quinta-feira, 7 de maio de 2015

Nem todos têm o direito de pertencer ao mundo globalizado

Enquanto macacos atrasam o plano de internet na Índia, orçado em US$ 18 bilhões (eles comem as fibras óticas…), aqui, em nosso pobre país, empresários e políticos se juntaram para comer um bom naco do nosso dinheiro confiado à Petrobras. Mas quais deles, na realidade, saíram piores? Essa resposta, leitor, você ficará me devendo.


Enquanto você se diverte com isso, reflitamos sobre o seguinte: pertencemos a um mundo globalizado, mas o que isso de fato significa? É simples: fazemos parte de um mesmo mundo, embora o tratamento nem sempre seja igual para todos. Ou estamos nele, ou, embora “vivendo” nele, estamos fora dele. Ou temos condições de nos transformarmos em consumidores, ou não temos e somos, pois, ganga pura. E ganga, você sabe, é resíduo que, de modo geral, não serve para nada.

Segundo o Banco Mundial, 4 bilhões dos 7 bilhões de seres humanos que habitam esse mundo não são consumidores e, por isso, nem sempre são visualizados. Só conhecem guerra, fome, miséria, morte. E o que fazem os que integram o grupo dos 3 bilhões para minorar isso? O que fazem, sobretudo, os ricos – uma minoria, sem dúvida, nesse grupo – para minorar isso? E o que fazem os que (mesmo não sendo ricos, como a maior parte desse enorme grupo) têm acesso, sem constrangimento, a esse mundo cheio de contradições e injustiças?

Essas preocupações tomaram conta de mim depois que li sobre o estrago que os macacos fizeram no plano de internet na Índia e depois que li Leonardo Boff e Márcio Tavares D’Amaral, o primeiro em O TEMPO, o segundo em “O Globo”. Em seu último artigo, ao se referir ao sistema capitalista, disse Boff: “Esse sistema serve bem apenas a 2 bilhões de pessoas, que se afogam no consumo suntuoso e no desperdício atroz. Ocorre que somos já mais de 7 bilhões de pessoas, das quais quase 1 bilhão vive na mais canina pobreza e miséria”.

O colunista de “O Globo” talvez tenha sido mais ameno: “O mundo é habitado por 7 bilhões de pessoas. Mas 4 bilhões de humanos estão fora desse mundo. E, parece, não entrarão se mudanças radicais não se produzirem”. Eles sobrevivem com US$ 1 ou US$ 2 por dia…

Mas essas minhas preocupações se aprofundaram mais depois que assisti no YouTube, enviado pelo meu filho Bernardo, ao filme sobre o “encantador de cavalos”. Exibido outra vez nesse último domingo, no programa do Faustão, que raramente oferece aos que o veem algum alívio ou refrigério, o espetáculo me deixou ainda mais extasiado com o que esse jovem espanhol faz com os equinos. “E eles só fazem o que fazem porque gostam do que fazem”, disse Santos Serra.

Contra eles, não há sequer um gesto de violência. Horas depois, ao insistir para conciliar o sono, obviamente prejudicado pelo que ocorre em nosso país, me perguntei, entre assombrado e perplexo: será o homem a pior das criaturas de Deus? Perguntei, mas deixei de lado esse escárnio, pois, enfim, o que Deus tem a ver com o que os humanos fizeram de si próprios?

Falei de macacos e cavalos, leitor, talvez para conter um pouco minha “indignação moral” contra o que vem acontecendo em nosso país. É difícil (ou impossível?) conservar-se alheio diante do que políticos e empresários pátrios, na mais safada e vergonhosa aliança, fizeram e fazem contra os brasileiros, sobretudo contra os mais sofridos.

Até quando continuaremos nessa derrocada moral?

Nem o Altíssimo sabe!

Acílio Lara Resende

A satanização do marqueteiro do PT

Se os órgãos de defesa do consumidor tivessem poder, o marqueteiro João Santana seria proibido de exercer a profissão pela propaganda enganosa que foi a campanha da doutora Dilma à reeleição. Noves fora isso, há um cheiro de satanização no inquérito que a Polícia Federal abriu em cima de sua empresa.

Pelo que se sabe, ele se tornou suspeito de lavar dinheiro para o PT. O primeiro lance dessa lavagem estaria no fato de ter trazido para o Brasil o equivalente a R$ 33 milhões ganhos na marquetagem da campanha do presidente José Eduardo dos Santos em Angola.

Santana atravessou o oceano para escorregar numa casca de banana em Angola, país governado por Santos desde 1979. A filha do doutor é a mulher mais rica d'África, com uma fortuna estimada em US$ 3 bilhões. Se isso fosse pouco, em Angola estão fincadas estacas das grandes empreiteiras apanhadas na Lava-Jato.

O Conselho de Controle de Atividades Financeiras desconfiou do internamento do ervanário e comunicou o fato à Polícia Federal. Falta dizer qual é a base da desconfiança. Santana trouxe o dinheiro para o Brasil. Fez isso pela rede bancária, de acordo com as normas do Banco Central, e pagou R$ 6,29 milhões de impostos, equivalentes a 20% da transferência.

Seria coisa “atípica”, porém é lisa e benéfica. Nada a ver com os R$ 10,5 milhões pagos em 2003 pela Caixa Dois do PT ao marqueteiro Duda Mendonça e remetidos para uma conta num paraíso fiscal das Bahamas. São casos diferentes e até mesmo opostos.

A transação seria um disfarce. Em tese, as empreiteiras deram o dinheiro a Santana para cobrir os serviços que prestara no mesmo ano ao candidato petista Fernando Haddad na disputa pela prefeitura de São Paulo. Ao final da campanha, o PT lhe devia R$ 20 milhões, pagos em parcelas mensais de R$ 2 milhões. Documentada a quitação, a suspeita fica capenga.

Quem quiser continuar duvidando pode achar que a transferência do dinheiro angolano foi atípica para os próprios padrões de Santana. O dinheiro ganho em outras campanhas foi deixado em El Salvador e na Argentina. A empresa de Santana tem ainda uma filial na República Dominicana. Nenhum dos três países pode ser considerado um paraíso fiscal. Continua faltando um fiapo de prova do disfarce.

A linha que separa uma investigação de uma acusação é tênue e atravessá-la é perigoso. As diligências da Polícia Federal e do Ministério Público na Operação Lava-Jato prestaram um enorme serviço ao país e é de se esperar que façam mais. Mesmo assim, a transformação de uma suspeita num inquérito que ainda não ouviu Santana e, a esta altura, nada parece ter acrescentado à narrativa, ajuda quem joga com as pretas. Lances desse tipo tumultuam as investigações e beneficiam culpados.

