quinta-feira, 9 de abril de 2020

Ciência e política

Com a mesma ênfase que defendeu no passado o uso da malfadada “pílula do câncer”, apesar de não ter formação em medicina, o presidente Jair Bolsonaro vem propondo o uso da hidroxicloroquina como o remédio mais eficaz para conter a pandemia do novo coronavírus. “Há 40 dias venho falando sobre isso. Sempre busquei tratar da vida das pessoas em 1.° lugar, mas também se (sic) preocupando em preservar empregos. Fiz, ao longo desse tempo, contato com dezenas de médicos e chefes de Estados de outros países”, disse ele nessa quarta-feira, após criticar pelo Twitter dois conhecidos médicos que se recusaram a divulgar o que os curou da covid-19.


Além de sugerir que tomaram remédios com base na hidroxicloroquina, Bolsonaro alegou que eles se recusaram a prestar essa informação por assessorarem o governador João Doria, seu adversário político. “Esse segredo não combina com o Juramento de Hipócrates que fizeram. Que Deus ilumine esses dois profissionais, de modo que revelem para o mundo que existe um promissor remédio no Brasil”, concluiu Bolsonaro.

A insistência de Bolsonaro em apresentar a hidroxicloroquina como “remédio promissor” dá a medida do modo como vem se comportando no combate à pandemia da covid-19, privilegiando seus interesses políticos. Ao recomendar o uso desse medicamento “promissor” baseado em seus “contatos com médicos e chefes de Estado”, mostra que não conhece o que é a ciência nem como se desenvolve o trabalho científico. Deixa claro que não sabe que a ciência trabalha com erros e acertos e que a busca de respostas costuma se dar pela elaboração de hipóteses e formulação de novas perguntas.

Todas as vezes em que surgem novas doenças e epidemias, a ciência oferece cenários e sugere medidas de controle enquanto os pesquisadores se esforçam para isolar o vírus em laboratório para compreender a doença e desenvolver vacinas e tratamentos. Esse processo é complexo, exigindo respeito a protocolos, publicações de artigos em revistas especializadas e intensos debates entre pesquisadores, até chegar a um consenso na comunidade científica. O tempo da ciência, pois, é incompatível com o tempo da política.

Na ciência, as pesquisas têm de ser públicas, para que possam ser discutidas, contestadas e aprofundadas. Elas só conseguem avançar, convertendo suas descobertas em bem comum para a humanidade, com base em fundamentos empíricos. Já na política costumam prevalecer decisões açodadas, tomadas com enviesamento ideológico e relevando verdades científicas consolidadas.

Se a relação entre ciência e política já é tensa em tempos normais, nas áreas de ciências biológicas e de saúde essa tensão é ainda maior em tempos de pandemia. Entre outros motivos porque, enquanto os governantes tendem a pensar apenas em sua popularidade e seus projetos eleiçoeiros, os cientistas têm de deixar de lado indagações que fazem em períodos de normalidade para buscar novas fontes de recursos e desenvolver às pressas novos projetos de pesquisa. Como revelam números da Web of Science, compilados pelo professor Peter Schulz, da Unicamp, essas tensões estiveram presentes em todas as vezes que surgiram epidemias relacionadas a cepas mais antigas do coronavírus, desde 2000. Isso porque, ao oferecer informações atualizadas e conhecimento de ponta, a ciência apontou a necessidade de políticas públicas que não estavam entre as prioridades dos governantes. Muitas vezes, além disso, essas tensões são exponenciadas pela tendência de dirigentes populistas de se apropriarem de resultados preliminares de pesquisas para convertê-las em dogmas usados para desqualificar adversários políticos.

Entre nós, infelizmente, enquanto os cientistas continuam cumprindo seu papel, conscientes de que a divulgação de eventuais descobertas neste momento precisa ser criteriosa, Bolsonaro contesta o ministro da Saúde. Critica médicos que integram a equipe de seus adversários. E recorre a outros de sua confiança, para que façam afirmações sobre as quais ainda não há consenso científico.

Pensamento do Dia


O coronavírus acordou o Brasil

Até onde irá Bolsonaro? Ou até onde o Brasil vai suportar Bolsonaro? Vivemos a crise mais grave do último meio século, e pior, não temos na Presidência da República um líder, mas sim produto de um processo eleitoral atípico, o de 2018, que levou Jair Bolsonaro ao principal posto do Executivo federal. No seu primeiro ano de mandato cometeu inúmeros equívocos, tanto na política interna, como na economia ou nas relações exteriores. O presidente atacou sistematicamente o Estado Democrático de Direito, mas acabou recebendo respostas tímidas. Entusiasmado frente à frágil resistência encontrada, achou que poderia fazer o que bem desejasse, pois, a sociedade estava anestesiada. Errou, ainda bem – ainda bem para o Brasil. Hoje o país identifica nele o grande problema, superior ao coronavírus.


Por paradoxal que seja, foi necessário chegar ao Brasil a pandemia para que a sociedade tomasse ciência de que não era mais possível ignorar a incompetência, a irresponsabilidade, a inépcia, o reacionarismo de Jair Bolsonaro. Durante meses ele fez com que passássemos vergonha, o Brasil virou motivo de chacota internacional, perdemos a respeitabilidade no campo da política externa. Sua política fez do Itamaraty um mero puxadinho da Casa Branca. A economia ficou estagnada, o discurso supostamente liberal de Paulo Guedes, de transformar os graves problemas nacionais em questões banais, que seriam resolvidas pela privatização e pelo livre mercado, deixariam Stuart Mill envergonhado. A ciência foi rebaixada e a educação foi tomada por incapazes idiotizados à serviço de um indivíduo que se autoproclama filósofo, isto quando encerrou seus estudos na antiga primeira série do curso ginasial. Os direitos humanos foram vilipendiados e as políticas sociais foram desqualificadas, rastaqueras assumiram o poder e transformaram a ignorância em saber, como se vivêssemos, no Brasil, o “1984” de George Orwell.

Foi necessário o coronavírus para o gigante acordar. Agora a tarefa é impedir que o desastre se espalhe. Infelizmente teremos de conviver com milhares de mortos e com a recessão econômica, mas podemos evitar males maiores se nos unirmos. As autoridades da saúde pública estão trabalhando bem e a maioria dos governadores estão seriamente comprometidos em minimizar os terríveis efeitos econômicos. A população entendeu que juntos podemos muito. Vamos sair maiores da crise do que entramos. Mas temos uma tarefa essencial a cumprir: Bolsonaro não pode continuar na Presidência da República.

Vai jogar no lixo?

 A curva estaria muito pior, teríamos mais mortes sem o isolamento. Mas temos que desassociar um achatamento da curva com a ideia de que está pronto para voltar para a rua. As pessoas confundiram. O governo atuou rápido e de maneira correta. Então, a população joga isso no lixo! Vai para o calçadão caminhar!
Edmar Santos, secretário de Saúde (RJ)

Bolsonaro está atrás de culpados para salvar a própria pele

Um presidente da República pode muito, mas não pode tudo. Entretanto, por dispor de um poderoso aparelho de coleta de informações, ele pode não saber tudo, mas sabe muito mais do que qualquer outra pessoa no país ou fora daqui.

Ao jornalista Luiz Datena, da Rede Bandeirantes de Televisão, sem que ele nada lhe tivesse perguntado sobre isso, Jair Messias Bolsonaro disse, sem mais nem menos, e depois mudou de assunto: “Não é hora de derrubar presidente”. Como?

Jamais um presidente brasileiro disse algo parecido a respeito de si próprio. O que ele sabe que não sabemos? Existe alguma trama para derrubá-lo? Quem está por trás dela? Cercado por militares de confiança, como ele pode ter medo de ser deposto?

