domingo, 16 de abril de 2023

Por que atacar escolas

Na crônica sombria dos serial killers americanos existe a figura do "copycat", aquele que imita criminosos precedentes. Noutro plano, mas na mesma esfera do crime, também se reproduzem em diferentes regiões os massacres aleatórios, com escolas como alvos preferenciais. Nos EUA são quase semanais, já alarmantes entre nós. Foi traumatizante o assassinato de crianças numa creche.

Ainda não se deu resposta satisfatória à escolha desse alvo. Escola, uma das matrizes da modernidade, é a forma, ao lado de outras (como nação, mercado), pela qual se incorporam saberes e se orientam cívica e profissionalmente os indivíduos. Com esta capa institucional, serve também de adaptação cognitiva ao modo de produção dominante. É dispositivo que metaboliza os parâmetros sociais de reprodução do sistema.

Mas escolarização é o processo interativo acionado pela forma cultural. Isso não se faz sem disciplina, o verdadeiro lastro ideológico da escola. O sociólogo e educador Émile Durkheim sustentava a ideia liberal de uma "autoridade regular" a quem caberia exercer a disciplina indispensável à moral, entendida como um sistema de hábitos e preceitos. Este princípio é indissociável da educação formal.

A isso se contrapõe a mídia contemporânea, cuja forma ideológica, essencialmente neoliberal, pauta-se por persuasão. Por mais que seus conteúdos editem apoios à educação e à ciência, ela é estruturalmente avessa à autoridade escolar. Evidencia-se na lógica do espetáculo e nas redes, onde jogos e anarquia informativa confirmam a crise disciplinar e exacerbam a hostilidade à educação moral.

Árdua é a competição junto aos jovens entre as formas disciplinares e as persuasivas. Estas últimas, com vantagem, guiam-se pelo individualismo neoliberal, cujos parâmetros concorrenciais do salve-se-quem-puder geram ansiedade, depressão e automutilação. Por outro lado, a escola, modelada no século 19 ao modo do controle disciplinar e do púlpito, é tanto objeto de afetos positivos como potencialmente virulentos, movidos pelo rancor.

Nos EUA e no Brasil, a organização carcerária cresce na gestão de corpos educacionalmente desamparados, mas fracassa em termos de reeducação e reintegração social. Nos dois países, cresce também a construção de realidades paralelas pelos sistemas de mídia. A ponte entre elas é o ódio, normalizado nos últimos quatro anos pelo discurso do bestialismo antiescola e anticultura: rastilho de contágio para massacres, já aceso por parte da sociedade eleitoral com o voto extremista. As redes sociais, onde ignorância empodera, são o novo espaço de desinvestimento das forças educativas. A mão que empunha a machadinha tem partido e plataforma digital.

O Brasil voltou! Para onde vamos?

Nestes 100 primeiros dias, Lula já prestou o imenso serviço de trazer o Brasil ao passado anterior a 2019, mas é preciso que acene para o futuro, sintonizado com o mundo adiante, tanto nos riscos quanto nos imensos desafios e oportunidades que surgem para o Brasil, o promissor depositário de recursos para a economia do futuro, baseada em dois capitais: população e natureza. Não temos outra liderança com a sensibilidade, carisma e capacidade de aglutinação do Lula, portanto, não podemos desperdiçar sua presidência apenas e voltar ao passado anterior, até porque o Brasil não estava bem. “O Brasil voltou” ao passado, mas precisa do slogan “o Brasil avança ao futuro”. Mesmo saindo do presente nefasto em que estávamos, voltar é um verbo conservador.

Apenas com o propósito de um passado menos mal que o presente não vamos construir a estrutura necessária para o futuro que desejamos e temos potencial: com eficiência econômica, equidade social, democracia política e sustentabilidade ecológica. Não basta o governo ser novo, ele precisa ser para os novos tempos adiante, com nossos principais recursos: os milhões de cérebros e a imensa biodiversidade que bem usados permitirão aumentar e distribuir a renda, abolir a pobreza, pacificar a sociedade, civilizar as cidades, dar bem-estar à população, oferecer sonhos e esperanças aos jovens.


Respiramos aliviados porque “o Brasil voltou” ao compromisso com a proteção do meio ambiente, mas não definimos como será o progresso sustentável, utilizando a riqueza da biodiversidade. Voltamos ao propósito do desmatamento zero, mas ainda não adotamos a ecologia como questão industrial. Nestes 100 dias, o governo não mostrou um Plano de Metas para a indústria do século XXI, baseada na ecologia e no conhecimento, a economia verde e digital.

Felizmente, Lula trouxe o país de volta do Auxílio Brasil para o Bolsa Família, mas não apresentou a estratégia de como e quando nenhum brasileiro vai precisar de ajuda para sobreviver. O Bolsa Família já tem quase 30 anos, desde que começou no governo do PT no DF; 20 anos desde que FHC levou para o Brasil; mais de 15 desde que foi transformado em Bolsa Família, em 2004, dois anos como Auxílio Brasil. Tomada isoladamente, essa transferência de renda reduz a penúria, mas não elimina a tragédia da pobreza. O futuro exige que esse programa carregue a semente de sua obsolescência, ao ser parte de uma revolução pela educação: a implantação de um Sistema Único Nacional Público de Educação de Base, com a máxima qualidade para todos, independentemente da renda e do endereço da família. Esse seria o rumo para a erradicação da pobreza de forma estrutural e não apenas conjuntural por bolsas e auxílios que os próximos governos poderão acabar por revogação política ou por desvalorização monetária.

“O Brasil voltou”, mas falta proposta de como, ao longo dos próximos anos e décadas de seu governo e dos seguintes, o Brasil vai elevar a produtividade, criar emprego, assegurar que todos terão acesso a água, esgoto, paz nas ruas, moradia, transporte público de qualidade. E a garantia de que isso será feito sem concessão à pior inimiga dos pobres: a inflação.

Em 100 dias não se constrói uma década, mas é possível sinalizar rumos e inspirar cinquenta anos. Graças a Lula, “o Brasil voltou” à democracia e recuperou antigos programas sociais, mas precisa definir para onde e como avançaremos a novos tempos e ambições.

Dois tempos

Agosto de 1955, Estados Unidos — foi sucinta a última recomendação da mãe de Emmett Till, de 14 anos, ao embarcá-lo para visitar familiares no estado sulista do Mississippi:

— Lá não é como aqui em Chicago. Você é um menino negro, não deve arrumar confusão.

Os tios que hospedaram o garoto curioso lhe fizeram advertência semelhante. Também os priminhos da mesma idade falavam em nunca chamar a atenção, mesmo em programas tão inocentes como sair para comprar doces. Foi numa noite daquele agosto escaldante que Emmett entrou no mercadinho Bryant, de propriedade de um branco, acompanhando o primo Curtis Jones. No caixa estava a mulher do dono. Os meninos fizeram a compra, saíram rapidamente e ainda estavam a fazer hora quando a sra. Bryant também saiu para pegar o carro. Um assovio atrevido, insolente, proibido cortou o silêncio e permaneceu no ar. Saíra da boca de Emmett.

— Ele não se deu conta do perigo — relatou depois em livro o outro primo, Simeon Wright.

Na manhã do dia seguinte, o dono do mercadinho e um irmão entraram armados na casa onde Emmett ainda dormia. Levaram o menino até uma camionete que os aguardava.

— É ele? — perguntou o dono.

— É — respondeu uma voz feminina de dentro do veículo.


Passados quatro dias, o que restava do corpo de Emmett foi encontrado no rio de uma cidade vizinha. Cabeça e rosto formavam uma massa desfigurada, monstruosa, de pouca semelhança humana. Emmett fora surrado, alvejado e amarrado com arame farpado antes de ser descartado. A história teria se encerrado ali, como tantas outras à época, pois os irmãos assassinos foram rapidamente absolvidos por um júri supremacista. Não foi assim. A história entrou para a História.

