segunda-feira, 4 de julho de 2022

'Fora, Bolsonaro' lembra o fim da ditadura

Os gritos de “Fora, Bolsonaro” pela plateia do Rock in Rio Lisboa não são apenas gritos de “Fora, Bolsonaro”. Os gritos de “Fora, Bolsonaro” durante o show de Elba Ramalho na noite de São João não são apenas gritos de “Fora, Bolsonaro”. Não podem ser comprados pelo valor de face. São algo mais. Por trás do “Fora, Bolsonaro” esconde-se algo semelhante ao que ocorreu no fim da ditadura militar com o ex-presidente João Figueiredo.

Numa visita oficial a Florianópolis, vaiado pelos universitários, chateado com a azeda recepção, o general envolveu-se num empurra-empurra de baixo calão. Assemelhou-se a uma briga de rua. Pouco depois, com a ditadura derrotada, Figueiredo deixaria o Palácio do Planalto pela porta dos fundos, para não passar a faixa presidencial ao sucessor, José Sarney.

A fuga e o imbróglio catarinense escandiam a exaustão dos brasileiros com a carestia, a inflação brutal e a incompetência —nessa ordem. Ao deixar o posto, a inflação superava os 200% anuais. Com um atenuante: Figueiredo chegava a ser engraçado em sua grosseria de cavalariço. Dizia preferir o cheiro de cavalo ao cheiro de povo. Ria-se das tolices dele porque em geral ele se autorridicularizava. Veja bem, cada um sabe onde coloca o próprio nariz.


Os gritos contra Bolsonaro, até numa plateia estrangeira, seguem semelhante diapasão de fastio do risca-faca que envolveu Figueiredo em Santa Catarina. Ambos demonstraram desprezo pelo cargo, pela oposição e uma atilada inapetência. Com a evidência de que Figueiredo estudou e alcançou o posto de general. Bolsonaro não conseguiu passar da patente de tenente (reformou-se capitão). Na vida civil, seria algo como um ensino fundamental incompleto.

No dia a dia, um preferia os cavalos; o outro prefere as motociatas. Aqui mais um atenuante: Figueiredo tinha posição diferente de Bolsonaro sobre o governo militar. Queria passar a bola para a frente; o outro quer roubar a bola. Produziu uma frase clássica sobre a ditadura (adulada pelo capitão):

— É para abrir mesmo ("regime"), e quem quiser que não abra, eu prendo, arrebento.

Diante dos comícios pelas Diretas Já, Figueiredo presenciou os maiores movimentos populares vistos no Brasil. Contra ele e a ditadura. No Congresso, com a emenda rejeitada por poucos votos, a pressão da opinião pública produziu a vitória de Tancredo Neves no Colégio Eleitoral, derrotando Paulo Maluf, o candidato rebelde do sistema.

Os votos dados a Tancredo, inclusive os de ex-apoiadores do regime militar, encerravam uma movimentação popular ensejada nas centenas de comícios, Brasil afora, marcados pelo desejo de liberdade e democracia. Em todos os momentos da campanha, havia o grito uníssono: “Abaixo a ditadura!”.

As manifestações das plateias dos espetáculos contra Bolsonaro seguem o mesmo roteiro da pressão feita pela opinião pública contra os militares. Lá como cá, surgiu como uma onda, que logo se tornou incontrolável. Não adianta Elba Ramalho pedir que o público se atenha à música, como aconteceu, querendo saudar somente São João. A plateia quer brindar todos os santos e espantar os demônios e os maus espíritos.

As milícias digitais (a dúzia de robôs denunciada por Elon Musk) trabalham para constranger os artistas posicionados contra Bolsonaro. Na ditadura militar, a tática era semelhante, embora analógica: havia a cadeia. Enquanto os robôs replicam tuítes de origem anônima, o público dos espetáculos tem rosto, CPF verificável e roupa com botões. Grita a plenos pulmões. Grita alto porque não quer esquecer os mais de 670 mil mortos (pais, mães e outros parentes) abatidos pela Covid-19 e pela motociata bolsonarista.

No fim da ditadura, também ocorreu o engajamento dos artistas. Do mesmo jeito, aconteceram clivagens. Já naquela quadra existiam os protobolsonaristas. Como agora, eram minoria. Ao contrário de hoje, não ganhavam milhões das prefeituras.

O pensador Isaiah Berlin, em “As raízes do romantismo”, lembra a reação dos filósofos epicuristas diante da destruição das cidades gregas por Alexandre, o Grande. Pensavam assim: “Quem não pode obter do mundo o que realmente deseja deve ensinar a si mesmo a não querer”. Era uma forma de autoproteção.

Mas o Brasil não é a Grécia Antiga, e a postura estoica não sugere ser a arma escolhida pelas plateias brasileiras. A vibração de engajamento entre artistas e público se dissemina como um estribilho. O público do “Fora, Bolsonaro” parece buscar que ele repita a frase de Figueiredo, o Único:

— Não odeio o povo brasileiro; o povo brasileiro é que me odeia. 

