sábado, 17 de setembro de 2016

Charge (Foto: Moisés)

Calamidade histórica

Inundações, terremotos, deslizamentos, filas de desempregados são calamidades visíveis que assustam; mas, felizmente, duram pouco tempo. Mas há calamidades invisíveis cujos efeitos só são percebidos quando já não há mais tempo para corrigi-las: são calamidades históricas. Nesta semana foi divulgado o estado de nossa educação de base no ano de 2015, conforme avaliada pelo Índice de Desenvolvimento da Educação de Base (Ideb).

A catástrofe não é visível de imediato, mas indica uma tragédia anunciada e duradoura por décadas. A falência do sistema educacional impede preparar nossas crianças para que elas enfrentem o próprio futuro e para que participem da construção do futuro do país. Há décadas pode-se perceber as consequências deste descaso. Mas, ao não ser visível, não tem sensibilizado o Brasil a dar o necessário cuidado à educação de base.

Os resultados do Ideb mostram estagnação do ensino fundamental em baixíssimas notas — 5,5 e 4,5 — nos seus dois níveis e mostram o retrocesso do ensino médio, em pleno século XXI, com a vergonhosa nota 3,7. Por estas notas, o Brasil foi reprovado em 2015. Esta média é ainda mais assustadora se levarmos em conta que metade das crianças brasileiras ficou fora da avaliação por ter abandonado a escola antes do ensino médio — com a nota desse grupo, o Ideb seria muito menor.

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O Ideb também não reflete plenamente a gravidade do nosso problema educacional, se lembramos também que ele não indica a brutal desigualdade na educação de nossas crianças conforme a renda da família; nem mostra que os outros países estão ultrapassando o Brasil, oferecendo melhor a educação a suas crianças. Esta calamidade deveria ser tão visível quanto a seca no Nordeste, a avalanche em Mariana, as filas de desempregados e a falência financeira do Estado brasileiro.

Mas nossos governos têm sido cegos para percebê-la. Por isso, nossos presidentes não manifestaram até hoje horror diante desta tragédia, não declararam calamidade histórica, não indicaram o que deve ser feito para o Brasil enfrentar a maior e mais duradoura de nossas crises. Bastaria uma política decidida, para, ao longo de alguns anos, substituirmos as deficientes escolas estaduais e municipais por escolas federais, cujos Idebs estão se aproximando da nota 7,0.

Este enfrentamento permitiria superar a crise social e econômica que assola o país. O abandono da educação, que o Ideb-2015 indica, é uma das causas da crise econômica que vem, sobretudo, da baixa produtividade e da irrisória capacidade de inovação; a violência, a corrupção, o populismo, a irresponsabilidade fiscal têm como uma das causas a deseducação geral.

Talvez esta seja a maior de nossas calamidades, que o Ideb tem mostrado ao longo dos últimos anos: os governos descomprometidos com a educação e, por omissão, condenando o futuro do nosso país. Pior é que, no lugar de despertarmos usando o Ideb para corrigir a calamidade histórica, algum governo possa tomar a iniciativa de parar de estimar o Ideb, como um médico curando a febre ao quebrar o termômetro.

O festim da República

Na política brasileira, os fatos chocam menos que sua enunciação. Quem acompanha de perto os desdobramentos da Lava Jato, em curso há dois anos, já conhecia cada um dos fatos narrados pelos procuradores na quarta-feira passada, em Curitiba.

Não houve, pois, espanto quanto ao conteúdo. A surpresa foi a ousadia, rara, de dar nome (e patente) ao boi, Lula, brindando-o com os títulos de “chefe”, “maestro” e “general”, que, se não eram inéditos (e não eram), ganharam agora o selo institucional.

O próprio procurador-geral Rodrigo Janot, em junho, já o havia denunciado ao STF, ao lado de Dilma, Aloizio Mercadante e José Eduardo Cardoso, por tentativa de obstrução da Justiça, em decorrência da delação do ex-senador Delcídio do Amaral.

Ora, inocentes não obstruem a Justiça; anseiam por ela. Há dias, o ministro Teori Zavaski, incumbido da Lava Jato no âmbito do STF, rejeitou recurso da defesa de Lula, que queria evitar Sérgio Moro. Não apenas rejeitou, como a acusou de estar querendo embaraçar as investigações. A diferença é que o fez sem estardalhaço. Mas fez.

Desde o Mensalão, a responsabilidade central de Lula nos acontecimentos criminosos da República era óbvia - e até mesmo a blindagem política que recebia (e ainda recebe) o evidenciava.


O temor de afrontar a popularidade que então tinha fez com que mesmo o denunciante-mor, o então deputado Roberto Jefferson, o poupasse. Somente quando o processo já estava em curso, e era tarde para incluí-lo, acusou-o. Na ocasião, chegou a ser publicado um livro sobre o Mensalão, com densa documentação, tendo Lula na capa e o título: “O Chefe”, de autoria do jornalista Ivo Patarra.

Como Lula não estava nos autos – já que o então procurador geral Antonio Fernando de Souza não ousou acusá-lo -, sentiu-se à vontade até para afirmar que o Mensalão não existira.

O que excita e surpreende na entrevista desta semana dos procuradores não é o que revelaram, mas o que ainda ocultam. Pela ousadia e segurança de suas afirmações, ficou claro que dispõem de lastro para sustentá-las. O que a defesa de Lula considerou “verborragia”, é apenas manifestação de pânico, algo assim como “o que mais eles já têm?” Santo André, talvez.

Os advogados sabem que a entrevista não se confunde com a denúncia e suas 149 páginas, de que constam provas as mais variadas: testemunhal, documental, pericial, indiciária.

É o relatório, não a sequência de slides, exibida aos jornalistas, que irá fundamentar a decisão de Sérgio Moro. A entrevista apenas resume a peça acusatória, que irá se somar às delações de empresários – as já feitas e as por fazer.

E há gente graúda por depor - Emílio Odebrecht, por exemplo, e outros, do mesmo naipe, que já o fizeram. E Lula está em todas essas confissões, em que o enredo é um só. Lula sabe que há muito mais por vir. O que o aflige é não saber ainda o que dele já se sabe.

O tríplex e o sítio, por exemplo, são café pequeno, mas mesmo assim evidências concretas de um vasto esquema de pagamento de propinas com dinheiro roubado da Petrobras.

Leo Pinheiro, da OAS – de todos os empreiteiros, o mais intimamente ligado a Lula -, já confessou que sítio, tríplex, reformas em ambos e mobiliário eram doações a Lula, a serem “descontadas” do montante de propinas que a empreiteira devia ao PT do botim da Petrobras. O que foi revelado, pois, é apenas o que se chama de fio da meada de um imenso novelo, que abarca todos os segmentos da administração pública, ao longo de quatro governos petistas.

E é esse vasto esquema que já está mapeado, tendo no comando e como beneficiário principal o ex-presidente Lula.