Mamie Till recebera os restos mortais de Emmett em caixão fechado, por via férrea. Ela sabia que o enterro em Chicago seria concorrido, por isso decidiu expor o amontoado de carne que um dia foi seu filho num caixão com tampo de vidro, sem retoques. O impacto sobre familiares, amigos, a comunidade negra e demais participantes foi irreprimível — documentários da época mostram desmaios, mulheres em agonia, outras tantas em choque. O amor e a tenacidade dessa mãe em dor fizeram mais. Mamie percorreu inúmeras redações de jornal pedindo que publicassem fotos do filho em vida, sorridente, junto à dele trucidado. De início, somente publicações negras em luta pelos direitos civis aceitaram. Mas a realidade acabou se impondo, e quem ainda hesitava em condenar o arcabouço racista da nação americana sentiu-se encorajado a entrar na luta. Historiadores consideram a caso Emmett Till, anterior ao caso Rosa Parks, o marco inicial da frente ampla que marcharia até conseguir mudar as leis segregacionistas uma década depois.

— Foi quase insuportável sentir o horror das pessoas ao ver meu filho [naquele estado] — declarou Mamie Till à época. — Mas pensei que a alternativa seria ainda pior. Desviamos o olhar da nossa cruel realidade por um tempo longo demais. Sem a exposição, ninguém acreditaria. É hora de o mundo ver o que eu vi.

Não só o mundo viu, como continua vendo. Em 2005, por motivos forenses, o corpo de Emmett teve de ser exumado e o caixão trocado. A família decidiu então preservar o caixão original e pensou em doá-lo a alguma entidade de direitos civis. Foi contactada por ninguém menos que o colossal Smithsonian Institute e, desde então, o artefato faz parte do acervo do Museu Nacional da História e Cultura Afro-Americana, na capital do país.

— Nunca imaginamos que chegaríamos a tanto — admitiu Simeon Wright à revista Smithsonian. — Visitantes do mundo inteiro vão poder saber por que aquele caixão está ali. E mães, pais ou algum curador haverão de contar a história (...) Quando ninguém faz nada para defender o Estado de Direito, a sociedade se destrói sozinha.

Abril de 2023, Brasil — na semana passada, dois casos registrados em vídeo conseguiram furar nossa acomodação ao cotidiano racista do país. No Rio de Janeiro, o entregador Max Angelo dos Santos, morador na Rocinha, não sabe como contar aos três filhos que foi chicoteado com coleira de cachorro por uma moradora branca de São Conrado. A troco de nada. Ou melhor, por ser negro.

— Complicado uma criança assistir a um vídeo desses, é bem pesado — disse.

A agressora, Sandra Mathias Correia de Sá, ex-atleta de vôlei, já o chamara de “marginal”, “preto”, “favelado” em ocasião anterior, apenas pelo fato de o entregador usar o mesmo espaço público — a rua — que ela.

Em Curitiba, a professora Isabel Oliveira, que fora a um supermercado Atacadão comprar leite para a filha, sentiu-se seguida no estabelecimento por mais de meia hora por um funcionário da casa. “Isso não pode ser normal”, pensou. E não aceitou. Resolveu usar o corpo negro como grito de afirmação. Com o testemunho do marido, que filmou a cena, retornou ao Atacadão, ali desnudou-se e entrou na fila do caixa vestindo apenas calcinha e sutiã, e uma pergunta rabiscada na própria pele:

— Eu sou uma ameaça?

A coleira que chicoteou o entregador Max poderia constar de algum museu do racismo no Brasil de 2023. O basta da professora Isabel aponta para um amanhã sem paciência com a grande perversidade nacional: o racismo.

quinta-feira, 13 de abril de 2023

Pensamento do Dia

 


Ódio acima de tudo


Não é um problema simples. O que está acontecendo nas escolas reflete o que está acontecendo na nossa sociedade, de estímulo ao ódio, à violência, ao armamento
Camilo Santana, ministro da Educação

Ricos em recursos naturais e socialmente pobres

A província mineral dos Carajás, um conjunto de serras situadas no sudeste do Estado do Pará, é a maior do mundo, uma benção que a natureza ofereceu a nós brasileiros. É rica em ferro, manganês, níquel, zinco, cobre, ouro, prata, bauxita, cromo, estanho, tungstênio e urânio. As jazidas de ferro constituem a maior reserva de alto teor desse elemento no mundo.

Até 1997 era explorada pela estatal Cia. Vale do Rio Doce (CVRD), um projeto que poderia ser a redenção do Brasil, tornando-nos um protagonista mundial na área mineral, além de possibilitar o desenvolvimento de uma indústria nacional. Na ânsia de privatizações do governo Fernando Henrique Cardoso, a CVRD foi vendida pelo ínfimo valor de R$ 3,3 bilhões, passando a denominar-se apenas Vale. Algumas fontes afirmavam que ela valia R$ 100 bilhões.

Não foi considerado o valor do potencial das reservas minerais, mas tão somente a infra-estrutura. Na verdade, entregamos de graça um patrimônio nacional dos mais valiosos – as reservas minerais –, ricas em elementos estratégicos para o desenvolvimento do País. Um verdadeiro crime de lesa pátria. Os governos do PT, assim como os que se seguiram, não tiveram coragem para rever a concessão dessas imensuráveis jazidas.

Mas a perda do Estado brasileiro com a venda da CVRD não foi somente econômica. A privatização dela marcou o fim do controle estatal sobre a mineração no País.

Em 2022, o valor de mercado da Vale alcançou cerca de R$ 452 bilhões. Nesse ano, a Vale registrou um lucro líquido de R$ 95,9 bilhões e, em 2021, R$ 121,2 bilhões. Em 2023, a Vale prevê produzir e exportar cerca de 320 milhões de toneladas de minério de ferro, 175 mil toneladas de níquel e 370 mil toneladas de cobre.

Os números são impressionantes, mas quase nada dessa riqueza gerada pela exploração dessas valiosas reservas minerais beneficiam os brasileiros.

Na realidade, Carajás constitui um enclave estrangeiro em nosso território. Infelizmente, o gigantismo e o impacto socioambiental do projeto Carajás não aponta para uma Amazônia e um Brasil justo, democrático, participativo e sustentável. Ao contrário, a extração dos minérios constitui um projeto para fora, que objetiva extrair minério local e transformar em riqueza para atender interesses alóctones.

O mais escandaloso disso tudo é que nós, brasileiros, por meio de nossos governantes, de ontem e de hoje, apoiamos a colonização de parte de nosso território, nos auto-condenando a sermos eternos exportadores de commodities, ao sabor do interesse dos mercados globais. Não se registra o mínimo esforço para fortalecimento de nosso parque industrial que, ao contrário, vem declinando nas últimas décadas.

Doamos nossos recursos minerais e as nossas terras férteis para serem explorados para atender demandas externas, transformando os produtos gerados em commodities de alto valor, que vão gerar emprego e renda nos países importadores. E ainda concedemos a eles isenções tributárias, subsídios e créditos facilitados.

Por força da Lei Kandir, os produtos primários e semi-elaborados destinados à exportação, a exemplo do minério, são isentos de recolhimento do ICMS. No caso do Estado do Pará, há ainda incentivos fiscais da Superintendência do Desenvolvimento da Amazônia (SUDAM) para empreendimentos instalados no território. Toda essa generosidade tributária faz com que a mineração contribua com apenas 6% da receita própria do Estado.

Não satisfeita com todas as benesses que recebeu do Estado brasileiro, a Vale ainda pratica uma possível evasão fiscal, que alcança cerca de R$ 6,0 bilhões anuais, segundo estudo do Instituto Justiça Fiscal – IJF. Isso decorre de um subfaturamento praticado pela Vale, ao simular a venda de minérios para uma subsidiária na Suiça. Daquele país os minérios são reenviados para China e Japão, ao preço do mercado. Ao declarar um valor menor, a Vale paga menos impostos no Brasil.

