quinta-feira, 13 de agosto de 2015

Política é ofício do diabo

Não acredito em coincidências, creio em destinos. Ainda na semana passada, escrevi neste espaço sobre os “ares de agosto”, mês que, pela tradição do interior, é tempo de cachorro doido, ventanias e malquerenças. Não falei em renúncia, crise política e outras intemperanças.

Num país como o nosso, em que a democracia aparece sempre como sucedâneo de ditaduras, assim como o verão sucede à primavera, não é de estranhar que, chegado o mês fatídico, chegue junto o sobressalto político que ameaça o nosso regime, a forma e o sistema de governo.

O episódio dantesco do suicídio de Getúlio Vargas, a renúncia do presidente Jânio Quadros, com todas as suas implicações, o desastre que matou Juscelino Kubitschek, a morte de Miguel Arraes, ícone das esquerdas no país e principalmente no Nordeste, e, recentemente, o desastre que matou seu neto, o governador Eduardo Campos, no mesmo fatídico 13 de agosto (só faltou ser numa sexta-feira de ano bissexto), tudo isso reforça a crendice popular de que agosto é mês de mortes e assombrações. Agosto é mês comprido, e, com o desenrolar da operação Lava Jato e um governo que praticamente acabou antes do tempo, por ação e eiva de ladrões da “coisa pública”, não é de estranhar o sobressalto que estamos vivendo com as notícias e os boatos de uma possível e desejada renúncia de Dona Dilma, que está entendendo que essa confusão por que passa o país é fruto da operação Lava Jato...

Eu não penso assim, até porque “cachorro não corre atrás do rabo”... Dia desses, acordei pensando que escutava aquela música antiga de Nelson Gonçalves, na voz de Dona Dilma, que, chorosa, cantava em uma janela do Palácio: “A minha renúncia/ enche-me a alma e o coração de tédio/A tua renúncia/ dá-me um desgosto que não tem remédio/ Amar é viver/ é um doce prazer, embriagador e vulgar/ difícil no amor é saber renunciar...” Mas isso é coisa de gente sensível e, às vezes, patriota. Guerrilheiros e terroristas são mais é de quebrar o pau, né, Dona Dilma?

A renúncia nem sempre é um ato de covardia. Pelo contrário, pode ser ato de bravura e até de colaboração. Não, eu não estou sugerindo nada a ninguém, até porque não sei qual a vantagem de termos o atual vice-presidente, Michel Temer, como presidente. Macaco velho na política, tem aquela conversa mole de pessedista e não é suficientemente simpático para assumir tal responsabilidade. Talvez tivesse mais sucesso lá no Egito, pela parecença com o finado Anwar Al Sadat...

Em suma, já que estamos falando em renúncia, tenho medo do retardamento do último ato do juiz Sérgio Moro, que a nação espera ansiosa: o indiciamento do lobista-mor, que, com nove dedos, armou todo o esquema do petrolão, indicando empresas brasileiras para obras no exterior com financiamento do BNDES a fundo perdido. Com as CPIs do BNDES e os fundos de pensão ficaremos sabendo todo o enredo desse filme de terror. O ex-Luiz sabe que a fila anda...

Por isso, condenada

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O sentido das coisas

Sempre procurei, tantas vezes em vão, encontrar o significado de tudo. Por exemplo, por que há pessoas boas e más, por que as pessoas boas fazem coisas más e vice-versa, por que entre pessoas que se querem bem pode haver frieza ou até maldade, por que… lista infindável, ainda mais para quem tem um pouco de imaginação. A cada momento reinventamos o mundo, reinventamos a nós mesmos, reinventamos nossos afetos para que seja tudo menos doloroso.

Escrevendo sobre a situação do Brasil um pequeno livro que deve aparecer em breve, observo ainda mais intensamente o que acontece, tanta coisa inacreditável, mas real. Assim reflito quase constantemente sobre todas as loucuras, baixezas, perigos, sustos, desalentos atuais, aqui e ali uma luzinha minúscula que logo bruxuleia. Vai se apagar para sempre? Nada é para sempre. As coisas más, as fases ruins, também hão de passar. Mas, no momento, não sou otimista. Falsidade, mentiras, arzinho superior e palavras fantasiosas sobre questões fundamentais, apontar o dedo para o adversário, tudo é pior do que a dura verdade. Assustam-me discursos com que neste momento dramático alguns negam ou diminuem a gravidade da situação, revelando-se o desvio de inacreditáveis fortunas que deveriam atender o povo mais carente, a maior vítima desse desastre, um povo despossuído, sem as coisas essenciais que lhe têm sido negadas - não por uma fatalidade, mas por ganância de quem já tinha uma boa fortuna, mas queria mais, e mais.

Hoje, os acusados reagem com ironias, ameaças, invenções: mas fizeram de nós um dos piores países do mundo em quase tudo, sobretudo educação e segurança. Ninguém assume sua responsabilidade, antes critica adversários ou países mais adiantados, como se fôssemos todos uns pobres crédulos. Começamos a perceber o que se passa no nevoento território da política que fragilizou a economia, e é cenário de tão grave incompetência e irresponsabilidade. Na grande negociata nunca vista, quase todos tinham seu preço: não foi barato. Pouco sobrou para o brasileiro que ignorava esses fatos que atingiram seu bolso, sua esperança e suas possibilidades de uma vida decente.

A política influenciou e dominou nossa existência nos últimos anos, com gestão incompetente, péssimo planejamento, desorganização nas contas públicas, maquiagem do desastre que foi escondido de um povo mal informado porque mal escolarizado (não é por acaso que negligenciamos tanto a educação). A pátria-mãe desvia o rosto; nós, os filhos, largados na floresta como num conto de fadas sinistro. Os próprios investigadores das gigantescas fraudes, impressionados, admitem estar diante de tramas de dimensão e sofisticação nunca vistas.

A paisagem brasileira está de pernas para o ar: nada faz muito sentido, tamanho o escândalo. Para começar, os salários com que tentamos manter uma vida honrada são patéticos diante das cifras roubadas, apresentadas pelos competentes e corajosos investigadores. Irresponsabilidade e incompetência comandaram as façanhas que esfacelaram o país, agora rebatizadas de “malfeitos”. Espantoso: os desvios não eram efetuados por bandidos oficiais, mas por grandes empresários que admitem, talvez forçados pelo medo, que, se não tivessem entrado no esquema de corrupção e pagado as irreais propinas, suas companhias teriam ficado “de fora” da roda dos mafiosos, prejudicando seus acionistas e trabalhadores. Quase todos afirmam com veemência que de nada sabiam: viviam em outro planeta. Não saber de nada passou a ser um triste refrão.

Os investigados, denunciados e presos continuam protestando contra tamanha maldade: todos vítimas do lobo mau da Justiça. Seus defensores encenam uma ópera-bufa de delirantes explicações: roubalheira mascarada de comportamento legal, nos parâmetros da decência. Se essas ficções patéticas fizessem sentido, nunca teria havido tantos inocentes no mundo: as elites e os estrangeiros seriam os culpados. Essa farsa acabou: não há desculpa perante uma nação ferida. 

Não é fácil se posicionar em meio a subterfúgios e mentiras

A crise por que passam os brasileiros, que tem várias faces, vem se agravando cada vez mais. Assiste-se, dia após dia, ao desmoronamento da nossa economia. Para uns, a crise é econômica; para outros, é política. Na realidade, ambas são causas, mas também efeitos. E a deterioração desse circo mambembe (e sem palhaço) vem se acentuando desde o primeiro mandato da presidente Dilma, mas atingiu o clímax na sua reeleição. Com o apoio do submisso ex-ministro Guido Mantega (et caterva), desprovida das qualidades necessárias à liderança política e, ainda, com o desafio de provar – principalmente ao PT – que é mesmo a eficiente “gerentona” do ex-presidente Lula, Dilma se transformou na única condutora da nossa economia. Um horror!

