segunda-feira, 4 de junho de 2018

Paisagem brasileira


Dias de caos

Democracia constitui o mais audacioso e nobre estado de liberdade para a governança de um povo. Acostumadas as criaturas aos regimes arbitrários e violentos, acreditam que o direito da força é capaz de substituir a força do direito, e normalmente derrapam no cerceamento das liberdades de pensar, de agir, de contribuir em favor da coletividade.

De igual maneira os regimes totalitários utilizam-se da fragilidade e ignorância do povo para instalar-se, mediante promessas de suborno das consciências e de falsa igualdade de direitos, estimulando as classes menos favorecidas para a fidelidade, oferecendo-lhes migalhas, enquanto se locupletam no abuso do poder e da indignidade, mantendo a miséria moral, social e econômica.


A comodidade, fruto inevitável do desconhecimento dos direitos à cidadania, acredita-se feliz com os parcos recursos que lhe são fornecidos pelo Estado delinquente, e homenageia os seus ditadores como sendo salvadores dos seus problemas.

É muito mais fácil oferecer-se pão e circo às massas do que dignidade aos indivíduos.

A situação lamentável em que se encontra a sociedade brasileira neste momento, resulta, sem dúvida, da negligência dos governantes anteriores que estabeleceram leis injustas e inadequadas para manter-se no poder, pensando somente nos seus e nos interesses dos partidos aos quais pertencem.

Esses administradores infiéis contam com o apoio dos enganados que se fanatizam e somente pensam nas miseráveis compensações que recebem, levando a nação ao caos da desordem e do sofrimento. Nesse clima de instabilidade e desconforto encontram-se os vírus das desoladoras revoluções e desastrosas soluções para pior.

Este é um momento muito grave, talvez dos mais difíceis para a nacionalidade brasileira.

Não é momento para humor, mas para a busca de soluções legais, a fim de que se voltem a instalar a serenidade e o respeito aos códigos que vigem em toda sociedade democrática.

Quando, porém, o desprezo pelas leis e a corrupção se instalam nas altas cortes da administração, que deveriam pautar a sua conduta pelos estatutos da dignidade, o problema faz-se mais grave, exigindo que o povo venha às ruas impor o cumprimento dos deveres por aqueles que devem zelar pela honradez da sociedade.

Não foram outros os motivos que derrubaram a Bastilha em 14 de julho de 1789 e deram início à Revolução Francesa, que também derrapou nos tremendos crimes do denominado período do terror.

O Brasil, que possui tradições cristãs arraigadas e que sempre se caracterizou pelos valores da paz, deve repetir neste momento o gesto corajoso de enfrentar os dislates da corrupção e exigir imediata reforma nacional para restabelecer a paz e o progresso.

Divaldo Pereira Franco.(A Tarde)

Ora, o povo

O povo é um poço de contradições. Pelo Datafolha, 87% dos brasileiros apoiam a paralisação dos caminhoneiros e 87% não admitem nem aumento de impostos nem corte de gastos para bancar a conta das reivindicações. Não é só. Pesquisa de 2017 mostrou que a maioria dos eleitores dizia buscar um candidato a presidente sem envolvimento com corrupção (87%) e que tenha experiência administrativa (79%), mas os dois nomes que aparecem à frente nas sondagens são os de um condenado por corrupção e de um ex-militar que nunca teve cargo no Executivo.

É verdade que momentos de crise tendem a exacerbar os sentimentos contraditórios da população, mas períodos de calmaria política não bastam para tornar sábio o eleitorado.


A literatura sociológica revela que a situação da economia é o fator que mais influi no resultado de pleitos majoritários, mas outras variáveis, incluindo algumas espúrias, como promessas populistas, podem às vezes mostrar-se decisivas.

Até o imponderável tem seu papel. Meu exemplo favorito é o dos ataques de tubarões em Nova Jersey, que provocaram um mau humor que quase custou a Woodrow Wilson sua reeleição presidencial em 1916.

Por que, então, diante de um comportamento coletivo tão incoerente e caprichoso, ainda insistimos em escolher nossos dirigentes pelo voto? Não estou aqui colocando a democracia em questão. Não há muita dúvida de que ela é o melhor sistema à nossa disposição. Virtualmente todas as nações ricas e desenvolvidas do planeta são democráticas.

A explicação é que a democracia funciona, não por causa de uma mítica sabedoria do povo que se materializa no voto, mas por características mais sutis e menos alardeadas, como favorecer liberdades individuais, a alternância no poder e, principalmente, por promover a estabilidade, exigindo sempre respeito a regras pré-definidas.

Isso torna ainda mais estúpidos os apelos por intervenções extraconstitucionais.

Mais uma vitória do atraso

O Brasil sofreu uma baixa muito importante na guerra que as forças do atraso travam contra o País. A demissão de Pedro Parente da presidência da Petrobrás, nas circunstâncias em que se deu, não é apenas a perda de um valoroso colaborador do governo, mas principalmente representa o triunfo dos que parasitam o Estado e sabotam todos os esforços daqueles que trabalham duro para impor alguma racionalidade à administração dos escassos recursos públicos. Fossem as coisas diferentes, o governo não aceitaria a saída de Parente, cuja retidão moral e capacidade profissional não serão encontradas em quase nenhuma sala do entorno da Presidência da República.

Parente foi responsável pela notável recuperação da Petrobrás, que havia sido destroçada pelos governos lulopetistas. Naquela trevosa época, recorde-se, a estatal foi entregue à mais desbragada rapinagem do PT e de seus cúmplices, resultando no famigerado petrolão. Mas engana-se quem pensa que esse foi o pior legado da dupla Lula da Silva-Dilma Rousseff no que diz respeito à administração da Petrobrás.


A estatal transformou-se na petrolífera mais endividada do mundo, à beira do colapso, quando passou a funcionar como máquina de dinheiro para financiar o populismo do PT, que se manifestou tanto na forma de subsídio para os combustíveis como na participação da Petrobrás em empreendimentos controvertidos e mal planejados. O pressuposto era que o papel da Petrobrás – “estratégico”, como não se cansam de dizer os empulhadores – era servir como motor do desenvolvimento nacional. O tal desenvolvimento não veio – em lugar disso, o que essa política doidivanas gerou foi a ruína da maior empresa do País.