Lula e seus advogados sabem disso. O PT sabe disso. Daí o empenho, já demonstrado na fala inicial de Lula, de transformar denúncia de caráter penal em perseguição política.

Os desdobramentos desse entrechoque entre acusação e defesa, que em circunstâncias normais se daria nas barras do tribunal, preocupam. O ambiente está radicalizado. O PT irá às últimas consequências para se firmar no papel de vítima. Resta saber se haverá povo para segui-lo. Até aqui, os sinais são escassos.

O que está em pauta é apenas a primeira parte do processo, que é saber quem fez o quê. A seguinte é saber para onde foi tanto dinheiro – os bilhões da Petrobras não esgotam a rapina.

Há ainda os cofres da Caixa Econômica, do BNDES, do Dnit, dos fundos de pensão. Tanto dinheiro – até aqui, mais de R$ 100 bilhões – não cabe no bolso de ninguém. Parte dele foi para governos bolivarianos e ditaduras africanas. Com que propósito? Esse é o capítulo seguinte, que se inicia na sequência.

Brasil, um país em dois tempos

Às vezes me dá a nítida impressão de que o Brasil vive simultaneamente em dois tempos históricos: o passado, que resiste em ser enterrado, e o futuro, que promete, mas não acontece. Foi o caso desta semana entre o evento de posse da ministra Cármen Lúcia na presidência do Supremo Tribunal Federal e a sessão de cassação do ex-presidente da Câmara dos Deputados Eduardo Cunha. Parecia que o túnel do tempo – apelido da passagem entre o plenário do Senado Federal e seu anexo, uma vez que guarda uma exposição fixa em painéis sobre a história da Casa desde o Império – tinha se deslocado para o edifício do outro lado da avenida, do Supremo. Não faz duas semanas que acabamos de assistir à narração do tempo passado no capítulo da cassação da presidenta da República e, desta vez, a narrativa prosseguia numa espécie de replay, com a cassação do ex-presidente da Câmara dos Deputados.

Um Poder Legislativo eleito pelo cidadão resistindo a lhe servir, centrado apenas em seus interesses corporativos, para falar o mínimo, pois, na verdade, grande parte de seus membros está lá para cuidar de seus próprios interesses, muitos deles inconfessáveis. Do outro lado, o Supremo, cúpula de um poder não eleito, onde magistrados entram na carreira por concurso e progridem por mérito, que tem tentado desempenhar adequadamente o poder moderador das tensões geradas pelos demais Poderes da República, aponta para um futuro onde “a cidadania deve ser o direito fundamental à justiça e não uma mera aspiração”, como afirmou a nova presidente do Supremo.

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Terão as palavras da ministra Cármen Lúcia influenciado a acachapante derrota de Cunha por seus pares na sessão do julgamento do ex-presidente da Câmara dos Deputados que aconteceu ainda naquele mesmo dia? Com quase três décadas, demorou, mas a Constituição Cidadã começa a ser levada a sério. Não apenas pela limpeza geral da vida pública dos políticos delinquentes reclamada nas ruas pelos cidadãos, mas pelos inúmeros compromissos de levar a cabo a força da lei por parte dos chefes das instituições jurídicas e por alguns das instituições políticas do Estado. O Judiciário saiu na frente convicto, a Câmara tende apenas a se curvar à vontade da cidadania, mas ainda temos de ver se o mesmo ocorrerá no Senado e no Palácio do Planalto. Estamos em meio a uma tormenta em que se provará essa mudança de mentalidade, de passagem de uma cultura de impunidade e jeitinho para uma cultura de soberania dos cidadãos, verdadeiros patrões dos servidores do Judiciário e dos mandatários políticos do Executivo e do Legislativo. A posse da ministra Cármen Lúcia na presidência do Supremo e a sessão de julgamento da cassação de Eduardo Cunha são dois eventos promissores num único dia. Como bem disse a advogada Janaína Paschoal: estamos num momento decisivo de nossa história em que devemos nos esforçar para fazer rodar o círculo vicioso de uma prática política imoral para um círculo virtuoso de uma cultura política fundada na moralidade pública.

Destaco no primeiro evento da posse da ministra Cármen Lúcia o discurso do decano do STF, Celso de Mello, que lembrou e repisou com veemência: “Nenhum, nenhum”, repetiu, “dos Poderes da República pode submeter a Constituição a seus próprios desígnios ou a manipulações hermenêuticas”. E afirmou isto diante dos cúmplices Renan & Lewandowski, que fizeram cara de paisagem sem vestir a carapuça endereçada pelo episódio do fatiamento da sentença do impeachment. “O direito a um governo honesto é um direito insuprimível da cidadania”, continuou Celso de Mello em sua denúncia do “imoral sodalício entre setores do poder público, de um lado, e agentes empresariais, de outro”, finalizando com a citação de doutor Ulysses Guimarães: “A corrupção é o cupim da República!”. Já o procurador-geral da República, Rodrigo Janot, aborda a Lava Jato e exige mudança do sistema político e jurídico-moral do país. Afirma que não erraremos como na Operação Mãos Limpas e repudia a tentativa de barrar as investigações da Lava Jato. Defende as “dez medidas contra a corrupção” como o início de uma transformação na cultura política nacional, contra as forças do atraso! Mas o auge da sessão é quando a ministra Cármen Lúcia avisa que vai quebrar o protocolo que lhe manda iniciar a solenidade cumprimentando a mais alta autoridade presente, o presidente da República. Em vez disso, cumprimenta a mais alta autoridade do cidadão brasileiro! E se referiu à Justiça, recorrendo a citações literárias de autores nacionais, como sentimento o mais fundamental entre os direitos fundamentais dos cidadãos, brandindo: “A lei não é aviso!”.

Mais tarde, no palco da sessão de julgamento da cassação de Eduardo Cunha, parecia que voltávamos à página virada do passado, quando um dos deputados de sua tropa de choque ainda teve o desplante de buscar o mau exemplo do inconstitucional fatiamento da condenação do impeachment, com a proposta de trocar a sentença capital por uma mais branda de suspenção temporária do mandato, com a clara tentativa de livrar Cunha da mão pesada do juiz Moro. Mas o próprio relator do processo de cassação, o deputado Marcos Rogério, foi taxativo: “Acabou a esperteza, pois Cunha não apenas mentiu, mas escondeu patrimônio, sonegou o Fisco e recebeu propina!”. Depois de mais um show de horror da série “Lava Jato” – que continuo a afirmar que não teve este nome apenas pela razão manifesta de ter se originado numa operação policial trivial contra um doleiro operando num posto de serviço de limpeza automotiva, mas por uma razão inconsciente do desejo coletivo de mudança nas práticas políticas nacionais –, temos a esperança de reafirmação do compromisso republicano do Judiciário brasileiro em prosseguir na limpeza da vida e dos costumes políticos nacionais. Já podemos vislumbrar o roteiro dos próximos e lancinantes capítulos: com as revelações das delações premiadas das empreiteiras, poderão responder por crimes os mais variados de 10% a 20% dos parlamentares da atual legislatura, o que, aqui entre nós, não justifica as tentativas de barrar a “Lava Jato” para “estancar a sangria da vida política”, como se referiu num áudio vazado um dos nossos “nobres” senadores implicados até o pescoço.