Na área do agronegócio, a situação não é muito diferente. Doamos nossas férteis terras para que um pequeno grupo de empresas produza commodities para o mercado global e deixem para nós a degradação ambiental do solo e das águas e um rastro de pobreza.

Também nesse setor, a riqueza produzida no Brasil fica nas mãos de um pequeno grupo. Recente pesquisa realizada pela revista Forbes aponta que da lista global de 2.640 bilionários 15 são do agronegócio brasileiro. O grupo é dono de uma fortuna que soma cerca de R$ 285 bilhões.

É preciso que exerçamos a soberania sobre os nossos recursos naturais.

O Estado tem que exercitar o controle para fazer com que a sociedade brasileira participe dos resultados gerados pela exploração de nossos recursos naturais, especialmente os minérios.

O sistema

Os funcionários não funcionam. Os políticos falam mas não dizem. Os votantes votam mas não escolhem. Os meios de informação desinformam. Os centros de ensino ensinam a ignorar. Os juízes condenam as vítimas. Os militares estão em guerra contra seus compatriotas. Os policiais não combatem os crimes, porque estão ocupados cometendo-os.

As bancarrotas são socializadas, os lucros são privatizados.

O dinheiro é mais livre que as pessoas. As pessoas estão a serviço das coisas.

Eduardo Galeano, "O livro dos abraços"

Após 100 dias de governo, celebremos a volta da civilidade

Estamos lendo, nestes dias, que o atual governo de Luiz Inácio Lula da Silva, ao contrário de outros governos, não conseguiu emplacar uma nova marca nos seus primeiros 100 dias. Bom, para começar, me parece mais adequado dizer que já se passaram mais de 160 dias de Lula 3, lembrando que ele assumiu logo depois das eleições, quando Jair Messias Bolsonaro, de birra, recusou-se a governar o pais. E foi melhor assim, pois até então vínhamos tendo um desgoverno.

Dizem que Lula só relançou seus antigos programas – como o Bolsa Família e o Minha casa, minha vida – e nada de novo. Bom, acredito que estes foram reativados não por falta de novas ideias, mas pela persistência de problemas antigos. Por outro lado, acho que Lula lançou sim uma nova marca: a da união e reconstrução. Pois encontrou um país desarrumado, uma administração desarrumada, com as contas públicas totalmente desarrumadas. Desde então, se esforçou para colocar ordem na casa – uma tarefa que ainda vai demorar muito para ser concluída.

Por outro lado, Lula encontrou um cenário completamente diferente do de seu primeiro governo. O ano de 2023 não é o de 2003. Falta o boom das commodities, que deixou o Brasil rico naquela época. Falta o entusiasmo da sociedade brasileira que, em 2002, elegeu Lula por uma ampla vantagem sobre um adversário "amigável", José Serra. Em 2022, o Brasil, violentamente polarizado, deu a Lula a vitória por uma margem mínima sobre Bolsonaro.


Outra grande diferença: o Congresso de 2003 não era essa bacia de tubarões famintos por emendas e orçamento secreto como o atual. Até agora, a real força de Lula no Congresso ainda não foi testada. Não sabemos o placar da briga entre Arthur Lira e Rodrigo Pacheco, não sabemos como o Centrão se rachará e quem ficará ou não na oposição. Em relação ao Congresso como um todo, só sabemos que há uma oposição bolsonarista que veio para gritar e tumultuar. E já a ouvimos.

E last but not least, Lula teve que enfrentar uma resistência violenta de golpistas, que culminou nos ataques do dia 8 de janeiro, em Brasília. Parece-me que os acontecimentos daquele dia até ajudaram Lula a desmontar o circo bolsonarista e juntar as forças democráticas num exorcismo político para expulsar os espíritos malignos. Por enquanto funcionou. Bolsonaro parece estar mais preocupado com seus processos na Justiça do que em lidar com a oposição.

De resto, economia e tal: "o mercado" já se tranquilizou com o esforço da equipe de Fernando Haddad em propor um caminho razoável para arrumar as contas. E Lula parece já ter entendido que bater de frente com Roberto Campos Neto para obrigá-lo a baixar a Selic não funciona. E que tampouco faz sentido comprar brigas desnecessárias com a turma de Sergio Moro. Ignorá-lo será mais saudável para o presidente.

Agora só falta ajustar a política externa, a meu ver. É preciso focar os pontos fortes do Brasil: liderar as negociações globais sobre políticas ambientais e o combate às mudanças climáticas. Se Lula realmente quer ganhar o Prêmio Nobel da Paz, que não mire a Ucrânia, mas os problemas na América Latina, onde o Brasil deveria assumir uma liderança. Aqui, Lula tem o lastro político para negociar o fim pacífico da ditadura na Nicarágua, ajudar Gustavo Petro a desarmar as guerrilhas na Colômbia, buscar uma solução para o caos no Haiti e lutar por avanços democráticos na Venezuela e em Cuba.

Gozo eterno e amplo: a banalização do esperma

O tema não compete ainda na mídia com a agenda de Lula na viagem à China, com a mudança da meta da inflação, e nem com a simulação do ataque dos chineses à Taiwan. Mas já é possível navegar em catálogos digitais como instruções sobre contratar barrigas de aluguel, fertilização in vitro, comprar ou vender sêmen humano com potencial para alterar estruturas familiares, a composição étnica de uma comunidade ou transformar as relações sociais no mundo. Em alguns países esses temas já são tratados em políticas públicas.

Instala-se vagarosamente no mercado uma rede internacional de comércio de órgãos humanos, da qual o Brasil participa, e que faz, por exemplo, do esperma humano um produto de consumo. Os bancos de sêmen, com fornecedores regulares, a preço que varia entre US$ 35 a US$ 80 por amostra, já movimentam por ano US$ 4,5 bilhões, com projeções para chegar a US$ 5,7 bilhões nos próximos quatro anos. Os clientes são casais inférteis ou aqueles que perderam entes queridos nesses conflitos bélicos internos e externos.

Concomitante, a ficção tem avançado muito para além disso, assustando quem toma dela conhecimento. O comércio de esperma, responsável pela reprodução humana artificial, trafega por um caminho tortuoso, em que inclui a formação até de combatentes do tipo robocop ou assemelhado. Sim, vale o ceticismo, mas não se pode esquecer que o imaginário de Júlio Verne envolvia viagens submarinas e aéreas, foguetes espaciais e outras tecnologias que só existiam na sua cabeça.


Nada disso devia ser novidade. Desde as alianças entre Deus e Abrão, essas questões já eram debatidas. Agar, serva de Sara, esposa de Abraão, com o consentimento prévio de todos, teve sua barriga usada pelo patriarca, e com ele gerou um primeiro filho, Ismael, provocando posteriormente um problema enorme nas relações familiares. Fugiu para o deserto, e lá encontrou Deus que mandou retornar para ter novos filhos com Abraão, por meio dos quais, prometeu, surgiriam grandes nações, que seriam os árabes. Por outro lado, assegurou à Sara dar-lhe também um filho, Isaac, do qual emergeria uma enorme descendência, proveniente dos gêmeos Esaú e Jacó, patriarca dos israelitas.

Embora o caso de Abrão tenha sido historiografado em relatos bíblicos, no livro de Gênesis, ele foi sacralizado por religiosos como uma evidência da existência e do poder de Deus, distinguindo o fato da vida cotidiana do homem comum. Mas, a roda da cultura gira e a civilização não para. Vai e volta, e a cada esquina se transforma. A mídia trouxe o tema para as telinhas, abrindo espaço para a retomada da questão na contemporaneidade. Enquanto desfrutava de plena autonomia, as televisões trabalharam esses assuntos em novelas e, pasme-se, até em programas de humor ácido.