Diante desse quadro, tornou-se óbvio que a única maneira de sanear a Petrobrás era impedir que os interesses políticos continuassem a ditar os rumos de sua administração – e não foi por outro motivo que Parente exigiu total autonomia para aceitar o convite do presidente Michel Temer para assumir a Petrobrás, em junho de 2016, logo após o impeachment de Dilma Rousseff.

Munido dessa liberdade de ação, Pedro Parente pôde implementar uma administração austera e dinâmica, que em pouco tempo reequilibrou as finanças da empresa, por meio da venda de ativos e, principalmente, de uma política de preços que dispensava os subsídios, por respeitar as variações de mercado.

A greve dos caminhoneiros, contudo, colocou essa política na berlinda, pois a principal reivindicação do movimento era o restabelecimento do subsídio. Diante da hesitação do Palácio do Planalto, que tremeu em razão das consequências de uma greve que nem conseguiu prever nem soube conter, Parente ainda fez o que pôde para que o governo ganhasse tempo para negociar um acordo – que, ao final, se revelou uma verdadeira capitulação ao movimento paredista.

Em sua carta de demissão, Parente dá a entender que a decisão do governo de restabelecer o subsídio, sem dar suporte firme para manter a política de preços por ele implementada, foi o fator preponderante para sua saída. “Diante desse quadro, fica claro que a minha permanência na presidência da Petrobrás deixou de ser positiva”, escreveu ele.

Ao aceitar a demissão de Parente, o presidente Michel Temer também deu uma vitória aos petroleiros que haviam deflagrado uma greve política, na qual exigiam justamente a saída do executivo. E nem é preciso dizer que a decisão foi celebrada por todos os que trabalham incansavelmente em favor do subdesenvolvimento travestido de “justiça social”. “Já vai tarde”, disse Guilherme Boulos, candidato a presidente pelo PSOL. “Era o que a sociedade esperava”, declarou o presidente do Senado, Eunício Oliveira (MDB-CE). “Finalmente!”, tuitou o PT.

Enquanto o governo perde quadros de imenso valor como Pedro Parente – e, antes dele, Maria Silvia Bastos Marques, que deixou o BNDES depois que o governo lhe sonegou apoio contra os que sabotavam sua política de reorganização do banco –, personagens notórios mais por escândalos que por capacidade administrativa continuam prestigiados no Palácio do Planalto. Nada disso augura um bom futuro nem para o governo nem para o País.

Gente fora do mapa


Bem brasileiro, bom brasileiro

Está ruim: políticos importantes merecidamente presos, outros ainda não. Governo fraco, nas mãos de congressistas que só têm força na hora de buscar vantagens pessoais. Carlos Marun é ministro. Gleisi comanda o PT.

Está ruim, mas pior ainda é essa campanha para culpar os cidadãos pela sem-vergonhice e corrupção nos altos escalões. Coisas do tipo “ah, você é contra o desrespeito às leis mas já estacionou em lugar proibido”, “prestou um serviço e recebeu por fora”, “reclama da falta de educação dos outros mas já jogou embalagem de chocolate na rua”. Ou seja, a bandalheira dos poderosos nasce de sua falta de correção ao pegar um envelopinho a mais de açúcar na hora do cafezinho. Jogar papel de bala na rua e ordenhar as estatais é mais ou menos a mesma coisa. Seríamos malandros incorrigíveis, enquanto japoneses, suecos e coreanos cumpririam seus deveres cívicos.

Só que não. Há tempos, o notável articulista Mauro Chaves perguntou por que o brasileiro, na Suíça, não jogava maço de cigarros vazio no chão, enquanto, no Brasil, os suíços não se davam ao trabalho de procurar a lata de lixo. O motivo era simples: é que lá tem polícia. As altas multas educam o cidadão pelo bolso. O cidadão, aqui e lá, sabe o que lhe é conveniente.

Há brasileiros influentes na política americana de banda larga, na saúde canadense, no comércio libanês, na expansão das exportações chinesas. Sem complexo de vira-latas: ruins são os governantes, não os governados.

Carlos Brickmann

Bom tempo

Bonde em Santa Rosa (Niterói)
Um dia
Drummond perdeu
o bonde e a esperança.
Bom tempo para viver
foi esse em que ainda havia
bondes e esperanças
para perder.

Raul Drewnick

Ex-secretária do governo Lula: Minha Casa, Minha Vida piorou cidades e alimentou especulação imobiliária

Maior programa habitacional da história do Brasil e uma das vitrines dos governos do PT, o Minha Casa, Minha Vida (MCMV) piorou as cidades, agravou as dificuldades de acesso a moradia entre os mais pobres e criou bairros especialmente vulneráveis ao crime organizado.

A avaliação é de Ermínia Maricato, uma das mais experientes urbanistas do país e secretária executiva do Ministério das Cidades nos primeiros anos do governo Lula, antes da criação do programa, em 2009.

"Tivemos um movimento imenso de obras, mas quem o comandou e definiu onde se localizariam não foi o governo federal, e sim interesses de proprietários imobiliários, incorporadores e empreiteiras", diz Maricato, que estuda o MCMV desde sua implantação e é professora aposentada da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (FAU-USP).
Municípios incluíram fazendas no perímetro urbano para
atrair obras do projeto - Condomínio do MCMV em Campina Grande (PB)
Em entrevista à BBC Brasil em sua casa na Vila Madalena, em São Paulo, ela afirma que conjuntos residenciais do programa erguidos longe dos centros urbanos levarão várias décadas para se integrar às cidades. "Esse investimento gigantesco, aliado a uma especulação de terras ciclópica, tornou as cidades ainda mais inviáveis no Brasil."

Autora de nove livros sobre habitação e urbanismo, Maricato coordenou a proposta de criação do Ministério das Cidades, executada por Lula após sua ascensão à Presidência, em 2003.

Ela havia se projetado nas décadas anteriores como uma das líderes do movimento pela Reforma Urbana, que pretendia tornar as cidades brasileiras menos desiguais e se organizava nas Comunidades Eclesiais de Base (grupos ligados à Igreja Católica nas periferias e zonas rurais).

Maricato discursou em nome do movimento na Assembleia Constituinte, em 1988, e articulou a inclusão do conceito de função social da propriedade na Constituição. Um dos principais trunfos de movimentos sem-teto e sem-terra, o conceito define que as propriedades devem atender interesses coletivos, e não apenas individuais.