A esperança do compromisso do presidente Temer de “pôr o país nos trilhos” não pode depender das manobras de barrar o seriado “Lava Jato”. Muito ao contrário, os próximos capítulos no front da Justiça estão mais para um roteiro do tipo “a fila vai andar”. Pois é justo o inverso: para encarar reformas imprescindíveis do Estado, controlar o câncer da demagogia, da dívida pública impagável, retomar o fluxo de investimentos internacionais, privatizar, voltar a crescer a produção e o emprego é que se torna imprescindível deixar a sangria correr para desintoxicar do sangue contaminado o corpo político nacional. A banda podre dos políticos que deverá sair da vida pública, segundo o noticiário político e as delações que hão de vir, não chega a comprometer todo o corpo político. Segundo médicos que consultei, sendo atendidos no CTI bem equipado da Cidadania, Transparência e Integridade, podemos perder até 20% do sangue ruim que, aos poucos, o próprio corpo político se encarregará de se renovar com o sangue bom de novos atores da vida pública.

Jorge Maranhão

Imagem do Dia

Great Ocean Road,na Auastrália

O país se transforma depois de sentir na carne a desgraça do petismo

Descalça na deslumbrante Mesquita Azul, na Turquia, como cristã que sou, eu reconhecia que aquele santuário não pertence só aos muçulmanos; como realização humana, pertence à civilização. Além de mercados públicos ou feiras, quando viajo sempre visito lugares santos (de templos, sinagogas e mesquitas pela Ásia e África a lindas catedrais como a da Sé e igrejinhas de missionários evangélicos no interior do nordeste). Diante do sagrado, choro sempre. Silencioso, copioso e sereno, meu pranto é gratidão e alegria reverente por simplesmente estar viva; também comoção por aqueles cujo repertório pessoal (de valores, desesperança, experiências, etc.) os impede entender a vida, na insuficiência constitutiva dela, como a oportunidade fugaz de, veja só, viver. Agastada pelas dificuldades cotidianas, me esqueço às vezes de olhar a vida assim, um esquecimento que impossibilita tudo.


Dilma jamais supôs que seria cassada, Cunha nunca acreditou que seria cassado, Lula sequer cogitou que seria pego. Mas sua excelência, o povo, se meteu na história e o fato é que a mulherzinha foi cassada, Cunha foi cassado e Lula, que já não se sentia muito bem, piorou antes que a súcia terminasse de comemorar o fim de Cunha não porque o ex-deputado é um escroque, mas porque é um escroque dissidente. No duelo entre a mulherzinha e o ex-deputado, o Brasil ganhou porque os dois delinquentes romperam a parceria pela qual saquearam o país e voltaram-se um contra o outro. Aos que perderam para o país devastado se arejar, não tenho nada a agradecer; batem o portão fazendo alarde típico dos que se vão tarde sem saber ascender nem decair com dignidade, além dessa ladainha cínica de vítimas perseguidas que se defendem com alguns dos advogados mais caros do país alargando todas as brechas legais inacessíveis à maior parte da população.

Diante do sagrado, o que somos além de nada? Não sei, mas um autor que adoro, o historiador romeno das religiões Mircea Eliade, diz no livro “O sagrado e o profano” que só somos se sairmos do tempo, assim como o sagrado que existe além e aquém do tempo (e por isso é); no tempo – profano por definição –, vamos desaparecendo no terror de existir para desaparecer. Talvez seja na memória ecoando existências que consigamos escapar ao tempo alcançando, mesmo como poeira transitória, certo modo de permanecer. Me achando esvaziada desse nada, tirei da bolsa meu diário de viagem para os apontamentos dispersos neste texto. Queria falar da luz e da cor do dia, das linhas arquitetônicas da Mesquita, das pessoas ali, das feições delas, reações, roupas e idiomas. Na estupidez de eliminar minhas referências, já que me pretendia preenchida do Outro/do sagrado, como se fosse possível compreender isso sem que algo em mim o compreendesse… cara, que viagem!

Mas meta-se a escrever em primeira pessoa e você vai ver só aonde isso te leva: lá dentro da história, porque a sintaxe puxa você, ela se atraca aos teus silêncios, vai abrindo coisas dentro da tua alma e você só vai se tocar de que disse realidades adormecidas quando a paz de pequenas e cotidianas hecatombes adiadas ou consumadas atravessar a tua percepção como a luz num vitral. Anos depois, relendo os apontamentos inconscientemente feitos em primeira pessoa, vi como, achando estar conectada ao sagrado fora de mim, meus registros estavam contaminados das minhas verdades e ficções, estas dando consistência àquelas. Que porcaria: quanto mais você procura fora, mais o fora te devolve a você mesmo. Que maravilha: não vale a pena viajarmos se voltarmos os mesmos; é como se não tivéssemos saído do lugar porque, de fato, não teremos saído do lugar. “Lugar”, por favor, entendido não como ponto geográfico, mas como aquele que delimita um jeito de estar no mundo. “Sair do lugar” é sair de si, dar passagem ao outro, universalizar-se e, então, voltarmos com o que tocamos e nos tocou. Ou seja, transformados. Possibilidade também sem deslocamentos geográficos: sair pelo mundo, sair para dentro de nós mesmos – viagens e viagens – talvez seja esta transformação o que combate o não sentido da vida.

O país se transforma depois de sentir na carne a desgraça do petismo fundado por um metalúrgico que há mais de 30 anos vi subir na carroceria de um caminhão para discursar em favor do povo oprimido nas filas, nas vilas, favelas, erigindo a nefasta figura soteriológica. Dispensável e indesejável ser um salvador, bastaria não ter sido um farsante que, tendo todas as condições como ele teve, modernizasse a nação. Enquanto à acelerada decrepitude física de Lula parece corresponder o acirramento da alma ególatra cujo dono continua se vendo acima da lei, Marcos Valério se transformou: é visível o quebrantamento na viagem interior imposta pela cadeia, o homem apresentou até certa disfunção na fala num depoimento, nesta semana. Isso conquista meu respeito pela dignidade que há na submissão ao que é superior a nós, atitude que sempre nos eleva. Claro que coletivamente o país vive um drama resultante das delinquências de um bando, mas sempre há o indivíduo e a circunstância dele, o olhar dele, a tragédia e a comédia dele – e isso me atrai de forma especial.

