
quinta-feira, 5 de janeiro de 2017
Trolls, bots, populistas e a guerra da informação
O que têm em comum o autor do atentado de Würzburg, os direitistas indignados de Bautzen, os russos residentes na Alemanha em protesto pelo suposto sequestro da menina Lisa de 13 anos, e os adeptos do Movimento Identitário? À primeira vista, não muito. No entanto, todos eles obtêm suas informações na internet, e lá se conectam em rede, se fortalecem e radicalizam.
O espaço público está se modificando fundamentalmente na Alemanha: aquilo que se inicia como tuíte ou post é capaz de desencadear violência concreta, tem efeito imediato sobre a coesão social no país e também sobre os resultados eleitorais.
Já há abundantes exemplos disso em 2016: as agressões direcionadas na comemoração da Reunificação Alemã em Dresden, em 3 de outubro, o incêndio de uma mesquita na mesma cidade, apenas uma semana antes, a necessidade de proteção policial para deputados críticos à Turquia, o acréscimo mensurável dos crimes de motivação política, a quintuplicação dos ataques a alojamentos de requerentes de asilo.
A campanha para as eleições legislativas de 2017 mostrará: estamos diante de uma transformação radical do espaço público na Alemanha. Qual foi a última vez que um editorial jornalístico desencadeou debate por todo o país? E os debates fundamentais, que dão orientação política e influenciam as decisões eleitorais: eles ainda transcorrem nos parlamentos ou nas associações partidárias locais? Ou será que tudo se desloca para a internet, onde muitas vezes o debate é travado de forma desconsiderada, desumana, sem fatos, como mero embate de opiniões?
Não se trata nem de opiniões equivocadas de uma minoria na rede nem de discussões entre supostos excluídos da sociedade. Quem crê nisso, está no caminho errado. Pois os diferentes movimentos estão em conexão estreita na internet, do movimento xenófobo de protesto Pegida, passando pelos extremistas de direita e o Movimento Identitário (na Alemanha, sob observação dos órgãos de segurança interna), até a agência de notícias russa Sputnik ou as diversas ramificações regionais do partido populista de direita Alternativa para a Alemanha (AfD).
Eles se fortalecem reciprocamente, para além das fronteiras nacionais, e expandem sua influência constante e mensuravelmente através das mais diferentes plataformas. A rede transforma suas posições políticas em histórias, aglutina seus motivos e conceitos.
Tais campanhas online criam heróis – grandes vencedores políticos como, por exemplo, Donald Trump. Mas também informam os adeptos fundamentalistas na rede sobre os devastadores "atos heroicos" dos autores de atentados jihadistas.
E as campanhas dão aos milhões de seguidores e membros de grupos que compartilham essas histórias a certeza de terem encontrado correligionários e de finalmente ter alguém que os escute. Assim, eles têm a boa sensação de ser porta-vozes em suas comunidades virtuais, determinantes de agenda nos grupos do Facebook, no Twitter, nos comentários dos usuários dos grandes sites de notícias.
Da agenda desses protagonistas ultradireitistas e populistas de direita da rede constam temas centrais para todos: censura e liberdade de opinião, como tramitam os processos democráticos, quanta justiça há na Alemanha? E aí é colocada em questão, em diversos momentos, a credibilidade e capacidade de ação de nossos processos e instituições democráticas, assim como os valores de uma sociedade aberta e tolerante.
Nunca é demais enfatizar, pois na campanha eleitoral de 2017 será decisiva a forma como os partidos e a mídia da Alemanha vão se posicionar quanto a esses temas altamente sensíveis. Quem achar que pode se esquivar deles em seu programa eleitoral, está no caminho errado.
Aprender com Trump significa aprender como vencer – isso é algo que os representantes da AfD não tentam esconder em suas aparições públicas. A convicção de Trump é, sabidamente: "Não preciso de partido, nem de mídia. Eu sou um movimento!"
O mesmo, aliás, também vale para antidemocratas como os presidentes turco, Erdogan, e russo, Putin. Todos eles apostam na rede e na forma como ela funciona, em sua comunicação direta, sua interconexão e na maciça multiplicação dos conteúdos.
"É preciso poder dizer isso", tem reivindicado o AfD regularmente em suas declarações. Linguagem simples e um conjunto reduzido de mensagens claras contribuem para o sucesso da legenda. Termos de luta centrais se consolidam na internet, sendo, então transferidos para a discussão política: "imprensa da mentira", "canalha migrante", "traidores do povo", "islamização", "inversão étnica", "clube de swingers político" – em 2017 a lista seguramente continuará se estendendo. Essa linguagem é um fator de êxito decisivo para a AfD.
Qual é a reação adequada? Para a política como para a mídia: manter a credibilidade – o que inclui nem ignorar os temas e emoções na internet, nem minimizá-los. Compreender que política e mídia existem para abordar os temas que movimentam as pessoas, e que ambas lhes devem contas; que a fidelidade aos fatos é o que fará a diferença, o mais tardar depois das eleições.
E que a corrida já está perdida se nos furtarmos a esses debates – difíceis, mas tão importantes para nosso futuro social e político – e simplesmente contornarmos esses assuntos: isso não vai funcionar!
O espaço público está se modificando fundamentalmente na Alemanha: aquilo que se inicia como tuíte ou post é capaz de desencadear violência concreta, tem efeito imediato sobre a coesão social no país e também sobre os resultados eleitorais.
Já há abundantes exemplos disso em 2016: as agressões direcionadas na comemoração da Reunificação Alemã em Dresden, em 3 de outubro, o incêndio de uma mesquita na mesma cidade, apenas uma semana antes, a necessidade de proteção policial para deputados críticos à Turquia, o acréscimo mensurável dos crimes de motivação política, a quintuplicação dos ataques a alojamentos de requerentes de asilo.
A campanha para as eleições legislativas de 2017 mostrará: estamos diante de uma transformação radical do espaço público na Alemanha. Qual foi a última vez que um editorial jornalístico desencadeou debate por todo o país? E os debates fundamentais, que dão orientação política e influenciam as decisões eleitorais: eles ainda transcorrem nos parlamentos ou nas associações partidárias locais? Ou será que tudo se desloca para a internet, onde muitas vezes o debate é travado de forma desconsiderada, desumana, sem fatos, como mero embate de opiniões?
Não se trata nem de opiniões equivocadas de uma minoria na rede nem de discussões entre supostos excluídos da sociedade. Quem crê nisso, está no caminho errado. Pois os diferentes movimentos estão em conexão estreita na internet, do movimento xenófobo de protesto Pegida, passando pelos extremistas de direita e o Movimento Identitário (na Alemanha, sob observação dos órgãos de segurança interna), até a agência de notícias russa Sputnik ou as diversas ramificações regionais do partido populista de direita Alternativa para a Alemanha (AfD).
Eles se fortalecem reciprocamente, para além das fronteiras nacionais, e expandem sua influência constante e mensuravelmente através das mais diferentes plataformas. A rede transforma suas posições políticas em histórias, aglutina seus motivos e conceitos.
Tais campanhas online criam heróis – grandes vencedores políticos como, por exemplo, Donald Trump. Mas também informam os adeptos fundamentalistas na rede sobre os devastadores "atos heroicos" dos autores de atentados jihadistas.
E as campanhas dão aos milhões de seguidores e membros de grupos que compartilham essas histórias a certeza de terem encontrado correligionários e de finalmente ter alguém que os escute. Assim, eles têm a boa sensação de ser porta-vozes em suas comunidades virtuais, determinantes de agenda nos grupos do Facebook, no Twitter, nos comentários dos usuários dos grandes sites de notícias.
Da agenda desses protagonistas ultradireitistas e populistas de direita da rede constam temas centrais para todos: censura e liberdade de opinião, como tramitam os processos democráticos, quanta justiça há na Alemanha? E aí é colocada em questão, em diversos momentos, a credibilidade e capacidade de ação de nossos processos e instituições democráticas, assim como os valores de uma sociedade aberta e tolerante.
Nunca é demais enfatizar, pois na campanha eleitoral de 2017 será decisiva a forma como os partidos e a mídia da Alemanha vão se posicionar quanto a esses temas altamente sensíveis. Quem achar que pode se esquivar deles em seu programa eleitoral, está no caminho errado.
Aprender com Trump significa aprender como vencer – isso é algo que os representantes da AfD não tentam esconder em suas aparições públicas. A convicção de Trump é, sabidamente: "Não preciso de partido, nem de mídia. Eu sou um movimento!"
O mesmo, aliás, também vale para antidemocratas como os presidentes turco, Erdogan, e russo, Putin. Todos eles apostam na rede e na forma como ela funciona, em sua comunicação direta, sua interconexão e na maciça multiplicação dos conteúdos.
"É preciso poder dizer isso", tem reivindicado o AfD regularmente em suas declarações. Linguagem simples e um conjunto reduzido de mensagens claras contribuem para o sucesso da legenda. Termos de luta centrais se consolidam na internet, sendo, então transferidos para a discussão política: "imprensa da mentira", "canalha migrante", "traidores do povo", "islamização", "inversão étnica", "clube de swingers político" – em 2017 a lista seguramente continuará se estendendo. Essa linguagem é um fator de êxito decisivo para a AfD.
Qual é a reação adequada? Para a política como para a mídia: manter a credibilidade – o que inclui nem ignorar os temas e emoções na internet, nem minimizá-los. Compreender que política e mídia existem para abordar os temas que movimentam as pessoas, e que ambas lhes devem contas; que a fidelidade aos fatos é o que fará a diferença, o mais tardar depois das eleições.
E que a corrida já está perdida se nos furtarmos a esses debates – difíceis, mas tão importantes para nosso futuro social e político – e simplesmente contornarmos esses assuntos: isso não vai funcionar!
Como o discurso político virou entretenimento
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| Igor Morski |
A denúncia de que a comunicação política se rebaixou definitivamente a um circo de bufões populistas virou um mantra mundial em 2016. Em setembro, a revista The Economist publicou uma capa sobre a “pós-verdade”. Segundo o semanário inglês, os políticos – e mesmo os estadistas – não precisam mais ter compromisso com a verdade dos fatos, e a maior demonstração do fenômeno seria Donald Trump, que fez sua campanha movida a mentiras escalafobéticas. Os eleitores também não estão nem aí: tomam suas decisões com base em fanatismos e mistificações, estimulados pela performance do histrião da vez. Se o que ele diz é verdade ou mentira, ora, isso é um detalhe irrelevante.
É claro que a distorção não vem de hoje. Nem de ontem. A própria expressão “pós-verdade” – que, por sinal, foi eleita pelo Dicionário Oxford como “a palavra do ano” – entrou no circuito ainda em 2004, quando foi título de um livro de Ralph Keyes – The Post-Truth Era: Dishonesty and Deception in Contemporary Life. Bem antes disso, Alain Touraine, em tons comedidos, já lamentava a transformação da política num jogo de “atores”. Mentira e política, enfim, são íntimos há muito tempo. A novidade é que a coisa piorou muito.