Entre 1989 e 1992, ela atuou como secretária da Habitação e Desenvolvimento Urbano no governo da então petista Luiza Erundina, em São Paulo. A urbanista diz que um de seus objetivos era tornar favelas e periferias menos insalubres, reduzindo a incidência de epidemias e doenças pulmonares por falta de ventilação. Outra prioridade era construir moradias em parceria com movimentos sociais.

Nesse modelo, o governo providencia terrenos e contrata arquitetos e engenheiros para projetar as casas. As unidades são construídas com recursos do governo pelos próprios moradores ou com a ajuda deles. Ela afirma que o programa foi um grande sucesso. O Minha Casa, Minha Vida prevê a possibilidade de construir moradias dessa maneira, mas os gastos com esse modelo representam 2% dos investimentos totais do programa, segundo Maricato.

Maricato diz que, nos anos 1990, iniciativas bem sucedidas em habitação se espalhavam por várias cidades, entre as quais Recife, Salvador, Belém, Goiânia e Porto Alegre.

Os avanços ocorriam apesar dos tempos de vacas magras. "Tínhamos um ciclo virtuoso produzindo políticas inovadoras. Esse ciclo se rompe exatamente no momento em que o Ministério das Cidades é criado."

Não era isso o que Maricato esperava ao batalhar pela criação do órgão, projetado para integrar as políticas de habitação às de transporte, saneamento e regulação do solo urbano.

Para chefiar o órgão recém-criado, Lula escolheu um quadro histórico do PT: o ex-governador gaúcho Olívio Dutra, que nomeou Maricato como secretária executiva. Ela conta que seu objetivo era federalizar as experiências positivas das prefeituras. Os trabalhos, porém, foram interrompidos com o escândalo do mensalão, quando o PT foi acusado de comprar apoio político no Congresso.

Entre outras medidas para acalmar sua base, Lula entregou o Ministério das Cidades ao Partido Progressista (PP). Olívio e Maricato deixaram o órgão.

O governo estava prestes a dar outro rumo às políticas urbanísticas e habitacionais - e justamente quando os cofres do governo estavam mais cheios, graças à arrecadação turbinada pela exportação de matérias-primas e pelo consumo das famílias.

"Enquanto não tínhamos recursos e estávamos sob ajuste fiscal, com dívida pesada, tivemos controle sobre os gastos. Quando apareceram os recursos, os capitais tomaram conta."

'Fake news' versus qualidade

Proliferam notícias falsas nas redes sociais. São compartilhadas acriticamente com a compulsão de um clique. Fazem muito estrago. Confundem. Enganam. A mentira, por óbvio, precisa ser debelada. O antídoto não é o Estado. É a poderosa força persuasiva do conteúdo qualificado. O valor da informação e o futuro do jornalismo estão intimamente relacionados. É preciso apostar na qualidade da informação.

As rápidas e crescentes mudanças no setor da comunicação puseram em xeque os antigos modelos de negócios. A dificuldade de encontrar um caminho seguro para a monetização dos conteúdos multimídia e as novas rotinas criadas a partir das plataformas digitais produzem um complexo cenário de incertezas.


É preciso pensar, refletir duramente sobre a mudança de paradigmas, uma vez que a criatividade e a capacidade de inovação – rápida e de baixo custo – serão fundamentais para a sobrevivência das organizações tradicionais e para o sucesso financeiro das nativas digitais.

Mas é preciso, previamente, fazer uma autocrítica corajosa a respeito do modo como nós, jornalistas e formadores de opinião, vemos o mundo e da maneira como dialogamos com ele.

Antes da era digital, em quase todas as famílias existia um álbum de fotos. Lembram-se disso? Lá estavam as nossas lembranças, os nossos registros afetivos, a nossa saudade. Muitas vezes abríamos o álbum e a imaginação voava. Era bem legal.

Agora fotografamos tudo e arquivamos compulsivamente. Nosso antigo álbum foi substituído pelas galerias de fotos de nossos dispositivos móveis. Temos overdose de fotos, mas falta o mais importante: a memória afetiva, a curtição daqueles momentos. Fica para depois. E continuamos fotografando e arquivando. Pensamos, equivocadamente, que o registro do momento reforça a sua lembrança, mas não é assim. Milhares de fotos são incapazes de superar a vivência de um instante. É importante guardar imagens. Mas é muito mais importante viver cada momento com intensidade. As relações afetivas estão sucumbindo à coletiva solidão digital.

Algo análogo, muito parecido mesmo, se dá com o consumo da informação. Navegamos freneticamente no espaço virtual. Uma enxurrada de estímulos dispersa a inteligência. Ficamos reféns da superficialidade. Perdemos contexto e sensibilidade crítica. A fragmentação dos conteúdos pode transmitir certa sensação de liberdade. Não dependemos, aparentemente, de ninguém. Somos os editores do nosso diário personalizado. Será? Não creio, sinceramente. Penso que há uma crescente nostalgia de conteúdos editados com rigor, critério e qualidade técnica e ética. Há uma demanda reprimida de reportagem. É preciso reinventar o jornalismo e recuperar, num contexto muito mais transparente e interativo, as competências e a magia do jornalismo de sempre.

Jornalismo sem alma e sem rigor. É o diagnóstico de uma perigosa doença que contamina redações, afasta consumidores e escancara as portas para os traficantes da mentira. O leitor não sente o pulsar da vida. As reportagens não têm cheiro do asfalto.

É preciso contar boas histórias. Com transparência e sem filtros ideológicos. O bom jornalista ilumina a cena, o repórter manipulador constrói a história. Na verdade, a batalha da isenção enfrenta a sabotagem da manipulação deliberada, da preguiça profissional e da incompetência arrogante. Todos os manuais de redação consagram a necessidade de ouvir os dois lados de um mesmo assunto. Mas alguns procedimentos, próprios de opções ideológicas invencíveis, transformam um princípio irretocável num jogo de aparência.

A apuração de mentira representa uma das mais graves agressões à ética e à qualidade informativa. Matérias previamente decididas em guetos sectários buscam a cumplicidade da imparcialidade aparente. A decisão de ouvir o outro lado não é honesta, não se apoia na busca da verdade, mas num artifício que transmite um simulacro de isenção, uma ficção de imparcialidade. O assalto à verdade culmina com uma estratégia exemplar: repercussão seletiva. O pluralismo de fachada, hermético e dogmático, convoca pretensos especialistas para declarar o que o repórter quer ouvir. Mata-se a notícia. Cria-se a versão.

