sábado, 21 de julho de 2018
Políticos bandidos, política podre
Se até pouco tempo atrás roubavam sobre o que faziam, a estrada, a escola, o hospital, o carro de polícia… , de aproximadamente 16 anos para cá só roubam e nada constroem. O que está cada vez mais cristalino é o fato de estarmos regredindo. Doenças tidas como extintas voltam e matam os mais simples. O índice de mortalidade infantil aumenta, no momento em que o mundo da medicina avança a passos largos. Isso envergonha mais do que os mergulhos de Neymar! As relações de trabalho se equiparam, em muitos casos, ao período pré-princesa Isabel. O acesso aos serviços públicos é cada vez mais difícil. A educação é chacota e a segurança simplesmente não existe.
Isso tudo se deve duas questões absurdamente cruéis: corrupção e aparelhamento do Estado. Não bastasse os desvios de recursos, nos últimos anos as tarefas fins do Estado foram entregues a incompetentes. Graças a ação política rastaquera, os segundo, terceiro e quatro escalões do governo foram entregues a incapazes.
Políticos bandidos geram uma política podre. Mas, renegar a política como instrumento de transformação pode representar um atraso ainda maior. Já sabemos que devemos, nas urnas, punir corruptos e mentirosos. Mas temos também que dar um basta à palhaçada. Não dá para nesse momento aplaudir trogloditas de plantão que prometem bater até na sombra, mas que durante a vida toda viveram com recursos públicos e nada têm para mostrar à sociedade. Também não se pode levar a sério aqueles que planejam mudar os fatos e criam um discurso próprio para limpar biografias enlameadas. Tá difícil, mas podemos achar um caminho.
Fantasma
A liberdade não passa de vão fantasma quando uma classe de homens pode esfaimar outra impunementeJoel Silveira, "Guerrilha noturna"
O saber como pode
Algumas pessoas assumem, entretanto, papéis especiais pela complexidade da função e repercussão nos destinos do grupo.
Estão, nesse caso, atividades relativas aos fenômenos mágico-religiosos, porque poucos estabelecem contato com divindades, manipulam forças relacionadas à morte e interpretam fenômenos sobrenaturais.
Nas sociedades complexas, surgem especialistas em diferentes setores, obtendo proeminência porque passaram por formação sistemática e receberam autorização do Estado para assistir quem sofre problemas espirituais, físicos e emocionais ou ocupar cargos elevados em áreas estratégicas. Eles concentram seus esforços numa função porque a capacidade humana para produzir conhecimento é infinita; assim, ninguém pode saber tudo, sobre todas as áreas, em todos os lugares.
Os especialistas modernos dependem de outros sábios em muitas outras áreas. Isso pode promover coesão interna, mas preserva o fantasma da opressão, porque existem diferenças no valor atribuído a cada atividade; logo, quem tem o conhecimento inerente às funções consideradas nobres ocupa planos sociais mais elevados, impondo teorias, definindo os rumos de seu grupo e obtendo alto rendimento. Há desqualificação do saber empírico, que ficou aquém daquele próximo à tecnologia avançada.
A sólida formação ocorre, atualmente, na escola, que encerra código de conduta, princípios filosóficos, técnicas pedagógicas, objetivos políticos e pesados custos operacionais, mirando interesses nacionais. Os países desenvolvidos definem, então, cuidadosamente, todo o processo educacional, propiciando aos imaturos os meios indispensáveis para a plena integração à sociedade.
O Brasil tem uma longa história de maus-tratos a essa qualificação para a cidadania, preservando a máxima da colonização portuguesa de que povo instruído é um risco ao domínio da metrópole. Isso fica mais nítido em campanhas eleitorais, como estamos vivendo agora, em que os agentes públicos agem sorrateiramente para manipular os mais desfavorecidos e preservar seu poder. Escamoteiam seus propósitos, fazem promessas vãs e introduzem seus filhos nos novos pleitos para controlar todas as esferas do Estado nos esquemas oligárquicos, que serão sempre o obstáculo maior para o processo de modernização do país.
Parece que os brasileiros jamais terão acesso ao saber que abrange técnicas profissionais de alto rendimento em diferentes áreas, capacidade de distinguir gestores comprometidos com o bem comum, seleção de práticas salutares para viver em comunidade e elaboração de projetos seguros para si e sua descendência. Permanecerão, portanto, sem autonomia para viver com dignidade, segurança e conforto.
