado e da indústria brasileira, já estabelecida desde o final do século XIX, com grande capacidade ociosa para substituir importações.
O que parecia ser uma reunião de bajuladores do presidente da República foi, na verdade, um questionamento da política econômica do ministro Paulo Guedes.
Guedes percebeu e pulou na hora. Repreendeu o general e disse que a alusão ao Plano Marshall revelava um despreparo enorme. A recuperação da economia deveria se basear em investimentos privados, e não em investimentos estatais. Impugnou Keynes. O general gaguejou e concordou. Não estava preparado para compreender o alcance e as implicações da proposta que fazia.
Dada a palavra aos presentes, houve algumas vozes na linha de questionamento de Guedes. A mais explícita foi a do ministro Rogério Marinho, economista: “Não podemos começar uma discussão com verdades absolutas e com dogmas...”.
Falou em favor de uma política de obras de infraestrutura, com inversão de recursos públicos. Questionou a preocupação de Guedes e de outros membros do governo de que, com a pandemia, “as coisas continuam como eram antes”. “Não são como eram antes, aqui e no mundo inteiro”, afirmou Marinho. E com razão. Uma nova ordem econômica terá que surgir inspirada em valores econômicos, mas também sociais, antineoliberais.
A ministra da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos, Damares Alves, alertou Guedes: “Vamos ter que fazer algumas revisões de políticas públicas no Brasil (...), coloque aí a questão dos valores” (sociais), ordenou. Citou números de quilombolas, idosos, crianças e mulheres em abrigos. Aqueles que, em certa época, as esquerdas definiam como excluídos.
As intervenções de Bolsonaro ficaram desconectadas das outras falas. Pegava deixas no que os outros diziam e via em tudo prova de conspiração contra sua pessoa. Confessou medo. Antes da Presidência, quando ia ao médico, pedia que seu nome não constasse das receitas, para não ser envenenado. Vê inimigos por trás de tudo. “Tem gente deles plantada aqui dentro”, enfatizou.
Os palavrões pronunciados por ele na reunião são irrelevantes para a compreensão do que está se passando no escurinho do poder. Os palavrões de cunho fecal e sexual revelam um homem que só interage agredindo. Seu inimigo invisível tem um nome, que ele mencionou duas vezes: Jaguapoca.
Socializado na cultura caipira, no dialeto caipira encontrou nos remanescentes tupi que nele há a palavra que indica o que pensa desse temido inimigo:
Jaguapoca, a onça que é menos onça do que deve ser. Daí depreciar todos os que com ele não se alinham, onças que esturram, mas que são apenas m. e estrume.José de Souza Martins
Guedes percebeu e pulou na hora. Repreendeu o general e disse que a alusão ao Plano Marshall revelava um despreparo enorme. A recuperação da economia deveria se basear em investimentos privados, e não em investimentos estatais. Impugnou Keynes. O general gaguejou e concordou. Não estava preparado para compreender o alcance e as implicações da proposta que fazia.
Dada a palavra aos presentes, houve algumas vozes na linha de questionamento de Guedes. A mais explícita foi a do ministro Rogério Marinho, economista: “Não podemos começar uma discussão com verdades absolutas e com dogmas...”.
Falou em favor de uma política de obras de infraestrutura, com inversão de recursos públicos. Questionou a preocupação de Guedes e de outros membros do governo de que, com a pandemia, “as coisas continuam como eram antes”. “Não são como eram antes, aqui e no mundo inteiro”, afirmou Marinho. E com razão. Uma nova ordem econômica terá que surgir inspirada em valores econômicos, mas também sociais, antineoliberais.
A ministra da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos, Damares Alves, alertou Guedes: “Vamos ter que fazer algumas revisões de políticas públicas no Brasil (...), coloque aí a questão dos valores” (sociais), ordenou. Citou números de quilombolas, idosos, crianças e mulheres em abrigos. Aqueles que, em certa época, as esquerdas definiam como excluídos.
As intervenções de Bolsonaro ficaram desconectadas das outras falas. Pegava deixas no que os outros diziam e via em tudo prova de conspiração contra sua pessoa. Confessou medo. Antes da Presidência, quando ia ao médico, pedia que seu nome não constasse das receitas, para não ser envenenado. Vê inimigos por trás de tudo. “Tem gente deles plantada aqui dentro”, enfatizou.
Os palavrões pronunciados por ele na reunião são irrelevantes para a compreensão do que está se passando no escurinho do poder. Os palavrões de cunho fecal e sexual revelam um homem que só interage agredindo. Seu inimigo invisível tem um nome, que ele mencionou duas vezes: Jaguapoca.