Agora foi a vez da Folha de São Paulo, numa reportagem de Patrícia Figueiredo, levantar, numa viagem à Dinamarca, a questão da expansão do comércio de espermas humanos no mundo, assunto tabu ao qual vem a se somar à barriga de aluguel e, a alternativa moral da fertilização in vitro. Não escapa, entretanto, dos ficcionistas a ideia da formação, em um futuro não muito distante, de um exército de proveta, que lança nas frentes de batalha apenas as copias dos indivíduos reais ou outros gerados tecnologicamente em laboratórios, a exemplo da ideia do Frankstein.

Assim, enquanto meia dúzia de líderes políticos insanos enviam milhares de jovens para morrer brutalmente nas guerras, ignorando dramáticos apelos da sociedade e de seus familiares, as mudanças culturais vão vagarosamente fazendo a roda do tempo mover-se, e bater de frente com ética abrangente, que vai desde o respeito à vida humana, até às condenações religiosas e criminais. A masturbação ampla, uma dessas práticas decorrentes da comercialização do esperma, para algumas religiões é pecado, para determinadas sociedades é imoral; e o seu comércio é algo repugnante, considerado criminoso por segmentos mais conservadores.

Há, como se percebe, um retorno aos tempos de Abraão, que teve um punhado de filhos com a serva Agar, de tal forma que constituíram nações. Nas condições que vem sendo dadas nos dias de hoje, um único sujeito pode ser o pai também de milhares de filhos em vários países ou em um único ou em uma mesma comunidade. Daí a Dinamarca - um dos mais procurados - limitar em 200 o número de espermas de um mesmo sujeito a ser comercializado. Já se espera por um comércio clandestino. Num mundo em que o desemprego cresce, há centenas de pessoas sobrevivendo à custa da venda de sêmen: em agonia e gozo eterno.

A procura revela uma preferência, constatada pela repórter da Folha, pelo sêmen provenientes de alguns países - nórdicos, por exemplo -, e não em outros, expondo uma incubada tendência eugênica - coletividades humanas, baseada em leis genéticas - que ressuscita a ideia de uma raça melhor ou superior, tão em moda na ciência do início do século passado. Depois do napalm, da bom atômica e dos mísseis nucleares transoceânicos, nada impede a um dirigente maluco desses pretender mesmo constituir um exército de proveta ou de uma única raça. Hitler, copiado em diversas frentes, tentou isso.

Nos países da América, no Brasil inclusive, as escravas africanas deram muitos filhos aos patrões à força ou por submissão. Casos de barriga de aluguel não foram poucos, prática que não desapareceu totalmente com a Abolição. Estendeu para as mulheres brancas, as famosas polacas, mulheres imigrantes do norte da Europa. Cristino Gomes da Silva Cleto, conhecido como Corisco, o cangaceiro apelidado de” Diabo Louro", procedia de uma origem dessas.

Na expectativa de não se expor tanto, mais recente, mais de mil brasileiras contrataram serviços de clínicas de barrigas de aluguel na Ucrânia, para fertilização in vitro e, com a invasão russa, passaram a viver o drama de não poder ver os filhos, alguns em plena gestação e outros sendo criados por lá. Na Ucrânia existe uma política pública de barriga de aluguel. As famílias brasileiras, sobretudo aquelas que lidam com o problema da infertilidade, impedidas de entrar no país, chegaram a recorrer ao governo para ajudar a buscar os "nossos bebês...'"

Não se sabe exatamente quantas brasileiras estão com filhos em barrigas de aluguel na Ucrânia hoje, nem em quais clínicas. São ao todo dezesseis, e bastante procuradas por mulheres de todo o mundo. Essas coisas não devem espantar, porque um grande número de países tem avançado nessa direção. No Brasil, fornecer esperma ou barrigas de aluguel é possível desde que autorizada pela Anvisa. Em 2022 foram importadas por aqui 1.079 amostras de sêmen humano.

A tecnologia como descaminho

Uma das características da estruturação social contemporânea é o endeusamento da tecnologia e da automação que, sem linhagem cultural ou moral, vende a ideia de que seus produtos são cadinho glorioso a serviço da felicidade humana. Há coisas que a tecnologia implica, mas não inclui. Não sendo nem aristocrática nem popular, a tecnologia, como ordem deformadora, cavalga a sociedade como tormenta que inflama sem compensar a renovação que promete.

Chamar o artificial de inteligência prolonga de forma majestosa a conotação pejorativa da expressão. O labirinto desta inteligência degenerativa acelera o descaminho humano rumo ao viver à revelia numa época de derrota, medo e impotência. Devoradora da política, da cultura e da economia, a tara por algoritmo fará do cérebro um aterro sanitário, lixão onde a IA acumulará sua espécie de poluição plástica.

Comandando um poder sem igual na História, a inovação como aspiração nervosa por êxito imediatista e amoralidade do triunfo é automatismo sem origem e destino moral elevado. Podemos até supor que não há virtude em começar pobre e ficar rico criando tais invenções. Pois o modo de enriquecer que não exige virtude ou a ela leva não tem expressão moral. Êxito predatório que aumenta a arrogância, servidão, crime e individualismo.


A necessidade, como estado emocional de carência, é da categoria da vida psicológica e tem papel modesto na hierarquia das satisfações. Valoriza-la demais é entregar sua personalidade a aplicativos, aumentando a frustração, a dominação. A teoria da necessidade não deve ser associada à ideia da obrigatoriedade, pelo perigo de se instalar de forma opressiva na pessoa. Resistir a este abuso pode fazer o ser humano mais feliz.

A invencionice é mania velha que permite a falsificação de preferências. A moda do comportamento artificial se espalha como fato corriqueiro em que um especialista se acha mais importante do que o caso que analisa. Na medicina em que a ausculta do paciente não importa; na cirurgia plástica que faz o rosto sem alma; no juiz virtual locutor de sentença que não escreveu; na advocacia do pedigree que piora o caso para cobrar mais pela cara do cliente; na arquitetura que só sabe fazer projeto para foto de revista, e não moradia para conforto e convivência; e entre procuradores, os novos detetives, que simulam situações falsas para criar réu ilegal – são situações inventadas e desagradáveis.

A cobiça por degenerar voz e sentimento para comércio íntimo de signos faz da química do invencionismo doença, falácia dos sentidos. Oposto ao fato central na história dos povos, que desenvolveram por necessidade natural várias línguas, sem terem inventado nenhuma. Na indústria militar, cresce a ilusão da guerra limpa, como se matar a distância fosse eticamente superior a dar uma facada à queima roupa. Na espionagem, impera a obscenidade.

O abuso de tecnologias e robôs tira o ser humano do centro das decisões e torna o trabalho mera ferramenta que atrapalha. Na escada do progresso, benefícios financeiros não deveriam conter desejos superiores aos benefícios sociais. Diminuir custos, aumentar lucros e a produtividade sem se preocupar com a melhoria da performance e da criatividade humanas é tipo maléfico de automação, que pode produzir inesperados prejuízos. Nada será engenhoso se não puder ser controlado por humanos com capacidade de compreender, intervir e corrigir máquinas e sistemas tecnológicos. A escravidão tecnológica em curso amplia a manipulação da vida e tem sido uma grande fonte de ofensas, golpes e ações ilegais. Até nos conceitos filosóficos mínimos da boa educação, a ênfase e o uso abusivo dos sistemas autônomos contribuem para o indivíduo falar mal e se comportar pior.

A automação dá celebridade ao distraído, faz o mundo homogêneo sem ser coeso, amplia rotina, cria uma espécie de irresponsabilidade organizada sem sensibilidade pública. A interação artificial é bezerro de ouro que rouba da inteligência a faculdade de aprender e duvidar, cega a razão para onde derivam e convergem todas as coisas. A ética dos fundamentos da robótica anda a passos lentos. Quando perceber que adorar o bezerro é o caos, já terá criado a pessoa-pastel e o mundo às voltas com crimes frutos de tais invenções.