“Durante um breve período tivemos a ilusão de que poderíamos (...) voltar à argumentação racional, de modo que a retórica pudesse substituir os ritos. (...) As sociedades complexas e de mudanças rápidas, contudo, pouco a pouco deixam de ser sociedades de intercâmbio, da comunicação e da argumentação, para ser cada vez mais sociedades da expressão. A unidade de comunicação entre o emissor e o receptor vai se quebrando. Cada vez menos tratamos com comunicadores e cada vez mais com atores”
Alain Touraine, Communication politique et crise de la représentativité (1989)Hoje, os discursos políticos se encaixaram perfeitamente bem na grande indústria do entretenimento. Seja nas campanhas eleitorais, seja nas mensagens que o poder público dirige aos cidadãos, a comunicação política segue cada vez mais as regras, os formatos e os ritmos estabelecidos pelo entretenimento. Não é preciso que nos lembremos do palhaço Tiririca, um supercampeão das urnas, para nos rendermos a essa constatação. Não é preciso citar o êxito de um Silvio Berlusconi na Itália, de um Arnold Schwarzenegger na Califórnia, de um Marcelo Crivella no Rio de Janeiro ou de um João Doria em São Paulo, todos adestrados pelo cinema e pela televisão, para sabermos de vez que os ideólogos perderam seu lugar para os marqueteiros, que os pensadores vêm sendo substituídos pelos animadores de auditório, que a razão vai sendo revogada pela diversão e que os palanques, depois de convertidos em palanques eletrônicos, agora fulguram como picadeiros virtuais. O respeitável público ora gargalha, ora espuma de ódio, e vota como quem aplaude.
Não é mais pelas leis da retórica, da oratória e da lógica que se entende a identificação entre governantes e governados. Elementos estéticos incidem fortemente nos laços de atração entre os “atores” do teatro político e seus seguidores acríticos. Não custa alertar que falamos aqui de uma estética menos “artística” e mais industrializada, fabricada pela indústria cultural. Falamos de uma “estética” artificial, que se vê em rodas de liga leve, em acessórios do vestuário, na decoração de interiores, na fachada de agências bancárias. É essa “estética” rebaixada, tão característica da indústria do entretenimento, que explica o comportamento da massa seduzida. Não é a economia que define o eleitor – é o circo, por mais que a economia tenha seu peso.
Nas redes sociais isso é flagrante. Por que notícias abusivamente mentirosas – como a de que o papa teria dado seu apoio a Trump – ganharam tanta adesão de tantos americanos? A resposta é tão simples quanto desalentadora. As calúnias, infâmias e invencionices extraem sua força do desejo do eleitor. Passam longe da razão. Se a notícia falsa cai no agrado das fantasias que ele nutre, será proclamada verdade suprema naquele instante de puro prazer.
As pessoas escolhem suas causas políticas com os mesmos neurônios com que escolhem um estilo de game, um gênero de filme (drama, ação, suspense, etc.), um time de futebol ou um ídolo do sertanejo universitário. A opinião pública é uma criança mimada: supõe que a realidade existe para diverti-la, para vingá-la, para lavar-lhe a alma ressentida.
A esse deslocamento estético corresponde um redimensionamento ético. Com isso a ética do discurso político vai mudando. Antes, ele se comportava como um discurso lastreado na verdade dos fatos. De uns tempos para cá, parece comportar-se como um discurso de ficção, de entretenimento. Numa telenovela, por exemplo, é aceitável que, lá pelas tantas, a personagem diga que tal refrigerante é uma delícia (trata-se do famigerado “merchandising”). O telespectador não se incomoda, em nada, mas, se o telejornal adotasse a mesma prática, ele se sentiria traído.
Eis, então, que na era da “pós-verdade” até mesmo “merchandising” o discurso político deu de fazer. É inacreditável. Soube-se agora que em 2013, ao fazer uma palestra paga na inauguração de uma fábrica de cerveja, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, atendendo a encomenda expressa daqueles que o contrataram, afirmou em sua fala: “Eu duvido que a gente tome no mundo uma cerveja melhor que a Itaipava. A melhor cerveja que o povo nordestino vai beber. Cerveja de qualidade”. (Ver reportagem de Ricardo Brandt, Fábio Serapião, Julia Affonso, Beatriz Bulla e Fausto Macedo, Propaganda de cerveja em palestra, publicada no Estado de 29 de dezembro, página A6.) Identidade mais perfeita entre a marca de um político e a marca de uma mercadoria, impossível.
Mais um pouco, vão legalizar o “merchandising político” como solução para o financiamento das campanhas eleitorais. O entretenimento tomou o poder e sai caro.
Assim a sociedade de consumo destrói a biodiversidade do planeta
Os humanos começam a admitir que somos como um meteorito que vai provocar a nova megaextinção de espécies no planeta Terra. Mas ainda nos falta muita informação sobre o tamanho desse meteorito coletivo e o alcance da devastação que juntos causaremos. Sabemos, por exemplo, que a exploração maciça dos recursos naturais é um dos grandes fatores associados à devastação da biodiversidade, mas são necessários mais dados para conectar esse fenômeno com nosso consumo desmesurado.
Um estudo pioneiro, divulgado nesta quarta-feira, mostra a grande responsabilidade do comércio global na extinção maciça de espécies no mundo, traçando uma clara correlação entre a cesta de compras dos países mais consumidores e as selvagens pressões que massacram os tesouros naturais. O cafezinho que alguém toma nos EUA, por exemplo, está ligado ao desmatamentoda América Central – onde esse café é cultivado –, e esse é o habitat do acuado macaco-aranha, o mais ameaçado do planeta.
“Pelo menos um terço das ameaças à biodiversidade em todo o mundo estão vinculadas à produção para o comércio internacional”, dizem os autores do estudo publicado na Nature Ecology & Evolution. Em seu trabalho, eles mapearam locais do planeta onde há quase 7.000 espécies ameaçadas, estabelecendo sua conexão com a cadeia de consumo nos EUA, China e Japão. Desse modo, pode-se ver facilmente como os animais sob risco em determinados pontos do planeta sofrem com a demanda de bens por parte dos grandes consumidores.
Por exemplo, o lince e dúzias de outras espécies sofrem na península Ibérica pela pressão da produção agrícola que abastece os mercados europeus e norte-americanos. “É digno de menção o importante rastro dos EUA na biodiversidade do sul da Espanha e Portugal, ligado aos impactos sobre uma série de espécies ameaçadas de peixes e aves, já que esses países raramente são percebidos como pontos de ameaça”, afirmam os autores no estudo.
“O que este trabalho nos mostra é que os humanos estão assaltando o planeta”, resume David Nogués-Bravo, especialista em macroecologia da Universidade de Copenhague. Nogués-Bravo, que não participou do estudo, diz que os impactos humanos sobre a natureza podem ser representados como um redemoinho que engole a diversidade de seres vivos sobre a Terra. “Esse turbilhão é constituído por três nós: poder, comida e dinheiro. A capacidade da nossa espécie de sugar energia e recursos do planeta é quase ilimitada, e é o que está provocando a sexta extinção maciça na história da Terra”, denúncia o ecologista.
Para ele, tanto o enfoque como os resultados são muito pertinentes, porque põem em perspectiva as perdas de biodiversidade, principalmente em países tropicais em vias de desenvolvimento, e os fluxos de demanda que se originam nos países mais ricos e industrializados.
“O planeta inteiro se tornou uma fazenda, tudo está a serviço de fornecer cada vez mais bens”, critica Juan Carlos del Olmo, secretário-geral da organização conservacionista WWF na Espanha. “O maior vetor de destruição da biodiversidade é a produção de alimentos numa escala brutal”, aponta. Os autores do estudo relatam, por exemplo, sua surpresa ao comprovar que o principal foco de ameaça aos tesouros naturais do Brasil não está na Amazônia. “Apesar da grande atenção dedicada à selva amazônica, o rastro norte-americano no Brasil é maior no sul, no planalto brasileiro, onde há práticas agropecuárias extensivas”, ressalta o trabalho.
“E o rastro ecológico não para de crescer", acrescenta Del Olmo, “mas reduzir esse rastro não é fácil; não podemos fomentar um consumo responsável se depois vamos jogar fora 25% do que se produz”. Como alterar a influência negativa destes fluxos? “Com este enfoque, do rastro de cima para baixo, examinamos todas as espécies ameaçadas e a atividade econômica em conjunto, razão pela qual pode ser difícil estabelecer vínculos claros entre consumo, comércio e impacto”, admitiu ao El País um dos autores do estudo, Keiichiro Kanemoto, da Universidade de Shinshu.
Um estudo pioneiro, divulgado nesta quarta-feira, mostra a grande responsabilidade do comércio global na extinção maciça de espécies no mundo, traçando uma clara correlação entre a cesta de compras dos países mais consumidores e as selvagens pressões que massacram os tesouros naturais. O cafezinho que alguém toma nos EUA, por exemplo, está ligado ao desmatamentoda América Central – onde esse café é cultivado –, e esse é o habitat do acuado macaco-aranha, o mais ameaçado do planeta.
“Pelo menos um terço das ameaças à biodiversidade em todo o mundo estão vinculadas à produção para o comércio internacional”, dizem os autores do estudo publicado na Nature Ecology & Evolution. Em seu trabalho, eles mapearam locais do planeta onde há quase 7.000 espécies ameaçadas, estabelecendo sua conexão com a cadeia de consumo nos EUA, China e Japão. Desse modo, pode-se ver facilmente como os animais sob risco em determinados pontos do planeta sofrem com a demanda de bens por parte dos grandes consumidores.

Por exemplo, o lince e dúzias de outras espécies sofrem na península Ibérica pela pressão da produção agrícola que abastece os mercados europeus e norte-americanos. “É digno de menção o importante rastro dos EUA na biodiversidade do sul da Espanha e Portugal, ligado aos impactos sobre uma série de espécies ameaçadas de peixes e aves, já que esses países raramente são percebidos como pontos de ameaça”, afirmam os autores no estudo.
“O que este trabalho nos mostra é que os humanos estão assaltando o planeta”, resume David Nogués-Bravo, especialista em macroecologia da Universidade de Copenhague. Nogués-Bravo, que não participou do estudo, diz que os impactos humanos sobre a natureza podem ser representados como um redemoinho que engole a diversidade de seres vivos sobre a Terra. “Esse turbilhão é constituído por três nós: poder, comida e dinheiro. A capacidade da nossa espécie de sugar energia e recursos do planeta é quase ilimitada, e é o que está provocando a sexta extinção maciça na história da Terra”, denúncia o ecologista.
Para ele, tanto o enfoque como os resultados são muito pertinentes, porque põem em perspectiva as perdas de biodiversidade, principalmente em países tropicais em vias de desenvolvimento, e os fluxos de demanda que se originam nos países mais ricos e industrializados.