Transformação não alcançada pelo ex-deputado cujos planos de chegar à presidência da República se reduziram à expectativa da prisão; ausente na mulherzinha cujas gestão e cassação demoliram os sonhos de hegemonia do PT; inexistente no jeca que substituirá o trono de imperador perpétuo do Brasil pela eventual cadeia por tudo o que fez. Na resposta à coletiva do Ministério Público, cedendo às deformidades da alminha ególatra, Lula atacou FHC só para lembrar que o amor está sujeito a momentos de descuido que lhe podem ser fatais, mas o ódio é incansavelmente zeloso; é fiel na alegria, na tristeza e na proximidade do camburão. A denúncia desta quarta-feira pelo MP Federal e a aclamação do jeca como o chefe da propinocracia o encontram na sepultura política da qual não se erguerá. É nela, mais do que na cadeia, que Lula, transformado no miserável que sempre foi, pagará por seu crime mais grave: tudo o que deixou de fazer pelo país.

O sacrifício de ir à escola

Todos os dias as crianças da aldeia Atuleir, na China, fazem da ida à escola um risco de morte. Nas aldeias isoladas das montanhas, os alunos correm perigo para estudar, e estudam.Não faltam à escola, como também não há falta de professor, nem de apoio aos estudos.





Não a mais sofrimento

Quando nas sociedades as coisas funcionam bem, você pode se comprometer, pode ter diferenças, mas não divisões enormes.

Zdzisław Beksiński

Se você tem pessoas que sofreram muito, elas não vão querer se comprometer a sofrer mais
Joseph Stiglitz, professor de Columbia e assessor do ex-presidente Bill Clinton

Desemprego liga a política à ideia de inutilidade

Passado o impeachment de Dilma Rousseff e a cassação de Eduardo Cunha, há um vazio em Brasília. Sem mais espantalhos para chutar, as tribos políticas voltaram seus olhares quase que integralmente para as eleições municipais. E não restou aos desempregados senão rezar para que Deus dê uma prova de sua existência aparecendo na forma de um contracheque.

Trabajo, paro - Work, Unemployed:
Nesta sexta-feira, o Ministério do Trabalho informou que o Brasil perdeu 1,51 milhão de empregos com carteira assinada em 2015. É o pior resultado em 31 anos. Num instante em que o total de desempregados roça a casa dos 12 milhões, notícias como essa potencializam o paradoxo que embaça a atividade política. Hoje, os brasileiros são incapazes de reconhecer a utilidade da política. E os políticos são incapazes de demonstrá-la.

O desemprego herdado da gestão Dilma dá a Michel Temer a ilusão de que sua preocupação é útil. O desemprego dá aos ministros a oportunidade de fazer rostos graves, frontes crispadas. O desemprego dá ao pedaço da plateia que ainda dispõe de salário para encher a geladeira a impressão de que o novo governo está se movendo. Mas nada se move de verdade aos olhos dos desempregados, a não ser os índices de desemprego, que sobem.

Diante do desemprego crescente a eterna rinha política, o ' nós contra eles', o 'deixa que eu chuto'… Tudo isso ganha ares de insensatez. Imagine a cena: quatro amigos numa mesa de bar, na calçada. Travam uma dessas conversas engajadas. Esbarram em indagações transcendentais. O PT é melhor que o PSDB? O PMDB é a favor de tudo ou é contra qualquer outra coisa? O populismo estragou o Brasil? O liberalismo vai salvar o país? Súbito, um sujeito cabisbaixo aborda o grupo: “Podem me pagar um almoço, tô desempregado?”

Ou os políticos começam a cuidar do que é essencial ou logo, logo haverá brasileiro se perguntando: E se a democracia for isso mesmo?

A busca de Marinete

Dia desses li um interessante texto sobre o nióbio. Trata-se de um metal utilizado principalmente na produção de ligas de aço de alta resistência, com aplicações na construção civil, na indústria mecânica, aeroespacial, naval, automobilística e nuclear, dentre outras.

O grande diferencial deste metal, pelo que compreendi, é sua incrível resistência à corrosão e às temperaturas extremas. Assim, quando adicionado na proporção de gramas por tonelada de aço, confere a este propriedades sem as quais o mundo como o conhecemos seria impossível.

Segundo entendi, o Brasil detém as maiores reservas conhecidas de nióbio (98,43%), seguido pelo Canadá (1,11%) e Austrália (0,46%). No país, as jazidas conhecidas estão em Minas Gerais (75,08%), Amazonas (21,34%) e em Goiás (3,58%).
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Parei para meditar um pouco: torna-se evidente que o Brasil tem praticamente o monopólio deste metal raríssimo, sem o qual muitas das facilidades tecnológicas às quais a humanidade se acostumou - de computadores a aviões a jato, de tomógrafos a reatores - escasseariam. Eis aí, sem qualquer sombra de dúvida, um patrimônio irrenunciável do povo brasileiro.

Tive a ideia, então, de procurar saber qual o preço de venda de tão distinta riqueza. Que arrependimento! Afinal, como exclamava Lichtenberg, “nada induz a uma maior paz de espírito do que não ter opinião sobre nada”. Sim, seria melhor ter continuado a viver na ignorância - doeria menos.

Constatei, absolutamente consternado, que o preço médio de exportação do ferro-nióbio subiu de US$ 13 o quilo em 2001 para US$ 32 em 2008. Em 2012, a média ficou em US$ 26,50 o quilo.

Decidi, para fins de comparação, apurar o preço de um quilo de chocolate importado da Suíça, país no qual até onde sei não existe um único pé de cacau. Fui a um supermercado e verifiquei que quatro latinhas de 250 gramas cada totalizariam US$ 85,08 - umas três vezes mais!

Me perdoem por ser repetitivo, mas há que se acentuar esta realidade: exportamos um dos mais raros e essenciais minérios do planeta a US$ 26,50 o quilo e importamos por US$ 85,08 um quilo de chocolate feito em um país que não dispõe de sequer um pé de cacau!

Decidi fazer uma outra comparação, desta feita com um litro de uísque envelhecido 12 anos - desses que encontramos em supermercados. Uma garrafa custa em média US$ 68 - umas duas vezes e meia mais. Baixei a “idade” para 8 anos, e só assim consegui igualar os preços do raro minério e da bebida importada.

Fiz, então, uma última comparação: coloquei lado a lado um quilo de nióbio e uma máscara de palhaço com touca colorida e nariz vermelho, dessas usadas em festas infantis. O nióbio ficou nos US$ 26,50 conhecidos, e a máscara de palhaço em US$ 33,61 - e isto não é palhaçada alguma, claro!

Meu susto foi ainda maior ao ler sobre a existência de um documento do Departamento de Estados dos EUA, vazado pelo famoso Wikileaks em 2010, que incluía as minas brasileiras de nióbio em uma lista de locais considerados estratégicos - por aquele país, claro!

Porém, mais há: em 2011, segundo estudei, um grupo de empresas estrangeiras - da China, Japão e Coreia do Sul - adquiriu robustos direitos de exploração deste nosso minério.

Enquanto isso, alheia a estes graves problemas nacionais, lá vai Marinete, 6 anos de idade, rumo ao seu trabalho como catadora de lixo, na companhia de milhares de outras crianças brasileiras. Boa sorte, Marinete! Espero que você encontre algum nióbio lá no lixão!

