sexta-feira, 20 de julho de 2018

Pensamento do dia

O país das falsificações


A lembrança que o mundo levará do Brasil nesta Copa do Mundo não será a da equipe que jogou e perdeu com honra, mas a da que tentou ganhar com desonra —representada por Neymar rolando pelo gramado a cada falta real ou imaginária. Numa era mágica como a nossa, em que as câmeras podem esmiuçar cada imagem em qualquer ângulo ou velocidade, Neymar tornou-se piada mundial. E, para muitos, mais uma prova de que somos mesmo uns malandros.

Aos olhos de fora, já éramos o país que produziu Eike Batista, o sétimo homem mais rico do mundo no ranking da revista Forbes —“Crio riquezas do zero”, ele disse— e, de repente, descobriu-se que, sem monumentais manipulações e acordos com o então governo brasileiro, sua riqueza era mesmo zero. E o que dizer da Odebrecht, a empreiteira que parecia dominar o mundo, e hoje se sabe que, de mãos dadas com aquele mesmo governo, geriu o que se considera o maior caso de corrupção internacional da história?


Políticos que fizeram carreira passando-se por vestais ou por arautos de uma inédita prosperidade estão presos e condenados por corrupção. Pior ainda, sabe-se agora que seus números eram uma fraude. Milhões que acreditaram neles revoltam-se por terem sido feitos de trouxas e não querem repetir o erro —daí os altos índices de abstenção que se espera nas próximas eleições.

A economia acompanha a desmoralização política e vai para o buraco. Como investir num país em que não se sabe se o ministro com quem se conversa hoje não será apanhado e mandado para trás das grades antes de fechado o negócio? Até mesmo a Justiça está sub judice —para o povo, há juízes que, além da capa preta, deveriam usar máscara.

Diante desses casos, o grand-guignol de Neymar foi até inocente. O Brasil deveria disputar a Copa das falsificações. Um dia, teremos de pedir desculpas ao Paraguai pelo que já pensamos dele.
Ruy Castro  

'Mãe' do Brasil

A delinquência do poder é a mãe de todas as delinquências
Eduardo Galeano, "De pernas pro ar"

O túmulo dos ditadores que ninguém quer recordar

Na sexta-feira 17 de maio de 2013, um carcereiro encontrou Jorge Rafael Videla sentado na privada da cela que ocupava em Marcos Paz, uma cadeia para presos comuns, com sinais de “rigidez ocular” e sem pulso. O ditador morreu horas antes, na solidão de uma madrugada entre as grades, após uma queda que aos seus 87 anos foi fatal. Videla ficou por uma semana em uma gaveta do necrotério judicial, à espera da autópsia. Quando a Justiça por fim entregou o corpo, a família não soube o que fazer com ele. Não encontrou lugar no panteão militar em Chacarita, o maior cemitério da cidade de Buenos Aires, por medo de manifestações de repúdio. Também não foi bem-vindo em Mercedes, sua cidade natal. Videla acabou enterrado em um cemitério particular no subúrbio de Buenos Aires, sob uma placa de mármore com a inscrição “Família Olmos”, anônimo ao olhar dos curiosos.

A tradição militar diz que os oficiais de alto escalão têm um nicho reservado no panteão de Chacarita. Videla não pôde ir para lá, assim como seus dois cúmplices na Junta que em 24 de março de 1976 derrubou a viúva de Juan Domingo Perón, María Estela Isabelita Martínez. A poucos metros do ditador, no cemitério Memorial de Pilar, também com o nome mudado, está o ex-chefe da Marinha e criador da ESMA, o maior centro de torturas e prisões ilegais da ditadura, Emilio Massera, falecido em 8 de novembro de 2010 no Hospital Naval. Seu homólogo na Força Aérea, o brigadeiro Orlando Ramón Agosti, morto em outubro de 1997, ocupa outro lote no mesmo cemitério particular. A família de Videla pediu em 2015 permissão ao juiz para cremar seus restos, mas apesar de conseguir o aval nunca realizou o trâmite, como o EL PAÍS pôde confirmar com fontes da Justiça.


O túmulo de Videla em maio de 2013, dias depois de
seu sepultamento no cemitério Memorial de Pilar
Videla e Massera não tiveram o final dourado que imaginaram quando lideraram a ditadura militar mais sanguinária da América do Sul, com um saldo de 30.000 mortos e desaparecidos. O regresso à democracia os encontrou em 1984 sentados em um tribunal que os condenou por crimes de lesa humanidade. Em 1990 foram indultados pelo presidente Carlos Menem, mas voltaram à prisão quando o kirchnerismo reabriu os casos na Justiça. A morte de Videla foi paradigmática. Despejado de Chacarita, a família tentou sepultá-lo no panteão que tem em Mercedes, um povoado de antiga tradição militar onde Agosti também tem laços de sangue. As manifestações contra o enterro arruinaram os planos.

“A morte de Videla e o fato de que a família tentou levá-lo a Mercedes nos pegou de surpresa. O repúdio foi unânime e nos reunimos na porta do cemitério, em uma espécie de guarda para evitar que o enterrassem ali. A família, no final, desistiu, mas não soubemos para onde iria”, diz Ciro Lalla, historiador e membro da Comissão pela Memória do município. O repúdio a Massera, por sua vez, foi silencioso, mas suficiente para impedir os planos de sepultá-lo no panteão que o Círculo Naval tem em Chacarita. “Queriam trazê-lo para cá e até me fizeram limpar todo o lugar. Mas depois soubemos que precisaram montar vigilância, porque nessa noite pessoas estiveram rondando, ativistas dos direitos humanos. Por isso não veio, o mandaram a Pilar”, conta um antigo funcionário do panteão que prefere não dar seu nome.