“O planeta inteiro se tornou uma fazenda, tudo está a serviço de fornecer cada vez mais bens”, critica Juan Carlos del Olmo, secretário-geral da organização conservacionista WWF na Espanha. “O maior vetor de destruição da biodiversidade é a produção de alimentos numa escala brutal”, aponta. Os autores do estudo relatam, por exemplo, sua surpresa ao comprovar que o principal foco de ameaça aos tesouros naturais do Brasil não está na Amazônia. “Apesar da grande atenção dedicada à selva amazônica, o rastro norte-americano no Brasil é maior no sul, no planalto brasileiro, onde há práticas agropecuárias extensivas”, ressalta o trabalho.
“E o rastro ecológico não para de crescer", acrescenta Del Olmo, “mas reduzir esse rastro não é fácil; não podemos fomentar um consumo responsável se depois vamos jogar fora 25% do que se produz”. Como alterar a influência negativa destes fluxos? “Com este enfoque, do rastro de cima para baixo, examinamos todas as espécies ameaçadas e a atividade econômica em conjunto, razão pela qual pode ser difícil estabelecer vínculos claros entre consumo, comércio e impacto”, admitiu ao El País um dos autores do estudo, Keiichiro Kanemoto, da Universidade de Shinshu.
Os sofistas
É muito conhecida a alegoria da caverna de Platão, uma das passagens mais importantes do livro A República, o clássico dos clássicos da política, no qual o filósofo grego discute o papel do conhecimento, da linguagem e da educação no Estado ideal. Nela, resumidamente, prisioneiros acorrentados no interior de uma caverna dão nomes às sombras bruxuleantes de homens, animais e plantas projetadas na parede pela luz de uma fogueira.
Um dos prisioneiros se livra das amarras e, ao percorrer a caverna, percebe que as imagens não eram de seres reais, mas de estátuas cujas silhuetas eram projetadas pela fogueira. Descobre que passou a vida inteira julgando apenas sombras e ilusões, desconhecendo a verdade, isto é, a verdadeira realidade. Arrastado para fora da caverna, ao sair, o homem é ofuscado pela luz do sol. Depois de se habituar com a nova realidade, volta a enxergar fora da caverna.
Encantado com os seres de verdade, regressa para a caverna e conta o que viu para os prisioneiros. Entretanto, é ridicularizado pelos demais, que só conseguem acreditar na realidade que enxergam na parede da caverna. É chamado de louco e ameaçado de morte porque suas ideias são consideradas absurdas.
Como esses prisioneiros da caverna, muita gente se recusa a compreender que houve um esgotamento do modelo de capitalismo de Estado e do padrão de financiamento da política adotado nos governos Lula e Dilma. Ambos estavam em contradição com o Estado de direito democrático e, no fundo, a serviço do velho patrimonialismo e do saque predatório dos cofres públicos como forma de acumulação de capital, cujo maior símbolo é o escândalo da Petrobras.
Foi para os que ainda vivem nesse mundo das sombras bruxuleantes que o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva falou, em sua mensagem de ano-novo. Candidato à Presidência da República por antecipação, nas redes sociais, propôs a convocação imediata de eleições e prometeu mundos e fundos à custa do aumento da inflação, do endividamento e do déficit fiscal. Não, não há exagero, ele prometeu girar a roda do crescimento dessa maneira mesmo, ou seja, à moda populista da pior espécie.
Lula age como os antigos sofistas tão criticados por Platão. Encantavam os espíritos com argumentos que nada tinham a ver com a verdade, só visavam a conquista de opiniões. A diferença entre os sofistas e Lula, porém, é que os antigos se satisfaziam com a vitória passageira dos argumentos à custa da verdade, enquanto o líder petista quer uma vitória à custa da realidade. Mais uma vez os fins
A mensagem de fim de ano do petista, porém, contrasta fortemente com os discursos de posse dos prefeitos eleitos. Há uma certa dose de demagogia em algumas atitudes tomadas ontem, como a do prefeito de São Paulo, João Doria (PSDB), ao se vestir de gari na primeira ação do governo ou do prefeito do Rio de Janeiro, Marcelo Crivella (PRB), ao posar como doador de sangue. O primeiro gesto simbolizou uma faxina na administração paulista; o segundo, uma entrega total à gestão da cidade.
Em ambos os casos, porém, há uma diferença da água para o vinho em relação à mensagem do petista. A maioria dos prefeitos eleitos que tomaram posse não fez promessas mirabolantes, não apresentou projetos faraônicos, não prometeu mundos e fundos. Apenas sinalizaram que pretendem trabalhar duro e se entregar à missão para a qual foram eleitos. É uma das características dessa nova safra de prefeitos: defender propostas mais condizentes com a situação real do país, o que é um sinal muito bom.
O mau sinal, porém, é a catilinária dos que acham que a União deve resolver os problemas fiscais de estados e municípios, mais uma vez. Essa pressão vem sendo feita pelos governadores encalacrados nas dívidas, que agora tentam mobilizar os prefeitos recém-eleitos com os mesmos objetivos. Não há como fechar essa equação. Todos os níveis de governo precisam se ajustar à realidade e redimensionar as estruturas administrativas, garantindo, porém, os serviços básicos. Sem isso, o resultado inevitável será o colapso desses serviços e a incapacidade de pagamento de fornecedores e servidores.
Um dos prisioneiros se livra das amarras e, ao percorrer a caverna, percebe que as imagens não eram de seres reais, mas de estátuas cujas silhuetas eram projetadas pela fogueira. Descobre que passou a vida inteira julgando apenas sombras e ilusões, desconhecendo a verdade, isto é, a verdadeira realidade. Arrastado para fora da caverna, ao sair, o homem é ofuscado pela luz do sol. Depois de se habituar com a nova realidade, volta a enxergar fora da caverna.
Encantado com os seres de verdade, regressa para a caverna e conta o que viu para os prisioneiros. Entretanto, é ridicularizado pelos demais, que só conseguem acreditar na realidade que enxergam na parede da caverna. É chamado de louco e ameaçado de morte porque suas ideias são consideradas absurdas.
Foi para os que ainda vivem nesse mundo das sombras bruxuleantes que o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva falou, em sua mensagem de ano-novo. Candidato à Presidência da República por antecipação, nas redes sociais, propôs a convocação imediata de eleições e prometeu mundos e fundos à custa do aumento da inflação, do endividamento e do déficit fiscal. Não, não há exagero, ele prometeu girar a roda do crescimento dessa maneira mesmo, ou seja, à moda populista da pior espécie.
Lula age como os antigos sofistas tão criticados por Platão. Encantavam os espíritos com argumentos que nada tinham a ver com a verdade, só visavam a conquista de opiniões. A diferença entre os sofistas e Lula, porém, é que os antigos se satisfaziam com a vitória passageira dos argumentos à custa da verdade, enquanto o líder petista quer uma vitória à custa da realidade. Mais uma vez os fins
A mensagem de fim de ano do petista, porém, contrasta fortemente com os discursos de posse dos prefeitos eleitos. Há uma certa dose de demagogia em algumas atitudes tomadas ontem, como a do prefeito de São Paulo, João Doria (PSDB), ao se vestir de gari na primeira ação do governo ou do prefeito do Rio de Janeiro, Marcelo Crivella (PRB), ao posar como doador de sangue. O primeiro gesto simbolizou uma faxina na administração paulista; o segundo, uma entrega total à gestão da cidade.
Em ambos os casos, porém, há uma diferença da água para o vinho em relação à mensagem do petista. A maioria dos prefeitos eleitos que tomaram posse não fez promessas mirabolantes, não apresentou projetos faraônicos, não prometeu mundos e fundos. Apenas sinalizaram que pretendem trabalhar duro e se entregar à missão para a qual foram eleitos. É uma das características dessa nova safra de prefeitos: defender propostas mais condizentes com a situação real do país, o que é um sinal muito bom.
O mau sinal, porém, é a catilinária dos que acham que a União deve resolver os problemas fiscais de estados e municípios, mais uma vez. Essa pressão vem sendo feita pelos governadores encalacrados nas dívidas, que agora tentam mobilizar os prefeitos recém-eleitos com os mesmos objetivos. Não há como fechar essa equação. Todos os níveis de governo precisam se ajustar à realidade e redimensionar as estruturas administrativas, garantindo, porém, os serviços básicos. Sem isso, o resultado inevitável será o colapso desses serviços e a incapacidade de pagamento de fornecedores e servidores.
Austeridade ostentação
Ano novo, desculpa para sonhar. Imagine um entediado hacker russo de férias em Copacabana. Vermelho – pelo sol, não por ideologia –, refugia-se no ar condicionado de sua quitinete alugada pelo Airbnb. Após assistir ao enésimo telejornal, ele, por vingança e diversão, infecta e desabilita de vez todas as câmeras de vídeo e foto apontadas para governantes brasileiros. Ao primeiro sinal de uma autoridade no visor, elas se apagam. Nem os smartphones escapam. Imaginou as consequências?
Para começar, nunca mais um prefeito se fantasiaria de gari. Qual a graça de vestir uniforme e exibir falta de intimidade com a vassoura se ninguém fotografa ou grava? Salvo o prefeito crer que o melhor jeito de exercer seu mandato é fingir que trabalha enquanto anônimos limpam a cidade dignamente, é claro.
Os frequentadores de botecos e padarias não mais teriam sua rotina interrompida pela turba que acompanha governadores, deputados e similares em visitas oportunistas a esse tipo de estabelecimento durante as campanhas eleitorais. Em compensação, os políticos nunca mais seriam flagrados fazendo careta ao tomar o cafezinho saído direto do banho-maria ou comendo aquela coxinha resgatada do esquecimento na vitrine do balcão.
Tremendo pelos efeitos da abstinência midiática, um hierarca perguntaria aos assessores apalermados: “Mas nem uma selfie?”.
A repentina escassez de imagens de dignatários seria devastadora para os canais de TV oficiais e oficiosos. Nada de transmissões ao vivo dos salões do Congresso – muito menos dos plenários dos tribunais superiores. Silenciadas e deprimidas, togas falantes do Supremo cogitariam se aposentar antes da hora. Por outro lado, os julgamentos seriam sumários, e os votos, sintéticos.
Sem poder aparecer no vídeo, procuradores da República recorreriam cada vez mais a PowerPoints para apresentar suas denúncias. Mas sem as imagens dos políticos algemados, os escândalos de corrupção perderiam audiência.
Nem entrevista coletiva de tecnocrata escaparia ao filtro do hacker siberiano. Longe das câmeras, cerimônias de posse e assinaturas simbólicas de atos oficiais cairiam em desuso. Ociosos, burocratas a cargo do cerimonial dos palácios seriam dispensados – mas os governantes nem sequer faturariam com suas demissões: sem refletores não existe ostentação de austeridade.