Escravidão moderna atinge mais de 40 milhões no mundo
No contexto do relatório, o conceito de escravidão moderna abrange um conjunto de conceitos jurídicos específicos, incluindo trabalho forçado, servidão por dívida, casamento forçado, tráfico de seres humanos, escravidão e práticas semelhantes à escravidão.

De acordo com o documento, 71% das vítimas são mulheres, enquanto 29% são homens. Das 40,3 milhões de pessoas afetadas, 15,4 milhões estavam em casamentos forçados, enquanto 24,9 milhões se encontravam em condições de trabalho escravo. A Ásia representa 62% da estimativa global de pessoas em regime de escravidão.
A escravidão moderna é mais comum na Coreia do Norte e em outros regimes repressivos, mas as nações desenvolvidas também são responsáveis porque importam 350 bilhões de dólares em mercadoria produzidas em circunstâncias suspeitas, afirmou a fundação Walk Free. Na Coreia do Norte, por exemplo, 104 em cada mil pessoas viviam em tais condições.
Completam o ranking dos países com maior percentual de escravidão moderna em relação à própria população a Eritreia (93 para mil), o Burundi (40 para mil), a República Central Africana (22 para mil), o Afeganistão (22 para mil), a Mauritânia (21 para mil), o Sudão do Sul (20,5 para mil), o Paquistão (17 para mil), o Camboja (17 para mil) e o Irã (16 para mil).
A Venezuela é, junto ao Haiti, o país com a maior incidência proporcional da escravidão moderna na América. Segundo o índice, 174 mil pessoas vivem nessa situação em território venezuelano, uma taxa de 5,6 para cada mil habitantes. Essa proporção é similar à do Haiti, onde 59 mil pessoas seriam vítimas – uma proporção amplamente acima da de outros países da região.
O Brasil registrou uma taxa de apenas 1,8 pessoas em condição de escravidão moderna para cada mil habitantes. Por outro lado, em números absolutos, o Brasil detém a segunda maior quantidade de pessoas em regime escravocrata na região, com 369 mil habitantes. Os EUA registraram 403 mil pessoas (1,3 para mil).
No total, a organização estimou que quase 2 milhões de pessoas em toda a América estavam em 2016 em situação de escravidão – dois terços forçados a trabalhar. O número absoluto representa apenas 5% da estimativa global.
No número absoluto de pessoas consideradas em regimes de escravidão moderna, Índia (7,99 milhões de indivíduos estimados), China (3,86 milhões), Paquistão (3,19 milhões), Coreia do Norte (2,64 milhões), Nigéria (1,39 milhões), Irã (1,29 milhões), Indonésia (1,22 milhões) e República Democrática do Congo (1,05 milhões) são os oito países acima de um milhão de "escravos".
Por outro lado, Mauritânia, Luxemburgo, Suriname e Barbados são os quatro países com um número de casos estimados igual ou inferior a mil.
O Índice Global de Escravidão utiliza pesquisas de referência no mundo para estimar a prevalência da escravidão moderna em mais de 160 países. Pela primeira vez, o relatório se baseia também em dados comerciais sobre produtos em risco de ser produzidos pela escravidão moderna.
Deutsche Welle
Lula vai se tornando um cabo eleitoral da direita
Nenhum pai faria com um filho o que o pseudo-esquerdista Lula faz com a autoproclamada esquerda brasileira. Preso em Curitiba, Lula transformou sua hipotética candidatura presidencial num cavalho de batalha. Impede o PT de cuidar do Plano B e conspira contra a adesão de aliados ao projeto de Ciro Gomes. Com esses dois movimentos, Lula anima as campanhas da chamada direita.
Os partidos brasileiros, como se sabe, têm muitas cabeças e poucos miolos. O PT sofre da mesma falta de miolos, mas tem uma cabeça só. E Lula, o imperador do petismo, revela-se mais uma vez capaz de tudo, menos de compartilhar o poder e a influência. O imperador do petismo obriga o PT e seus satélites a segui-lo numa procissão que leva à cadeia, não à urna.
Inelegível, Lula aproximaria Ciro Gomes da Presidência se o apoiasse, cedendo-lhe o tempo de propaganda do PT. Em vez disso, conspira para isolar Ciro. As pesquisas indicam que Lula colocaria Fernando Haddad no segundo turno se anunciasse desde logo seu apoio ao poste petista. Mas Lula mantém sua candidatura cenográfica por conveniência penal.
Se esticar essa corda, Lula arrisca-se a assumir em 2018 o papel de cabo eleitoral da direita. Numa eleição imprevisível, já não é absurda a hipótese de um segundo turno disputado entre o tucano Geraldo Alckmin e o capitão Jair Bolsonaro.