Por exemplo: o policial pulando o muro da casa de João Vaccari Neto, que jamais se recusou a atender intimações policiais, ou a prorrogação da prisão de sua cunhada, confundida com a irmã. Ou ainda a afirmação de que as anotações de “PB” e “0,1” num caderno do “amigo Paulinho” indicavam o pagamento de uma propina de R$ 1 milhão ao ministro Paulo Bernardo.

Talvez “PB” fosse o Papa Bergoglio, porque Paulo Bernardo não foi denunciado pelo Ministério Público. Às vezes o que parece ser a cereja do bolo é apenas um caroço vermelho.

Dá para entender?

Quero saber quanto nos cabe da dívida, quando cada um de nós deve
Julian Barnes, in "O porco-espinho"

Este ano tem sido muito curioso e instrutivo. Toda vez que os petistas alardeiam uma "vitória" vem logo, no dia seguinte ou pouco depois, uma notícia que derruba toda a fantasia marqueteira. Bastou Lula abrir a boca para vociferar o quanto o PT fez em 12 anos de governo em "conquista de uma vida melhor para os trabalhadores" para vir o troco.

Como "quem conquistou tanto não quer e não pode andar para trás", Lula deveria explicar porque pelo terceiro ano consecutivo a Petrobras caiu no ranking mundial e agora despencou de vez com a roubalheira, patrocinada para sustento do PT, e o desastre da administração Dilma. Que conquista é essa que foi para o fundo do poço?

A Petrobras caiu do 30º para o 416º lugar entre 2 mil empresas. em ranking de empresas. No ranking de 2013, a companhia ficou em 20º lugar. Em 2012, a gigante brasileira de petróleo aparecia no 10º lugar.

Curiosamente, quando Lula defendeu a conquista (sic) do crédito consignado como benfeitoria para o trabalhador, a lista da Forbes aponta o Itaú Unibanco (42º) como a brasileira melhor colocada no ranking. Na sequência, estão Banco Bradesco (61º lugar), Banco do Brasil (133º lugar). Lula deve explicar porque num governo do trabalhador as empresas mais bem sucedidas são bancárias e o ralo fica com a estatal aparelhada.

Alto custo

Bofetada

O macaco foi posto numa prisão especial e interrogado. Fez contrato de delação premiada e hoje, ouvi dizer, passa o dia comendo as mais deliciosas bananas em sua casa

Mamãe me contou essa história.

E, como manda Machado de Assis, a ela acrescentei um ou dois pontos.

Um macaco roubava as bananas (“Musa paradisíaca”, como lhe chamou o sábio Lineu) de um plantador desta fruta sagrada que, de tão brasileira e antiga — corre a lenda que foi comida por Adão e Eva no Jardim do Éden —, virou gesto gostoso e ofensivo, do mesmo modo que a sua casca pode fazer escorregar o poderoso, o prepotente, o boquirroto ou o descuidado. Raro o brasileiro ou brasileira que não tenha dado uma banana ou escorregado na sua casca.

Pois bem, o vasto bananal deixou de ser produtivo porque um macaco senhor de muitas astúcias (dizem que os macacos não falam para não trabalhar) comia as bananas mais maduras e gostosas.

Na defesa do seu bananal, o homem armou sinalizadores, mas eles não funcionaram porque o ladrão era muito esperto. Um dos funcionários da “central de vigilância do bananário” chegou a duvidar da existência do símio, porque ele foi visto em duas telas ao mesmo tempo. Suspeitou-se que o macaco era uma quadrilha, mas o dono tinha certeza absoluta de que se tratava de apenas um macaco, com aquele poderoso espírito de macaco que todos conhecemos: aquela malandragem de ocupar muitos espaços ao mesmo tempo, de se passar por sério sendo bandido, de roubar dizendo que não cometeu nenhum delito.

Com o fracasso do método, o dono do bananal apelou para o sistema antigo: contratou vigias conhecedores natos de macacadas e os postou em lugares estratégicos. Os roubos diminuíram por algumas semanas, mas logo retornaram em níveis assustadores. A grande safra de bananas jamais vista no país, que iria salvar a fazenda e permitir a realização de alguns projetos redentores, teve que ser adiada.

— Como foi possível enganar esses especialistas em macaquices? — questionava o dono do bananal.

— Senhor —respondeu um heroico camponês. — O macaco viciou os vigias e eles passaram a comer juntos as bananas. Cada qual ficava com o seu cacho, com o macaco levando a maior parte.

O homem pensou e de sua cabeça saiu uma ideia. Mandou fazer um boneco de cola que, depois de devidamente vestido de empregado, foi colocado no centro do bananal e cercado de cachos das mais maduras e deliciosas bananas.

O macaco chegou perto do boneco, olhou, gesticulou macaquices e, diante de sua impassividade, perguntou:

— Boneco, posso comer uma banana?

O boneco, obviamente, nada respondeu.

O macaco coçou a cabeça e resolveu ser mais ousado. Chegou perto do boneco e fingiu pegar uma banana. O boneco permanecia imóvel.

Intrigado e, agora, um tanto indignado pela passividade do vigia, o macaco apelou para a agressividade.

— Boneco — disse. — Ou você me dá uma banana, ou eu te dou uma bofetada!

O boneco permaneceu imóvel.

—Boneco — reiterou o macaco com raiva. — Se você não me der uma banana, eu te dou uma bofetada, entendeu?

Olhou para o boneco e este continuava inerte.

Então, o macaco desferiu uma bofetada na cara do boneco e verificou que sua mão ficou colada no intrigante personagem.

— Boneco — reagiu o macaco entre o assustado e o surpreso. — Se você não soltar minha mão direita, dou-lhe uma outra bofetada com a minha mão esquerda.

O boneco continuou mudo só para levar outra bofetada e para o macaco descobrir que suas mãos estavam pregadas.

— Boneco, ou você solta as minhas mãos ou eu lhe dou uma canelada!

Como não houvesse resposta, o macaco chutou o boneco de cola com os pés e agora estava a ele preso pelas mãos e pelas pernas.

— Solta-me, ou te dou uma barrigada!

— Solta-me ou te dou uma cabeçada!

Apelou o macaco desesperado, a essas alturas misturado ao boneco a ponto da indistinção.

Macaco e boneco de cola passaram a noite agarrados um ao outro, dizia mamãe com sua voz maviosa olhando para cada um dos dez olhos dos seus cinco filhinhos, nos quais brilhava a luz da curiosidade.

A antiga curiosidade que acompanha a Humanidade na sua jornada para a honestidade ou para o mero roubo das bananas que ela tanto aprecia.

Dois ou três dias depois, o fazendeiro encontrou o macaco ladrão, que foi, à custa de muito trabalho, separado do boneco. Queria puni-lo com uma sova, mas as autoridades locais invocaram as leis que protegiam os animais. O macaco foi posto numa prisão especial e interrogado. Fez um contrato de delação premiada e hoje, ouvi dizer, passa o dia comendo as mais deliciosas bananas em sua bela residência no topo de uma mangueira.