Considerar algumas invenções inúteis não é escândalo. No movimento da vida, nem todas as rodas precisam rodar. A boa necessidade contribui para diminuir o sofrimento humano, valoriza as coisas sem usar necessidades desnecessárias. É abjeta a invenção que quer instituir o mundo em bases inumanas. Tornar o diálogo silencioso, falar pelo outro, sem o outro, tornar o pensamento espúrio e o raciocínio insignificante são imprecações sem máscara.

Não é gênio quem ridiculariza a ética. Negócio sem poesia, a IA te empresta o barco para o afogar no mar. Nem alivia a tensão entre o real e o possível nem reconcilia sua utilidade com o elevado sentido da necessidade. Afinal, o que é mais sublime, a fé ou a descrença? Saturado até o tédio por tanta invenção idiota, ofereço minha dúvida na esperança de não ter razão.

terça-feira, 11 de abril de 2023

Pensamento do Dia

 


A normalidade voltou e foi antes de tudo para isso que Lula se elegeu

Há governos bons e ruins numa democracia. Nas ditaduras, de direita ou de esquerda, onde a liberdade é sua primeira vítima, todos os governos são ruins, embora alguns mais do que os outros.

Nós, jornalistas, deveríamos ouvir menos o que nos sopram as chamadas fontes de informação, e mais o que nos ensinam as pessoas para as quais escrevemos ou falamos.

Uma dessas pessoas, leitora do jornal Folha de S. Paulo, resumiu assim os primeiros 100 dias de Lula 3:

“Boa notícia: temos governo. Má notícia: é um governo mais ou menos. Está até melhor do que eu esperava. E ter um governo depois de quatro anos de desgraça é uma melhora.”


Acertou em cheio. Faltou governo nos últimos quatro anos de um presidente que só pretendeu destruir o que existia para pôr no lugar um arremedo de regime autoritário ao seu gosto.

Mas a verdade é que hoje temos governo e o pior parece ter ficado para trás. Ainda restam 1.365 dias ao governo do mais ou menos. Quem sabe ele não melhora antes de chegar ao fim.

Só os torcedores fanáticos esperavam que o governo anterior fosse capaz de melhorar. O país foi salvo pelas Simone (s) e os Alckmin (s) da vida que disseram: “Agora, chega! Basta! Fora!”

Em 100 dias, apesar da tentativa de golpe de 8 de janeiro, Lula entregou o que mais se esperava dele. Temos governo. Os Poderes da República atuam de maneira harmônica.

Todos os ritos institucionais estão sendo cumpridos. Os militares retornaram à caserna de onde jamais deveriam ter saído. A imprensa não se sente mais acuada nem destratada.

Profissionais de relevo com experiência em suas áreas foram alocados em postos importantes. O presidente responde às perguntas que lhe fazem sem discriminar entre os que o provocam.

De resto, trabalha e gosta de pegar no pesado. Cobra desempenho dos seus auxiliares. E não se nega a estar presente onde as pessoas tão somente querem ouvir uma palavra sua de consolo.

O Brasil saiu do isolamento em que se encontrava, e o mundo aplaude. A democracia foi preservada e a normalidade restabelecida. Agora, é seguir o jogo, respeitando-se as regras.

Fim dos tempos




No fim dos tempos, ainda haverá tempo para arrependimento? Ou o tempo do arrependimento é diferente do tempo do fim? O sujeito de olhar arregalado, como assustado e furioso na mesma medida, levanta, rígido, o cartaz imperativo: “É o fim. Arrependam-se!” e grita, em coro ao escrito, “arrependam-se!”.

E, se for o fim dos tempos, de que adiantaria arrependimento? Arrependimento só faz sentido antes do fim. Quando ainda há algo para ser diferente, num mundo que possa ser diferente por estar ainda longe do fim.

Mas o doido da rua tem razão? Ou é só doido? Ou é um daqueles doidos doídos? Que endoidou porque a vida lhe doeu demais. Com dor demais em pouco tempo. Doeu tanto, e tão sempre, que se a dor não acaba, ele tenta acabar com o tempo da dor. Com o tempo em que só há dor.

Se for doido assim, eu o entendo. Porque a vida dói mesmo. Tem aquelas dores que são só nossas. Dores privadas do nosso tempo, nossa vida particular. Que às vezes doem tanto que achamos que não vamos suportar. Que nosso tempo acabou, ainda que o tempo dos outros há de continuar. Mas, por mais dolorosas que sejam, passam. Sempre passam porque o tempo delas é tal que só dura o tanto que a gente não muda de vida para sofrer de outros jeitos. Naco de vida doída, que dura a extensão do naco de tristeza que a vida ou os outros que atropelam nossa vida nos arranjam.


Mas há outras dores. Diferentes porque não são só da gente. Doídas também, só que de um jeito diferente. São as dores da absurda tristeza, da estupidez grotesca, do egoísmo violento, do mal absoluto, absolutamente presente nas nossas fraquezas. Principalmente nas fraquezas de quem só enxerga fraqueza nos outros.

São dores do mal, que só vemos como tal quando se mostra cru. Na sua triste obra. Nas machadadas em cabeças de crianças que mal tiveram tempo de vida para entender o mal que há nesta vida. Mal que nos mostra que ninguém é tão novo, puro ou inocente que não possa sofrer do mal dos outros.

Crianças, quase bebês, mortas dentro de escolas. As mesmas que são alvos da fúria de idiotas que nelas veem lugar de doutrinação e não de educação. Gente que, certamente, não teve educação suficiente para saber que educar e manipular não são a mesma coisa. Por isso, não querem educar, só mandar, exigir ou tomar. Porque não sabem conversar.

Crianças são o futuro. Escolas são lugares de se construir o futuro. Quando uma sociedade toma as escolas como alvo dos seus ódios ideológicos, morais ou somente loucos, é porque tenta destruir o futuro que há nelas. Porque não quer o futuro que há nelas. Não quer a vida e o libertário que há nelas. Só a toleram se não houver libertação. Se houver alienação. Se não houver educação. Gente boçal não quer futuro. Quer o fim de tudo. Quer o fim dos tempos.

Talvez, o doido não seja doido. Talvez, estejamos mesmo no fim dos tempos. Não porque a corda do relógio do tempo tenha acabado, mas porque tem tanta gente ocupada demais com as próprias mesquinharias que não sobra quase ninguém para dar corda no relógio do tempo que a gente ainda tem.

100 dias de civilidade

A erosão democrática precisa da nossa preguiça. Precisa de nossos juízos apressados, nossas comparações do incomparável, nossos vícios de perspectiva, nossos erros de categoria e de análise. Precisa de memória atrofiada, de curto e de longo prazo.

O programa de autocratização do governo Bolsonaro pediu que confiássemos no "risco-zero" da democracia e na promessa de que esse regime "modera" sociopatas. Pediu que os poderes "dialogassem" dentro das "quatro linhas" sob "moderação" das Forças Armadas.

Jornais hesitaram em usar as palavras certas para reportar o que viam. Extremistas eram "manifestantes", mentir equivalia a "declarar", delinquência se parecia com "polêmica", violação passava por "excesso", crime por "controvérsia jurídica".

Tentaram assegurar voz ao "outro lado", mesmo que esse lado fosse imune à experiência sensorial da Terra redonda e do vírus, ou à experiência moral da violência e da indignidade radical. Tudo em nome de um pluralismo às cegas que vai corroendo as condições de possibilidade do próprio pluralismo. De uma tolerância sem critério que vai exaurindo a sustentabilidade da tolerância.

Cientistas políticos e juristas observavam a paisagem de instituições mal funcionando e davam baforadas antialarmistas de seus gabinetes. Depois que Bolsonaro perdeu a eleição, um prêmio que a fortuna nos reservou, celebraram o acerto do prognóstico. Contudo, não foram essas pílulas tranquilizadoras que nos salvaram, por enquanto, do pior.