Os partidos brasileiros, como se sabe, têm muitas cabeças e poucos miolos. O PT sofre da mesma falta de miolos, mas tem uma cabeça só. E Lula, o imperador do petismo, revela-se mais uma vez capaz de tudo, menos de compartilhar o poder e a influência. O imperador do petismo obriga o PT e seus satélites a segui-lo numa procissão que leva à cadeia, não à urna.
Inelegível, Lula aproximaria Ciro Gomes da Presidência se o apoiasse, cedendo-lhe o tempo de propaganda do PT. Em vez disso, conspira para isolar Ciro. As pesquisas indicam que Lula colocaria Fernando Haddad no segundo turno se anunciasse desde logo seu apoio ao poste petista. Mas Lula mantém sua candidatura cenográfica por conveniência penal.
Se esticar essa corda, Lula arrisca-se a assumir em 2018 o papel de cabo eleitoral da direita. Numa eleição imprevisível, já não é absurda a hipótese de um segundo turno disputado entre o tucano Geraldo Alckmin e o capitão Jair Bolsonaro.
Revoltados passivos
É um fenômeno curioso: o país ergue-se indignado, moureja o dia inteiro indignado, come, bebe e diverte-se indignado, mas não passa disto.
Falta-lhe o romantismo cívico da agressão. Somos, socialmente, uma coletividade pacífica de revoltadosMiguel Torga, "Diário XIV"
'Até pensava em votar em Bolsonaro, mas agora não'

Digo isso porque nessa manhã, enquanto pensava no que escrever para minha nova coluna, encontrei um taxista jovem, negro, simpático. Fazia um calor de verão e me surpreendeu ao comentar, bem informado, sobre o drama dos problemas do meio ambiente. De repente, me perguntou em quem eu pensava em votar para presidente. Disse que não votava no Brasil e aproveitei para perguntá-lo em quem ele pensava em votar. “Está difícil. Até pensava em votar em Bolsonaro, mas agora não” e acrescentou: “O problema é que os que teriam de nos dar exemplos de vida são os que mais nos envergonham a cada dia”.
Fiquei sem saber em quem ele votaria, mas entendi uma coisa importante: não era do partido dos derrotistas que acham que todos são iguais. Eu o vi sofrendo para encontrar algum candidato que merecesse seu voto. São esses a verdadeira população, os que sofrem o mal exemplo dos governantes e ao mesmo tempo não renunciam a um Brasil em que eles tenham voz, porque são os que o constroem com seu trabalho.
Os políticos deveriam deixar seus carros blindados na garagem e caminhar a pé pelas ruas e subir nos ônibus. Deveriam escutar as pessoas como anônimos, sem escoltas, para saber o que pensam, porque essa massa que viaja nos transportes públicos poderia ser sua melhor assessora. Dessa forma, tanto a esquerda como a direita poderiam entender por que as pessoas não vão às ruas protestar quando elas querem e por que saem e se manifestam quando elas gostariam que ficassem trancadas em casa. As pessoas não são um robô que se move ao bel-prazer dos políticos. São pessoas que decidem motivadas pela urgência de uma vida com menos dificuldades econômicas e menos perigos para sobreviver.
Um amigo meu muito brincalhão me disse que teve um sonho curioso. De repente, a Brasília política havia desaparecido. Onde hoje estão o Governo e o Congresso era somente um grande parque de diversões para crianças. Os jornalistas, desesperados, tentavam saber onde estava a Brasília do poder. Eles a procuravam nas grandes avenidas de São Paulo e nos bairros ricos do Rio. Nada. Até que em uma rede social alguém contou que viu senadores, deputados e ministros caminhando nos becos de uma favela. Estavam a pé, entravam nos bares, nas escolas. Alguns corriam assustados quando as metralhadoras disparavam.
Contei o sonho de meu amigo ao jovem taxista e ele o levou a sério: “Não sei se Brasília deveria mudar a uma favela, mas os políticos deveriam ir às ruas e falar mais com a gente”, disse. Tentei saber o que ele perguntaria a um desses exilados de Brasília se subissem em seu táxi. E foi rápido na resposta: “Eu perguntaria por que precisam roubar tanto com o que já ganham”.
É essa sabedoria popular que os governantes deveriam escutar de sua própria boca. Eles não são contra a política e contra os partidos. O que faz com que tenham aversão aos governantes é saber que parecem entrar na política não para tentar melhorar o país e sim para enriquecer, eles e suas famílias. Por que cada vez mais os políticos de todos os partidos lutam agora para eleger seus filhos e parentes, começando pelos que estão na cadeia condenados por corrupção? São perguntas que as pessoas que viajam horas em pé nos ônibus também fazem. Alguém se atreve a escutá-las? Ou tem medo delas?