Tudo o que você faz cola em você — terminava mamãe.

Roberto DaMatta 

Cadê?

Governo? Onde, onde, onde? Por Zeus, cadê?

(Diógenes de Sinope 412 a.C., 323 a.C andando pelo Brasil)

Menos, bem menos

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Não tem jeito mesmo. Dilma, o alvo dos panelaços, continua a pairar como uma deusa sobre o escândalo governamental petista de assalto aos cofres públicos a maracutaias. Em declaração sobre as manifestações durante o programa do PT, achou o barulho uma normalidade, porque "nós construímos a democracia", que está reclamando os desmandos. Menos, Dilma, bem menos.

Nem o PT, nem o deus Lula ou a faxineira Dilma construíram a democracia, sequer a brasileira, muito menos o país como fazem tudo para que se creia. É outra tacada para tentar reescrever com malandragem a história do Brasil. Mais ainda, é jogar no lixo o tanto que houve de ética e moral - hoje riscadas pela cartilha petista - nesta história para favorecer e destacar a falta de vergonha, a cafajestagem, a cretinice de Lula, Dilma e seus cúmplices.

Dilma pode se achar tudo menos criadora de alguma coisa. No máximo, pode ser comparsa. Mas nem da democracia. Quanto a colaborar com a mediocracia, nisso se concorda.

Nenhuma força prevalece sobre o conjunto

Qual a maior força nacional? O leque está aberto, mas, felizmente, não há supremacia de nenhuma, ao contrário de tempos idos e vividos, desde o Descobrimento. Não dá para afirmar com segurança quem manda no Brasil, tantos os vetores que se cruzam e se revesam nas impressões de hoje.

Será o dinheiro, com seus detentores e manipuladores, o grande motor que nos move, ou seja, o capital? Tempo houve em que essa era a resposta. Hoje não mais, apesar de sua pujança.

A grande força será o trabalho, expresso nas entidades sindicais e penduricalhos? Muito se tem tentado, com significativos avanços, até da legislação, mas da mesma forma como o capital, também não é a força preponderante.

Serão os governos, entendidos nos planos federal, estadual e municipal? De jeito nenhum, dada desmoralização crescente das estruturas de que são formados e dos personagens que os representam. Faz tempo que saíram pelo ralo o medo e o respeito que o governos exprimiam.

As religiões? Devem ser excluídas, só pelo fato de se terem multiplicado, ao contrário do que representou o Cristianismo através dos séculos. Desapareceu aquela prevalência ditada pela fé e pelo temor do fogo eterno.

Então a resposta estará nas forças armadas? Ledo engano. A última vez em que se arvoraram de ser a força definitiva, quebraram a cara e hoje se conformam em viver à margem do poder.

Juristas de alto saber e de reputação ilibada dirão estar a força nas instituições políticas, desde a Constituição e as leis até os três poderes da União, do Congresso ao Judiciário e ao Executivo. Nada mais tênue nem desfigurado neste começo de século, onde um simples bater de panelas assusta e intimida os que deveriam conduzir a nacionalidade.

Para os sociólogos e até os filósofos, a grande força repousa na juventude, na perspectiva do futuro que sempre ultrapassará em qualidade aquilo que passou ou ainda persiste em frangalhos. Outro malogro, porque os moços de hoje dividem-se entre o egoísmo e a confusão. Se um dia representaram esperança, agora significam desalento, por mais cruel que pareça a conclusão. Deles nada haverá que esperar além de que envelheçam.

Alguns poetas e outro tanto de cientistas fixam-se na natureza como a força motriz do planeta, detentora dos destinos da Humanidade, capaz de iluminar e construir tanto quanto de destruir e escurecer, até entre nós como nação continental. Nem a natureza dispõe de leis em condições de permitir previsões sobre seu comportamento e o dia de amanhã. Se é fator dominante na vida de todos, pelo menos seria aconselhável que se desse a conhecer.

Sendo assim, e passando do geral para o particular, ou seja, do universo infinito para essa insignificante bolinha de carbono perdida na imensidão, e desta para nossa triste nação, qual o resultado a tirar da ausência de uma força hegemônica que dirija nossos destinos? Por sorte, nenhuma, ou melhor, todas as relacionadas acima. Será do equilíbrio de fatores como o dinheiro, o trabalho, os governos, as religiões, os militares, as instituições jurídicas, a juventude e a natureza que poderemos encontrar meios para seguir adiante. Mas com a dúvida permanente: para onde?…
Carlos Chagas

Maioridade penal e desonestidade intelectual

Procure no Google por "maioridade penal" e, em seguida, busque "imagens". Ali você verá centenas de exemplos da desonestidade intelectual que denuncio neste artigo.

"Reduzir a maioridade penal não vai acabar com a violência!", proclama o debatedor em tom veemente. Ninguém afirmou uma tolice dessas, mas o sujeito passa a detonar a frase que ele mesmo fez como se, assim, estivesse destruindo a tese da redução da maioridade penal. Um criminoso de 16 anos tem que ir para a cadeia por uma série de razões e "acabar com a violência" não é uma delas. Seja como for, essa é uma das bem conhecidas e nada honestas artimanhas empregadas em debates: atribuir à tese adversária argumentos que não foram empregados em seu favor, para dar a impressão de que ela é destruída quando tais argumentos são desmontados.

Outra artimanha é a de levar a tese adversária a um extremo jamais cogitado, tornando-a ridícula. Por exemplo: "Os que defendem a redução da maioridade penal logo estarão querendo reduzi-la novamente para 12 anos. Daqui a pouco estarão encarcerando bebês". E, assim, um rapagão de 17 anos do tamanho de um guarda-roupa, estuprador e assassino, fica parecendo tão inocente quanto uma criança de colo.

Outra, ainda, envolve a apresentação, em favor da própria tese, de um argumento competente que com ela não se relaciona. A coisa fica assim: "Nossos cárceres são verdadeiras escolas do crime, que não reeducam". Esse argumento escamoteia dois fatos importantíssimos: o de que a ressocialização é apenas uma (e sempre a mais improvável) dentre as várias causas do encarceramento de criminosos e o de que o preso não entrou para a cadeia inocente e saiu corrompido. Foi fora da cadeia que ele se desencaminhou.

Por outro lado, a pena privativa de liberdade tem várias razões. A principal, obviamente, é a de separar do convívio social o indivíduo que demonstrou ser perigoso. A segunda, por ordem de importância, é a expiação da culpa (fator que está sendo totalmente negligenciado no debate sobre o tema). Quem comete certos crimes paga por eles com a privação da liberdade. Ao sair da cadeia, dirá que já pagou sua pena, ou seja, que já acertou contas com a sociedade. A expiação da culpa é o único motivo, de resto, para que nos códigos penais do mundo inteiro as penas de prisão sejam proporcionais à gravidade dos delitos cometidos. A terceira razão da pena privativa de liberdade é o desestímulo aos crimes de maior lesividade (função de eficácia incerta, sim, mas se as penas fossem iguais a zero a criminalidade, certamente, seria muito maior). Pois é a quase impunidade assegurada pelo Estatuto da Criança e do Adolescente que tem estimulado o uso de menores para a prática de muitos crimes.