Sucumbe-se, frequentemente, ao politicamente correto. Certas matérias, algemadas por chavões inconsistentes que há muito deveriam ter sido banidos das redações, mostram o flagrante descompasso entre essas interpretações e a força eloquente dos números e dos fatos. Resultado: a credibilidade, verdadeiro capital de um veículo, se esvai pelo ralo dos preconceitos.

Politização da informação, distanciamento da realidade e falta de reportagem. Eis o tripé que tisnou a credibilidade dos veículos. A informação não pode ser processada num laboratório sem vida. Falta olhar nos olhos das pessoas, captar suas demandas legítimas. Gostemos ou não delas. A velha e boa reportagem não pode ser substituída por torcida.

A crise do jornalismo – e a proliferação de fake news – está intimamente relacionada com a pobreza e o vazio das nossas pautas, com a perda de qualidade do conteúdo, com o perigoso abandono da nossa vocação pública e com a equivocada transformação de jornais em produto mais próprio para consumo privado. É preciso recuperar o entusiasmo do “velho ofício”. É urgente investir fortemente na formação e qualificação dos profissionais. O jornalismo não é máquina, embora a tecnologia ofereça um suporte importantíssimo. O valor dele se chama informação de alta qualidade, talento, critério, ética.

O jornalismo precisa recuperar a vibração da vida, o cara a cara, o coração e a alma. O consumidor precisa sentir que o jornal é um parceiro relevante na sua aventura cotidiana. Fake news também se combate com qualidade.

Imagem do Dia

Oneonta Gorge EUA)

O quinto dos infernos

“Menino, vá pro quinto dos infernos!” Era a exclamação raivosa de uma figura folclórica, fraco do juízo, mas que não admitia ser chamados de “Zé doidinho”. Vou expiar este pecado de moleque no dia do Juízo Final. Arrependido, espero estágio no purgatório.

Mais tarde, aprendi o significado da expressão que admite duas hipóteses: vai pra longe, desaparece queimando nas labaredas; e o quinto? O que significa? Não é o quinto círculo do Inferno de Dante. Então, fico com os que defendem a raiva dos contribuintes da colônia portuguesa, imensa, distante e quente, chamada Brasil, sempre que os cobradores do “quinto”, 20% do nosso ouro, vinham arrecadar para matar o apetite insaciável da Coroa Portuguesa. Caso não atingissem cem arrobas, os “homens-bons”, classe privilegiada, estariam sujeitos ao confisco denominado “derrama”.


O passado não nega. Só houve uma derrama. Os ditos homens-bons, sócios do Estado, obtiveram vários “refis coloniais”, além da esperteza dos “descaminhos”, rotas de sonegação, burlando “os caminhos reais”. No período de esgotamento do ciclo do ouro, final do século XVIII, os rumores de uma derrama esquartejou Tiradentes, mártir da Inconfidência Mineira.

Na gestão pública da época, a máquina fiscal já era eficaz. E tome arrocho; e haja espoliação fiscal com asfixia econômica do setor produtivo. Basta: a Revolução Americana triunfara. E na sua raiz estavam o imposto do selo, do chá, do açúcar e a regra de ouro da democracia política: sem representação não há taxação. O colonialismo eurocêntrico começara a desmoronar. Independência ou morte! Brasil independente. Mudou de metrópole: a Corte é Brasília.

Não estou pregando nada disruptivo. Não sou maluco. Mas posso enxergar que o “quinto” colonial transformou-se, hoje, nos dois quintos, 40% do PIB comparados aos 24% da década de 80.

Com efeito, o grave panorama nacional foi compreendido em todas as dimensões. Ouso, tão somente, enfatizar que ficou transparente a natureza da carga tributária de impostos anestesiantes, regressivos porque penaliza o mais pobre e se escondia na composição dos preços. A crise serviu para informar ao consumidor quanto ele paga de impostos pelos derivados do petróleo; a crise serve para demonstrar que a “greve”, o locaute ou o nocaute jogaram na lona o cidadão brasileiro que, com o nosso dinheirinho, vamos pagar a conta de um Estado perdulário e corrompido.

Aos candidatos que fique a lição: ou tiram, responsavelmente, o Estado das costas do cidadão ou não há solução.

Gustavo Krause

Chacoalhada geral

Ainda está aí sentindo o tremor, não é mesmo? Viu? Percebeu o quão tênues e surpreendentes estão as linhas, os limites, os acontecimentos? Não dá para se acomodar, que tem muito pó-de-mico na cadeira. É hora séria, de a gente pensar juntos qual estrada pegaremos sem bloqueios. E sem bloquear a liberdade

Não foi no primeiro dia, mas lá pelo terceiro a coisa começou a ficar bem feia e então todos percebemos que estávamos parados ou parando nas encruzilhadas e nas quebradas, e que as cidades viraram ilhas. O governo demorou mais do que nós, porque lá onde vivem é uma espécie de Olimpo, e só quando baixaram na Terra é que perceberam que aqui estávamos no Inferno, abaixo dela, terra, alguns dedos, se é que me entendem.

Pagamos uma tal de Inteligência, uma agência inteira, a ABIN, que só serve para nos atazanar, porque ajudar que é bom…Mas nem precisava, porque soubemos também que há mais de ano havia essa ameaça de greve exposta em cartinhas dessa categoria carga pesada – ou melhor, de todas as cargas – e os ouvidos continuaram moucos.

E aí juntou tudo, patrões, empregados, gasolina com preço fervendo, diesel com sangue azul. De tudo que reivindicaram, realmente houve uma coisa que chamou a atenção: não vimos ninguém pedindo na listinha que fizessem melhorias no lugar onde andam, e nós também, propriamente, as estradas, que são a bagaceira em forma de asfalto ruim e terra enlameada. Caminhos que gastam mais combustível, energia, vida, os caminhões, treminhões, pneus, levam vidas. Estranho. Muito estranho também não terem listado outro aspecto: segurança. Isso com tantos assaltos e roubos de carga, cotidianos.

Talvez essas cobranças sobrem agora para nós fazermos, ou numa eventual greve geral que já não acho tão impossível, ou na plataforma dos candidatos que estão aí e que ainda parecem flanar sobre nossas cabeças e problemas.
Assim, precisaremos fazer nossas listas de reivindicações – urgente. Podemos também começar reclamando do absurdo preço da gasolina, mas enquanto maioria devemos nos preocupar muito em exigir transportes públicos de qualidade e vias alternativas de escoagem de produtos de primeira necessidade, como ferrovias. Esses dias todo mundo lembrou do “trem bão”.