Crise política e perenização do subdesenvolvimento

O Brasil é o quinto país em população e em extensão territorial. Mesmo assim, continua subdesenvolvido, porque crises políticas afetam a economia, desde 1822, gerando insegurança em investidores, inviabilizando a modernização tecnológica e condicionando projetos públicos aos humores de chefes paroquiais, que sempre quiseram manter seu eleitorado submisso. Chegamos, então, ao século XXI com índices socioeconômicos à beira da iniquidade, distanciando-nos cada vez mais de países que vêm propiciando boas condições de vida a seus habitantes.

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Os desarranjos políticos são tantos que vivemos sob a égide da sétima Constituição, promulgada em 1988. Isso escancara a instabilidade institucional, que permite acomodação de lideranças nocivas a novos arranjos na administração pública, assegura privilégios a muitas autoridades, viabiliza imperativos do Poder Executivo e afasta adversários com prestígio popular. Assim, o país não conheceu duas décadas seguidas de prosperidade. Houve sempre grupos antagônicos buscando o controle do Estado, sem apresentar um projeto integrado para a nação e sem compromisso com a governabilidade. Pelo contrário, é possível identificar sabotagens a propostas que contrariavam interesses de alguns ou iriam conferir visibilidade a concorrentes indesejáveis.

Continuamos, então, com alto índice de analfabetismo, relações arcaicas de trabalho, mão de obra desqualificada, dependência tecnológica, péssimas condições sanitárias, insuportável desequilíbrio regional e vergonhosa desigualdade social. Os desacertos entre liberais e conservadores do Império estão reproduzidos hoje em “golpistas” e remanescentes do petismo, em meio a acusações de corrupção em todas as facções e desconfiança generalizada de cidadãos exauridos pelos tributos para financiar a vida nababesca de políticos e empresários aliados nos negócios com o Estado.

Se, em passado recente, sofremos os solavancos da ditadura militar e da hiperinflação, fomos premiados com a conquista do Centro-Oeste, o Plano Real e a modernização das telecomunicações. Houve momentos de otimismo, porque percorreríamos logo o caminho para a prosperidade. Os inimigos estavam, entretanto, prontos para sabotar o governo do momento, como a campanha petista contra o plano de estabilização econômica e o esforço da mídia para pespegar no presidente Itamar Franco rótulos depreciativos que minassem sua autoridade e seu prestígio ascendente junto à população.

Vivemos agora a pior crise econômica, e, mesmo assim, muitos grupos contestam a posse de Michel Temer e querem eleição direta, demonstrando que não respeitam a Constituição vigente. Preferem o casuísmo que não existe em Estado democrático de direito, porque a legislação deve primar pela objetividade que está acima de problemas ocasionais. Ou seja, esses segmentos apostam em soluções improvisadas, indicando que continuamos agindo como no século XIX e pouco interessados no futuro do país.

sexta-feira, 16 de setembro de 2016

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O choro que não comove ninguém

É de supor-se que Lula dá de barato que foi de fato o comandante, o general, o maestro da organização criminosa que saqueou a Petrobras, que roubou e deixou roubar com a intenção de se perpetuar no poder. Do contrário, teria respondido de forma direta, objetiva e convincente às acusações que lhe fizeram os procuradores da Lava Jato.

Mas não o fez. Nada respondeu. A jararaca de março último, indignada por ter sido conduzida coercitivamente para depor, deu lugar ao bebê chorão, ao “velho de 70 anos” que pediu para ser deixado em paz, ao perseguido que se compara com Tiradentes esquartejado em praça pública, ao ex-líder sindical ameaçado pelas elites cruéis.

Por que não encarou de frente às acusações? Por que não as respondeu uma por uma? Por que preferiu socorrer-se da fraude de que os procuradores teriam dito carecer de provas contra ele e de só dispor de convicção? Eles disseram dispor de provas, sim. E da convicção, a partir delas, de que Lula incorreu em crimes.


Lula não foi denunciado por ter chefiado uma organização criminosa. Foi denunciado apenas e por enquanto de ter recebido quase R$ 4 milhões do dinheiro desviado da Petrobras. Parte do dinheiro acabou empregada pela empreiteira OAS na reforma do tríplex do Guarujá, parte no armazenamento de sua mudança para São Paulo.

De resto, em uma denúncia, o Ministério Público não precisa oferecer provas do que diz. Basta que ofereça indícios de materialidade da ocorrência de crime e um circunstanciado arrazoado capaz de convencer o juiz a aceitar a denúncia. Uma vez que ela seja aceita, aí, sim, juntam-se as provas e colhem-se outras.

Na proposta de delação premiada do ex-presidente da OAS Léo Pinheiro, ele afirma que Lula sabia que o dinheiro gasto na reforma do tríplex seria descontado da propina devida pela empreiteira ao PT. Assim como seria descontado da propina o dinheiro gasto na reforma do sítio de Atibaia, local de repouso da família Lula da Silva.

Está para aparecer a prova definitiva de que Lula comprou o tríplex que ele jura jamais ter comprado, assim como provas cabais de que o sítio de Atibaia configura um caso clássico de ocultação de patrimônio. É improvável que Lula receba da Lava Jato um atestado de idoneidade, passaporte para sua eventual candidatura a presidente em 2018.

Ele sabe disso. E por saber, agora se ocupa não em limpar as manchas que corroem sua biografia, mas em legar às gerações futuras a falsa imagem do líder dos pobres que teve sua carreira política interrompida pelo “golpe continuado” responsável pela deposição da ex-presidente Dilma e pelo fim da era do PT no poder.

O estoque de truques de Lula esgotou-se, a julgar por seu desempenho patético, caricato no ato que encenou ontem. Embora tenha votado nele mais de uma vez, não sinto pena de Lula. Não consigo sentir. Ele deixou-se seduzir pelo exercício do poder, corrompeu-se e corrompeu. Está na iminência de pagar pelo que fez.

A vez dos parasitas

A desconexão entre realidade e “narrativa” continua sendo o elemento mais angustiante da crise brasileira. Perde-se um tempo que já não ha.

O déficit público bate recordes a cada medição. O custo dos privilégios do funcionalismo continua crescendo e não só em função da “automatização” de carreiras sem desempenho e “correções” de salários e pensões pela inflação. A festa dos aumentos reais continua em pleno velório.

Em julho a diferença entre o que entrou e o que saiu do caixa saltou 20% acima de junho (de R$ 10,02 bi para R$ 12,81 bi) sinalizando que o favelão continental em que se vai transformando o Brasil continuará se expandindo. Adiciona-se à marcha-a-ré dos negócios a arrecadação cessante. Estamos apenas iniciando a segunda volta no círculo e quem ainda não fechou vai de mal a pior. Pesquisa do Ibmec mostra que pelo menos metade das empresas privadas não está gerando caixa suficiente para pagar suas obrigações financeiras…
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Outra pesquisa da Escola de Economia da GV constata, agora com prova científica, o que todo mundo vê a olho nu. Os funcionários públicos, indemissíveis, ganham muito mais pelo que não entregam que seus equivalentes na iniciativa privada fazendo das tripas coração para entregar o suor, as lágrimas e o sangue que já não bastam para livrá-los do desemprego.