Na melhor das hipóteses foi mais uma manifestação da paranoia de Bolsonaro que o acompanha desde o seu tempo de deputado. À época, em muitas ocasiões, ao sair da Câmara, ele se agachava ao lado do seu carro à procura de uma possível bomba.

Bolsonaro entende de explosivos. Planejou detonar alguns dentro de quarteis quando era um simples soldado, a reclamar sempre do valor do soldo. Foi por isso que acabou processado e expurgado do Exército, acusado de indisciplina e conduta antiética.


Já como presidente eleito e empossado, pelo menos uma vez ele ajoelhou-se para conferir se havia uma bomba debaixo do carro que o transportaria do Palácio da Alvorada para o Palácio do Planalto. Morre de medo de drones e vive olhando para o céu.

Na hipótese mais provável, a advertência disparada por Bolsonaro durante a entrevista trai a preocupação com os possíveis efeitos sobre o seu mandato da desastrosa maneira como tem conduzido até aqui o combate à pandemia que mudará o mundo para sempre.

Pois como fez questão de afirmar o ministro Luiz Henrique Mandetta, Jair Messias Bolsonaro é quem está no comando. A julgar por sucessivas pesquisas nacionais de opinião pública, ele tem mais atrapalhado do que ajudado a derrotar o vírus.

Bolsonaro ouviu do deputado Osmar Terra (PMDB-RS), candidato à vaga de Mandetta, que o vírus causará a morte de muita gente, principalmente de velhos, e que não há o que fazer. A contaminação só diminuirá quando muitos forem contaminados.

A taxa de letalidade da nova peste, ou seja, a proporção das mortes registradas em comparação com o número de casos confirmados, deu um salto de 42% nas últimas 24 horas. Era de 3,5% em 1ª de abril – 7 mortos em 200 casos. Agora, 5% – 10 mortos em 200.

Em 24 horas, o número de mortos aumentou em 16%, um novo recorde. Passou para 800, o equivalente à lotação completa de 4 Airbus 320. Ou três vezes mais do que o número de mortos pelo rompimento da barragem de Brumadinho, em Minas Gerais.

O vírus começou a ceifar vidas em favelas do Rio. Na Rocinha, onde 150 mil pessoas se amontoam em minúsculas casas e circulam por vias estreitas, foram dois óbitos. Mais quatro em outras comunidades. O prefeito decretou o Estado de Calamidade.

Bolsonaro está à procura de culpados para salvar sua pele. Os governadores são um dos seus alvos – e voltou a distanciar-se das medidas restritivas tomadas por eles na 5ª fala à Nação que fez desde que chamou a pandemia de gripezinha, resfriadinho.

Sem coragem para atacar diretamente o confinamento social apoiado por Mandetta e adotado no resto do mundo, estimulou o retorno ao trabalho porque é preciso também salvar a economia. Não arredou pé de nenhuma de suas ideias, apenas baixou o tom.
Como não bastasse, tornou a prescrever o uso da Cloroquina como se ela fosse capaz de curar infectados. O médico Roberto Kalil, do hospital Sírio Libanês, em São Paulo, tomou um coquetel de remédios para se curar – entre eles a Cloroquina.

Mas nem ele nem seu pneumologista garantem que a droga o livrou da morte. Por sinal, o pneumologista foi contra o uso da droga por falta de provas de que ela seja eficaz contra o vírus. Kalil contou que tomou o remédio para não “se arrepender depois”.

Por que a Cloroquina não está sendo usada em outros países – nem mesmo nos Estados Unidos onde o presidente Donald Trump é seu maior garoto propaganda? Bolsonaro tem evitado a imprensa para não ter que responder a essa e a outras perguntas.

O que sobrará da ideia inicial

Ao fim desta pandemia, pouca coisa vai sobrar da agenda com a qual o ministro Paulo Guedes chegou ao governo. As reformas foram engavetadas, o plano Mansueto foi deixado de lado por outro que socorre os estados na emergência, a empresa que está para ser privatizada ajudou a fazer o caminho para o pagamento do auxílio emergencial, a proposta de zerar o déficit público se transformará no maior déficit da nossa história.

Ontem, o governo, de um lado, a Câmara e os governadores, de outro, brigavam em torno de quanto transferir aos estados e municípios neste momento. O chamado Plano Mansueto era uma excelente ideia para um outro mundo, e certamente voltará a ser. Ele induz os estados e municípios a se ajustarem e buscarem notas de crédito melhores e os incentiva com recursos e avais conforme a nota alcançada. Mas como falar em ajuste num momento em que despencam as arrecadações de ICMS e ISS? Agora, a Câmara decidiu aprovar projeto que facilita as transferências para a sustentação da receita dos estados e municípios e suspende a cobrança das dívidas com o Tesouro.

O deputado Rodrigo Maia explicou ontem que, se deixasse o Plano Mansueto, ele seria desvirtuado, porque estavam sendo incluídas emendas com propostas de gastos de longo prazo:

– O Plano Mansueto é correto, vai ter que ser enfrentado, mas neste momento todos os estados vivem a mesma angústia, que é a necessidade de receitas para enfrentar a crise.

A pandemia mudou completamente tudo no mundo, mas o fato é que o projeto do governo já não ia bem. O que houve de privatização foi a venda de participações ou blocos de ações feita por algumas empresas e bancos públicos. A abertura da economia também teve pouco avanço. O projeto liberal patinou no primeiro ano de governo. Agora, devido às circunstâncias, ele tem que ser deixado de lado, e economistas preparados para fazer um programa têm que fazer o inverso.

A versão do governo, dita em várias entrevistas, é que o país estava decolando quando foi abatido pela crise. Não é verdade. O primeiro trimestre já não vinha dando bons sinais de recuperação da economia. O comércio caiu 1,4% em janeiro e subiu menos em fevereiro, 1,2%. O setor de serviços vinha de duas quedas no final do ano passado, subiu apenas 0,4% em janeiro e voltou a cair 1% em fevereiro. Na indústria, as duas altas dos meses de janeiro e fevereiro não recuperaram as perdas de novembro e dezembro. Olhando apenas para fevereiro, último mês antes da pandemia, o Ibre/FGV projetou alta de apenas 0,1% no seu Índice de Atividade Econômica (IAE).

Na entrevista concedida ontem pela área econômica foi dito que eles estavam se preparando desde dezembro para esta crise. Isso está bem distante dos fatos. A verdade é que até o começo de março o governo continuava defendendo apenas a aprovação das reformas. Perguntei a um integrante graduado da equipe econômica, no dia 5 de março, que resposta seria dada à crise do coronavírus e ouvi que havia apenas três infectados e que o Brasil era uma economia fechada que seria menos impactada. Naquele mesmo dia, o número subiria para oito. E ontem já havia 800 mortos.

Ontem, em entrevista coletiva, o secretário Adolfo Sachida sustentava que o Brasil fora o mais rápido a responder, do ponto de vista da economia, e o secretário Waldery afirmou que é o segundo emergente que mais está gastando, atrás apenas do Chile. Isso não é um campeonato de despesa. O que é preciso é fazer o dinheiro realmente chegar. Nesta quinta-feira é que começará de fato a acontecer o pagamento da primeira parte do auxílio emergencial. Anunciar medidas não é o mesmo que realizá-las. É preciso reduzir o tempo dedicado à reescrever a história para se empenhar mais em garantir a execução das medidas.