Vampiros no banco de sangue
A fala não revela apenas desprezo pelos clientes, que já penavam para pagar as mensalidades antes da nova regra. Também escancara a captura das agências reguladoras por grandes grupos econômicos. No caso da ANS, quem dá as ordens são os planos de saúde.
A autarquia ANS não é o Procon, mas foi criada para fiscalizar as empresas e impedir que o mercado atropele os consumidores. Não se trata de uma opinião. Basta ler a lei que criou a agência, no governo FH.
O texto afirma que a finalidade institucional do órgão é “promover a defesa do interesse público na assistência suplementar à saúde”. Entre suas principais atribuições, fixa a de “articular-se com os órgãos de defesa do consumidor visando à eficácia da proteção e à defesa do consumidor de serviços privados”.
Na segunda-feira, a ministra Cármen Lúcia suspendeu a resolução da ANS que permitiu a cobrança extra de até 40% sobre consultas e exames. Na decisão, ela anotou: “Saúde não é mercadoria. Vida não é negócio. Dignidade não é lucro”.
O diretor da agência não entendeu ou não quis entender o recado. Na entrevista a Luciana Casemiro, ele desdenhou de quem questiona a submissão da ANS aos planos. Reduziu as críticas a “fala repetida” e “retórica de falar mal das agências”.
O diretor da agência não entendeu ou não quis entender o recado. Na entrevista a Luciana Casemiro, ele desdenhou de quem questiona a submissão da ANS aos planos. Reduziu as críticas a “fala repetida” e “retórica de falar mal das agências”.
O lobby da saúde sempre foi influente em Brasília. A novidade é que a turma perdeu o pudor e passou a operar às claras. O presidente Michel Temer entregou o ministério a Ricardo Barros, um deputado do PP que teve a campanha patrocinada pelo setor. Ele avisou logo que não fiscalizaria a qualidade dos planos. “Ninguém é obrigado a contratar”, justificou.
A ANS é feudo do MDB. O relatório que avalizou a indicação de Rodrigo Aguiar foi assinado pelo senador Valdir Raupp, réu na Lava-Jato. Um observador do que ocorre na agência diz que seria impreciso falar em raposas cuidando do galinheiro. Neste caso, ele prefere a imagem de vampiros no banco de sangue.
A ANS é feudo do MDB. O relatório que avalizou a indicação de Rodrigo Aguiar foi assinado pelo senador Valdir Raupp, réu na Lava-Jato. Um observador do que ocorre na agência diz que seria impreciso falar em raposas cuidando do galinheiro. Neste caso, ele prefere a imagem de vampiros no banco de sangue.
sexta-feira, 20 de julho de 2018
O país das falsificações
Aos olhos de fora, já éramos o país que produziu Eike Batista, o sétimo homem mais rico do mundo no ranking da revista Forbes —“Crio riquezas do zero”, ele disse— e, de repente, descobriu-se que, sem monumentais manipulações e acordos com o então governo brasileiro, sua riqueza era mesmo zero. E o que dizer da Odebrecht, a empreiteira que parecia dominar o mundo, e hoje se sabe que, de mãos dadas com aquele mesmo governo, geriu o que se considera o maior caso de corrupção internacional da história?
Políticos que fizeram carreira passando-se por vestais ou por arautos de uma inédita prosperidade estão presos e condenados por corrupção. Pior ainda, sabe-se agora que seus números eram uma fraude. Milhões que acreditaram neles revoltam-se por terem sido feitos de trouxas e não querem repetir o erro —daí os altos índices de abstenção que se espera nas próximas eleições.
A economia acompanha a desmoralização política e vai para o buraco. Como investir num país em que não se sabe se o ministro com quem se conversa hoje não será apanhado e mandado para trás das grades antes de fechado o negócio? Até mesmo a Justiça está sub judice —para o povo, há juízes que, além da capa preta, deveriam usar máscara.
Diante desses casos, o grand-guignol de Neymar foi até inocente. O Brasil deveria disputar a Copa das falsificações. Um dia, teremos de pedir desculpas ao Paraguai pelo que já pensamos dele.