Os três meses de governo Lula já nos deram amostras do que a análise política brasileira pode fazer. Lula faz críticas ao Banco Central. Aparece o economista e contrasta com as ameaças feitas por Bolsonaro ao STF. Lula especula, de modo pouco responsável, armação do juiz que o condenou ilegalmente à cadeia. Aparece o texto para gritar que "se iguala ao pior do bolsonarismo e suas teorias da conspiração". Governo Lula patina no trato com o Congresso. Está "sem rumo, sem agenda".

Nesses três meses, o governo federal voltou a cumprir decisões judiciais que vinham sendo ignoradas por Bolsonaro (terras indígenas, por exemplo). Cumpriu a lei e implantou programa de dignidade menstrual, ignorado pelo anterior. Revogou decreto de armas. Produz normas para combater o garimpo ilegal e o tráfico de ouro. A sociedade civil tem sido recebida em ministérios. A ciência, a docência e a cultura voltam a experimentar liberdade e recursos.

Melhor começar a perceber as diferenças comensuráveis e incomensuráveis com os últimos quatro anos. Melhor refinar a escala de indicadores, porque a ligeireza das comparações custa caro.

Nossa dificuldade de reconhecer e sancionar a enormidade de Bolsonaro tem história: o plano terrorista em 1987, a defesa de fuzilamento de Fernando Henrique nos anos 90, o elogio a torturador confesso em 2015, o "vai pra ponta da praia" em 2018, o "não sou coveiro" e "filmem as UTIs" em 2020, o "não vou obedecer" em 2021, as interferências no processo eleitoral em 2022, o 8 de janeiro de 2023. E a holística corrupção familial.

Em seu governo faltou oxigênio, não só para a respiração pulmonar. Não se respirava nem a expectativa de segurança existencial. Não se respirava futuro, apenas medo do futuro sob a liderança de quem ascendeu sob a promessa de exterminar desafetos e suprimir minorias.

Quando o bolsonarismo deixar a violência e o ataque às liberdades, como desejou editorial desse jornal, deixa de ser bolsonarismo. Vira outra ontologia. Bolsonaro não liderou um governo, uma racionalidade institucional, uma política pública sequer. Foi capaz de realizar nada exceto a política de liberação, negação e agressão. Como poderia liderar uma oposição?

Não há razão para aliviar a crítica justa ao governo Lula. Há razão para fazer crítica ainda mais dura, quando cabível. Desde que se tenha consciência de qual o valor em jogo. Porque crítica justa precisa ter um horizonte normativo e histórico. Um norte e um sul.

Em 2003, Lula tinha desafios para a continuidade de um governo do PT e de políticas públicas inclusivas. Em 2023, Lula tem desafios de continuidade democrática. Vinte anos atrás, erros custariam o governo. Erros, agora, podem custar o regime.

O resgate da civilidade e da normalidade possíveis, nesses cem dias, e o esforço de reocupar com competência burocrática um Estado vandalizado pela delinquência autocrática, não podem ficar de fora de qualquer balanço.

O Testamento verde-amarelo do Judas


1.
Sou Judas Iscariotes / apóstolo do Rei dos reis
Deixo aqui meu testamento / com o que lego pra vocês.

2.
O remorso me consome / mas quero me redimir
Preciso limpar meu nome / Os meus bens vou repartir.

3.
Ao Lula presidente / tremendo cabra da peste
Lego esse Abacaxizão / com as urnas do Nordeste.

4.
Pro Messias fake deixo / minhas heranças malditas
Trinta moedas de prata / E todas as joias sauditas.

5.
As joias que eu escondi / vou separar com cuidado
Dou o colar pra Micheque / e meu anel para o gado.

6.
Detesto mimimi, talkey? / prefiro gente raçuda
Anderson Torres te deixo / uma cela lá na Papuda.

7.
Pro Exército eu deixo / a prótese peniana
Pro Imbrochável, viagra / e depilação pubiana.

8.
Muito leite condensado / picanha e cloroquina
Às filhas da milicada / pensão de gorda propina.

9.
Ao Braga Netto general / puxa-saco de um capitão
Pra pintar o meio-fio / deixo cal, brocha e demão.

10.
Chico Vigilante herde / o meu beijo de veneno
Na CPI dos golpistas / beije o general Heleno.

11.
O código do Sinédrio / lego ao Supremo Tribunal
Para que possa desarmar / essa milícia digital.

12.
A tal minuta do golpe / ao ministro Xandão deixo,
Pra enjaular bolsominions / com a bolada no queixo.

13.
Para os Tchutchucas do Centrão / com o caráter oxidado
Lego o remorso e o laço / no galho dependurado.

14.
Pro neto do Bob Fields / o Bob Fildinho venal,
Deixo minhas 30.000 moedas / com juros do Banco Central.

15.
Lego o verbo feito carne / verve e fluência sabida
Pro Flávio Dino aniquilar / marrecos e “conjes” da vida.

16.
Quem açoitou Jesus Cristo / e mandou matar Marielle
O chicote do Calvário / lego a quem os interpele.

18.
Ao Wilson Lima vixe-vixe / Alô Amazonas Alô
Deixo uma adega de vinhos / repleta de ventilador.

19.
O Bosco Saraiva sabe /que quem não chora, não mama
Pra quem já foi algemado / deixo o cofre da SUFRAMA.

20.
Não tens vergonha, sua besta / covarde batendo em mulher
Lego ao juiz de Guarulhos / o inferno com Lúcifer.

21.
O Gabinete do Ódio / armou a mão com machado
Para matar criancinhas / que hediondo pecado!

22.
Para a Mater Dolorosa / das crianças de Blumenau
O meu pranto entristecido / nem eu faria tanto mal.

23.
Aos moradores de rua / que o prefeito removeu
O Lancelotti de Sampa / deixo-lhes Simão Cirineu.

24
A queda do céu Yanomami / e a Mãe Terra ferida
Com a expulsão do garimpo / deixo a vitória da vida.

25.
Para Sônia Guajajara / longe vá, temor servil
A Ressurreição é um fato / renasce o novo Brasil.

26.
No domingo de Páscoa volto / Pra onde perdi as botas
Assustado com o Brasil / de fascistas “patriotas”.

27.
Agora regresso ao inferno / Lá tá melhor do que aqui
De qualquer forma desejo / Feliz Páscoa Taquiprati.

segunda-feira, 10 de abril de 2023

Brasil que sobrou

 


Um nome para o inominável

Retornando ao país com o fardo escandaloso das muambas sauditas, o inominável vem ao encontro de um nome insólito, mas que lhe cai como uma luva: cambalacho. A história de fundo é musical. Pouco antes da Segunda Guerra, "Cambalache", um tango de Enrique Discépolo na voz de Carlos Gardel, proclamava (em lunfardo, claro, a pitoresca gíria portenha) "que o mundo foi e será uma porcaria, eu já sei".

Cambalacho é o mesmo que embuste, trapaça. Nesse tango, a modernidade liberal é cantada como história da credulidade dos incautos, um "mesmo lodo em que todos metem a mão". Daí "hoje em dia dá no mesmo ser direito que traidor / Ignorante, sábio, besta, pretensioso, afanador / Tudo é igual / Nada é melhor".


Esse faiscante deboche composto para divertir dá muito a pensar sobre fenômenos correntes como a crise da democracia liberal e seus reflexos nada divertidos em países como o Brasil. Para o sul-africano Achile Mbembe, em seu livro "Brutalisme", a grande ameaça está no fato de que "um número crescente de homens e de mulheres não querem mais pensar e julgar por si mesmos. Muitos preferem, como ontem, delegar essas faculdades a outras entidades, até mesmo a máquinas". Daí o paradoxo: quanto menor fica o mundo físico pela tecnologia, mais distante é o horizonte do mundo comum.

