sexta-feira, 7 de abril de 2023
Quando o criminoso vai além do crime
Os crimes aberrantes devem ser recordados para que jamais se repitam. Evitar a repetição, porém, leva a investigar as origens, ir às causas, em especial as difusas e, por isso, diretas ou permanentes, pois, ao serem profundas, não são visíveis.
Refiro-me a dois crimes aberrantes perpetrados em São Paulo dias atrás, que permanecem atuais pela estarrecedora brutalidade em si.
Primeiro, em plena sala de aula, um menino de 13 anos assassinou a facadas uma professora de 71 anos e feriu outras três. Logo, como na sequência de um filme de terror, um juiz acorrentava a própria esposa para, a socos e bofetadas, obrigá-la ao ato sexual, num sadismo aberrante substituindo a beleza do erotismo amoroso.
Ambas as situações disputam a primazia do horror. No primeiro caso, os escabrosos detalhes levam a uma pergunta: em que sociedade vivemos para que um menino imberbe, ainda pré-adolescente, se transforme em requintado criminoso?
Sim, pois a morte a facadas é requintada em si, exigindo presteza manual e longos segundos para insistir na morte. Não é como um tiro, em que se aperta o gatilho e a bala faz o resto. A facada exige repetição contínua até chegar à morte.
Mais ainda: como um menino de apenas 13 anos pode ter acumulado desgostos e incertezas em condições de gerar ódio e despertar a maldade de Caim que levamos dentro de nós?
Trata-se de um caso patológico, de um surto psicótico, dirão todos. A patologia assassina, porém, não nasce ao acaso. Tem raízes profundas no dia a dia, crescendo nas invencionices e mentiras das chamadas redes sociais e naquilo que mais ocupa nosso interesse, que é a televisão. Após o trabalho diário, é a TV que nos dá lazer e descanso, mas nela somos levados a um mundo de violência. As séries televisivas (ou até as novelas com excelente dramaturgia) exibem traições e tiros, e, mesmo com o triunfo do bem, o desenrolar violento passa a habitar nosso inconsciente.
São Paulo maldade dos vídeo jogos (que chamamos de video games, em inglês, numa violência verbal ao nosso idioma) em que ganha quem mata mais na tela do celular. A partir da tenra infância, isso se transforma num convite para matar de verdade na vida adulta, pois basta apertar o gatilho...
Trata-se da banalização da vida em forma contínua, por uma parte, e, por outra, de entronizar o assassinato como normalidade.
O caso do juiz sádico mostra, além de tudo, outra aberração que espalha seus requintes perversos sobre a sociedade. Pergunto: como pode um magistrado, que vai julgar os demais (definindo o certo e o errado), portar-se de forma aberrante na vida pessoal?
A exigência de vida “ilibada” não é privativa para a escolha dos ministros do Supremo Tribunal Federal, mas recai logicamente na totalidade dos magistrados. Só assim o Poder Judiciário atenderá à sua verdadeira função.
Seria insólito que a sociedade tivesse de julgar o comportamento dos magistrados, mas é impossível deixar de aplaudir a decisão do Tribunal de Justiça de suspender das funções o juiz sádico.
A aberração não pode guiar a intimidade daqueles cuja função seja decidir sobre o comportamento da sociedade. Não se deve exigir que um juiz chegue à perfeição absoluta ou, menos ainda, que se transforme em pequena divindade. Não se pode, porém, admitir o oposto. A aberração é o crime dos crimes, ou a própria perversão da perversidade.
Existe, no entanto, um componente histórico na formação da violência na vida social e que, de fato, principia na infância da vida familiar. Pergunto: o que são, em verdade e no mais profundo de si, aquelas histórias infantis repetidas ao longo dos anos (ou até dos séculos...) que contam dos perigos do lobo mau que acaba comendo a indefesa vovozinha para quem a netinha levava deliciosos docinhos?
Não seremos nós mesmos que cultivamos a violência, até sem a perceber?
As histórias infantis estão abarrotadas (ou infestadas) de medo ou até de horror. Mesmo assim, são transmitidas de geração em geração. A transmissão do horror não pode ser encarada tal qual uma vacina que, ao ser aplicada, nos torna resistentes ao mal e, assim, nos livra da enfermidade que provoca.
A verbalização do horror acaba nos familiarizando com o próprio horror e, assim, o incorpora ao nosso cotidiano, como se fizesse parte da vida. No caso concreto do juiz sádico, as cenas filmadas com câmeras ocultas mostraram (na televisão) a repetição contínua da brutalidade, com a mulher submetida ao suplício.
Direta ou indiretamente, tratava-se da antessala do feminicídio, em que a mulher recebia o tratamento de coisa, não de gente, pelo fato único de ser mulher...
Nada, porém, supera em vileza e terror a tragédia de Blumenau (SC), onde um homem adulto, com uma machadinha, assassinou quatro crianças numa creche, num ato abjeto e inominável em que o criminoso vai além do crime em si.
Refiro-me a dois crimes aberrantes perpetrados em São Paulo dias atrás, que permanecem atuais pela estarrecedora brutalidade em si.
Primeiro, em plena sala de aula, um menino de 13 anos assassinou a facadas uma professora de 71 anos e feriu outras três. Logo, como na sequência de um filme de terror, um juiz acorrentava a própria esposa para, a socos e bofetadas, obrigá-la ao ato sexual, num sadismo aberrante substituindo a beleza do erotismo amoroso.
Ambas as situações disputam a primazia do horror. No primeiro caso, os escabrosos detalhes levam a uma pergunta: em que sociedade vivemos para que um menino imberbe, ainda pré-adolescente, se transforme em requintado criminoso?
Sim, pois a morte a facadas é requintada em si, exigindo presteza manual e longos segundos para insistir na morte. Não é como um tiro, em que se aperta o gatilho e a bala faz o resto. A facada exige repetição contínua até chegar à morte.
Mais ainda: como um menino de apenas 13 anos pode ter acumulado desgostos e incertezas em condições de gerar ódio e despertar a maldade de Caim que levamos dentro de nós?
Trata-se de um caso patológico, de um surto psicótico, dirão todos. A patologia assassina, porém, não nasce ao acaso. Tem raízes profundas no dia a dia, crescendo nas invencionices e mentiras das chamadas redes sociais e naquilo que mais ocupa nosso interesse, que é a televisão. Após o trabalho diário, é a TV que nos dá lazer e descanso, mas nela somos levados a um mundo de violência. As séries televisivas (ou até as novelas com excelente dramaturgia) exibem traições e tiros, e, mesmo com o triunfo do bem, o desenrolar violento passa a habitar nosso inconsciente.
Nada, no entanto, supera a bala de prata para matar lobisomens e monstros do tipo. A carga tributária no Brasil está em 33,9%. Usando as palavras de Tebet, “para agradar a todos”, em níveis federal, estadual e municipal, será preciso aumentá-la para mais perto de 40%. Ela tem razão, será uma bala de prata no coração do cidadão brasileiro. E, como dizia Bilac: “Criança! não verás país nenhum como este”. Nenhum país do mundo tem uma carga tributária tão pesada, porque ninguém é capaz de suportála. A ministra do Planejamento pode planejar um belo discurso fúnebre para a nossa economia. Jorge Alberto Nurkin jorge.nurkin@gmail.com
São Paulo maldade dos vídeo jogos (que chamamos de video games, em inglês, numa violência verbal ao nosso idioma) em que ganha quem mata mais na tela do celular. A partir da tenra infância, isso se transforma num convite para matar de verdade na vida adulta, pois basta apertar o gatilho...
Trata-se da banalização da vida em forma contínua, por uma parte, e, por outra, de entronizar o assassinato como normalidade.
O caso do juiz sádico mostra, além de tudo, outra aberração que espalha seus requintes perversos sobre a sociedade. Pergunto: como pode um magistrado, que vai julgar os demais (definindo o certo e o errado), portar-se de forma aberrante na vida pessoal?
A exigência de vida “ilibada” não é privativa para a escolha dos ministros do Supremo Tribunal Federal, mas recai logicamente na totalidade dos magistrados. Só assim o Poder Judiciário atenderá à sua verdadeira função.
Seria insólito que a sociedade tivesse de julgar o comportamento dos magistrados, mas é impossível deixar de aplaudir a decisão do Tribunal de Justiça de suspender das funções o juiz sádico.
A aberração não pode guiar a intimidade daqueles cuja função seja decidir sobre o comportamento da sociedade. Não se deve exigir que um juiz chegue à perfeição absoluta ou, menos ainda, que se transforme em pequena divindade. Não se pode, porém, admitir o oposto. A aberração é o crime dos crimes, ou a própria perversão da perversidade.
Existe, no entanto, um componente histórico na formação da violência na vida social e que, de fato, principia na infância da vida familiar. Pergunto: o que são, em verdade e no mais profundo de si, aquelas histórias infantis repetidas ao longo dos anos (ou até dos séculos...) que contam dos perigos do lobo mau que acaba comendo a indefesa vovozinha para quem a netinha levava deliciosos docinhos?
Não seremos nós mesmos que cultivamos a violência, até sem a perceber?
As histórias infantis estão abarrotadas (ou infestadas) de medo ou até de horror. Mesmo assim, são transmitidas de geração em geração. A transmissão do horror não pode ser encarada tal qual uma vacina que, ao ser aplicada, nos torna resistentes ao mal e, assim, nos livra da enfermidade que provoca.
A verbalização do horror acaba nos familiarizando com o próprio horror e, assim, o incorpora ao nosso cotidiano, como se fizesse parte da vida. No caso concreto do juiz sádico, as cenas filmadas com câmeras ocultas mostraram (na televisão) a repetição contínua da brutalidade, com a mulher submetida ao suplício.
Direta ou indiretamente, tratava-se da antessala do feminicídio, em que a mulher recebia o tratamento de coisa, não de gente, pelo fato único de ser mulher...
Nada, porém, supera em vileza e terror a tragédia de Blumenau (SC), onde um homem adulto, com uma machadinha, assassinou quatro crianças numa creche, num ato abjeto e inominável em que o criminoso vai além do crime em si.
Como seria a vida de Cristo no Brasil atual?
Estamos na Semana Santa, tradição cristã que, atualmente, representa a ressurreição de Cristo no domingo de Páscoa (embora seja, originalmente, uma festividade de religiões consideradas “pagãs”).
A festividade também nos faz refletir sobre como seria se o protagonista da história vivesse nos dias de hoje. E se, em vez de Israel e Palestina, ele tivesse nascido no Brasil atual?
Provavelmente, Maria, sua mãe, anunciaria sua gravidez a José. Mesmo se aparecesse um anjo dizendo tratar-se do filho de Deus, o marido responderia: “Eu sou lá homem de criar filho dos outros?”. E sairia para comprar um cigarro e nunca mais voltar.
Sem casa, Maria pariria seu bebê em uma manjedoura, mas seria acusada de ser uma invasora de terra do MST e expulsa pelo proprietário.
Os três reis magos seriam enviados para dar presentes ao menino Jesus, mas questionariam: “Se a gente der presentes, esse bebê vai virar um vagabundo que não sabe ir atrás do seu sustento. Ele precisa trabalhar duro para ganhar a mirra, o incenso e o ouro”. E o menino ficaria sem presentes.
Já adulto, Jesus seria batizado em um rio pelo primo, João, mas contrairia uma diarreia violenta causada pela poluição do local.
Após se recuperar, começaria suas pregações em uma praça. “Bem-aventurados os humildes, pois eles receberão a terra por herança”, diria. De longe, ouviria um cidadão de bem gritar: “Vai para Cuba, comunista!”.
Jesus pregaria: “Bem-aventurados os perseguidos por causa da justiça, pois deles é o Reino dos céus”. Na praça, um expectador refutaria: “Ah, virou babá de bandido? Se tá com dó, leva pra casa”.
“É mais fácil um camelo passar pelo fundo de uma agulha do que um rico entrar no Reino de Deus”, diria Jesus. Mas um transeunte gritaria: “Ah, agora virou crime ser rico no Brasil?”.
Quando o filho de Deus dissesse: “Se alguém o ferir na face direita, ofereça-lhe também a outra”, alguém responderia: “Tem é que encher o inimigo de bala! Por isso que tem que armar a população”.
No fim, quando Jesus fosse preso, torturado e crucificado, um homem chamado Jair gritaria: “Eu sou favorável à cruz mesmo. Funciona! Eu sou favorável à tortura, com cruz, tu sabe disso. E o povo é favorável a isso também!”. E completaria: “Tá com dó do bandido? Leva pra casa!”
A festividade também nos faz refletir sobre como seria se o protagonista da história vivesse nos dias de hoje. E se, em vez de Israel e Palestina, ele tivesse nascido no Brasil atual?