Em contrapartida, os porta-vozes adquiririam status inédito. Se transformariam na única cara dos governos – até acharem que eram a própria autoridade e serem também censurados pelas câmeras.
Como efeito colateral do vírus russo, os microfones emudeceriam ao detectarem o som da voz do presidente ou de um simples vereador do interior. “Pra que discursar se não vai sair nem na Voz do Brasil?”, se questionariam parlamentares em crise existencial. O pequeno expediente da Câmara se transformaria em um deserto de homens (de ideias já é faz tempo).
Concessões de rádio e TV perderiam seu capital eleitoral. Sem poder aparecer nas próprias emissoras – nem mostrar adversários em situações vexatórias –, políticos mandariam seus laranjas se livrarem dos canais e investirem em mídias sociais, as únicas poupadas do ataque cibernético.
Sem a contraprova das imagens nem dos sons gravados, declarações atribuídas a autoridades se multiplicariam pela internet. Boatos não poderiam ser desmentidos. Da revogação da lei da gravidade às fofocas sobre as libertinagens de ministros, tudo seria crível. A era da pós-verdade chegaria à fase terminal. Até o hacker ser chamado de volta para ajudar o recém-empossado presidente de um país que se tornara o mais novo aliado russo.
Para começar, nunca mais um prefeito se fantasiaria de gari. Qual a graça de vestir uniforme e exibir falta de intimidade com a vassoura se ninguém fotografa ou grava? Salvo o prefeito crer que o melhor jeito de exercer seu mandato é fingir que trabalha enquanto anônimos limpam a cidade dignamente, é claro.
Os frequentadores de botecos e padarias não mais teriam sua rotina interrompida pela turba que acompanha governadores, deputados e similares em visitas oportunistas a esse tipo de estabelecimento durante as campanhas eleitorais. Em compensação, os políticos nunca mais seriam flagrados fazendo careta ao tomar o cafezinho saído direto do banho-maria ou comendo aquela coxinha resgatada do esquecimento na vitrine do balcão.
Tremendo pelos efeitos da abstinência midiática, um hierarca perguntaria aos assessores apalermados: “Mas nem uma selfie?”.
A repentina escassez de imagens de dignatários seria devastadora para os canais de TV oficiais e oficiosos. Nada de transmissões ao vivo dos salões do Congresso – muito menos dos plenários dos tribunais superiores. Silenciadas e deprimidas, togas falantes do Supremo cogitariam se aposentar antes da hora. Por outro lado, os julgamentos seriam sumários, e os votos, sintéticos.
Sem poder aparecer no vídeo, procuradores da República recorreriam cada vez mais a PowerPoints para apresentar suas denúncias. Mas sem as imagens dos políticos algemados, os escândalos de corrupção perderiam audiência.
Nem entrevista coletiva de tecnocrata escaparia ao filtro do hacker siberiano. Longe das câmeras, cerimônias de posse e assinaturas simbólicas de atos oficiais cairiam em desuso. Ociosos, burocratas a cargo do cerimonial dos palácios seriam dispensados – mas os governantes nem sequer faturariam com suas demissões: sem refletores não existe ostentação de austeridade.
Em contrapartida, os porta-vozes adquiririam status inédito. Se transformariam na única cara dos governos – até acharem que eram a própria autoridade e serem também censurados pelas câmeras.
Como efeito colateral do vírus russo, os microfones emudeceriam ao detectarem o som da voz do presidente ou de um simples vereador do interior. “Pra que discursar se não vai sair nem na Voz do Brasil?”, se questionariam parlamentares em crise existencial. O pequeno expediente da Câmara se transformaria em um deserto de homens (de ideias já é faz tempo).
Concessões de rádio e TV perderiam seu capital eleitoral. Sem poder aparecer nas próprias emissoras – nem mostrar adversários em situações vexatórias –, políticos mandariam seus laranjas se livrarem dos canais e investirem em mídias sociais, as únicas poupadas do ataque cibernético.
Sem a contraprova das imagens nem dos sons gravados, declarações atribuídas a autoridades se multiplicariam pela internet. Boatos não poderiam ser desmentidos. Da revogação da lei da gravidade às fofocas sobre as libertinagens de ministros, tudo seria crível. A era da pós-verdade chegaria à fase terminal. Até o hacker ser chamado de volta para ajudar o recém-empossado presidente de um país que se tornara o mais novo aliado russo.
Paraísos extintos
Hoje em dia se empregam eufemismos como "globalização" e "acordos comerciais". Isso implica que a comida já não se define como alimento, e sim como mercadoria.
Onde outrora as pessoas podiam comer o que colhiam em seus campos, hoje se cultivam cada vez mais produtos inúteis, a que somente os países mais ricos domundo podem ter acesso. Não vivemos mais da natureza. Foi-se o tempo dos paraísosJostein Gaarder
A gaiola dourada da popularidae
Houve quem criticasse Nizan Guanaes quando ele recomendou ao presidente Michel Temer aproveitar a sua impopularidade para adotar medidas duras, a fim de restabelecer o equilíbrio fiscal e promover a retomada do crescimento econômico. Eu estava a seu lado no Conselhão quando ele fez a recomendação.
Em síntese, ele dizia que o presidente deveria tratar de temas duros sem se preocupar em ser popular. A declaração foi longe e gerou debate, mas Nizan estava coberto de razão. O estado em que o Brasil se encontra demanda medidas que dificilmente serão populares.
Ninguém acredita que uma Previdência Social tecnicamente quebrada possa ser reformada sem dor. Muitos sabem que os salários devem ser congelados e os benefícios cortados, conforme feito em Portugal. A questão da popularidade, porém, persegue os governantes assim como os autores de novela perseguem o Ibope.
O filósofo suíço Alain de Botton é de uma sinceridade devastadora ao explicar a obsessão em querer ser popular, buscar o elogio e o reconhecimento, querer agradar sempre. No Brasil rasteiro, há quem considere a popularidade a medida do sucesso, em especial quando se mistura espetáculo com política. Não importa como se consegue ser popular nem em que circunstâncias.
Muitos acham que o presidente deve ter a preocupação de agradar sempre por conta do ciclo eleitoral. Que deve tomar medidas duras de início e guardar os agrados para o último ano e meio do mandato, numa dinâmica que atende ao interesse eleitoral e não ao nacional.
A busca da popularidade extrapola o limite dos mandatos. É o caso da antecipação de aumentos salariais pelo governador que deixa o cargo para que sua decisão seja cumprida pelo governador que acabou de ser eleito. Uma espécie de bomba-relógio para as finanças públicas na ânsia de ser eleitoralmente popular.
Agradar deveria ser a última das preocupações de um presidente. E sua popularidade deveria decorrer de uma análise fria dos acontecimentos. Algo que jamais acontecerá, considerando a profundidade de nosso entendimento sobre o cotidiano. Afinal, vivemos em um país raso, onde quem explica também busca a popularidade.
Daí a espetacularização do noticiário. As manchetes são movidas pelo espetáculo. As fotos de capa mostram o detalhe do cabelo despenteado ou um leve roçar no nariz, de forma a forçar a vista para o inusitado. Popularidade a qualquer preço.
Recorrentemente, vemos celebridades e subcelebridades artísticas que, por conta de sua exposição, se acham no direito de dar opinião sobre o que não conhecem. Surfam nas ondas baixas do senso comum em busca de popularidade. Confirmam, usando o axioma “com certeza”, o que o senso comum espera ser confirmado em círculo vicioso de intensa mediocridade.
O francês Michel Houellebecq, mesmo sendo um dos mais respeitados escritores da atualidade, se diz escritor e não intelectual. E afirma que não deve dar opinião sobre tudo. No Brasil rasteiro, falta pudor às nossas celebridades e juízo aos comunicadores, que se encarregam de propagar as besteiras ditas em favor da popularidade. Assassina-se, diariamente, uma das maiores conquistas do século passado: a reflexividade.
Dilma Rousseff, a mais incompetente presidente de nossa história, foi, paradoxalmente, a presidente mais popular. No início de 2013, bateu recordes de popularidade e aprovação. Acabou melancolicamente descartada no lixão político de nossa República. É uma prova de que popularidade não é tudo e pode terminar mal, se não vier acompanhada de decisões políticas consistentes.
Mesmo sendo uma armadilha terrível, a busca pela popularidade é a tônica da nossa sociedade. Daí muitos não terem entendido quando o grupo Los Hermanos desprezou a sua mais popular canção, “Ana Júlia”. Eles queriam ir além da popularidade pop que a canção lhes trouxe. Se não fizessem isso, teriam se transformado, certamente, em uma espécie de “one hit wonder” nacional, como o Sylvinho, do “Ursinho Blau-Blau”.
Na explicação do fenômeno político, as armadilhas são cotidianas. Seguir o “bom senso” ou o “senso comum” pode ser o caminho para a popularidade. Mas não o caminho para o sucesso do analista. Usar a indignação como ponto de ênfase para as explicações também é outro atalho para a popularidade. Mas leva para longe a verdade dos fatos. Na política, a indignação pode justificar, mas não explica.
O mais grave não é apenas o desejo doentio do reconhecimento. É o fato de que a verdade deixou de fazer sentido. São tempos de pós-verdade. Era de factoides. Fatos que parecem mas não são verdades, assim como os julgamentos indignados sobre o porquê das coisas.
Quando Nizan, mago da publicidade e celebridade internacional, recomendou que o presidente aproveitasse as vantagens da impopularidade, machucou um dos objetivos mais caros da vida de milhões: ser popular. Para a imensa maioria, a sugestão de Nizan é algo absolutamente incompreensível. Neste momento, se formos medir o governo pela popularidade, certamente estaremos aprofundando a vala comum de nosso fracasso coletivo.
Em síntese, ele dizia que o presidente deveria tratar de temas duros sem se preocupar em ser popular. A declaração foi longe e gerou debate, mas Nizan estava coberto de razão. O estado em que o Brasil se encontra demanda medidas que dificilmente serão populares.
Ninguém acredita que uma Previdência Social tecnicamente quebrada possa ser reformada sem dor. Muitos sabem que os salários devem ser congelados e os benefícios cortados, conforme feito em Portugal. A questão da popularidade, porém, persegue os governantes assim como os autores de novela perseguem o Ibope.
O filósofo suíço Alain de Botton é de uma sinceridade devastadora ao explicar a obsessão em querer ser popular, buscar o elogio e o reconhecimento, querer agradar sempre. No Brasil rasteiro, há quem considere a popularidade a medida do sucesso, em especial quando se mistura espetáculo com política. Não importa como se consegue ser popular nem em que circunstâncias.
Muitos acham que o presidente deve ter a preocupação de agradar sempre por conta do ciclo eleitoral. Que deve tomar medidas duras de início e guardar os agrados para o último ano e meio do mandato, numa dinâmica que atende ao interesse eleitoral e não ao nacional.
