domingo, 26 de julho de 2015

País tateia na escuridão


Um véu de incerteza teima em cobrir o espírito nacional, adensando as expectativas, aumentando as angústias e diminuindo a crença nas instituições políticas e sociais. Em quase todos os aspectos da vida nacional, impera a dúvida.

Não sabemos até onde irá essa Operação Lava Jato. Até quando o juiz Sérgio Moro continuará a dar as cartas? Até quando o STF fechará o imbróglio que envolve políticos? Ignoramos se as cartas do intrincado jogo de poder serão repartidas entre grupos que defendem o governo e se servirão para administrar as intempéries que assolam as roças da política.

Não sabemos o tamanho da enrascada que consome Estados e municípios. Estamos no início do caos, no meio da crise ou muito longe do fim do túnel? Ninguém sabe, mas todos se aventuram a garantir verdades nesse território que ama construir versões.

Ora, Dilma será afastada; ora, Lula movimentará seus exércitos para defendê-la; ora, os tucanos dizem não querer impeachment; ora, dizem ser a favor; ora, as contas do Governo serão desaprovadas pelo TCU e as contas de campanha, idem, pelo TSE. Nada certo.

Nas ruas, nos escritórios, praças e bares, emerge o país lúdico que ri da tragédia e se comove com a comédia. Comédia e tragédia, aqui, se fundem num amálgama que, frequentemente, traduz a falta de racionalidade do nosso povo tropical.

As redes sociais se locupletam com sátiras e piadas, algumas de extremo mau gosto. Mas há também graça. A improvisação, o gosto pela aventura, a alma criativa se expandem nesses tempos de recessão econômica.

A desconstrução de eixos administrativos montados por governos anteriores passa a integrar o exercício dos governantes que iniciaram sua jornada em janeiro deste ano. E assim cresce o Produto Nacional Bruto do Eterno Retorno. 




Os nossos homens públicos mais parecem dândis na escuridão. Não enxergam o profundo caos em que está afundada a imensa maioria da população brasileira.
Não são apenas as gritantes estatísticas de violência das metrópoles que assustam. Os assassinatos e assaltos (até de roubo de bicicletas) tornam-se eventos banais.

O desemprego ronda as famílias ( são mais de 8 milhões de desempregados) e deflagra ondas de medo, corroendo esperanças.

Os serviços públicos continuam a cair de qualidade. Morre-se de doença velha – dengue, por exemplo- em um atestado de volta ao passado.

A tristeza se estampa nas filas de pessoas que procuram emprego. As cenas do interior tórrido do Nordeste voltam com intensidade. Repete-se a cosmética de miséria incrustada em nossas mentes.

Para onde foram os bilhões dos desvios da roubalheira?

Quem consegue enxergar melhorias nas áreas da saúde, educação, saneamento básico, transportes urbanos, segurança pública?

Em alguns Estados, a penúria se instala. Os governos procuram ajustar suas contas. De 27, cerca de 20 estão perto do ajuste. Mas os cofres continuam pobres.

Nas ruas, as massas ruminam desconfianças, afastam-se das instituições e de seus representantes, afogam-se em mágoas, perdem-se em ilusões.

O Governo Federal deixou de ser a Tábua de Salvação para ser a Caixa de Pandora, cheia de surpresas; dos bons tempos de farta Bolsa Família, só lembranças. Da era do crédito fácil da era Lula, só velhos retratos.

A imagem da presidente Dilma afunda-se. Bate em 7% de aprovação.

Quando se espera que o governo defenda o rigor do pacote de ajustes, reduz a meta fiscal. Joaquim Levy, o próprio, que defende rigor nas contas, anuncia a desidratação de seu pacote com a redução da meta fiscal para 0,15% do PIB com abate de R$ 26,4 bilhões na receita.

A propósito, conseguirá Levy fazer passar pelo congresso o projeto de repatriação de recursos de brasileiros no exterior? De 500 bilhões, conseguira trazer 40?

A nova matriz econômica começa de maneira capenga. Onde foram parar as grandes obras do PAC? Caminham lentas. O PT gira tonto pelas ruas do Planalto, sem saber que rumo tomar.

Descalabros emergem todos os dias, ganhando espaços midiáticos, a partir das trombetas de Curitiba. O torto, o errado, o inusitado, o roubo, as negociatas que fariam inveja a Tio Patinhas já não mais comovem. De tão rotineiras, amortecem nosso espírito.

Sem perspectivas e sem crenças, o povo acaba banalizando a criminalidade. Que se expande. Um estado catatônico se instaura. Matar virou um ato de rotina. A morte é um evento que não mais comove.

A grandeza de uma Nação não é apenas a soma de suas riquezas materiais, o produto nacional bruto. É o conjunto de seus valores, o sentimento de pátria, a fé e a crença do povo, o sentido de família, o culto às tradições e aos costumes, o respeito aos velhos, o amor às crianças, o respeito às leis, a visão de liberdade, a chama cívica que faz correr nas veias dos cidadãos o orgulho pela terra onde nasceram.

A anulação de alguns desses elementos espirituais faz das Nações uma terra selvagem. O país tateia na escuridão.
Mapa do Brasil (Foto: Arquivo Google)

Um filme de terror a que ninguém quer assistir

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Uma das primeiras apostas de Hollywood para levar mais gente aos cinemas utilizou um truque psicológico extremamente simples: pavor. Há mais de um século, tal como antes na literatura, as pessoas eram atraídas pelo que deveriam abominar e, graças a esta contradição, surgiram os Frankensteins, os Dráculas, médicos loucos, fantasmas, almas do outro mundo, lobisomens, monstros importados do passado, do fundo do mar, do espaço, do futuro.

No Brasil, talvez por força da infantilização das grandes audiências – para as quais medo não tem charme –, um filme de horror chamou a atenção de um dos mais importantes jornais do mundo sem provocar grande frisson, apesar de nosso protagonismo na película.

“Recessão e suborno: a crescente podridão no Brasil” foi o título do editorial desta quinta-feira no secular Financial Times, o jornal cor-de-salmão que raramente pisa em falso quando dá opinião (sobre música, vinho, política ou macroeconomia) e, por isso, foi vendido no mesmo dia por mais de R$ 4 bilhões de reais aos japoneses da Nikkei. “Incompetência, arrogância e corrupção tiraram do Brasil seu encanto mágico (...) Não é de admirar que o país hoje seja comparado a um infindável filme de horror.”



Que o governo não reagisse ou reagisse no estilo inglês – glacialmente – era o esperado. Designado para responder, Jacques Wagner, ministro da Defesa, contestou com o argumento de veterano cinéfilo: “não é filme de horror, mas de superação”. A surpresa veio da repercussão – quase nenhuma. Por solidariedade e/ou despeito, nossa mídia enfiou a viola no saco e saiu de fininho. Para não ser denunciada como alarmista ou golpista, talvez por sentir-se absolutamente desamparada diante de uma crise tão disseminada e ameaçadora, a verdade é que a retórica e o racionalismo anglo-saxônico se impuseram aos floreios da prosa neolatina.

Ao associar de forma direta, impiedosa, o fenômeno macroeconômico da recessão à esfera criminal onde se encaixa o suborno, o jornal escancara a natureza da nossa desgraça. Para não deixar dúvidas quanto à gravidade do que está sendo investigado, adiciona dois penosos ingredientes raramente utilizados nas avaliações sobre o que aconteceu na Petrobras: incompetência e arrogância.