Provavelmente, Maria, sua mãe, anunciaria sua gravidez a José. Mesmo se aparecesse um anjo dizendo tratar-se do filho de Deus, o marido responderia: “Eu sou lá homem de criar filho dos outros?”. E sairia para comprar um cigarro e nunca mais voltar.
Sem casa, Maria pariria seu bebê em uma manjedoura, mas seria acusada de ser uma invasora de terra do MST e expulsa pelo proprietário.
Os três reis magos seriam enviados para dar presentes ao menino Jesus, mas questionariam: “Se a gente der presentes, esse bebê vai virar um vagabundo que não sabe ir atrás do seu sustento. Ele precisa trabalhar duro para ganhar a mirra, o incenso e o ouro”. E o menino ficaria sem presentes.
Já adulto, Jesus seria batizado em um rio pelo primo, João, mas contrairia uma diarreia violenta causada pela poluição do local.
Após se recuperar, começaria suas pregações em uma praça. “Bem-aventurados os humildes, pois eles receberão a terra por herança”, diria. De longe, ouviria um cidadão de bem gritar: “Vai para Cuba, comunista!”.
Jesus pregaria: “Bem-aventurados os perseguidos por causa da justiça, pois deles é o Reino dos céus”. Na praça, um expectador refutaria: “Ah, virou babá de bandido? Se tá com dó, leva pra casa”.
“É mais fácil um camelo passar pelo fundo de uma agulha do que um rico entrar no Reino de Deus”, diria Jesus. Mas um transeunte gritaria: “Ah, agora virou crime ser rico no Brasil?”.
Quando o filho de Deus dissesse: “Se alguém o ferir na face direita, ofereça-lhe também a outra”, alguém responderia: “Tem é que encher o inimigo de bala! Por isso que tem que armar a população”.
No fim, quando Jesus fosse preso, torturado e crucificado, um homem chamado Jair gritaria: “Eu sou favorável à cruz mesmo. Funciona! Eu sou favorável à tortura, com cruz, tu sabe disso. E o povo é favorável a isso também!”. E completaria: “Tá com dó do bandido? Leva pra casa!”
Levantem-se contra a banalização do mal que nos ameaça
Apela-se à filósofa alemã Hannah Arendt sempre que um ato maligno choca a todos por sua brutalidade e carece de explicação para ser entendido, o que não significa normalizado.
Foi ao escrever sobre o julgamento do oficial nazista Otto Adolf Eichmann”, um dos organizadores do Holocausto, que ela cunhou uma expressão que ficaria famosa – a “banalização do mal”.
Arendt concluiu que o mal praticado por ele não era demoníaco, mas um mal constante, parte da rotina dos oficiais nazistas como instrumento de trabalho. Ele cumpria ordens.
Durante o julgamento que o condenaria a morrer enforcado, Eichmann dizia, e de fato acreditava, que seguia o certo, o governo e as leis do Estado, e que por isso era inocente.
O homem de 25 anos que assassinou à machadinha e a facadas 4 crianças numa creche de Blumenau, em Santa Catarina, e feriu 5 disse à polícia que cumpriu ordens de outro que o ameaçou.
Parece mais razoável que tenha agido sob o estímulo do discurso do ódio, da intolerância e do preconceito que a extrema-direita propaga abertamente nas redes sociais, e não só no esgoto delas.
Mentes doentes não racionalizam. Confundem violência com coragem. Os que se sentem marginalizados e injustiçados pela vida que levam são presas fáceis do desejo de vingança.
É previsível que haja novos ataques a creches e escolas pelo país. O efeito imitação é poderoso. É tão certo como esperar que nos Estados Unidos, a essa hora, um atirador esteja matando a esmo.
Levantamento da Universidade de São Paulo registra que 22 ações violentas contra unidades de ensino aconteceram no Brasil desde 2002 – metade delas de 2022 para cá. Total de mortos: 40.
O celular já foi um artefato inocente. A internet, um meio que daria voz aos que não tinham voz, aproximando as pessoas e as incentivando a se entenderem; um ideal do paraíso.
Enquanto as redes sociais não forem reguladas, e se dependerem dos seus donos jamais serão, elas continuarão servindo de pasto viçoso para alimentar os instintos humanos mais viscerais.
Não basta regulá-las. Nem apenas cobrar dos governos medidas de reforço à segurança pública. É preciso que caia a ficha da sociedade e que nos mobilizemos para enfrentar a banalização do mal.
Mais educação. Mais saúde. Mais renda para quem tem pouca, o que quer dizer menos desigualdade. Mais rigor na venda de armas. Mais mão pesada da justiça no julgamento de crimes bárbaros.
E fé. Sim, acreditar que ainda é possível a construção de um mundo melhor. Sem esperança, só andaremos para trás.
Foi ao escrever sobre o julgamento do oficial nazista Otto Adolf Eichmann”, um dos organizadores do Holocausto, que ela cunhou uma expressão que ficaria famosa – a “banalização do mal”.
Arendt concluiu que o mal praticado por ele não era demoníaco, mas um mal constante, parte da rotina dos oficiais nazistas como instrumento de trabalho. Ele cumpria ordens.
Durante o julgamento que o condenaria a morrer enforcado, Eichmann dizia, e de fato acreditava, que seguia o certo, o governo e as leis do Estado, e que por isso era inocente.
O homem de 25 anos que assassinou à machadinha e a facadas 4 crianças numa creche de Blumenau, em Santa Catarina, e feriu 5 disse à polícia que cumpriu ordens de outro que o ameaçou.
Parece mais razoável que tenha agido sob o estímulo do discurso do ódio, da intolerância e do preconceito que a extrema-direita propaga abertamente nas redes sociais, e não só no esgoto delas.
Mentes doentes não racionalizam. Confundem violência com coragem. Os que se sentem marginalizados e injustiçados pela vida que levam são presas fáceis do desejo de vingança.
É previsível que haja novos ataques a creches e escolas pelo país. O efeito imitação é poderoso. É tão certo como esperar que nos Estados Unidos, a essa hora, um atirador esteja matando a esmo.
Levantamento da Universidade de São Paulo registra que 22 ações violentas contra unidades de ensino aconteceram no Brasil desde 2002 – metade delas de 2022 para cá. Total de mortos: 40.
O celular já foi um artefato inocente. A internet, um meio que daria voz aos que não tinham voz, aproximando as pessoas e as incentivando a se entenderem; um ideal do paraíso.
Enquanto as redes sociais não forem reguladas, e se dependerem dos seus donos jamais serão, elas continuarão servindo de pasto viçoso para alimentar os instintos humanos mais viscerais.
Não basta regulá-las. Nem apenas cobrar dos governos medidas de reforço à segurança pública. É preciso que caia a ficha da sociedade e que nos mobilizemos para enfrentar a banalização do mal.
Mais educação. Mais saúde. Mais renda para quem tem pouca, o que quer dizer menos desigualdade. Mais rigor na venda de armas. Mais mão pesada da justiça no julgamento de crimes bárbaros.
E fé. Sim, acreditar que ainda é possível a construção de um mundo melhor. Sem esperança, só andaremos para trás.
Uma sociedade doentia
O clima de ódio e violência que estamos vivenciando nos últimos tempos, oriundos do período em que o bolsonarismo começou a implantar suas raízes, é filho do despertar dos instintos primitivos de indivíduos antissociais que viviam contidos pelos ditames e valores majoritários numa sociedade democrática e sentiram-se liberados para falar, e fazer, qualquer coisa. Como agia seu líder político, saído dos círculos morais mais baixos da sociedade para influenciar seguidores que identificaram por meio de metodologias tecnológicas que se mostraram tristemente eficazes.
São cidadãos que se sentiam rechaçados, esquecidos, até mesmo rejeitados pela onda, que parecia francamente majoritária, do politicamente correto, do identitarismo, do globalismo, instrumentos da esquerda para se impor. Quando Lula tinha 80% de aprovação, no segundo mandato, os petistas desdenhavam esses 20%, perguntando em que mundo viviam. Pois viviam nas sombras, remoendo suas feridas, buscando um sentimento de pertencimento que Bolsonaro lhes deu.
Em vez de ser incluídos na maioria, foram sendo apartados até transformarem-se, eles mesmos, em maioria, levando o capitão a um poder para o qual não estava preparado. Contra o establishment a que pertencia marginalmente, Bolsonaro atraiu não apenas o lumpesinato sempre em busca de um salvador da pátria, mas também uma elite predadora que se aproveitou do pretenso liberalismo de Bolsonaro, que enganou quem queria se enganar.
Uma das principais teses “liberais” de Bolsonaro é a permissão descontrolada de armamento e munições pelos cidadãos, como sinônimo de liberdade, de segurança, de emancipação cidadã. Nada mais falacioso, uma cópia mambembe da trágica tradição histórica dos Estados Unidos, que não tem nada a ver com nossa História. Nos Estados Unidos, cada vez que acontece um massacre de inocentes por atirador(es) aleatório(s), aumenta a discussão sobre a necessidade de controlar venda e porte de armas, ligadas a uma sensação de liberdade, de proteção da individualidade, que vem do tempo em que o território americano era ocupado, depois da independência da Inglaterra.
A origem desse direito considerado inalienável foram as milícias, grupos que se reuniam para proteger propriedades e combater os que não aceitavam a independência recém-conquistada. A Declaração de Direitos fundamentais dos cidadãos do novo país foi colocada na Constituição, incluindo no mesmo status de proteção à individualidade a posse de armas, assim como o direito à reunião, à religião, à liberdade de imprensa. O mesmo que Bolsonaro conseguiu implantar, algumas vezes na lei, outras na cabeça dos seguidores, quando eleito em 2018, dando conotação distorcida aos direitos dos cidadãos.
Tanto em 1791, nos Estados Unidos, quanto hoje no Brasil, as milícias fora da lei são a base da expansão da ideia armamentista. Só que os americanos, centenas de anos depois, tentam desvencilhar-se dessa linha do tempo que hoje já não faz sentido, enquanto no Brasil vivemos o ápice do crime organizado, com milícias formadas por policiais e facções criminosas em busca do domínio do território que deveria ser regido pela lei.
Abrir a compra por cidadãos de armamentos praticamente sem controle é uma oferta de fortalecimento a esses grupos fora da lei. Está provado que a criação de CACs (colecionadores, atiradores desportivos e caçadores) proliferou justamente para legalizar armas do crime organizado, e os ataques frívolos com armas em disputas banais e discussões de bar estão à nossa vista. Alimentar a violência com esse tipo de atitude irresponsável só pode criar uma sociedade patológica, onde tudo é possível, até assassinatos a machadadas de crianças.
São cidadãos que se sentiam rechaçados, esquecidos, até mesmo rejeitados pela onda, que parecia francamente majoritária, do politicamente correto, do identitarismo, do globalismo, instrumentos da esquerda para se impor. Quando Lula tinha 80% de aprovação, no segundo mandato, os petistas desdenhavam esses 20%, perguntando em que mundo viviam. Pois viviam nas sombras, remoendo suas feridas, buscando um sentimento de pertencimento que Bolsonaro lhes deu.
Em vez de ser incluídos na maioria, foram sendo apartados até transformarem-se, eles mesmos, em maioria, levando o capitão a um poder para o qual não estava preparado. Contra o establishment a que pertencia marginalmente, Bolsonaro atraiu não apenas o lumpesinato sempre em busca de um salvador da pátria, mas também uma elite predadora que se aproveitou do pretenso liberalismo de Bolsonaro, que enganou quem queria se enganar.
Uma das principais teses “liberais” de Bolsonaro é a permissão descontrolada de armamento e munições pelos cidadãos, como sinônimo de liberdade, de segurança, de emancipação cidadã. Nada mais falacioso, uma cópia mambembe da trágica tradição histórica dos Estados Unidos, que não tem nada a ver com nossa História. Nos Estados Unidos, cada vez que acontece um massacre de inocentes por atirador(es) aleatório(s), aumenta a discussão sobre a necessidade de controlar venda e porte de armas, ligadas a uma sensação de liberdade, de proteção da individualidade, que vem do tempo em que o território americano era ocupado, depois da independência da Inglaterra.
A origem desse direito considerado inalienável foram as milícias, grupos que se reuniam para proteger propriedades e combater os que não aceitavam a independência recém-conquistada. A Declaração de Direitos fundamentais dos cidadãos do novo país foi colocada na Constituição, incluindo no mesmo status de proteção à individualidade a posse de armas, assim como o direito à reunião, à religião, à liberdade de imprensa. O mesmo que Bolsonaro conseguiu implantar, algumas vezes na lei, outras na cabeça dos seguidores, quando eleito em 2018, dando conotação distorcida aos direitos dos cidadãos.