Socializado na cultura caipira, no dialeto caipira encontrou nos remanescentes tupi que nele há a palavra que indica o que pensa desse temido inimigo:
Jaguapoca, a onça que é menos onça do que deve ser. Daí depreciar todos os que com ele não se alinham, onças que esturram, mas que são apenas m. e estrume.José de Souza Martins
Covardes na pandemia
Você pode me destratar do que jeito que você quiser, mas você tem nome, sobrenome e assinatura. Então, eu tenho o direito de te processar. O que é feito de modo imoral, indecente (sem identificação) é um ato de covarde. A internet criou uma nova era: a era do covarde.
Esse negócio de fake é nojento, tem que acabar definitivamente no Brasil, tem que ser regulamentado de forma enérgica
Alexandre Kalil (PSD), prefeito de Belo Horizonte
O que podemos diante dos perversos?
Freud apresenta a diferença entre o que ele denomina de consciência de culpa e o que chama de consciência moral.
A consciência de culpa, que compartilhamos, por exemplo, com animais de estimação, diz da determinação ou da inibição de certos comportamentos apenas por temor de sermos punidos ou de perdermos a atenção e o cuidado dos outros. Usaremos atualmente uma máscara facial para inibir o contágio pelo coronavírus ou não jogaremos um papel no chão ou, ainda, não atravessaremos o farol vermelho, apenas porque tomaremos uma multa ou, no extremo, seremos presos, assim como o cachorro sabe que tomará uma bronca ou receberá uma palmada se urinar no local inapropriado.
Já a consciência moral, diferentemente, diz da interiorização da lei e da consequente assunção do sentido de coletividade, da percepção, portanto, de que sou um dentre tantos outros, de que não estou acima da Lei, de que todos somos iguais perante a justiça e ao pacto social. Ou seja, utilizarei corretamente a máscara facial (e não fingirei que a estou utilizando, deixando-a pendurada na orelha ou abaixo do nariz), não jogarei um papel na rua ou atravessarei o sinal vermelho, pois antecipo minhas responsabilidades, pois penso nas consequências de meus atos para além do meu mero prazer momentâneo, pois sou capaz de presumir que posso me contaminar ou contaminar outros com um vírus de potência letal, pois posso imaginar que os rios ficariam poluídos com o lixo descartado em lugar impróprio, que poderia levar a um futuro de enchentes e de doenças, e que atrapalharia o trânsito e também a vida de tantas pessoas com meus atos descabidos.
Tudo isso é quase o óbvio, ou deveria ser assim.
Mas, e quando vivemos num contexto autoritário em que aqueles que deveriam zelar pelo bem comum se colocam como se estivessem acima da lei, ou melhor, como sendo a lei? Essa versão torpe de Luís XIV, que corporifica a lei de Gerson, em que nos vangloriamos de tirar vantagem de tudo e de todos, demonstra que nós brasileiros, com nossa triste história, colocamos no cargo de presidente da República um narciso autoritário que desdenha a lei, ou pior, que supõe ser ele próprio a lei.
E isso, sem esquecer que esse ser abjeto foi colocado lá por mais 50 milhões de habitantes, o que evidencia um conluio perverso que nos atravessa e nos estrutura.
Esse Estado somos nós.
Confundimos autoridade com autoritarismo.
No lugar da lei comum, da Constituição que juntos elaboramos, estabelecemos e nos recolhemos dentro de leis particulares. Cada qual resolve por conta própria, pelo jeitinho, pela força, poder ou influência, definir suas leis particulares, o que é certo ou errado, atacando a lógica da convivência, desdenhando de um código de ética, da cidadania, da Constituição, dos Direitos Humanos.
Dos colonizadores que fizeram terra arrasada dos povos originais, nós, seus descendentes que nos tornamos o último país a abolir a escravidão, e que ainda a toleramos nas residências, fazendas e fábricas de trabalho escravo e no trato às empregadas domésticas; um país marcado pela desigualdade ultrajante, que não oferece à grande maioria de sua população a infraestrutura básica para usufruto de água, luz, esgoto, que não oferece educação, saúde, transporte e segurança; um país que desdenha da justiça, que detém recordes em índices de violência contra crianças, adolescentes e idosos, que abusa reiteradamente da mulher, que humilha a comunidade LGBT+, que desrespeita as regras de trânsito, que explora sem limites a natureza; um país autoritário em sua força de segurança e que ainda se provém de milícias armadas e de um poder paralelo do tráfico que faz conluio com o poder público; um país de ruas sujas por dejetos diversos; um lugar em que há ao menos duas formas de resolver problemas: o oficial e o oficioso.....
Esse Estado perverso, injusto, violento e intolerante, somos nós.
Nós, que misturamos o público com privado, nós, que corrompemos o Estado e que determinamos que a Polícia Federal deveria servir à família do presidente, nós, que desvirtuamos a Justiça, que mostramos, adulteramos ou escondemos provas de delitos, que julgamos e aplicamos sentenças conforme nossos interesses arbitrários. Nós, nós, nós.