Ruy Castro
O túmulo dos ditadores que ninguém quer recordar
A tradição militar diz que os oficiais de alto escalão têm um nicho reservado no panteão de Chacarita. Videla não pôde ir para lá, assim como seus dois cúmplices na Junta que em 24 de março de 1976 derrubou a viúva de Juan Domingo Perón, María Estela Isabelita Martínez. A poucos metros do ditador, no cemitério Memorial de Pilar, também com o nome mudado, está o ex-chefe da Marinha e criador da ESMA, o maior centro de torturas e prisões ilegais da ditadura, Emilio Massera, falecido em 8 de novembro de 2010 no Hospital Naval. Seu homólogo na Força Aérea, o brigadeiro Orlando Ramón Agosti, morto em outubro de 1997, ocupa outro lote no mesmo cemitério particular. A família de Videla pediu em 2015 permissão ao juiz para cremar seus restos, mas apesar de conseguir o aval nunca realizou o trâmite, como o EL PAÍS pôde confirmar com fontes da Justiça.
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| O túmulo de Videla em maio de 2013, dias depois de seu sepultamento no cemitério Memorial de Pilar |
“A morte de Videla e o fato de que a família tentou levá-lo a Mercedes nos pegou de surpresa. O repúdio foi unânime e nos reunimos na porta do cemitério, em uma espécie de guarda para evitar que o enterrassem ali. A família, no final, desistiu, mas não soubemos para onde iria”, diz Ciro Lalla, historiador e membro da Comissão pela Memória do município. O repúdio a Massera, por sua vez, foi silencioso, mas suficiente para impedir os planos de sepultá-lo no panteão que o Círculo Naval tem em Chacarita. “Queriam trazê-lo para cá e até me fizeram limpar todo o lugar. Mas depois soubemos que precisaram montar vigilância, porque nessa noite pessoas estiveram rondando, ativistas dos direitos humanos. Por isso não veio, o mandaram a Pilar”, conta um antigo funcionário do panteão que prefere não dar seu nome.
Roberto Viola, sucessor de Videla após um golpe, morreu em 30 de setembro de 1994, quando ainda estavam vigentes os indultos de Menem aos chefes do regime. Viola encontrou espaço no panteão militar, um alto edifício de mármore, com capela no seu interior e três subsolos. Mais de 1.000 militares estão enterrados lá em nichos com tampas de aço inoxidável, entre fotos, placas de bronze e algumas flores perdidas. Não há rastros de Viola. Os funcionários do cemitério e do arquivo nada sabem dele. Um funcionário diz que foi cremado, mesmo que tenha algumas dúvidas. “Está no velho panteão”, diz outro empregado, mas lá também não existe nenhuma placa que diga Roberto Viola. “O problema é que são sepultados com nomes diferentes para que não sofram alguma represália”, diz o encarregado do lugar.
A chave do enigma está, por fim, com uma mulher que toma conta dos velhos documentos do cemitério e que não está autorizada a dar informações. Após abrir uma pasta, retira uma folha solta e lê com atenção. Ao lado do nome de Viola existe uma inscrição feita à mão, realizada há mais de dez anos por um pesquisador que em algum momento se preocupou em recuperar a memória do panteão militar. “Levado a Entre Ríos”, diz. A versão é verossímil. Viola se casou com uma mulher de Concordia e o filho dos dois mora lá, mas o rastro do corpo se perde nessa cidade.
“Tomaram muito cuidado para que não apareçam ligados a suas próprias forças, ninguém tem interesse em recordá-los”, diz Carlos Loza, membro da Associação de Ex-Presos Desaparecidos (AEDD) pela ditadura. Passados 40 anos, a Argentina ainda tem abertos julgamentos por crimes de lesa humanidade e passou de geração em geração o espírito de Nunca Mais que marcou o retorno da democracia. “A condenação social que existiu na sociedade argentina fez com que seja vergonhoso para as famílias dos ditadores, muitos de seus filhos chegaram a recusar a paternidade, outros mudaram seus sobrenomes”, afirma Loza.
O destino de Leopoldo Fortunato Galtieri, o sucessor de Viola, também se perdeu na memória. O general que levou a Argentina à Guerra das Malvinas em 1982 morreu em silêncio em janeiro de 2003, aos 76 anos, quando cumpria condenação por roubo de crianças nascidas durante o cativeiro de suas mães nos centros de tortura. Seu corpo foi levado ao panteão militar, como diz a tradição. Naquela época mereceu as honras de uma banda militar e até algumas palavras do comandante do Exército, Ricardo Brinzoni. O ato foi possível porque ainda não existia a lei que em 2009 proibiu qualquer tipo de despedida oficial aos repressores. Após o enterro, um desconhecido quebrou as coroas de flores e pichou o túmulo recém-inaugurado, mas isso foi tudo. Galtieri caiu rapidamente no esquecimento, tanto que hoje poucos sabem que o militar já não está em Chacarita. “Sua irmã o retirou há seis anos, para cremá-lo”, revela um funcionário do panteão.