O banco BNP Paribas estima que o deficit primário este ano poderá chegar a 7,3% do PIB, com uma combinação de aumento de gastos e queda de arrecadação. Ao final desta crise, a dívida bruta poderá alcançar um patamar recorde, de 90% do PIB. Já o UBS tem números menos piores. O deficit este ano pode ir a 7%, com endividamento de 86% no ano que vem. Mas ele acredita que até em 2021 o governo teria um forte deficit primário, de 4% do PIB.

A conta será salgada. O mais importante agora é implantar o que vem sendo anunciado. E no momento seguinte preparar o plano da reconstrução da economia e dos parâmetros fiscais, para o dia em que este pesadelo passar.

Imagem do Dia

A prefeitura de Tuchín, em Córdoba (Colômbia)
prende quem desrespeita quarentena

Vacância de poder

Jair Messias Bolsonaro já não governa o País. Está a reboque das decisões. Tutelado por forças institucionais, inclusive militares, que determinam a ele o que e como fazer — alinhamento a governadores, foco nas medidas econômicas e menos estardalhaço circense, essa última orientação difícil de cumprir dada sua natural vocação ao papel de palerma descompensado. Não são meros conselhos, mas alertas que ele vem recebendo agora diariamente, sob pena de ser apeado da cadeira o quanto antes. Congresso, Judiciário, governadores, prefeitos, OMS, políticos em geral, além das Forças Armadas, já iniciaram uma reação em cadeia contra o Planalto. O vice-presidente, general Hamilton Mourão, habilitou-se ao papel de bombeiro e se credencia, cada dia mais, à condição de líder no comando. Em clara reprovação às palavras de ordem do capitão, alinhou-se àqueles que rebatem em público os desatinos do chefe. O ministro do Supremo Tribunal Federal Marco Aurélio Mello encaminhou à Procuradoria-Geral da República (PGR) pedido de afastamento de Bolsonaro. Sua petição, protocolada na Corte no último dia 25, vem se somar a outros cinco requerimentos no mesmo sentido. No Parlamento, o impedimento do chefe da Nação, por atos e palavras que caracterizam infrações em série à “lei de responsabilidade social”, virou voz corrente. Trata-se agora de acertar quando e como fazê-lo. A preservação da democracia é o pilar que sustenta o movimento. Fecha-se o cerco contra a desordem voluntariosa de Messias. É preciso resgatar a estabilidade maculada por quem tem apostado na ruptura e no confronto — inclusive com integrantes e subordinados do próprio governo — para buscar soluções autoritárias. Jair Bolsonaro, que nunca deixou de flertar com a ditadura, elogiar notórios torturadores e adotar a tática de converter em inimigos, traidores, qualquer um que atravesse o seu caminho, persegue, é fato, o inconfessável projeto de poder totalitário. Indagado recentemente em um programa de televisão se estaria disposto a dar um golpe, evitou negar de maneira categórica e saiu-se com o enigmático enunciado do “quem quer dar um golpe não vai falar que vai dar”. Ao contrariar a unanimidade nacional e do planeta no monumental desafio do confinamento para conter a doença, e assim minimizar perdas humanas e econômicas, Bolsonaro o faz de caso pensado. Aposta no caos para consagrar o maquiavélico ardil de projetar-se como salvador de uma pátria em ruínas.

Ao final e ao cabo, imagina jogar no colo dos adversários a culpa pela recessão que avança a galope no lombo da covid-19. Tenha certeza: ele não está preocupado com a normalidade do mercado, muito menos com a ameaça à vida de quem quer que seja. Ao falar em interromper o isolamento por decreto (e foi alertado pela Justiça que não conseguiria levar adiante a ideia) e alegar que “infelizmente, algumas mortes ocorrerão, paciência!”, o mito das falanges milicianas move peças do tabuleiro, à sua maneira trôpega, levado tão somente pela obsessão cega da reeleição. Irresponsabilidade é a palavra que lhe cabe. Declarações como a de uma “mera gripezinha, que brevemente passará” ou a de que “é preciso enfrentar o vírus como homem, pô, e não como moleque”, superam a classificação de arroubos disparados ao léu. Fazem parte de um mosaico de demagogias, um script calculado, onde o argumento econômico serve apenas de instrumento para concretizar as ambições pessoais. Seriam os “moleques” as autoridades que, teoricamente, atrapalham o roteiro de estultices para asseverar 2022. Já o “homem”, ele, atleta e mito, destemido, sai às ruas, desrespeitando as regras e pondo em ameaça os próprios seguidores, porque é o herói redentor blindado, capaz de denunciar a existência de uma “histeria”, sem apresentar um único argumento técnico para ir na contramão das medidas tomadas no planeta. Dias atrás, na manobra mais arriscada, antes mesmo do desastrado pronunciamento em cadeia de rádio e TV onde incitava o rompimento da quarentena, Bolsonaro tentou cerrar fileiras com a caserna para conquistar, quem sabe, o aval a uma perigosa aventura de atropelo à Constituição.

Foi pensando nisso que falou em “flexibilizar” as regras de isolamento. Adiantando-se a ele, e assim sinalizando que os quartéis não compactuariam com a quebra da ordem, o comandante Edson Leal Pujol postou um vídeo nas redes sociais do Exército falando que os militares estavam a serviço da mobilização nacional contra o coronavírus. Foi um balde de água fria no intento do capitão. Em poucas horas, o vídeo alcançava 500 mil visualizações, em especial entre membros da tropa, formada por recrutas de baixa renda preocupados em atender as medidas sanitárias deliberadas pelas autoridades. Bolsonaro não se deu por vencido e, naquela mesma noite da divulgação do vídeo de Pujol, insistiu em aparecer fazendo o comunicado elaborado com a ajuda dos filhos. Os ministros militares do Palácio do Planalto desaconselharam o pronunciamento em tom provocativo e evitaram participar da sua feitura e gravação. O presidente não recuou. Foi adiante, não medindo consequências. Novamente, por opção própria, ficava mais uma vez sozinho e ridicularizado nos devaneios. Diante de tantos tropeços, hoje ele parece governar apenas no seu ambiente digital, habitado pela corriola de seguidores fanáticos. Ao tencionar relações com todos os demais poderes, aliados e mesmo apoiadores, perdeu rapidamente sustentação e não é levado a sério em nenhum círculo de Brasília. Governa como rainha da Inglaterra, sem influência e com baixa capacidade decisória. Tentou uma derradeira empreitada com uma campanha publicitária de mau gosto, elaborada às pressas pela Secom, na qual entoava o mantra de “O Brasil Não Pode Parar”. Queimou mais de R$ 4,8 milhões nas esquetes – no momento em que a estrutura médico/hospitalar necessita vitalmente de recursos — e buscou distribuí-los nas redes sociais, via robôs.