Senão, nada impedirá que novamente sejamos chacoalhados e fiquemos pendurados em alguma brocha como essa que pintou o sete nos hospitais, mercados, linhas de produção.

Foram momentos nos quais não soubemos de tiroteios nem de balas perdidas no Rio de Janeiro; da febre amarela, dengue, e do absurdo das campanhas contra vacinas feitas por ignorantes. Talvez esses e outros tipos de ignorantes estivessem preocupados em sacudir bandeiras desajeitadas pró uma intervenção que eles não têm noção do que é, do que poderia ser, do que foi quando ela aconteceu e nos chacoalhou, bloqueou e feriu por 21 anos.

Aprendemos muito observando esses dias. Vimos o medo, a loucura, a ganância e o egoísmo em suas piores formas, o descontrole e o exagero. O corre-corre desnecessário. Cada um por si, ninguém por todos. Um país inteiro de joelhos, cada um rezando um credo.

Ficamos com o bumbum na janela. E dela avistávamos as ruas vazias, sem trânsito, muita gente andando, muitas bicicletas enfim ocupando as ciclovias, e sentimos o estranho (mas muito bom) silêncio. Poluição pela metade. Incrível como tudo pode ter um lado bom.

Mas mais do que tudo isso, sentimos o tremor e o temor. Externamos nossas preocupações com o futuro, com o que aconteceria, e com o que pode acontecer. Fomos pegos num redemoinho, e ainda estamos bem tontos.

Esperamos soluções, e que não são soluços grandes de um choro que não queremos mais ter. Muito menos por estarmos engasgados com tantas coisas para dizer.

A hora da covardia

Não se tem notícia de humilhação similar. Para todos os efeitos práticos, o governo Temer sucumbiu, atropelado por um caminhão. Mas, em meio ao caos, entre as vozes estridentes dos populistas e os ecos secundários dos oportunistas, deve-se registrar o silêncio dos candidatos de centro. Na paisagem de ruínas, ninguém ousou sair em defesa do interesse geral. A covardia será punida nas urnas.

O Planalto sabia que a explosão viria, mas permaneceu inerte. Diante da catástrofe consumada, ensaiou uma valsa de sucessivos rugidos e recuos, até a completa desmoralização. No início, corretamente, identificou a natureza da operação de locaute, que se fantasiava como greve espontânea. Na sequência, renunciou ao exercício da força legítima, oferecendo carta branca aos grandes empresários de transportes e às facções amotinadas dos caminhoneiros. Corte das estradas, abolição do direito de ir e vir, colapso do abastecimento essencial: uma nação sem governo, sem lei, converteu-se em refém da força privada.

Temer capitulou duas vezes, entregando bem mais do que exigiam as milícias invasoras. No meio do percurso, estendeu sua própria humilhação ao STF, que dera amparo à liberação compulsória das estradas, e aos militares, que se preparavam para cumprir a ordem de romper os bloqueios. O presidente e seu círculo de patéticos estrategistas temiam que a aplicação da lei provocasse uma reprodução das “jornadas de junho” de 2013, incendiando as cidades. No altar sacrificial da capitulação, eles imolaram todos os bens públicos que tinham ao alcance. A desoneração da folha das transportadoras, o tabelamento do frete, a contratação de transporte sem licitação, o subsídio ao diesel serão financiados por cortes de gastos sociais, inflação e emissão de dívida. Há, contudo uma perda maior: agora, ninguém mais duvida de que a chantagem compensa, especialmente se for conduzida a seus limites extremos.


Soltaram os cachorros loucos. Nos bloqueios e acostamentos, os especuladores do caos desfraldaram as bandeiras da “intervenção militar”. Na arena de campanha, Jair Bolsonaro prometeu apoio integral aos “caminhoneiros”, simulou um pedido de moderação e, finalmente, garantiu que “um futuro presidente honesto/patriota” anistiará qualquer hipotético atingido por penalidades legais. O protagonista inconteste ganhou coadjuvantes, que se aninharam na boleia de uma carreta bitrem. Ciro Gomes avisou que, sem a revogação da lei do teto de gastos públicos, “vai faltar escola e hospital”. Já Álvaro Dias, um inesperado nostálgico da idade de ouro dilmista, clamou pela administração política dos preços de combustíveis.

A falência técnica da Petrobras nada ensinou ao lulopetismo, engajado na repetição farsesca de uma história trágica. Precisamente quando Bolsonaro advertiu para “a hora de acabar” o motim das estradas, a Federação Única dos Petroleiros (FUP), tentáculo sindical do PT, ensaiou um espetáculo alternativo de dupla utilidade. No plano puramente simbólico, a frustrada greve dos petroleiros reivindicava a redução dos preços do gás de cozinha, uma bandeira “popular” de contraponto petista à baderna da direita. No plano prático, exigia a demissão de Pedro Parente, o presidente que resgatou a Petrobras de um poço sem fundo, passo necessário para uma futura restauração do controle partidário sobre a estatal.

Bolsonaro e o PT operaram segundo seus interesses, apostando nas ações do colapso. O visceral oportunismo de Álvaro Dias só surpreendeu os que não o conhecem. Mas é o silêncio tumular de Geraldo Alckmin e Marina Silva, os candidatos viáveis do centro do espectro político, que indica a dimensão da crise nacional. O candidato tucano permaneceu virtualmente calado durante o auge da crise. No epílogo, depois de firmado o tratado de capitulação, produziu uma exigência vazia de retorno à “normalidade”. A candidata da Rede, por sua vez, criticou com justiça a falta de medidas preventivas do governo e a política de variação diária de preços, apenas para ensaiar um raciocínio primitivo — e demagógico — sobre a possibilidade de usar a produção doméstica de petróleo para regular os preços dos combustíveis.

A covardia triunfou. Nem Alckmin, nem Marina exigiram a garantia dos direitos básicos de circulação nas estradas e de abastecimento de bens essenciais. Nenhum dos dois formulou uma nítida condenação dos termos da rendição do Planalto à chantagem
dos promotores do locaute. Nenhum deles teve a audácia de defender a gestão de Pedro Parente, explicando que inexiste almoço grátis — e que, sob o império do lulismo, a Petrobras foi à lona por financiar subsídios de cunho populista.