Para mim, porém, leitor, o que há de mais perigoso é a crise política, que é (vale repetir uma vez mais) “a arte de bem governar os povos”. É ela que solapa a credibilidade de um país, interna e externamente. Mas, como qualquer crise, sempre se encontrou uma saída para ela, proposta, sobretudo, e independentemente dos partidos, por lideranças espertas ou conscientes do seu papel. O que ocorre é que, ao lado de outras crises, há, ainda, a pior e mais grave delas – a crise de lideranças. É devastadora, hoje, a ausência de representantes confiáveis, tanto no governo quanto na oposição. O que se vê são políticos de varejo, que apenas defendem os seus interesses, próximos ou longínquos, sem nenhuma preocupação com o país. Não é nada fácil, portanto, se posicionar politicamente em meio a subterfúgios e mentiras.

Veja bem, como diria um velho e educado amigo toda vez que pedia permissão para dar o seu palpite, não sem antes frisar os dois pontos: o país está nesse impasse, senhores, simplesmente porque o governo está sem rumo, e, em compensação, a oposição não consegue sequer escolher um rumo. A presidente delegou as suas atribuições a vários intermediários: Joaquim Levy, um bom sujeito (mas sem nenhuma preocupação com o seu emprego em grande banco no futuro), deveria conduzir a economia, e Michel Temer, a articulação política. Só que o primeiro não tem o apoio do PT, e o segundo já sucumbiu, não sem antes afirmar que o país precisa de alguém que o reúna e o defenda.

Na oposição, sobretudo no PSDB, em qual das correntes você acredita, leitor? Na do senador Aécio Neves, que quer a impugnação da chapa Dilma e Temer para ser candidato a presidente três meses depois da convocação das eleições? Ou você acredita na do governador Geraldo Alckmin, que deseja levar a presidente sangrando até 2018, quando, então, ele seria o candidato? Ou, enfim, você crê na do senador José Serra, que confia, piamente, que, no caso de impeachment via TCU, e com a consequente posse do vice-presidente, e com o apoio do PMDB, ele seria o futuro todo-poderoso da nossa economia? Mas essa última opção não provocaria um desastre, que seria a posse de Michel Temer, que, por ser passageiro do mesmo barco, fretado pela dona Dilma e que os acompanhou nas eleições, agravaria mais ainda a crise?

Os partidos de oposição poderiam entregar ao ex-presidente Fernando Henrique a missão sugerida por Michel Temer – a de reunir o país em favor de um rumo. Aos 84 anos, FHC tem plenas condições – mentais, morais, intelectuais e políticas, internas e externas – para encaminhar uma solução para o imbróglio. Só faltam duas condições para isso: ele querer e, depois, o PSDB o aceitar a missão…

Ou o que todos desejam é que a vaca vá para o brejo?

O pós-petismo

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A crise que vivemos é assombrosa, inédita em sua natureza e escopo e imprevisível em suas consequências. Precisa ser decifrada, pois são inúmeras as perguntas que nos inquietam. Entre elas, por exemplo, o que acontecerá com o governo do PT ou com o campo petista em geral. É pergunta urgente, pois a resposta indicará os caminhos futuros da política e dos processos decisórios públicos, mas, crucialmente, também as possibilidades da economia. Interpretar com exatidão o que vem adiante interessa não apenas aos mais ativos operadores do poder. Interessa aos brasileiros, pois ou iluminará a persistência da agonia decorrente do inacreditável despreparo da ação governamental ou, pelo contrário, apontará se observaremos iniciativas que abreviem o que atualmente é quase um martírio coletivo. A presidente será capaz de um ato de grandeza, como a renúncia, ou será escorraçada pelo calor das ruas ou, ainda, pelo Congresso Nacional?

Esta quadra histórica vai desenhando diversos contornos que emergem ameaçadores, sem paralelo com o passado. Um deles, de profunda consequência no estado de humor da sociedade, diz respeito à visceral perda de esperança pelos cidadãos, descrentes de tudo e de todos. Não existem mais elites políticas confiáveis à vista e, assim, como divisar o futuro próximo com serenidade? Encarcerando bilionários, caciques políticos e um almirante, o Ministério Público parecerá ser a tábua de salvação neste mar revolto, mas não está entre suas funções a administração do Estado. Por isso, o esvaziamento da esperança é a antessala do desespero social. Se a crise for arrastada para níveis ainda mais graves de desemprego e recrudescimento da inflação, como nos alertam os economistas, a perspectiva de convulsão social não pode ser descartada.

Outra faceta inesperada deste momento é a estratégia que o PMDB vai cerzindo na política brasileira, quando surge uma chance única nascida a partir do seu redivivo protagonismo. Exceto durante o deplorável governo Sarney, é um partido que se aquietara na posição de linha auxiliar, mas sente que a hora de dar o bote pode estar se aproximando.

Se a presidente for afastada no tempo preciso, o condestável vice-presidente reinará na parte restante, preparando o palco para o candidato do partido que emergirá, então, como o novo salvador da Pátria nas eleições seguintes. Provavelmente, será o atual prefeito do Rio de Janeiro, sobretudo se colher o saldo positivo e os holofotes da Olimpíada.

Já os petistas, por extensão incluindo boa parte da esquerda, intuem com alarmismo o tempestuoso cenário que se está armando. O legado de quatro mandatos, talvez o último deles interrompido ao meio, será funesto para o futuro do partido. Como é típico entre a esquerda, novas rupturas serão muitas e imediatas, levando o partido à marginalização.

Cada vez mais, seus defensores serão somente os filiados que detêm cargos, forçados a curvar-se até mesmo ao indefensável. Ao contrário de sua recente propaganda, o PT no poder, de fato, encheu as panelas dos brasileiros, mas foi de espanto e desesperança. Atônita ante a obscena apropriação dos fundos públicos, destinada, primeiro, a um projeto de hegemonia partidária e, depois, ao enriquecimento pessoal, a sociedade começa a se mexer. Já a desesperança prospera porque nunca em nossa história um partido foi depositário de tamanha generosidade oferecida pelos cidadãos, crédulos das promessas, sobretudo, de moralização das condutas daqueles que conduzem o Estado.


O campo petista no poder, para a surpresa de todos, empreendeu uma estratégia que quase produziu a falência da esquerda, o que já vem acarretando efeitos nocivos na qualidade da política em nosso país. Certa ou errada em sua visão de futuro, as tradições programáticas da esquerda sempre perseguiram o enfrentamento crítico dos donos do poder, contestando a volúpia do capital, os ímpetos conservadores de nossa história e o autoritarismo inerente às práticas sociais de um país que foi o último a abolir a escravidão, para não citar o combate às formas de violência e de discriminação. Nada disso sobrou, abrindo as portas, como sabemos, para a escória da política.

Não analisando aqui os erros cometidos na gestão macroeconômica, também a administração petista do Estado tem sido calamitosa, atiçando irrefletidamente uma linguagem de direitos que jamais foi tornada razoável pelo seu complemento lógico, que seria uma narrativa concomitante de deveres, transparência e responsabilização. Já no quarto mandato, o Estado praticamente parou, com um corpo de servidores em boa parte descomprometido com o bem comum, por sobre uma máquina absurdamente inchada e dirigida por gestores, quase sempre, guindados a tais posições em razão de suas lealdades partidárias. É, hoje, um Estado fortemente disfuncional e revirá-lo pelo avesso para novamente servir à população será tarefa quase impossível em prazo médio, pois os interesses partidários e sindicais incrustados em quase todas as suas partes reagirão com ferocidade ante as tentativas de racionalização que se fazem necessárias.