Agradar deveria ser a última das preocupações de um presidente. E sua popularidade deveria decorrer de uma análise fria dos acontecimentos. Algo que jamais acontecerá, considerando a profundidade de nosso entendimento sobre o cotidiano. Afinal, vivemos em um país raso, onde quem explica também busca a popularidade.
Daí a espetacularização do noticiário. As manchetes são movidas pelo espetáculo. As fotos de capa mostram o detalhe do cabelo despenteado ou um leve roçar no nariz, de forma a forçar a vista para o inusitado. Popularidade a qualquer preço.
Recorrentemente, vemos celebridades e subcelebridades artísticas que, por conta de sua exposição, se acham no direito de dar opinião sobre o que não conhecem. Surfam nas ondas baixas do senso comum em busca de popularidade. Confirmam, usando o axioma “com certeza”, o que o senso comum espera ser confirmado em círculo vicioso de intensa mediocridade.
O francês Michel Houellebecq, mesmo sendo um dos mais respeitados escritores da atualidade, se diz escritor e não intelectual. E afirma que não deve dar opinião sobre tudo. No Brasil rasteiro, falta pudor às nossas celebridades e juízo aos comunicadores, que se encarregam de propagar as besteiras ditas em favor da popularidade. Assassina-se, diariamente, uma das maiores conquistas do século passado: a reflexividade.
Dilma Rousseff, a mais incompetente presidente de nossa história, foi, paradoxalmente, a presidente mais popular. No início de 2013, bateu recordes de popularidade e aprovação. Acabou melancolicamente descartada no lixão político de nossa República. É uma prova de que popularidade não é tudo e pode terminar mal, se não vier acompanhada de decisões políticas consistentes.
Mesmo sendo uma armadilha terrível, a busca pela popularidade é a tônica da nossa sociedade. Daí muitos não terem entendido quando o grupo Los Hermanos desprezou a sua mais popular canção, “Ana Júlia”. Eles queriam ir além da popularidade pop que a canção lhes trouxe. Se não fizessem isso, teriam se transformado, certamente, em uma espécie de “one hit wonder” nacional, como o Sylvinho, do “Ursinho Blau-Blau”.
Na explicação do fenômeno político, as armadilhas são cotidianas. Seguir o “bom senso” ou o “senso comum” pode ser o caminho para a popularidade. Mas não o caminho para o sucesso do analista. Usar a indignação como ponto de ênfase para as explicações também é outro atalho para a popularidade. Mas leva para longe a verdade dos fatos. Na política, a indignação pode justificar, mas não explica.
O mais grave não é apenas o desejo doentio do reconhecimento. É o fato de que a verdade deixou de fazer sentido. São tempos de pós-verdade. Era de factoides. Fatos que parecem mas não são verdades, assim como os julgamentos indignados sobre o porquê das coisas.
Quando Nizan, mago da publicidade e celebridade internacional, recomendou que o presidente aproveitasse as vantagens da impopularidade, machucou um dos objetivos mais caros da vida de milhões: ser popular. Para a imensa maioria, a sugestão de Nizan é algo absolutamente incompreensível. Neste momento, se formos medir o governo pela popularidade, certamente estaremos aprofundando a vala comum de nosso fracasso coletivo.
quarta-feira, 4 de janeiro de 2017
2016: um ano que não deixará saudades, mas que valeu a pena
Não sei se é o calor, que há anos vem-se apoderando da outrora cidade vergel, a principal causa do meu enfastio. Ou se são as notícias de afugentar sono, de todas as origens, tanto indígenas quanto alienígenas. Ou se é, na verdade, o peso da idade, que vai me deixando mais sensível, ao contrário do que muitos pensam, sobretudo os jovens, que só mais adiante, na maturidade, darão valor à vida que gratuitamente esbanjam. A idade, leitor, não torna o velho mais cascudo.
Tento desfiar, um por um, argumentos convincentes (que existem, não sou um parvo!) para explicar aos meus nove netos (de 27, 25, 23, 23, 22, 21, 18, 18 e 11 anos) que vale a pena permanecer em nossa terra e trabalhar para transformar nosso enorme território num país e, finalmente, numa nação. Pedro, o de 11, resiste, com seus argumentos.
No melhor estilo jornalístico, em 1989, o escritor e jornalista Zuenir Ventura, em seu mais festejado livro, “1968: O Ano Que Não Terminou”, retratou acontecimentos, no Brasil e no mundo, que o marcaram para sempre, sobretudo em nosso país. Na época, padecíamos sob férrea ditadura civil-militar, mas havia gente convencida de que residiam nesse regime soluções para nossos inúmeros e cada vez mais complexos problemas. Vinte anos mais tarde, depois de vivermos a decepção de não termos eleições diretas; de saudarmos a vitória de Tancredo Neves nas eleições indiretas pelo Congresso Nacional; e de passarmos pelo pusilânime governo Sarney, com o advento da Constituição Federal de 1988, começamos a respirar, de novo, os ares do bem mais precioso do ser humano – a liberdade, cujo preço, para mantê-lo, continua hoje o mesmo, “a sua eterna vigilância”.
Digo sempre aos filhos e netos: basta uma rápida olhada no que já passou para concluir que outros anos também nos deixaram a impressão de que não terminaram. Esse 2016, por exemplo, é só a amostra mais recente. Um ano horroroso para você, leitor, para mim, para todos os brasileiros, e que, por enquanto, não sentimos, na prática, a melhora (prometida pelo governo Temer) que viveríamos logo depois do impeachment de Dilma Rousseff. Um ano que ainda teve, quase em seu final, a presença trágica de uma brasileira: Françoise Amiridis, casada com o embaixador grego Kyriakos Amiridis há 15 anos, mãe de uma filha de 11 anos, teria sido coautora ou mandante (ou incentivadora) do covarde assassinato do marido, que contou – como não poderia deixar de ser – com a ajuda de um soldado da Polícia Militar do Rio de Janeiro.
Confesso que jamais esperei que, na despedida de 2016, fôssemos nos deparar, em Campinas, com uma barbárie fora de qualquer previsão, cometida por Sidnei Araújo, que matou, além de sua ex-mulher e de seu filho de 8 anos, mais dez pessoas. Sidnei, 46, técnico de laboratório, disputava a guarda do filho e suicidou-se.
Como se não bastassem os horrores que vêm por aí, oriundos da operação Lava Jato, 2017 nos brinda com a matança de 56 presos, no presídio Anísio Jobim, em Manaus, consequência inegável, sem dúvida nenhuma, da omissão criminosa de nossos representantes.
Se você não é um ególatra, e se não tem condições de se escudar na esperança, leitor, jamais aceitará declamar, apenas por declamar, sequer este verso do poeta Ferreira Gullar: “Sei que a vida vale a pena”, para depois concluir: “Como um tempo de alegria/ Por trás do terror me acena/ E a noite carrega o dia/ No seu colo de açucena”.
Fico com o poeta. Ele sempre tem razão.
Tento desfiar, um por um, argumentos convincentes (que existem, não sou um parvo!) para explicar aos meus nove netos (de 27, 25, 23, 23, 22, 21, 18, 18 e 11 anos) que vale a pena permanecer em nossa terra e trabalhar para transformar nosso enorme território num país e, finalmente, numa nação. Pedro, o de 11, resiste, com seus argumentos.
No melhor estilo jornalístico, em 1989, o escritor e jornalista Zuenir Ventura, em seu mais festejado livro, “1968: O Ano Que Não Terminou”, retratou acontecimentos, no Brasil e no mundo, que o marcaram para sempre, sobretudo em nosso país. Na época, padecíamos sob férrea ditadura civil-militar, mas havia gente convencida de que residiam nesse regime soluções para nossos inúmeros e cada vez mais complexos problemas. Vinte anos mais tarde, depois de vivermos a decepção de não termos eleições diretas; de saudarmos a vitória de Tancredo Neves nas eleições indiretas pelo Congresso Nacional; e de passarmos pelo pusilânime governo Sarney, com o advento da Constituição Federal de 1988, começamos a respirar, de novo, os ares do bem mais precioso do ser humano – a liberdade, cujo preço, para mantê-lo, continua hoje o mesmo, “a sua eterna vigilância”.
Confesso que jamais esperei que, na despedida de 2016, fôssemos nos deparar, em Campinas, com uma barbárie fora de qualquer previsão, cometida por Sidnei Araújo, que matou, além de sua ex-mulher e de seu filho de 8 anos, mais dez pessoas. Sidnei, 46, técnico de laboratório, disputava a guarda do filho e suicidou-se.
Como se não bastassem os horrores que vêm por aí, oriundos da operação Lava Jato, 2017 nos brinda com a matança de 56 presos, no presídio Anísio Jobim, em Manaus, consequência inegável, sem dúvida nenhuma, da omissão criminosa de nossos representantes.
Se você não é um ególatra, e se não tem condições de se escudar na esperança, leitor, jamais aceitará declamar, apenas por declamar, sequer este verso do poeta Ferreira Gullar: “Sei que a vida vale a pena”, para depois concluir: “Como um tempo de alegria/ Por trás do terror me acena/ E a noite carrega o dia/ No seu colo de açucena”.
Fico com o poeta. Ele sempre tem razão.
Como será 2017? Responda que puder
Na virada do ano milhões de brasileiros jogaram flores a Iemanjá, consultaram os búzios ou cartas de tarô, pediram para a cigana ler as suas mãos. Tudo para saber o que o destino reserva para 2017, se as suas vidas passarão pelo mesmo sufoco de 2016 ou se há sinais de que vai melhorar.
Nunca as divindades foram tão consultadas como agora, tal o mar de incertezas sobre o ano que se inicia.
As previsões vão do apocalipse da “dilmização de Temer” ao otimismo cauteloso, segundo o qual, apesar dos raios, trovões, tempestades e terremotos, ao final do ano Michel Temer ainda residirá no Palácio da Alvorada em um ambiente mais favorável na economia e na política.
A singularidade de 2017 é ser um ano-sanduiche. De um lado, dá continuidade a 2016, com toda a sua pauta negativa, de outro, está imprensado pela agenda de 2018, com as forças políticas agindo para ocupar posições para a sucessão presidencial.
Ou, em outras palavras, é o ano da transição da transição, se essa for entendida como a construção das bases necessárias para o Brasil passar de um país desestruturado pela era lulopetista para o advento de um novo modelo de bases mais sólidas, institucional e economicamente. A consolidação de tal modelo será uma missão dos pós 2018.
Esse caráter do ano em curso aparece com nitidez na área econômica, onde fatores positivos e negativos se combinam. Ao final do ano, o crescimento será raquítico, o desemprego continuará sendo um tormento na vida dos brasileiros e a dívida bruta chegará a 76,2% do PIB.