O assunto é importante, bem se vê, mas pressupõe honestidade intelectual, porque a deliberação democrática fica comprometida quando o que se pretende é vencer o debate de qualquer maneira.

Percival Puggina

quarta-feira, 6 de maio de 2015

Rainha de um país que tornou sucata

A fuga de Dilma aos pronunciamentos virou chacota. Mas não foge por medo das vaias, foge por orgulho de quem se acha rainha, mas da sucata em que deixou o país.

A Dilma de 2015, para muitos, pode ser uma outra Dilma, fujona, não mais a "guerreira". É a mesma de sempre. Só que a anterior, debaixo de retoques de marketing, parecia quase uma heroína, para esconder o seu maior defeito: o orgulho.

É por orgulho que não quer se expor. Orgulho da ex-militante que chegou à Presidência, mas para isso teve que se cumpliciar com a mais criminosa das máfias políticas do país. 

Enquanto estava numa boa, com imagem de ministra e presidente desfraldada em bandeiras de lutas pelo povo, era fácil o sorriso, as bombásticas declarações. Dava-se a esse prazer com o empenho dos mistificadores, estava construindo uma biografia para, como quer seu partido, reescrever a história brasileira. E melhor se tivesse que aparecer como numa “Liberdade guiando o povo" (pintura de Eugène Delacroix). 

Mas os tempos mudaram e se nublaram. A imagem que sonhou para si na história é bem mais nebulosa, de cúmplice, de conivente. O orgulho não permite se expor a chacotas, a panelaços, ao humor da verdade dos humoristas.

Se acha acima do bem e do mal, quem não se permite a humildemente pedir desculpas por um desastre como levar ao fundo do poço o país. Prefere o silêncio dos onipotentes dos medíocres. Acomoda melhor seu orgulho continental, para quem, só deve ter aplausos, nunca apupos. É a Dilma de ontem e de hoje se achando melhor e maior do que qualquer outro cidadão. Ou melhor, é a Senhora de brasileiros e brasileiras, impávida.

A parasitagem oficial


Muito pior que a roubalheira, é a incompetência. A questão na Petrobras não é só roubar, é a gestão desastrosa. O que nos alivia é: embora tenham batido os recordes, talvez sejam incompetentes para roubalheira também.
O pior é que o PT reforça a vitória do atraso. Que sociedade é essa que você quer construir em que o sonho das pessoas se limita a, se for da classe média, passar em um concurso público; se for pobre, arranjar Bolsa Família; e, se for rico, conseguir uma "Bolsa BNDES"? Todo mundo passa a querer ser parasita do Estado. Não há país que dê certo assim.
Marcelo Madureira

Ó tempos, ó costumes!

Lava-Jato-STF
Essa exclamação de Cícero, filósofo e um dos maiores oradores romanos, feita na primeira Catilinária, a propósito da corrupção de seus conterrâneos, parece coisa do nosso tempo. Não existe outro assunto no país que não seja a corrupção endêmica que nos assola, e não é de hoje. Parece até que nossa história se confunde com a orgia do Império Romano dos tempos de Nero.

Depois da condecoração do terrorista Stédile, que deveria estar preso por subversão à ordem constituída, depois das pancadarias que acontecem sempre que determinadas classes trabalhadoras reivindicam melhorias em sua remuneração, depois de tantos escândalos no governo federal, que parecem decorrer permanentemente de um problema mundial que o profeta maior entendeu como uma “marolinha”, ouvi de pessoa séria e isenta que, se o terremoto que arrasou o histórico Nepal tivesse acontecido em Brasília, o Brasil teria saído “no lucro”.

Ladrões da operação Lava Jato, que se dizem inocentes com as caras mais lambidas e que já estavam presos, de repente conseguiram ser soltos por habeas corpus num incompreensível entendimento do sempre egrégio e místico Supremo Tribunal Federal. Depois dessa rebordosa, mais que nunca é preciso que haja mudanças em nossa Constituição, mas sem o golpe de Constituinte Especial ou Específica. O Supremo é órgão de controle de constitucionalidade e não pode perder tempo se preocupando com prisão de ladrões de galinhas, ainda que elas sejam de ouro. Talvez por causa disso o Supremo acaba por cometer erros como foi a soltura dos empreiteiros ricos: mandou abrir a porteira para os bandidos sem tomar conhecimento da Lei 12.403, de 4.5.2011, que deu redação ao art. 318 do Código de Processo Penal, nos seguintes termos: “Poderá o juiz substituir a prisão preventiva pela domiciliar quando o agente for: I- maior de 80 anos; II- extremamente debilitado por motivo de doença grave; III- imprescindível aos cuidados especiais de pessoa menor de 6 anos de idade ou com deficiência; IV- gestante a partir do sétimo mês de gravidez ou sendo esta de alto risco; Parágrafo único: Para substituição, o juiz exigirá prova idônea dos requisitos estabelecidos neste artigo”. Será que algum daqueles barrigudos está é grávido? Sei não, eu devo ser burro, ou não fui avisado... Ah, Joaquim, por que nos abandonaste?

E para terminar, parece que o ex-Luiz voltou a beber, se é que parou, como nos velhos tempos. Agora se diz bom de briga e quer brigar com quem o acusar de lobista das empreiteiras... Acho que ele ficou rico com o suor dos ricos. Depois que ele deixou a Presidência, durante este governo que ainda está aí, ele já fez mais de 120 viagens ao exterior, e quase todas em aviões de empresas homenageadas na operação Lava Jato. Mundo, mundo, vasto mundo... Não entre nisso, Carlos, continue dormindo como os brasileiros de boa-fé, já que todos estarão acordados e aí...

A renúncia ao poder

O único fator material indispensável para a geração do poder é a convivência entre os homens. Estes só retêm poder quando vivem tão próximos uns dos outros que as potencialidades da ação estão sempre presentes; e, portanto, a fundação de cidades que, como as cidades-estado, se converteram em paradigmas para toda a organização política ocidental, foi na verdade a condição prévia material mais importante do poder. 
O que mantém unidas as pessoas depois de ter passado o momento fugaz da ação (aquilo que hoje chamamos "organização") e o que elas, por sua vez, mantêm vivo ao permanecerem unidas é o poder. Todo aquele que, por algum motivo, se isola e não participa dessa convivência renuncia ao poder e torna-se impotente, por maior que seja a sua força e por mais válidas que sejam as suas razões. 
Hannah Arendt (1906 -1975) 
 

A ideologia petista cobra seu preço

Não há ideologia que resista à lógica dos fatos, ou que faça jorrar dinheiro no caixa do governo

Tornou-se rotina. A cada semana algum membro do governo anuncia novo passo atrás em questões adotadas por pura ideologia nas administrações petistas dos últimos 12 anos. A mania de reinventar a roda para se diferenciar do “neoliberalismo” dos tempos de FHC os levou a cometer desatinos: desorganizou modelos que estavam dando certo, levou à perda de credibilidade do país entre os investidores, condenou a infraestrutura ao atraso.