Para coroar o diagnóstico, o arrasador substantivo – podridão – que nos remete a Shakespeare e ao inconformado Hamlet, ao reconhecer que “há algo de podre no reino da Dinamarca”. Na injusta metáfora, o Bardo não se referia apenas ao casal regicida (mãe e padrasto de Hamlet), mas à sociedade desmoralizada, corrompida, desprovida de senso moral que permitiu a consumação e a ocultação do crime.

Entende-se por que o editorial não foi transcrito e traduzido na íntegra em nossa imprensa: por pudor e autoestima. Verdadeira bomba arrasa-quarteirão, espalha estilhaços, fere a todos que, mesmo de longe, percebem o enredo. O interminável filme de horror do qual somos personagens e espectadores, ao contrário do que apregoam os mestres no gênero, parece condenado ao insucesso. Ninguém faz questão de vê-lo, o desfecho ainda demora. Nossas plateias são impacientes, se resignam às longas e artificiosas telenovelas, mas quando se trata de crises exigem soluções imediatas, no atual mandato.

Brasil, um país pacífico?


Quem nunca ouviu que “o Brasil é um país pacífico”? Os que proferem tal afirmativa o fazem de boca cheia e com o peito estufado de orgulho. Há muitos anos o país não entra declaradamente em guerra, é fato, porém... Que me perdoem os orgulhosos e as crianças – poupadas da dura realidade pela inocência nata –, mas estão afirmando uma grande mentira. O nosso “pacífico” país ocupa o 11.º lugar no ranking de homicídios por países, desenvolvido pelo Instituto Igarapé. O dado foi publicado em maio deste ano e pautou matérias dos maiores veículos da imprensa nacional.

Somos um dos países mais violentos do mundo, e isso é reflexo de inúmeros fatores provenientes, em grande parte, da má administração pública. O resultado da vergonhosa colocação no ranking de homicídios (pior do que alguns países em guerra) pode ser visto no sistema prisional brasileiro. Amargando a marca de 607.700 presos, segundo estudo recente do Ministério da Justiça, o Brasil ocupa o 4.º lugar no ranking das maiores populações carcerárias do mundo.

Para completar o desastre, a ONG Anistia Internacional classificou o sistema prisional brasileiro da seguinte forma: (presídios com) “superlotação extrema, condições degradantes, e onde casos de tortura e violência continuam sendo endêmicos”. Não bastasse isso, a Câmara dos Deputados aprovou, no último dia 2, a redução da maioridade penal. De acordo com levantamento realizado pelo site de notícias G1, a medida, se sancionada, pode aumentar em 32 mil o número de presos no país. 

Outra constatação preocupante é o crescimento da população carcerária: 74% em cinco anos. De todo esse universo, vale ressaltar, apenas 12% das penas são oriundas de crimes contra a vida.



Diante das estatísticas e constatações, é simples compreender por que figuramos entre os países mais violentos do mundo. Além de punir, as penas têm por finalidade ressocializar o indivíduo. Quem acompanhou o desenrolar dos acontecimentos no Complexo Penitenciário de Pedrinhas, no Maranhão, entre 2013 e 2014 não precisa de muitas explicações para entender o quão assertiva é a afirmação da Anistia Internacional e que o nosso sistema prisional é, na verdade, um macabro depósito humano.

Essa situação, além dos irreparáveis danos humanos, traz danos financeiros e estruturais à sociedade brasileira. Um preso custa, em média, R$ 1,5 mil mensais aos cofres públicos. Nas prisões federais o valor é mais que dobrado: R$ 3.447 por preso ao mês. Ou seja, o Brasil gasta mais para manter um detento do que um aluno na educação pública. O que podemos esperar? Aquilo que está posto, um crescente desproporcional na população carcerária, com custos altos e resultados negativos.

Uma administração pública de qualidade deve usar os recursos do Estado de forma coerente, sempre visando bons resultados com o emprego do mínimo de recursos possível. No que tange à questão prisional do país, é óbvio que os recursos estão sendo mal empregados. As cadeias são uma extensão dos QGs do crime organizado, quase todas são controladas por facções como o Comando Vermelho e o Primeiro Comando da Capital (PCC). O Estado acaba por sustentar o organismo criminoso do país.


Isso tudo pode ser evitado, basta planejamento estratégico, foco e ação ordenada. A maior parte das penas no Brasil é paga com restrição da liberdade, com cadeia. Para diminuir a população carcerária, uma excelente medida seria a adoção de penas alternativas para crimes mais brandos, a exemplo do não pagamento das pensões alimentícias. Atualmente, um pai que deixa de pagar pensão é preso junto com homicidas e latrocidas. Ele gera o mesmo custo que outro preso e, pior, passa a conviver com o universo do crime. Dois prejuízos de uma só vez.

Além de rever as penas para crimes de menor gravidade, é importante transformar os presídios em um ambiente efetivamente de ressocialização, com estudo e trabalho obrigatórios a todos os detentos. Dessa forma, eles reduziriam os custos da sua manutenção de acordo com o que produzissem, e poderiam retornar à sociedade com uma profissão.

Quanto à redução da maioridade penal, o calculo é muito simples: o governo assumirá o aumento dos gastos com um sistema prisional qualitativamente falido, em lugar de investir na educação – onde um aluno sai mais barato que um preso. Claramente uma atitude dispendiosa que, no longo prazo, além de inflar ainda mais as cadeias, tem potencial para aumentar o crime organizado, aumentar a insegurança no país e gerar outros gastos em reflexo do aumento da criminalidade.


Sabendo dos prejuízos, por que não executar uma ação frutífera para o país? Um gestor profissional e responsável tem capacidade e conhecimento para mudar esse quadro: reduzindo a população carcerária, os custos, investindo em medidas preventivas à criminalidade como educação – que já mostrou resultados assustadoramente positivos em outros países – e, sobretudo, fazendo das penas algo produtivo para a sociedade, com detentos realizando serviços para o governo em variados ofícios. Por fim, veríamos um país mais próspero, funcional e, efetivamente, menos violento.

Também cansamos de mentiras e safadezas, Lula

Embora seja um mito em decadência, figura em franca queda de popularidade e prestes a ajustar contas com o judiciário, o ator (ou humorista de trago-tragi-comédias) Luiz Inácio Lula da Silva faz de tudo para manter a eterna pose de sindicalista de resultados. Na sexta (24), na posse da direção do Sindicato dos Bancários do ABC, Lula deixou baixar o caboclo $talinácio e comprovou que continua em excelente forma, no esporte de malhação da mídia, desta vez atirando de forma genérica, sem citar os veículos de comunicação inimigos. Lula agora posa de perseguido e sai em defesa da Dilma - cabra marcada para cair e derrubá-lo junto:


"Eu quero dizer para vocês que eu estou cansado de mentiras e safadezas. Eu estou cansado de agressões à primeira mulher que governa esse país. Eu estou cansado de ver o tipo de perseguição e o tipo de criminalização que tentam fazer às esquerdas nesse país. Eu tenho a impressão que muitas vezes a gente vê na televisão, parece os nazistas criminalizando os judeus, os romanos criminalizando os cristãos, os fascistas criminalizando o povo italiano. Parece tantas outras perseguições que a gente já viu".

Lula tentou fazer uma leitura do imaginário popular oposicionista - que tanto o incomoda: "Cada vez mais as coisas pioram para nós, jogamos a culpa no governo. É mais fácil. A gente tem que encontrar alguém para jogar a culpa. Eu quero dizer para todas as pessoas que estão descrentes, que acham que o mundo vai acabar, que está vivendo uma crise, que não há um momento na história desse país que não tivemos uma crise. Neste pais não há razão para ter medo do futuro porque tem uma mulher da maior dignidade governando esse país. Não tem pessoa com o caráter mais forte do que a Dilma. Ela está sendo vítima de uma conjuntura que está prejudicando chineses, alemães, americanos (...)".