Os chefes da ditadura argentina, amos e senhores em vida, são apenas uma má recordação na morte. Não têm monumentos e se escondem da história. Os que sofreram com o terrorismo de Estado dizem que os temores de seus herdeiros não têm fundamento, que podem ficar tranquilos. “Mesmo que se trate do corpo de um assassino, os rituais da morte não serão interrompidos por nenhuma das vítimas da ditadura. Não somos como os genocidas”, diz Loza. E lembra, ironias do destino, que foram os repressores que inventaram a figura do desaparecido, como se chamam os milhares de homens e mulheres que morreram sem túmulo.
Federico Rivas Molina/Mar Centenera
O povo como problema
“Exigimos a liberdade imediata de Lula, depois de uma condenação e prisão sem provas, e o direito a ser candidato presidencial nas eleições de outubro no Brasil, respeitando a vontade da maioria do povo brasileiro. Lula livre! Lula inocente! Lula presidente!”, diz a declaração final da 24.ª reunião anual do Foro de São Paulo – que, é claro, denuncia a “ofensiva reacionária, conservadora e restauradora neoliberal” capitaneada pelos Estados Unidos.
Em seu discurso, o ditador Maduro – que liquidou a oposição em seu país, encarcerou e exilou os dissidentes e reprimiu duramente todo tipo de manifestação contra seu governo, responsável pela penúria venezuelana – caracterizou o Brasil como um regime de exceção. Maduro disse ver o “martírio de Lula com dor, mas não com resignação”, denunciando que seu companheiro petista foi “escondido numa masmorra” para “impedir sua ação política”, porque “sabem que Lula livre ganhará a eleição presidencial no Brasil”. E acrescentou: “Basta!”.
Enquanto estão preocupados com a qualidade da democracia no Brasil, onde a imprensa é livre e as instituições funcionam, o Foro de São Paulo e seus ciosos delegados de partidos de esquerda entendem que a “Nicarágua sandinista”, por exemplo, é uma democracia plena – embora seu ditador, Daniel Ortega, tenha manobrado para se perpetuar no poder e mandado reprimir duramente manifestações contra seu governo, resultando, até agora, em mais de 350 mortos. Segundo o Foro, a Nicarágua de Ortega está sendo vítima da “política intervencionista” dos Estados Unidos, e os manifestantes estariam a serviço de “golpistas” teleguiados pelos americanos.
É evidente que, no léxico do Foro de São Paulo, a palavra “democracia” perde seu sentido estrito, servindo para designar unicamente regimes e partidos autoritários da América Latina que se pretendem legítimos porque julgam expressar a vontade do “povo”. Se o povo não concorda com a interpretação desses seus alegados porta-vozes, pior para o povo. Que o digam os presos políticos de Cuba, governada pela mais longeva ditadura do mundo, anfitriã do encontro “democrático” e “progressista” do Foro de São Paulo.
É em nome desse “povo” que o “campo progressista” latino-americano insiste na libertação de Lula, como se o suposto desejo popular expresso em pesquisas de intenção de voto para presidente fosse mais que suficiente para anular o julgamento que condenou o chefão petista à cadeia. Pouco importam os fatos, as provas e as sentenças de diversos juízes.
No delírio lulopetista, o sistema judicial brasileiro está tão eivado de golpistas que, segundo disse o ex-ministro Gilberto Carvalho a um site do MST, “só há uma forma de tirar Lula da cadeia”: um “levante popular, uma mobilização muito forte, uma radicalização do processo, seja de que forma for, que faça com que eles sintam que está ameaçada a estabilidade do País, e aí, por uma razão de força maior, libertem o Lula”.
O próprio Carvalho, contudo, reconhece que não será tarefa fácil, pois nem sempre o povo está suficientemente esclarecido para defender o PT. Ao comentar a dificuldade de mobilização, o amigão de Lula lamentou: “O povo faltou. O povo faltou no impeachment, o povo faltou na prisão de Lula”. Eis aí, para os espíritos autoritários, o “problema” das verdadeiras democracias: o povo, quando é livre, tem vontade própria.
Contribuinte paga até pão de queijo para deputado federal
O campeão de gastos neste momento, no ano, é o deputado Hélio Leite (DEM-PA): pediu ressarcimentos que totalizam R$287 mil.