O que dá inteligibilidade a todos esses comportamentos é uma estrutura psicológica precisada por Freud, a perversão. A perversão não é a maldade, como o senso comum indicaria, a perversão para a psicanálise é o desdém, é a recusa da lei.
Não o seu desconhecimento, mas seu desprezo, sua rejeição, sua denegação. Ou seja, o perverso sabe da existência da lei, mas tem certeza de que ela não se aplica a ele. Não! Ele, o perverso, é a Constituição, ele está acima dela, falseia e manipula a carta magna para esconder os seus crimes.
O terrível jeitinho brasileiro.
Fala-se muito em fake news, e a mentira é, sim, um grave problema tanto no âmbito da esfera pública como na esfera privada. Mas o mecanismo da perversão de que a psicanálise fala não é a mentira em si, mas o desmentido, o descompromisso com qualquer verdade. O perverso não se empenha com a palavra e, portanto, pode falar o que lhe vier à boca, depois falar o oposto, acender uma vela a Deus e outra ao Diabo, acusar seus detratores daquilo que ele próprio disse. Uma criança abusada que denuncia a violência experimentada se vê desmentida em seu sofrimento pelo perverso e por suas testemunhas coniventes, até então silenciosas, que responderiam à criança: “Não temos nada a ver com isso. Isso não aconteceu, você não foi abusada, foi tudo fruto da sua imaginação, foi você que nos violou”. A violência é percebida e denegada. A revelação de que o rei está nu cai por terra, não reverbera: não há como denunciar a violência e a ilegalidade. E isso nos enlouquece, nos exaspera, nos tira do eixo, nos rouba a esperança, o horizonte, a confiança no outro. Quando os compromissos com a grande lei e com os outros é desdenhado, somos roubados em nossa crença no projeto comum de futuro. Ou, então, profundamente desamparados aderimos como um exército de zumbis, de vampiros, à nova desordem mundial e passamos a assumir o discurso perverso, amoral, nos identificando-nos com ele, acreditando nele, repetindo sua fala, transformando-nos nele, até empunhar orgulhosa e tresloucadamente a sua bandeira. O terror.
O que vem acontecendo conosco? Que processo assassino é esse, que envenena e depois destrói nossa alma, que extermina nossos corpos, que joga terra em nossos sonhos?
Seria esse o resultado em nós da perversão do ato colonizador e espoliador que fundou nosso país e que se desdobrou em tantas e tão terríveis tragédias? Marchamos, assim, desde nossos tempos iniciais, afiançando o assassinato dos povos originais, com a objetificação naturalizada do outro para a nossa exploração e prazer na escravização do povo africano, com a tortura nos porões da ditadura civil-militar... todos atos de violência extrema e desprezo pela lei e pelo outro que continuam a ser aplicados sem escrúpulos ainda hoje sobre a maior parte da população, nas relações perpetradas tanto na sociedade civil, como também pelo Estado, este que deveria zelar pelo bem comum. Essa nossa história de extrema barbárie, que é reproduzida tantas vezes em nossos lares e que nos configura como bestas covardes e perversas.
E, ainda, a perversão cria testemunhas silenciosas, omissas e coniventes, depois, cúmplices, e, finalmente, iguais. E, por óbvio, não pode existir uma fratria perversa, não há comunidade na perversão. Há, sim, gangues, corjas assassinas. Passamos a ser apenas comparsas, desconfiados um do outro. Ao perpetuarmos a perversão, estamos prontos a ver brechas em que nosso poder, força ou influência seja maior do que o do outro, para nos darmos individualmente “bem”, para levarmos vantagem em tudo. Não existe sociedade, mas um bando atemorizado, cruel e perigoso. Animais acuados, hienas prontas a se defender atacando outros.
Estranho processo esse em que ao não assumirmos em nós a tentação da perversão nos eximimos ou nos omitimos e nos apequenamos diante da desfaçatez da perversão que colocamos na gestão do Estado.
Estranho processo de identificação-negada com o perverso, processo ininteligível que gera ao mesmo tempo culpa e gozo. Estranha identificação com essas raposas vorazes, violentas e desvairadas que escolhemos para cuidar de nós, supostas galinhas.
Mas preferimos nos justificar em nossa apatia, seguir negando que somos todos também perversos, e assim não conseguimos retomar nossa história para estabelecer um projeto diverso do de um passado repleto de perversões. Preferimos afirmar que estamos agindo assim, ou que nos mantemos paralisados diante da perversão, negando para nós mesmos esse sentimento aterrorizante de identificação com o perverso: somos parasitas parasitados, somos Coringas brutalizados e brutais. E essa percepção da perversão em nós, ainda que negada, re-emerge como sentimento de culpa, que por vezes se mistura com sentimentos de persecutoriedade e de punição. Seria para fugir do crime e do castigo que estabeleceríamos novamente um conluio com a perversão e, assim, não reagir à nossa própria perversão? É um sentimento de que nos sabemos perversos em ação ou em potencial. Desconfiamos do outro porque sabemos do nosso potencial destruidor.