Um por um estão caindo os tabus petistas, símbolos de sua visão intervencionista e ideologizada da economia.

O modelo adotado na área de petróleo e gás, inclusive para o pré-sal, foi vendido como a redenção nacional.

Pois bem, agora o ministro das Minas e Energia anuncia que o governo “estuda flexibilizar as exigências de conteúdo nacional” e dá pistas evidentes de que o modelo de partilha subiu no telhado. Quando indagado se o próximo leilão do pré-sal, a ser realizado nas calendas gregas, se dará com as regras atuais, foi enigmático: “pode ser que sim”.

Podem apostar, vem aí outra flexibilização petista, como já defendeu o atual presidente da Petrobras.

De recuo em recuo, o governo Dilma Rousseff está dando a volta ao mundo, revendo o que fez como ministra das Minas e da Energia, quando comandou a mudança de concessão das usinas elétricas, que passou a ser pela menor tarifa, em vez da outorga onerosa.

Sim, Dilma está se rendendo ao modelo bem sucedido da privatização dos anos 90, que levou o PT a, de forma desqualificada, apelidar os tucanos de privatistas.

Não há ideologia que resista à lógica dos fatos, ou que faça jorrar dinheiro no caixa do governo. O que aconteceu no setor ferroviário é emblemático: estava prevista a privatização de 13 ferrovias através do modelo da menor tarifa. Caso houvesse prejuízo para os novos concessionários, a conta iria para o governo. Ou melhor, para o seu, o nosso bolso.

Mesmo com esta cláusula, sabem quantos quilômetros de estrada de ferro foram privatizados no governo Dilma? Nenhum dormente!

A meia-privatização, o intervencionismo, ou o estatismo disfarçado geraram outras pérolas. No caso dos aeroportos, o modelo dilmista impôs à iniciativa privada um sócio compulsório, a Infraero.

A estatal ficou detentora de 49% dos aeroportos privatizados, mas isto levou à sua descapitalização. Esse modelo será deixado de lado nas novas privatizações.

Por ingerência ideológica, o país perdeu uma chance de ouro. Poderia ter avançado na modernização da sua infraestrutura se o programa de privatização tivesse avançado quando o céu era de brigadeiro, quando o cenário econômico era extremamente favorável.

O ruim de uma política zigzagueante é que ela semeia desconfianças nos investidores. Quem lhes assegura que amanhã as regras do jogo não serão alteradas novamente?

Mas há outro risco tão ou quão danoso: necessitando de dinheiro desesperadamente, a privatização pode acontecer na bacia das almas.

Aí já não seria um erro. Seria um crime de lesa-pátria.

Reclusa no Palácio,Dilma não conseguiu ouvir o superpanelaço

Na noite desta terça-feira, o programa institucional do PT em cadeia nacional de rádio e TV, mesmo sem a participação da presidente Dilma Rousseff, provocou um superpanelaço no Brasil inteiro, mostrando que aumenta cada vez mais a desaprovação ao governo petista.

As pessoas nem ligaram para a declaração formal do presidente do PT, Rui Falcão, que plagiou Roberto Carlos para mostrar que daqui para a frente, tudo será diferente, com o partido se comprometendo a expulsar de suas fileiras qualquer petista que, ao final de um processo judicial, for julgado culpado.

A verdade é que as pessoas cansaram dessa conversa fiada de políticos que prometem uma coisa e fazem exatamente o contrário. A ainda presidente Dilma Vana Rousseff conseguiu terceirizar o comando da economia nacional e a articulação política, mas não tem como passar adiante a crescente rejeição a seu governo.

Para qualquer nação, é muito triste ter um governante (ou, no caso, governanta) que não pode sair às ruas ou aparecer na TV. Agora há pouco, na luxuosa solidão do Palácio da Alvorada, à beira do Lago Paranóa e distante de qualquer prédio residencial, a presidente Dilma assistiu ao programa do PT, mas não tinha como ouvir o maior panelaço da história mundial. Como nenhum assessor tem coragem de dizer a verdade a ela, que só saberá o que realmente houve se assistir aos noticiários de fim de noite na TV, que vão dar destaque ao superpanelaço.

terça-feira, 5 de maio de 2015

A ilusão política das grandes manifestações populares

Nisto de manifestações populares, o mais difícil é interpretá-las. Em geral, quem a elas assiste ou sabe delas ingenuamente as interpreta pelos factos como se deram. Ora, nada se pode interpretar pelos factos como se deram. Nada é como se dá. Temos que alterar os factos, tais como se deram, para poder perceber o que realmente se deu. É costume dizer-se que contra factos não há argumentos. Ora só contra factos é que há argumentos. Os argumentos são, quase sempre, mais verdadeiros do que os factos. A lógica é o nosso critério de verdade, e é nos argumentos, e não nos factos, que pode haver lógica.

Nisto de manifestações — ia eu dizendo — o difícil é interpretá-las. Porque, por exemplo, uma manifestação conservadora é sempre feita por mais gente do que toma parte nela. Com as manifestações liberais sucede o contrário. A razão é simples. O temperamento conservador é naturalmente avesso a manifestar-se, a associar-se com grande facilidade; por isso, a uma manifestação conservadora vai só um reduzido número da gente que poderia, ou mesmo quereria, ir. 
O feitio psíquico dos liberais é, ao contrário, expansivo e associador; as manifestações dos "avançados" englobam, por isso, os próprios indiferentes de saúde, a quem toda a vitalidade acena.
Isto, porém, é o menos. O melhor é que, para quem pensa, o único sentido duma manifestação importante é demonstrar que a corrente da opinião contrária é muito forte. Ninguém arranja manifestações em favor de princípios indiscutíveis. Tão pouco se aglomeram vivas em torno a um homem a quem é feita uma oposição sem relevo ou importância. Não há manifestações a favor de alguém; todas elas são contra os que estão contra esse alguém. É por isso este, não o "homenageado", quem fica posto em relevo. Quanto maior a manifestação, mais fraco está o visado; maior se sente a força que se lhe opõe. Toda a manifestação é um corro-a-salvar-te de quem não pensa contribuir para a salvação senão com palmas e vivas.

É este o ensinamento que toda a criatura lúcida tira das manifestações populares.