Novos livros trazem os tremores de tempos sombrios

Ao mesmo tempo, as pessoas lutam para manter a sanidade. Tocam o violão e a vida diária em suas atividades, saem em busca de novas soluções, num processo desigual de renovação e de resistência. Talvez fosse mais fácil ficar preso entre os tanques nos engarrafamentos da estrada, fingindo que nada daquilo estava acontecendo. Muitos saíram feridos, tiveram medo da depressão e da morte, mas a coragem venceu

Começa a chegar às livrarias uma coleção de livros que trazem o fel e os tremores dos últimos dois anos vividos sob um clima de tensão, ansiedade e isolamento. Uma literatura típica de tempos sombrios. Seus autores não tiveram tempo para se afastar dos campos minados em que pisavam. Imergiram nas ruínas e nos apagamentos da História que marcaram o período, para captar os efeitos de uma realidade torturante na vida das pessoas.

São livros que se situam na encruzilhada do jornalismo com a história e a ficção, alguns já disponíveis para o público. Não precisam recorrer aos efeitos de magia para conduzir os leitores a um mundo verdadeiramente fantástico, transitando às vezes por aventuras e situações dolorosas, nas fronteiras de um país dizimado e ameaçado de destruição.

Críticos e estudiosos de literatura que irão analisá-los no futuro tratarão de situar as obras na memória de um período de horrores e absurdos, estigmatizado pela junção de dois vírus letais, o da pandemia de Covid-19 e o de um autoritarismo pestilento de viés fascista.


São fragmentos de histórias reveladoras de vivências carregadas de dor e perplexidade, enfrentadas pelos habitantes confinados em suas casas. Uma realidade turbulenta, em que se combinam as agressões vindas do exterior com a ansiedade das perdas e as dores do luto familiar, num país atacado pelo negativismo, o fanatismo religioso e o irracionalismo.

Ao mesmo tempo, as pessoas lutam para manter a sanidade. Tocam o violão e a vida diária em suas atividades, saem em busca de novas soluções, num processo desigual de renovação e de resistência. Talvez fosse mais fácil ficar preso entre os tanques nos engarrafamentos da estrada, fingindo que nada daquilo estava acontecendo. Muitos saíram feridos, tiveram medo da depressão e da morte, mas a coragem venceu.

Livros foram gestados e escritos. O primeiro que apresento é o de Julián Fuks, Lembremos do futuro, isso tudo vai passar. Crônicas do tempo da morte do tempo, da Companhia das Letras. Vencedor do Prêmio Jabuti de melhor livro do ano em 2015, com o romance A Resistência, Fuks seduz o leitor com a alegoria de sua reflexão: “Penso na dor de um combalido país, um país maltratado e envilecido por alguns homens soturnos, e quase chego a pensar que o futuro não será grande o bastante para redimir essa tristeza, para realizar tão imenso luto”.

“Mas sim, é claro que sim, afirmo a mim mesmo com toda a certeza, o futuro renasce da mesma terra em que se calcina, o futuro se eterniza como o povo em gerações sucessivas; (…) Não tarda o dia em que os solitários se farão multidão, o silêncio se fará grito e ensurdecerá esses homens terríveis, e calará seus velhos pensamentos, eles todos vão passar, todos eles, vão passar, tudo isso, isso tudo vai passar.”

Julián Fuks lançou uma coletânea com 30 crônicas escritas no período mais crítico da pandemia. Seus textos refletem sobre a perda e a solidão, a fragmentação do tempo e as incertezas futuras de um país. Abrindo sempre espaço para outras manifestações da vida, por onde passa a esperança, com a qual podemos reconstruir e construir o futuro.

Num livro em que também aborda as conseqüências do presente no futuro, o jornalista e ensaísta Paulo Roberto Pires lançou Diante do fascismo – crônicas de um país à beira do abismo, pela Editora Tinta da China. Textos escritos para as revistas Época e Quatro Cinco Um, cobrindo o período de março de 2018 a março deste ano.

Pires dirige um olhar duro e sarcástico sobre esse tempo de dispersão e calamidades. Entra no debate público sem medo, critica a autoproclamada isenção de intelectuais que não assumem posição. Com a chegada do coronavírus e a radicalização do governo Bolsonaro, passa a se referir a ele como a encarnação da “barbárie fascista”. Deixa para o futuro o testemunho límpido e veemente de um escritor num momento crítico do país.

Autor de O drible, o jornalista, escritor e colunista da Folha de S.Paulo Sérgio Rodrigues apresenta seu novo romance, A vida Futura, da Cia das Letras. Uma inventiva ficção em que os escritores José de Alencar e Machado de Assis visitam o Rio de Janeiro do século 21 e têm suas vidas envolvidas com milicianos.

O sociólogo, ex-militante e exilado Liszt Vieira reaparece com A democracia Reage, O Brasil de 2020 a 2022, que se segue à Democracia resiste, 2018/20, pela editora Garamond. Pioneiro nas lutas do movimento verde, Liszt atua como um regente ao pôr em discussão questões da resistência democrática, da pandemia e do meio ambiente.