Isso é verdade no Brasil inteiro e é três vezes mais verdade em Brasília onde os empregados do Estado ganham “em média” 200% mais que seus equivalentes no mundo real, numero que, diga-se de passagem, está negativamente distorcido pelo fato da pesquisa ter considerado apenas os empregados do setor privado com carteira assinada entre 18 e 74 anos. Se considerasse o Brasil real, onde criança e aposentado, cada vez mais, têm de trabalhar, e carteira assinada ainda é privilégio, chegaria mais próximo dos números escandalosos que as contas da Previdência refletem. As aposentadorias e pensões do setor publico, com 30 vezes menos beneficiados, comem mais de 30 vezes mais recursos que as do setor privado.

30 vezes 30! O Brasil de hoje é um clássico das piores crônicas medievais: está muito, mas muito mais pobre mesmo do que merece porque a casta que se apropriou do “reino” e o escorcha com impostos está muito, mas muito mais rica mesmo do que faz por merecer. E vai ficar ainda mais posto que essa “nobreza” que vive acima da regra dos “plebeus” vende a ideia, que a imprensa compra sem contestar, de que será possível arrumar as coisas espremendo mais um pouco os explorados para manter intactos os privilégios dos exploradores.

O “ajuste” da Petrobras após o estupro coletivo sofrido é um exemplo emblemático. Sob aplauso geral, ela acaba de transferir ¼ de sua gigantesca folha de assalariados, com todos os benefícios necessários para os folgares da vida nas vizinhanças da nova residência da “Honesta Dilma” na Ipanema a que estão acostumados, da conta dos seus acionistas, que também habitam a rua da praia, para a dos brasileiros dos morros que, sob a “Lei do Cão” e no meio do tiroteio, sustentam o rombo de R$ 93 bi por ano que custam, por enquanto, só os aposentados e pensionistas da União. Vai na mesma direção o novo “teto de gastos do setor público”. Como “a Justiça” garante que todos os privilégios dessa casta tornam-se “imexíveis” uma vez enfiados no saco segue, por decorrência, que só a magérrima fatia do orçamento público ainda de propriedade do povo – a dos investimentos em infraestrutura, saúde e educação – são compressíveis. E aí esta tem de ser comprimida, espremida e recomprimida para compensar o “nem um passo atrás” no território ocupado pelos “direitos adquiridos” do funcionalismo. A conta está sendo atirada inteira para os 30 vezes mais pobres e nem uma única voz se levanta para denunciar o “passa-moleque” senão a da turma da “narrativa do golpe” que, todos muito agarradinhos “ao seu”, o faz pela metade, para confundir, para enganar e para agravar a conta.

Se concedesse pagar apenas a parcela dela que exceder os privilégios e abusos mais ostensivos, o país já estaria sendo condescendente o bastante. “Consolidar” os salários públicos na soma final dos “auxílios”, “adicionais”, “gratificações”, “abonos” e outros penduricalhos hoje incorporados às aposentadorias mas isentos do imposto de renda, o que piora o déficit; acabar com as obscenas frotas de jatos e carros de luxo com seus pilotos, motoristas e pessoal de manutenção e back-up; fazer com que arquem com suas residências e mordomias como todo mundo; anular os aumentos de salário auto-atribuídos por atos de “autonomia administrativa” em flagrante “desvio de finalidade” são maneiras de começar a reduzir o acinte de exigir mais carne magra de cima de uma montanha de gordura. Acabar com a esbórnia das bolsas redundantes, dos “auxilios doença” ha anos sem fiscalização, dos 45 mil “pescadores” indenizados por “defeso” em plena Brasília, são outras medidas comezinhas que custam bilhões e valem mais do que pesam. O desmonte das 140 estatais que só servem para o mesmo que a Petrobras serviu; o corte das vastíssimas “assessorias” dos três poderes pelo menos tanto quanto os brasileiros estão cortando suas compras de supermercado; com novos ares no STF, acenos de castigo para o crime e discursos de austeridade auspiciosos no ar, estas são algumas das providências imediatas cuja obrigatoriedade clama aos céus.

Menos que isso será sacrifício inútil. O Brasil violou todo os limites da matemática e não haverá acerto fora da matemática. As reformas para nos colocar na mesma distância do feudalismo que o 1º Mundo alcançou no fim do século 19 podem esperar por um governo eleito. Mas o povo que está começando a expulsar os ladrões pode bem começar ao menos a atacar também os parasitas e os chupins porque livrar-se deles é uma longa batalha que depende essencialmente de expô-los persistentemente à luz do sol e já deveria ter começado ha muito tempo.

Supremas esperanças

Até que os discursos inflamados e empolados do decano Celso de Mello impressionam com sua retórica de combate implacável à corrupção e aos “marginais da República”. E, no entanto, quando foi julgada a decretação da prisão depois de condenação por colegiado em segunda instância, fundamental no real combate à impunidade, o ministro votou contra a maioria do STF. Em nome da presunção de inocência, quem tem dinheiro e bons advogados consegue arrastar seus processos até a prescrição.

E os “marginais da República”? Renan Calheiros tem 12 processos no STF, entre eles o que acusa o lobista de uma empreiteira de pagar a pensão de sua filha fora do casamento, que se esconde há sete anos no Supremo, e ninguém sabe por que até agora não foi julgado. O que pode fazer a presidente Cármen Lúcia sobre isso? O que podem os demais ministros? Quem está segurando este processo e por quê? Sete anos não são suficientes para formar um juízo e levar a julgamento? Não há discurso jurídico que explique isto, só a baixa política.

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O José Casado tem razão quando os chama de “políticos de toga”, que não chega a ser ofensivo (a não ser talvez às ministras Cármen Lúcia e Rosa Weber ), afinal, nem todo político é corrupto, e os ministros do STF não pintam os cabelos nem fazem implantes. Mas Lewandowski, Gilmar, Dias Toffoli (foi advogado do PT, serviu a José Dirceu na Casa Civil, mas não se julgou suspeito para absolvê-lo no mensalão), Barroso, Teori, Fachin, Luiz Fux, Marco Aurélio, são ligados a correntes políticas e corporativas que apoiaram suas carreiras até o Supremo, até a suprema vaidade humana, à sensação de poder ilimitado, aos egos inflados de tanta sabedoria. Como são justos! E probos! E poderosos! Como são supremos! Basta observar-lhes a expressão corporal, o prazer em ouvir a própria voz em discursos intermináveis recheados de termos eruditos.

Com a falência do governo Dilma e a desmoralização do Congresso com Eduardo Cunha, o Judiciário ganhou o protagonismo da cena política. Mas discursos não bastam: dois anos de Lava-Jato, e o STF ainda não julgou nenhum político.