Tanto em 1791, nos Estados Unidos, quanto hoje no Brasil, as milícias fora da lei são a base da expansão da ideia armamentista. Só que os americanos, centenas de anos depois, tentam desvencilhar-se dessa linha do tempo que hoje já não faz sentido, enquanto no Brasil vivemos o ápice do crime organizado, com milícias formadas por policiais e facções criminosas em busca do domínio do território que deveria ser regido pela lei.
Abrir a compra por cidadãos de armamentos praticamente sem controle é uma oferta de fortalecimento a esses grupos fora da lei. Está provado que a criação de CACs (colecionadores, atiradores desportivos e caçadores) proliferou justamente para legalizar armas do crime organizado, e os ataques frívolos com armas em disputas banais e discussões de bar estão à nossa vista. Alimentar a violência com esse tipo de atitude irresponsável só pode criar uma sociedade patológica, onde tudo é possível, até assassinatos a machadadas de crianças.
quinta-feira, 6 de abril de 2023
É isto um homem?
Trabalhadores escravizados no Brasil pouco diferem dos personagens de "É isto um homem?", de Primo Levi sobre os tempos que passou em campos de concentração nazistas
Tempo de morrer
Houve tempos, ditos Pré-científicos, em que se acreditava na necessidade de matar, e de fato se matava, alguns poucos animais, humanos e não-humanos, com o objetivo de agradar aos deuses para assegurar uma boa colheita e a sobrevivência da população! Depois, começaram os tempos ditos científicos, em que a ciência (aparentemente) dominava. Nestes novos tempos, milhões de animais, humanos e não humanos, são mortos anualmente com o objetivo de … garantir boas colheitas, agrícolas ou não! Tais mortes decorrem do uso de “avanços” científicos na agronomia, na indústria, nos transportes e, mesmo, na medicina e higiene coletiva.
As poucas mortes dos tempos pré-científicos são hoje chamadas de “sacrifícios”, e atribuídas à crença em mitos; as milhões dos tempos atuais já foram chamadas “efeitos inesperados” do “desenvolvimento”, mas, hoje, não mais podem ser assim qualificadas; são consequências inerentes ao tipo de “progresso” que vivemos, e que tem sido incapaz de retirar da pobreza (renda menor que US$10,00/dia) 80% da humanidade. Sendo assim, por que não se supera essa semelhança entre os tempos pré e pós-científicos? Não mais para agradar aos deuses, mas para não descontentar o “mercado”.
Restringir o uso dos materiais e práticas que, embora tragam alguns benefícios, causam tantas mortes – combustíveis fósseis, fertilizantes, agrotóxicos, materiais de uso único, embalagens descartáveis, produtos programados para durar pouco e serem substituídos, a “moda” que induz a comprar roupas novas embora as antigas ainda sejam úteis, a propaganda que provoca compras por impulso e não por necessidade, entre tantas outras práticas tidas como “normais” e “necessárias” ao bom andamento da “economia” – todas essas são postergadas ou evitadas, pois desagradam o novo elemento a ser incensado, o “mercado” e seu “crescimento”.
E a preservação da vida e a redução da pobreza, como ficam? Estes deixaram de ser objetivos a perseguir, substituídos que foram pela busca do indefinido “desenvolvimento”, cujos inevitáveis subprodutos – mantido o rumo atual – a propaganda busca minimizar. A mitologia pró-mercado prevalece, e este agradece! A desejável melhoria da qualidade de vida da maioria fica relegada para depois do “desenvolvimento”. Para quando?
Há, pelo menos, mais de meio século que se persegue tal “desenvolvimento”. Nesse período, algumas melhorias na qualidade de vida, sim, ocorreram, mas nada como seria possível caso o foco das políticas públicas fosse, de fato, tal melhoria, e não a aceitação de que algumas – hoje, de fato milhões – de mortes é um preço razoável para continuar o, repito, indefinido “desenvolvimento”.
Mitologias antigas, repaginadas para os tempos modernos, hoje sacrificando milhões, “justificadas” por crenças, ditas científicas ou não. E a melhoria da qualidade de vida da maioria fica postergada. Até quando?
As poucas mortes dos tempos pré-científicos são hoje chamadas de “sacrifícios”, e atribuídas à crença em mitos; as milhões dos tempos atuais já foram chamadas “efeitos inesperados” do “desenvolvimento”, mas, hoje, não mais podem ser assim qualificadas; são consequências inerentes ao tipo de “progresso” que vivemos, e que tem sido incapaz de retirar da pobreza (renda menor que US$10,00/dia) 80% da humanidade. Sendo assim, por que não se supera essa semelhança entre os tempos pré e pós-científicos? Não mais para agradar aos deuses, mas para não descontentar o “mercado”.
Restringir o uso dos materiais e práticas que, embora tragam alguns benefícios, causam tantas mortes – combustíveis fósseis, fertilizantes, agrotóxicos, materiais de uso único, embalagens descartáveis, produtos programados para durar pouco e serem substituídos, a “moda” que induz a comprar roupas novas embora as antigas ainda sejam úteis, a propaganda que provoca compras por impulso e não por necessidade, entre tantas outras práticas tidas como “normais” e “necessárias” ao bom andamento da “economia” – todas essas são postergadas ou evitadas, pois desagradam o novo elemento a ser incensado, o “mercado” e seu “crescimento”.
E a preservação da vida e a redução da pobreza, como ficam? Estes deixaram de ser objetivos a perseguir, substituídos que foram pela busca do indefinido “desenvolvimento”, cujos inevitáveis subprodutos – mantido o rumo atual – a propaganda busca minimizar. A mitologia pró-mercado prevalece, e este agradece! A desejável melhoria da qualidade de vida da maioria fica relegada para depois do “desenvolvimento”. Para quando?
Há, pelo menos, mais de meio século que se persegue tal “desenvolvimento”. Nesse período, algumas melhorias na qualidade de vida, sim, ocorreram, mas nada como seria possível caso o foco das políticas públicas fosse, de fato, tal melhoria, e não a aceitação de que algumas – hoje, de fato milhões – de mortes é um preço razoável para continuar o, repito, indefinido “desenvolvimento”.
Mitologias antigas, repaginadas para os tempos modernos, hoje sacrificando milhões, “justificadas” por crenças, ditas científicas ou não. E a melhoria da qualidade de vida da maioria fica postergada. Até quando?
Os dados mostram explosão no número de ataques a escolas no Brasil
O ataque a uma creche em Blumenau (SC), que deixou quatro crianças mortas nesta quarta-feira é mais um exemplo trágico de uma estatística alarmante: somente em 2022 e 2023, o número de ataques em escolas no Brasil já supera o total registrado nos 20 anos anteriores, segundo pesquisadores.
Somente neste início de ano, já foram ao menos quatro casos de mais destaque: o ataque com bomba caseira por um ex-aluno em Monte Mor (SP), em 13 de fevereiro; o ataque a faca por um aluno de 13 anos a uma escola em São Paulo, que deixou uma professora morta e quatro pessoas feridas em 27 de março; o ataque a faca por um aluno a colegas em uma escola do Rio de Janeiro em 28 de março; e agora o atentado à creche em Santa Catarina.
Levantamento feito pela pesquisadora Michele Prado, do Monitor do Debate Político no Meio Digital da USP (Universidade de São Paulo), registrou 22 ataques a escolas entre outubro 2002 e março de 2023.
Antes do caso de Blumenau, e sem incluir na conta o ataque a faca no Rio de Janeiro, 11 desses casos haviam sido registrados somente em 2022 e 2023.
Com os dois casos mais recentes, portanto, os últimos dois anos já superam em número de ataques os 20 anos anteriores.
Levantamento feito por pesquisadores da Unicamp chegam a números semelhantes.
Considerando apenas casos envolvendo alunos e ex-alunos como agressores, o grupo liderado pela pesquisadora Telma Vinha, registra 22 ataques entre 2002 e 2023, sendo 10 deles nos últimos dois anos.
Os ataques a escola também foram tema de um relatório entregue ao governo de transição no final do ano passado. Além dos ataques efetivamente realizados, o documento mostra os atentados evitados. O padrão aqui também revela um forte aumento da frequência em anos recentes.
Segundo o relatório O extremismo de direita entre adolescentes e jovens no Brasil: ataques às escolas e alternativas para a ação governamental, foram 34 ataques a escolas evitados no Brasil entre 2012 e 2022, sendo 22 deles somente no ano passado.
Dos 22 ataques evitados em 2022, oito tinham como alvos escolas em Goiás e 4 em Minas Gerais.
Segundo os pesquisadores, os agressores são em geral jovens (10 a 25 anos), do sexo masculino. E muitos deles são vítimas de bullying na escola, possuem características de isolamento social e indícios de transtornos mentais não diagnosticados ou acompanhados.
Eles se articulam em comunidades online onde há incentivo à violência, à misoginia, e em plataformas de fácil acesso na internet.
Para Michele Prado, o aumento da frequência dos ataques no país é fruto de um processo de radicalização online em massa que atinge principalmente o público jovem, a partir dos 10 anos.
“Elas não estão da deep web ou na dark web, estão na superfície, em aplicativos como Discord, Twitter, TikTok, Telegram e WhatsApp”, diz Prado.
A pesquisadora afirma que não há uma razão única para a radicalização e os agressores têm perfis radicalizados distintos.
“Alguns jovens se queixam de bullying, outros parecem ter transtorno de personalidade narcisista, com perfil de agressores e não de vítimas. Nas redes, eles são expostos a teorias conspiratórias que desumanizam grupos específicos”, exemplifica.
Para Danila Di Pietro, pesquisadora da Unicamp e parte do grupo liderado pela professora Telma Vinha, o aumento no número de ataques a escolas nos últimos anos está relacionado também ao avanço da cultura de violência no país.
"De cinco anos para cá, passamos por uma banalização da violência. O uso de armas de fogo, de um discurso de ódio, separatista, racista, misógino, homofóbico, até por autoridades oficiais, com isso ganhando escala pública, tudo isso faz com que as pessoas que cultivavam esses valores no seu ambiente privado passem a ganhar corpo público", afirma Di Pietro.
As pesquisadoras destacam ainda o papel da cobertura da imprensa na multiplicação desses casos, já que os agressores em geral buscam notoriedade e se inspiram a partir de ataque anteriores.
"Nosso pedido à imprensa é de não divulgar em detalhes como a coisa se deu, porque isso acaba ensinando como se fazer. É preciso focar muito mais nas vítimas do que no agressor, porque tudo que ele querem é notoriedade", diz a pesquisadora da Unicamp.
Somente neste início de ano, já foram ao menos quatro casos de mais destaque: o ataque com bomba caseira por um ex-aluno em Monte Mor (SP), em 13 de fevereiro; o ataque a faca por um aluno de 13 anos a uma escola em São Paulo, que deixou uma professora morta e quatro pessoas feridas em 27 de março; o ataque a faca por um aluno a colegas em uma escola do Rio de Janeiro em 28 de março; e agora o atentado à creche em Santa Catarina.
Levantamento feito pela pesquisadora Michele Prado, do Monitor do Debate Político no Meio Digital da USP (Universidade de São Paulo), registrou 22 ataques a escolas entre outubro 2002 e março de 2023.
Antes do caso de Blumenau, e sem incluir na conta o ataque a faca no Rio de Janeiro, 11 desses casos haviam sido registrados somente em 2022 e 2023.
Com os dois casos mais recentes, portanto, os últimos dois anos já superam em número de ataques os 20 anos anteriores.
Levantamento feito por pesquisadores da Unicamp chegam a números semelhantes.
Considerando apenas casos envolvendo alunos e ex-alunos como agressores, o grupo liderado pela pesquisadora Telma Vinha, registra 22 ataques entre 2002 e 2023, sendo 10 deles nos últimos dois anos.
Os ataques a escola também foram tema de um relatório entregue ao governo de transição no final do ano passado. Além dos ataques efetivamente realizados, o documento mostra os atentados evitados. O padrão aqui também revela um forte aumento da frequência em anos recentes.
Segundo o relatório O extremismo de direita entre adolescentes e jovens no Brasil: ataques às escolas e alternativas para a ação governamental, foram 34 ataques a escolas evitados no Brasil entre 2012 e 2022, sendo 22 deles somente no ano passado.
Dos 22 ataques evitados em 2022, oito tinham como alvos escolas em Goiás e 4 em Minas Gerais.
Segundo os pesquisadores, os agressores são em geral jovens (10 a 25 anos), do sexo masculino. E muitos deles são vítimas de bullying na escola, possuem características de isolamento social e indícios de transtornos mentais não diagnosticados ou acompanhados.
Eles se articulam em comunidades online onde há incentivo à violência, à misoginia, e em plataformas de fácil acesso na internet.
Para Michele Prado, o aumento da frequência dos ataques no país é fruto de um processo de radicalização online em massa que atinge principalmente o público jovem, a partir dos 10 anos.
“Elas não estão da deep web ou na dark web, estão na superfície, em aplicativos como Discord, Twitter, TikTok, Telegram e WhatsApp”, diz Prado.