Foi logo tolhido pela Justiça, que proibiu a circulação da campanha. Humilhação maior ainda estava por vir. O Facebook, o Instagram e o Twitter, em simultâneo, decidiram retirar do ar, como forma de censura, alguns de seus posts, por distorcerem orientações oficiais de segurança sanitária consagradas no mundo. O capitão acabou por virar uma ameaça. O sisudo jornal britânico “The Guardian” apontou em editorial que Bolsonaro representa atualmente um “perigo para os brasileiros”. A revista americana “The Atlantic” o classificou como “o líder mundial da negação do coronavírus”. O semanário “The Economist” deu a ele a alcunha de “Bolsonero”, em alusão ao polêmico imperador que mandou incendiar Roma, enquanto o “The Washington Post” pediu abertamente em artigo o seu impeachment. Virar chacota global não parece ser um problema. Não pense que ele se incomoda com isso. No estilo tosco e desenfreado, que lhe é característico, deve estar até achando boa a notoriedade, mesmo que na condição de pária do mundo. Desalento e vergonha destruindo a autoestima nacional. O mais grave no espetáculo bizarro de desvarios do mandatário é que ele, decerto, se converteu numa ameaça pública, afrontando às orientações de especialistas de saúde e pondo em risco à vida daqueles que eventualmente pensam em seguir os seus conselhos. Ao instigar a desobediência civil contra o isolamento, Bolsonaro demonstrou que precisa ser contido o quanto antes pelas forças republicanas. Extrapola os poderes de um chefe de Estado, se comporta como líder de seita e seus crimes atravessam a esfera política para alcançar o plano de atentado à humanidade. Credenciais mais do que suficientes para encarar não apenas um processo de impeachment, já dado como inevitável mais cedo ou mais tarde, como também ações nas cortes internacionais, de Haia e mesmo da ONU, onde já vem sendo denunciado. A expectativa é que, daqui por diante, um núcleo de governabilidade seja montado para a travessia desse período turbulento, enquanto se aguarda a sua retirada.

Chacota na Presidência

O presidente de uma nação não pode confrontar a ciência e o bem-estar de seus cidadãos. Além disso, ele está minando a própria popularidade e causando divisões dentro da base de apoio à agenda de reformas econômicas no Congresso Nacional, o que pode conduzi-lo ao impeachment. No plano internacional, ele virou motivo de chacota
Ian Bremmer, presidente e fundador da Eurasia Group, considerada a principal consultoria de risco político do mundo

Nau sem comando

Coesão, perseverança e equilíbrio são fatores fundamentais para o Brasil enfrentar a pandemia do coronavírus. Ao presidente competiria usar a autoridade que a Constituição lhe confere para liderar os brasileiros nessa dura travessia. A missão de comandar é indelegável, quanto mais em tempos de guerra. O Covid-19 pode provocar a morte de 110 mil brasileiros nos próximos meses e a recessão bate à nossa porta. O Brasil, portanto, não precisa que se instale uma crise de autoridade em um quadro tão dantesco.

Infelizmente já está posta, como evidencia o demite-não-demite do ministro da Saúde. O comportamento errático de Jair Bolsonaro, sua falta de foco na defesa da vida e da sobrevivência das pessoas passam para a sociedade a imagem de um presidente emparedado pelos outros dois poderes e por ministros moderados que ora atuam como bombeiros, ora para reduzir danos.

O mais comezinho direito de um presidente é o de nomear e demitir. O de Bolsonaro foi posto em xeque em função de suas tentativas atabalhoadas de livrar-se do ministro que lhe faz sombra. Não que Luiz Henrique Mandetta seja insubstituível ou que sua condução no combate ao coronavírus seja isenta de críticas.


Mas só se demite um general em campo de batalha quando sua estratégia pode levar à derrota ou à desagregação de suas forças. Não é que vem acontecendo com o desempenho de Mandetta, cuja estratégia encontra-se respaldada pela Organização Mundial da Saúde. O ministro acerta quando se pauta pela ciência. É recomendável que não desperdice energias em uma “guerra de estrelas”.

O efeito mais perverso da crise de autoridade é a existência de um governo desarticulado. Ou melhor, de um governo desgovernado. É como se as ações dos diversos ministérios não tivessem relação entre si e inexistisse uma coordenação para dar coerência e eficácia a ação governamental. Não se pede ao presidente que seja o braço operativo dessa coordenação, mas a missão de dar um norte deveria ser dele e de mais ninguém.

Há um conjunto de necessidades que exigem uma ação articulada e transversal. Os desafios são muitos e as carências imensas.

Como fazer para suprir a falta de EPIs ou reorientar a produção nacional para uma “economia de guerra”, capaz de responder por exemplo à demanda por respiradores mecânicos, são questões sem respostas. Também não se sente um esforço conjunto do governo federal para criar novos leitos e UTIs, bem como para avanços de pesquisas em busca de remédios e vacina para o coronavírus.

O general Braga Neto foi indicado para coordenar e dar sentido orgânico à ação de todas as pastas. Teoricamente é capacitado para a missão, por sua experiência como planejador, mas é visível que falta ao governo um Pedro Parente. Mais ainda falta um presidente como Fernando Henrique Cardoso, capaz de tornar menores as crises que adentram o Palácio do Planalto.

A quebra da autoridade presidencial traz consigo o germe da anarquia. O exemplo mais deletério vem do ministro da Educação, Abraham Weintraub, sem a menor noção do papel institucional de um ministro de Estado. Irresponsavelmente, contrariou os interesses nacionais com sua mensagem racista em relação aos chineses.

A China é o maior produtor mundial dos insumos médicos tão necessários para nosso sistema de saúde não colapsar. É nosso principal comercial, seu mercado é estratégico para a soja brasileira, que sofre concorrência agressiva dos Estados Unidos. Pois bem, enquanto a ministra da Agricultura, Tereza Cristina Dias, e o vice presidente da República, Hamilton Mourão, atuam para preservar os interesses brasileiros, Weintraub, por motivos ideológicos, opera para implodir as relações com a China. De que lado está Bolsonaro neste embate? Seu silêncio sepulcral é sintomático e preocupante.

Em jogo não está apenas a autoridade da figura Bolsonaro. Está a autoridade da instituição Presidência da República. Restaurá-la é fundamental, se quisermos vencer a guerra contra o coronavírus.

Não será reconstruída, contudo, à base do “prendo e arrebento” do general Figueiredo. Ou por uma canetada que jogue fora o esforço da sociedade e o bom trabalho realizado pela pasta da Saúde. Exigirá espírito de liderança, resiliência, autorregulação, inteligência emocional, requisitos ausentes no presidente.

A despeito de o leme estar em mãos trêmulas, vamos ter de nos reinventar para atravessar a tempestade do coronavírus. E triplicar esforços para evitar que a nau afunde.
Hubert Alquéres

Malditas redes

Além de facilitar de maneira extraordinária as comunicações planetárias, as redes sociais deram voz a quem não as tinha, ou que não conseguiam expandi-la de maneira a alcançar mais do que seu círculo íntimo. Foi uma extraordinária revolução que mudou a forma das pessoas pensarem e agirem e transformou a indústria. Mais diretamente as indústrias das comunicações e das telecomunicações, mas todas as outras sofreram consequências, muitas de maneira positiva. No Brasil, apesar de reveses por abusos contra a livre concorrência e pela disseminação de mentiras, tudo ia relativamente bem, até chegarem Jair Bolsonaro, seus filhos e o gabinete do ódio.

A onda global de fake news que causa forte impacto sobre as redes, sobretudo na Europa, produzindo um enorme dano às suas imagens, não pode ser comparada ao que se viu no Brasil destes últimos dias. Em todo o mundo as pessoas passaram a buscar informações sobre o coronavírus em fontes confiáveis, nos veículos profissionais de notícia, com medo de se contaminarem pelas fakes disseminadas. Aqui, a avalanche de mentiras é tão grande e contínua que as redes acabaram sendo desmoralizadas. O efeito dessa onda é de tal maneira devastador que até mesmo um post do presidente da República foi retirado do ar pelo Facebook por ser mentiroso, mas apenas depois de causar enorme estrago.


Membros de grupos de WhatsApp raramente recebem alguma coisa de primeira mão. Quando não é uma mensagem pessoal, quase tudo chega por redirecionamento. Fora as piadas, as orações e as sacanagens, o que mais se vê hoje em dia são campanhas contra o confinamento. Mesmo não se conseguindo identificar o autor material da obra, sabe-se perfeitamente quem teve a ideia e a quem ela serve. Os objetos da sua ira são quase sempre os mesmos, com destaque para a mídia. Geralmente são ataques rasos e burros, mas ainda assim há militantes cegos que os distribuem.