O futuro próximo, para o Partido dos Trabalhadores e os setores sociais a ele alinhados, incluindo a esquerda, poderá ser traumático. Seu líder principal vê minguar, a cada dia, a sua capacidade de aglutinar quadros e apoio popular. Os dirigentes do partido, por sua vez, presos à soberba, fingem não enxergar a gigantesca ira social endereçada ao campo petista que foi sendo formada em todas as paragens brasileiras, em face do descalabro da administração federal e dos infinitos desmandos petistas. Nesse contexto, a renúncia da presidente talvez seja o menor dos gestos esperados, pois a gestão do período seguinte, ante tal legado, será tarefa extremamente desafiadora.

Quanto maior o governo, menor o cidadão

Saídas manjadas, receitas vencidas

Sem margem de manobra e rejeitada pela ampla maioria dos brasileiros, a presidente Dilma Rousseff apela para fórmulas que já deram o que tinham de dar. Em uma ponta tenta salvar seu governo reaproximando-se dos chamados movimentos populares, uma espécie de reedição do caminho trilhado pelo governo Lula na época do escândalo do mensalão. Na outra, procura superar a balcanização de sua base parlamentar com o aprofundamento do presidencialismo de coalizão. É mais do mesmo.


O “diálogo” presidencial volta-se para esses dois atores da cena política e tem como objetivo se contrapor ao clamor das ruas. Com essas, não tem entendimento, não tem pedidos de desculpa. Qualquer manifestação contra o seu governo será acusada de crime de lesa-pátria, coisa da turma do quanto pior, melhor. Ou esse não foi o sentido das palavras da própria presidente no Maranhão?

À Dilma importa ganhar tempo, empurrar a crise com a barriga para conseguir levar o seu governo até o fim, mesmo que aos trancos e barrancos. Nesse sentido, assinará em baixo e concordará com todos os itens da Agenda Renan, mesmo tendo plena consciência de que seu partido e os ditos movimentos populares serão os primeiros a estrebuchar. Sabe ela que os itens dessa agenda são rubrica de longo prazo e dificilmente se materializarão na sua gestão.

A questão é saber se remédios tão antigos terão eficácia diante da maior crise da história do Brasil dos últimos tempos.

Há uma diferença da água para o vinho entre os primórdios do governo Lula e os dias de hoje. À época, planava-se em céu de brigadeiro, vivia-se o boom das commodities. Com gorduras para queimar, Lula pode fazer mimo aos movimentos sociais, em troca de seu bom-mocismo, de apoio incondicional. E com os endinheirados, parte deles encrencada na operação Lava-Jato.

Atualmente, as condições da economia impedem Dilma de acenar com qualquer bondade para esses movimentos, sem contar que o amancebamento levou ao esvaziamento de suas entidades, à perda de representatividade. No presente momento eles não têm poder de mobilizar amplas massas. O exército de Pedro Stédile é mera figura de retórica e a UNE tem peso pena na sociedade.

Junto aos bem-aventurados a presidente teve de suspender as benesses do BNDES e propor ao Congresso o fim das desonerações, que ela tanto prezava.

A estratégia de Dilma está minada por suas próprias contradições internas. Como manter no mesmo barco Joaquim Levy e os movimentos sociais que pedem sua cabeça? Ela pode seguir o conselho de Lula e dar um cavalo de pau na economia?

Evidentemente que não. Se abrir um pouquinho o cofre da União para aplacar os ânimos da base aliada, do PT e da CUT, a leitura do mercado, das agências de avaliação, dos especialistas e dos formadores de opinião será uma só: a presidente mandou às favas o ajuste fiscal.

O impacto negativo seria tremendo. A bola de neve se transformaria em avalanche, a Agenda Renan não teria serventia nem mesmo marqueteira.

Tampouco é fácil harmonizar interesses contraditórios no interior da base parlamentar do governo. Os partidos aliados querem ministérios de porteira fechada, com direito a nomear todos os cargos de segundo escalão. Ao mesmo tempo, não há hipótese de o PT largar o osso.

A margem de manobra de Dilma é estreitíssima, ou quase nula. E pelo menos dois fatores fogem de seu controle: a Lava-Jato - com novas delações em curso e Lula sendo puxado para o olho do furacão - e o próximo domingo.

Não há menor sinal de reconciliação entre a presidente e os brasileiros. Ao contrário, o sentimento de indignação aflorou mais ainda com as provocações grosseiras do PT, em seu programa de TV.

A probabilidade, portanto, é que no dia 16 de agosto multidões lotem as ruas das principais cidades do país, exercendo seu direito democrático de, pacificamente, protestar contra os descalabros do governo, contra a inflação, o desemprego e a corrupção.

Nas crises, conhece-se o grau de robustez das instituições e a determinação de um povo. Felizmente, o Brasil vai bem nesse teste. As instituições de Estado estão respondendo às exigências do momento e os brasileiros estão dando provas do seu amadurecimento. Já não se intimidam com o discurso do medo.

Hubert Alquéres

Linhas de desmontagem

Nada do que Renan Calheiros levou a Dilma, como proposta contra a crise, tem a ver com a crise ou pode nela influir para dissolvê-la, em seu aspecto econômico ou no político. Não é mais do que um amontoado de manjadas propostas sem nexo entre si, e quase tudo sujeito a fácil identificação com intenções subalternas, em benefício de diferentes áreas de poder econômico –logo, também financeiro. Se fossem propostas isentas de interesses escusos, não seria Renan Calheiros a levá-las à Presidência.

As fanfarras e a louvação com que a própria Dilma recebeu Renan, e as tais propostas, explicam-se por utilidades que independem do teor do presente. Aos dois lados convinha a reaproximação.

Renan não é político que viva de costas para o poder. Dilma precisava da contribuição de Renan para encarar no Senado as bombas de Eduardo Cunha aprovadas na Câmara. De quebra, ter Renan em seu círculo é distanciá-lo de Eduardo Cunha e atrapalhar a recente fraternidade a ele dedicada por José Serra, Aécio Neves e outros do opositor PSDB. Afora isso, em um dizer antigo, é questão de estômago.

Mas talvez seja o caso de lamentar que as sugestões de Renan Calheiros não ofereceçam alguma utilidade contra a crise. O otimismo expresso por Dilma, com a ideia de que "vivemos uma transição e em breve vamos retomar o crescimento", não encontra nem o mínimo apoio em parte alguma da realidade. Muito ao contrário, são dados objetivos, e não meras especulações do quanto pior mais impeachment, que sugerem estarmos no último estágio econômico e social em que ainda é possível deter a degringolada geral. E reverter os danos mais perigosos ou absurdos.

O país está parando. Os eventos e providências que Dilma anuncia, nas andanças para a pretendida e improvável reanimação do país, não tocam nos problemas da crise. Olham para um futuro impreciso e não condizem com o presente do governo. Mas são já os avanços do número de empregados, da remuneração do trabalho, de várias faces da ascensão econômica que regridem, que se perdem sob as vistas indiferentes dos mestres de ajustes que desajustam. A jornalista Flávia Oliveira, de múltiplas competências, formulou uma síntese precisa: "Crise é tempo de promover ajustes, não o desmonte".

Se o governo persiste no rumo do tal "ajuste fiscal", como se alheio ao que se passa com e no país, pode-se desde logo desacreditar que Dilma e Joaquim Levy consigam o tal ajuste fiscal que pensam buscar –quanto mais a retomada do crescimento, difícil e longa até em caso de êxito da atual suposição de política econômica e de governo.