Nelson Motta

Manhã

Suíte Peer Gynt, Edvard Grieg

O bisavô Lula fala aos seus

Entrevista não foi. Entrevista coletiva, então, vamos falar sério, é que não foi mesmo. Coletiva sem perguntas dos jornalistas é piada, não é, não?

Que nome dar então àquela apresentação de Lula ontem em um hotel em São Paulo?

Pronunciamento? É, pode ser, já que foi somente uma declaração pública de como ele é bom, generoso, altruísta, devotado aos pobres e aos menos favorecidos pela sorte.

Quer dizer, foi outra sessão de autobiografia. Tema que sempre comove seus seguidores que já sabem de cor toda a trajetória do líder, mas que adoram ouvi-lo dizer o quanto foi pobre e como subiu na vida. É o tipo de pronunciamiento que faz sucesso entre os petistas. Talvez acreditem que se ele conseguiu, por que outros não conseguiriam?


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Mas não quero ser injusta: ao menos uma novidade ele apresentou aos vermelhos que o seguem. É verdade que não foi dita em tom muito entusiasmado, mas o fato concreto, como ele gosta de dizer, é o que foi revelado num tom meio monocórdio: Lurian vai ser avó, o que fará dele um bisavô!

Por que Lula não honra seus sete netos e o bisneto que vai chegar com uma entrevista coletiva para responder às acusações do Ministério Público? Isso seria uma herança muito mais rica que qualquer chácara em Atibaia ou apartamento no Guarujá.

Ele bravateia que se apresentarem uma prova de corrupção contra ele irá a pé depor. Como ele sabe que não há nenhum bilhete dizendo “Recebi a propina. Obrigado XXX” e não acha que provas testemunhais ou indícios fortes sejam prova, fez essa ameaça com o coração à larga! Sim, ameaça, porque Lula a pé, de São Bernardo do Campo a Curitiba, seria um martírio que traria ao Brasil os mais altos nomes da Imprensa Internacional. Seria o mártir dos mártires, já pensaram?

Foi um improviso muito bem estudado. Seus advogados pediram a ele que cuidasse das palavras, talvez que esquecesse a jararaca. Pelo menos a jararaca não apareceu, apareceu foi um crocodilo com muitas lágrimas.

Já votei no Lula, em 2010. A decepção que ele causou foi imensa, mais do que isso, imperdoável. Com o tempo, e com as descobertas de todas as tratantadas do PT, fui ficando cada vez mais indignada com ele.

Ele diz que elevou o nome do Brasil no exterior. Bem, depende em que parte do mundo e diante de quais figuras nosso nome ficou mais elevado. Porque, dependendo de quem são, o que Lula nos fez foi um enorme desfavor.

Foram, enfim, palavras ocas, já que ele não respondeu a nenhuma das acusações que fazem parte da grave denúncia feita pelos ‘meninos’ da PGR.

Por exemplo, custava dizer por que a OAS pagou pela guarda daquela “tralha” (a expressão é dele) que deveria ter ficado em Brasília, como acervo da Nação?

Sabem de uma coisa, melhor fez Marisa Letícia que ficou em casa para almoçar com os filhos. Era o que ele deveria ter feito, já que não ia responder a nada, só chorar e se lastimar e se fazer de vítima.

Nem a jararaca você trouxe, Lula. Foi pena. Quem sabe ela não seria a sua salvação?

Para Lula, político ladrão é melhor que procuradores e juízes concursados

Com o luxuoso auxílio dos seus advogados, Lula desperdiça tempo numa cruzada contra Sérgio Moro. Para estigmatizá-lo, recorreu até às Nações Unidas. Denunciado, o ex-presidente passou a demonizar também o procurador da República Deltan Dellagnol e os outros “meninos” da Lava Jato. Lula procede assim por acreditar que, tachando seus investigadores de demônios, fica eximido de todo exame do mal. A começar pelo mais difícil: o autoexame.

Nesta quinta-feira, no comício privê que convocou para politizar a denúncia de que foi alvo, Lula potencializou a impressão de que se tornou um típico político brasileiro— grosso modo falando. Ele discursou por uma hora e oito minutos. A certa altura, a pretexto de criticar os procuradores que têm a mania de procurar e o juiz que cultiva o hábito de julgar, Lula saiu em defesa da classe política, sua corporação. Pronunciou a seguinte frase:

Duke/O Tempo
“Eu, de vez em quando, falo que as pessoas achincalham muito a política. Mas a profissão mais honesta é a do político. Sabe por quê? Porque todo ano, por mais ladrão que ele seja, ele tem que ir para a rua encarar o povo, e pedir voto. O concursado não. Se forma na universidade, faz um concurso e está com emprego garantido o resto da vida. O político não. Ele é chamado de ladrão, é chamado de filho da mãe, é chamado de filho do pai, é chamado de tudo, mas ele tá lá, encarando, pedindo outra vez o seu emprego”.

O raciocínio de Lula é límpido como água de bica. Mas vale a pena clareá-lo um pouco mais. Para o morubixaba do PT, política não é sacerdócio, mas profissão. E se parece muito com a profissão mais antiga do mundo. O político, ainda que seja um biltre, um pulha, um larápio será sempre mais honesto do que alguém capaz de molhar a camisa numa universidade para ingressar por concurso no Ministério Público ou na magistratura. Toda vilania, toda calhordice, toda ladroagem será perdoada se o político for para a rua “encarar o povo e pedir voto.”

De acordo com a força-tarefa de Curitiba, Lula é o “comandante máximo” da corrupção. Presidiu uma “propinocracia” urdida para assegurar o enriquecimento ilícito, a governabilidade corrompida e a perpetuação no poder. Lula abespinhou-se com a acusação de que comprou apoio congressual.

“Ontem eu vi eles falarem dos partidos políticos, dos governos de coalisão, vocês sabem que muita gente que tem diploma universitário, que fez concurso, é analfabeto político”, declarou. “O cara não entende do mundo da política. Não tem noção do que é um governo de coalisão. Ele não tem noção do que é um partido ser eleito com 50 deputados de 513 e que tem que montar maioria.” Foi como se o pajé petista dissesse: “Num Legislativo em que todos os gatunos são pardos, mensalões e petrolões não são opcionais, mas imperativos.”

A esse ponto chegou o mito. Assumira o poder federal, em 2003, ostentando uma biografia que empolgava o mundo. Imaginou-se que reformaria os maus costumes. Hoje, convoca a imprensa nacional e estrangeira para informar que foi reformado por eles. E concluiu: 1) que a oligarquia política com o rabo preso no alçapão da Lava Jato é inimputável. Recebeu licença das urnas para roubar. 2) que ‘governabilidade’ virou uma grande negociata para justificar qualquer aliança ou malandragem destinada a fazer da discussão política uma operação de compra e venda.