Além da imprensa e de partidos de oposição a Bolsonaro, esse ódio alcança também os poderes Legislativo e Judiciário. A mais nova peça distribuída é a que indaga por que deputados e senadores não abrem mão de seus salários e suas vantagens por exercício de função e redirecionam esse dinheiro para o combate ao vírus. É ridículo, mas tem gente que acredita, sem fazer os devidos cálculos, que o volume de recursos (de alguns milhões de reais) que seria alcançado com a medida exótica poderia resolver a guerra (de muitos bilhões de reais) contra o flagelo.

Mais uma vez, não precisa ser gênio para saber quem produziu essa pérola e quais os instrumentos usados para a sua distribuição. São os de sempre, os que culpam Congresso, Supremo e imprensa pelo fracasso extraordinário de um dos piores e mais absurdos presidentes da História do Brasil. Como todo o material é distribuído por uma rede eficientíssima de robôs, mais cedo ou mais tarde essas barbaridades vão acabar em seu celular, encaminhados por membro desatento de um de seus grupos.

É verdade que de um lado as redes têm altíssimo valor nessa pandemia, sendo usadas pelos entes oficiais da saúde para se comunicar e por empresas para se conectar e atender aos seus clientes. Por outro lado, elas têm sido instrumento para difundir contrainformações que podem resultar até em mortes. O fato é que por isso as pessoas começam a se desligar. Pode ser difícil, para alguns será como mergulhar no mar numa noite escura. Mas um pouco mais de cuidado com o que se lê e com o que se compartilha não fará mal a ninguém. Em alguns casos, é melhor cair fora mesmo.

Post Scriptum
Talvez não explique por que os Estados Unidos são líderes de casos e mortes por coronavírus, mas uma visita a qualquer aplicativo de voos em tempo real, como o “Aviões ao Vivo”, pode dar uma boa pista. No Brasil, ontem, às 12h34m, havia 18 aviões voando. Na Índia, quatro aviões ocupavam o espaço aéreo. Na Itália, havia dois, na França, sete. E nove sobrevoavam a Inglaterra. Nos Estados Unidos, era impossível contar, porque somavam centenas.
Ascânio Seleme

quarta-feira, 8 de abril de 2020

Controle de danos

Jair Bolsonaro insiste em fazer da Presidência da República uma roleta-russa para os brasileiros. Sua família se acha dona do País e comanda o governo com baixos instintos: soberba, inveja, paranoia, ciúme, obsessão. Vieram para matar ou morrer. Sua última e tresloucada experiência de apertar o gatilho ao sabor do azar deu xabu, mas poderia ter resultado na dispensa do ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, em plena administração de uma pandemia letal.

Sabem todos o que se passou, passa e passará com a família governante. E do lado do bom senso, o que se passa? Não há ninguém parado. Pelo contrário, nunca a política e os políticos estiveram com tanto apetite e, ao mesmo tempo, tão prudentes. Não é hora de aparecer. No meio de uma guerra, sem conhecer a lista dos sobreviventes, movimentos radicais são exercícios perigosos.


O que se pode identificar é que há dois consensos atraindo a praça política, um deles consolidado e o segundo em construção discreta. Em pleno vigor, o primeiro tem sido denominado de “controle de danos”. Consiste em deixar Jair Bolsonaro falando sozinho, aplicando suas ideias como quiser, sem contestações, enquanto a Câmara, o Senado, o Supremo, a Economia, os ministérios, os órgãos de controle seguem governando. Tocam suas agendas ao mesmo tempo em que tentam consertar os absurdos que as instituições não conseguirem absorver.

Os militares são importantes nas tarefas de contenção. Já constataram que Bolsonaro é incompetente para exercer liderança num momento como este e já demonstraram que não o querem como seu ditador. Não temem a volta à planície até porque qualquer reviravolta, se houver, deixará seguro seu processo de resgate para a política, pois o vice é um dos seus. Mas tentam, por todos os meios, equilibrar o presidente e reduzir as consequências de seus atos.

Os mais influentes, todos ministros próximos ao presidente, são fortes e formam o chamado eixo Leste: Fernando Azevedo, ex-comandante do Leste (Rio); Luiz Eduardo Ramos, ex-comandante do Sudeste (São Paulo); Braga Netto, ex-comandante do Leste e ex-chefe do Estado-Maior do Exército, aquele que organiza tudo, do atual comandante Edson Pujol.

O eixo Leste é um eixo de poder que se contrapõe ao general Augusto Heleno, nos últimos tempos mais afeito ao pelotão dos incendiários.

Os governadores, também neste consenso, perceberam logo que o presidente da República está em campanha eleitoral e quer mesmo é desestabilizá-los. Tendo o enfrentamento da pandemia sob sua responsabilidade, apegaram-se aos ministros que funcionam para seguir seu caminho sem ter de dar satisfação a Bolsonaro.

Foi exatamente esta política de “controle de danos” que entrou em ação, na segunda-feira, para dissuadir o presidente de demitir o ministro da Saúde. Com sucesso, até terça, 7. Bolsonaro é imprevisível na sua marcha de dois passos para a frente e dois para trás.

O segundo consenso, também invisível, que a política está à procura e do qual são conhecidos apenas alguns sinais, é encontrar a forma de afastar Bolsonaro. Seja criando condições para a renúncia, seja pelo impeachment. Não são soluções imediatas. Prioridade, agora, é a vida, por um fio no Brasil e no mundo.

Entre os sinais emitidos, foi grave o presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM), dizer com toda a clareza que o presidente não tem coragem de demitir um ministro, deixando a Bolsonaro a opção de se complicar, se demitir, ou parecer covarde, se não demitir.

Outro, igualmente grave, foi o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso (PSDB) dizer que, se Bolsonaro perder as condições de governar, “o que se vai fazer, muda”. O DEM e o PSDB sabem como se faz, estiveram à frente dos dois impeachments presidenciais havidos no Brasil nas duas últimas décadas.

Como fazer cidadãos

Um bom leitor é o cidadão ideal de uma sociedade democrática: nunca se conforma com aquilo que tem, sempre quer mais e coisas diferentes das que lhe oferecem. Sem essas insubmissões o progresso verdadeiro seria impossível, aquele que, além de enriquecer a vida material, aumenta a liberdade e o leque de escolhas para ajustar a própria vida a nossos sonhos, desejos e ilusões. Karl Popper tinha razão: nunca estivemos melhor do que agora (nos países livres, entende-se)
Mario Vargas Llosa

Um governo de amadores

Jair Bolsonaro foi educado em quartéis. Como não se conhecem trabalhos de sua autoria sobre história do Brasil, matemática e balística, disciplinas de interesse dos militares, o mais perto que desempenhou de uma atividade científica pode ter sido esfregar cavalos. Isso não o impediu de, como presidente da República, dar palpite sobre o coronavírus, minimizando-o ("Uma gripezinha! Um resfriadinho!"), estimulando as pessoas a correr o risco de contraí-lo e jogando com a saúde da população.

A audácia de Bolsonaro ao desafiar a comunidade científica mundial, ofender os já milhares de mortos e tentar esvaziar o seu próprio ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta —que ele só não demitiu na segunda-feira porque foi peitado por gente ainda sã no governo— não tem equivalente nos anais.


Para piorar, seu estilo de governar, arrogante, despótico e indiferente às consequências, tem sido replicado por vários de seus auxiliares, não por coincidência também autorizados a pontificar sobre assuntos além das respectivas solas.