Quando a uma criatura, que está em evidência ou regência, se faz uma manifestação que resulta pequeníssima, conte tal criatura com o apoio dum país inteiro. Se a manifestação fosse grande, tremesse então. É que os seus partidários teriam sentido, por uma intuição irritada, a grandeza da oposição a ele, e isso os chamaria em peso para a rua, para, com suas muitas palmas e vivas, aumentar a ele e a si próprio a ilusão duma confiança que enfraquece.
Fernando Pessoa (1888 - 1935) 

Com toda certeza, hoje é o dia do maior panelaço do mundo

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Mesmo sem contar com a participação da presidente Dilma Rousseff, que pela primeira vez deixa de aparecer no programa do PT na televisão, está prevista para hoje a realização do maior panelaço do mundo, algo digno de ser inscrito no Livro Guinness de Recordes. O fenômeno político brasileiro é impressionante, porque o governo acaba de completar apenas quatro meses, mas seu prazo de validade se mostra mais do que vencido, o consumidor está revoltado e exige a devolução do produto.

A arrogante e presunçosa Dilma Vana Rousseff se transformou numa pálida lembrança daquela mulher que se julgava uma gerentona, capaz de conduzir este país aos rumos do desenvolvimento econômico e da justiça social. Hoje, a suposta doutorada em Economia não significa mais nada, foi obrigada a terceirizar o Ministério da Fazenda para um executivo do grupo Bradesco que nem constava da linha de frente da corporação, pois não integrava o Conselho Administrativo nem a Diretoria, e o nome dele não aparecia nem mesmo entre os executivos principais, estava no quarto escalão.

De fato, Joaquim Levy não é nenhuma sumidade e trabalhava apenas como gestor de um dos fundos de investimento menos procurados do Bradesco. Foi escolhido para o ministério apenas por ser o único que já tivera experiência governamental, como Secretário do Tesouro no início do primeiro governo Lula.

Depois de entregar a Economia ao inimigo do PT, Dilma Rousseff se viu obrigada a abrir mão também da articulação política de seu governo, que ficou a cargo do vice Michel Temer, que ela desprezou solenemente durante seu primeiro mandato de quatro anos. De repente, o veterano político paulista, que nunca foi bom de voto mas é mestre nos bastidores, passou a ser a solução para refazer a base aliada do governo.

Já se preparando para assumir o poder “in totum”, Temer vai embromando enquanto pode, porque sabe ter recebido uma missão impossível, porque ninguém acredita mais em Dilma Rousseff, seu tempo já passou e ela nem percebeu.

Realmente, o governo não tem mais salvação, respira por aparelhos, entrou em estado terminal e não há marqueteiro que dê jeito.

A presidente da República não pode mais sair dos palácios, está refém de si mesma nos quatro quilômetros que separam o Planalto e o Alvorada.

Para a família Rousseff, o final de semana prolongado foi um desespero. A presidente viajou para Porto Alegre, disposta a brincar com o neto e espairecer. Na sexta-feira, estava na casa do ex-marido quando foi surpreendida com um protesto popular do lado de fora. Preferiu ir para o seu apartamento, mas no dia seguinte a cena se repetiu, com outra manifestação. Dilma então pegou o Aerolula e voltou para Brasília, para reassumir o papel da pobre menina rica que vive em palácios, mas não pode sair às ruas.

O pior é que esta decadência é marcada por um repúdio que está se alastrando. No domingo, pela primeira vez nas últimas décadas, a abertura oficial da maior feira pecuária do país, a Expozebu, em Uberaba (MG), não teve a presença de presidente da República nem de governador do Estado. Dilma e Fernando Pimentel desistiram de comparecer. Mesmo assim, houve protesto contra o governo, com buzinas e apitos, cartazes e faixas pelo impeachment, mensagens contrárias ao PT e pedindo o combate à corrupção.

Hoje à noite o PT exibe na televisão o programa institucional do partido. Pela primeira vez, a presidente não participará nem será exibida qualquer imagem dela. O objetivo é evitar o panelaço que ficou acertado de ser feito toda vez que ela aparecer em rede nacional de TV.

Sonhar ainda não é proibido. Os dirigentes petistas podem sonhar o que quiserem. Mas o fato é que logo despertarão, tal o barulho do panelaço, que sempre se mistura com o buzinaço dos automóveis. Para os petistas, será um pesadelo que ficará para sempre marcado, porque nunca antes, na História deste país, se viu nada igual.

Anestesia sem cirurgia


Ando pelas ruas em busca de entendimento. Vejo que as pessoas não massacradas pela miséria estão pensando em alguma saída para o tornado de escândalos que se abateu sobre nossas cabeças. A crise destrói o país e muda nossas mentes e corações. Cada um leva consigo uma forma de melancolia. É a grande neurose nacional do “que fazer?” E diante de todos se ergue o mistério da solução remota.

Um dos grupos mais comuns é a turma do “precisamos”. Eles estão em botequins, em universidades, em jornalistas e comentaristas de TV, em táxis e passageiros. Eles dizem sem parar: “Precisamos de...”

“Precisamos mudar a realidade do país!” – mas ninguém sabe como. Ficou tão visível nosso entulho histórico de que “precisamos” fazer alguma coisa. Fazer o quê? Diante da muralha de impossibilidades, como destrinchar o sarapatel de crimes que se emaranham em um nó cego? Como dar conta das chicanas do Judiciário, dos cabelos implantados, das cabeças acaju e/ou asa-da-graúna, quem vai dar conta do cafajestismo dos donos do poder, quem punirá os conluios públicos e privados, quem vai dar dentes à população, quem vai destrinchar os aditivos de contratos, os ajustes fiscais negados por interesse pessoal, quem vai impedir os assaltos aos fundos de pensão? Quem fará? Ninguém sabe, mas nos abrigamos nessa esperança vã.

Andando, vejo que mais adiante estão os “lamentosos”, primos da turma dos “precisamos”. Os lamentosos choram pela grandeza imaginada e perdida, choram pelos sonhos que tinham para um país melhor. Sentem-se traídos pela história política, pela vida. E têm nisso um pequeno lucro: consideram-se bons, dignos sofredores, vítimas de uma grande conspiração invencível. Choram por si mesmos.

Na outra esquina encostam-se os “pessimistas de carteirinha”. São consolados por uma sabedoria desencantada, pois acham que as vacas já foram para o brejo, que já pulamos da beira do abismo e que “essa porra não tem mais jeito, não”. E afundam em deliciosa depressão.

Nos restaurantes e em apartamentos com vista para o mundo, gargalham os “profetas felizes”, a turma do “eu não disse?”. “Sempre falei isso, e ninguém ligava; agora esta bosta explodiu mesmo!” A zona geral lhes permite posar de profetinhas. E com desdém, com sorridente desgosto, pedem mais um uísque, felizes, orgulhosos por sua clarividência premonitória.