Mas é preciso levar em conta a movimentação das placas tectônicas da economia. A política macroeconômica pode começar a dar resultados. A inflação de 2016 ficará no teto da meta. Sua tendência aponta para uma aproximação para o centro da meta, em 2017. Ou seja, estarão dadas as condições para uma queda consistente da taxa básica de juros.
As medidas microeconômicas adotadas em dezembro podem surtir efeito no médio prazo, principalmente se Temer conseguir destravar as privatizações e se a recuperação em marcha dos preços das commodities tiver continuidade.
Vista em estado neutro, a tendência é de uma melhoria do ambiente e de um horizonte no qual o Brasil rompa o círculo de ferro do baixo crescimento com inflação e juros altos.
Como a economia não é um estado neutro e sofre a incidência do mundo da política, o presidente vai precisar de muita reza brava, banho de cheiro e proteção dos orixás para se livrar das duas espadas de Dâmocles que pairam sobre a sua cabeça; o julgamento das contas de Dilma e Michel Temer pelo TSE e o maracanã de delações da Odebrecht, que podem provocar um abalo sísmico no mundo da política formal e no seu governo.
José Dirceu dá de barato que 2017 será o ano do juízo final de Michel Temer, razão pela qual expediu uma carta conclamando a militância para ir às ruas e “justiça para todos, a renúncia de Temer et caterva, eleições gerais, Constituinte”.
Em campo oposto, Ronaldo Caiado vai quase na mesma direção, propondo a antecipação das eleições de 2018, e Miro Teixeira engrossa o caldo com sua emenda das diretas, como se fosse o Dante Oliveira redivivo.
A história, porém, não se repete, a não ser como farsa. Nada indica que as massas que foram às ruas pelo impeachment junte seu grito à voz cavernosa do lulopetismo ou de quem está atrás de quinze minutos de glória.
O fim do mundo de Temer pode não acontecer. Aliás, o mais provável é que não aconteça. Sua margem de manobra não se esgotou.
No dia dois de fevereiro, quando os baianos vão ao Rio Vermelho festejar Iemanjá, dará início à sua reforma ministerial, que pode servir tanto para acomodar insatisfações latentes em sua base de sustentação como para lhe dar condições de fazer política também para as ruas; como, apropriadamente, reivindica o governador de Pernambuco, Paulo Câmara.
Por falar na terra do frevo e do maracatu, os profetas do apocalipse deveriam ler a entrevista do sociólogo Marcus Melo sobre o equívoco da tese da “dilmização de Temer”.
O Congresso é hoje a grande casamata do presidente. Até por uma questão de sobrevivência, Executivo e Legislativo devem atuar em dobradinha em torno de uma agenda positiva, o que, indiretamente, favorecerá o ambiente econômico, com a aprovação das reformas da Previdência e outras medidas.
A cigana pode ter enganado quem aposta em 2017 como o ano do inferno astral dos brasileiros. Os astros podem nos ajudar.
Portanto, desde já, um bom ano novo a todos.
Nunca as divindades foram tão consultadas como agora, tal o mar de incertezas sobre o ano que se inicia.
As previsões vão do apocalipse da “dilmização de Temer” ao otimismo cauteloso, segundo o qual, apesar dos raios, trovões, tempestades e terremotos, ao final do ano Michel Temer ainda residirá no Palácio da Alvorada em um ambiente mais favorável na economia e na política.
Ou, em outras palavras, é o ano da transição da transição, se essa for entendida como a construção das bases necessárias para o Brasil passar de um país desestruturado pela era lulopetista para o advento de um novo modelo de bases mais sólidas, institucional e economicamente. A consolidação de tal modelo será uma missão dos pós 2018.
Esse caráter do ano em curso aparece com nitidez na área econômica, onde fatores positivos e negativos se combinam. Ao final do ano, o crescimento será raquítico, o desemprego continuará sendo um tormento na vida dos brasileiros e a dívida bruta chegará a 76,2% do PIB.
Mas é preciso levar em conta a movimentação das placas tectônicas da economia. A política macroeconômica pode começar a dar resultados. A inflação de 2016 ficará no teto da meta. Sua tendência aponta para uma aproximação para o centro da meta, em 2017. Ou seja, estarão dadas as condições para uma queda consistente da taxa básica de juros.
As medidas microeconômicas adotadas em dezembro podem surtir efeito no médio prazo, principalmente se Temer conseguir destravar as privatizações e se a recuperação em marcha dos preços das commodities tiver continuidade.
Vista em estado neutro, a tendência é de uma melhoria do ambiente e de um horizonte no qual o Brasil rompa o círculo de ferro do baixo crescimento com inflação e juros altos.
Como a economia não é um estado neutro e sofre a incidência do mundo da política, o presidente vai precisar de muita reza brava, banho de cheiro e proteção dos orixás para se livrar das duas espadas de Dâmocles que pairam sobre a sua cabeça; o julgamento das contas de Dilma e Michel Temer pelo TSE e o maracanã de delações da Odebrecht, que podem provocar um abalo sísmico no mundo da política formal e no seu governo.
José Dirceu dá de barato que 2017 será o ano do juízo final de Michel Temer, razão pela qual expediu uma carta conclamando a militância para ir às ruas e “justiça para todos, a renúncia de Temer et caterva, eleições gerais, Constituinte”.
Em campo oposto, Ronaldo Caiado vai quase na mesma direção, propondo a antecipação das eleições de 2018, e Miro Teixeira engrossa o caldo com sua emenda das diretas, como se fosse o Dante Oliveira redivivo.
A história, porém, não se repete, a não ser como farsa. Nada indica que as massas que foram às ruas pelo impeachment junte seu grito à voz cavernosa do lulopetismo ou de quem está atrás de quinze minutos de glória.
O fim do mundo de Temer pode não acontecer. Aliás, o mais provável é que não aconteça. Sua margem de manobra não se esgotou.
No dia dois de fevereiro, quando os baianos vão ao Rio Vermelho festejar Iemanjá, dará início à sua reforma ministerial, que pode servir tanto para acomodar insatisfações latentes em sua base de sustentação como para lhe dar condições de fazer política também para as ruas; como, apropriadamente, reivindica o governador de Pernambuco, Paulo Câmara.
Por falar na terra do frevo e do maracatu, os profetas do apocalipse deveriam ler a entrevista do sociólogo Marcus Melo sobre o equívoco da tese da “dilmização de Temer”.
O Congresso é hoje a grande casamata do presidente. Até por uma questão de sobrevivência, Executivo e Legislativo devem atuar em dobradinha em torno de uma agenda positiva, o que, indiretamente, favorecerá o ambiente econômico, com a aprovação das reformas da Previdência e outras medidas.
A cigana pode ter enganado quem aposta em 2017 como o ano do inferno astral dos brasileiros. Os astros podem nos ajudar.
Portanto, desde já, um bom ano novo a todos.
Equação difícil: Como recuperar serviços cortando recursos públicos?
Esta equação reflete bem, creio, o grande desafio que está colocado sobre a mesa dos prefeitos que assumiram os cargos agora e também para os governos estaduais, como o do Rio de Janeiro que têm grandes dívidas a resgatar. O passivo existente, como se está vendo todos os dias, tem origem em desregramentos financeiros, mas seus efeitos não se esgotam nesse ponto.
Os serviços médicos, saneamento, segurança e até de limpeza urbana vivem uma calamidade que coloca diretamente em risco a saúde da população que paga pelos efeitos nocivos de fatos que não cometeram e que deram origem a eles. Ontem, por exemplo, para citar o Rio de Janeiro, em municípios da Baixada Fluminense quantidades enormes de lixo se acumularam nas ruas, exigindo providências imediatas.
Os prefeitos de modo geral assumiram com base no compromisso de melhorar os serviços públicos expandindo-os ao nível que a realidade exige. Mas ao mesmo tempo sentaram-se à mesa do poder prometendo cortes de verbas. Não quero dizer que cortes não sejam necessários. Desejo apenas frisar a dificuldade entre as duas fontes da questão tanto administrativa quanto social.
Os serviços médicos, saneamento, segurança e até de limpeza urbana vivem uma calamidade que coloca diretamente em risco a saúde da população que paga pelos efeitos nocivos de fatos que não cometeram e que deram origem a eles. Ontem, por exemplo, para citar o Rio de Janeiro, em municípios da Baixada Fluminense quantidades enormes de lixo se acumularam nas ruas, exigindo providências imediatas.
Os prefeitos de modo geral assumiram com base no compromisso de melhorar os serviços públicos expandindo-os ao nível que a realidade exige. Mas ao mesmo tempo sentaram-se à mesa do poder prometendo cortes de verbas. Não quero dizer que cortes não sejam necessários. Desejo apenas frisar a dificuldade entre as duas fontes da questão tanto administrativa quanto social.
Os cortes necessários não eliminam todos os focos da questão. Pois é preciso que sejam eles acompanhados pelo aumento da receita pública, uma vez que as prefeituras, a exemplo de governos estaduais, encontram-se com grandes débitos acumulados. São contas atrasadas para as quais a explicação lógica torna-se difícil.
Diante desse quadro, é indispensável que as Prefeituras tomem a iniciativa de cobrar o que empresas lhe devem, porque sem isso dificilmente poderão enfrentar o desafio triplo de pagar salários em atraso, melhorar os serviços e recuperar a credibilidade que a população exige de todos aqueles que chegaram ao poder político com base no voto popular.
Não há mágica possível para ultrapassar esse desafio e superar a equação na qual residem as esperanças de populações cansadas de, pelo menos esperar ver cumpridos seus legítimos direitos. Esta é a questão essencial.
Diante desse quadro, é indispensável que as Prefeituras tomem a iniciativa de cobrar o que empresas lhe devem, porque sem isso dificilmente poderão enfrentar o desafio triplo de pagar salários em atraso, melhorar os serviços e recuperar a credibilidade que a população exige de todos aqueles que chegaram ao poder político com base no voto popular.
Não há mágica possível para ultrapassar esse desafio e superar a equação na qual residem as esperanças de populações cansadas de, pelo menos esperar ver cumpridos seus legítimos direitos. Esta é a questão essencial.
A primeira crônica do ano
No velho bar do Soares e no último dia de 2016, encontrei minha turma. Um mal-encarado Mario Batalha repetiu o chavão:
— Interminável...
— A cerveja que ainda não tomamos?
A lourinha gelada, servida pelo sempre bem-humorado Soarezinho, chegou com o resto do grupo.
— Brindemos a mais um ano novo. Que ele não seja campeão absoluto em tudo de que um país não precisa: desonestidade, mendacidade, roubalheira e vergonha — começou o Mendonça, levantando o copo. — E o intelectual e cronista, o que nos diz?
Olharam para mim. Sorvi um largo gole do meu Joãozinho Andarilho e pensei para fora.
— Essas épocas de Boas Festas me deixam saudoso. Eramos seis irmãos: a vida levou a metade. Gostaria de voltar a acreditar em Papai Noel, no Brasil, no mundo, no progresso e no futuro. Mas perdi minha inocência.