Roberto Viola, sucessor de Videla após um golpe, morreu em 30 de setembro de 1994, quando ainda estavam vigentes os indultos de Menem aos chefes do regime. Viola encontrou espaço no panteão militar, um alto edifício de mármore, com capela no seu interior e três subsolos. Mais de 1.000 militares estão enterrados lá em nichos com tampas de aço inoxidável, entre fotos, placas de bronze e algumas flores perdidas. Não há rastros de Viola. Os funcionários do cemitério e do arquivo nada sabem dele. Um funcionário diz que foi cremado, mesmo que tenha algumas dúvidas. “Está no velho panteão”, diz outro empregado, mas lá também não existe nenhuma placa que diga Roberto Viola. “O problema é que são sepultados com nomes diferentes para que não sofram alguma represália”, diz o encarregado do lugar.

A chave do enigma está, por fim, com uma mulher que toma conta dos velhos documentos do cemitério e que não está autorizada a dar informações. Após abrir uma pasta, retira uma folha solta e lê com atenção. Ao lado do nome de Viola existe uma inscrição feita à mão, realizada há mais de dez anos por um pesquisador que em algum momento se preocupou em recuperar a memória do panteão militar. “Levado a Entre Ríos”, diz. A versão é verossímil. Viola se casou com uma mulher de Concordia e o filho dos dois mora lá, mas o rastro do corpo se perde nessa cidade.

“Tomaram muito cuidado para que não apareçam ligados a suas próprias forças, ninguém tem interesse em recordá-los”, diz Carlos Loza, membro da Associação de Ex-Presos Desaparecidos (AEDD) pela ditadura. Passados 40 anos, a Argentina ainda tem abertos julgamentos por crimes de lesa humanidade e passou de geração em geração o espírito de Nunca Mais que marcou o retorno da democracia. “A condenação social que existiu na sociedade argentina fez com que seja vergonhoso para as famílias dos ditadores, muitos de seus filhos chegaram a recusar a paternidade, outros mudaram seus sobrenomes”, afirma Loza.

O destino de Leopoldo Fortunato Galtieri, o sucessor de Viola, também se perdeu na memória. O general que levou a Argentina à Guerra das Malvinas em 1982 morreu em silêncio em janeiro de 2003, aos 76 anos, quando cumpria condenação por roubo de crianças nascidas durante o cativeiro de suas mães nos centros de tortura. Seu corpo foi levado ao panteão militar, como diz a tradição. Naquela época mereceu as honras de uma banda militar e até algumas palavras do comandante do Exército, Ricardo Brinzoni. O ato foi possível porque ainda não existia a lei que em 2009 proibiu qualquer tipo de despedida oficial aos repressores. Após o enterro, um desconhecido quebrou as coroas de flores e pichou o túmulo recém-inaugurado, mas isso foi tudo. Galtieri caiu rapidamente no esquecimento, tanto que hoje poucos sabem que o militar já não está em Chacarita. “Sua irmã o retirou há seis anos, para cremá-lo”, revela um funcionário do panteão.

Os chefes da ditadura argentina, amos e senhores em vida, são apenas uma má recordação na morte. Não têm monumentos e se escondem da história. Os que sofreram com o terrorismo de Estado dizem que os temores de seus herdeiros não têm fundamento, que podem ficar tranquilos. “Mesmo que se trate do corpo de um assassino, os rituais da morte não serão interrompidos por nenhuma das vítimas da ditadura. Não somos como os genocidas”, diz Loza. E lembra, ironias do destino, que foram os repressores que inventaram a figura do desaparecido, como se chamam os milhares de homens e mulheres que morreram sem túmulo.

Federico Rivas Molina/Mar Centenera

Imagem do Dia


O povo como problema

Sempre que o Foro de São Paulo se reúne, recende de seus salões o ranço característico da esquerda autoritária latino-americana. Abundam palavras de ordem contra o “imperialismo americano” e invectivas contra o “neoliberalismo”, como se a guerra fria não tivesse terminado. No encontro, todos os problemas enfrentados pelos governos e partidos esquerdistas da região costumam ser atribuídos aos Estados Unidos, a representação do mal absoluto no discurso desses liberticidas. Na edição deste ano, realizada em Havana, não foi diferente: até mesmo a prisão de Lula da Silva foi caracterizada como parte da “guerra de caráter não convencional” que, segundo o ditador da Venezuela, Nicolás Maduro, os americanos deflagraram contra os “líderes progressistas” do continente.

“Exigimos a liberdade imediata de Lula, depois de uma condenação e prisão sem provas, e o direito a ser candidato presidencial nas eleições de outubro no Brasil, respeitando a vontade da maioria do povo brasileiro. Lula livre! Lula inocente! Lula presidente!”, diz a declaração final da 24.ª reunião anual do Foro de São Paulo – que, é claro, denuncia a “ofensiva reacionária, conservadora e restauradora neoliberal” capitaneada pelos Estados Unidos.


Em seu discurso, o ditador Maduro – que liquidou a oposição em seu país, encarcerou e exilou os dissidentes e reprimiu duramente todo tipo de manifestação contra seu governo, responsável pela penúria venezuelana – caracterizou o Brasil como um regime de exceção. Maduro disse ver o “martírio de Lula com dor, mas não com resignação”, denunciando que seu companheiro petista foi “escondido numa masmorra” para “impedir sua ação política”, porque “sabem que Lula livre ganhará a eleição presidencial no Brasil”. E acrescentou: “Basta!”.