A pesquisadora afirma que não há uma razão única para a radicalização e os agressores têm perfis radicalizados distintos.
“Alguns jovens se queixam de bullying, outros parecem ter transtorno de personalidade narcisista, com perfil de agressores e não de vítimas. Nas redes, eles são expostos a teorias conspiratórias que desumanizam grupos específicos”, exemplifica.
Para Danila Di Pietro, pesquisadora da Unicamp e parte do grupo liderado pela professora Telma Vinha, o aumento no número de ataques a escolas nos últimos anos está relacionado também ao avanço da cultura de violência no país.
"De cinco anos para cá, passamos por uma banalização da violência. O uso de armas de fogo, de um discurso de ódio, separatista, racista, misógino, homofóbico, até por autoridades oficiais, com isso ganhando escala pública, tudo isso faz com que as pessoas que cultivavam esses valores no seu ambiente privado passem a ganhar corpo público", afirma Di Pietro.
As pesquisadoras destacam ainda o papel da cobertura da imprensa na multiplicação desses casos, já que os agressores em geral buscam notoriedade e se inspiram a partir de ataque anteriores.
"Nosso pedido à imprensa é de não divulgar em detalhes como a coisa se deu, porque isso acaba ensinando como se fazer. É preciso focar muito mais nas vítimas do que no agressor, porque tudo que ele querem é notoriedade", diz a pesquisadora da Unicamp.
Bolsonaro, de ladrão de joias a inimigo da democracia
Elementar: quanto mais Bolsonaro se complica, melhor para seus adversários. O que elementar não é: que ele se estrepasse por atos deliberados que carregam suas indeléveis impressões digitais.
Entenda-se por deliberados: atos de sua iniciativa, sobre os quais deve ter refletido bastante. Supor o contrário seria achar que Bolsonaro não tem juízo, comporta-se como um animal irracional.
Ele pode ser inculto, como tantas vezes demonstrou. Se não mentiu, e como já disse, só leu, ou mal leu, um livro em toda a sua vida – as memórias do coronel torturador Carlos Alberto Ustra.
Deu azar no ano passado ao esbarrar em Lula que imaginara fora do seu caminho desde que o ex-juiz Sérgio Moro o prendera e condenara. Ainda assim, perdeu por uma titica de votos.
Era para ter perdido por uma grande diferença, afinal carregava nas costas 700 mil mortos pela Covid, a situação deplorável da economia e os ataques furiosos à democracia que jurou respeitar.
Ao seu modo, fez quase tudo certo para tentar se reeleger. Ao perder, entrou em estado de choque. De lá para cá, fez tudo errado. Tivesse reconhecido a derrota, não estaria à beira do cadafalso.
Provocava-lhe náuseas telefonar para Lula parabenizando-o pela vitória? Era-lhe inadmissível participar da cerimônia de transferência da faixa presidencial? Absurdo, mas sairia na urina.
Não foi, porém, o que aconteceu. Paralisado, com a erisipela a aumentar seu sofrimento, absteve-se de governar por dois meses e estimulou silenciosamente o golpe de 8 de janeiro.
Ou os golpistas teriam ido às ruas se Bolsonaro, de pronto, ordenasse o retorno para casa? Ou o Exército deixaria contra a vontade de Bolsonaro que golpistas acampassem à sua porta?
Para completar a desdita, antes de fugir para os Estados Unidos de onde não deveria ter voltado tão cedo, Bolsonaro caiu na tentação de surrupiar joias que seriam incorporadas ao acervo do Estado.
E, de fato, surrupiou uma parte – infelizmente, para ele, a de menor valor. E tentou surrupiar a outra parte, no valor de 16,5 milhões de reais, que fora apreendida pela Receita Federal.
Vem, agora, em depoimento à Polícia Federal, e diz com a maior cara de pau que só tomou conhecimento das joias dadas de presente pela ditadura da Arábia Saudita mais de um ano depois.
E que ao tentar reavê-las, quis salvar o Brasil da vergonha de apreender presentes oferecidos por um governo ao outro. Ora, por que não os declarou desde logo como presentes entre governos?
As joias teriam sido liberadas, conforme a lei. E por que se apropriou de parte delas que lhe chegou às mãos, levando-as ao deixar o governo? É uma história sem pé nem cabeça, surreal.
Em resumo, no que Bolsonaro quer que acreditemos:
Entenda-se por deliberados: atos de sua iniciativa, sobre os quais deve ter refletido bastante. Supor o contrário seria achar que Bolsonaro não tem juízo, comporta-se como um animal irracional.
Ele pode ser inculto, como tantas vezes demonstrou. Se não mentiu, e como já disse, só leu, ou mal leu, um livro em toda a sua vida – as memórias do coronel torturador Carlos Alberto Ustra.
Mas uma toupeira, seguramente ele não é. Uma toupeira não chega à presidência da República. Em 2018, unir a direita em torno de si foi uma obra admirável de argúcia e arquitetura política.
Deu azar no ano passado ao esbarrar em Lula que imaginara fora do seu caminho desde que o ex-juiz Sérgio Moro o prendera e condenara. Ainda assim, perdeu por uma titica de votos.
Era para ter perdido por uma grande diferença, afinal carregava nas costas 700 mil mortos pela Covid, a situação deplorável da economia e os ataques furiosos à democracia que jurou respeitar.
Ao seu modo, fez quase tudo certo para tentar se reeleger. Ao perder, entrou em estado de choque. De lá para cá, fez tudo errado. Tivesse reconhecido a derrota, não estaria à beira do cadafalso.
Provocava-lhe náuseas telefonar para Lula parabenizando-o pela vitória? Era-lhe inadmissível participar da cerimônia de transferência da faixa presidencial? Absurdo, mas sairia na urina.
Não foi, porém, o que aconteceu. Paralisado, com a erisipela a aumentar seu sofrimento, absteve-se de governar por dois meses e estimulou silenciosamente o golpe de 8 de janeiro.
Ou os golpistas teriam ido às ruas se Bolsonaro, de pronto, ordenasse o retorno para casa? Ou o Exército deixaria contra a vontade de Bolsonaro que golpistas acampassem à sua porta?
Para completar a desdita, antes de fugir para os Estados Unidos de onde não deveria ter voltado tão cedo, Bolsonaro caiu na tentação de surrupiar joias que seriam incorporadas ao acervo do Estado.
E, de fato, surrupiou uma parte – infelizmente, para ele, a de menor valor. E tentou surrupiar a outra parte, no valor de 16,5 milhões de reais, que fora apreendida pela Receita Federal.
Vem, agora, em depoimento à Polícia Federal, e diz com a maior cara de pau que só tomou conhecimento das joias dadas de presente pela ditadura da Arábia Saudita mais de um ano depois.
E que ao tentar reavê-las, quis salvar o Brasil da vergonha de apreender presentes oferecidos por um governo ao outro. Ora, por que não os declarou desde logo como presentes entre governos?
As joias teriam sido liberadas, conforme a lei. E por que se apropriou de parte delas que lhe chegou às mãos, levando-as ao deixar o governo? É uma história sem pé nem cabeça, surreal.
Em resumo, no que Bolsonaro quer que acreditemos:
* Que apenas a poucos dias do fim do seu governo ficou sabendo que jazia há mais de um ano em um cofre da Receita um estojo com joias destinadas a Michelle;
* Que por mais de um ano sonegaram-lhe a informação de que um estojo com joias destinadas a ele esteve guardado em algum lugar do Ministério das Minas e Energia, não se sabe por quê;
* Que sinceramente não lembra do nome do auxiliar que o avisou sobre as joias para ele e para Michelle trazidas da Arábia Saudita pelo almirante e ex-ministro Bento Albuquerque.
A história é outra, e poderá custar-lhe o indiciamento em crimes de peculato e corrupção passiva. Deixar a cena como ladrão é pior do que ficar inelegível por sabotar a democracia.
* Que por mais de um ano sonegaram-lhe a informação de que um estojo com joias destinadas a ele esteve guardado em algum lugar do Ministério das Minas e Energia, não se sabe por quê;
* Que sinceramente não lembra do nome do auxiliar que o avisou sobre as joias para ele e para Michelle trazidas da Arábia Saudita pelo almirante e ex-ministro Bento Albuquerque.
A história é outra, e poderá custar-lhe o indiciamento em crimes de peculato e corrupção passiva. Deixar a cena como ladrão é pior do que ficar inelegível por sabotar a democracia.
quarta-feira, 5 de abril de 2023
Do planeta imaginário para a terra real
Existe uma noção crescentemente difundida de que o nosso planeta mudou muito desde a Revolução Industrial. Ao longo dos anos, nesta crónica do JL tenho procurado documentar profusamente aquilo que o historiador John McNeill (2000) designou como “A Grande Aceleração”: o crescimento exponencial do impacto humano sobre o complexo software planetário, aumentando a sua entropia e desequilibrando os seus frágeis equilíbrios, de que depende a biosfera, incluindo a sobrevivência da nossa espécie. Contudo, mesmo entre as camadas mais educadas da população, em virtude também da visão fragmentada do mundo que nos é oferecida pelas formações académicas hiperespecializadas (mesmo dentro das ciências naturais e quantitativas), a dimensão, profundidade e significado dessa mudança é bastante vaga e imprecisa.
As políticas públicas de ambiente e clima – incluindo as suas conexões com as políticas de economia, saúde ou defesa – têm-se caracterizado pelo pressuposto não interrogado de que a crise ambiental e climática constitui um epifenómeno indesejado de um processo globalmente positivo, que pode ser corrigido através de uma convicção, também ela não questionada, acerca da essência ilimitada do nosso engenho técnico, capaz de estar à altura de todo e qualquer desafio (Soromenho-Marques & Ribeiro, 2022). Por muito dolorosos que sejam os danos colaterais, para essa visão convencional não está em causa a bondade do processo civilizacional em curso, nem a possibilidade de resolver, ou, pelo menos, atenuar substantivamente, os danos colaterais infligidos pela ação antrópica sobre o ambiente.
Em busca de uma nova visão da Terra a história da ciência moderna manifesta sem ambiguidade a natureza coletiva e institucional da empresa científica. São precisos meios materiais e humanos, organizados numa perspectiva de longo prazo. A empresa científica tem de estar associada ao sistema educativo, suportada por políticas públicas, articulada com os atores de mercado, legitimada pelo apoio da opinião pública e das organizações da sociedade civil. O processo de transição de uma visão parcelar, disfuncional, das questões ambientais para uma visão holística, integrada, capaz de oferecer representações e modelos com uma sólida base quantitativa e uma rigorosa adesão à realidade concreta, foi bastante lento e penoso. Foi preciso aproximar disciplinas e, sobretudo, pessoas de culturas académicas diferenciadas. Foi indispensável reorganizar projetos científicos, incluindo difíceis estratégias interdisciplinares e complexos modelos de financiamento.
Esse caminho começou a ser percorrido, com deliberação e consciência, por parte dos seus intervenientes, cerca da década de 1980 (o fim da guerra fria libertou meios e vontades para essa expansão). O resultado é o que hoje se designa, muitas vezes sem noção da novidade do que está em causa, a “ciência do Sistema-Terra” (Earth System science). No seu processo de construção, têm-se congregado não apenas as ciências naturais, mas também as ciências sociais e humanas (Steffen, W., Richardson, K., Rockström, J. et al, 2020).
O Sistema-Terra, ao ultrapassar uma visão especializada e fragmentar da “natureza” predominante durante séculos na cultura científica ocidental moderna, permite dar visibilidade a fenómenos e processos complexos “emergentes”, objetos que só se tornam visíveis a partir da combinação entre os domínios que, anteriormente eram encarados como áreas especializadas, tendencialmente autónomas, esse é o caso de um indicador fundamental para estudarmos as alterações climáticas, o da temperatura média global de superfície, como nos explica Will Steffen, um dos cientistas mais relevantes nas pesquisas sobre os nossos desafios existenciais:
“Basicamente, o ‘Sistema Terra’ refere-se aos processos físicos, químicos e biológicos que interagem entre si e ligam a atmosfera, a criosfera (gelo), a terra, o oceano e a litosfera. Estes processos criam ‘propriedades emergentes’ – ou seja, propriedades e características do Sistema Terra como um todo, que surgem da interação entre estas esferas. A temperatura média global de superfície é um bom exemplo – é uma propriedade do Sistema Terra como um todo.” (Steffen, W. & Morgan, J., 2021).