$talinácio também deu uma de economista: "A inflação está alta agora, está assustando muita gente, mas está 9% e com perspectiva de cair porque a Dilma tem obsessão de não permitir que a inflação ultrapasse esse limite, que chegou a 9% ao ano e não a 80% ao mês. Lembrando que quando eu peguei esse pais, a inflação estava 12,5% ao ano e o desemprego estava 12%. Quem estiver apostando no fracasso do país, vai quebrar a cara porque esse país é muito grande e tem um grande poder de reação".
Os-Silva-e-Segio-Moro

Lula acertou em pelo menos dois pontos de seus 20 minutos de discurso demagógico para sindicalistas e puxa-sacos. Primeiro, que não é só ele quem está cansado de tantas mentiras e safadezas. Segundo, que o Brasil tem um gigantesco poder de reação, embora nossa Elite Moral pareça viver deitada em berço esplêndido, ao som do mar e à luz do céu profundo. A maioria esclarecida do povo brasileiro rejeita as bobagens proclamadas pelo acuado $talinácio, cada vez mais próximo do juízo final político. As colaborações premiadas nos processos da Lava Jato - que revelam os subterrâneos onde Lula usava e abusava de sua influência para promover lucrativos negócios - se transformaram no "calcanhar de Lula". Aquiles acaba de ser deposto de sua fraqueza historicamente famosa.

A vaca já tossiu e vai para o brejo com a crise política e econômica. O Boi (aquele sindicalista que dedurava inimigos para o delegado Romeu Tuma, nos tempos da dita-dura) está indo atrás. Por isso, o Presidentro nunca esteve tão furioso quanto àquela Lula gigante assassina que ficou famosa no Youtube, desde agosto de 2010, ao atacar um robô submarino da Petrobras. Nunca foi tão justa e perfeita uma metáfora da natureza (um bicho que se julga poderoso contra uma empresa). Ainda mais que agosto está chegando, para desgosto de muito político que deixa a nação brasileira pt da vida...

A profecia de Dilma


Crise é crise e não adianta chorar pitangas depois que ela eclode. Sabe-se que é preciso achar saídas, por mais dolorosas que elas sejam. Sabe-se também em quais ombros recai a fatura, já materializada nas contas de luz, nos preços dos alimentos, do transporte, dos bens e serviços, no emprego que vai embora.

Nada disso parece comover a presidente Dilma Rousseff.

Ela resiste a cortar gastos no custeio do governo e os dela própria. Em sua recente viagem a Nova York desembolsou U$ 22 mil do contribuinte para hospedar-se por duas noites na suíte Tiffany do Hotel St. Regis, aposentos com 158 m². Mais de R$ 40 mil cada pernoite. Um acinte.



Com luxos dessa ordem, Dilma escancara seu completo descaso aos que estão pagando a conta da crise sem precedentes em que ela meteu o país. E amplia sua rejeição. Continua sem aprender que política se faz com gestos – para os quais ela definitivamente não tem qualquer habilidade - e símbolos.

Erra ainda mais como governante. Não reduz em um milímetro a máquina gigantesca. Não corta um cargo sequer. Gasta muito mais do que arrecada. E gasta mal.

Mas há de se fazer justiça. Nessa seara os erros do governo começaram muito antes.

Antecessor e padrinho de Dilma, o ex Lula dirigiu o país em época de fartura. Desperdiçou dinheiro em caprichos milionários, a exemplo da refinaria Abreu e Lima (PE), em parceria com o bolivariano Hugo Chávez, que lhe deu o cano. Ou ainda no lançamento de foguetes com a Ucrânia, acordo que será desfeito 12 anos depois de lançar pelos ares R$ 500 milhões do Tesouro.

Na Copa do Mundo da Fifa, Lula foi imbatível. Sob a sua batuta, o Brasil iniciou a construção ou reforma de 12 estádios. Custaram R$ 8 bilhões, 285% acima dos R$ 2,8 bilhões fixados em 2007. Quase o montante total do esforço fiscal que o governo estabeleceu agora ao reduzir sua meta para 2015.

De acordo com o Tribunal de Contas da União, a Copa custou R$ 25,5 bilhões. Apenas R$ 7 bilhões foram investidos em mobilidade, e das 26 obras previstas em aeroportos, só 14 foram concluídas.

Embora o país tenha pelo menos 25 empreiteiras de grande porte, de acordo com o faturamento publicado na revista O Empreiteiro, as 10 denunciadas pela Lava-Jato aparecem em todas essas obras e, na maior parte das vezes, com generosos financiamentos do BNDES, que também assegurou a elas expansões na América do Sul. Sempre com o aval de Lula.

A partilha entre o cartel de empreiteiras companheiras pode ter garantindo obras da Copa para todas, mas no caso do Centro de Lançamento de Alcântara, de onde sairiam os foguetes ucranianos, o contrato do consórcio Odebrecht-Camargo Correa foi direto, sem licitação.

Não há receita mais perversa para um país do que um governo tarimbado em incompetência, malversação, roubalheira e incúria. Que gasta a rodo sem ter receita. Que, quando não patrocina, estimula ou faz vistas grossas à corrupção.

Dilma jamais imaginaria que as palavras ditas em 2013, na inauguração da Arena Fonte Nova, em Salvador, seriam proféticas: "Somos um país conhecido como sendo insuperável no campo, mas nós estamos mostrando que somos insuperáveis também fora de campo”.

Na Copa, o seleção brasileira terminou eliminada pela Alemanha por vexamosos 7 x 1. Extra-campo, os resultados são ainda piores.

Meditação sobre os poderes

Rubricavam os decretos, as folhas tristes 

sobre a mesa dos seus poderes efémeros.
Queriam ser reis, czares, tantas coisas,
e rodeavam-se de pequenos corvos,
palradores e reverentes, dos que repetem:
és grande, ninguém te iguala, ninguém.
Repartiam entre si os tesouros e as dádivas,
murmurando forjadas confidências,
não amando ninguém, nada respeitando.
Encantavam-se com o eco liquefeito
das suas vozes comandando, decretando.
Banqueteavam-se com a pequenez
de tudo quanto julgavam ser grande,
com os quadros, com o fulgor novo-rico
das vénias e dos protocolos. Vinha a morte
e mostrava-lhes como tudo é fugaz
quando, humanamente, se está de passagem,
corpo em trânsito para lado nenhum.
Acabaram sempre a chorar sobre a miséria
dos seus títulos afundados na terra lamacenta. 

José Jorge Letria

Desesperança nas cidades

Pesquisas recentes feitas por administrações municipais, mas não divulgadas por motivos óbvios, mostram que a popularidade dos prefeitos da região metropolitana e de cidade mais povoadas de Minas está muito baixa, no limite do “volume morto”.

A maioria dessas populações, excetuando a capital, considera o prefeito alguém ruim ou péssimo. O resultado apenas corrobora a pesquisa CNT/MDA da última semana, que expõe o descrédito total dos brasileiros com relação a suas instituições e seus políticos.
Porém, no caso dos prefeitos, a situação é bem mais crítica, pois, daqui a um ano, eles já estarão novamente colocando os nomes para as disputas eleitorais.

Se fosse hoje, eles não conseguiriam se reeleger. O mais grave é que os seus opositores diretos também estão pessimamente avaliados. Como se não houvesse mal que não pudesse piorar, o resultado disso é um espaço ainda maior para aventureiros e pessoas com menos capacidade de administração.