Enquanto estão preocupados com a qualidade da democracia no Brasil, onde a imprensa é livre e as instituições funcionam, o Foro de São Paulo e seus ciosos delegados de partidos de esquerda entendem que a “Nicarágua sandinista”, por exemplo, é uma democracia plena – embora seu ditador, Daniel Ortega, tenha manobrado para se perpetuar no poder e mandado reprimir duramente manifestações contra seu governo, resultando, até agora, em mais de 350 mortos. Segundo o Foro, a Nicarágua de Ortega está sendo vítima da “política intervencionista” dos Estados Unidos, e os manifestantes estariam a serviço de “golpistas” teleguiados pelos americanos.

É evidente que, no léxico do Foro de São Paulo, a palavra “democracia” perde seu sentido estrito, servindo para designar unicamente regimes e partidos autoritários da América Latina que se pretendem legítimos porque julgam expressar a vontade do “povo”. Se o povo não concorda com a interpretação desses seus alegados porta-vozes, pior para o povo. Que o digam os presos políticos de Cuba, governada pela mais longeva ditadura do mundo, anfitriã do encontro “democrático” e “progressista” do Foro de São Paulo.

É em nome desse “povo” que o “campo progressista” latino-americano insiste na libertação de Lula, como se o suposto desejo popular expresso em pesquisas de intenção de voto para presidente fosse mais que suficiente para anular o julgamento que condenou o chefão petista à cadeia. Pouco importam os fatos, as provas e as sentenças de diversos juízes.

No delírio lulopetista, o sistema judicial brasileiro está tão eivado de golpistas que, segundo disse o ex-ministro Gilberto Carvalho a um site do MST, “só há uma forma de tirar Lula da cadeia”: um “levante popular, uma mobilização muito forte, uma radicalização do processo, seja de que forma for, que faça com que eles sintam que está ameaçada a estabilidade do País, e aí, por uma razão de força maior, libertem o Lula”.

O próprio Carvalho, contudo, reconhece que não será tarefa fácil, pois nem sempre o povo está suficientemente esclarecido para defender o PT. Ao comentar a dificuldade de mobilização, o amigão de Lula lamentou: “O povo faltou. O povo faltou no impeachment, o povo faltou na prisão de Lula”. Eis aí, para os espíritos autoritários, o “problema” das verdadeiras democracias: o povo, quando é livre, tem vontade própria.

Contribuinte paga até pão de queijo para deputado federal

Com salários de R$33.723 e mais R$106.866 para contratar aspones, cada deputado federal ainda pode solicitar reembolso de despesas de R$45 mil mensais, em média, para promoção pessoal e para pagar até pão de queijo. E não é força de expressão: Afonso Motta (PDT-RS) apresentou nota fiscal de R$1 na compra de um pão de queijo, despesa certamente relevante no exercício da atividade parlamentar. A informação é da Coluna Cláudio Humberto, do Diário do Poder.

O campeão de gastos neste momento, no ano, é o deputado Hélio Leite (DEM-PA): pediu ressarcimentos que totalizam R$287 mil.

Jarbas Vasconcelos (MDB-PE) comeu no restaurante do Senac e pediu ressarcimento de R$3,27, equivalentes a 0,009% do seu salário.

Jhonatan de Jesus (PRB-RR) foi o que mais gastou este ano com promoção pessoal ou “divulgação da atividade”: R$192 mil.

Afonso Motta, que não deixa passar nem pão de queijo, foi ressarcido em R$1,6 milhão desde a posse, além de R$1,55 milhão em salários.

Meu Deus!

O prefeito Crivella agradece a Deus por “ter nos colocado na prefeitura” e por poder dar vantagens e prioridades ao povo evangélico, que, segundo ele, vai salvar o Brasil, porque “evangélico não rouba”. Como o irmão Eduardo Cunha, né? Aleluia!

Como credencial para salvar o Brasil, diz que o povo evangélico é organizado. “Nós pegamos a oferta do povo, levamos pro escritório, contamos tudo, e a gente constrói igrejas.”

E também constrói um projeto de poder explosivo em que religião e política se misturam.

Se o povo evangélico vai salvar o Brasil, é porque os crentes de outras religiões e os ateus o afundaram? É “povo eleito” X povo eleitor?

Pelo que se sabe, Crivella não é ladrão, mas mente como um pagão, sem escrúpulos ou medo da justiça divina ou dos homens. Evangélicos não mentem, ou será que mentem mais ou menos do que católicos, umbandistas ou ateus?

Deus pode tudo, mas não se pode tomar seu santo Nome em vão e atribuir a Ele os fracassos de seu livre-arbítrio. Foi Deus que o ajudou a escapar do impeachment ou foi a distribuição de verbas e cargos para vereadores “da base”? Deus é parceiro de tramoias?

Crivella quer transformar o povo eleito no povo eleitor, e vice-versa, e trouxe como novidade maligna o “aparelhamento religioso” da prefeitura com propostas indecentes — e ilegais — para que seus devotos furem filas, operem catarata, varizes, façam vasectomia, basta chamar a irmã Márcia.

Com suas feições que parecem moldadas em cera, sua alvura, suas orelhas pontudas e a fala macia, o bispo tem o physique du rôle de um personagem satânico (disfarçado de pastor ) num filme de terror, com Temer interpretando um vampiro. Uma dupla infernal.