Uma janela para a realidade escondida Ao longo das últimas duas décadas, nomeadamente com a identificação do nosso presente como constituindo uma nova época da história geológica, isto é, do tempo longo planetário, o Antropoceno (Crutzen & 2000), essa ideia geral de um “Sistema-Terra” , de um planeta constituído não por blocos mecanicamente autónomos (como é representado na visão convencional), mas pela complexa interação e interdependência de processos, ciclos, e fluxos de matéria e energia, deu origem a um sofisticado modelo, e em permanente atualização. A Terra, modelada desse modo, compreende os seguintes campos e respetivos limites: 1) Alterações climáticas; 2) Taxa de perda de biodiversidade; 3) Ciclo do azoto/ciclo do fósforo – que compreende conjuntamente o limite do fluxo biogeoquímico; 4) Depleção do ozono estratosférico; 5) Acidificação oceânica; 6) Utilização global da água doce; 7) Alteração do uso do solo; 8) Carga atmosférica de aerossóis; 9) Poluição química (Rockström, J., Steffen, W., Noone, K. et al. 2009; Steffen, W., Richardson, K., Rockström, J., et al., 2015).
Trata-se de um autêntico painel de controlo, identificando os “limites planetários” (planetary boundaries) que não devem ser ultrapassados numa gestão prudente da nossa habitação histórica neste planeta. Um instrumento precioso para a sobrevivência, tanto mais quando é factual que em seis desses nove campos a luz vermelha do perigo já se acendeu. Parece-me desprovido de ambiguidade o desafio que a ciência do Sistema-Terra lança à política, à economia, ao direito, às relações internacionais, à ética: só conseguiremos evitar um colapso da civilização – que erguemos na base de uma fictícia visão da Terra (que considerámos, e continuamos na prática a considerar, como uma estrutura solidamente permanente e à nossa disposição para necessidades e caprichos) – se trabalharmos em conjunto, numa cooperação compulsória, imposta pela brutal realidade da encruzilhada existencial em que nos encontramos.
Que em vez disso, sejam os demónios da guerra e da discórdia, a falar mais alto, diz-nos bem, da distância gigantesca entre aquilo que é e o que deveria ser.
As políticas públicas de ambiente e clima – incluindo as suas conexões com as políticas de economia, saúde ou defesa – têm-se caracterizado pelo pressuposto não interrogado de que a crise ambiental e climática constitui um epifenómeno indesejado de um processo globalmente positivo, que pode ser corrigido através de uma convicção, também ela não questionada, acerca da essência ilimitada do nosso engenho técnico, capaz de estar à altura de todo e qualquer desafio (Soromenho-Marques & Ribeiro, 2022). Por muito dolorosos que sejam os danos colaterais, para essa visão convencional não está em causa a bondade do processo civilizacional em curso, nem a possibilidade de resolver, ou, pelo menos, atenuar substantivamente, os danos colaterais infligidos pela ação antrópica sobre o ambiente.
Em busca de uma nova visão da Terra a história da ciência moderna manifesta sem ambiguidade a natureza coletiva e institucional da empresa científica. São precisos meios materiais e humanos, organizados numa perspectiva de longo prazo. A empresa científica tem de estar associada ao sistema educativo, suportada por políticas públicas, articulada com os atores de mercado, legitimada pelo apoio da opinião pública e das organizações da sociedade civil. O processo de transição de uma visão parcelar, disfuncional, das questões ambientais para uma visão holística, integrada, capaz de oferecer representações e modelos com uma sólida base quantitativa e uma rigorosa adesão à realidade concreta, foi bastante lento e penoso. Foi preciso aproximar disciplinas e, sobretudo, pessoas de culturas académicas diferenciadas. Foi indispensável reorganizar projetos científicos, incluindo difíceis estratégias interdisciplinares e complexos modelos de financiamento.
Esse caminho começou a ser percorrido, com deliberação e consciência, por parte dos seus intervenientes, cerca da década de 1980 (o fim da guerra fria libertou meios e vontades para essa expansão). O resultado é o que hoje se designa, muitas vezes sem noção da novidade do que está em causa, a “ciência do Sistema-Terra” (Earth System science). No seu processo de construção, têm-se congregado não apenas as ciências naturais, mas também as ciências sociais e humanas (Steffen, W., Richardson, K., Rockström, J. et al, 2020).
O Sistema-Terra, ao ultrapassar uma visão especializada e fragmentar da “natureza” predominante durante séculos na cultura científica ocidental moderna, permite dar visibilidade a fenómenos e processos complexos “emergentes”, objetos que só se tornam visíveis a partir da combinação entre os domínios que, anteriormente eram encarados como áreas especializadas, tendencialmente autónomas, esse é o caso de um indicador fundamental para estudarmos as alterações climáticas, o da temperatura média global de superfície, como nos explica Will Steffen, um dos cientistas mais relevantes nas pesquisas sobre os nossos desafios existenciais:
“Basicamente, o ‘Sistema Terra’ refere-se aos processos físicos, químicos e biológicos que interagem entre si e ligam a atmosfera, a criosfera (gelo), a terra, o oceano e a litosfera. Estes processos criam ‘propriedades emergentes’ – ou seja, propriedades e características do Sistema Terra como um todo, que surgem da interação entre estas esferas. A temperatura média global de superfície é um bom exemplo – é uma propriedade do Sistema Terra como um todo.” (Steffen, W. & Morgan, J., 2021).
Uma janela para a realidade escondida Ao longo das últimas duas décadas, nomeadamente com a identificação do nosso presente como constituindo uma nova época da história geológica, isto é, do tempo longo planetário, o Antropoceno (Crutzen & 2000), essa ideia geral de um “Sistema-Terra” , de um planeta constituído não por blocos mecanicamente autónomos (como é representado na visão convencional), mas pela complexa interação e interdependência de processos, ciclos, e fluxos de matéria e energia, deu origem a um sofisticado modelo, e em permanente atualização. A Terra, modelada desse modo, compreende os seguintes campos e respetivos limites: 1) Alterações climáticas; 2) Taxa de perda de biodiversidade; 3) Ciclo do azoto/ciclo do fósforo – que compreende conjuntamente o limite do fluxo biogeoquímico; 4) Depleção do ozono estratosférico; 5) Acidificação oceânica; 6) Utilização global da água doce; 7) Alteração do uso do solo; 8) Carga atmosférica de aerossóis; 9) Poluição química (Rockström, J., Steffen, W., Noone, K. et al. 2009; Steffen, W., Richardson, K., Rockström, J., et al., 2015).
Trata-se de um autêntico painel de controlo, identificando os “limites planetários” (planetary boundaries) que não devem ser ultrapassados numa gestão prudente da nossa habitação histórica neste planeta. Um instrumento precioso para a sobrevivência, tanto mais quando é factual que em seis desses nove campos a luz vermelha do perigo já se acendeu. Parece-me desprovido de ambiguidade o desafio que a ciência do Sistema-Terra lança à política, à economia, ao direito, às relações internacionais, à ética: só conseguiremos evitar um colapso da civilização – que erguemos na base de uma fictícia visão da Terra (que considerámos, e continuamos na prática a considerar, como uma estrutura solidamente permanente e à nossa disposição para necessidades e caprichos) – se trabalharmos em conjunto, numa cooperação compulsória, imposta pela brutal realidade da encruzilhada existencial em que nos encontramos.
Que em vez disso, sejam os demónios da guerra e da discórdia, a falar mais alto, diz-nos bem, da distância gigantesca entre aquilo que é e o que deveria ser.
Está chegando a hora de Bolsonaro devolver-se à sua insignificância
Na condição inédita e desonrosa de primeiro ex-presidente dos Estados Unidos a sentar no banco dos réus, Donald Trump é acusado de subornar pessoas para que não revelassem informações que poderiam ter prejudicado suas chances de se eleger em 2020.
Entre os subornados, um porteiro, uma modelo, coelhinha da revista Playboy, e uma atriz de filmes pornográficos. Com as duas, ele manteve casos fora do seu casamento, o que nos Estados Unidos é capaz de destruir candidaturas e reputações.
Bolsonaro, hoje, irá depor à Polícia Federal na condição inédita e igualmente desonrosa de ex-presidente do Brasil acusado de surrupiar presentes milionários ofertados por outro país, e que deveriam ter sido incorporados ao acervo do Estado.
Parte dos presentes ficou retida na Receita Federal do aeroporto de Guarulhos, em São Paulo, porque desembarcou escondida na bagagem de um assessor do almirante Bento Gonçalves, então ministro das Minas e Energia, e não foi declarada.
A outra parte entrou ilegalmente no país na bagagem do próprio ministro, e dela Bolsonaro se apoderou e levou com ele ao fim do seu governo. Mas não ficou satisfeito. Fez tudo para reaver parte dos presentes apreendida pela Receita, tudo menos declará-la.
Esgota-se nesta semana o prazo dado pelo Tribunal Superior Eleitoral para que Bolsonaro se defenda da acusação de conspirar para solapar a democracia. Nenhum outro ex-presidente foi condenado por esse crime. Ele poderá ser também o primeiro.
O Congresso derrubou o presidente Fernando Collor acusando-o de corrupção. Mais tarde, o Supremo Tribunal Federal absolveu-o. O ex-juiz Sérgio Moro prendeu e condenou Lula por corrupção. O Supremo anulou a sentença, Lula foi solto e se elegeu presidente.
Por duas vezes, o presidente Michel Temer foi acusado de corrupção. O Congresso salvou-o de ser processado. No caso do escândalo das joias avaliadas em 18 milhões de reais, Bolsonaro poderá ser enquadrado por peculato e corrupção passiva.
Antigamente, para qualquer pessoa, especialmente para um homem público, virar réu em um processo era algo vergonhoso e talvez mortal. No Japão ainda tem quem se mate para lavar a honra, ou renuncie ao cargo e saia definitivamente de cena.
Trump prende usar sua condição de réu como trunfo para em 2024 vingar-se da derrota que o presidente Joe Biden lhe impôs há dois anos. A legislação americana permite que ele concorra e se eleja de dentro da cadeia, se for o caso. A nossa não permite.
Se condenado por crime contra a democracia, Bolsonaro ficará inelegível por 8 anos. São fartas e convincentes as provas de que ele se empenhou em desacreditar o processo eleitoral brasileiro e que usou a máquina do governo para roubar a reeleição.
Ou você acredita que Anderson Torres, então ministro da Justiça, sem autorização de Bolsonaro, desembarcaria na Bahia às vésperas do segundo turno da eleição passada para armar um esquema que impedisse eleitores petistas de votarem em Lula?
O ministro Gilmar Mendes acha que a “maior contribuição de Bolsonaro [ao país] foi devolver Moro ao nada”. Não foi. Embora justa, é birra de Gilmar com Moro. A maior contribuição de Bolsonaro ao país será ele mesmo devolver-se ao nada.
Sua hora está próxima.
Entre os subornados, um porteiro, uma modelo, coelhinha da revista Playboy, e uma atriz de filmes pornográficos. Com as duas, ele manteve casos fora do seu casamento, o que nos Estados Unidos é capaz de destruir candidaturas e reputações.
Bolsonaro, hoje, irá depor à Polícia Federal na condição inédita e igualmente desonrosa de ex-presidente do Brasil acusado de surrupiar presentes milionários ofertados por outro país, e que deveriam ter sido incorporados ao acervo do Estado.
Parte dos presentes ficou retida na Receita Federal do aeroporto de Guarulhos, em São Paulo, porque desembarcou escondida na bagagem de um assessor do almirante Bento Gonçalves, então ministro das Minas e Energia, e não foi declarada.
A outra parte entrou ilegalmente no país na bagagem do próprio ministro, e dela Bolsonaro se apoderou e levou com ele ao fim do seu governo. Mas não ficou satisfeito. Fez tudo para reaver parte dos presentes apreendida pela Receita, tudo menos declará-la.
Esgota-se nesta semana o prazo dado pelo Tribunal Superior Eleitoral para que Bolsonaro se defenda da acusação de conspirar para solapar a democracia. Nenhum outro ex-presidente foi condenado por esse crime. Ele poderá ser também o primeiro.
O Congresso derrubou o presidente Fernando Collor acusando-o de corrupção. Mais tarde, o Supremo Tribunal Federal absolveu-o. O ex-juiz Sérgio Moro prendeu e condenou Lula por corrupção. O Supremo anulou a sentença, Lula foi solto e se elegeu presidente.
Por duas vezes, o presidente Michel Temer foi acusado de corrupção. O Congresso salvou-o de ser processado. No caso do escândalo das joias avaliadas em 18 milhões de reais, Bolsonaro poderá ser enquadrado por peculato e corrupção passiva.
Antigamente, para qualquer pessoa, especialmente para um homem público, virar réu em um processo era algo vergonhoso e talvez mortal. No Japão ainda tem quem se mate para lavar a honra, ou renuncie ao cargo e saia definitivamente de cena.
Trump prende usar sua condição de réu como trunfo para em 2024 vingar-se da derrota que o presidente Joe Biden lhe impôs há dois anos. A legislação americana permite que ele concorra e se eleja de dentro da cadeia, se for o caso. A nossa não permite.