Certo, e que tal se reconhecermos essa tentação à perversão como forma de libertação, e não de prisão? Que tal se pudéssemos reconhecer nosso passado coletivo e privado para mudá-lo, transformá-lo em uma consciência moral para não mais repeti-lo? Reconheçamos nossos delitos e nossa omissão para que criemos consciência de nossa potência perversa e escolher ativamente não agir fora ou aquém da lei e, assim, que possamos convocar outros para que ajam também segundo a égide da lei. Devemos reagir. Falar, gritar, brigar, denunciar, procurar parceiros fraternos cujas consciências morais formem uma rede contra esse jogo perverso.
Nossa resposta à perversão só pode ser pela ética. Pela justiça social e pelo bem comum, pela reafirmação do pacto social e pelo enfrentamento daqueles que insistem em se colocar num gozo narcísico, egoísta, individualista, amoral, no qual o projeto coletivo não existe. A cada palavra ou ato, devemos antes pensar: é apenas para meu bel prazer, ou também inclui a coletividade?
Pois se a perversão à brasileira se apoia nesse traço de caráter forjado em nossa história, ou na falta dele, em que as Leis comuns se diluem em uma miríade de leis particulares, devemos reconhecer que nossa perversão se alimenta dia a dia de terríveis hábitos cotidianos públicos e domésticos naturalizados. Nas casas, nas escolas, nas empresas, nos ofícios diversos nos deparamos todos os dias com o pior de nós mesmos, com o torpe, o vil, o infame, espelhamos, assim, instituições públicas, —federais, estaduais, municipais e de bairro—, e privadas, que fazem de tudo para se perpetuar no poder, custe o que custar, custe a quem custar. Nosso perverso e abjeto presidente da República tem seus duplos, seus avatares macabros, nos governadores, prefeitos, ministros, secretários, síndicos, diretores, pais, filhos e amigos milicianos.
E não seria tão difícil reconhecer um perverso: ele fareja e segue o poder como um cão faminto atrás de uma carniça qualquer, mas não tem projeto, não tem futuro. O perverso não sabe falar – e isso não quer dizer conjugar verbos –, mas, sim, manter coerência empática com o interlocutor. Diante do debate, o perverso foge, não sabe dialogar. Diante da pergunta, ele evade. Diante dos fatos, ele nega. Diante da sua própria fala, ele desmente. Ele se acha insuperável, porque a perversão, negando qualquer limite, nega até mesmo a morte. “É só uma gripezinha”. Assim, diante da morte, ou de milhares de mortes, ele é indiferente. “E daí?”
O perverso nos ameaça o tempo todo pela força e pelo ataque ao pensamento. Coloca-nos sob o domínio do medo e da culpa, rompendo os nexos causais habituais, desfazendo de nosso entendimento do mundo, da ciência e da filosofia. Nas suas palavras confusas, quer nos dizer: “Seja como eu, aproveite a oportunidade. Faça o que faço, aproveite as brechas: seduza, ludibrie, fale (se colar colou, se não, que se dane...), não pense, não pondere, não leia, não se informe, não estude, não produza conhecimento.”
Não! Recusaremos essa convocação. É claro que temos todos em nossa complexidade aspectos sombrios, mas faz parte de nosso caminho civilizatório lutar contra eles, lidar com essas forças abjetas em nós, convocá-las para o fortalecimento do pacto civilizatório, e assim podar e moldar nosso narcisismo para que todos possam ser deliberada e conscientemente livres. Medo todos temos. Mas cansados de ter medo, temos também a consciência da raiva e da exaustão de viver num lugar onde só poderiam vencer (e para quê?) os mais fortes ou influentes. Diante das ameaças de perder regalias, diante de quaisquer ameaças, devemos ter a coragem devolver o “E daí?” – sim, temos medo, vamos todos morrer. Mas não vamos morrer de medo.
Cada um, em todos os lugares, com grandes ou pequenos gestos, nas esferas públicas ou privadas, devemos romper com todos os atos e com todas as pessoas que impõem leis particulares, que desdenham a Lei, que se imaginam maiores que elas. Devemos recusar esse chamado na Amazônia, no Cerrado, na Caatinga, na Mata Atlântica, nos Pampas, no Pantanal, devemos nos opor diariamente a esse chamado nos campos e nas cidades, devemos recusar esse chamado em todos os lugares do país até que ele morra de inanição. E assim faremos, ainda que nos leve os privilégios, os bens, o sangue. Mas teremos a vida.