Sou um homem de fé, acredito em Deus, em Jesus Cristo, em Nossa Senhora, no Anjo da Guarda, em Oxum, Oxóssi, em Buda, frequentei por dez anos uma igreja batista no Harlem, mas também acredito na liberdade, na democracia e na igualdade de crenças em um Estado laico. Por isso, não acredito em Crivella.

Se Crivella é nosso pastor, tudo nos faltará. Ele nos dá saudades dos nossos piores prefeitos.

#Deus nos livre de Crivella.

quinta-feira, 19 de julho de 2018

Brasil vitaminado


Brasil: ame-o ou deixe-o?

Nos anos 1970, em plena ditadura, o adesivo com o slogan "Brasil - ame-o ou deixe-o" era popular. Durante o curto período em que a economia brasileira crescia em índices chineses, com falta de liberdade, censura prévia, corrupção discretamente à solta e pau batendo nos inimigos do rei fardado, a boçalidade triunfante encontrava o seu mantra: os incomodados que se retirem.

O país é um espaço privado, e é tão nosso quanto o petróleo. Ao mesmo tempo em que a ditadura estatizava empresas e cabeças, a pujante classe média, em boa parte amparada nos inesgotáveis proventos da máquina pública, privatizava-se, aproveitando-se da sobra de caixa.


Com a crise do petróleo, o estouro da bolha, a quebra do Brasil e a interminável agonia da hiperinflação, o país disfuncional voltou ao seu estado de espírito costumeiro, que é o culto da indignação. De tempos em tempos, em ondas incontroláveis, a indignação nos move furiosamente.

A indignação é o nosso paracetamol emocional-ideológico. O Brasil inteiro é um país indignado. Fora, Temer! Lamentamos o horror dos nossos políticos, insidiosamente eleitos por marcianos e venusianos desembarcados, que provavelmente se aproveitaram da nossa distração cívica para colocar esses corruptos e incompetentes no poder.

Enquanto isso, tudo anda celeremente para trás. Com saudades da caça ao boi no pasto da era Sarney, o governo que jamais terminou, queremos tabela na bomba do diesel e tantas quantas tabelas houver que paguem separadamente as nossas contas exclusivas e prioritárias.

Em outra regressão espetacular, faz sucesso o mais grotesco ideário político jamais verbalizado abertamente no país. Todos os dias, assistimos à estupidez sem programa, o estado puro da indignação irracional, também ela sob o manto escarmento da boçalidade, com o qual (dizem eles, caninos à mostra) é bom já ir se acostumando, porque o pior ainda está por vir, o que é motivo de júbilo, porrete e milícias na mão (que já estão tomando o Estado pelas beiradas).

Ao mesmo tempo, energúmenos (perdão, leitores —há palavras mais precisas para defini-los, mas hoje é domingo) de todos os matizes pedem, aos gritos: Ditadura Já!

Enquanto isso, sob as pulsões culturais do país irrevogavelmente mais miscigenado do mundo, uma cantora negra não pode representar o papel de outra cantora negra porque, por um defeito de cor, não é suficientemente negra. O que faremos com o singular, o único, o irreplicável, o sem-lugar? Não sei.

Em outra ponta da Federação Corporativa, o partido da hegemonia absoluta que haveria de nos redimir a todos está quase inteiro na cadeia (ou já passou por ela ou está a caminho), com o seu séquito gritalhão de apoiadores de alto e baixo coturnos.

Outros partidos, em ritmo bem mais lento, parecem também seguir firmes a caminho do cadafalso, sob inesperadas e assustadoras canetadas jurídicas, carnavalescas aqui, a sério ali —o que é isso, companheiro? Mas, milagre dos milagres no país dos milagres, a esperança é a última que morre: Jesus Cristo romperá as grades de cárcere e, mão abençoada estendida, fará o país inteiro sorrir de novo. Oremos!

Na irresistível teologia política brasileira, a eleição da Dilma, da escolha do nome à consagração das urnas, foi apenas a necessária provação dos justos, antes da indiscutível redenção final: um gigantesco conto do vigário, mas não podemos reclamar em altos brados.

Como se sabe, no conto do vigário clássico, a vítima sempre imagina que é ela que levará vantagem. Infelizmente, deu chabu. Mas, como a história é uma ciência, camaradas, todo desvio do caminho redentor é uma conspiração!

Brasil: ame-o ou deixe-o?

Quando, nos anos 1970, a ditadura me fez esta pergunta tácita, passei 14 meses na Europa, lúmpen ideológico, vendo o país de longe. Projeto de escritor, senti uma falta angustiante da língua brasileira e voltei; depois de um tempo, até o sotaque lusitano me irritava.

Como diz o poeta, minha pátria é minha língua e, para o bem ou para o mal, línguas jamais existem sozinhas: são o aquário onde nos movemos.

Para quem escreve, a língua é a face mais inexorável do destino, desde o nascimento. Ordem e progresso? Pátria educadora? Nós, que nos matamos tanto, inventamos o ridículo dos dísticos para nos negar.