Nessa linha, o cerne da crise está na ausência do discurso vivo, isto é, compartilhado no diálogo, centrado no direito, na moralidade e nas ideias de autonomia. A falência da razão crítica abre caminho para o deboche. Junto com a fragmentação acelerada do corpo social, fenecem os poderes de autolimitação e diferenciação das palavras. Como no tango, "tudo é igual".

Paradoxalmente, a morte do vigor da fala é a força da vida digital ativa. O que se compartilha não é mais o substrato do diálogo, e sim a atenção dispensada por homens ou máquinas aos efeitos digitais. O falatório mistificador é tanto efeito de falsificação da língua quanto meio de se embair a boa-fé do interlocutor. É o cambalacho operativo.

Sem o lastro do sentido e das palavras, as ações decorrem de ímpetos sem razão, respeito ou limites. Mas entre fala delirante e atos destrutivos há um fio lógico: a delegação de pensar a Outro, um monstro de milhões de cabeças, que também não pensa: as redes sociais. Este, o espaço tecnológico para o embuste, capaz de eleger dirigentes, como no tango, "problemáticos e febris". É que "na vitrine desrespeitosa dos cambalachos / se misturou a vida", diz a profecia cantada. E assim o inominável, vazio de sentido e pleno de fraudes, se faz nome pelo beato útil do Evangelistão ou pelo freguês iludido. Em lunfardo ou em português, há uma mesma palavra para ambos: otário.

O totalitarismo escópico

O mundo digital jogou a humanidade num novo tipo de totalitarismo. Não há outra palavra para definir a relação entre a massa de bilhões de seres humanos e os conglomerados monopolistas globais, como Amazon, Apple, Meta (dona do Facebook e do WhatsApp) e Alphabet (dona do Google e do YouTube), sem falar nas chinesas.

As pessoas não sabem nada, absolutamente nada, sobre o funcionamento dos algoritmos que controlam milimetricamente o fluxo das informações e das diversões pelas redes afora. Na outra ponta, os algoritmos sabem tudo sobre o psiquismo de qualquer um que acesse um computador, um celular, um tablet ou um simples reloginho de pulso, destes que monitoram exercícios físicos, batimentos cardíacos, pressão arterial, passos e braçadas. Estamos na sociedade do controle total – controle totalitário.

O mais espantoso é que esse controle só se viabiliza graças à docilidade contente das multidões. Em frêmitos de excitação exibicionista, elas escancaram suas próprias intimidades para as máquinas. Em seguida, não satisfeitas com o furor do exibicionismo, entregam-se ao voyeurismo cavernoso para bisbilhotar a vida alheia. Olhando e sendo olhadas, trabalham feericamente a serviço do imenso extrativismo de dados pessoais, que, depois de capturados, são comercializados a preços estratosféricos.

Você não acredita? Pois deveria acreditar. De onde você acha que vem o valor de mercado dos conglomerados? Resposta: vem da captura (gratuita) e da venda dos dados pessoais das multidões. O mundo digital conseguiu a proeza de instaurar uma ordem de vigilância total, em que todos vigiam todos e ainda por cima se deliciam com isso. E quem sai ganhando no fim das contas? Sim, eles mesmos, os conglomerados – ele mesmo, o capital.

Chega de ilusões otimistas. Um pacto de convivência em que os algoritmos enxergam tudo e mais um pouco das privacidades individuais, enquanto os indivíduos nada enxergam dos algoritmos, que são o centro do poder digital, só pode ser chamado de pacto totalitário.

Hannah Arendt ensina que a adesão de todos é uma das marcas distintivas do totalitarismo. Ela viu que, no nazismo e no stalinismo, cada cidadão se apressava em agir como um funcionário da polícia política e delatava até mesmo os familiares. Hitler e Stalin contavam com os préstimos voluntários das pessoas comuns para dizimar dissidentes. “A colaboração da população na denúncia de opositores políticos e no serviço voluntário como informantes”, escreve a filósofa em Origens do totalitarismo, “é tão bem organizada que o trabalho de especialistas é quase supérfluo”.

No totalitarismo descrito pela grande pensadora, o medo impele toda gente a obedecer. Hoje sabemos que o medo não age sozinho. Além dele, existe a paixão: as massas nutrem um desejo libidinal pela figura do líder. “Sede de submissão”, nas palavras de Freud. Há um prazer inconfessável na servidão.

No totalitarismo dos nossos dias, o medo dominante é o medo da invisibilidade. É por aí que o poder dos algoritmos aterroriza todo mundo. Quanto ao desejo, este se manifesta como um arrebatamento imperioso que leva um adolescente a matar e morrer em troca de um instante de holofote sobre o seu nome e sua fotografia. A tara extremada por algum contato, mesmo que remoto, com as estrelas que reluzem nos palcos virtuais leva à sujeição total.

Que o trabalho escravo aflore neste universo de gozo e pânico não surpreende. As pessoas, carinhosa e cinicamente chamadas de “usuárias”, trabalham de graça para as redes. Dedicam horas e mais horas de seus dias plúmbeos para abarrotar as plataformas com seus textos, suas imagens, suas musiquinhas prediletas, seus áudios e suas misérias afetivas. E é precisamente o produto desse trabalho – escravo – que atrai bilhões de outros “usuários”. Os conglomerados não precisam contratar fotógrafos, cantores, atrizes, redatores, jornalistas, nada disso, pois já contam com seus adeptos fanatizados e escravizados. Nunca, em toda a história do capitalismo, a exploração do trabalho – e dos sentimentos – chegou a níveis tão absurdos.

Não surpreende, também, que a propaganda da extrema direita antidemocrática se saia tão bem nesse ambiente. O totalitarismo das redes repele o discurso da democracia com a mesma força que impulsiona mensagens autocráticas. É óbvio. A política democrática precisa de homens e mulheres livres, que tenham autonomia crítica e valorizem os direitos. Esses estão em baixa. A autocracia é o contrário: só se alastra entre grupos violentos, inebriados pelo ódio e impelidos por crenças irracionais, que estão em alta.

Como o totalitarismo dos nossos dias se tece pela exploração e pelo direcionamento do olhar, deve ser chamado de “totalitarismo escópico”. O olhar é o cimento que cola o desejo de cada um e cada uma à ordem avassaladora. Se queremos uma regulação para enfrentá-la, devemos começar por exigir transparência incondicional dos algoritmos. É inaceitável que uma caixa preta opaca e impenetrável presida a comunicação social na esfera pública. Mais que inaceitável, é totalitário.

Sob o domínio do improviso

É sempre assim. Do vandalismo golpista de 8 de janeiro à mortandade de Ianomâmis, da seca aguda às enchentes que desabrigam e matam, da violência que pôs o Rio Grande do Norte de joelhos frente ao crime organizado aos brutais assassinatos dentro das escolas, todas as ações governamentais – ainda que necessárias – são improvisos. Não se trata de um problema restrito ao Lula 3, que amanhã chega aos 100 dias. Tampouco ao presidente anterior, cuja missão foi destruir. Sob qualquer batuta, o Brasil só funciona em estado de emergência.

Sem planejamento e políticas públicas estruturadas e contínuas para enfrentar desafios conhecidos, o país se move pelos ditames da urgência.

Todo mundo viu as portas dos quartéis se enchendo de radicais e ninguém nada fez para evitar o pior. Gastam-se fortunas para amenizar calamidades e pouquíssimo para preveni-las. Montam-se grupos de inteligência e ações emergenciais cujos resultados, mesmo quando espetaculares, dificilmente são postos em prática. Não raro, são mais dinheiro e energia perdidos.


Estudo técnico da Confederação Nacional dos Municípios, com dados computados até março deste ano, aponta que só com secas e chuvas o país amargou perdas de R$ 401,3 bilhões no período de 2013 a 2023. Na década, esses “desastres naturais” atingiram mais de 380 milhões de pessoas – quase o dobro da população brasileira, demonstrado a reincidência dos danos, boa parte deles preveníveis.