Segundo constatação do Datafolha, 87% dos brasileiros aprovaram o movimento de paralisação, mas 56% o consideraram prejudicial à população. O instituto registra, ainda, que exatos 87% recusam os aumentos de impostos e cortes de gastos derivados da capitulação governamental. As nações enlouquecem quando o conjunto de suas lideranças políticas entregam-se ao populismo, ao oportunismo e à covardia. Nessa hora, a velha ordem desaba.

Demétrio Magnoli

domingo, 3 de junho de 2018

Imagem do Dia

Coisa de doido!

Dia desses li que o Brasil importa óleo diesel lá dos EUA. Eis aí uma coisa difícil de entender, dado sermos um dos maiores produtores de petróleo do planeta – algo, aliás, fartamente trombeteado através dos instrumentos de propaganda oficial. Há ainda o etanol, que também importamos daquele país. É complicado compreender como um povo que há poucos anos detinha a liderança absoluta – e pioneira – na produção de álcool combustível tenha chegado a este ponto.

Somos, também, grandes importadores de chocolate da Alemanha. Tenho, igualmente, dificuldades de entender um quadro desses, na medida em que naquele país, até onde sei, não existe uma única plantação de cacau!

Nós importamos, ainda, robustas quantidades de café da Suíça. Uma vez mais, acho complicado entender o que se passa, pois, segundo apurei, eles não tem sequer um cafezal em todo o país.

Descobri, não faz muito tempo, que o Brasil, desde 1996, não produz trilhos de trem – importa-os, por exemplo, da França e da China. Devo ser mesmo uma pessoa de mente muito primária, pois não consigo entender como um país de dimensões continentais praticamente não tem ferrovias, e bem assim por qual motivo um dos maiores produtores de minério de ferro do planeta importa trilhos!

Nosso país tem andado a importar energia elétrica da Argentina e do Uruguai. Pessoa de peco bestunto que sou, ainda não alcancei os motivos que levaram aquele Brasil que criticava Itaipu como “obra faraônica” a este estado de penúria energética.

Tomei conhecimento, há algum tempo, que importamos um terço do pescado que consumimos. Devo ser mesmo uma pessoa de mente muito tosca, pois sequer imagino as razões que levam um país que conta com 8.500 km de litoral, além de ter o maior rio do planeta em volume de água, a importar tanto peixe!

Temos importado, quem diria, o bom e velho feijão! Ouvi falar que ele viria da Argentina, do Paraguai, da Bolívia, e talvez até do México e da China. É algo complexo demais para minha parca inteligência entender por quais razões importamos tanto feijão na terra em que, conforme Pero Vaz de Caminha, “em se plantando tudo dá”.

Eu teria muito mais a escrever, mas vejo-me forçado a encerrar agora este texto. Acabaram de me informar que um rabo está abanando um cachorro ali na rua, e tenho que ir lá ver isso!

No país do provisório

A demissão de Pedro Parente da presidência da Petrobras lança a crise no imponderável. O governo não possui um plano B para a gestão de preços de combustíveis. E os efeitos desse vazio gerencial, em torno da maior estatal do país – com ações nas bolsas internacionais –, não favorece a normalização institucional.

A empresa, que vinha se recuperando, despenca no mercado. E continua refém de pressões políticas de toda ordem. Não agradava à população, por óbvio, a política de reajustes quase diários dos combustíveis, sobretudo levando-se em conta que os salários há muito não têm reajustes. Também não agradava aos políticos.


Os motivos, evidentemente, não são os mesmos. As estatais são defendidas com ardor pelos políticos, sobretudo à esquerda, pelo manejo fisiológico que propiciam. A Petrobrás, que, com as gestões Lula-Dilma, chegara ao limite de sua capacidade de amamentar corruptos, estava num raro momento de gestão técnica. Acabou.

A greve dos caminhoneiros, que dela perderam o controle faz dias, está sob nova administração – política e radical: de um lado a esquerda, que quer melar as eleições por não ter candidato competitivo; de outro, a direita, que quer intervenção militar, por não confiar nas urnas eletrônicas e na Justiça eleitoral.

Ambas querem a cabeça do presidente da República. E talvez a queiram por não possuir uma. A saída do presidente, hipótese que não se descarta (aliás, nada se descarta, neste momento), gera, a quatro meses das eleições, mais males que os que evita.

Entre outros, torna as eleições uma incógnita.

Não por acaso, a Comissão de Constituição e Justiça do Senado acaba de aprovar projeto que regulamenta a eleição indireta para presidente e vice-presidente da República, em caso de vacância de ambos os cargos nos dois últimos anos do mandato presidencial.

O projeto é do senador Ronaldo Caiado (DEM-GO), que o apresentou em 2015, antes do impeachment e já o prevendo. Caiado queria, com a saída de Dilma, a antecipação das eleições de 2018. Talvez, se acolhida, sua proposta tivesse estancado a crise.

Agora, soa extemporânea. Será de valia para crises futuras, que nisso o país não falha. Se não houver recurso para análise em plenário, o projeto segue para a Câmara dos Deputados.

Pelo projeto, na hipótese de vacância, os partidos poderão apresentar candidato, que não precisam ser membros do Parlamento. Por hipótese, se Temer, renunciasse neste fim de semana, seu sucessor indireto governaria por cerca de cinco meses, descontado o período de lançamento da candidatura e do rito eleitoral.

De quebra, interferiria na campanha eleitoral ou mesmo poderia servir de pretexto para questioná-la. Um furdunço.

O Brasil, mais que nunca, confirma sua tradição de país do provisório e da interinidade.

Ruy Fabiano

O Ano da Crisálida

A greve de caminhoneiros autônomos e empresas de transporte muito rapidamente promoveu desabastecimento das metrópoles brasileiras, mas trouxe ao mesmo tempo paisagens raras nas cidades, que só não seriam totalmente belas porque eram criadas por tensões distantes. Inúmeras estradas bloqueadas em territórios semi-rurais ou semiurbanos na vastidão do país repercutiam imediatamente no silêncio das mangueiras de gasolina e nas gôndolas de hortaliças nos supermercados. E rios de asfalto apareceram. Sem embarcações, ou melhor, sem carros, um oceano de asfalto que consome grande parte do espaço livre das cidades brasileiras surgiu plácido, colossal, inerte.