Nem amá-lo (seria preciso mentir muito), nem deixá-lo (eu sou apenas daqui). Há espaço para um mínimo de esperança, na eleição que se aproxima? Não sei.
Cristovão Tezza

Rebeldes conscientes

Enquanto eles não se conscientizarem, não serão rebeldes autênticos e, enquanto não se rebelarem, não têm como se conscientizarGeorge Orwell, "1984" 

Sujos e mal lavados do Centrão montam o palco

Os partidos do centrão assumiram o comando das arrumações nos bastidores da sucessão de 2018. A cortina ainda está fechada. Mas já se ouve da plateia o ruído abafado da montagem do palco. Nesta quinta-feira, sujos e mal lavados da política se reúnem na casa funcional do presidente da Câmara, Rodrigo Maia, para refinar o processo de escolha de um protagonista para sua trama. Disputam o tempo de TV e o amor do centrão Ciro Gomes e Geraldo Alckmin. Ex-presidiário do mensalão, Valdemar Costa Neto, que no espetáculo faz o papel de dono do Partido da República, assumiu as vezes de cupido.

Deve-se a Valdemar a perspectiva de reunificação do centrão. O personagem desgarrara-se do grupo para negociar uma aliança com Jair Bolsonaro. Fracassada a tentativa, comunicou aos velhos parceiros que está de volta. Como já foi alvejado pela língua de Ciro, Valdemar tem uma leve queda por Alckmin. Mas informou aos congêneres que topa qualquer negócio, desde que o empresário Josué Gomes da Silva, filiado ao PR, seja acomodado na posição de candidato a vice-presidente. Conforme já noticiado aqui, Josué já havia se colocado à disposição do grupo.


Participam dos entendimentos, além de Rodrigo Maia e do notório Valdemar, o senador Ciro Nogueira (PP), réu na Lava Jato, Paulinho da Força (SD), alvo de inquérito criminal no Supremo, Marcos Pereira (PRB), também pendurado na Lava Jato e ACM Neto (DEM). Consolidou-se entre eles o desejo de que seus respectivos partidos negociem os dotes eletrônicos de maneira unificada.

Fala-se muito em coalizão partidária e programa de governo. Mas a ausência de ideias denuncia, por assim dizer, o embuste. Ganha trinta segundos no horário eleitoral quem for capaz de explicar o que une o centrão além do propósito de invadir cofres públicos. Se alguém não estiver ligando o nome à pessoa, basta recordar que o grosso do atual centrão fez as vezes de milícia parlamentar de Eduardo Cunha, esticando-lhe o mandato e acompanhando-o até a porta da cadeia.

Com poucas variações, esse mesmo condomínio parlamentar dá as cartas há muito mais tempo do que o Tesouro Nacional poderia suportar. Sob FHC, a convivência com a intelectualidade tucana proporcionou ao centrão um excelente merchandising. Sob Lula, o Planalto de fachada operária resultou em ótimos negócios. Sob Dilma, o centrão desistiu de terceirizar o poder ao petismo. Substituiu a preposta de Lula, sem talento para a administração do balcão, por Michel Temer, especialista na matéria.

Nem as almas mais ingênuas acreditariam que partidos identificados com o suborno, o acorbertamento, o compadrio, o patrimonialismo e o fisiologismo percorrem os bastidores das negociações presidenciais com a disposição de passar os próximos anos dedicando-se a outra atividade que não seja a perpetuação dos vícios. Pode demorar mais alguns dias para acomodar todos em suas marcas e decidir quem, afinal, vai levar o tempo de TV do bloco.

Quando a cortina finalmente for aberta, a primeira cena deve ser divertida. Alguém deve achegar-se à boca do palco para anunciar: “Nós apoiaremos…” Ao fundo, os dois candidatos ajustarão a peruca e escolherão o nariz que utilizarão na campanha.

Admirável mundo novo

É uma pena, e ao mesmo tempo um péssimo sinal, o fato de temas de política externa terem tão pouca importância no debate político eleitoral no Brasil, país ao mesmo tempo abençoado e amaldiçoado pela enorme distância que mantém de qualquer conflito internacional relevante. Abençoado, pois ninguém aqui vai dormir hoje preocupado em saber se um ente querido vai matar ou morrer num conflito armado (não estou considerando a guerra interna brasileira como conflito armado clássico). Amaldiçoado, pois a imensa maioria da população – e os políticos em geral – não tem a menor percepção da natureza, abrangência e alcance de grandes contenciosos lá fora.

E olhem que Donald Trump, involuntariamente, nos deu uma espetacular demonstração da rapidez da destruição que está alcançando o sistema de relações entre as potências existente desde o fim da 2.ª Guerra Mundial. Ao lado do tirano russo Vladimir Putin, de quem foi livrar a cara num encontro em Helsinque, Trump encerrou uma extraordinária semana de massacre do que tinham sido até aqui alguns princípios norteadores da potência que foi decisiva para dar forma e garantir esse sistema do pós-guerra, os Estados Unidos.

O mundo no qual o Brasil terá de se virar agora é um lugar no qual o presidente americano xinga aliados e elogia adversários tradicionais; abomina instituições multilaterais (da OMC à ONU) e a coordenação de ações entre países; encara o comércio internacional como um jogo de soma zero, no qual se alguém ganha é às custas de outro; reflui para o pensamento de divisão do mundo em esferas de influência nas quais “homens fortes” podem agir a gosto; mantém que a aplicação de princípios ou valores é coisa de trouxa e só distrai de resultados práticos.

Não estou aqui (desculpem o cinismo) fazendo um julgamento moral sobre se esse admirável mundo novo é pior ou melhor do que o velho. Cumpre apenas registrar que boa parte do que foram apostas de política externa e inserção internacional do Brasil (supondo que as havia de maneira mais ou menos doutrinária) simplesmente caiu por terra. O que um novo governo aqui possa ter como norte precisará levar em conta um mundo muito mais perigoso e multipolar no “mau” sentido da palavra, isto é, não pela convivência mais ou menos harmônica de vários polos de poder, mas, sim, pela destruição de regras que até agora tiveram notável importância.