Jarbas Vasconcelos (MDB-PE) comeu no restaurante do Senac e pediu ressarcimento de R$3,27, equivalentes a 0,009% do seu salário.
Jhonatan de Jesus (PRB-RR) foi o que mais gastou este ano com promoção pessoal ou “divulgação da atividade”: R$192 mil.
Afonso Motta, que não deixa passar nem pão de queijo, foi ressarcido em R$1,6 milhão desde a posse, além de R$1,55 milhão em salários.
Meu Deus!
O prefeito Crivella agradece a Deus por “ter nos colocado na prefeitura” e por poder dar vantagens e prioridades ao povo evangélico, que, segundo ele, vai salvar o Brasil, porque “evangélico não rouba”. Como o irmão Eduardo Cunha, né? Aleluia!
Como credencial para salvar o Brasil, diz que o povo evangélico é organizado. “Nós pegamos a oferta do povo, levamos pro escritório, contamos tudo, e a gente constrói igrejas.”
E também constrói um projeto de poder explosivo em que religião e política se misturam.
Se o povo evangélico vai salvar o Brasil, é porque os crentes de outras religiões e os ateus o afundaram? É “povo eleito” X povo eleitor?
Pelo que se sabe, Crivella não é ladrão, mas mente como um pagão, sem escrúpulos ou medo da justiça divina ou dos homens. Evangélicos não mentem, ou será que mentem mais ou menos do que católicos, umbandistas ou ateus?
Deus pode tudo, mas não se pode tomar seu santo Nome em vão e atribuir a Ele os fracassos de seu livre-arbítrio. Foi Deus que o ajudou a escapar do impeachment ou foi a distribuição de verbas e cargos para vereadores “da base”? Deus é parceiro de tramoias?
Crivella quer transformar o povo eleito no povo eleitor, e vice-versa, e trouxe como novidade maligna o “aparelhamento religioso” da prefeitura com propostas indecentes — e ilegais — para que seus devotos furem filas, operem catarata, varizes, façam vasectomia, basta chamar a irmã Márcia.
Com suas feições que parecem moldadas em cera, sua alvura, suas orelhas pontudas e a fala macia, o bispo tem o physique du rôle de um personagem satânico (disfarçado de pastor ) num filme de terror, com Temer interpretando um vampiro. Uma dupla infernal.
Sou um homem de fé, acredito em Deus, em Jesus Cristo, em Nossa Senhora, no Anjo da Guarda, em Oxum, Oxóssi, em Buda, frequentei por dez anos uma igreja batista no Harlem, mas também acredito na liberdade, na democracia e na igualdade de crenças em um Estado laico. Por isso, não acredito em Crivella.
Se Crivella é nosso pastor, tudo nos faltará. Ele nos dá saudades dos nossos piores prefeitos.
#Deus nos livre de Crivella.
Como credencial para salvar o Brasil, diz que o povo evangélico é organizado. “Nós pegamos a oferta do povo, levamos pro escritório, contamos tudo, e a gente constrói igrejas.”
E também constrói um projeto de poder explosivo em que religião e política se misturam.
Se o povo evangélico vai salvar o Brasil, é porque os crentes de outras religiões e os ateus o afundaram? É “povo eleito” X povo eleitor?
Pelo que se sabe, Crivella não é ladrão, mas mente como um pagão, sem escrúpulos ou medo da justiça divina ou dos homens. Evangélicos não mentem, ou será que mentem mais ou menos do que católicos, umbandistas ou ateus?
Deus pode tudo, mas não se pode tomar seu santo Nome em vão e atribuir a Ele os fracassos de seu livre-arbítrio. Foi Deus que o ajudou a escapar do impeachment ou foi a distribuição de verbas e cargos para vereadores “da base”? Deus é parceiro de tramoias?
Crivella quer transformar o povo eleito no povo eleitor, e vice-versa, e trouxe como novidade maligna o “aparelhamento religioso” da prefeitura com propostas indecentes — e ilegais — para que seus devotos furem filas, operem catarata, varizes, façam vasectomia, basta chamar a irmã Márcia.
Com suas feições que parecem moldadas em cera, sua alvura, suas orelhas pontudas e a fala macia, o bispo tem o physique du rôle de um personagem satânico (disfarçado de pastor ) num filme de terror, com Temer interpretando um vampiro. Uma dupla infernal.
Sou um homem de fé, acredito em Deus, em Jesus Cristo, em Nossa Senhora, no Anjo da Guarda, em Oxum, Oxóssi, em Buda, frequentei por dez anos uma igreja batista no Harlem, mas também acredito na liberdade, na democracia e na igualdade de crenças em um Estado laico. Por isso, não acredito em Crivella.