— Fomos treinados para isso — disse o sociólogo Fuldêncio. — A solução estaria em algum lugar do futuro, mas eu vejo que ele está no presente, porque o futuro encolhe a cada dia. O desastre ecológico sintoniza o fim do amanhã e do próprio planeta. Teria falhado a teoria evolucionista?
— Com essa chamada “civilização” que confunde avanço tecnológico com superioridade moral, sem dúvida — respondi.
— É triste pressentir que o futuro nos escapa e se transforma numa “pós-verdade”. Aliás, moda é inventar novos rótulos para velhas garrafas. “Melhor idade” para velhice, “disfunção erétil” para broxada e “pós-verdade” para mentira e ignorância. Isso que a internet, infelizmente, também dissemina. Ao contrário do que se dizia, quem muito se comunica se trumbica! — falou o Levy, com a segurança dos comentaristas políticos.
Alguns riram e pensaram no Chacrinha. Continuei:
— O futuro era tudo para nós, meninos parcialmente educados pelo cinema americano. Um dia donos de automóveis e namorados daquelas louras de cabelos esvoaçantes que não tinham pai, mãe ou parentes. Moravam sozinhas...
O ano novo leva ao passado, e eu recordei como víamos o nosso futuro nos quadrinhos do Flash Gordon, o herói interplanetário.
— E lutava contra o imperador Ming do planeta Mong — lembrou meu tio Mário.
— Acho que era o oposto: contra o Mong do planeta Ming! — soltou, sorrindo, tio Silvio...
— E que mundo imenso era aquele — falou o engenheiro Naninho, com a juventude dos seus 82 anos. — Lembra, Roberto, o dia em que pegamos um mapa para localizar a tribo de Muviro, o amigo africano de Tarzan? E quando discutimos se as cidades perdidas de Castrum Mare e Castrum Sanguinare representavam Atenas e Esparta transplantadas para o universo de Edgar Rice Burroughs?
— Tempos de Papai Noel...
— Você vai escrever sobre o quê? — perguntou o professor de Línguas Mortas Mario Roberto.
— Não sei. Talvez meu tema seja sobre o começo, pois vai ser a primeira crônica do ano. O inaugurar, o abrir, o começar... Inícios e genêses, prefácios e prólogos, a primeira letra do alfabeto sempre são bons para escrever. O tempo dissolve tudo, mas sempre haverá um primeiro banho de mar na Praia das Flechas.
— Eu choro quando a vejo — disse o nosso militar reformado Celso, triste, consolando-se com mais uma cerveja.
— Sem dúvida, vou falar do começo, mas não posso deixar de pensar no fim. Porque um dia ele virá... É curioso — continuei. — No Ocidente, o futuro sempre foi maior do que o presente. Preocupar-se com o presente, o aqui e agora, era a missão dos revolucionários que rejeitavam um paraíso no outro mundo. Já nas sociedades que tenho estudado, as tais “tribos primitivas”, passado, presente e futuro são, de um ponto de vista cósmico, uma mesma coia. Como disse Lévi-Strauss, as sociedades tribais são fieis a si mesmas. Nós, ao contrário, pensamos em ir para Marte sem termos nos resolvido aqui na Terra.
— Que está sendo destruída — disse o Mauricio, o nosso fazendeiro falido pelo agronegócio.
— Acho que o segredo da vida está em como construir um espaço entre a primeira e a última vez...
— Interminável...
— A cerveja que ainda não tomamos?
A lourinha gelada, servida pelo sempre bem-humorado Soarezinho, chegou com o resto do grupo.
— Brindemos a mais um ano novo. Que ele não seja campeão absoluto em tudo de que um país não precisa: desonestidade, mendacidade, roubalheira e vergonha — começou o Mendonça, levantando o copo. — E o intelectual e cronista, o que nos diz?
Olharam para mim. Sorvi um largo gole do meu Joãozinho Andarilho e pensei para fora.
— Essas épocas de Boas Festas me deixam saudoso. Eramos seis irmãos: a vida levou a metade. Gostaria de voltar a acreditar em Papai Noel, no Brasil, no mundo, no progresso e no futuro. Mas perdi minha inocência.
— Fomos treinados para isso — disse o sociólogo Fuldêncio. — A solução estaria em algum lugar do futuro, mas eu vejo que ele está no presente, porque o futuro encolhe a cada dia. O desastre ecológico sintoniza o fim do amanhã e do próprio planeta. Teria falhado a teoria evolucionista?
— Com essa chamada “civilização” que confunde avanço tecnológico com superioridade moral, sem dúvida — respondi.
— É triste pressentir que o futuro nos escapa e se transforma numa “pós-verdade”. Aliás, moda é inventar novos rótulos para velhas garrafas. “Melhor idade” para velhice, “disfunção erétil” para broxada e “pós-verdade” para mentira e ignorância. Isso que a internet, infelizmente, também dissemina. Ao contrário do que se dizia, quem muito se comunica se trumbica! — falou o Levy, com a segurança dos comentaristas políticos.
Alguns riram e pensaram no Chacrinha. Continuei:
O ano novo leva ao passado, e eu recordei como víamos o nosso futuro nos quadrinhos do Flash Gordon, o herói interplanetário.
— E lutava contra o imperador Ming do planeta Mong — lembrou meu tio Mário.
— Acho que era o oposto: contra o Mong do planeta Ming! — soltou, sorrindo, tio Silvio...
— E que mundo imenso era aquele — falou o engenheiro Naninho, com a juventude dos seus 82 anos. — Lembra, Roberto, o dia em que pegamos um mapa para localizar a tribo de Muviro, o amigo africano de Tarzan? E quando discutimos se as cidades perdidas de Castrum Mare e Castrum Sanguinare representavam Atenas e Esparta transplantadas para o universo de Edgar Rice Burroughs?
— Tempos de Papai Noel...
— Você vai escrever sobre o quê? — perguntou o professor de Línguas Mortas Mario Roberto.
— Não sei. Talvez meu tema seja sobre o começo, pois vai ser a primeira crônica do ano. O inaugurar, o abrir, o começar... Inícios e genêses, prefácios e prólogos, a primeira letra do alfabeto sempre são bons para escrever. O tempo dissolve tudo, mas sempre haverá um primeiro banho de mar na Praia das Flechas.
— Eu choro quando a vejo — disse o nosso militar reformado Celso, triste, consolando-se com mais uma cerveja.
— Sem dúvida, vou falar do começo, mas não posso deixar de pensar no fim. Porque um dia ele virá... É curioso — continuei. — No Ocidente, o futuro sempre foi maior do que o presente. Preocupar-se com o presente, o aqui e agora, era a missão dos revolucionários que rejeitavam um paraíso no outro mundo. Já nas sociedades que tenho estudado, as tais “tribos primitivas”, passado, presente e futuro são, de um ponto de vista cósmico, uma mesma coia. Como disse Lévi-Strauss, as sociedades tribais são fieis a si mesmas. Nós, ao contrário, pensamos em ir para Marte sem termos nos resolvido aqui na Terra.
— Que está sendo destruída — disse o Mauricio, o nosso fazendeiro falido pelo agronegócio.
— Acho que o segredo da vida está em como construir um espaço entre a primeira e a última vez...
O sexo da esquerda
Diferentemente dos anjos e dos partidos de direita, a esquerda tem um sexo. Declara-se feminista, como o PSOE espanhol desde a liderança de José Luis Zapatero; ou quer feminizar a política, como o Podemos, partido fundado na Espanha em 2014. A esquerda ganhou rótulos. Além de socialista, é ecologista, feminista e defensora das minorias. Essa diversidade oferece oportunidades, mas também riscos.
Por um lado, a esquerda se adaptou às mudanças sociais que dizimaram seu eleitorado clássico, os trabalhadores homens. Não se pode viver da nostalgia e, no século XXI, a defesa da igualdade deve incorporar considerações culturais, de gênero e de orientação sexual. A esquerda faz bem em propor medidas contra a discriminação de qualquer grupo em qualquer frente: escola, trabalho ou esfera privada.
Mas tudo o que há de bom nessas políticas integradoras há de mau no discurso político que as acompanha. Esse é o tendão de Aquiles da esquerda contemporânea. À custa de insistir nos direitos de alguns grupos, a esquerda deixou de ser vista como representante da sociedade em seu conjunto. Caiu no que Bo Rothstein, em relação à Europa, e Mark Lilla, em relação aos Estados Unidos, denunciam como a política da identidade. A esquerda enfatiza mais as diferenças entre os distintos grupos sociais do que as semelhanças entre todos os cidadãos.
A falida campanha de Hillary Clinton é uma séria advertência para os progressistas de todo o mundo. Hillary substituiu uma visão geral para o país por menções a grupos concretos: afro-americanos, latinos, LGTBI e, sobretudo, mulheres. Em princípio, parecia ser um bom marketing político. Particularize seu produto. Coloque nome e sobrenome, sexo e etnia em seus potenciais clientes. Mas a política não é como a moda. Quando você tenta atrair um grupo concreto, aliena outro. Nesse caso, o homem branco.
A esquerda em muitos países corre o perigo de escorregar na mesma ladeira: quando a defesa de políticas para os mais desfavorecidos desemboca em um conflito de identidade. Para evitar isso, os progressistas têm que ser como os anjos: inteligentes e assexuados.
Massacre de Manaus mostra que o país não é civilizado, mas ainda ha esperanças
Nascido em 1903, o londrino Kenneth McKenzie Clark foi um dos mais conhecidos intelectuais de sua geração. Escritor e especialista em História da Arte, estudou na Universidade de Oxford e aos 30 anos já era diretor da National Gallery, e no ano seguinte, superintendente da Royal Collection. Professor em Oxford e chanceler na Universidade de York, aos 35 anos foi ordenado cavaleiro, depois a Rainha Elizabeth lhe outorgou o título de barão Clark de Saltwood, no Condado de Kent. Provocador, costumava ironizar o estágio da evolução social em meados do século passado. Dizia: “Civilização? Jamais conheci nenhuma. Mas sei que, se algum encontrar alguma civilização, saberei reconhecê-la”.
Lord Kenneth Clark morreu em 1983 sem ter conseguido encontrar uma verdadeira civilização na face da Terra. Mas agora, 35 anos depois, algumas sociedades evoluíram bastante e o grande pensador britânico certamente já poderia vislumbrar a existência de uma quase civilização nos países nórdicos e na Suíça, embora ainda deixem a desejar em vários aspectos.
Se avaliasse o Brasil neste início do Terceiro Milênio, Clark constataria que o país nada tem de civilização, mas nada mesmo. Pelo contrário, vive em meio à barbárie, provocada pela insistência suicida de tentar fazer com que a riqueza total possa conviver com a miséria absoluta. E qualquer idiota percebe que isso jamais dará certo.