O motivo dessa lástima é, assim como no plano nacional, a ausência de lideranças capazes de resgatar a confiança de sua gente e de apresentar alternativas plausíveis ao estado caótico em que as cidades estão mergulhadas.

Claro, a crise gera menos arrecadação e, com ela, menos dinheiro para arcar com necessidades elementares, como saúde, desenvolvimento social e educação, mas o péssimo desempenho desses Poderes Executivos não pode ser atribuído exclusivamente ao momento econômico que vem sendo amargado pelo país.

As desaprovações municipais têm muito mais a ver com a baixa qualidade dos gestores. Ainda agarrados a uma política do empreguismo e da procrastinação, os prefeitos simplesmente não tomam decisões de fato relevantes. Eles fingem que administram, pois muitos deles são incapazes até de faturar importantes receitas, como o IPTU, por exemplo. Segundo equivocadamente imaginam, a medida os explodiria. Não percebem que a inércia com que lidam está arruinando as parcas estruturas sociais que ainda resistem.

Basta saber que algumas dessas cidades possuem mais de 12 mil servidores públicos, sendo quase um terço disso de livre nomeação, que são incapazes de prestar serviços razoáveis para seu povo. São centenas de milhões gastos todos os anos com uma folha de pagamento ineficiente.

O futuro das cidades, com este Brasil incerto e com prefeitos tão parcimoniosos e sem criatividade, preocupados em manter bobos da corte que os elogiem, é de escuridão. Só podemos esperar mais mendicância, a perpetuação de uma cultura da preguiça e o aumento do desinteresse de cidadãos pela metade, destituídos de motivação para acreditar em algo melhor em um futuro que tem a mesma cara de hoje.

Canis et circensis

O mundo híbrido de sentimentos e tecnologias é capaz de promover algumas crueldades jamais imaginadas. Um exemplo recente está na Sony, que ao descontinuar o suporte e manutenção de sua linha de robôs caninos AIBO, condena à morte certa os cerca de 150 000 beagles que vendeu entre 1999 e 2005. Diferente dos animaizinhos que supostamente teriam sofrido maus tratos no Instituto Royal de São Roque, o fim da vida desses cãezinhos digitais será tão indolor quanto a "morte" de qualquer outro dispositivo eletrônico.

O mesmo, no entanto, não poderá ser dito de seus pobres donos. Muitos deles, especialmente os mais velhos, desenvolveram com seus mascotes eletrônicos uma relação mais intensa do que normalmente se dá com traquitanas computadorizadas. Para alguns, suas máquinas ganharam vida própria.

É fácil julgar esses usuários. Um robô é mais cômodo e conveniente do que um animalzinho, da mesma forma que um cão ou gato é mais cômodo e conveniente do que uma criança. A realidade, no entanto, é mais complicada e sutil. Por demandarem um longo período de treinamento e adaptação, os bonecos, como os mascotes vivos, criam em seus donos uma forma de dependência psicológica. Por mais que as necessidades e demandas de um aparelho digital sejam construídas, a relação emocional entre pessoas e objetos é mais comum do que se imagina. Ela se dá nos telefones que são customizados com capinhas, protetores de tela e diversos aplicativos e configurações, dando a seus usuários um trabalho que uma TV, uma máquina de lavar ou um liquidificador jamais ousariam.

É uma relação delicada. Quando dá certo, ela oferece a seus donos um ombro amigo, mesmo que artificial, para que frustrações com relação a um mundo exterior cada vez mais frio e competitivo sejam desabafadas. Em sociedades extremamente agressivas, como as do Japão e de Cingapura, em que mostrar qualquer fragilidade (em casos mais extremos, até procurar ajuda psicológica) é considerado sinônimo de fraqueza, esses tamagotchis - vivos ou não - são válvulas de escape possíveis. O mesmo se dá para os espaços sociais agressivos e isolados em que um número cada vez maior de jovens é obrigado a viver, abandonados pelos pais e oprimidos pelo grupo.

AIBO é mais do que um brinquedo. Como várias "loucuras" que mal deixaram o Japão, o cãozinho é pouco conhecido no Ocidente. Acrônimo para Robô de Inteligência Artificial e homônimo para "amigo" ou "parceiro" em japonês, os últimos Aibos eram capazes de falar mais de mil palavras, compreender mais de cem e se exprimir em mais de 60 estados emocionais. Os mais empáticos podiam ver o mundo de seu ponto de vista através de uma câmara embutida na cabeça do cãozinho.

É fácil dizer que um robô não é um ser vivo, mas o que identifica a "vida" em uma relação afetiva? Cães são vivos, mas não compreendem. Robôs não são vivos, mas estão cada vez mais próximos de uma simulação bastante razoável de compreensão. Como previu o Teste de Turing, a máquina não precisa pensar, desde que aparente fazê-lo.

Já faz um tempo que os gêneros fantásticos da literatura lidam com essa dialética existencial. Em 1982, os androides de Blade Runner se comportavam como humanos, se sentiam vivos e se revoltavam com o fato de serem temporários. Em Toy Story, o astronauta Buzz Lightyear tem de aprender a notícia deprimente de que, em vez do indivíduo livre e autêntico que acredita ser, ele não passa de um boneco, vendido em grandes quantidades em lojas, idêntico a milhares de outros, banal e com discurso previsível.

Nos planos da Sony, o cãozinho deveria se transformar em uma nova plataforma, como o PlayStation. Mas os primeiros modelos eram limitados, e como aconteceu com o Orkut para o Google, o AIBO nunca passou de um projeto paralelo para a empresa, acostumada a vender produtos às dezenas de milhões, não centenas de milhares. Na virada do século, quando a gigante japonesa entrou em crise, o projeto foi encerrado. A assistência técnica durou mais uma década. Mas o aparelho é muito mais complicado do que um jipe ou fusca, por isso as peças começaram a rarear e as oficinas fecharam. Sobrou para mecânicos informais que canibalizam partes funcionais de alguns para consertar outros.

Tem coisas do Japão que parecem Ficção Científica. Para a religião Xintoísta, muito popular no país, tudo está interligado. Suas divindades, os "Kami", podem ser definidos como espíritos ou essências presentes em cada objeto. Partes de um todo indivisível, eles estão integrados à essência humana em uma grande rede complexa. É misticismo, mas está cada vez mais próximo do futuro. Mesmo que seja uma versão de futuro em que não se imagine viver.

sábado, 25 de julho de 2015

O impeachment de Dilma Bolada

Charge O Tempo 25/07
Entre os vários problemas e crises que assolam a República, urge resolver um em particular: é preciso encaminhar o processo de impeachment de Dilma Bolada. A ausência de graça já seria motivo o bastante para depor a suposta caricatura, mas, para os supostos puristas, aqui vai uma suposta razão técnica: desvio de função.

Daqui a décadas, quando a única certeza é que Renan Calheiros ainda estará presidindo o Senado, os historiadores olharão para o caso Dilma Bolada como o ápice da lógica de cooptação que caracteriza a política brasileira desde o Império. O legado mais sem-graça dos anos Dilma Rousseff definitivamente é o estabelecimento, com firma reconhecida em cartório, do humor a favor.