Um plano para os planos

O pacote lançado pelo senador Renan Calheiros não deve tirar a economia do atoleiro, mas tem tudo para aumentar os lucros de alguns empresários. Um dos setores mais animados é o dos planos de saúde, cujo lobby se espalha como vírus nos gabinetes de Brasília.

A proposta prevê a “proibição de liminares judiciais que determinam o tratamento com procedimentos experimentais onerosos ou não homologados pelo SUS”. A ideia ganhou um apelido sugestivo no Congresso: “Emenda Qualicorp” (veja nota abaixo). Se virar lei, o paciente que paga a mensalidade na saúde e é abandonado na doença ficará impedido de recorrer à Justiça para garantir os seus direitos.

Os planos viram alvo de ações quando se recusam a cobrir cirurgias e tratamentos de alta complexidade. Por desrespeitar contratos, encabeçam os rankings de reclamação do consumidor. Se os pacientes dependessem só dos políticos, seria melhor rasgar a carteirinha e engrossar as filas dos hospitais públicos.

Um levantamento dos professores Mário Scheffer, da USP, e Lígia Bahia, da UFRJ, ajuda a explicar essa cumplicidade. Em 2014, os planos doaram R$ 54,9 milhões a 131 candidatos. Ajudaram a eleger a presidente da República, três governadores, três senadores e 29 deputados federais.

A Amil, recordista em doações, investiu R$ 26,3 milhões. A Qualicorp, que agora batiza um item da “Agenda Brasil” de Renan, deu R$ 4 milhões à campanha de Dilma Rousseff e R$ 2 milhões à de Aécio Neves.

Como ensinou um ex-diretor da Petrobras, não existe doação grátis. Em fevereiro, o deputado Ivan Valente propôs uma CPI para investigar abusos dos planos. O pedido foi engavetado por Eduardo Cunha, que recebeu R$ 250 mil da Bradesco Saúde.

O presidente da Câmara é um dos homens de ouro do setor. Em 2014, incluiu um “jabuti” na medida provisória 627, sobre tributação de empresas no exterior, para perdoar R$ 2 bilhões em multas aos planos. A anistia foi vetada pelo Planalto.

Bernardo Mello Franco

O dono da Qualicorp, José Seripieri Junior, é um dos melhores amigos de Lula. A intimidade é tamanha que Lula que levou toda a família para passar os dois últimos réveillons na mansão do empresário em Angra dos Reis, onde se divertiu com dona Marisa pescando no iate do dono da Qualicorp, 

quarta-feira, 12 de agosto de 2015

Não há mais governo


Novas delações premiadas complicarão o cenário. Prováveis acusados buscam mecanismos para garantir o foro privilegiado

O projeto criminoso de poder está com os dias contados. Deixa como legado escândalos e mais escândalos de corrupção, uma estrutura de Estado minada pela presença de milhares de funcionários-militantes, obras super-faturadas (e inacabadas) e um país paralisado. Sem esquecer que produziram a mais grave crise econômica do último quarto de século.

Ao longo de 12 anos, conseguiram organizar um aparato de proteção nunca visto na nossa história. Quiseram transformar as mais altas Cortes de justiça em braços do partido. Os meios de comunicação de massa foram sufocados pela propaganda oficial. Os bancos e as empresas estatais foram convertidos em correias de transmissão dos marginas do poder, como bem definiu, em um dos votos da Ação Penal 470, o ministro Celso de Mello. Não houve nenhum setor da sociedade sem que a presença do projeto criminoso de poder estivesse presente. Pelo medo, poder e omissão de muitos (empresários, jornalistas, políticos, intelectuais, entre outros), conseguiram impor a ferro e fogo sua política.

Deve ser recordado que, ao terminar seu segundo mandato, Lula era avaliado positivamente pela ampla maioria dos brasileiros. Diziam que seria candidato a secretário-geral da ONU ou a presidência do Banco Mundial. Tudo graças a sua sensibilidade social, aos êxitos econômicos e à preocupação com os mais pobres. Hoje, sabemos que no mesmo período o petrolão alcançou seu ápice e bilhões de reais foram roubados do Tesouro, no maior desvio de recursos públicos da história da humanidade. Os que denunciavam a pilhagem do Estado eram considerados enragés. Não foi nada fácil remar contra a corrente e enfrentar a violência governamental e de seus asseclas. Como em outros momentos da nossa história, já está chegando o dia de o passado ser reescrito. Muitos dos que se locupletaram vão se travestir em adversários ferrenhos do lulismo. Haja hipocrisia.

Vivemos a crise mais profunda dos últimos 60 anos. Em 1954, tudo acabou sendo resolvido em menos de três semanas, entre o atentado da Rua Tonelero (5 de agosto) e o suicídio de Getúlio Vargas (24 de agosto). No ano seguinte, em novembro, o país teve três presidentes, mas a crise foi logo solucionada. Em 1961, a renúncia de Jânio Quadros — que quase arrastou o Brasil a uma guerra civil — foi solucionada em duas semanas, com a posse de João Goulart, a 7 de setembro. Três anos depois, o mesmo se repetiu, e a 11 de abril, com a eleição de Castelo Branco pelo Congresso Nacional, foi resolvido o impasse político. Em 1992, o momento de crise mais profunda ficou restrito a três meses, entre julho a setembro, quando a Câmara autorizou a abertura do processo de impeachment do presidente Fernando Collor.

A crise atual é mais complexa — e mais longa. No tempo poderia ter uma data: a vitória de Eduardo Cunha, a 1º de fevereiro. A candidatura Arlindo Chinaglia empurrou Cunha para os braços da oposição — até então muito fragilizada, mesmo após o excelente resultado obtido no segundo turno por Aécio Neves. As revelações diárias sobre a extensão do petrolão ampliaram a crise, pois estabeleceu conexão entre o escândalo, as lideranças históricas do partido e o financiamento eleitoral, inclusive da campanha presidencial de 2014, em que propina virou doação legal.
As novas delações premiadas vão complicar ainda mais o cenário. Prováveis acusados estão, preventivamente, buscando mecanismos para garantir o foro privilegiado, temendo serem presos. E a instalação das CPIs do BNDES e dos fundos de pensão vão ter de devassar as relações do projeto criminoso de poder com a burguesia petista, aquela do capital alheio, do nosso capital, entenda-se.

O aprofundamento da crise econômica — com dados que tinham sido escondidos pelo governo, especialmente durante a última campanha eleitoral —, a divisão da base política congressual — inclusive de partidos que tem presença no governo, como a PDT e PTB —, as sucessivas derrotas em votações no Congresso relacionadas ao ajuste fiscal, a impopularidade recorde de Dilma, o desespero do PT, e o esfarelamento da liderança de Lula sinalizam claramente que não há mais governo. O que é bom e ruim. Ruim, pois este projeto de poder fará de tudo para permanecer saqueando o Estado; bom, porque os brasileiros romperam o feitiço de mais de uma década e, finalmente, entenderam o mal representado pelo lulismo.

Na última quinta-feira, era esperado que o PT reconhecesse os erros e apontasse para alguma proposta de negociação, de diálogo com a oposição. E mais, que buscasse apoio dos 71% de brasileiros que consideram o governo ruim ou péssimo. Não o fez. Satanizou a oposição. Associou 1964 a 2015. Tachou a oposição de golpista. Ironizou os protestos. Conservou a política do conflito, do nós contra eles. Isso quando estão isolados e sem nenhuma perspectiva, mesmo a curto prazo, de que poderão reconstruir sua base política.