E a todos aqueles que agora concordam ou simplesmente aceitam a perversão, por convicção ou conveniência, com gritos ou silêncio, nada temos a falar com vocês agora. Voltaremos a conversar no tribunal da vida humana ou da história. Esperamos que seus filhos e netos o encontrem no futuro para poder lhes julgar pelo pior dos crimes, o mais corrente entre nós, que é o da omissão. E que eles possam romper com vocês definitivamente, em busca de uma fraternidade.
Terminamos onde começamos, com Freud em seu magistral Mal estar na civilização, já em meio às violências impensáveis do nazismo: “A meu ver, a questão decisiva para a espécie humana é saber se, e em que medida, a sua evolução cultural poderá controlar as perturbações trazidas pelos instintos humanos de agressão e autodestruição. Precisamente quanto a isso a época de hoje merecerá talvez um interesse especial. Atualmente os seres humanos atingiram um tal controle das forças da natureza, que não lhes é difícil recorrerem a elas para se exterminarem até o último homem. Eles sabem disso. Daí seu medo. Cabe agora esperar que a outra das duas ‘potências celestiais’, o eterno Eros, empreenda um esforço para afirmar-se na luta contra o adversário igualmente imortal.”, e acrescenta um ano depois, com o realismo que lhe é peculiar, “Mas quem pode prever o sucesso e o desenlace?”
Noemi Moritz Kon e Thiago Majolo, psicanalistas vinculados ao Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae.
quinta-feira, 28 de maio de 2020
Como será sem muletas?
Não teremos outro dia como ontem, chega. Querem tirar a mídia que eu tenho a meu favor sob o argumento mentiroso de fake newsJair Bolsonaro
Bolsonaro tenta melar o jogo quando perde
Na escalada do confronto entre os poderes, a crise de hoje parece ser sempre pior do que a de ontem – e quando nossa meia dúzia de leitores estiver vendo isto, certamente outro fato chocante no campo institucional-político-policial já terá desviado as atenções. Mas é fundamental que todo mundo que tenha apreço pela democracia preste muita atenção na sequência dos últimos dias. Ela trouxe um ministro general ameaçando o país com “consequências imprevisíveis à estabilidade” caso o celular do presidente da República fosse apreendido pelo STF, o inusitado apoio do ministro da Defesa a essa posição e uma declaração do próprio presidente de que não entregaria o telefone, numa antecipada confissão de que, sim, o chefe da nação está pronto a descumprir uma decisão judicial se ela for contra ele.
O celular de Jair Bolsonaro não será apreendido, mas nem por isso dá para fingir que o episódio não aconteceu – e nem seus desdobramentos, sob a forma de protestos meio atrasados e não muito explícitos do Supremo e do Congresso. Foi tudo muito grave, mas a situação conseguiu ficar pior com as duas megaoperações da Polícia Federal, uma por ordem do Ministério Público Federal contra um desafeto de Bolsonaro, o governador do Rio, Wilson Witzel; outra determinada pelo ministro do STF Alexandre de Moraes, no inquérito das FakeNews, tendo como alvo parlamentares bolsonaristas, blogueiros e integrantes do chamado “gabinete do ódio” instalado no Planalto.
O placar está um a um. Só que o jogo da democracia não funciona assim. Tem regras que devem ser obedecidas acima de tudo e de todos – e sem jogar Deus no meio. O que estamos assistindo, aqui da arquibancada, é uma constante tentativa de subvertê-las. Jair Bolsonaro não aceita qualquer marcação do bandeirinha que não seja a favor do seu time. Não quer que o árbitro contabilize as faltas contra seus jogadores e nem os gols que eles levam. Instruiu seu time a empurrar, dar rasteiras e enfiar os dedos nos olhos dos adversários durante a partida e, agora, está estimulando a galera a dar sopapos no juiz.
E como reage Bolsonaro diante desse placar a cada dia mais desfavorável? Agredindo as instituições da democracia – aquelas que lhe lembram que é preciso seguir as regras do jogo. Assim ele continuará fazendo: investindo contra as leis, tentando acuar adversários, conspurcando instituições que até ontem eram vistas como profissionais e independentes, como Polícia Federal e Ministério Público. Até um eventual impedimento.
Quem vai expulsar o presidente de campo? Bolsonaro faz agora dois movimentos para não levar cartão vermelho. Um acordo com o Centrão, que pode lhe dar os votos para rejeitar um impeachment na Câmara, numa jogada dentro das regras constitucionais. Além disso, já cercado pelos generais palacianos, incorporou agora a suas comitivas, inclusive nas incursões a aglomerações políticas de fim de semana, o ministro da Defesa, Fernando Azevedo – que outro dia saiu de sua posição discreta e institucional para apoiar a nota-arroubo de Heleno.
O presidente faz de tudo para passar a ideia de que tem as Forças Armadas a seu lado para o que der e vier, inclusive para melar as regras do jogo. Há controvérsias a esse respeito. Mas que o jogo está ficando pesado, está.