Na tentativa de dotar a presidenta de algum carisma, seu partido foi capaz de cooptar uma caricatura que não debocha do caricaturado e, assim, nos furtou umas boas gargalhadas durante anos de marasmo político e econômico — Jeferson Monteiro, o autor da personagem, provou ter capacidade de nos fazer rir antes de aderir —, e, agora, não vai ter operação da Polícia Federal que resolva isso.
O que vai ter é CPI, informa a Folha de S.Paulo. A CPI dos Crimes Cibernéticos, ironicamente proposta pelo PT, mas devidamente envenenada pelo novo oposicionista Eduardo Cunha, pretende quebrar o sigilo bancário do autor da Dilma Bolada, como parte das investigações sobre o que o jornal chama de “guerrilha petista na internet”. Não se sabe no que isso pode dar, mas, em tempos de Operação Lava Jato, já podemos pensar em negociar algumas piadas engraçadas com o humorista no acordo de colaboração premiada.

Afora os trâmites legais, contudo, a população brasileira de bem e de mal tem o dever cívico de se unir em torno da bandeira do impeachment bolado. Não dá mais para topar vez ou outra nastimelines da vida com "lacradas" menos engraçadas que o humor involuntário dos blogueiros que se esforçam para defender o Governo. Tudo tem limite, até porque Dilma Bolada já deu filhos igualmente sem-graça, como Haddad Tranquilão (apesar de heróicas exceções, como Aécio de Papelão, entre outras sátiras de fato), e tem até cartunista consagrado se contaminando pela má influência. Neste momento de esculhambação geral da República, preservemos pelo menos o riso.

Rodolfo Borges

As dificuldades de perdoar o perdão

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Difícil mesmo é perdoar o perdão. A História está cheia de exemplos de gente que traiu, perdeu, foi perdoada e, sob a capa da adesão incondicional, cheia de arrependimentos e de desculpas, transformou-se em adversário e até inimigo implacável e falso.

Tome-se a relação entre a presidente Dilma e o Lula. Apesar das demonstrações ostensivas de subordinação, subserviência e amizade eterna, depois de elevada ao poder a criatura insurgiu-se contra o criador. Passou a governar como se o primeiro-companheiro fosse um estorvo, uma peça de museu desimportante que devia reverenciar, mas da qual não precisava e nem acreditava, julgando-o ultrapassado. Veio o tempo das vacas magras, Madame perdeu não só a popularidade, mas o controle do país.

O Lula passou-lhe uns pitos, até de público, fez recomendações e abriu os braços para recebê-la de novo e perdoar anteriores desvios. Perdoou.

Aqui se aplica a máxima acima referida. Perdoar o perdão só é próprio do santos. São Pedro traiu Jesus três vezes, foi perdoado e tornou-se o arauto do cristianismo. Mas era São Pedro.

No calvário em que o PT se arrasta, o natural seria a adesão incondicional de Dilma às lições e ensinamentos do Lula, única taboa de salvação para conseguir levar seu governo até o fim. No entanto…

No entanto, assiste-se a presidente perdoada, às escondidas, destilar fel sobre quem a perdoou. O mínimo a esperar dela seria o engajamento total no roteiro traçado pelo antecessor, até como forma de sobrevivência. Não é o que se vê. Apesar de bissextos encontros, Madame dá a impressão de ter ouvidos moucos. Continua aferrada aos postulados de Joaquim Levy e despreza os conselhos de criar fatos positivos e iniciativas capazes de reconquistar a opinião pública. Ignora mecanismos de recuperar a renda nacional e enfrentar o desemprego crescente. Rendeu-se à receita recessiva e não se lembra de anunciar programas de obras públicas em condições de absorver a mão de obra ociosa. Preferiu propor a redução das jornadas de trabalho e do salário dos trabalhadores. Mais a supressão do seguro-desemprego, do abono salarial e das pensões das viúvas. Pratica ao contrário as recomendações de quem a perdoou.

Platão ensinou que nenhuma sociedade consegue evitar o ciclo fatal que se inicia com a monarquia, transforma-se em aristocracia, torna-se oligarquia e explode na democracia, para em seguida mergulhar no caos e redundar na ditadura.

A gente fica pensando qual dessas fases está próxima de se verificar, com panelaços programados para 16 de agosto…

Corrupção à brasileira: Lula na Foreign Policy


Uma vez - essa história não faz tanto tempo assim -, eu caminhava de mãos dadas com Margarida (também jornalista) pelo aeroporto de Barajas, na fase em que a Espanha flanava toda cheia de si sobre as ondas de seu mais recente (e já desmoronado) sonho de império, opulência econômico-financeira e tranquilidade política.

Barajas, um dos mais importantes e movimentados aeroportos da Europa, acabara de ser reformado e modernizado (a capital espanhola inteira, aliás, parecia um imenso canteiro de obras e paraíso das grandes empreiteiras). Era então o mais novo e imponente postal de entrada e saída da cidade repaginada. O mundo e o tempo loucos e maravilhosamente criativos dos anos 60/70 haviam ficado para trás nas muitas voltas. A juventude quase nem fumava ou lembrava mais dos famosos “chinos de Madri” da canção “Un Vestido y un Amor”, do portenho Fito Paes, que o baiano Caetano Veloso transformaria em sucesso mundial no disco “Fina Estampa”.

Foi no aeroporto, daquela vez, que vi a “FP-Foreign Policy” (edição espanhola) exposta em um lugar de destaque da vitrine na babel do quiosque de revistas e periódicos do mundo inteiro. Achei estranho o nome da publicação, mas o design moderno da capa e as chamadas para as matérias principais da edição que acabara de sair do forno, me apanharam de cheio.

Comprei um exemplar para ler no voo de volta ao Brasil. Abri a revista e logo fui arrebatado por uma paixão jornalística à primeira vista, da qual depois não mais me afastei ou me arrependi, apesar das novas e tantas viradas do planeta. Isso aconteceu há uma década, quando o Brasil também “era tudo de bom”, no dizer quase nunca questionado da baita propaganda oficial do Governo Lula e do PT. Nem se falava em Mensalão e, muito menos, se imaginava um escândalo de ladroagem envolvendo corruptos e corruptores - malfeitores públicos e privados em conluio - do tamanho da Lava Jato. Que a cada dia, praticamente, aponta para novos desvãos criminosos e de consequências ainda insondáveis. A conferir.

Recordo do episódio em Madri depois de ver, esta semana, a reportagem da “FP-Foreign Policy” (edição dos Estados Unidos), que traz entre seus principais conteúdos, uma reportagem demolidora a partir do título: “Lula está apoiando empresas corruptas a fazer negócios corruptos no exterior”.

Abro aqui um breve espaço de informações sobre a “FP”, para quem desconhece a revista norte-americana não ficar imaginando que a publicação de nome tão estranho é um “balcão de negócios jornalísticos”, ou algo superficial, nos moldes das revistas de escândalos em torno de “celebridades”, tão comuns na Espanha e no Brasil, ou dos famosos tabloides britânicos, para ler no metrô e jogar no lixo.

“Foreign Policy (FP)” requer muitos e quase todos favoráveis adjetivos: prestigiosa, inovadora, lúcida, substanciosa e inteligente revista dedicada a ideias globais. Trata de assuntos internacionais (do futebol da FIFA, na Suíça e Estados Unidos, ao Petrolão, no Brasil) de maneira diferente e igualmente interessante. Encara criticamente, de forma permanente e criteriosa, o desafio de alcançar em seu conteúdo, a difícil mescla jornalística de “seriedade, amenidade e rigor”. Servidos em textos primorosos

Há, porém (e sempre há um porém), os que consideram FP um reduto inexpugnável de intelectuais neoliberais , elitistas vaidosos e inimigos do “pensamento de esquerda e dos intelectuais, gente do poder e de governantes em geral que o expressam e representam”.