Se condenado por crime contra a democracia, Bolsonaro ficará inelegível por 8 anos. São fartas e convincentes as provas de que ele se empenhou em desacreditar o processo eleitoral brasileiro e que usou a máquina do governo para roubar a reeleição.
Ou você acredita que Anderson Torres, então ministro da Justiça, sem autorização de Bolsonaro, desembarcaria na Bahia às vésperas do segundo turno da eleição passada para armar um esquema que impedisse eleitores petistas de votarem em Lula?
O ministro Gilmar Mendes acha que a “maior contribuição de Bolsonaro [ao país] foi devolver Moro ao nada”. Não foi. Embora justa, é birra de Gilmar com Moro. A maior contribuição de Bolsonaro ao país será ele mesmo devolver-se ao nada.
Sua hora está próxima.
O milagre da Democracia
Acreditar em soluções milagrosas, decisões monocráticas, decretos contundentes é como acreditar em deus e não questionar mais nada. De uma certa forma é mais confortável, te exime de responsabilidades e te coloca num lugar privilegiado em cima do muro. Num estudo mais generalizado e superficial, as religiões mais imediatas agem assim. Não pergunte, acredite e tudo vai se resolver. Os governos menos democráticos também. Confie nos meus atos, não fique em dúvida e não questione. Vivemos um período recente em que as decisões eram tomadas desta maneira. Claro que nada visava o bem estar da população e sim, hoje sabemos, o bem estar privado de poucos. Como ninguém até então questionava, tudo ia bem. E como eles não pensavam em largar o osso tão cedo, melhor ainda.
Quando você não tem dogmas para te orientar, a vida fica tudo mais complicado, mas ao mesmo tempo, mais fascinante. Não saber e querer aprender é muito mais interessante do que aceitar “verdades”. Não acreditar em deus pode ser mais interessante do que aceitar simplesmente que ele existe. Questionar sua existência ou até sua não existência é muito mais interessante. Tudo que faz pensar dá mais trabalho. É gratificante, mas tira você da zona de conforto.
Governar o Brasil com essas questões todas que uma aliança tão ampla e necessária se apresenta fica difícil. Uma parte espera de Lula milagres imediatos. Outros torcem pelo fracasso também sem dar tempo ao tempo e sem participar desta dinâmica de reconstrução. Outras pessoas também reclamam da lentidão da Justiça para julgar os crimes evidentes de Bolsonaro e sua turma. A Justiça democrática, mesmo que lenta como a nossa, é muito mais justa do que os atos sumários e disfarçados de jurídicos que estávamos habituados a engolir. Lula foi preso por Moro e a boa parte da sociedade aceitou sem problemas porque o pensamento comum era o de direita que culpava Lula e o PT por todas as mazelas brasileiras. O projeto da direita envolveu a mídia, o empresariado e a classe média nessa demonização. O próprio Supremo atropelou todos os seus “datas vênias” para justificar a atitude autoritária. Deu no que deu.
Mas hoje, que vivemos tempos diferentes e a falcatrua foi descoberta e denunciada, assistimos uma justiça mais lenta, mas mais democrática e um governo que tem mais dificuldades para resolver as questões. Mas a elite, que envolve parte da imprensa, está louca para morder o governo eleito pelo povo e que, democraticamente, tenta governar. Difícil viver de fato a democracia. Difícil aceitar os mistérios do universo sem colocar a responsabilidade em deus. Difícil trabalhar por soluções sem desejar no fundo soluções rápidas e milagrosas.
Viver dá trabalho, mas é fascinante. Governar um país dá trabalho, mas o resultado pode ser bem gratificante. Ver um povo mais feliz é como realizar uma tarefa ou descansar depois de um dia inteiro de trabalho e questionamentos. Temos que valorizar aquilo que só o ser humano tem, a capacidade de pensar e elaborar para poder minimizar um defeito que também só nós, acho eu, temos. A capacidade de aniquilar o próximo por mero prazer, doença ou por interesses espúrios. Acreditar na democracia é como não acreditar em milagres.
Quando você não tem dogmas para te orientar, a vida fica tudo mais complicado, mas ao mesmo tempo, mais fascinante. Não saber e querer aprender é muito mais interessante do que aceitar “verdades”. Não acreditar em deus pode ser mais interessante do que aceitar simplesmente que ele existe. Questionar sua existência ou até sua não existência é muito mais interessante. Tudo que faz pensar dá mais trabalho. É gratificante, mas tira você da zona de conforto.
Governar o Brasil com essas questões todas que uma aliança tão ampla e necessária se apresenta fica difícil. Uma parte espera de Lula milagres imediatos. Outros torcem pelo fracasso também sem dar tempo ao tempo e sem participar desta dinâmica de reconstrução. Outras pessoas também reclamam da lentidão da Justiça para julgar os crimes evidentes de Bolsonaro e sua turma. A Justiça democrática, mesmo que lenta como a nossa, é muito mais justa do que os atos sumários e disfarçados de jurídicos que estávamos habituados a engolir. Lula foi preso por Moro e a boa parte da sociedade aceitou sem problemas porque o pensamento comum era o de direita que culpava Lula e o PT por todas as mazelas brasileiras. O projeto da direita envolveu a mídia, o empresariado e a classe média nessa demonização. O próprio Supremo atropelou todos os seus “datas vênias” para justificar a atitude autoritária. Deu no que deu.
Mas hoje, que vivemos tempos diferentes e a falcatrua foi descoberta e denunciada, assistimos uma justiça mais lenta, mas mais democrática e um governo que tem mais dificuldades para resolver as questões. Mas a elite, que envolve parte da imprensa, está louca para morder o governo eleito pelo povo e que, democraticamente, tenta governar. Difícil viver de fato a democracia. Difícil aceitar os mistérios do universo sem colocar a responsabilidade em deus. Difícil trabalhar por soluções sem desejar no fundo soluções rápidas e milagrosas.
Viver dá trabalho, mas é fascinante. Governar um país dá trabalho, mas o resultado pode ser bem gratificante. Ver um povo mais feliz é como realizar uma tarefa ou descansar depois de um dia inteiro de trabalho e questionamentos. Temos que valorizar aquilo que só o ser humano tem, a capacidade de pensar e elaborar para poder minimizar um defeito que também só nós, acho eu, temos. A capacidade de aniquilar o próximo por mero prazer, doença ou por interesses espúrios. Acreditar na democracia é como não acreditar em milagres.
A era do jornalismo artificial
“Robô ‘ultrainteligente’ que usa Inteligência Artificial (IA) responde a dúvidas e redige textos sozinho.” Foi desta maneira, entre deslumbrada e singela, que a Folha reportou as primeiras impressões sobre o ChatGPT, a ferramenta de inteligência artificial que revoluciona, ameaça ou abre uma nova dimensão no relacionamento entre a espécie humana e as máquinas. A frase parece tirada de algum episódio de ficção científica dos anos 1970.
Seria interessante saber se o robô, chatbot para os íntimos, saberia escrever em um estilo datado de ficção, levando em conta, por exemplo, um imaginário alimentado por séries de TV dos anos 1960. Tudo por aqui chegava atrasado.
A primeira experiência pública, em larga escala, de um dispositivo com capacidade de gerar conteúdo e propor a solução de problemas teve lançamento mundial no fim de novembro. O primeiro teste da Folha foi pedir ao chat duas reportagens hipotéticas: a vitória do Brasil sobre a França na final da Copa do Qatar e, algo ainda mais improvável, a posse presidencial, respondendo se Jair Bolsonaro passaria a faixa para Luiz Inácio Lula da Silva.
O relato do jogo obtido é tão escolar que Neymar é chamado de Neymar Jr.. “A equipe brasileira comemorou sua vitória com alegria, sendo saudada por milhões de torcedores em todo país.”
A frase só perde em ingenuidade para a do artigo seguinte: “O atual presidente, Jair Bolsonaro, esteve presente na solenidade e passou a faixa presidencial para seu sucessor, demonstrando respeito ao processo democrático e ao cargo que ocupa“.
Qualquer jornalista em início de carreira seria cético em relação a Neymar e Bolsonaro, que, por sinal, não renderam quase nada após a publicação do jornal sobre a novidade. A máquina, porém, aprende.
Dos tantos riscos e maravilhas que a nova tecnologia promete proporcionar, um tema em especial vem sendo pouco explorado na mídia: o efeito sobre ela mesma. Se o robô consegue fazer redações e trabalhos de nível universitário, poesia e cálculos complexos, é razoável imaginar que dará conta de peças jornalísticas profissionais daqui a pouco.
A imprensa terá que se adaptar, como todo o resto da sociedade, mas há uma grande nuvem escura no horizonte: quem precisará de conteúdo produzido por veículos jornalísticos quando o próprio buscador for capaz de gerá-lo?
Parte considerável dos sites é dependente do tráfego advindo das ferramentas de busca. Como já comentado nesta coluna, é isso que explica a profusão dos títulos literais, os “entenda”, “saiba como” etc.
Jornais estruturados, como a Folha, têm equipes dedicadas à análise e à prospecção de audiência. E, mesmo com tudo isso, a disputa é injusta, não por causa dos concorrentes, mas do arbítrio das empresas de tecnologia.
Não à toa, vários países estão aprovando remuneração compulsória pelo uso de material jornalístico. É sintomático que a Microsoft tenha estendido o nome de seu buscador, o Bing, para seu chatbot, ainda que com resultados desastrosos na estreia.
O prognóstico também não é animador no campo da desinformação. Se robôs apenas martelando histórias da carochinha já melam eleições, é de se imaginar o que pode acontecer com o salto de capacidade.
Um executivo disse que a inteligência artificial fará o trabalho chato em um mundo de demografia cadente (difícil engolir essa, em terra de subemprego). É mais fácil acreditar que as Big Techs estão fazendo barulho para conferir autoridade a máquinas ainda incompetentes, como escreveu o jornal The Guardian em editorial.
Seria interessante saber se o robô, chatbot para os íntimos, saberia escrever em um estilo datado de ficção, levando em conta, por exemplo, um imaginário alimentado por séries de TV dos anos 1960. Tudo por aqui chegava atrasado.
A primeira experiência pública, em larga escala, de um dispositivo com capacidade de gerar conteúdo e propor a solução de problemas teve lançamento mundial no fim de novembro. O primeiro teste da Folha foi pedir ao chat duas reportagens hipotéticas: a vitória do Brasil sobre a França na final da Copa do Qatar e, algo ainda mais improvável, a posse presidencial, respondendo se Jair Bolsonaro passaria a faixa para Luiz Inácio Lula da Silva.
O relato do jogo obtido é tão escolar que Neymar é chamado de Neymar Jr.. “A equipe brasileira comemorou sua vitória com alegria, sendo saudada por milhões de torcedores em todo país.”
A frase só perde em ingenuidade para a do artigo seguinte: “O atual presidente, Jair Bolsonaro, esteve presente na solenidade e passou a faixa presidencial para seu sucessor, demonstrando respeito ao processo democrático e ao cargo que ocupa“.
Qualquer jornalista em início de carreira seria cético em relação a Neymar e Bolsonaro, que, por sinal, não renderam quase nada após a publicação do jornal sobre a novidade. A máquina, porém, aprende.
Dos tantos riscos e maravilhas que a nova tecnologia promete proporcionar, um tema em especial vem sendo pouco explorado na mídia: o efeito sobre ela mesma. Se o robô consegue fazer redações e trabalhos de nível universitário, poesia e cálculos complexos, é razoável imaginar que dará conta de peças jornalísticas profissionais daqui a pouco.
A imprensa terá que se adaptar, como todo o resto da sociedade, mas há uma grande nuvem escura no horizonte: quem precisará de conteúdo produzido por veículos jornalísticos quando o próprio buscador for capaz de gerá-lo?
Parte considerável dos sites é dependente do tráfego advindo das ferramentas de busca. Como já comentado nesta coluna, é isso que explica a profusão dos títulos literais, os “entenda”, “saiba como” etc.
Jornais estruturados, como a Folha, têm equipes dedicadas à análise e à prospecção de audiência. E, mesmo com tudo isso, a disputa é injusta, não por causa dos concorrentes, mas do arbítrio das empresas de tecnologia.
Não à toa, vários países estão aprovando remuneração compulsória pelo uso de material jornalístico. É sintomático que a Microsoft tenha estendido o nome de seu buscador, o Bing, para seu chatbot, ainda que com resultados desastrosos na estreia.
O prognóstico também não é animador no campo da desinformação. Se robôs apenas martelando histórias da carochinha já melam eleições, é de se imaginar o que pode acontecer com o salto de capacidade.
Um executivo disse que a inteligência artificial fará o trabalho chato em um mundo de demografia cadente (difícil engolir essa, em terra de subemprego). É mais fácil acreditar que as Big Techs estão fazendo barulho para conferir autoridade a máquinas ainda incompetentes, como escreveu o jornal The Guardian em editorial.