Duas delas estão sob ataque há algum tempo, não importa Trump. Democracias liberais e seus sistemas representativos passam por notável crise, em parte até acelerada pela revolução digital. Sob ataque está a ordem internacional do “livre” comércio – que inclui o livre movimento também de capitais e pessoas. A instabilidade parece ser o componente essencial de uma nova situação na qual não está claro como será a acomodação (pacífica ou nem um pouco pacífica) do surgimento de uma nova superpotência, a China.

É bastante óbvio que esse tipo de desafio se torna ainda mais difícil para um país como o Brasil, amarrado ao chão não por grilhões impostos por potências estrangeiras (como afirmam populistas imbecis, particularmente os de coloração petista, mas não só). Somos pequenos no mundo e diminuímos em termos relativos nas últimas décadas por conta de produtividade estagnada, economia pouco competitiva e paralisia política geral para resolver problemas (como a crise fiscal) que demandam urgentemente o recurso do qual mais precisamos, e não encontramos: lideranças políticas com visão.

No nosso próprio clima de “vamos ver o circo pegar fogo”, tem bastante gente aplaudindo Trump. É bom não esquecer que somos parte do circo.

Paisagem brasileira

Largo do Boticário (Rio de Janeiro), George Wambach

O medo do passado

O mercado está inquieto. Assustado. Com enorme dificuldade de fazer previsões, as empresas gestoras de investimentos privados recomendam aos seus clientes cautela, paciência e atenção, muita atenção. A incerteza com o cenário eleitoral extrapola a questão política e estabelece marcos na economia. Se muitos partidos não sabem ainda como ou com quem irão na eleição presidencial, sabem menos ainda as empresas cuja tarefa é fazer projeções que ultrapassem o calendário eleitoral.

São muitas as incógnitas que impedem qualquer tipo de antecipação de tendência econômica para os meses subsequentes à posse do futuro presidente. A primeira e mais visível delas é Lula. Embora ele esteja legalmente impedido de registrar candidatura e concorrer a qualquer cargo eletivo, em razão da Lei da Ficha Limpa, neste país nunca se sabe o que pode ocorrer. Sobretudo porque quem dará a última palavra é a Justiça. No Judiciário brasileiro, parece que nunca há uma última palavra.

Pois se Lula for candidato, e se for eleito, que governo fará? Se depender das palavras do próprio, o pau vai comer. Além dos ataques seguidos à imprensa e suas promessas de criar um mecanismo de controle externo (leia-se censura) da mídia, ele já disse que voltará desencarnado do Lulinha Paz e Amor e com um programa ao avesso da famosa Carta aos Brasileiros com que se elegeu em 2002. Com o PT, embora o presidente do partido diga outra coisa, a economia corre seriíssimo risco de sofrer seguidas intervenções do Estado.

O que pode se esperar de Ciro presidente? Bomba! Se levarmos em conta apenas o que diz o candidato, teremos um país sob permanente tensão. Ciro já avisou que vai revogar o leilão de partilha do pré-sal e reestatizar empresas que julgar “imprescindíveis”. Também intervirá no Banco Central, pois anunciou que a taxa de juros praticada no Brasil impede o seu crescimento. Vai aumentar os impostos de lucros e dividendos e criar um teto para o pagamento das dívidas da União. Ciro também atacou a reforma da Previdência e prometeu rever a trabalhista. Na terça disse que vai vetar o acordo Embraer/Boeing. Um deus nos acuda.

Bolsonaro, que operaria uma catástrofe nas questões sociais e de comportamento, tampouco seria grandes coisas nos demais setores. Ele já disse que é contra a reforma da Previdência e avisou que prefere acordos bilaterais a acertos múltiplos, como o Mercosul. Disse que vai colocar um general no Ministério da Educação para dar às escolas do país o perfil dos colégios militares. Apesar disso, agrada ao mercado ao prometer manter o tripé macroeconômico com taxas de câmbio flutuantes e metas fiscais e de inflação. Mas Bolsonaro tem um grave problema de credibilidade.

Marina defende rever algumas privatizações dos governos Temer e Dilma, mas de um modo geral sua plataforma para a economia agrada ao mercado. Suas vulnerabilidades, do ponto de vista do capital e de quem protege o capital alheio, são os prováveis entraves que uma política ambiental poderia impor aos negócios e a sua aparente falta de vontade para tomar decisões duras. Geraldo Alckmin é o mais querido no ambiente empresarial, mas até agora não deu sinais de que vai muito longe.

O fato é que, num cenário confuso e incerto, o melhor é não fazer apostas de longo prazo. Os analistas acreditam que, qualquer que seja o resultado em outubro, a inflação vai ter crescimento acelerado em 2019. Ninguém espera hiperinflação, mas todos projetam aumento para lá da meta já para este ano. Por isso, investimento com renda pré-fixada é fria, avisam os corretores. A ideia é evitar que o cliente faça uma aplicação a um valor imaginado para a inflação, e ela venha maior e o dinheiro aplicado acabe menor ao final do período.

“Em síntese, uma situação doméstica de inflação em elevação, desemprego alto, crescimento baixo, crise fiscal e eleição incerta, aliada a uma conjuntura externa adversa aos países emergentes, nos dá a convicção de que estamos diante de um cenário extremamente desafiador para o Brasil. A cautela e a prudência, como em 1989, serão imperativas”, diz um grande consultor de investimentos em carta distribuída entre seus clientes.