A gravidade do momento e o autismo governamental obrigaram as oposições a se mexer. A necessidade de encontrar uma rápida saída constitucional para a crise é evidente. A sociedade civil pressiona. As manifestações do próximo dia 16 vão elevar a temperatura política. Quanto mais tempo permanecer o impasse, pior para o Brasil. Se 2015 já está perdido, corremos o sério risco de perdermos 2016 e 2017.

É inegável que Lula e o PT já estão de mudança para o museu da história brasileira. Mais precisamente para a ala dos horrores — que é vasta. Será necessário reservar um espaço considerável. Afinal, nunca na nossa história um projeto político foi tão nefasto como o do lulismo.

Marco Antonio Villa

A locomotiva de Ricardo

 Dei aulas no Middlebury College, em Vermont, Estados Unidos, e aproveitei a oportunidade para visitar Dick Moneygrand, que, como o escritor Saul Bellow, ali reside numa propriedade cercada de plátanos.

Fomos recebidos pelo velho amigo e sua mais recente esposa, a bela Claire Maranda, uma canadense francesa aparentada do meu ex-colega harvardiano Pierre Maranda. Foi de Claire que recebi a triste notícia da morte do amigo, ocorrida no dia 5 de julho. Notícia a ser sublimada por uma grave dose de uísque com a bênção de tio Silvio. Para ele, beber moderadamente era essencial na travessia deste vale de lágrimas.

— E o Brasil? — foi logo dizendo Moneygrand. — O que vocês fizeram dele?

— Triste... — respondi duplamente alvejado, pela morte e pela visão distanciada do meu país incapacitado pelo populismo e pelos conchavos movidos a incontroláveis ambições.
A crise do Brasil real tem como centro um grandioso papel (o de presidente da República) massacrado por uma péssima atriz

— Desequilíbrio em todos os setores supostamente racionais e pouco afeitos ao exercício da análise cultural. Fácil falar em remédios financeiros e fórmulas legais, pois, conforme sabemos — continuou Moneygrand. — a última barreira, o derradeiro inimigo, é sempre a cultura: o conjunto das opiniões e de modos de agir que comandam os nossos corações. Ganhamos a guerra contra a escravidão — disse. — Mas o credo igualitário até hoje tenta controlar a competição pelos mais diversos racismos. Suprima-se uma barreira, e outra logo surge, conforme dizia Lévi-Strauss.

— É impressionante como não temos a mais ínfima noção de conflito de interesse. E como ainda tentamos regular o conflito advindo da junção de igualdade e liberdade (acelerado pelas redes sociais que garantem um extraordinário anonimato e uma irresponsável agressão a quem quer que seja) por meio do “Você sabe com quem está falando?”: pelos elos pessoais, abandonando leis e instituições. É chocante como usamos óbvias manifestações de interesses ideológicos na tentativa de justificar atos lamentáveis. No Brasil, a “política” legitima o ilegítimo, dai a indignação relativa aos seus engravatados e gorduchos atores. O redesenho da esfera política passa pela consciência de direitos e deveres de todos para com todos. Liberdade + igualdade são incompatíveis com o favor, com aparelhamento do Estado, com a ignorância, com a má-fé e com as liturgias dos cargos que exprimem um viés hierárquico. Sem reflexão e cabedal, caímos nessa lamentável tentativa de infantilização do povo brasileiro.


— O velho ranço aristocrático do Brasil passou para as esquerdas no poder — disse Moneygrand. — E, hoje, o terrorismo intelectual tenta equacionar a indignação diante das épicas roubalheiras com “ódio” e “retrocesso”. Retrocesso seria não ficar indignado ao ver o Brasil ser mortalmente abatido pelo governo de um partido cuja bandeira era levá-lo, com ética, à justiça social.

— Me dá mais um uísque, Dick! — pedi para ser confortado no fosso da minha depressão.

Falamos dessas coisas desagradáveis e inevitáveis e, do fundo da minha memória, surgiu — como ocorre com os velhos — uma cristalina lembrança.

A memória do dia em que Ricardo, meu quarto irmão, ganhou uma locomotiva de presente de aniversário. O dom que o distinguiu até hoje atravessa a minha vida pela inveja intensa que despertou em nossa irmandade feita de Fernando, Romero e Renato. A nossa irmã caçula, Ana Maria, por razões de severa e preconceituosa demarcação entre o masculino e o feminino, foi poupada.

Quando Ricardo começou a brincar e vimos a locomotiva em todo o seu esplendor de símbolo, jorrava dos nossos corações uma inveja, uma inveja absolutamente pura. Como a que só surge quando um sentimento possui uma pessoa, englobando-a. Pois, como sabemos, tornar-se um adulto é um duro aprendizado de conter e disfarçar tais emoções.

Diante daquela locomotiva, nossos olhos fraternais cruzaram-se e, numa inveja bíblica, quebramos com o martelo de papai o brinquedo. Levamos uma surra, mas ela não liquidou a inveja. Tal como a democracia não acaba com o nosso gosto de opinar, estigmatizar, caluniar e roubar o bem comum.

Na peça de publicidade do PT, vi um excelente ator, José de Abreu, fazendo um pobre papel. A crise do Brasil real tem como centro um grandioso papel (o de presidente da República) massacrado por uma péssima atriz. Há teatro na política, mas política não é teatro. O que não vale é acabar também com a peça, com o teatro e com os espectadores que pagaram caro o ingresso.

Roberto DaMatta

Lágrimas de crocodilo

É verdade, sem sombra de dúvida, que as contas de luz aumentaram e, por isso, nós lastimamos
Dilma
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A UNE não é mais aquela...

Aqueles com mais de 50 ainda guardam a União Nacional dos Estudantes daquela época. Outros, pouquinho mais velhos, lembram do prédio no Flamengo, no Rio, da Casa do Estudante, do refeitório do Calabouço. 

UNE era sinônimo de cultura e de luta por novos conceitos sociais, defesa da liberdade. Não à toa se tornou "perigosa" para a ditadura e o radicalismo de direita - quando o mundo ainda era dividido.

O prédio incendiado era uma mordaça nos anseios da juventude daquela época. Doía sua imagem destruída como reprimenda por pensar melhor. Essa UNE ficou no tempo.

Depois veio a estudantada dos caras pintadas. Não havia mais aquela identidade da velha UNE, Foi às ruas contra Collor em seu melhor momento. E só.

Desse tempo, a estudantada acabou por gerar muitos da petralhada petista. Inclusive seu cacique Lindinho e outros basbaques ainda mais ordinários, lutadores de causas próprias e boquinhas políticas.

Agora existe uma UNE subsidiada pelo petismo, formando os petralhas do futuro, os estudantes profissionais que formarão a tropa de choque do aparelhamento estatal.

É essa UNE com ideias tão ultrapassadas para o mundo atual que promete sair às ruas para a defesa da democracia e pela legalidade (sic). Talvez devessem tais manifestantes estudaram mais, conhecerem a história da própria entidade e a do país intensamente.

Vão às ruas como marionetes, bem pagos e subsidiados, para defender apenas uma suposta democracia do PT. E como paradoxo, ainda defenderão a legalidade que estaria ameaçada por colocar seus petralhas na cadeia. Isso não é mais UNE é apenas mais um braço podre do PT, que desconhece democracia e ainda mais legalidade, quando recebe dinheiro público como cachê de participação.

Sobre patos e gansos

A expressão americana "lame duck" (pato manco) é usada para caracterizar o governante que, ainda no cargo, não vai concorrer à reeleição; perdeu a reeleição; ou, por alguma razão, tornou-se inelegível e não pode disputar a reeleição.
Esta expressão é geralmente usada nos últimos meses de um mandato. O governante já não exerce plenamente suas funções e sofre revezes no Congresso. Os políticos concentram suas atenções nos possíveis sucessores e a mídia se ocupa em esmiuçar as razões do fracasso.