E, de repente, as pessoas estavam andando pela cidade. Picos no transporte público. Bicicletas compartilhadas sendo intensamente utilizadas. Poluição caindo. Cidades lentas.

Se não soubéssemos dos problemas em hospitais, nos bancos de sangue e na interrupção de aulas em escolas, seria um espetáculo poético da abstinência da sociedade brasileira dos combustíveis fósseis.

A última semana foi só mais uma fase do longo Ano da Crisálida, o ano de 2013.


Desde as jornadas de junho de 2013, estamos experimentando a tensão da tentativa da metamorfose da sociedade dentro da imobilidade do casulo rígido, agora enrugado e podre, das formas tradicionais do Estado brasileiro. Naquela ocasião, as mesmas ruas vazias de carros foram ocupadas pela população em gritos ideologicamente esquizofrênicos de anseio por mais eficiência para serviços públicos, mas também por melhores práticas democráticas. Os preceitos de que gestão era escopo da direita e de que participação política era da esquerda se misturaram num amorfismo, cujas palavras de ordem balbuciadas como grunhidos de bebê eram ouvidas por universidades ou empresas pelas frequências sonoras que lhes apeteciam. E a classe politica ensurdeceu.

Veio depois disso: Lava-Jato; acidente ambiental em Mariana; meia tonelada de cocaína num helicóptero; eleições após campanhas milionárias; prefeitos medíocres nas principais capitais; explosão de violência no país inteiro, mesmo após longo período de inclusão social; insolvência dos estados da federação; insurreição parlamentar; impeachment; R$ 51 milhões num apartamento em Salvador; empresários, marqueteiros e tornozeleiras; intervenção federal na segurança no Rio de Janeiro; pico de audiência em sessão coruja na TV do Judiciário; prisão de um ex-presidente da República por corrupção; colapso de prédio ocupado por movimentos de luta por moradia em São Paulo e, finalmente, aparentemente, a greve dos caminhoneiros. E, mais uma vez, esquerda e direita escutam e enxergam o que lhes convêm.

Este ano, que já dura cinco, é a conclusão dolorosa de um modelo insustentável de organização do país dedicado integralmente e fervorosamente a um nacional-desenvolvimentismo alimentado pela dialética da Guerra Fria, assustado à noite por bichos-papões da América imperialista ou da Cuba revolucionária, esperando Dom Sebastião, ou como intelectual liberal ou como líder popular. Todos esses monumentos colapsam agora sobre nossas cabeças.

As eleições de outubro serão a chance de romper o casulo feito de pedaços duros de políticos mortos, que insistem em nos assombrar, mas a verdadeira metamorfose implicará em conseguirmos prestar atenção à falência da industrialização e do consumo de petróleo como desenvolvimento da sociedade brasileira, e situar esse modelo na condição de passado ainda presente, e começar de fato a considerar novos arranjos urbanos, tecnológicos, culturais e sociais, buscando trazer ao presente o que já sabemos que nem é tão futuro assim, como a energia solar e eólica, por exemplo

Uma oportunidade de ampliar conhecimento e contato com esses novos signos será a Velo-City 2018, uma conferência internacional dedicada à mobilidade sustentável e à qualidade de vida nas cidades, que ocorre no Rio a partir do próximo dia 12, no Pier Mauá. Especialistas do mundo inteiro virão à cidade participar deste congresso organizado em temas como “Aprenda a viver”, “Felicidade e Qualidade de Vida”, “Integrar a Vida e o Transporte”, “Economia Viva” e “Acesso à Vida”, como conceitos decisivos para boas sociedades urbanas.

Políticos, empresários, economistas e acadêmicos brasileiros ainda consideram estes temas como frívolos diante de um mundo com tantas injustiças e preferem uma vez mais as armas ideológicas. Contudo, não encontraremos novas respostas fazendo as mesmas perguntas.

A restauração do país passa mais por priorizarmos a sustentabilidade das pequenas decisões e dos pequenos gestos, pela humanidade da gestão e pela eficácia no combate às desigualdades, do que pelos gritos de torcida. Teremos mais chances de sucesso com soluções que caminham e evoluem, como bicicletas e transporte público, e novas tecnologias energéticas, do que com os modos antigos do motor, da gasolina, de pneus, de asfalto e da velocidade. Ruas calmas e serenas são mais próximas de um futuro melhor do que a fúria de um século que já passou e que não consegue mais conter a transformação do Brasil..

sábado, 2 de junho de 2018

Só descobrindo o Brasil outra vez

O general Charles De Gaulle, presidente da França nos anos 60 do século passado, jamais disse uma frase que lhe atribuíram e que ficou famosa: “O Brasil não é um país sério”. Mas se tivesse dito, não estaria de todo errado. Quem sabe não estaria certo?

Combustíveis são commodities. Assim sendo, como outra qualquer outra commodities, seu preço varia de acordo com o mercado internacional. Isso vale, por exemplo, para o aço, o trigo, o ferro e a soja. Por que não valeria para o petróleo?


O governo fraco, de um presidente encurralado por denúncias de corrupção, deu um subsídio de R$ 0,46 no litro do diesel para beneficiar caminhoneiros autônomos. Legal isso! Escondeu, porém, do distinto público que o subsídio beneficiará quem não precisa.

Beneficiará o poderoso e riquíssimo agronegócio que usa diesel nas suas máquinas. Beneficiará as riquíssimas empresas de transporte de cargas. Beneficiará as lucrativas empresas de ônibus que compram o diesel direto das distribuidoras.

(Por sinal, o “rei dos ônibus” do Rio de Janeiro, o empresário Jacob Barata Filho, transborda felicidade. Primeiro porque foi solto três vezes pelo ministro Gilmar Mendes. Segundo pelo subsídio. Terceiro porque o preço da passagem no Rio aumentou ontem.)

O subsídio beneficiará também os ricos e milionários que tem carro importado a diesel. Porque, aos caminhoneiros, não beneficiará, por mais que o governo diga que multará os postos que não reduzam o preço do diesel. Quer um exemplo disso?

Na semana que antecedeu a greve, um amigo meu, no Rio, comprou duas caixas de morangos por R$ 3,99 cada. Na semana passada, a caixa custava R$ 9,99. Ontem, R$ 7,99. E sabe o que é pior? As pessoas acham que tudo voltará à normalidade.