Com sua vocação para a chanchada, o ministro da Educação, Abraham Weintraub, por exemplo, criou um problema internacional com uma piada em que comparou os chineses ao Cebolinha. A secretária de Cultura, Regina Duarte, postou um vídeo falso em que o ministro da Saúde parecia autorizar o uso da cloroquina como um elixir mágico contra o vírus —o que Regina Duarte tem a ver com saúde? Em que ciência se basearam tantos ministros para pregar que só os maiores de 60 anos devem se confinar? E, nesse caso, quem autorizou o general Augusto Heleno, macróbio e portador do vírus, a desafiar as autoridades sanitárias e quebrar a quarentena que milhões de brasileiros prudentes estão cumprindo?

É um governo basicamente de amadores. Por isso essas pessoas foram escolhidas para integrá-lo. As exceções um dia se envergonharão de ter participado dele.

Emergência e democracia

Um mal-assombrado uso do poder nos dilacera: isolamento voluntário de todos ou solução final para a velhice. A esse delírio absurdo e não cristão soma-se a perda de contexto da missão fiscal na economia, deixando a cartilha liberal sem norte para fazer o que precisa.

Uma parada global sincronizada, um governo incapaz de estabilizar suas ações. A confusão alucinatória do presidente, fustigando sem pudor seu ministro da Saúde, estressa mais ainda o cenário e pode levar o Brasil a ser o maior perdedor entre os emergentes. Enquanto o palácio boicota a Nação, o povo ainda encontra temperança, seguro de que nenhum princípio humano ou ético é violado pelo Ministério da Saúde ou pelos governadores.

Itamar, maduro e experiente, custou-lhe tanto a acreditar no Real que o ministro da Fazenda virou o autor do plano, salvando o País da inflação. Jair, o verde, despreza tanto a doença que o ministro da Saúde é que vai salvar o País da infecção. Mandetta, a URV do coronavírus, é mais do que governo. Virou ministro da República.


Lançando sombras sobre o País, parte do governo parece mais agarrada à bolsa do que à vida, convicto de que saúde pública atrapalha a economia. Viúvas do mundo velho, não conseguem realizar o luto pela morte que o vírus impôs ao estilo de vida moderno. Stop. A vida parou, ou foi o presidente? Antifuturista, martirizado pela desinformação, finge governar.

A democracia é forte, mas não é um regime de força. Confunde quem trabalha com expectativa falsa e não consegue agir certo diante de dificuldades. Que governante se mantém à tona sugerindo que o bombeiro salve os móveis e deixe a família se queimar? Acreditar nele é como segurar água na mão. Com atrevimento diz sem pensar o que pensa. Está virando o nome do desastre. Schettino, Schettino, não abandone o navio na hora do naufrágio!

Não é difícil manter a democracia em situações de emergência. Mas que trauma leva o presidente a se identificar tanto com esse vírus a ponto de ter necessidade sádica de ridicularizá-lo, insultá-lo, desafiá-lo? Quem sabe o Centro de Inteligência do Exército de Agulhas Negras o alerte para o que dizem os modelos estratégicos de enfrentamento de populações abandonadas e em pânico. Não é em todas as situações que o homem escolhe sua saída.

Não é fácil conciliar democracia e emergência quando a situação exige mais cérebro e sentimento do que desejo e força. O método de convencimento democrático, pelo isolamento voluntário a pedido da autoridade sanitária, é o melhor para conter a doença. Ajuda, ainda, na preservação do tempo de esperança e solidariedade capaz de soerguer a sociedade depois da desgraça.
Para isso é preciso abandonar qualquer fraude no comportamento. O que houve no mundo foi mais do que uma parada repentina tirando a liquidez dos mercados. Diante da inadimplência geral, e vendo a riqueza sem movimento, a autoridade que não considera o PIB um conceito de fluxo, e não gosta do papel do Estado, sente-se catatônica.

A espiral negativa quando atinge o capital e o trabalho tem de ser amenizada prontamente pelo Estado, recalibrando sua relação com a base fiscal e monetária. O ultraliberal, não podendo ser dogmático, sente-se um insincero titular do poder. Não é burocracia, é a filosofia a razão da demora em estancar a infecção na economia.

É hora da união, de os estadistas de todos os setores afirmarem que é desaconselhável romper o isolamento e obrigatório o Tesouro impulsionar a salvação do País. Por que na emergência a economia se desmancha? Que país é esse que supõe que a vida humana vale menos do que dois meses de produção econômica? Se não há uma base existencial mínima de entendimento, fiquemos com a principal: se somos uma democracia, não precisamos usar a força.

Não é preciso abrir o embrulho para ver o que contém. O universo paralelo do presidente se desfez com a pandemia. Eleito pelo modelo mental virtual, por onde não passa nenhuma privação, ele se virava com retórica, sem ligar para autoridade. Agora o cálculo estratégico que opera, ao jogar com o vírus imaginando não quebrar a cara, parte da ideia de que o Brasil sofre, mas não morre. O ponto de equilíbrio surgirá quando as instituições democráticas o convencerem de que não há necessidade de o País todo sofrer, talvez ele, mantida sua prerrogativa de falar pelos cotovelos.

Há atletas a quem a camisa pesa. Outros, cansativos, acionam uma necessidade de atenção maior do que a que podemos dar. Imaginem estado de calamidade, tendo de suportar coexistência e hierarquia com um governo que se esfrangalha ali onde a fantasia se choca com a realidade.

O mundo intrapsíquico de quem vê a política como jogo trapaça-charlatão-sabichão não prevê desmoralização. Mas se diante do nada até a incompetência costuma ser aceita, quando há necessidade de comando e controle profissional não adianta falar mais alto. Concepções vagas de como governar no temporal podem não corroer os ossos da raiva. Mas berrar instruções para a morte é querer companhia para um plano de extinção pessoal.

Pensamento do Dia


Líderes do mundo todo pedem uma resposta conjunta contra o vírus - Carta ao G20

Dezenas de ex-chefes de Estado e de Governo, juntamente com destacados diplomatas, acadêmicos e outras figuras relevantes nas relações internacionais, exortam os Executivos do G20 a elaborar uma resposta conjunta ao gigantesco desafio sanitário e econômico representado pela pandemia em escala global. Diante do atual panorama de ações nacionais e das dificuldades de articular uma reação comum até mesmo em blocos homogêneos como a União Europeia, os signatários propõem propostas internacionais para superar o maior desafio global em décadas.

No campo sanitário, o manifesto propõe a convocação de uma conferência de doadores para, entre outras coisas, oferecer apoio financeiro aos países com os sistemas de saúde mais frágeis. No econômico, fortalecer a capitalização do Banco Mundial e outras instituições financeiras regionais, aumentar os fundos para agências da ONU que ajudam os menos favorecidos e perdoar o pagamento da dívida deste ano dos países mais pobres.

Entre os signatários estão o ex-presidente brasileiro Fernando Henrique Cardoso, o ex-secretário geral da ONU Ban Ki-moon, os ex-presidentes da Comissão Europeia José Manuel Barroso e Romano Prodi, os ex-presidentes do Governo espanhol Felipe González e José Luis Rodríguez Zapatero, os ex-primeiros-ministros britânicos Gordon Brown (um dos três primeiros a assinar o documento), Tony Blair e John Major, e uma série de personalidades da política e de outros setores. Leia a seguir a carta completa ao G20.

Manifesto para uma ação conjunta contra a pandemia

Escrevemos para pedir uma atuação imediata coordenada em nível internacional —nos próximos dias— para fazer frente às graves crises sanitárias e econômicas mundiais derivadas da Covid-19.