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O que surpreende na situação atual do Brasil é termos uma presidente "lame duck", nos primeiros meses do seu segundo mandato. E por que isto? Em grande parte, como consequência de uma serie de desacertos (e alguns desatinos) cometidos no seu primeiro mandato. Desafiaria a toda lógica, a presidente conseguir escapar ilesa à concepção da sua chamada "Nova Matriz Econômica".

Ela tentou reintroduzir o nacional-desenvolvimentismo, com a reinvenção do intervencionismo estatal, das proteções à indústria nacional, dos favorecimentos fiscais e da inserção artificial da produção nacional. Isto, numa economia que - querendo ou não - é mais aberta e inserida no mundo globalizado.

Ou seja, foram reintroduzidos mecanismos de "estímulo" ao desenvolvimento como se estivéssemos vivendo no contexto da economia fechada, protecionista e intervencionista.

A "Nova Matriz", ao ser leniente com a inflação, estimular o endividamento público e promover graves constrangimentos fiscais, seria uma reedição do nacional-desenvolvimentismo exacerbado do ciclo 1968-1985.

Seria uma espécie de "Síndrome de Estocolmo" - no plano da economia - justamente por parte daqueles que, na época, radicalizaram suas posições contra os governos militares. Assistimos, assim, a uma mixórdia de iniciativas e conceitos contraditórios, que acabou levando o país ao pior dos mundos. Um macabro cortejo de recessão da economia, inflação alta e fora de controle, desemprego e desajuste perigoso das contas públicas.

Claro que está no DNA de certa "esquerda" culpar sempre o mundo, especialmente a "crise internacional" pelos desatinos cometidos pelos seus próprios dirigentes. A América Latina sempre foi pródiga nesse tipo de argumentação e aí estão Venezuela e Argentina caminhando resolutamente para o abismo e que não nos deixam mentir.

Mas acontece que o mundo já se recuperou da crise de 2009, a economia norte-americana vai bem, a China desacelera - mas ninguém poderia esperar que mantivesse para sempre um ritmo alucinante - emergentes crescem e a União Europeia, apesar da crise grega, vai aos poucos se recuperando.

Atrelar o país a um comércio de tipo colonial com a China, de se manter refém de um Mercosul sem nenhuma perspectiva e de menosprezar seu parceiro comercial mais equânime, que são os Estados Unidos, é culpa exclusiva dos nossos governos. E claro que também com a colaboração de um seleto grupo de grandes empresas associadas ao governo nos negócios com os "parceiros preferenciais" da África e América Latina, beneficiadas com recursos do BNDES.

Resumindo a esta ópera de Rossini (ou seria uma peça de Shakespeare?), o país está sofrendo uma pesada crise econômica, que se enreda com uma grave crise política e gera uma crise de confiança que, por seu turno, tende a realimentar o péssimo desempenho econômico. Esse inferno astral em início de mandato acirra obviamente as expectativas quanto ao futuro da nossa "lame duck".

A verdade é que só um político experiente, com visão de estadista e cercado de pessoas de bom senso, poderia reverter o jogo. Teria envergadura para convocar as forças produtivas, politicas e intelectuais para formar um governo de união (ou salvação) nacional. Mas é exigir demais de tantos amadores, que sabemos ser muito mais afeitos à rudeza das políticas sindicais e estudantis.

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Recorrendo mais uma vez à tradição anglo-americana (reunida pelo francês Charles Perrault e fins do Século XVII), a alternativa que tivemos até agora foi a da figura da "Mother Goose", ou seja, a Mamãe Ganso, autora imaginária de uma coleção de contos de fadas e canções de ninar, as famosas "Mother Goose Nursery Rhymes".

Temos alguém que, diante da crise, está tranquilizando o povo com canções de ninar e pantomimas, tão ao gosto das crianças. De qualquer forma, em apenas seis meses de um novo mandato, estamos perplexos e falando sobre patos e gansos...

Josef Barat

Por que Renan impediu que o circo pegasse fogo

A pergunta que ninguém respondia, ontem, mas presentes múltiplas respostas em todas as especulações, era por que o presidente do Senado, Renan Calheiros, trocou de camisa e passou a jogar no time da presidente Dilma. Afinal, depois de acionar baterias contra o governo, prometendo até dar seguimento a um eventual processo de impeachment contra Madame, se a Câmara assim decidisse, o senador alagoano saltou de banda. Declarou que dar prioridade ao impeachment seria botar fogo no país. E mais: apresentou um elenco de 28 propostas de recuperação nacional que fizeram a alegria do ministro Joaquim Levy. Propôs uma trégua e acrescentou que o Congresso sequer deve priorizar a análise das contas de Dilma no ano de 2014.

Patriotismo? Preocupação com os rumos da crise capaz de colocar o Brasil em frangalhos? Concordância em que o PMDB faz parte do governo e deve respaldá-lo? Interesse em participar das benesses do poder?

Ou… Ou ter recebido a promessa de que não será incluído na lista de denuncias do Procurador Geral da República contra parlamentares envolvidos no escândalo da Petrobras?


Fica difícil supor Rodrigo Janot participando desse tipo de barganha, mas é bom não esquecer que a reviravolta de Renan aconteceu logo após o palácio do Planalto haver enviado ao Senado a indicação para o procurador ser reconduzido por mais dois anos de mandato.

Acresce estarem as instituições tão próximas do colapso que todo esforço em favor da pacificação parece necessário. De uma forma ou de outra, a intervenção do presidente do Senado, nas últimas horas, trouxe um refrigério ao governo. Dilma está mais tranquila, ainda que a tempestade continue sobrevoando a Praça dos Três Poderes. Senão neutralizada, encontra-se menos aguda a guerrilha desencadeada pelo presidente da Câmara, Eduardo Cunha, que não tem duvidas de vir a ser denunciado nos próximos dias ou horas. Aparentemente, separaram-se os interesses dos dois comandantes do Legislativo. Cunha pretende botar fogo no circo, Renan veste a farda de bombeiro.

Será preciso confirmar essas ilações, mas se o Senado servir de anteparo ao caos institucional, de alguma vantagem os senadores se beneficiarão. O prestígio de seu presidente junto aos patamares do poder não livrará alguns de seus integrantes de responderem junto ao Supremo Tribunal Federal, como Fernando Collor. Prevê-se, no entanto, a aprovação de Janot na Comissão de Constituição e Justiça e, depois, no plenário. Haverá ebulição nos debates entre os senadores, mas a atuação de Renan surge decisiva, para a aprovação.

Politica é assim mesmo, cheia de ressalvas e meandros, como também de surpresas. Hoje, porém, o quadro é esse. Amanhã, só Deus sabe.

Alvorada

Amanhece...
E amanhece o desespero...
Dura condenação
Da vida humana!
Angústias a oprimir o coração,
Seguidas como os dias da semana.

Mais vinte e quatro horas
De negrura,
Que o sol nem-há de ver, na sua pressa,
Em vez dum claro apelo,
O pesadelo
Dum sonho mau, que apenas recomeça.
Miguel Torga,

Moinhos de vento e lavadoras a jato


O pior e mais frequente erro em momentos de transformação social é o de ler o futuro com os olhos do passado. As investigações de combate à corrupção mostram que está em curso no Brasil um momento de inflexão histórica.

O olhar obsoleto que boa parte dos agentes políticos insiste em lançar sobre as investigações faz com que o noticiário pareça seguir um roteiro de Miguel de Cervantes, no qual o lendário protagonista Dom Quixote perde em qualidade, bem menos simpático que o original, e ganha em quantidade, pululando por todos os lados dom-quixotes.