Na outra ponta, os investimentos do governo federal em prevenção caíram vertiginosamente de R$ 3,4 bilhões em 2013 para R$ 1,17 bilhão em 2022, sendo que apenas 38% dos recursos foram realmente pagos, ou seja, menos de R$ 600 milhões, segundo o site Contas Abertas. No início desse ano, só para socorrer o Litoral Norte de São Paulo, o governo despendeu R$ 120 milhões. Emergencialmente. No final do ano e no início do próximo, certamente, as calamidades vão se repetir.

A superlotação de presídios e as condições subumanas nas quais os detentos – por piores que sejam – são submetidos é de conhecimento geral há décadas. Assim como o poder de mando dos chefões do crime organizado sobre o sistema penitenciário. O vice-presidente da República Geraldo Alckmin sentiu isso na pele quando governava o estado de São Paulo e se viu enredado por rebeliões. Não há governador que desconheça a precariedade de suas cadeias e o caldeirão ao ponto de ebulição delas. No entanto, elas só chamam a atenção quando explodem. Vem a verba emergencial – R$ 100 milhões no caso do Rio Grande do Norte – e pronto. Até que outro estouro aconteça.

Nos Ianomâmis, o caso tem outras vertentes de gravidade. Suspeita-se de genocídio do governo anterior, estimulador do garimpo ilegal e nada afeito às comunidades indígenas. Ainda assim, o descaso com esses povos é histórico. As soluções pulam de emergência em emergência – e estamos enfrentando mais uma – sem que o país consiga desenhar políticas um pouco mais duradouras.

Até para tentar minimizar a miséria, o improviso impera. A proposta de auxílio emergencial do governo Bolsonaro durante a Covid-19 era de R$ 200. Acabou em R$ 600 por pressão do Congresso, valor estipulado também para o finado Auxílio Brasil. Lula recuperou o Bolsa Família, trazendo de volta as bem-vindas contrapartidas como a exigência de vacinação das crianças. Sabe-se lá a partir de qual conta ou parâmetro, os R$ 600 foram mantidos, com acréscimo de R$ 150 para filhos de zero a seis anos e de R$ 50 para filhos de 7 a 18 anos.

Que o Bolsa Família é necessário ninguém discute. A questão de fundo é outra: o benefício foi definido pela emergência eleitoral e não a partir de critérios técnicos que dêem embasamento à quantia paga. Está, portanto, sujeito aos humores do governo da vez.

De urgência em urgência o Brasil gasta muito e entrega pouquíssimo. Novas enchentes virão sem que as encostas que caem sobre casebres tenham sido contidas e esvaziadas, sem que habitações mais seguras e dignas tenham sido construídas. Novas rebeliões em presídios, novos horrores entre as comunidades indígenas, novos ataques mortais em escolas – emergencialmente socorridas com R$ 150 milhões e a criação de um grupo de trabalho interministerial.

Deve-se aplaudir a rápida ação do governo Lula diante de calamidades e urgências. Mas é inadmissível – e cruel – transformar emergência em política pública. O país não pode continuar a ser condenado às leis do improviso.

Pó





Sendo uma bola de pó feita de restos humanos, não deixa de ser irónico que o que varremos é a nossa própria morte, a morte que nos vai acontecendo todos os dias, que se deposita nos livros, nos móveis, debaixo da cama, no soalho, pois é, como escreveu Yuri Al’Hanati, em A volta ao quarto em 180 dias, “um amontoado de pedaços de pele, caspa, pelos que caíram do corpo, poeira dos móveis e das paredes e chumaços de tecido”, que se agrupa seguindo as mesmas leis das galáxias ou das moléculas.

A questão é que essa bola se forma porque somos um processo e não um fim, ou melhor, a vida é um adiar do fim, e um dos processos de procrastinar é mudar de pele. Não somos um objeto estático, mas um caminho, por isso deixamos cair coisas, como a pele – como a serpente de Nietzsche, que morre se não a mudar, ou como as ideias e as almas, que definham até ao apagamento se recusarem qualquer alteração. A bola de pó é o corpo a mudar de opinião, a transformar-se, a caminhar. A morte mais terrível seria mantermo-nos iguais, na mesmice mineral, por isso uma possível definição de vida poderá ser esta: a vida é um deixar de ser para continuar a ser.


Existem então dois tipos de morte: a da estabilidade absoluta e a da dissolução. A primeira é essa mesmice mineral e a segunda é o preço a pagar por um processo que culmina numa transformação mais radical, em que o pó retorna ao pó, e a alma se distribui pelos objetos do seu amor, coisas camonianas, seres vivos e pessoas, especialmente familiares e amigos, mas também inimigos, porque a alma entrega igualmente a sua essência ao ódio, uma vez que este é uma forma avessa de amar. Também sobrevivemos naquilo que odiamos.

Ouvi num documentário que não damos nada à terra, que tiramos, tiramos, tiramos, e não damos. Enfim, somos muitos, e para contrariar isso, de que tiramos, e somente tiramos, somos todos terra e no final havemos de lhe entregar todo o barro que nos foi emprestado. Como cantou Adriano Correia de Oliveira: “Eu sou devedor à terra,/ a terra me está devendo,/ a terra paga-me em vida,/ eu pago à terra morrendo”. Um pedaço de barro ergue-se, sustido pela terra, para depois voltar a ser barro, sustendo a terra, mas ao erguer-se, ou quando se ergueu, produziu algo único: relações, afetos, leituras, foi às compras, foi à ópera.

A vida produz, da matéria-prima mais rude – o barro –, versos, cantigas, ódio, abraços, medos, certezas, enfim, algo que viaja de barro em barro, resistente à vulgaridade da ameaça física: não se pode esfaquear uma canção, não se pode atirar pedras a uma ideia (metaforicamente, sim, mas denotativamente não). A única maneira de matar a arte ou qualquer produção imaterial é disparando esquecimento, sendo essa também a única forma de uma alma morrer, tão diferente da outra, a do corpo que se transforma em pó. E é importante lembrar o epitáfio de Mário Quintana, que é um manual de filosofia escrito numa frase e que deveria estar presente em todas as tumbas: “Eu não estou aqui”.

Esta ideia, “eu não estou aqui”, mostra bem essa transição e a certeza de que o corpo é o resto de algo, um pó que se varre para que a alma, já transformada nas coisas amadas, subsista inefável, como uma canção que se vai trauteando, até ser esquecida – porque o esquecimento é o pó da alma. A origem das espécies é uma teoria incompleta, que se finda na biologia, que não contempla uma outra evolução, a da imaterialidade. E aqui não me refiro a uma abordagem mística, mas à evolução da informação e como ela resiste à morte do seu veículo, pois a informação é interoperável: um poema vive tanto na voz, como escrito num papel, ou em zeros e uns.

O barro, a matéria que sustém um poema (ou qualquer tipo de informação) é irrelevante. Pode ser silicone, plástico, voz, papel e tinta. Quando silenciamos uma pessoa, quando rasgamos uma letra de uma canção, podemos imediatamente aplicar a fórmula de Quintana ao olhar para a mudez ou para os pedaços de papel: a canção não está ali, continua algures, noutra voz. Num sentido absoluto, a morte não é morrer, é esquecer a canção. E a eternidade é continuar a cantar, ainda que o pó pareça ser o grande vencedor: “O homem é o lobo do homem, e pede desculpas pela poeira. Não sabe que um dia, quando não houver mais homens, a poeira reinará sobre o sistema solar e não se ouvirá ninguém pedir desculpas por nada. A poeira nos sobreviverá” (Yuri Al’Hanati).

Entretanto, e antes de o pó se impor derradeiramente, talvez faça sentido varrer, não o pó, mas aquilo que a morte não pode silenciar, tal como se lê nos versos de Minês Castanheira: “No poema ficou o mais secreto./ Como se eu varresse para dentro de mim/ silenciosamente/ todas as coisas da casa”.