Mesmo sob a barbárie, que transmite ao exterior a imagem de uma sociedade violenta e corrupta, ainda assim o Brasil tem muitos atrativos e continua a receber turistas do mundo inteiro. Mas verdade seja dita, a maioria dos estrangeiros vem atrás de alegria, para participar das grandes festas, como Réveillon e Carnaval, e grande parte dos turistas busca mais especificamente o turismo sexual, que inclui até mesmo pedofilia, sejamos francos.
Nossa imagem no exterior está péssima, massacrada pela insegurança pública nas grandes cidades e pelas mortes de estrangeiros em pontos turísticos. Mesmo assim, as atrações do Brasil são tantas que eles não resistem, e aí está Leonardo DiCaprio que não nos deixa mentir. As celebridades vivem por aqui e quase sempre chegam dissimuladamente. Certa vez, eu e meu filho entramos no elevador no Aeroporto do Galeão e demos de cara com Alec Baldwin e Kim Bassinger, que estavam de passagem, rumo ao Amazonas. Aliás, se fosse bem trabalhada, a Amazônia seria o maior pólo turístico do mundo. Um dia será. Mas agora esse importante polo turístico sofreu um baque, com o massacre no presídio privatizado.
Lord Kenneth Clark morreu em 1983 sem ter conseguido encontrar uma verdadeira civilização na face da Terra. Mas agora, 35 anos depois, algumas sociedades evoluíram bastante e o grande pensador britânico certamente já poderia vislumbrar a existência de uma quase civilização nos países nórdicos e na Suíça, embora ainda deixem a desejar em vários aspectos.

Mesmo sob a barbárie, que transmite ao exterior a imagem de uma sociedade violenta e corrupta, ainda assim o Brasil tem muitos atrativos e continua a receber turistas do mundo inteiro. Mas verdade seja dita, a maioria dos estrangeiros vem atrás de alegria, para participar das grandes festas, como Réveillon e Carnaval, e grande parte dos turistas busca mais especificamente o turismo sexual, que inclui até mesmo pedofilia, sejamos francos.
Nossa imagem no exterior está péssima, massacrada pela insegurança pública nas grandes cidades e pelas mortes de estrangeiros em pontos turísticos. Mesmo assim, as atrações do Brasil são tantas que eles não resistem, e aí está Leonardo DiCaprio que não nos deixa mentir. As celebridades vivem por aqui e quase sempre chegam dissimuladamente. Certa vez, eu e meu filho entramos no elevador no Aeroporto do Galeão e demos de cara com Alec Baldwin e Kim Bassinger, que estavam de passagem, rumo ao Amazonas. Aliás, se fosse bem trabalhada, a Amazônia seria o maior pólo turístico do mundo. Um dia será. Mas agora esse importante polo turístico sofreu um baque, com o massacre no presídio privatizado.
O fato concreto é que o Brasil está glauberianamente em transe. É um país maravilhoso e sinistro, ao mesmo tempo. Quinto maior do mundo em extensão e número de habitantes, a oitava economia do mundo, tem um clima ideal para curtir a natureza e viver à vontade, ao ar livre. Mas o Brasil está dividido e desgovernado. Precisa ser passado a limpo, para começar de novo e se tornar o país do futuro de Stefan Zweig, e isso tem de acontecer o mais rápido possível.
A nova geração de delegados federais, procuradores da República, juízes federais e auditores da Receita está mostrando que isso é possível, apesar do claro boicote que sofrem das cúpulas dos três Poderes. O trabalho desses jovens na Lava Jato tem uma força descomunal, está destinado a servir de exemplo nos Estados e Municípios, e esse bendito fenômeno é irrepreensível, jamais será vencido por articulações de bastidores na calada da noite. Essas manobras que ainda são tentadas no Planalto, no Congresso e no Supremo chegam a ser patéticas e ridículas. Este país vai mudar, porque nós queremos mudar. E isso já está acontecendo. Agora, é só uma questão de tempo.
A nova geração de delegados federais, procuradores da República, juízes federais e auditores da Receita está mostrando que isso é possível, apesar do claro boicote que sofrem das cúpulas dos três Poderes. O trabalho desses jovens na Lava Jato tem uma força descomunal, está destinado a servir de exemplo nos Estados e Municípios, e esse bendito fenômeno é irrepreensível, jamais será vencido por articulações de bastidores na calada da noite. Essas manobras que ainda são tentadas no Planalto, no Congresso e no Supremo chegam a ser patéticas e ridículas. Este país vai mudar, porque nós queremos mudar. E isso já está acontecendo. Agora, é só uma questão de tempo.
Tudo passa, quase nada fica
As nuvens que estão ali agasalhadas numa quase baixa altura um pouco acima do sol nascente devem ser as vencedoras de alguma olimpíada que a noite distraída encomendou.
Vencedoras da corrida e por isso, só por uma madrugada, amancebadas com o sol, as nuvens agora se banham em raios dourados que refletem sobre as águas do lago realçando o branco das garças, o verde das arvores e o cinza dos prédios ao longe em derredor.
Isso tudo e mais o enorme azul que se esparrama pelo céu denunciando os arquipélagos das nuvens fracas, sem brilho.
Penso no Eclesiastes 4/1 –“ Depois, voltei-me e atentei para todas as opressões que se fazem debaixo do sol; e eis que vi as lagrimas dos que foram oprimidos e dos que não tem consolador, e a força estava do lado dos seus opressores; mas eles os oprimidos, não tinham consolador.”
É terrível viver sob a opressão e não ter em quem confiar. Não que faltem profetas. Há profusão deles. Não que a indiferença campeie sufocando os clamores nas cidades e nos campos, inclusive os rumores das selvas seculares.
São incontáveis os que se digladiam querendo a confiança dos oprimidos. A diferença, contudo, é enorme entre obter a confiança e se manter confiável para vencer as refregas em favor dos oprimidos. A história dos que padecem de fome de direitos e de sede de justiça tem páginas e mais páginas manchadas pelas tintas da decepção popular.
Os que não se desgarram da verdade tem dificuldades enormes para obterem a confiança dos oprimidos, o que é compreensível porque as pessoas que sofrem a opressão têm pressa, querem estar livres dos que lhes aperreiam o quanto antes.
Quem é comprometido com a verdade não transige com a mentira. Sabe que concretamente nada é possível de uma hora para a outra. As coisas devem ser feitas com eficácia duradoura. Nada de arremedos.
O líder de verdade não cede à ilusão das promessas miríficas, aliás, não cede a ilusão nenhuma. Pode despertar esperanças? Sim. Afinal, agarrar-se a uma esperança não é agarrar-se a uma ilusão.
A mentira que move os falsos profetas, e eles são tantos e até incontáveis, é pródiga nas miríades, convincente nas promessas inalcançáveis que eles inventam e despertam. Compreensível que os oprimidos mais se inclinem em confiança aos falsos profetas.
A multidão condenada à opressão das desigualdades sociais, à tirania dos seus direitos, à sonegação da sua dignidade, à cegueira da desinformação pela falta total de instrução escolar, é presa fácil da demagogia, a qual nem existiria se o seu oxigênio não fosse a mentira.
Demagogo é o especialista em dizer às pessoas aquilo que elas estão exatamente querendo ouvir. Não lhe interessa se o que diz é viável, se tem alguma aparência de verdade ou se é descarada mentira. Interessa, sim, atrair a confiança da multidão ou de uma só pessoa para depois então vitima-la, lhe frustrando a esperança não sem antes usufruir tudo nos dividendos que a eventual liderança possa arrecadar.
Penso no Eclesiastes – “depois me voltei e atentei para todas as opressões que se fazem debaixo do sol”. Os oprimidos nem sempre tem ao seu lado quem verdadeiramente os represente e os console.
As nuvens que amanheceram hoje agasalhadas sob o sol já se banharam com os raios dourados e já flutuam no azul, vestidas de algodão. Amanhã serão outras.
Edson Vidigal
Vencedoras da corrida e por isso, só por uma madrugada, amancebadas com o sol, as nuvens agora se banham em raios dourados que refletem sobre as águas do lago realçando o branco das garças, o verde das arvores e o cinza dos prédios ao longe em derredor.
Isso tudo e mais o enorme azul que se esparrama pelo céu denunciando os arquipélagos das nuvens fracas, sem brilho.
Penso no Eclesiastes 4/1 –“ Depois, voltei-me e atentei para todas as opressões que se fazem debaixo do sol; e eis que vi as lagrimas dos que foram oprimidos e dos que não tem consolador, e a força estava do lado dos seus opressores; mas eles os oprimidos, não tinham consolador.”
É terrível viver sob a opressão e não ter em quem confiar. Não que faltem profetas. Há profusão deles. Não que a indiferença campeie sufocando os clamores nas cidades e nos campos, inclusive os rumores das selvas seculares.
São incontáveis os que se digladiam querendo a confiança dos oprimidos. A diferença, contudo, é enorme entre obter a confiança e se manter confiável para vencer as refregas em favor dos oprimidos. A história dos que padecem de fome de direitos e de sede de justiça tem páginas e mais páginas manchadas pelas tintas da decepção popular.
Os que não se desgarram da verdade tem dificuldades enormes para obterem a confiança dos oprimidos, o que é compreensível porque as pessoas que sofrem a opressão têm pressa, querem estar livres dos que lhes aperreiam o quanto antes.
O líder de verdade não cede à ilusão das promessas miríficas, aliás, não cede a ilusão nenhuma. Pode despertar esperanças? Sim. Afinal, agarrar-se a uma esperança não é agarrar-se a uma ilusão.
A mentira que move os falsos profetas, e eles são tantos e até incontáveis, é pródiga nas miríades, convincente nas promessas inalcançáveis que eles inventam e despertam. Compreensível que os oprimidos mais se inclinem em confiança aos falsos profetas.
A multidão condenada à opressão das desigualdades sociais, à tirania dos seus direitos, à sonegação da sua dignidade, à cegueira da desinformação pela falta total de instrução escolar, é presa fácil da demagogia, a qual nem existiria se o seu oxigênio não fosse a mentira.
Demagogo é o especialista em dizer às pessoas aquilo que elas estão exatamente querendo ouvir. Não lhe interessa se o que diz é viável, se tem alguma aparência de verdade ou se é descarada mentira. Interessa, sim, atrair a confiança da multidão ou de uma só pessoa para depois então vitima-la, lhe frustrando a esperança não sem antes usufruir tudo nos dividendos que a eventual liderança possa arrecadar.
Penso no Eclesiastes – “depois me voltei e atentei para todas as opressões que se fazem debaixo do sol”. Os oprimidos nem sempre tem ao seu lado quem verdadeiramente os represente e os console.
As nuvens que amanheceram hoje agasalhadas sob o sol já se banharam com os raios dourados e já flutuam no azul, vestidas de algodão. Amanhã serão outras.
Edson Vidigal
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