Nos bancos de praça e nos meios-fios encolhem-se os “fatalistas” com amarga paralisia conformada: “Tinha de ser assim, é assim que é, maktoub”, é a vida, o destino, que fazer? Tudo estava escrito. E eles suspiram, aliviados pela paz da submissão.

Em cantos escuros e becos, em beira de calçadas estão os descabelados, de olhos em pânico, ameaçados pela chuva ácida das notícias. São os que sofrem do “delírio de ruína”, em que tudo que era sólido se desmancha no ar. Caem pedras, caem cometas, caem horrores, caem o PCC, a fome, o Estado Islâmico, as cabeças degoladas, os homens-bomba, as mudanças climáticas – tudo se soma numa massa informe de problemas insolúveis. E ficam desesperados em meio aos escombros: “Estamos perdidos; o mundo acabou logo agora que eu estava melhor de vida. Só falta a terceira guerra mundial!”

E por cima deles, nos colóquios, nos seminários, nas universidades flutuam os discursos de análise política límpidos, a sociologia infalível, a orgulhosa ostentação da verdade. “Nós sabemos a verdade: podemos simplificar tudo em fórmulas quase matemáticas. Está tudo claro em nossas teses de doutorado. O problema é que o Brasil não se curva às nossas teses...”

Temos uma nova raça também: os “neo-antipetistas”, os caras que já sacaram que Dilma virou Judas em Sábado de Aleluia, querem sair fora e faturar uma neo-oposição para ganhar prestígio entre os que, antes, eles chamavam de “neoliberais”. Os pais desse movimento que se espraia são os dois presidentes do Congresso, tranquilos, apesar de acusados pela Justiça. É a maravilhosa tropa de ratos pulando do navio.

E o “pavilhão dos narcisistas”? Acham que a crise é contra eles. “Sabe o que mais? Não quero saber dessa merda toda, vou me fechar em mim mesmo, curtir a vida, graças a Deus tenho uma graninha para ir a Miami. Poluíram meus sonhos de plenitude; o país estaria salvo se fosse igual a mim...”

Temos, principalmente na academia, o bando dos “hegelianos do barulho”, que proclamam que tudo de ruim que acontece não passa de uma “contradição negativa” que nos levará a uma síntese de harmonia. Todos os crimes são o prenúncio de uma era de vitória do “geist”, do fim da história, da qual eles se acham os agentes. Não sabem que tudo que é real é irracional. São felizes – para eles, a desgraça é a véspera da luz.

Temos também os “saudosos de porrada”, que clamam pela volta da ditadura. Anseiam pelo simplismo verde-oliva, a solução na base do “bota para quebrar, tem mais é que fuzilar essa putada corrupta!”

Comum em motoristas de táxis e milionários indiciados pela Justiça.

Temos os corruptos indignados: “Que país é este?”, sem esquecer os “os enojados e os entediados”. Reclamam: “Ai, que horror, não consigo nem ver essa lama escrota, esse chiqueiro”. Ou: “Ai, que saco; não aguento mais denúncias de corrupção… coisa chata... nem leio mais jornais…”

Outra maravilha psíquica são os pelotões dos meio-intelectuais meio de esquerda, meio-artistas que veem toda a catástrofe em volta, mas continuam crendo nos slogans e delírios dos neo bolivarianos. É a multidão do autoengano, que não muda de opinião, a turma do “mesmo assim”: “Sei que está tudo uma bosta, mas, mesmo assim, continuo crendo na ideologia do lulo-socialismo”. É a fé: “Creio porque é absurdo”.

E temos o perigo da “pizza da sociedade”. Por causa do congestionamento dos escândalos, tantos que parecem uma enchente sem foz, a sociedade pode vir a se acostumar com nosso eterno erro histórico e, congregando os biótipos relatados acima, pode formar a intragável pizza da sociedade. Ou seja, como disse uma vez M. H. Simonsen, se essas neuroses permanecerem, seremos para sempre um país “com anestesia, mas sem cirurgia”.
Arnaldo Jabor

Impopularidade, indignação, rejeição e revolta

Por estratégia de sobrevivência, Getúlio Vargas, quando de sua segunda passagem pelo governo, a partir de janeiro de 1951, havia nomeado um ministério conservador, até reacionário. Para compor-se com as forças que não aceitaram sua volta ao poder, nomeou Horácio Lafer para a Fazenda e Ricardo Jafet para o Banco do Brasil. O primeiro dominava a economia paulista e nacional em nome dos ricos. O outro comandava os bancos privados em seu próprio nome e dos banqueiros. Por coincidência, um confronto entre a sinagoga e a mesquita, mas até que não se estranhavam tanto. Na Agricultura estava João Cleofas, usineiro de Pernambuco, inimigo da reforma agrária. Nas Relações Exteriores, João Neves da Fontoura, mais americanista do que qualquer inquilino da Casa Branca.

Segundo o magnífico livro recém-lançado sobre a vida de Tancredo Neves, do jornalista José Augusto Ribeiro, o então deputado por Minas era com frequência convocado para análises da conjuntura. Não teve receio de escandalizar o presidente dizendo que sua eleição o tinha caracterizado como líder de massas, mas seu ministério privilegiava os tubarões. Surpreso, Vargas reclamou que jamais alguém havia falado assim com ele, mas no fundo, concordou e mais tarde nomeou Tancredo ministro da Justiça.

Por conta das pressões de dentro e de fora, o velho caudilho praticava dois regimes de trabalho. Às tardes recebia os ministros, em escalas semanais que rotineiramente levava todos ao seu gabinete, para despachos. Só que pelas manhãs, em segredo, reunia no palácio do Catete, com gabinete ao lado do seu, uma equipe encarregada de formular grandes projetos nacionalistas e sociais que caracterizariam sua passagem pelo poder.

Romulo de Almeida, Jesus Soares Pereira, Cleantho de Paiva Leite e outros criaram a Petrobras, o Plano Nacional do Carvão, a extensão das leis trabalhistas ao homem do campo, a Reforma Agrária, a Eletrobras e tantas mais propostas imprescindíveis à nossa afirmação . Algumas não saíram do papel, dada a reação nacional e internacional contra nossa independência. Com os setores empenhados em destituí-lo do poder, Getúlio acabou optando por passar da vida para entrar na História como forma de protesto inusitado, sublime e eficaz. Graças a ele fincaram-se as estacas do progresso, muitas já erigidas em seu primeiro governo.

Por que se recordam aqueles idos dramáticos, parte da crônica ainda inconclusa do Brasil? Porque a lição a tirar é de que junto com a acomodação às forças dominadoras das elites, sempre será possível avançar no sentido contrário, em se tratando de governos representativos dos anseios da soberania nacional e da população.