Se Crivella é nosso pastor, tudo nos faltará. Ele nos dá saudades dos nossos piores prefeitos.
#Deus nos livre de Crivella.
quinta-feira, 19 de julho de 2018
Brasil: ame-o ou deixe-o?
O país é um espaço privado, e é tão nosso quanto o petróleo. Ao mesmo tempo em que a ditadura estatizava empresas e cabeças, a pujante classe média, em boa parte amparada nos inesgotáveis proventos da máquina pública, privatizava-se, aproveitando-se da sobra de caixa.
Com a crise do petróleo, o estouro da bolha, a quebra do Brasil e a interminável agonia da hiperinflação, o país disfuncional voltou ao seu estado de espírito costumeiro, que é o culto da indignação. De tempos em tempos, em ondas incontroláveis, a indignação nos move furiosamente.
A indignação é o nosso paracetamol emocional-ideológico. O Brasil inteiro é um país indignado. Fora, Temer! Lamentamos o horror dos nossos políticos, insidiosamente eleitos por marcianos e venusianos desembarcados, que provavelmente se aproveitaram da nossa distração cívica para colocar esses corruptos e incompetentes no poder.
Enquanto isso, tudo anda celeremente para trás. Com saudades da caça ao boi no pasto da era Sarney, o governo que jamais terminou, queremos tabela na bomba do diesel e tantas quantas tabelas houver que paguem separadamente as nossas contas exclusivas e prioritárias.
Em outra regressão espetacular, faz sucesso o mais grotesco ideário político jamais verbalizado abertamente no país. Todos os dias, assistimos à estupidez sem programa, o estado puro da indignação irracional, também ela sob o manto escarmento da boçalidade, com o qual (dizem eles, caninos à mostra) é bom já ir se acostumando, porque o pior ainda está por vir, o que é motivo de júbilo, porrete e milícias na mão (que já estão tomando o Estado pelas beiradas).
Ao mesmo tempo, energúmenos (perdão, leitores —há palavras mais precisas para defini-los, mas hoje é domingo) de todos os matizes pedem, aos gritos: Ditadura Já!
Enquanto isso, sob as pulsões culturais do país irrevogavelmente mais miscigenado do mundo, uma cantora negra não pode representar o papel de outra cantora negra porque, por um defeito de cor, não é suficientemente negra. O que faremos com o singular, o único, o irreplicável, o sem-lugar? Não sei.
Em outra ponta da Federação Corporativa, o partido da hegemonia absoluta que haveria de nos redimir a todos está quase inteiro na cadeia (ou já passou por ela ou está a caminho), com o seu séquito gritalhão de apoiadores de alto e baixo coturnos.
Outros partidos, em ritmo bem mais lento, parecem também seguir firmes a caminho do cadafalso, sob inesperadas e assustadoras canetadas jurídicas, carnavalescas aqui, a sério ali —o que é isso, companheiro? Mas, milagre dos milagres no país dos milagres, a esperança é a última que morre: Jesus Cristo romperá as grades de cárcere e, mão abençoada estendida, fará o país inteiro sorrir de novo. Oremos!
Na irresistível teologia política brasileira, a eleição da Dilma, da escolha do nome à consagração das urnas, foi apenas a necessária provação dos justos, antes da indiscutível redenção final: um gigantesco conto do vigário, mas não podemos reclamar em altos brados.
Como se sabe, no conto do vigário clássico, a vítima sempre imagina que é ela que levará vantagem. Infelizmente, deu chabu. Mas, como a história é uma ciência, camaradas, todo desvio do caminho redentor é uma conspiração!
Brasil: ame-o ou deixe-o?
Quando, nos anos 1970, a ditadura me fez esta pergunta tácita, passei 14 meses na Europa, lúmpen ideológico, vendo o país de longe. Projeto de escritor, senti uma falta angustiante da língua brasileira e voltei; depois de um tempo, até o sotaque lusitano me irritava.
Como diz o poeta, minha pátria é minha língua e, para o bem ou para o mal, línguas jamais existem sozinhas: são o aquário onde nos movemos.
Para quem escreve, a língua é a face mais inexorável do destino, desde o nascimento. Ordem e progresso? Pátria educadora? Nós, que nos matamos tanto, inventamos o ridículo dos dísticos para nos negar.
Nem amá-lo (seria preciso mentir muito), nem deixá-lo (eu sou apenas daqui). Há espaço para um mínimo de esperança, na eleição que se aproxima? Não sei.
Cristovão Tezza
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