Helena Chagas
O celular de Jair Bolsonaro não será apreendido, mas nem por isso dá para fingir que o episódio não aconteceu – e nem seus desdobramentos, sob a forma de protestos meio atrasados e não muito explícitos do Supremo e do Congresso. Foi tudo muito grave, mas a situação conseguiu ficar pior com as duas megaoperações da Polícia Federal, uma por ordem do Ministério Público Federal contra um desafeto de Bolsonaro, o governador do Rio, Wilson Witzel; outra determinada pelo ministro do STF Alexandre de Moraes, no inquérito das FakeNews, tendo como alvo parlamentares bolsonaristas, blogueiros e integrantes do chamado “gabinete do ódio” instalado no Planalto.
O placar está um a um. Só que o jogo da democracia não funciona assim. Tem regras que devem ser obedecidas acima de tudo e de todos – e sem jogar Deus no meio. O que estamos assistindo, aqui da arquibancada, é uma constante tentativa de subvertê-las. Jair Bolsonaro não aceita qualquer marcação do bandeirinha que não seja a favor do seu time. Não quer que o árbitro contabilize as faltas contra seus jogadores e nem os gols que eles levam. Instruiu seu time a empurrar, dar rasteiras e enfiar os dedos nos olhos dos adversários durante a partida e, agora, está estimulando a galera a dar sopapos no juiz.
Bolsonaro só sabe jogar assim, e quem o conhecia de antes tem perfeita noção disso, de sua disposição de rasgar todos os regulamentos e partir para a força bruta quando começasse a perder. Começou. Não há qualquer dúvida disso quando se vê o acúmulo de problemas políticos e econômicos. Muito menos sob os efeitos avassaladores de uma pandemia que atinge o mundo todo mas que, lamentavelmente, tem tudo para ser mais dramática ainda por aqui diante da inépcia e da ignorância de quem tem que tomar decisões sobre ela.
E como reage Bolsonaro diante desse placar a cada dia mais desfavorável? Agredindo as instituições da democracia – aquelas que lhe lembram que é preciso seguir as regras do jogo. Assim ele continuará fazendo: investindo contra as leis, tentando acuar adversários, conspurcando instituições que até ontem eram vistas como profissionais e independentes, como Polícia Federal e Ministério Público. Até um eventual impedimento.
Quem vai expulsar o presidente de campo? Bolsonaro faz agora dois movimentos para não levar cartão vermelho. Um acordo com o Centrão, que pode lhe dar os votos para rejeitar um impeachment na Câmara, numa jogada dentro das regras constitucionais. Além disso, já cercado pelos generais palacianos, incorporou agora a suas comitivas, inclusive nas incursões a aglomerações políticas de fim de semana, o ministro da Defesa, Fernando Azevedo – que outro dia saiu de sua posição discreta e institucional para apoiar a nota-arroubo de Heleno.
O presidente faz de tudo para passar a ideia de que tem as Forças Armadas a seu lado para o que der e vier, inclusive para melar as regras do jogo. Há controvérsias a esse respeito. Mas que o jogo está ficando pesado, está.
Helena Chagas
Operação da PF expõe cloaca do bolsonarismo
A Polícia Federal dissecou o funcionamento de uma máquina de desinformação. Ela atua de forma coordenada, com disparos em massa, uso de robôs e impulsionamento de conteúdo. É uma estrutura profissional, que depende de apoio financeiro para gerar resultado.
Entre os alvos da operação, estão os empresários Luciano Hang, da Havan, e Edgard Corona, da SmartFit. Eles integram o Brasil 200, que se apresentava como um movimento liberal. Por trás da fachada reformista, estimulavam ataques a parlamentares, juízes e jornalistas.
O ministro Alexandre de Moraes determinou a quebra dos sigilos da dupla desde julho de 2018. Seguindo o dinheiro, os policiais poderão esclarecer mistérios da eleição presidencial. As descobertas terão potencial para abastecer ações em curso no TSE.

A investigação também atinge ativistas de extrema direita como Sara Winter. Ex-feminista, ela chegou a organizar protestos contra o então deputado Jair Bolsonaro. Hoje integra uma milícia governista, que idolatra o capitão e defende o fechamento do Congresso e do STF.
Sua reação às buscas ilustra as práticas da turma. Em vídeos agressivos, ela ameaçou “infernizar a vida” do ministro Moraes. “O senhor nunca mais vai ter paz”, anunciou, entre ofensas e palavrões.
Os habitantes da cloaca dizem representar a “voz do povo” e ameaçam pegar em armas contra “traidores da pátria”. Puro fascismo, que encontra eco no discurso de deputados alinhados ao Planalto. Oito deles terão que depor à PF. Serão questionados sobre o gabinete do ódio, que tem conexões com a família presidencial.