O gestor cita o ano de 1989 em razão da primeira eleição presidencial direta depois do fim da ditadura, e que lembra a de hoje pela multiplicidade de candidatos e de ideias. Naquele ano, ganhou Collor, que confiscou a poupança e outros investimentos e congelou contas bancárias. O paper foi batizado “Os fantasmas do passado voltam a assombrar”. Ninguém, em sã consciência, pode imaginar que um novo presidente seja louco e corajoso o suficiente para confiscar outra vez a poupança. Mas, quem tem passado, tem medo.
Ascânio Seleme

Mais que números


Em política o que conta é o caráter - não os caracteres
João Miguel Tavares

Os filhos do lixo

Há quem diga que dou esperança; há quem proteste que sou pessimista. Eu digo que os maiores otimistas são aqueles que, apesar do que vivem ou observam, continuam apostando na vida, trabalhando, cultivando afetos e tendo projetos. Às vezes, porém, escrevo com dor. Como hoje. Acabo de assistir a uma reportagem sobre crianças do Brasil que vivem do lixo. Digamos que são o lixo deste país, e nós permitimos ou criamos isso. Eu mesma já vi com estes olhos gente morando junto de lixões, e crianças disputando com urubus pedaços de comida estragada para matar a fome. 

A reportagem era uma história de terror – mas verdadeira, nossa, deste país. Uma jovem de menos de 20 anos trazia numa carretinha feita de madeiras velhas seus três filhos, de 4, 2 e 1 ano. Chegavam ao lixão, e a maiorzinha, já treinada, saía a catar coisas úteis, sobretudo comida. Logo estavam os três comendo, e a mãe, indagada, explicou com simplicidade: "A gente tem de sobreviver, né?". Não sei como é possível alguém dizer que este país vai bem enquanto esses fatos, e outros semelhantes, acontecem. Pois, sendo na nossa pátria, não importa em que recanto for, tudo nos diz respeito, como nos dizem respeito a malandragem e a roubalheira, a mentira e a impunidade e o falso ufanismo. 

Ouvimos a toda hora que nunca o país esteve tão bem. Até que em algumas coisas, talvez muitas, melhoramos. Mas quem somos, afinal? Que país somos, que gente nos tornamos, se vemos tudo isso e continuamos comendo, bebendo, trabalhando e estudando como se nem fosse conosco? Deve ser o nosso jeito de sobreviver – não comendo lixo concreto, mas engolindo esse lixo moral e fingindo que está tudo bem. Pois, se nos convencermos de que isso acontece no nosso meio, no nosso país, talvez na nossa cidade, e nos sentirmos parte disso, responsáveis por isso, o que se poderia fazer?
Lya Luft 

quarta-feira, 18 de julho de 2018

'Aqui no Brasil não tenho futuro'

Uma coisa é uma pesquisa fria revelar que 63% dos jovens brasileiros desejam buscar uma vida melhor fora do país, e outra é ficar cara a cara, como me aconteceu outro dia, com um desses jovens, em carne e osso, um técnico de eletrônica que te olhando com uns olhos visivelmente tristes, confidencia: “Estou pensando em ir embora. Eu estou procurando de Portugal até a Austrália por um lugar onde eu possa desenvolver minha profissão. Aqui, no Brasil, não tenho futuro.” E acrescentou: “Quero viver em um país sério.” Senti pena e raiva ao mesmo tempo.

O Brasil vive, de fato, um grande vazio de liderança política. Deixou de ser não só o país do futuro, como se bradou um dia, mas até mesmo do presente, onde os jovens sentem que muitos dos que os governam pensam mais em como manter seus privilégios e perpetuar-se no poder do que ouvir o que esta sociedade pede e o que rejeita. Talvez fosse isso o que o jovem entendia por um país que não é sério.

Neste momento, por exemplo, nenhum dos candidatos às próximas eleições presidenciais parece ter um projeto de país com maiúscula capaz de oferecer esperança a uma sociedade mais madura do que pensam os políticos. Talvez não seja por acaso e tenha tido matizes políticos o fato de que, com um dos melhores times da Copa do Mundo, o Brasil tenha perdido o hexacampeonato que tantos lhe preconizavam. Os possíveis candidatos à presidência do Brasil – um país grande como um continente, onde muitos estados agonizam mergulhados em dívidas e castigados pela violência – não parecem oferecer uma renovação profunda.

Desgastados como estão pela pequena política de curral, vendem-nos o triste espetáculo do vazio de projetos. Parecem estar pensando mais em como ganhar segundos de propaganda eleitoral, como conseguir o apoio dos partidos que se vendem à melhor oferta, sem importar se são ou não afinados com sua ideologia. Tudo parece valer para conseguir votos em uma feira onde se põe à venda até a própria identidade.

Nos muitos partidos brasileiros, quem continua dando as cartas são os de sempre, mesmo os envolvidos em escândalos de corrupção, impedindo a passagem de novos líderes jovens. E, no entanto, o Brasil é um país que precisaria de uma renovação profunda capaz de saber usar a força de sua sociedade rica em recursos naturais, com mil experiências de vanguarda que se perdem no vazio da falta de projetos em nível nacional onde canalizá-las. Para esse Brasil que quer mais, os políticos continuam oferecendo o prato de comida rançosa de sempre. E isso em um mundo que se espelha na pós-modernidade, aquela que não assusta os jovens. Querem-na e procuram-na lá fora. E irão embora se não se sentirem realizados aqui.