O comunicado da reunião extraordinária dos líderes do G20 em 19 de março reconheceu a gravidade e a urgência da crise de saúde pública e da crise econômica, mas agora precisamos de medidas imediatas e específicas sobre as quais possamos nos colocar de acordo imediatamente e na dimensão necessária: ajuda de emergência para as iniciativas mundiais de saúde empreendidas pela OMS e medidas de emergência para restabelecer a economia. Para as duas coisas é necessário que os líderes mundiais se comprometam a financiar quantias muito superiores à capacidade atual de nossas instituições internacionais.

Em 2008-2010, a crise econômica imediata pôde ser superada quando se abordou a linha de fratura econômica: a subcapitalização do sistema bancário mundial. Agora, no entanto, a emergência econômica não poderá ser resolvida enquanto não for resolvida a emergência sanitária; e a emergência sanitária não acabará apenas com a vitória sobre a doença em um país, e sim garantindo a recuperação da Covid-19 em todos os países.

Todos os sistemas de saúde —mesmo os mais avançados e mais bem financiados— estão cambaleando sob a pressão do vírus. Se não agirmos à medida que a doença se espalhe pelas cidades e pelos bairros mais pobres da África, Ásia e América Latina, com equipamentos mínimos de testes, poucos respiradores e material médico escasso, e nos quais é muito difícil implantar o distanciamento social e até mesmo a lavagem de mãos, o coronavírus persistirá nessas áreas e reaparecerá para atacar o resto do mundo em novas ondas que prolongarão a crise.

É necessário ajudar a OMS a coordenar a produção e a aquisição mundial de suprimentos médicos para atender à demanda mundial

Os líderes mundiais devem se colocar imediatamente de acordo para destinar 8 bilhões de dólares [42 bilhões de reais] —como previsto pelo Conselho de Monitoramento da Prontidão Global— para cobrir as lacunas mais urgentes na resposta contra a Covid-19. As quantias deverão ser:

Um bilhão de dólares [5,2 bilhões de reais] este ano para que a OMS possa desempenhar sua função, de importância crucial, em sua totalidade. Embora a OMS tenha feito um pedido público e 200.000 pessoas e organizações tenham feito uma generosa contribuição de mais de 100 milhões de dólares, não podemos depender exclusivamente das doações de caridade.

Três bilhões de dólares [15,6 bilhões de reais] para vacinas: a Coalizão de Inovações em Preparação para Epidemias (CEPI) está coordenando os esforços internacionais de pesquisa para desenvolver e produzir em massa vacina eficazes contra a Covid-19. A Aliança Global para Vacinas e Imunização (GAVI) terá um papel fundamental na aquisição e distribuição dessas vacinas, e necessita de 4,5 bilhões de dólares [23,5 bilhões de reais] para seu reabastecimento: será necessário buscar financiamento para estas e outras necessidades futuras.

Para terapias, 2,25 bilhões de dólares [11,7 bilhões de reais]; o acelerador terapêutico para a Covid-19 pretende distribuir 100 milhões de tratamentos até o final de 2020, e precisa de dinheiro para desenvolver e ampliar rapidamente o acesso a essas terapias.

Em vez de cada país —ou cada Estado ou província— competir por uma parte das reservas existentes, com o risco de um rápido aumento de preços, devemos aumentar a oferta, e para isso é necessário ajudar a OMS a coordenar a produção e a aquisição mundial de suprimentos médicos, como testes, equipamentos de proteção individual e tecnologia de telecomunicações, para atender à demanda mundial. Também será necessário reservar recursos para acumular e distribuir suprimentos essenciais.

Além disso, serão necessários outros 35 bilhões de dólares [182 bilhões de reais], como destacou a OMS, para ajudar países com sistemas de saúde mais fracos e populações especialmente vulneráveis; entre outras coisas, para fornecer suprimentos médicos essenciais, dar mais apoio às equipes nacionais de saúde e reforçar a resistência e a preparação de cada país. Segundo a OMS, quase 30% dos países não têm planos nacionais de resposta à Covid-19, e apenas metade dispõe de um programa nacional de prevenção e controle de infecções. Os sistemas de saúde nos países de renda mais baixa terão mais dificuldades, e as estimativas mais otimistas do Imperial College de Londres indicam que haverá cerca de 900.000 mortes na Ásia e 300.000 na África.

Propomos que seja convocada uma conferência mundial de doadores —com o apoio de um Grupo de Trabalho Executivo do G20— com o objetivo de alocar recursos para estas urgentes necessidades mundiais de saúde.

Os Governos nacionais têm trabalhado muito para combater o declínio de suas economias. Mas um problema econômico mundial exige uma resposta econômica mundial. Nosso propósito deve ser impedir que uma crise de liquidez se transforme em uma crise de solvência e que uma recessão mundial se transforme em uma depressão mundial. Para isso, é necessário coordenar melhor uma série de iniciativas fiscais, monetárias, de bancos centrais e antiprotecionistas. Os ambiciosos estímulos fiscais de alguns países serão mais eficazes se forem acompanhados por todos os outros países em condições de adotá-los.

Deveria ser dado, a um grupo mais amplo de bancos centrais, acesso a acordos de swap cambial; o FMI deveria assinar acordos de swap com os principais bancos centrais e utilizar esses recursos em moeda forte para oferecer ajuda financeira de emergência aos países emergentes e em desenvolvimento. Mas é vital que, para evitar demissões em massa, as garantias que forem oferecidas em cada país sejam imediatamente acompanhadas pelo apoio dos bancos locais às empresas e às pessoas.

As economias emergentes —e, em particular, as dos países mais pobres— precisam de uma ajuda especial, entre outras coisas para garantir que os recursos cheguem a todos os prejudicados pela drástica queda da atividade econômica. O FMI disse que vai mobilizar todos os seus recursos. Tem uma capacidade de empréstimo de 1,2 trilhão de dólares [6,26 trilhões de reais] e a possibilidade de destinar imediatamente 600 bilhões de dólares [3,13 bilhões de reais]. Além disso, deveria haver uma atribuição adicional de 500 bilhões a 1 trilhão de dólares [de 2,6 a 5,2 trilhões de reais] na forma de Direitos Especiais de Saque [SDR, na sigla em inglês]. Ao mesmo tempo, para garantir que cada país tenha financiamento suficiente, incentivamos os membros do FMI a permitir que sejam excedidos os limites da cota de empréstimo nos países mais necessitados.

O Banco Mundial e muitos bancos regionais de desenvolvimento se recapitalizaram recentemente, mas será necessário injetar mais dinheiro. O Banco Mundial pode aumentar a ajuda da Associação Internacional de Desenvolvimento (AID) aos países mais pobres até aproximadamente 25 bilhões de dólares [130 bilhões de reais] anuais e elevar a ajuda do Banco Internacional de Reconstrução e Desenvolvimento (BIRD) aos países de renda média de 25 bilhões a 35 bilhões de dólares anuais sem deixar de cumprir seu teto de empréstimo. Mas é provável que, como ocorreu em 2009, quando só o gasto do BIRD passou de 16 bilhões para 46 bilhões de dólares, seja necessário ampliar muito mais os recursos disponíveis, para ele e para os bancos regionais de desenvolvimento.

Para poder exercer suas responsabilidades de ajuda humanitária e para atender aos refugiados e às pessoas deslocadas, cuja situação tem muitas probabilidades de se tornar desesperadora, os organismos da ONU fizeram nesta própria semana um apelo para arrecadar 2 bilhões de dólares [10,4 bilhões de reais].