Em mais um ato de submissão, o procurador Augusto Aras pediu a suspensão do inquérito. Bolsonaro acusou o golpe e convocou uma reunião de emergência no palácio. No dia em que o Brasil chegou a 25 mil mortes pelo coronavírus, o presidente voltou a ignorar a pandemia. Preferiu socorrer a sua milícia virtual.
Teleguiados à distância
Pena que ele (Alexandre de Moraes, ministro do STF) mora em São Paulo porque se ele estivesse aqui eu já tava lá na porta da casa dele convidando ele pra trocar soco comigo. Juro por Deus, essa era a minha vontade, trocar soco com esse filha da puta desse arrombado. Infelizmente, eu não posso. Mas eu queriaSara Winter, apoiadora de Bolsonaro e criadora do grupo 300 pelo Brasil
Imprensa marrom
Mas voltemos ao que interessa, a imprensa. Os veículos chapa-branca eram aqueles que só existiam para fazer propaganda e/ou defender os interesses do governo, de políticos, de igrejas e de negócios setoriais. Viviam de verbas públicas ou de dinheiro colocado pelo patrocinador.
A imprensa independente era aquela que vivia da notícia e, no caso da tevê, do entretenimento. Vivia no duplo sentido: tinha que ser reconhecida como tal pelo público (credibilidade) e tinha de ganhar dinheiro com venda em bancas, de assinaturas e de publicidade. A independência deveria ser editorial e econômica ao mesmo tempo.
Aqui, essa imprensa independente amadureceu ao longo da vida democrática pós-1985.

Tem várias características, algumas boas, outras ruins, mas há um ponto essencial. A imprensa brasileira não é bem agressiva, é atrevida. Nem sempre foi. Tornou-se atrevida, especialmente a política, em tempos relativamente recentes.
Por exemplo: alguns anos atrás, repórteres políticos não se atreveriam a perguntar ao presidente se ele queria interferir na Polícia Federal ou melar uma investigação sobre atividades de seus filhos.
Na verdade, não é que não se atreveriam, nem lhes ocorria perguntar esse tipo de coisa. Parecia normal que autoridades tivessem privilégios, incluindo as famosas mordomias.
Também não era um vício apenas nacional. Na Washington de John Kennedy, todo mundo sabia que o presidente gostava muito de mulheres e que as recebia na piscina da Casa Branca quando Jacqueline não estava por perto. Jornalistas sabiam, alguns até participavam das farras – e não publicavam nada. Ao contrário, publicava-se que se tratava de um feliz casal presidencial.
Em Brasília dos anos 80 e 90, os jornalistas também sabiam das mazelas pessoais (amantes, rolos) e, digamos, profissionais dos políticos, tais como negócios paralelos. Não lhes ocorria publicar, mesmo porque muitos jornalistas desfrutavam de vantagens indevidas, como empregos no Congresso, em autarquias e estatais. Além de financiamentos especiais em bancos públicos.
A mudança forte começou a aparecer na passagem dos anos 80 para os 90. Repórteres mais novos começaram a publicar os privilégios, os bastidores, inclusive das casernas – ou seja, as informações não oficiais, não autorizadas, mas obtidas por apuração e investigação independente.
Ao mesmo tempo, desenvolveu-se o jornalismo opinativo – outro que tanto incomoda as autoridades. Para o presidente Bolsonaro e seus seguidores, ou a imprensa é a favor ou é mentirosa, canalha, lixo e tantas outras ofensas.
Mas na democracia, quem decide se uma imprensa é boa ou não é o público, com sua audiência, sua leitura, seu respeito.
Essa imprensa está aí. Ainda bem.
As redes sociais, claro, são uma novidade. Mas a divisão entre independência e militância de qualquer tipo é a mesma que se via na imprensa tradicional.
Então, os principais veículos independentes, aqui e no mundo, estão migrando para as redes sociais. Continuam sendo a representação da imprensa livre e responsável.
Mas as redes também tornaram mais fácil o surgimento dos veículos “fake news”, que bem poderia ser a nova designação para imprensa marrom, aquela sem nenhum escrúpulo.
Do mesmo modo que antes não se poderia fechar a imprensa para bloquear o lado marrom, também hoje não se pode bloquear as redes para afastar os provedores de fake news, ofensas e ameaças.
Mas, atenção, liberdade de expressão não é um salvo conduto. Não pode haver censura prévia. Mas a publicação e seus autores podem ser processados, na devida forma da lei.
Falta educação na Pasta da Militância
O setor tem diversos desafios a enfrentar. Muitos deles se tornaram urgentes, mas outros poderiam ter sido resolvidos há tempos.
Os potenciais problemas da pasta tornaram-se perceptíveis já no período de transição, no fim de 2018. Militares e acadêmicos que formulavam seu planejamento estratégico foram surpreendidos quando Ricardo Vélez Rodríguez entrou no Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB) como um professor pouco conhecido e saiu como o indicado para ocupar a função de ministro de Estado. A vaga era entregue à ala ideológica que formava a base eleitoral do presidente recém-eleito, criando severos obstáculos à execução do plano programado pelos técnicos que integravam este grupo setorial da campanha eleitoral.