Falta à presidente Dilma, como faltou ao Lula, essa equipe instalada na sombra, capaz de contrabalançar o jogo dos poderosos e conquistar os espaços necessários à plenitude do nosso desenvolvimento econômico e social. Se determinadas medidas favoráveis às elites são inevitáveis à sobrevivência até física dos governos populares, é preciso trabalhar no reverso da medalha, elaborando a verdadeira face do futuro. Coisa esquecida especialmente por Madame. Sem alternativa que não seja o assistencialismo necessário mas inócuo, estamos condenados à recessão e à paralisia como nação, trazendo como resultado a impopularidade, a indignação, a rejeição e a revolta. Porque faltam aos governos do PT iniciativas para contrapor-se ao aumento de impostos, à elevação de taxas e tarifas, ao sacrifício do trabalhador e dos assalariados, à redução de investimentos sociais, ao desemprego e demais maldades urdidas pelos mesmos de sempre.

Se eu fosse petista

Lutaria por uma verdadeira renovação doutrinária, e não por esse arremedo anacrônico constituído pelas “teses” das diferentes tendências partidárias e pela Resolução do partido

Se eu fosse petista, não adotaria uma postura esquizofrênica. De um lado, em seus momentos de responsabilidade, o PT levou a cabo uma prática social-democrata, que se assemelha aos governos social-democratas alemães ou ao trabalhismo inglês. De outro lado, o partido manteve inalterada a sua doutrina socialista, que retoma essencialmente o que era considerado como a concepção socialista/comunista do século XX. Na brecha desta esquizofrenia, foi introduzido o aparelhamento partidário do Estado, como se essa fosse uma espécie de terceira via de sua manutenção “socialista” do poder, da qual o seu fruto mais visível é a corrupção instalada no aparelho estatal. 

Se eu fosse petista, assumiria uma postura social-democrata, abandonando a fraseologia marxista e de conflito de classes. No governo, o PT, com nuances internas nos governos Lula e Dilma, adotou, na prática, uma política de tipo social-democrata, privilegiando programas sociais, dentre os quais o mais visível foi o Bolsa Família. Na mesma esteira, embora com apoio cubano, fez o programa Mais Médicos, visando a fornecer atendimento a populações desatendidas de municípios carentes. O programa Minha Casa, Minha Vida seguiu a mesma orientação, com o objetivo de prover habitação para as mais baixas faixas de renda. Do mesmo modo, fez o programa Minha Casa Melhor, com a finalidade de possibilitar a mobília e eletrodomésticos dessas mesmas moradias. 


Se eu fosse petista, faria o que fez a social-democracia alemã e o trabalhismo inglês. Diga-se de passagem que a direita seguiu o mesmo caminho no caso da democracia cristã na Alemanha e na Itália ou dos governos gaullistas na França. Não é só a esquerda que faz política social! O marxismo e o comunismo não lhe foram, neste sentido, de nenhuma valia, se considerarmos suas medidas sociais, próprias de governos inseridos numa economia capitalista. Ou seja, trata-se de iniciativas que são não só plenamente compatíveis com a economia de mercado, mas somente nesta podem se viabilizar, dada a riqueza proveniente da livre iniciativa e da liberdade de empreender, em relações regradas segundo as normas do Estado Democrático de Direito.

Se eu fosse petista, lutaria por uma verdadeira renovação doutrinária, e não por esse arremedo anacrônico constituído pelas “teses” das diferentes tendências partidárias e pela Resolução do partido. Acontece que o programa partidário está baseado na luta de classes, na tutela estatal, na intervenção da economia, no menosprezo ao lucro, no desrespeito ao direito de propriedade, no desprezo da democracia representativa e sempre colocando como objetivo final a criação de uma “sociedade” socialista no Brasil. Note-se que o PT jamais deixou de prestar solidariedade aos governos comunistas de Chávez, Maduro e dos irmãos Castro. Por mais que esses governos pisoteiem os direitos humanos que o PT diz representar, nenhuma crítica governamental nem partidária é a eles endereçada. Lembre-se que a ditadura cubana vivia das mesadas da União Soviética! Tudo, evidentemente, na visão deles é culpa do “imperialismo”, apesar de o comunismo soviético, em décadas do século XX, ter ocupado mais da metade do planeta. Sucumbiram esses países às suas próprias contradições. Fracassaram simplesmente.

Se eu fosse petista, não endeusaria Lula. Em seus governos, o PT jamais abandonou essas posições doutrinárias. O ex-presidente, por exemplo, teve uma política sistemática de apoio e financiamento de uma organização revolucionária como o MST. Deu sustentação a invasões de propriedades rurais, em um manifesto desrespeito ao direito de propriedade, algo muito próprio da esquerda revolucionária. Sustentou, embora sem sucesso, várias tentativas de controle da imprensa e dos meios de comunicação, por intermédio das Conferências Nacionais. Apoiou iniciativas de Conselhos Populares e Conferências, com o claro intuito de minar as bases da democracia representativa. Apoiou o aparelhamento partidário do Estado, tendo a corrupção do mensalão enquanto símbolo e legado seu. Aliás, foi também em seu governo que foram sentadas as bases do petrolão.

Se eu fosse petista, depuraria o governo Dilma de suas contradições. A presidente Dilma distanciou-se de algumas posições de Lula e do PT, sinalizando para uma renovação. Em seu primeiro mandato, procurou afastar-se da corrupção, tentando uma faxina ética em seu Ministério, não tendo, porém, conseguido sustentar essa posição. No que diz respeito ao MST, relegou essa organização revolucionária a uma posição secundária. Foi, ademais, defensora intransigente da liberdade de imprensa e dos meios de comunicação, não tendo levado adiante o projeto de “controle social dos meios de comunicação”, deixado por seu antecessor. Por outro lado, no que concerne aos conselhos populares tentou, com um decreto, fazer valer essa proposta revolucionária que solaparia as bases mesmas da democracia representativa. Sua recaída esquerdista foi manifesta. Seguindo, ainda, a mesma orientação de esquerda, seguiu as linhas de um capitalismo de compadrio com intervenção estatal crescente, cujo desfecho estamos hoje vivenciando com PIB negativo, inflação que estourou o teto da meta e juros estratosféricos. Agora, neste seu segundo mandato, volta-se para os ditos “movimentos sociais” que desprezara.

Se eu fosse petista, aceitaria as críticas e faria uma autocrítica. No que diz respeito à corrupção, o partido nega contra todas as evidências a sua participação. Afastou o tesoureiro Vaccari só após ele ter sido preso e ainda assim fazendo a sua defesa. No mensalão, considerou os seus artífices “guerreiros do povo brasileiro”, em uma clara afronta às nossas instituições republicanas. Pior ainda, o PT ataca essas mesmas instituições republicanas, como o Ministério Público, o Judiciário e a Polícia Federal, e a imprensa e os meios de comunicação, que são os pilares de uma sociedade livre.

Denis Lerrer Rosenfield