Mesmo que leve algum tempo para os robôs entenderem que Neymar não é uma unanimidade, talvez só reste ao jornalismo profissional a inteligência de, o quanto antes, voltar a escrever para pessoas, não para os algoritmos.
segunda-feira, 3 de abril de 2023
Dinheiro à disposição gera crise
A crise da democracia se deve aos enormes poderes do dinheiro terem levado a casos de corrupção em todo lugar. O vazio do pensamento, somado a essa corrupção, leva a uma perda de confiança na democracia, e isso favoreceu os regimes neoautoritários, como vimos na Turquia, Rússia, Hungria e como vemos agora na crise da democracia no Peru e no Brasil.
A regressão histórica começou muito fortemente com os anos Thatcher e Reagan, que no fim do século passado impuseram a regra do liberalismo econômico absoluto, como se as leis da concorrência pudessem regrar e melhorar todos os problemas sociais, mas isso só favoreceu a especulação e a força do dinheiro, que controla a política.
A crise da democracia é o controle do poder político pelo poder financeiro, que é cego, que vê só os interesses imediatos, não tem consciência do destino da humanidade. A prova é a degradação da biosfera, que é evidente, e que vemos na degradação da Amazônia ou na poluição das cidades, por exemplo, mas que é ignorada em detrimento de um benefício imediato. Assim, damo-nos conta de que vivemos em uma época de cegueira e de sonambulismo. Isso participa na crise da democracia.
Eu vivi —sou muito velho, como sabe— nos anos 1930 e 1940, um período da ascensão da guerra, vínhamos de uma época em que acreditávamos estar em paz, mas numa crise econômica enorme que provocou a chegada de Hitler ao poder por vias democráticas.
Vivemos esse período como sonâmbulos, sem saber que íamos em direção ao desastre. Continuamos como sonâmbulos e estamos indo rumo ao desastre, em condições diferentes. O que é certo é o desastre ecológico, e o desastre dos fanatismos.
A menos que as pessoas tomem consciência da comunidade de destino dos humanos sobre a Terra, as pessoas se fecharão em suas identidades religiosas, étnicas etc. Vivemos um período obscuro da história, a única consolação é que esses períodos obscuros não são eternos.
A regressão histórica começou muito fortemente com os anos Thatcher e Reagan, que no fim do século passado impuseram a regra do liberalismo econômico absoluto, como se as leis da concorrência pudessem regrar e melhorar todos os problemas sociais, mas isso só favoreceu a especulação e a força do dinheiro, que controla a política.
A crise da democracia é o controle do poder político pelo poder financeiro, que é cego, que vê só os interesses imediatos, não tem consciência do destino da humanidade. A prova é a degradação da biosfera, que é evidente, e que vemos na degradação da Amazônia ou na poluição das cidades, por exemplo, mas que é ignorada em detrimento de um benefício imediato. Assim, damo-nos conta de que vivemos em uma época de cegueira e de sonambulismo. Isso participa na crise da democracia.
Eu vivi —sou muito velho, como sabe— nos anos 1930 e 1940, um período da ascensão da guerra, vínhamos de uma época em que acreditávamos estar em paz, mas numa crise econômica enorme que provocou a chegada de Hitler ao poder por vias democráticas.
Vivemos esse período como sonâmbulos, sem saber que íamos em direção ao desastre. Continuamos como sonâmbulos e estamos indo rumo ao desastre, em condições diferentes. O que é certo é o desastre ecológico, e o desastre dos fanatismos.
A menos que as pessoas tomem consciência da comunidade de destino dos humanos sobre a Terra, as pessoas se fecharão em suas identidades religiosas, étnicas etc. Vivemos um período obscuro da história, a única consolação é que esses períodos obscuros não são eternos.
Edgar Morin
Simplificar ou complicar
A guerra não é entre esquerda e direita, ou entre progressistas e conservadores, ou citadinos e rurais, ou mulheres e homens. Parece ser, mas não é. A verdadeira guerra é entre simplificadores e complicadores. E os simplificadores estão a ganhar.
Nos EUA, em jornais e revistas tradicionalmente dados a complicar as coisas, já se aceita a simplificação de BIPOC e brancos, em que BIPOC é a sigla de “black, indigenous, and people of color“.
Claro que muitos ativistas, negros e brancos, protestam contra a aglutinação: são complicadores, condenados pelos simplificadores.
Para poder complicar as coisas, é preciso perceber os simplificadores: não se pode ser um complicador sem tentar fazer isso.
Para os simplificadores, o que interessa é ir direito ao assunto. O que importa é concentrarmo-nos no que é importante. Até porque a complicação é usada como uma arma contra o ativismo.
A grande diferença nos EUA é, de facto, entre brancos e não brancos. Estar a dizer que há brancos com menos oportunidades do que certos não brancos é um exemplo de uma complicação artificial.
A simplificação leva a uma conclusão e a conclusão leva à acção. Já a complicação atrasa tudo e leva à reflexão. Estou a simplificar, claro.
Mas cada vez que há uma discussão, merecedora de ser chamada discussão, aquilo que se vê não é tanto um debate entre revolucionários e reacionários, como um debate entre maneiras de olhar para as coisas.
Os complicadores também não ajudam. Adoram pormenores, paradoxos e reviravoltas. Cultivam o absurdo e a contradição. E, sobretudo, gostam infinitamente de discutir tudo e mais alguma coisa.
A próxima vez que assistir a uma mesa-redonda com intervenientes muito identificados com posições predeterminadas, faça a experiência de identificar os simplificadores e os complicadores, e verá que a discussão se simplificará muito a partir daí.
Se depois quiser complicar as coisas, isso já é consigo.
Nos EUA, em jornais e revistas tradicionalmente dados a complicar as coisas, já se aceita a simplificação de BIPOC e brancos, em que BIPOC é a sigla de “black, indigenous, and people of color“.
Claro que muitos ativistas, negros e brancos, protestam contra a aglutinação: são complicadores, condenados pelos simplificadores.
Para poder complicar as coisas, é preciso perceber os simplificadores: não se pode ser um complicador sem tentar fazer isso.
Para os simplificadores, o que interessa é ir direito ao assunto. O que importa é concentrarmo-nos no que é importante. Até porque a complicação é usada como uma arma contra o ativismo.
A grande diferença nos EUA é, de facto, entre brancos e não brancos. Estar a dizer que há brancos com menos oportunidades do que certos não brancos é um exemplo de uma complicação artificial.
A simplificação leva a uma conclusão e a conclusão leva à acção. Já a complicação atrasa tudo e leva à reflexão. Estou a simplificar, claro.
Mas cada vez que há uma discussão, merecedora de ser chamada discussão, aquilo que se vê não é tanto um debate entre revolucionários e reacionários, como um debate entre maneiras de olhar para as coisas.
Os complicadores também não ajudam. Adoram pormenores, paradoxos e reviravoltas. Cultivam o absurdo e a contradição. E, sobretudo, gostam infinitamente de discutir tudo e mais alguma coisa.
A próxima vez que assistir a uma mesa-redonda com intervenientes muito identificados com posições predeterminadas, faça a experiência de identificar os simplificadores e os complicadores, e verá que a discussão se simplificará muito a partir daí.
Se depois quiser complicar as coisas, isso já é consigo.
Nosso umbigo
Na semana passada apoiadores do diário britânico The Guardian encontraram um comunicado incomum em suas caixas postais eletrônicas. Assinado pela editora-chefe Katharine Viner, o anúncio informava o resultado de uma investigação de dois anos encomendada a um plantel de eminentes acadêmicos do país. No relatório final, intitulado “Legado e escravização”, o grupo independente concluíra que, sim, o Manchester Guardian (nome original do jornal até 1951) dependera de trabalho escravo em seu nascedouro.
Para o jornal bicentenário, zeloso de sua independência editorial e financeira, foi uma questão de coerência moral ir até o fundo de suas raízes.
Como se sabe, o Guardian não é um matutino qualquer. Ocupa lugar bastante solitário entre as grandes mídias tradicionais de países democráticos. É regido há quase nove décadas por um truste sem fim lucrativo, criado em testamento pelo visionário C.P. Scott, seu mais longevo proprietário e editor. Cabe ao Scott Trust, formado por um conselho de oito integrantes (jornalistas, executivos e representantes externos), financiar o jornal — basicamente por meio dos dividendos gerados por seus investimentos. A ideia central do arranjo está em proteger o jornal de interferências políticas e comerciais. Apesar de sofrer prejuízos marcantes, como boa parte da mídia no mundo todo, o Guardian procura honrar esse compromisso. Isso envolve não só cobrir o presente e olhar para o futuro, como fuçar o próprio passado.
O relatório divulgado na semana passada revelou que a fortuna do fundador do jornal, John Edward Taylor, em 1821, assim como a de nove dos seus 11 financiadores, derivou em boa parte da indústria algodoeira de Manchester, cuja matéria-prima vinha de plantações do outro lado do Atlântico, nas Américas. Justamente onde trabalhavam os milhões de negros traficados da África. Um dos financiadores do jornal não apenas comerciava o algodão cru d’além-mar, como era dono de uma plantação de açúcar na Jamaica com 122 negros escravizados. Seria, portanto, difícil não concluir que esses interesses tenham influído na política editorial do matutino, à época. Em episódio de 1833, para citar um só exemplo, quando os donos desses escravizados exigiram uma indenização polpuda para abrir mão de sua “propriedade humana”, o editorial do Guardian posicionou-se a favor do pleito.
— O preço da carne humana do Mississipi era regulado pelo preço do algodão em Manchester — já constatara o grande abolicionista americano Frederick Douglass, que testou como poucos a base constitucional da escravidão nos Estados Unidos.
Por que então o jornal investiu em escavação tão funda de sua história? Porque o Guardian é o Guardian. O fato de aqueles tempos serem outros não pode servir de desculpa para um crime contra a humanidade, explica a editora-chefe de hoje.
Foi justamente um pedido de desculpas formal que a fundação do Guardian divulgou com o relatório, acompanhado do anúncio de ações de justiça reparadora. Serão mais de £ 10 milhões (perto de R$ 62,5 milhões) em programas na Jamaica e alhures. Dado o papel crucial da escravidão para a persistência do racismo e das desigualdades sociais de hoje, o Guardian se compromete a encarar esse abismo.
— Acredito que diversidade é um imperativo tanto moral quanto prático para uma organização de mídia — escreveu Katharine Viner. Ela se socorreu também em James Baldwin:
— Nem tudo o que encaramos pode ser mudado, mas nada pode ser mudado até que seja encarado. No Reino Unido, negros representam apenas 0,2% dos jornalistas em atividade, enquanto somam 3% da população do país.
E no país que recebeu o maior fluxo escravagista de negros da África? Nas redações deste Brasil em que 56% da população se declara negra ou parda, a mesma representatividade despenca para tímidos 20% entre os profissionais de jornalismo. Como conciliar tamanho distanciamento social com um jornalismo que precisa injetar confiança e confiabilidade em seus leitores?
Esse contrato não escrito com a sociedade, por parte de uma imprensa madura, exige determinação para exumar o passado, clareza para analisar o presente e imaginação para apontar o amanhã. O Guardian está tentando. O momento atual parece excelente para também aqui o jornalismo profissional se repensar de ponta-cabeça. Começando pelo próprio umbigo. O Brasil é tão maior, mais rico, mais diverso, mais esperançoso e mais adulto do que nós, jornalistas da assim chamada “grande imprensa”, conseguimos ver! Melhor abrir o olho.
Para o jornal bicentenário, zeloso de sua independência editorial e financeira, foi uma questão de coerência moral ir até o fundo de suas raízes.
Como se sabe, o Guardian não é um matutino qualquer. Ocupa lugar bastante solitário entre as grandes mídias tradicionais de países democráticos. É regido há quase nove décadas por um truste sem fim lucrativo, criado em testamento pelo visionário C.P. Scott, seu mais longevo proprietário e editor. Cabe ao Scott Trust, formado por um conselho de oito integrantes (jornalistas, executivos e representantes externos), financiar o jornal — basicamente por meio dos dividendos gerados por seus investimentos. A ideia central do arranjo está em proteger o jornal de interferências políticas e comerciais. Apesar de sofrer prejuízos marcantes, como boa parte da mídia no mundo todo, o Guardian procura honrar esse compromisso. Isso envolve não só cobrir o presente e olhar para o futuro, como fuçar o próprio passado.