A comunidade internacional deveria perdoar este ano os pagamentos da dívida dos países à AID, incluindo os 44 bilhões de dólares [230 bilhões de reais] devidos pela África, e pensar em um alívio da dívida no futuro.

Estamos de acordo com os líderes africanos e dos países em desenvolvimento em que, dada a ameaça existencial que se abate sobre suas economias, o golpe cada vez maior que vão sofrer seu trabalho e sua educação e sua limitada capacidade de proteger as pessoas e as empresas, serão necessários pelo menos 150 bilhões de dólares [783 bilhões de reais] para criar redes de proteção sanitária e social e outras ajudas urgentes.

Estas alocações de dinheiro devem ser aprovadas imediatamente, colocadas em andamento sob a coordenação de um Grupo de Trabalho Executivo do G20 dentro do Plano de Ação do G20 e confirmadas integralmente nas próximas reuniões do FMI e o Banco Mundial. As duas instituições econômicas principais devem receber garantias de que serão feitas mais contribuições econômicas bilaterais e de que haverá acordo sobre a necessidade de novas injeções de capital.

A solução a longo prazo consistirá em repensar radicalmente a saúde pública mundial e reformular —com os recursos necessários— a arquitetura sanitária e financeira global. A ONU, o G20 e as partes interessadas devem trabalhar em conjunto para coordenar as ações posteriores

Gordon Brown foi primeiro-ministro do Reino Unido, é enviado especial da ONU para a Educação Mundial; Erik Belglöf foi economista-chefe do Banco Europeu de Reconstrução e Desenvolvimento, é professor e diretor do Instituto de Assuntos Mundiais da Escola de Economia e Ciências Políticas de Londres; Jeremy Farrar é diretor da Wellcome Trust.
Pode-se consultar aqui todos os signatáriios

Não há lucro com perda$

Quando a impunidade é permitida, quem a permite perde o direito de falar sobre o que é justo e injusto. Se o Ocidente se deixa guiar somente pelos lucros e os interesses, será bem merecido quando sofrer perdas
Ai Weiwei

O vírus da inveja

Foi o anticlímax. Esperou-se o dia todo pelo desfecho. Não se falava em outra coisa. No domingo, o presidente anunciara que integrantes de seu governo “viraram estrelas” e que “a hora deles ia chegar”.

E avisava: “Não tenho medo de usar a caneta”. Não citou Luiz Henrique Mandetta — até porque não precisava.

Dizia-se que ele estava atrás de um técnico capaz de defender a hidroxicloroquina contra o coronavírus. O capitão cismou que tem como acabar com o vírus, mesmo que sua receita não seja aprovada pela OMS. Apela até para jejum e orações. O próprio ministro da Saúde acreditava que sua vez chegara. Suas gavetas foram esvaziadas.


O que impediu a execução? Uma incrível frente de defesa de um ministro formou-se então, reunindo os presidentes do Supremo Tribunal Federal, Dias Toffoli, da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia, e do Senado, Davi Alcolumbre, numa espécie de “Fica, Mandetta”.

Isso sem falar no apoio popular, revelado no sábado pela pesquisa do Datafolha: 76% dos brasileiros consideravam o desempenho do ministro da Saúde ótimo ou bom, enquanto 51% consideram que o presidente mais atrapalha do que ajuda.

Provavelmente está aí a resposta à pergunta: por que Bolsonaro não se conforma com o sucesso de Mandetta?

Sou suspeito, vocês verão logo, mas eu atribuo à inveja. Em mensagem ao jornal, Guita Zach discorda, citando o meu livro “Mal secreto”, que diz sobre os pecados capitais que só a inveja se esconde”. Que Zuenir me desculpe (...) A inveja que Bolsonaro tem do equilibrado ministro da Saúde é tão escancarada que não tem pejo de se ocultar”.

Mas o capitão jamais admitirá que sente de seu subordinado inveja (que é não querer que o outro tenha, no caso, o sucesso) ou ciúme ( que é querer não perder o que se tem). Ele tenta fazer crer que sua antipatia se deve ao que classifica como “falta de humildade” do outro.

Durante mais de um ano, entrevistei psicanalistas, padres confessores, mães de santo, e concluí que a inveja é um vírus, uma espécie de Covid-19, cuja melhor definição encontrei num adesivo de caminhão: “A inveja é uma merda”.

Mandetta fraqueja e o inimigo avança

Cuide-se Luiz Henrique Mandetta para que ao deixar o Ministério da Saúde possa, de fato, levar intacta a reputação do bom administrador que resistiu a todas as pressões e preferiu salvar vidas a satisfazer as vontades do Excelentíssimo Senhor Presidente da República, interessado em salvar a Economia.

Amigos de Mandetta estão preocupados com dois passos em falso que ele deu nas últimas 48 horas quando escapou por pouco da degola. O primeiro: abrandou sua posição quanto às medidas restritivas impostas pelos governadores de Estados e, de resto, adotadas em quase todos os países do mundo.

O segundo passo: se antes condenava com veemência a prescrição da droga Cloroquina para casos de coronavírus, Mandetta passou a admitir o seu uso a critério de cada médico. Não há fundamentos científicos que sustentem os efeitos reparadores do remédio para infectados pelo vírus. Mas Bolsonaro quer a sua liberação.


Tem a ver com Donald Trump. Um dos donos do laboratório que fabrica a Cloroquina foi um dos maiores doadores de dinheiro para sua campanha. O Centro de Prevenção e Controle de Doenças dos Estados Unidos removeu de seu website orientações altamente incomuns que sugeriam o uso da droga contra o vírus.

Bolsonaro caiu na lábia do representante do laboratório no Brasil e, para agradar Trump, virou um lobista do remédio. Tentou obter o consentimento de Mandetta para o uso em massa da Cloroquina. O ministro negou. Mas em troca, para não parecer tão intransigente, Mandetta baixou o tom do que vinha dizendo.

Baixou também o tom a respeito do confinamento social. Disse que técnicos do Ministério da Saúde estudam a “transição para o distanciamento social seletivo”. Logo agora que o distanciamento social obrigatório vai sendo relaxado em várias partes do país à revelia ou não de governadores e de prefeitos.

E pensar que o pior ainda nem passou. Que o pior ainda nem chegou. O pico da pandemia deverá acontecer na última semana deste mês e na primeira de maio. E só depois de um período cuja extensão ninguém se arrisca a calcular, o número de casos de mortes por coronavírus começará a diminuir lentamente.

O Amazonas é o primeiro Estado onde o sistema médico entrou em colapso. Ali, onde já morreram 23 pessoas, o número de infectados subiu em um dia de 532 para 636. Já passa de 95% a taxa de ocupação dos leitos disponíveis nos 4 principais hospitais públicos de Manaus. O Secretário de Saúde deverá pedir demissão hoje.

No Rio, é de 25% o índice dos profissionais de saúde da rede pública infectados pelo vírus – superior ao da Espanha e de Portugal (20%) e maior que o da Itália (15%). Em São Paulo, 3.346 profissionais da rede pública e privada de saúde foram afastados por doenças diversas – 737 deles vítimas do Covid-19.

Se respeitadas as restrições baixadas pelo governo de São Paulo, estima-se que o número de mortos pelo vírus ao cabo dos próximos 180 dias ultrapasse a casa dos 110 mil. Foram 371 até ontem. Na guerra contra o Paraguai, que se estendeu de dezembro de 1864 a março de 1870, o Brasil perdeu cerca de 50 mil homens.

O inimigo desta vez é muito mais poderoso, além de invisível, além de rápido no gatilho. E ainda não foi descoberta uma arma capaz de matá-lo. Ou de mantê-lo à distância.