Não demoraria para que Vélez caísse. Mesmo assim, o cargo permaneceu sob influência do grupo que passou a usar a política externa, além das áreas de direitos humanos e da educação, para manter militantes bolsonaristas mobilizados em defesa de um governo com cada vez mais frentes de batalha nos campos político e jurídico.
Não foi à toa que estas três áreas foram expostas, com a divulgação do vídeo da reunião ministerial do dia 22 de abril.

O episódio colocou o titular do Ministério da Educação, Abraham Weintraub, no epicentro das turbulências hoje existentes entre o Executivo, o Supremo Tribunal Federal (STF) e o Legislativo. Ele chegou a se manifestar com tanta eloquência na reunião que o presidente pediu mais engajamento de outros ministros citando seu exemplo, mas de “forma mais educada um pouquinho”. Weintraub colocou-se aos presentes como militante e nada do que falou poderá ser reproduzido em livros infantis.
O resultado não poderia ser mais preocupante para um gestor com diversos assuntos a despachar com os outros Poderes. A capacidade de articulação institucional de Weintraub é, hoje, uma nulidade. A notícia positiva para ele, por outro lado, é que justamente essa disposição para o enfrentamento foi que o manteve, pelo menos até agora, no cargo.
No fim de 2019, sua demissão era dada como certa por auxiliares do presidente. Bolsonaro precisou negar que estaria planejando mudar novamente o comando da Educação, sempre com o argumento de que gestões anteriores teriam deixado o Brasil pessimamente posicionado no Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (Pisa). Antes de exonerá-lo, ponderava, seria justo dar crédito e condições para o ministro trabalhar.
E resultados é o que se espera neste momento em que a pandemia pode gerar graves danos para o ensino, para a vida de pais, mestres e alunos, além de também afetar a solvência de empresas do setor.
A reação inicial do governo até que foi ágil. O Planalto enviou ao Congresso um pedido para que fosse reconhecida a situação de calamidade pública em meados de março. No primeiro dia de abril foi editada uma medida provisória voltada especificamente para a área da educação durante a pandemia.
A MP flexibiliza o calendário escolar para garantir que os alunos tenham acesso a todas as horas-aula relativas aos 200 dias letivos exigíveis pela Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional. Ou seja, 800 horas anuais, mesmo que de forma remota.
O Executivo reconheceu, na MP, a gravidade da covid-19 e os potenciais riscos das inevitáveis aglomerações que ocorreriam nas creches, escolas e universidades. Mas, desde então, outros gestos do Ministério da Educação e do próprio presidente não corroboraram com essa visão.
Bolsonaro tentou articular com o governador do Distrito Federal, Ibaneis Rocha (MDB), que colégios cívico-militares encabeçassem um movimento de retorno às atividades. A ideia não foi adiante.
Também falhou o plano do ministro de evitar o adiamento do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem). As discussões sobre o assunto passaram a ser conduzidas diretamente entre a Câmara e o presidente.
O titular da pasta também tem sido alijado das discussões sobre outro tema que angustia o setor e gestores locais: o financiamento da educação. Uma proposta de emenda constitucional estabelecendo um novo Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica precisa ser aprovada e regulamentada ainda neste ano, pois o atual Fundeb vale apenas até dezembro.
Deputados gostariam de aumentar a participação do governo federal no financiamento da educação básica, mas prefeitos ouviram uma proposta da equipe econômica que acabaria por não contemplar totalmente o setor. A ideia seria privilegiar a destinação de verbas para a saúde, por causa da pandemia. Em outras palavras, renovar o fundo como ele é hoje sem carimbar os recursos. As prefeituras poderiam adquirir testes para covid-19, respiradores e outros equipamentos médico-hospitalares, em vez de comprar material escolar. Não há acordo ainda. A educação ficaria, novamente, em segundo plano.
Cabe ao poder central coordenar as ações do setor público e da iniciativa privada. Será um erro deixar que pais e alunos considerem 2020 um ano letivo perdido, mesmo que o futuro profissional dos estudantes ainda esteja nublado.
À medida do possível e dependendo das limitações e especificidades de cada local, métodos de ensino remoto e de reposição do conteúdo perdido precisam ser objeto de total atenção do governo federal. O retorno às salas de aula também precisará ocorrer de forma ordenada e seguindo diretrizes sanitárias. Cada Estado ou município terá que saber o momento certo de fazê-lo. Voluntarismos vindos do ministério ou do Palácio do Planalto não contribuirão nesse processo, sobretudo se forem apenas para manter a militância aquecida. Misturar a situação atual com as discussões sobre a polêmica educação domiciliar, uma bandeira bolsonarista, tampouco parece ser boa ideia.Fernando Exman
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