São opiniões. O fato é que a reportagem da “Foreign Policy” considera que o Brasil cria novo modelo de investigação da corrupção ao apurar ação do ex-presidente Lula fora do governo, o que é praticamente inédito em todo o mundo. “Enquanto muitos ex-presidentes e premiês já foram investigados após deixarem os cargos, é a ação deles enquanto governantes que normalmente é analisada. Investigações (neste caso ) estão examinando o papel que [Lula] da Silva teve para garantir contratos para a Odebrecht em Cuba, no Panamá, na Venezuela, em Gana e em outros países'', diz a revista americana em sua página na Internet.


“Lula está ajudando empresas corruptas a fazerem negócios corruptos no exterior'', afirmou à revista o diretor regional da Transparência Internacional, Alejandro Salas. Paro por aqui. Quem quiser saber mais veja na revista, cuja reportagem causa impacto internacional.

Foreign Policy é editada em Washington desde 1970. A edição espanhola da revista, cujo exemplar adquiri em Barajas, é bem mais recente: começou em 2004. Me penitencio, pessoal e profissionalmente, pelo atraso da descoberta, apesar de ter passado antes pelos Estados Unidos, quando FP já era sucesso entre seus leitores, principalmente nos meios intelectuais e jornalísticos. Vida que segue.

O Coliseu nativo

Na antiguíssima Roma, os tiranos da época utilizavam - se do Coliseu e outras arenas para embromar a galera popular com os espetáculos circenses.

Enriquecendo a pantomima, distribuíam pães para a massa, que de barriga cheia e imensos sorrisos de satisfação assistia aos gladiadores se matando, as feras trucidando os miseráveis e as execuções de larápios e assassinos.


E, assim, durante centenas de anos, viveram felizes os tiranos e os seus submissos súditos.

Hoje, numa inversão espetacular, parece que na arena, lá em baixo, ao invés de gladiadores, de leões, de tigres e outras feras, uma malta de politiqueiros por fúteis querelas estão cuspindo uns nos outros.

A refrega é sem sangue.

O público assistente diverte - se ouvindo cabeludos palavrões e nojentos gestos obscenos, que cada bando usa para ofender aos seus desafetos.
As acusações são pesadas, desde o “ você roubou mais do que eu ...”, “ deu mais pedaladas fiscais...”, até o “a sua mãe é ...”

Basicamente, os querelantes sempre formaram uma malta unida, só que nos últimos meses, por ambições pessoais e divergências no quanto cada um pode usufruir do Tesouro e do Poder Nacional, surgiram os atritos e as desconfianças.

No momento entre cusparadas, os oponentes esbravejam ameaças, e cada lado afirma que possui a seu favor as famosas legiões.

“ As do Norte estão ao nosso favor”, bradam alguns. “Mas nós contamos com as do Sul”, esbravejam os outros.

O povaréu boquiaberto nem sabe para que lado torcer, pois parece que, como sempre, logo os oponentes estarão aos abraços e beijos, e tudo voltará a ser “como dantes no quartel do Abrantes”.

Como dizem os mais ponderados dos fajutos gladiadores, “conterrâneos, o Brasil tem riquezas o suficiente para nós todos e a nossa galera popular está eternamente pronta para nos sustentar e enriquecer, portanto, por que brigar”?

Os pasquins utilizados pelos oponentes acirram a contenda com tétricas acusações.

Infelizmente, apesar de ambas as partes empregarem em sua defesa portentosos causídicos ou decantados filósofos, tudo indica que o “bom senso” irá predominar e, em breve, a linha do politicamente correto será adotada.

Breve, os afetuosos abraços, os elogios recíprocos apagarão a triste quadra de atritos e, como usual, os miseráveis plebeus retornarão para a arena onde, em sua desgraceira, alegrarão, não apenas os tiranos e seus cupinchas, mas o populacho em geral.

A Nação brasileira é famosa em todo o mundo pelo seu alegre e irresponsável modo de viver e, portanto, manterá suas tradições de aplaudir as chanchadas mais ignóbeis.

De fato, como escreveu o filósofo Nelson Rodrigues, “o brasileiro é um Narciso ás avessas, que cospe na própria imagem. Nossa tragédia é que não temos o mínimo de auto - estima.”

O nativo não tem auto - estima, nem responsabilidade, nem nacionalismo, mas não troca sua alegre desgraça por preocupações com o futuro, o seu, e cruz credo, o do País.

E viva a nossa vã filosofia, “Não importa que a mula manque, o que eu quero é rosetar
”.
Valmir Fonseca Azevedo Pereira

As mortes de Lulinha

Em 2008, o diário "Extra" flagrou um menino negro nadando numa poça resultante de um vazamento na favela onde morava em Manguinhos, zona norte do Rio.

Consta que o então todo-poderoso presidente Lula se comoveu com a cena e resolveu transformar o local em vitrine de regeneração sob a bandeira do PAC, programa que tinha uma "mãe", Dilma Rousseff.

O menino, Christiano Pereira Tavares, foi levado ao palanque das autoridades para as devidas fotos e a promessa de construção de uma piscina na "comunidade", o eufemismo do politicamente correto para esses lugares esquecidos pelos políticos depois dos comícios.


Agora, o mesmo "Extra" informa que Lulinha, como o garoto foi apelidado após encontrar Lula, morreu aos 15 anos sob suspeita de overdose na unidade de saúde que ostenta sua foto sorridente na parede.

Manguinhos segue pobre, e a piscina, segundo o relato, abandonada. A família de Lulinha melhorou um pouco de vida, mas o quadro de desagregação segue inalterado.

Além de tragédia, a morte do garoto, se confirmada pelos motivos apontados, encarna um retrato da decadência do legado da era PT no poder. O investimento no combate à miséria, prioridade digna mesmo que tenha sido só eleitoreira, é tisnado pela realidade -do petrolão que já grassava à época ao desastre de gestão que atolou o país sob Dilma.

Sem bonança externa e com o sorriso de Levy, a classe que emergiu pela via perversa do consumo vai voltando para seu nicho anterior; brilha solitária na ruína a TV de tela plana na qual a irmã de Lulinha, grávida aos 14 anos, vê desenhos animados.

Não morre apenas Lulinha. Morre uma ilusão que teve, como toda farsa, lampejos de euforia. Morre o país cujo futuro radiante, para quem quis acreditar, havia chegado. A construção da realidade, ainda mais com os atores à disposição, será dolorosa.

Lulinha não verá nada disso.

No ombro do povo

Discursando para a Federação Única dos Petroleiros, Lula, o deteriorado gene criador da “mulher sapiens”, disse que ela não tem outra alternativa a não ser encostar a cabeça no ombro do povo e conversar com ele. Pera lá, que conversa antiga é essa? Eles e todo o PT pouco fizeram nos últimos 12 anos, a não ser encostar no povo e conversar lorotas em ouvidos pouco esclarecidos. Bom exemplo disso é a fala de Lula antes de ser eleito pela primeira vez: “o povo, devido ao alto grau de empobrecimento, pensa com o estômago e não com a cabeça, e por isso os governos distribuem tanta cesta básica (...) é porque isso na verdade é uma peça de troca em época de eleição...” Bastou ser eleito para que esta “política de dominação” fosse capilarizada ao extremo e de forma absolutamente irresponsável nos governos petistas.