O economista Pedro Parente reconstruiu a Petrobras – ou pelo menos resgatou sua credibilidade e eficiência. E foi por isso que caiu. Sua queda deve-se a acertos, não a erros. O governo arrombou a porta da Petrobras e isso é um péssimo sinal.

A direita brucutu e a esquerda burra se uniram para exigir a cabeça de Parente, e levaram. Continuarão unidas, desta vez exigindo a cabeça de Temer. Foi isso o que ele conseguiu.

A greve dos caminhoneiros como catarse da insatisfação social?

Algo ficou claro depois da greve dos caminhoneiros que colocou o Governo de joelhos e paralisou o país como talvez nunca antes: perderam os que advogavam uma solução militar para a crise política e social do Brasil, já que puderam escutar, pela boca dos mais altos comandantes dos três corpos das Forças Armadas, que eles estão com a Constituição e que só atuarão no marco da democracia.

Os militares nem sequer se sentiram tentados pelo canto de sereia das adulações de uma sociedade que majoritariamente lhes pede que ponham ordem no país, e deixaram claro que os tempos mudaram e que hoje, no Brasil, todos devem ser fiéis à Constituição.


Isso representa um desafio ainda maior, já que os descontentes com o Governo sabem que não podem contar com soluções diferentes das que os próprios militares lhes ofereceram: mudar as coisas nas urnas, com o voto, como em todas as democracias. E o voto está batendo à porta. Se a sociedade acabar escolhendo os que sabidamente traíram a confiança de quem votou neles, insistindo no tosco e perigoso slogan de que “roubam, mas fazem”, terá sido perdida a última possibilidade de regeneração política.

A greve, afinal, revelou que não existem atalhos para a democracia e para o diálogo, e que nenhuma solução autoritária ou violenta tornará mais próspero um país ao qual não faltam recursos materiais nem espirituais para ressurgir das cinzas do seu desalento.

Os caminhoneiros conseguiram o paradoxo de obter o aplauso de 87% dos cidadãos prejudicados pela greve. Como explicar isso? Talvez porque foi mais do que uma greve. Foi uma catarse coletiva, uma válvula de escape para todas as críticas acumuladas pelos cidadãos contra os governantes, contra a corrupção crônica dos políticos, vista como uma peste nacional.

Uma catarse para tentar se livrar, no símbolo do caminhoneiro sacrificado, das insatisfações acumuladas, da agonia cotidiana sofrida com os péssimos serviços públicos, da teimosia do Governo em apertar cada vez mais a carga tributária dos que trabalham, enquanto é incapaz de enfrentar os privilégios dos intocáveis.

Que não se iludam os partidos. Que desistam de capitalizar a greve catalogando-a com velhas etiquetas políticas. Foi só o clamor de uma sociedade que se encontra órfã de líderes confiáveis, após assistir à queda de seus deuses do passado, descobrindo-os nus.

Se alguma conotação política teve esta greve apoiada maciçamente pela sociedade foi a tentação de cair na miragem de que a violência seria capaz de trazer os dias melhores de volta. Daí a atração pelos políticos duros, a paquera com os militares e a simpatia pelos extremistas. O que prevaleceu numa greve de contornos confusos e contraditórios foi o desejo de uma mão de ferro, seja branca, negra ou vermelha, capaz, como dizia um dos manifestantes, “de arrumar este caos de país”.

Que não esqueçam os políticos, às vésperas de eleições que se apresentam a cada dia mais sombrias e incertas. Que não se esqueçam da capacidade de raiva que uma sociedade pode concentrar quando se sente traída. Ainda haverá alguém neste país e neste momento com capacidade de mobilizar o melhor da sua gente, rica em sentimentos e generosidades, mas que exige reconhecimento do seu direito à justa ira social?

Democracia não é só ter eleição a cada quatro anos, democracia é viver sem medo

Velho, muito velho, terno sempre azul e cabeça toda branca, seu Manuel era uma figura querida e conhecida sobretudo em Teresópolis mas também em Petrópolis: revendedor há muitos anos da Loteria Federal. A sorte só chegava a Teresópolis e às vezes a Petrópolis pelas mãos já mirradas do seu Manuel.

Depois que o presidente Geisel deixou o governo, seu Manuel arranjou mais um freguês permanente para seus bilhetes: Geisel. Toda extração, ele levava um bilhete inteiro para o sítio dos Cinamomos, do ex-presidente. Era venda segura e a comissão certa.

De repente, Geisel passou a receber no Rio, toda semana, diretamente da Loteria, cinco bilhetes inteiros. Como essa era a cota mínima de um revendedor, o ex- presidente ganhava o desconto de revendedor e seu Manuel perdia sua comissão. Mas não se queixava:

– Quem pode, pode. E ele tem sorte. Uma vez ganhou.

Um cliente de Petrópolis lhe perguntou:

– Seu Manuel, por que o senhor não se queixa lá na Caixa?

– Porque tenho medo.

– Mas o homem já não é mais presidente.

– Eu sei. Ele saiu do governo, mas meu medo do governo ficou.

Na saudosa e histórica “Adega dos Frades”, um grupo de políticos, jornalistas, empresários, relembrava os tempos de medo da ditadura. Paulo Antonio Carneiro, diretor do “Diário de Petrópolis”, então jovem dirigente do MDB municipal, revendo seus papeis, encontrou umas laudas escritas à mão.

Candidato em 1974 a deputado federal pelo MDB do antigo Estado do Rio, em dobradinha com o vereador Carlos Portella, candidato a estadual, os dois então bem jovens, com menos de 30 anos, Paulo Antonio pediu sugestões para sua primeira aparição no horário do TRE na TV.

O SNI fazia uma pressão brutal, no Tribunal Regional Eleitoral, contra os candidatos do MDB, censurando-lhes os pronunciamentos, sobretudo dos mais jovens e aguerridos. Era preciso ser rápido no gatilho e aproveitar bem aqueles rápidos instantes, com declarações curtas e fortes.

Paulo Antonio foi para a TV com uma pequena lista delas no bolso. Na sua vez de falar, reviu,memorizou e começou exatamente pela primeira:

– “Democracia não é só ter eleição de quatro em quatro anos. Democracia é viver sem medo”.

Na mesma hora, saíram os três do ar: o programa, Paulo Antonio e a frase. Dias depois, também eram vetadas e saíram da lista eleitoral do MDB fluminense as candidaturas dele e de seu fiel companheiro Portella.
Sebastião Nery