O Dom Quixote original viveu na Espanha em um momento de muitas conturbações históricas: Guerra Anglo-Espanhola, peste e decadência econômica. Incapaz de lidar com tais problemas, o cavaleiro decide ver o mundo com olhos do passado e tornar-se herói de uma das novelas de cavalaria que tanto lia.

Apega-se, então, a títulos nobiliárquicos inexistentes, enxerga gigantes em moinhos de vento e ganha o mundo para salvar sua donzela Dulcinea (mesmo sendo ela Aldonza, sua vizinha camponesa, capaz de bem se defender sozinha).

Parte dos investigados da Operação Lava Jato tem usado estratégias ultrapassadas: atacam injustificadamente o procurador-geral da República, classificam investigações como perseguição, cobram do ministro da Justiça a contenção das investigações, fazem sua defesa por meio de órgãos públicos, usam CPIs para pressionar colaboradores e advogados, fazem refém a economia e não pensam no interesse público.

Os investigados do Poder Legislativo são os que têm maior dificuldade de se livrar da miopia do olhar obsoleto, talvez pelo abismo que os distancia da sociedade em transformação que deveriam representar.

Neste cenário, é natural a preocupação com a nomeação do novo procurador-geral. A Constituição prevê que este seja indicado pelo presidente e aprovado pelo Senado. Desde 2003, a fim de evitar influências políticas perniciosas, criou-se o salutar costume constitucional de que seja indicado e aprovado o candidato mais votado na lista tríplice da Associação Nacional dos Procuradores da República.

Na quarta passada (5), a associação elegeu para compor a lista tríplice três nomes de inquestionável excelência: Rodrigo Janot, Mário Bonsaglia e Raquel Dodge. Primeiro colocado, com a aprovação de 81% dos membros, Janot foi indicado pela presidente da República.

Cabe agora ao Senado aprovar a sua recondução. Apesar de mais de 1/7 de seus membros –inclusive seu presidente– ser investigado na Lava Jato, espera-se que um dos gritos de indignação de junho de 2013 (contra a PEC 37) ainda ecoe pelas paredes daquela Casa.

Caso contrário, resta uma última lição de Cervantes. Ao retornar a sua vila, Dom Quixote chega a uma triste constatação: não era herói. Pior ainda, não havia mais heróis de cavalaria! Aqueles que insistirem em impor seu olhar obsoleto a uma sociedade em transformação podem chegar à mesma constatação do melancólico cavaleiro. Não há heróis. Há apenas o exercício honesto e competente de funções públicas.

O Brasil vai explodir


O grave momento político atual causa profunda desilusão e revolta na maioria silenciosa do povo brasileiro. A cada dia surgem notícias de novos escândalos, novos envolvimentos de autoridades, mentiras, violência. Os protestos nas redes sociais, na mídia e nas ruas não são considerados pelos governantes, pelos partidos e pelos políticos. O Brasil assiste, impotente e irado, o espetáculo imoral de grupelhos usando, ilegitimamente, suas posições institucionais para preservar o poder e a riqueza acumulada de forma corrupta, sem se preocuparem com o bem estar e o progresso da nação.

A solução para a crise que enfrentamos passa, necessariamente, pela solidariedade do povo ofendido para com o ideal da promoção do bem comum. No entanto Brasil está cada vez mais despossuído de sonhos, esgarçado nas suas ligações afetivas, perdidos pela desconfiança generalizada que cada cidadão nutre pelos outros. O povo só reage às freqüentes noticias de desgoverno e de corrupção ou com o deboche que a nada conduz, ou com o ódio crescente que a tudo pode vir a destruir.

Com o fracasso e o desaparecimento dos partidos políticos, restaria a esperança de lideranças esclarecedoras da situação e aglutinadoras da nação em torno de um projeto de país livre e justo, tais como fizeram os grandes nomes da nacionalidade, em um passado recente: Franco Montoro, Tancredo Neves, Juscelino Kubitheck, Getulio Vargas. Onde estão se escondendo os seus sucessores?

Na ausência de partidos, de lideranças, de idéias norteadoras de ações, estamos nos encaminhando, celeremente, para o caos.

É moralmente legitimo que um eleitorado, humilhado e enganado por um governo e um partido político, exija a imediata substituição dos que os enganaram e roubaram. Isto não é “golpe” como querem alguns – é o resultado da reflexão por parte do povo e do que resta de suas autenticas lideranças locais, dispersos no anonimato das pessoas envergonhadas e sofridas, que pretendem usar os instrumentos legítimos e legais, oferecidos pela Constituição, que prevê punição e substituição de maus governantes.


O Brasil real está parando com cada vez mais desempregados, inflação em alta, produção em baixa, investimentos insuficientes, a confiança se esvaindo pelos desvãos da nefanda prática política. Levaremos anos para recuperar a destruição praticada.

Estamos a um passo de uma explosão de revolta radical e justo protesto de uma população que, mais dia menos dia, vai reagir. Os atuais governantes e políticos que atuam na área federal, deveriam começar a correr – todos. O povo quer uma substituição radical – saiam, pois todos são, de alguma maneira, culpados pelo estado de anarquia a que chegamos.

É preciso pensar em opções para a crise, como é o caso prioritário de necessárias novas eleições gerais, comandadas pelo Supremo Tribunal Federal. 

Acossados pelo clamor popular, reunindo o que resta da dignidade que talvez ainda possuam, ou pelo medo físico de uma população furiosa, este Congresso que aí está trataria de votar, antes de se auto-extinguir, com a máxima urgência, uma decente reforma política prévia, sem financiamento privado das campanhas, com clausulas que indiquem as condições honestas para a criação de novos partidos com expressão nacional, já que os atuais deverão ser extintos.

Já se fez muitas análises, já se falou e se escreveu demais, temos as informações necessárias, possuímos mulheres e homens capacitados, patriotas, honestos, prontos para contribuírem para o soerguimento nacional – basta que lhes seja oferecida uma oportunidade. Sabemos da roubalheira, sabemos das intenções de instauração de formas de poder incompatíveis com as tradições democráticas do Brasil, sabemos dos conchavos, das meias verdades, mas poderemos conhecer, também, quem são as pessoas confiáveis, dignas e competentes, em quem se pode votar neste momento de recuperação da dignidade nacional – caras novas.

Chega de incompetência e de corrupção. Basta de canalhas dirigindo os destinos do Brasil. Não queremos e não podemos mais admitir este estado de anarquia nacional.

terça-feira, 11 de agosto de 2015

Dilma e sua crise

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Com todo o respeito, presidente, acho que a senhora devia renunciar. Os sinais já estão no ar, os primeiros tremores de um terremoto já vibram sob nossos pés. Acho que a senhora não vai aguentar mais três anos em meio a esse caos em que o Lula, o PT e o Mantega nos lançaram, fazendo o país entrar numa depressão.

Aliás, a senhora deve estar também numa cava depressão, com um país inteiro gritando “Fora”. Se fosse eu, presidente, teria enlouquecido por rejeição. Vejo seu rosto triste e tenso e me lembro da postura corajosa na sua foto, jovem, de óculos, diante de militares tapando o rosto.

E vejo que um retrato rima com outro, pois sua pertinácia ou teimosia diante do impossível continua a mesma. Era impossível a vitória da guerrilha urbana, e hoje está quase impossível governar o Brasil. O fato de uma pessoa ser heroica não impede que esteja errada. Talvez a senhora tenha sido heroína, mas sei que está errada. Sei que sua agenda de esquerda de longa data a ajuda a destroçar o país em nome de uma loucura ideológica morta.