Estará algum candidato de fato pensando em preparar um futuro de segurança e modernidade, sem ideologias ultrapassadas, para os milhões de jovens que lutaram para chegar à universidade e agora sonham em vencer? Pelo contrário, parece que os candidatos a governar o país se esforçam para se maquiar e se disfarçar para conseguir votos de qualquer jeito. Até o ultradireitista Bolsonaro que sempre demonstrou desprezo pelas minorias hoje diz que temos de aceitar “como irmãos” os afrodescendentes, de quem disse um dia que “não serviam para procriar”.

Vemos até candidatos progressistas dispostos a se prostituírem para aumentar o consenso fazendo pactos obscuros com partidos corruptos e conservadores, indicando que vale tudo para ganhar as eleições. O que menos parece importar aos políticos que pretendem tomar as rédeas do país em suas mãos é o Brasil como um projeto. Um projeto que não só o pacifique, mas que também abra novos caminhos.

As eleições de outubro serão um teste para ver se podemos começar a esperar algo diferente de toda essa pobreza política que está aí e que logo começará a ser gritada em uma propaganda ruidosa e vazia. Será a sociedade, com seu voto, capaz de ganhar uma copa melhor do que a que perdeu na Rússia? Será capaz de oferecer um país sério, aquele que o jovem técnico está disposto a ir buscar lá fora porque não o encontra aqui? Ele mesmo disse: “Se pudesse, preferiria morar aqui, onde nasci e onde tenho minha família e meus amigos”. Esse “se pudesse”, deveria envergonhar aqueles que têm o poder e o dever de criar condições para que esses jovens não tenham de fugir abandonando suas raízes.

Para as devotas, ladroagem é crime político

Uma consulta a qualquer dicionário informa que presos políticos são indivíduos encarcerados por expressarem, por palavras ou atos, sua discordância com o governante, ou os governantes, de um país sob regime autoritário. Essa espécie de prisioneiro não existe em nações democráticas. O Brasil não tem nenhum. Preso político é coisa de ditadura. Em Cuba, passam de 140.

Simples assim, certo? Errado, ao menos para cérebros em desordem. Despachadas para Havana, onde circulam no momento com o crachá de representantes do PT no encontro do Foro de São Paulo, Gleisi Hoffmann e Dilma Rousseff continuam vendo o mundo pelo avesso. Para pessoas normais, Lula é um caso de polícia como tantos outros. Para as devotas do ex-presidente presidiário, está engaiolado em Curitiba um preso político.


Ao contrário dos oposicionistas cubanos encarcerados por crimes de pensamento, Lula foi instalado numa cela não por chefiar um grupo de ativistas dissidentes, mas uma quadrilha — e uma quadrilha que merece um gordo verbete no Guiness: desde o Dia da Criação, nenhum esquema corrupto engoliu tanto dinheiro. A condenação a 12 anos e 1 mês de cadeia (por enquanto) foi determinada não por alguma Lei de Segurança Nacional, mas pelo Código Penal.

Afinadas com os demais dinossauros reunidos na ilha-presídio, Dilma e Gleisi negam a existência de presos políticos em Cuba. Todos aprenderam com Fidel Castro que o que há são espiões a serviço de potências estrangeiras, agentes da CIA, lacaios do imperialismo americano, gente decidida a fazer o diabo para liquidar o paraíso socialista banhado pelo Caribe.

Além de ordenar a imediata soltura do amigo brasileiro, Raul Castro exigiu num manifesto a presença de Lula nas eleições diretas para presidente. Admita-se: aos 87 anos, o ditador de pijama é um homem de boa memória. Ele ainda lembra o que é eleição direta — coisa que ocorreu em Cuba pela última vez há quase 70 anos.

Quem era criança quando ocorreu a revolução comunista não sabe a diferença entre uma urna e uma escrivaninha.

Escolha cuidadosamente. E daí?

Vamos fazer de conta que todos os que se dizem candidatos vão mesmo ser candidatos (não vão – mas no Brasil acontecem tantas coisas estranhas que, de repente, pode até ser que os candidatos estejam falando a verdade).

O líder das pesquisas, Jair Bolsonaro, lembra com saudades o regime militar, em que a presença do Estado na economia foi gigantesca. Já se manifestou em favor de mais Estado na economia. Mas seu principal guru econômico é Paulo Guedes, seguidor da Escola de Chicago, que defende menos Estado na economia e mais iniciativa privada.

Alckmin é do mesmo PSDB de Fernando Henrique, que privatizou a Vale, os telefones, muitas rodovias. Mas foi Alckmin que vestiu a jaqueta ridícula cheia de nomes de empresas estatais, num debate com Lula, para provar que era contra privatizá-las. O PSB inclui, em seu nome, a ideia socialista. Mas pode acabar apoiando Alckmin, que nada tem de socialista. Ou Ciro, que se diz de esquerda, mas foi quem implantou o Plano Real.

Lula não pode ser candidato, por causa da Lei da Ficha Limpa. Mas quer ser o candidato preferencial da esquerda. Em seu Governo, empreiteiras e banqueiros jamais ganharam tanto, nem foram tão agradecidos.

O caro leitor escolhe com carinho o candidato que exprime suas ideias. Mas pode estar votando contra o que pensa. Como se defender desse risco?

Difícil: tendo sorte, talvez. Chamar os universitários não adianta.