O partido falhou de forma despudorada ao não aproveitar seu capital político/econômico para investir em um projeto de país através da educação, saúde, segurança e infraestrutura. Optou por colocar o povo no colo e mimá-lo com agrados contraproducentes. O PT não entende que a riqueza precisa ser criada, produzida e reciclada de modo sustentável. Lula disse uma vez que “esse tal de mercado nunca votou no PT” e que “quem vota na gente é o povo, cujo único mercado que conhece é onde compra feijão”. Lula e a esquerda não entendem que é esse “tal mercado” que sustenta toda a máquina pública, que os países que fomentam o “tal mercado” se enriquecem e diminuem a distância entre pobres e ricos, enquanto que os países que o rejeitam se deterioram.

Um bom homem público não pode buscar apoio “no ombro do povo”, e muito menos usar este povo como arma de arribação política. O ombro do povo não consegue mais carregar o peso da irresponsabilidade petista. O que os supostos 40 milhões de brasileiros que o partido diz ter tirado da pobreza precisam fazer, para o bem de todo o país, é buscar qualificação profissional para o “tal mercado” e prosperar se libertando da submissão estatal. Precisam, acima de tudo, ter consciência de que o Estado não ajuda, que o dinheiro público não é criado por ele, mas, sim, pelo suor dos que trabalham para sustentar suas mordomias, e que, enfim, quanto maior e improducente for este Estado, menor será a qualidade de vida de todos os cidadãos.

Ainda há juízes em Berlim

(STF...Quando a Nação deixa de acreditar na sua Justiça, deixa de ser Nação.)
 

Frederico II, “o Grande”, rei da Prússia, resolveu construir um palácio de verão próximo a Berlim, junto a encosta de uma colina, onde próximo da mesma já se elevava um moinho de vento - atualmente o "Moinho de Sans-Souci".

Alguns anos após o rei resolveu expandir seu castelo, porém o moinho o impedia de ampliar uma determinada ala, e resolveu comprá-lo, ao que o moleiro prontamente recusou:

- Essa é a residência de minha família, e aqui inclusive meu pai faleceu há pouco tempo.

- Torno a oferecer uma oferta pela compra do mesmo... mas lembro-lhe de que, como rei, posso simplesmente tomar-lhe a propriedade!!!

Foi quando o moleiro respondeu com a célebre frase:

- Como se não houvesse juízes em Berlim!!!

Pasmo com a ousada e ingênua resposta que indicava claramente a disposição do moleiro em litigar com o próprio rei perante a justiça, Frederico II decidiu alterar seus planos de ampliação de seu castelo, e deixou o moleiro e seu moinho em paz.

Esse episódio imortalizou em versos para a história o símbolo da Justiça ser cega para as diferenças sociais, mesmo perante a monarquia.

Sua corajosa resposta e o recuo respeitoso do rei passaram a ser lembrados para demonstrar situações em que o Judiciário deve limitar o poder absoluto dos governantes.

A política não pode ser tudo. Nem nada

Certamente o leitor já teve ocasião de ouvir entrevistas do tipo em que o repórter pergunta - "O que é isto ou aquilo para você?". E o entrevistado responde - "Ah! Isso para mim é tudo!".
Tudo? Como assim "tudo"? Atribuir totalidade a algo é sintoma de fragilidade mental. Coisa nenhuma pode corresponder ao todo na medida em que o todo é, por definição, a agregação de tudo. Nem Deus pode ser tudo porque se o fosse acabaria agasalhando sua contradição, seu antípoda, o sujeito da fumegante fornalha do andar de baixo. Mesmo assim, o fato permanece: muitas pessoas agem como se alguma coisa fosse tudo, mesmo.

Quando isso ocorre com futilidades, as conseqüências, por vezes graves, se limitam ao âmbito pessoal ou familiar. Constitui porém desvio psicológico capaz de produzir verdadeiras tragédias atribuir essa totalidade à política. O leitor muito provavelmente sabe do que estou falando; conhece e convive com pessoas para as quais a política é tudo. E certamente conhece também idéias políticas que, seduzindo corações e mentes, cobram dos que a elas aderem essa entrega total. Tudo é o partido e nada é mais importante do que a reunião do partido, a defesa do partido, a propaganda partidária. 

Prioridade alguma se pode sobrepor aos atos convocados pelo partido e nenhuma razão traz consigo a audácia de questionar suas razões e seus procedimentos.

Estou exagerando? Pense no professor que usa a sala de aula para fazer a cabeça dos alunos, no religioso que emprega o púlpito como palanque e que não distingue sua ação pastoral de sua militância política, no jornalista que, na cozinha da redação, manipula o fato para produzir a versão que mais convém ao partido, no torcedor de futebol que mistura o símbolo de seu partido com a bandeira de seu clube, transformado qualquer coisa em vetor de suas próprias manias e compulsões.

Essa totalidade, na política, é a farinha e o fermento do totalitarismo. Mobilize-a com o que bem quiser (insatisfação, revolta, revolução) ou lhe dê o nome que preferir (utopia, radicalização da democracia, organização da cidadania). O produto final será sempre antidemocrático, maniqueísta, totalitário. A melhor proteção contra esse produto é o conhecimento de sua natureza. Da mesma forma, a comprovar a importância do equilíbrio, ignorar completamente a dimensão política do ser humano e a importância da política à vida em sociedade é sinal de pouco juízo e rompimento com um grave dever moral. A omissão na política, pavimenta o caminho dos demagogos, dos incompetentes, dos oportunistas e dos tiranos. E o omisso, cedo ou tarde, será chamado, com todos os demais, a pagar essa conta.

Lula dá sinais de estar perto de jogar a toalha



Foi um Lula esgotado, aborrecido, impaciente, sem imaginação que se apresentou ontem à noite para cerca de 200 pessoas reunidas na sede do Sindicato dos Bancários do ABC, na grande São Paulo.

Sacou velharias do fundo da memória. Do tipo: “Estou de saco cheio e cansado das mentiras e safadezas”. Ou do tipo: “Estou cansado de agressões à primeira mulher a governar o país”.

Como se Dilma, pelo fato de ser mulher, estar sendo agredida. Ou como se Dilma, pelo fato de ser mulher, não poder ser criticada. “Não tem pessoa com caráter mais forte nesse país do que ela”.

Há pouco mais de um mês, em conversa com religiosos no Instituto Lula, o ex-presidente bateu em Dilma por ela fazer “um governo de surdos”. Disse que ela estava “no volume morto”.

Quando um político não sabe o que dizer, costuma se referir à perseguição movida pelos nazistas na Alemanha aos judeus antes e durante a 2ª. Guerra Mundial. Foi o que Lula fez:

- O que a gente vê na televisão parece os nazistas criminalizando o povo judeu, os romanos criminalizando o povo cristão, os fascistas criminalizando os italianos. Sei que é difícil para parte da elite brasileira aceitar certas coisas.


O que nazistas, judeus, romanos, cristãos, fascistas e italianos têm a ver com as crises ora enfrentadas pelo Brasil – a política, a econômica e a ética? Lula não explicou.

Seu abatimento, segundo confidência de amigos, decorria das notícias que haviam lhe chegado a respeito da reportagem de capa da revista VEJA deste fim de semana.

Segundo a VEJA, o empresário Léo Pinheiro, ex-operador da construtora OAS em Brasília, começou a negociar com a Justiça a delação premiada

Ninguém mais do que Léo sabe como Lula enriqueceu depois de chegar à presidência da República. Foi ele que reformou de graça o apartamento de Lula no Guarujá e seu sítio em Atibaia, São Paulo.

Se, de fato, Léo abrir o bico, Lula correrá o risco de ser engolido pela lama provocada pela Operação Lava Jato.

Em certo momento do seu discurso, Lula cometeu uma frase sem sentido: “Não é porque uma criança está com febre que a gente vai enterrar. Mas foi em frente. Tocou de raspão na crise econômica:

- Temos que dizer para todas as pessoas que acham que o mundo vai acabar, que não há momento na história desse país que o Brasil não tenha passado por uma crise.