O relatório divulgado na semana passada revelou que a fortuna do fundador do jornal, John Edward Taylor, em 1821, assim como a de nove dos seus 11 financiadores, derivou em boa parte da indústria algodoeira de Manchester, cuja matéria-prima vinha de plantações do outro lado do Atlântico, nas Américas. Justamente onde trabalhavam os milhões de negros traficados da África. Um dos financiadores do jornal não apenas comerciava o algodão cru d’além-mar, como era dono de uma plantação de açúcar na Jamaica com 122 negros escravizados. Seria, portanto, difícil não concluir que esses interesses tenham influído na política editorial do matutino, à época. Em episódio de 1833, para citar um só exemplo, quando os donos desses escravizados exigiram uma indenização polpuda para abrir mão de sua “propriedade humana”, o editorial do Guardian posicionou-se a favor do pleito.
— O preço da carne humana do Mississipi era regulado pelo preço do algodão em Manchester — já constatara o grande abolicionista americano Frederick Douglass, que testou como poucos a base constitucional da escravidão nos Estados Unidos.
Por que então o jornal investiu em escavação tão funda de sua história? Porque o Guardian é o Guardian. O fato de aqueles tempos serem outros não pode servir de desculpa para um crime contra a humanidade, explica a editora-chefe de hoje.
Foi justamente um pedido de desculpas formal que a fundação do Guardian divulgou com o relatório, acompanhado do anúncio de ações de justiça reparadora. Serão mais de £ 10 milhões (perto de R$ 62,5 milhões) em programas na Jamaica e alhures. Dado o papel crucial da escravidão para a persistência do racismo e das desigualdades sociais de hoje, o Guardian se compromete a encarar esse abismo.
— Acredito que diversidade é um imperativo tanto moral quanto prático para uma organização de mídia — escreveu Katharine Viner. Ela se socorreu também em James Baldwin:
— Nem tudo o que encaramos pode ser mudado, mas nada pode ser mudado até que seja encarado. No Reino Unido, negros representam apenas 0,2% dos jornalistas em atividade, enquanto somam 3% da população do país.
E no país que recebeu o maior fluxo escravagista de negros da África? Nas redações deste Brasil em que 56% da população se declara negra ou parda, a mesma representatividade despenca para tímidos 20% entre os profissionais de jornalismo. Como conciliar tamanho distanciamento social com um jornalismo que precisa injetar confiança e confiabilidade em seus leitores?
Esse contrato não escrito com a sociedade, por parte de uma imprensa madura, exige determinação para exumar o passado, clareza para analisar o presente e imaginação para apontar o amanhã. O Guardian está tentando. O momento atual parece excelente para também aqui o jornalismo profissional se repensar de ponta-cabeça. Começando pelo próprio umbigo. O Brasil é tão maior, mais rico, mais diverso, mais esperançoso e mais adulto do que nós, jornalistas da assim chamada “grande imprensa”, conseguimos ver! Melhor abrir o olho.
Nunca aos domingos
Sempre desconfiei de que nada de muito importante aconteceu no Brasil aos domingos —importante no sentido de mudar a história. Fui checar, usando uma tabela de conversão num antigo Almanaque Capivarol, e vi que estava certo. Só em duas ocasiões tivemos fatos decisivos num domingo.
A execução de Tiradentes, em 21 de abril de 1792, não foi um deles —caiu num sábado. Nem o Dia do Fico, 9 de janeiro de 1822, uma quarta-feira. Nem o da Independência, 7 de setembro, um sábado. A Guerra do Paraguai começou numa sexta, 13 de dezembro de 1864; em outra, 15 de novembro de 1889, proclamou-se a República; e em ainda outra, 3 de outubro de 1930, caiu a Primeira República.
As mulheres ganharam o direito de voto numa quarta-feira, 24 de fevereiro de 1932. Também numa quarta, 10 de novembro de 1937, Getulio Vargas decretou o Estado Novo. Em 22 de agosto de 1942, um sábado, o Brasil declarou guerra ao Eixo nazifascista e, em 9 de agosto de 1943, uma segunda, criou a Força Expedicionária Brasileira, a FEB. Getulio se matou numa terça, 24 de agosto de 1954. Brasília tornou-se capital numa quinta, 21 de abril de 1960. E Jânio Quadros renunciou à presidência numa sexta, 25 de agosto de 1961.
O golpe de 1º de abril de 1964 foi numa quarta. A imposição do AI-5, numa sexta, 13 de dezembro de 1968 —e, por coincidência, também sua extinção, em 13 de outubro de 1978. Tancredo Neves foi eleito presidente numa terça, 15 de janeiro de 1985. Em 1º de julho de 1994, outra sexta, nasceu o Plano Real. Em 4 de junho de 1997, uma quarta, o Senado, bem pago, aprovou a emenda da reeleição. E por aí vai, nunca aos domingos.
Mas duas datas capitais da nossa história caíram num domingo. Em 22 de abril de 1500, o Descobrimento do Brasil. E, em 8 de janeiro de 2023, o quebra-quebra dos bolsonaristas em Brasília —o fato mais vergonhoso desses 523 anos. Por enquanto.
A execução de Tiradentes, em 21 de abril de 1792, não foi um deles —caiu num sábado. Nem o Dia do Fico, 9 de janeiro de 1822, uma quarta-feira. Nem o da Independência, 7 de setembro, um sábado. A Guerra do Paraguai começou numa sexta, 13 de dezembro de 1864; em outra, 15 de novembro de 1889, proclamou-se a República; e em ainda outra, 3 de outubro de 1930, caiu a Primeira República.
As mulheres ganharam o direito de voto numa quarta-feira, 24 de fevereiro de 1932. Também numa quarta, 10 de novembro de 1937, Getulio Vargas decretou o Estado Novo. Em 22 de agosto de 1942, um sábado, o Brasil declarou guerra ao Eixo nazifascista e, em 9 de agosto de 1943, uma segunda, criou a Força Expedicionária Brasileira, a FEB. Getulio se matou numa terça, 24 de agosto de 1954. Brasília tornou-se capital numa quinta, 21 de abril de 1960. E Jânio Quadros renunciou à presidência numa sexta, 25 de agosto de 1961.
O golpe de 1º de abril de 1964 foi numa quarta. A imposição do AI-5, numa sexta, 13 de dezembro de 1968 —e, por coincidência, também sua extinção, em 13 de outubro de 1978. Tancredo Neves foi eleito presidente numa terça, 15 de janeiro de 1985. Em 1º de julho de 1994, outra sexta, nasceu o Plano Real. Em 4 de junho de 1997, uma quarta, o Senado, bem pago, aprovou a emenda da reeleição. E por aí vai, nunca aos domingos.
Mas duas datas capitais da nossa história caíram num domingo. Em 22 de abril de 1500, o Descobrimento do Brasil. E, em 8 de janeiro de 2023, o quebra-quebra dos bolsonaristas em Brasília —o fato mais vergonhoso desses 523 anos. Por enquanto.
Vou processar o ChatGPT
É a pergunta fundamental, aquela que não calará nem se responderá jamais. Sábado passado, a vida apresentando suas esquinas mais taciturnas, seus tobogãs mais saltimbancos, eu – já que não podia ir até a Sé de Praga – pedi ajuda à inteligência artificial:
“Quem sou eu?”, perguntei ao seu representante mais próximo, o ChatGPT. “O que fiz, por onde andei, que livros produzi, até chegar a este ponto de interrogação?”, reforcei ao mágico de Oz da civilização cibernética, o Seu Sete da Lira da religião digital.
Por mais orgulhoso leonino que me seja o horóscopo, eu não chegaria ao ponto de um Gilberto Gil, o sábio baiano que, décadas atrás, no meio da letra de “Aquele abraço”, grifou com ênfase o verso “Quem sabe de mim sou eu/ é claro”. Gil lacrou sobre si próprio.
“Quem sou eu?”, perguntei ao seu representante mais próximo, o ChatGPT. “O que fiz, por onde andei, que livros produzi, até chegar a este ponto de interrogação?”, reforcei ao mágico de Oz da civilização cibernética, o Seu Sete da Lira da religião digital.
Por mais orgulhoso leonino que me seja o horóscopo, eu não chegaria ao ponto de um Gilberto Gil, o sábio baiano que, décadas atrás, no meio da letra de “Aquele abraço”, grifou com ênfase o verso “Quem sabe de mim sou eu/ é claro”. Gil lacrou sobre si próprio.
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| Osval (Cuba) |
A psicanálise ajuda muito na investigação, uma cigana formada em física quântica também andou me levando a vidas passadas. Mas eu não repetiria a meu respeito a afirmação peremptória de Gil. O “quem sou eu?” me permanece poeticamente interrogativo – e com mistérios cada vez mais a pintar por aqui.
Eu acabei de ver “Tudo em todo lugar ao mesmo tempo”. O filme se passa nos multiversos das milhares de vidas que vão se criando a cada opção que a gente toma. Por que não?
Já se riu outrora da multidão de heterônimos do Fernando Pessoa, também do Mário de Andrade versejando ser 300, 350, e eles queriam dizer a mesma coisa do filme moderninho. Poetas coisa nenhuma. Eles sabiam de tudo em todo lugar e ao mesmo tempo – o que não é caso do ChatGPT.
Segundo a resposta da inteligência artificial, eu sou autor de “Chão de pequenos” (“o diário da cantora Núbia Lafayette”), “Seu azul” (“homenagem à cidade de Belo Horizonte, onde o autor nasceu”), “O tempo passa como um leopardo” (“coletânea de crônicas sobre as mudanças na sociedade”), entre outras obras que são desconhecidas não só por mim, mas também por todo o resto da internet, vide que esses títulos não existem nem com outros autores.
A desinformação dói. São evidentes os danos à saúde e à felicidade de quem, já fragilizado pela existência dura dos dias, vai até o novo oráculo digital em busca de luz e no lugar encontra apenas mais dúvidas disruptivas sobre sua identidade. Terei mesmo escrito, e um dos tropeções nas pedrinhas portuguesas de Ipanema me apagou da memória, uma coleção de crônicas sobre o Rio de Janeiro com o título de “Em busca do Rio Vermelho”? Fui roteirista de “A grande família”?!
Nelson Rodrigues dizia que o videoteipe é burro, pela incapacidade de registrar a complexidade das emoções humanas. A inteligência artificial tem QI superior, mas ainda deixa a desejar. Arrogante, nem sempre sabe com quem, nem de quem, está falando, e vai em frente, envergonhada de tartamudear a elegância sábia de um “bem, isso eu não sei”.
Qualquer dia desses o ChatGPT receberá nas barras dos tribunais o devido processo legal deste que assina acima. Será réu do delito de ter aumentado a confusão identitária no coração de quem nela já estava. Um grave caso de erro de pessoa – a não ser que eu tenha escrito “O palácio dos urubus” (“sátira política sobre o governo brasileiro”) num de meus milhares de multiversos.
Eu acabei de ver “Tudo em todo lugar ao mesmo tempo”. O filme se passa nos multiversos das milhares de vidas que vão se criando a cada opção que a gente toma. Por que não?
Já se riu outrora da multidão de heterônimos do Fernando Pessoa, também do Mário de Andrade versejando ser 300, 350, e eles queriam dizer a mesma coisa do filme moderninho. Poetas coisa nenhuma. Eles sabiam de tudo em todo lugar e ao mesmo tempo – o que não é caso do ChatGPT.
Segundo a resposta da inteligência artificial, eu sou autor de “Chão de pequenos” (“o diário da cantora Núbia Lafayette”), “Seu azul” (“homenagem à cidade de Belo Horizonte, onde o autor nasceu”), “O tempo passa como um leopardo” (“coletânea de crônicas sobre as mudanças na sociedade”), entre outras obras que são desconhecidas não só por mim, mas também por todo o resto da internet, vide que esses títulos não existem nem com outros autores.
A desinformação dói. São evidentes os danos à saúde e à felicidade de quem, já fragilizado pela existência dura dos dias, vai até o novo oráculo digital em busca de luz e no lugar encontra apenas mais dúvidas disruptivas sobre sua identidade. Terei mesmo escrito, e um dos tropeções nas pedrinhas portuguesas de Ipanema me apagou da memória, uma coleção de crônicas sobre o Rio de Janeiro com o título de “Em busca do Rio Vermelho”? Fui roteirista de “A grande família”?!
Nelson Rodrigues dizia que o videoteipe é burro, pela incapacidade de registrar a complexidade das emoções humanas. A inteligência artificial tem QI superior, mas ainda deixa a desejar. Arrogante, nem sempre sabe com quem, nem de quem, está falando, e vai em frente, envergonhada de tartamudear a elegância sábia de um “bem, isso eu não sei”.
Qualquer dia desses o ChatGPT receberá nas barras dos tribunais o devido processo legal deste que assina acima. Será réu do delito de ter aumentado a confusão identitária no coração de quem nela já estava. Um grave caso de erro de pessoa – a não ser que eu tenha escrito “O palácio dos urubus” (“sátira política sobre o governo brasileiro”) num de meus milhares de multiversos.
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