No fim das contas, um comício que serviria para contestar acabou confirmando as formulações dos analfabetos políticos da Lava Jato. Enquanto procura demônios de ocasião para os quais possa transferir suas culpas, Lula revela o porquê do surgimento de fenômenos como o mensalão e o petrolão. Se a urna é um sabão em pó moral, nada mais natural que políticos como Collor, Renan, Cunha e um incômodo etcétera recebessem, sob Lula, licença para plantar bananeira dentro dos cofres da Petrobras e adjacências.

Lula gosta de citar sua mãe, dona Lindu, para informar que aprendeu com ela a “andar de cabeça erguida por esse país.” Está claro que Lula não apreendeu os ensinamentos de sua mãe. Um governante pode até conviver com certos políticos por obrigação protocolar. Qualquer mãe entenderia isso. Mas ir atrás do Collor, adular o Cunha, entregar a viabilidade do seu governo à conveniência de tipos como Renan… Está na cara que Dellagnol e os outros ''meninos'' de Curitiba precisam assumir a função da mãe de Lula, denunciando-o de vez em quando, nem que seja para dizer: “Olha as companhias, meu filho. É para o seu próprio bem. Certos confortos podem acabar na cadeia.”

A pauta certa

Psicólogos estão aí pra isso. Gentalha!:
Andava por uma livraria outro dia quando vi um grupo de adolescentes “debatendo” política. Uns diziam que votariam no candidato do PSol, outros na candidata do PCdoB. Um, solitário, preferia o Partido da Causa Operária. Eram alunos de uma escola particular, num shopping carioca de luxo.

É verdade que a juventude é meio utópica e costuma ter uma queda pelo socialismo. Mas não é apenas isso que explica o fenômeno. Nos Estados Unidos, por exemplo, a garotada votaria em peso no socialista Bernie Sanders. Há algo mais por trás dessa “coincidência”.

Uma das notícias mais importantes da década passou despercebida por nossa imprensa nos últimos dias. Falo do vazamento de dados da fundação de George Soros, o especulador bilionário que financia boa parte da esquerda mundial.

A esquerda sempre foi contra a globalização dos mercados, mas se tornou “globalista” no campo das ideias. Descobriu que é mais fácil fazer uma revolução mundial na cultura, e com isso avançar no controle de nossas vidas, com um Estado cada vez mais intervencionista.

Por isso Soros dá dinheiro para Hillary Clinton, para Fernando Henrique Cardoso e para o Mídia Ninja, de Pablo Capilé. São muitos milhares de dólares por ano para cada um. E qual a contrapartida? O mundo politicamente correto “debate” mais e mais as mesmas pautas, todas com um só denominador comum: o enfraquecimento da família, do cristianismo, o homem branco como vilão da humanidade e a “marcha das minorias oprimidas” como o caminho da redenção.

A solução para tudo – aquecimento global, preconceitos, desigualdades, violência – é sempre mais Estado; para todo problema há de se pregar a mão visível do Estado como resposta. É por isso que vemos tanta convergência na pauta da grande imprensa, dominada por essa esquerda. A julgar por essa gente, as coisas mais relevantes do mundo são a legalização do aborto e das drogas, o clima e o casamento gay ou o “poliamor”, além do desarmamento dos civis inocentes. Esses “formadores de opinião”, bancados por ricaços como Soros e sua trupe, vivem numa bolha, e alguns passam mesmo a crer que essas são as bandeiras mais importantes do momento.

Esqueça as verdadeiras mazelas da população do andar de baixo, o transporte caótico, a falta de saneamento, a comunidade dominada pela bandidagem, a péssima qualidade da educação pública e uma saúde cada vez mais cara. As prioridades da mídia são outras, definidas por uma elite culpada ou interessada em ampliar os tentáculos estatais para benefício próprio.

Voltemos aos garotos da livraria: eles acham que pensam por conta própria, mas nem percebem que são papagaios desses formadores de opinião, sustentados pelo “sistema”. Repetem sem muita crítica aquilo que as “autoridades” e os “especialistas” dizem sobre cada coisa, e ainda se sentem os rebeldes!

Fumar sua maconha em paz, abortar o bebê quando o sexo é descuidado e participar de orgias com novo nome passam a ser suas grandes metas “revolucionárias”, enquanto o pobre luta para sobreviver pagando impostos cada vez maiores e tentando manter sua filha longe do traficante, que o jovem mimado vê como herói, para poder odiar a polícia “fascista”.

Mais de 60% dos partos no Rio, capital nacional dessa “esquerda caviar”, são de mães solteiras, e muitas são adolescentes e sem estudo. É o quadro da destruição real dessas ideias “bonitinhas” que seduzem os filhos da elite, no conforto de seu condomínio.

Precisamos deixar de pautar nossos debates com base nas bandeiras “progressistas” enfiadas goela abaixo pelos globalistas. Há outras prioridades. No curto prazo, recuperar a economia com as reformas estruturais. No longo prazo, resgatar valores morais e impedir essa doutrinação ideológica em nossas escolas. Eis a pauta certa.

Rodrigo Constantino

Farsa ambulante

Se alguma coisa incomoda Lula, é a verdade como todo mundo conhece. Não que a admitindo seja condenado aos quintos do inferno, e tenha medo. Simplesmente não tem com ela a mínima intimidade. Com o passar dos anos, a farsa ambulante foi sua verdade inquestionável. E as mentiras passaram a povoar essa criatura que criou acima de tudo e de todos. Não bastou ser o mais honesto do país, agora se tornou o mais conhecido depois de Cristo, é claro. 


O inocente ex-presidente, que não sabia de nada e só trabalhava em prol dos pobres, deixou um rastro de rombos, quando não de roubos. Mentiu como o diabo, mas essas são suas verdades. Assim se tornou o único e grande criador de muito que os outros criaram. Assume a paternidade de obra alheia como marginal se diz arrimo de família e trabalhador. Sem um pingo de vergonha e na maior cara de pau. 

Depois de apontado como o poderoso chefão da propinocracia no país, Lula se pronunciou entre os seus, bem resguardado de perguntas, para destilar o mesmo blá-blá-blá avinagrado. Não deu respostas, mas ofereceu as fanfarronices em especial a de que o Brasil foi descoberto por Cabral, mas verdadeiramente surgiu com Lula. E segundo o homem mais conhecido do país, a História deve estabelecer duas etapas no Brasil: antes de Lula e depois de Lula. 

Aos 71 anos, com o mesmo discurso contra as zelites, que privilegiou em favor dos pobres, a quem ludibriou, Lula ainda acredita ser um marco histórico. É a sua verdade que não convence a mais ninguém fora do circuito dos seus poucos, raríssimos, defensores, uma vez que até a amigos de anos defenestrou em nome do continuísmo e ainda mais da permanência fora da cadeia.

No picadeiro da política brasileira, é um velho palhaço em esquetes antiguadas ainda querendo palmas pelo que foi, embora não tenha sido tanto quanto se acha.
Luiz Gadelha