Sim, e daí?

Para finalmente arrematar:

- Quem vem apostando no fracasso deste País vai quebrar a cara.

Lula não é mais aquele. O que é que se faz com ele?

sexta-feira, 24 de julho de 2015

De olho no céu

'Passa-se o ponto'

Dê uma volta em qualquer bairro do Rio que você verá placas anunciando a venda, o aluguel, a transferência do ponto comercial: são lojistas angustiados e que não aguentam mais o arrocho da economia e o sumiço dos clientes.
Será que o ministro Levy não pensou, nem por um segundo sequer, que isso ia acabar acontecendo? Creio que não, parece que ele ficou sinceramente surpreso ao perceber que a grande maioria dos brasileiros estava desesperançada e não acreditava na política econômica que ele vendia com aquele aplomb que lhe é peculiar.

(Aliás, por falar na pessoa do ministro, não lembro quando, nem onde, li que Joaquim Levy tem o hábito de se fechar em sua sala para trabalhar ao som do melhor jazz. Bom gosto o do ministro. E aí, bolei um roteirinho: ele começa a seção com Billie Holiday cantando Speak Low, o clássico de Kurt Weil e Ogden Nash, para não esquecer que falar baixinho é um bom golpe: faz o ouvinte se esforçar para prestar atenção!).


Ele fala baixinho e com toda certeza é muito ouvido. Afinal, de suas decisões, depende muito a nossa vida. Infelizmente, ainda não acertou uma tacada sequer...

O desemprego em níveis alarmantes e sem cara de ser revertido tão cedo; os estoques mofando nas prateleiras ou nos pátios; a queda da receita. O PIB magrinho, fraquinho, com cara de bem doente. O Tesouro, coitadinho, empobrecendo a cada dia. Será que o ministro Levy não desconfiou que isso poderia acontecer?

Será que ele achou que essa austeridade artificial e brutal ia fazer bem ao Brasil e aos brasileiros? Sobretudo no meio do caos político em que estamos, Executivo e Legislativo chafurdando na "incompetência, arrogância e corrupção”, como disse com todas as letras o Financial Times em seu editorial?

Brasil filme de terror jornal americano Dilma Exorcista Levi Fred Krugger Renan frankenstein Cunha Temer Lula brinquedo assassino Jason Canibal.psd

Para o grande jornal inglês a magia do país foi quebrada e agora vemos que tudo não passou de um conto de terror. (Cá pra nós, atores bons para fazer um filme com esse roteiro, nós até temos).

Um economista americano, Laurence J. Peter, que viveu entre 1919/1988, é autor de uma frase que eu considero perfeita: “Um economista é um especialista que saberá amanhã porque as coisas que ele predisse ontem não aconteceram hoje”. É ou não é uma verdade verdadeira? A mim me parece que é assim, que todos os nossos ministros da Fazenda estão até hoje sem saber por que suas tão ardilosas projeções não tiveram sucesso. Com talvez uma exceção: Pedro Malan. Pena que o PSDB tenha perdido a chance de colocá-lo no Planalto...

Mas não adianta chorar sobre o leite derramado, não é? Nosso ministro atual, que assumiu com a fama de homem que não aceitaria ser desprestigiado, agora se ocupa com entrevistas tentando justificar o ajuste fiscal que de essencial passou a ser uma reles curva na travessia que ele e sua chefe acreditam será completada no semestre que vem.

Parece que o ministro da Defesa, o petista Jaques Wagner, acredita nisso, pois ele discorda do FT e acredita que estamos mesmo no início de uma história de fadas. Quem é a fada madrinha? Não sei. Sei que não há uma abóbora grande o suficiente para caber toda a brava bancada coligada!

Assim como sei que não vai haver impeachment da presidente. Não há motivos. Sua popularidade rasteira não é motivo para um impedimento legal. A austeridade, dura e perversa, nos faz sofrer, mas não nos dá o direito de sair da legalidade.

Impichados estamos nós, o povo brasileiro. Os justos pagando pelos pecadores, quem mandou elegermos dona Dilma?

A nação de cabeça baixa

A condição natural do ser humano é a fragilidade, que é de natureza física; a ignorância, que é de natureza mental; e a pobreza, que é de natureza econômica. Afora a fragilidade física, que não pode ser mudada, as outras duas podem ser superadas, e os meios para tanto são o conhecimento e a tecnologia.

Podemos definir conhecimento como sendo o domínio dos princípios e das leis que regem a natureza, o homem e a sociedade. Já a tecnologia é a aplicação do conhecimento para produzir os meios de atender às necessidades humanas e solucionar os problemas do dia a dia. A aquisição do conhecimento e da tecnologia se dá pela ciência, pela educação e pela cultura.


Alguns pensadores, entre eles o gênio liberal Ludwig von Mises, adicionam um terceiro fator: a forma como a sociedade é organizada e dirigida em termos coletivos. Em seus escritos, Mises insiste que a quantidade de coisas produzidas não é desvinculada do modo como são produzidas. Para ele, o mesmo povo, sob um regime de liberdade e de propriedade privada dos meios de produção (o capitalismo), é capaz de produzir muito mais do que sob um regime sem liberdade e sem direito de propriedade (o socialismo).

O Brasil vive hoje um dos piores momentos de sua história. A nação está humilhada e cabisbaixa. A desconfiança nas instituições vem decaindo perigosamente. A política e os políticos estão desacreditados. O setor público está falido, afundado em déficits, dívidas e serviços da pior qualidade. Junto a todo esse quadro ruim, a economia vai mal e nos tornamos uma das sociedades mais violentas do mundo.

Em um único fim de semana (dias 17, 18 e 19 passados), em apenas uma cidade (Manaus), houve 35 assassinatos. Se fosse nos Estados Unidos, o mundo inteiro estaria comentando e analisando como um fato incomum. Aqui, virou corriqueiro. O grau de violência no Brasil quase não tem precedente no mundo. E não dá para debitar tudo à pobreza, pois há muitas nações tão ou mais pobres onde a violência é muito inferior à que temos aqui.

A violência é, também, um problema econômico. Nova York sozinha recebe 50 milhões de turistas por ano. O Brasil inteiro recebe apenas 6 milhões, um número pífio. A imagem brasileira no exterior é de um país corrupto, bagunçado e violento, que não está no roteiro do turismo mundial. Há anos, inventaram os Brics (Brasil, Rússia, Índia e China), países que seriam emergentes caminhando rumo à riqueza. Agora, alguns analistas internacionais estão propondo tirar o Brasil do grupo, tal a deterioração econômica e social do país.


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O governo Fernando Henrique venceu o demônio da inflação, reduziu um pouco o tamanho do Estado-empresário e legou a importante Lei de Responsabilidade Fiscal. Lula ampliou os programas sociais e foi beneficiado pela enorme ajuda do mundo, sobretudo da China, cuja explosão do consumo promoveu a elevação dos preços das commodities brasileiras exportadas.

Até 2010, uma enxurrada de dólares entrou no Brasil. Mas a festa acabou em 2011, quando Dilma assumiu. A boa situação internacional desapareceu, os preços de exportação voltaram a cair, os erros de política econômica de Dilma foram graves... e o país perdeu o passo. Com a desencanto e a descrença, muitos sonham seguir para o exterior e desistir do Brasil. Mas a maioria não tem essa possibilidade; logo, é preciso lutar e impedir que a nação naufrague na pobreza e na violência.

José Pio Martins