Sei que é impossível governar um país capitalista com uma cabeça comunista. Isso provoca uma esquizofrenia no poder que se alastra pelas instituições, abrindo as portas para a maior história de corrupção do mundo. E me dói, presidente, vê-la como bode expiatório dos crimes que eles cometeram.

Eles abriram mão de suas convicções antigas, mas a senhora segue fiel a sua utopia brizolista, enquanto eles te abandonam. O Lula – é sempre bom lembrar – é a pessoa mais nefasta deste país e está tramando contra a senhora, pensando até em arrumar um posto de ministério para ser julgado com foro privilegiado quando seus malfeitos se revelarem, pois tem medo de ser preso.

Além disso, petistas e aliados perceberam que a senhora está enfraquecida e resolveram ganhar prestígio te condenando. Todos querem tirar um pedacinho da senhora, pois são ratos abandonando o navio. Eram 400 aliados; hoje, só há 120.

E não adianta dar verbas e cargos para eles, nada os satisfará – vão embolsar a grana e continuar te sabotando. Inclusive o vergonhoso PSDB traindo a si mesmo, enturmado com a bicanca voraz do Eduardo Cunha e com o cabelinho implantado do Renan, que aprovam projetos-bomba para detoná-la, mesmo que o país morra junto. Os dois, investigados pela Lava Jato, aprovam medidas absurdas para aumentar os gastos públicos e se fortalecerem à custa de seu fracasso.

Sob o som dos panelaços vi sua fala gaguejante no programa do PT, diante da evidência do desgoverno. Suas tentativas de sorrir com simpática despreocupação são constrangedoras, e o povo nota. O país inteiro está contra Vossa Excelência, quando deveria estar contra aqueles que criaram a armadilha em que a senhora caiu. Sua resistência está muito solitária, e não basta mais declarar que resiste, como boa guerrilheira que já foi.

Sua renúncia não seria uma humilhação e só abrilhantaria sua imagem futura. A senhora teria reconhecido o perigo que corremos todos, com a devastação da indústria, do comércio e da esperança pública. E a culpa não é toda sua.

Já está disseminado na população um refrão de desapreço à senhora. Já estão lançadas as bases de um impeachment... Sua saída espontânea provaria que a senhora aceita as regras do jogo que perdeu. Quando se contamina a opinião popular, para além da política, a barra pesa.

Até mesmo um recôndito machismo ressurge contra uma mulher no governo. “Mulher no volante, perigo constante”, me disse ontem um taxista. Creio que até o Lula nomeou a senhora porque era uma mulher considerada trabalhadeira e obediente a seus interesses, até ele voltar em 2018. Será que ele nomearia um homem que pudesse contestá-lo? Talvez haja por aí um machismo sutil...


Quando o Collor berrou às multidões “não me deixem só”, todas as caras foram pintadas, talvez até mesmo a da senhora. E, no entanto, presidente, a era Collor foi um troco em relação aos bilhões roubados nos últimos 12 anos, por causa da porteira aberta pelo Lula para a invasão da porcada magra no batatal.

Seu grande erro, presidente, típico de tarefeira militante, foi fazer vista grossa para o despautério a sua volta. Sei como funciona: “Ah, eles são aloprados em nome de uma ‘linha justa’, lutar contra isso seria moralismo pequeno-burguês”.

Por isso a senhora deixou passar negligentemente a compra da refinaria de Pasadena no Conselho de Administração da ex-Petrobras, um dos símbolos intocáveis de sua juventude. Além disso, a senhora está sendo metralhada pelos dois presidentes do Congresso.

Hoje, como está, o país não tem fins nem meios. Ninguém sabe mais quais seriam os meios, e não sabem com que fim.

As várias reformas que FHC deixou preparadas foram ignoradas e desfeitas, e hoje só nos resta o magro ajuste fiscal com que o pobre Levy, como um padre triste, tenta convencer canalhas e cobras criadas que nunca souberam o que é interesse nacional.

Agora, Temer e Mercadante estão querendo conciliar, mas é tarde demais.

Vem aí a grande manifestação nacional no dia 16, pedindo sua cabeça. E isso é quase um impeachment branco, o que deve provocar-lhe uma angústia insuportável. A senhora já esteve doente e tem de proteger sua saúde. Mas, em vez de fazer autocrítica, sua cabeça de guerrilheira teima em resistir até o fim. 


Se a senhora renunciar, vai ficar mais feliz. A senhora não é Getúlio Vargas. Além disso, sua “resistência” não é apenas uma questão pessoal. Trata-se do país que a senhora governa. A Dilma não é a Dilma – ela é presidente do Brasil sendo desmanchado. Desista, Dilma, antes que o carro do país tenha “perda total”.

A senhora está sendo leviana

“Leviano” é uma palavra boa. Seria leviano fazer qualquer profecia sobre o trono de Brasília e o jogo que o circunda. Impeachment? Renúncia? Coisa pior?

A pressão para que Dilma deixe o assento é onipresente e multidirecional. Afirmar que todas essas forças são movidas por interesses particulares e não pelo simples bem da nossa nação seria leviano. Assim como soaria leviandade cogitar que tanta gente de bem, cujos corações gritam “Fora, Dilma” em uníssono a plenos pulmões, não tenha uma noção mais precisa de tudo que está em jogo. Ora, o país está parado, e isso é motivo mais do que suficiente para haver mudança.


Esta semana será marcada pela mobilização por mais uma grande passeata contra a presidente. Da adesão tímida e informal nas edições passadas, agora, o PSDB comprou a causa e conclama a população a ir para as ruas. Claro, é leviano insinuar que o principal partido de oposição esteja nessa onda só querendo surfar, exclusivamente de olho no trono que tangenciou, em vez de assumir uma postura “em favor do Brasil”.

Contudo, a iniciativa das manifestações canarinho não é dos tucanos, mas de grupos independentes, livres, apartidários. Qualquer boato de que esses liberais, vários deles bem jovens, que vêm tocando a marcha pelas redes sociais e pelos carros de som, sejam representantes de forças maiores é pura leviandade. Igualmente leviano é considerar a hipótese de que líderes desses grupos receberam formação política de instituições internacionais mantidas por grandes corporações do setor petrolífero.

Portanto, conspiração pura seria supor que, em meio às tristes circunstâncias do “petrolão”, esses meninos estejam aproveitando para derrubar os acionistas majoritários da maior corporação brasileira e facilitar a entrada de seus supostos patrocinadores transnacionais nos negócios do pré-sal.

A Lava Jato evidenciou o covil de ratos que comandava a Petrobras. Já está mais claro como água, e não turvo como óleo, que, para cuidar da companhia, a influência partidária é sinônimo de corrupção e ineficiência. Naufragou pela mão grande até o projeto do submarino a propulsão nuclear, que serviria para monitorar as reservas de petróleo no fundo do mar. Está delirando quem disser que o objetivo de farejar a cúpula da Eletronuclear seja minar essa frente de defesa do patrimônio natural.

Julgar, então, que magistrados, promotores e desembargadores envolvidos na operação trabalhem para outro fim que não a moralização da coisa pública no Brasil é de uma leviandade absurda. Preferências político-partidárias e influências ideológicas que possam contaminar a lisura das ações não entram em questão. O fato de a mulher do juiz cabeça da operação ter trabalhado como defensora de uma administração tucana e o fato de ele ter atuado, no passado, em outra frente que acabou por livrar um banqueiro notoriamente associado a altas personalidades do PSDB não querem dizer nada.

Ah, essa internet, que enche de minhocas a cabeça desses levianos... A realidade é muito mais simples do que esses roteiros de fantasia à la “Moscou contra 007”.