Em seu vasto painel histórico, o jornalista Laurentino Gomes lançou o volume 3 de sua trilogia sobre a escravidão: Da Independência do Brasil à Lei Áurea. Em 1822, a compra e venda de gente era o maior negócio do novo país independente, quando os escravos representavam cerca de 1/3 da população. Último volume é dedicado ao século 19 e passa pelo movimento abolicionista até a lei Áurea, de 1888. Laurentino expõe o infame legado da escravidão, que permanece arraigado na vida dos brasileiros.

sábado, 2 de julho de 2022

Governo Bolsonaro é um pastelão amador e sangrento

Se fosse obra de ficção, o governo Bolsonaro não passaria pelo crivo de críticos exigentes. Falta-lhe verossimilhança, esse conceito tão caro à literatura e ao drama. Tudo é tão caricatural e grotesco que um editor de livros ou um diretor de teatro ou cinema diriam: "Não dá para aceitar essa porcaria. Se a arte não reproduzir minimamente os critérios de razoabilidade e plausibilidade do mundo real, é impossível haver comunicação com o público". Antes de jogar o texto no lixo, esse meu crítico imaginário pensaria, com ar aborrecido: "Vá ler Aristóteles e não me amole. Ou escolha o caminho da literatura fantástica".

Os contrastes exagerados; a falta de nuances de caráter; o lobo que não disfarça a sua natureza mesmo em pele de cordeiro; a hipocrisia rasgada; o sujeito que vocaliza o contrário daquilo que pensa e que pratica o oposto do que diz... Nada disso rende boas histórias. Há bem mais do que 50 tons de maldade e de bondade nas pessoas. Sem ambiguidade não se constroem boas personagens. Vivemos, no entanto, um pastelão amador e sangrento. O bolsonarismo é um vilão sem imaginação. A personagem principal faz troça de doentes que morrem sufocados.


Trata-se de uma gente mesquinha mesmo quando afeta sabedoria superior. Na campanha eleitoral de 2018, Paulo Guedes falava nos salões do capital em nome da responsabilidade fiscal, opondo-se, então, ao que seria o populismo das esquerdas. Afinal, a presidenta "do outro lado" havia sido deposta em razão da suposta pedalada. Com a PEC dos Precatórios, o Ministério da Economia pedalou, furou o teto e deu calote. Tudo de uma vez. Tomaram gosto. A três meses da eleição, instaura-se a desordem fiscal na União e nos estados para baixar o preço dos combustíveis e se violam a Lei Eleitoral e a Constituição com o que o próprio Guedes chamou "PEC Kamikaze".

Eis os senhores que anunciam ter os arcanos da tradição, da família e do cristianismo. Falcatruas de proporções bíblicas tragam o Ministério da Educação. Os protagonistas são pastores que evocam, com as artimanhas do demônio, o nome de Deus. Vituperam contra as ditas licenciosidades do nosso tempo, a Anitta, a Pabllo e a "ideologia de gênero". O Código Penal e a Lei 12.850 põem nome nas coisas que esses homens pios praticaram por lá: tráfico de influência, corrupção ativa, lavagem de dinheiro, organização criminosa. Os garantidores dos costumes eram só uma súcia de ladrões.

Uma das figuras mais salientes e buliçosas dessa turma tão empenhada em combater os hábitos degenerados do nosso tempo era parceiro frequente das "lives" do presidente. Pedro Guimarães, ex-presidente da Caixa, não só tentava conferir robustez técnica aos desatinos do chefe como prometia, se preciso, pôr seu próprio corpo à prova em defesa da "nossa liberdade", para citar o "capitão". Em 2020, ameaçou pegar suas 15 armas e dar a vida, se preciso fosse, para combater quem tentasse impor restrições à sua família em razão da Covid. Esses valentes têm um lema: "Minhas armas, minhas regras".

Abriu-se a caixa de Pandora e lá de dentro saíram todos os males do mundo. Segundo testemunhos, o chefão da CEF submetia mulheres, de forma sistemática, a assédio sexual. Áudios evidenciam a rotina de assédio também moral. Há indícios de que o próprio Planalto sabia há tempos que algo não estava bem por lá. Guimarães, no entanto, era o mais frequente parceiro de cena do chefe.

O centrão foi um dos Belzebus da campanha bolsonarista em 2018. Hoje, Arthur Lira e Ciro Nogueira governam o país e estão empenhados em tornar de execução obrigatória as tais emendas do relator. A turma daria, assim, o seu próprio golpe, independentemente da sorte do seu líder. Ainda que não houvesse as lambanças do MEC e da Codevasf, o orçamento secreto já faria deste governo o mais corrupto da história.

É essa gente que ameaça o TSE e flerta com golpe de Estado caso perca a eleição. Flávio Bolsonaro, o patriota da "rachadinha", voltou a fazer ameaças em entrevista publicada ontem. Somos personagens de uma obra de ficção que afronta todos os fundamentos da verossimilhança. E, no entanto, é tudo verdade. E é preciso reagir no mundo dos fatos.

O casamento da barbárie com o atraso

O governo Bolsonaro é o casamento do atraso com a barbárie. Este projeto está levando o país a um enorme retrocesso, que já pode ser contado em termos de décadas. O Brasil tinha tido vários avanços institucionais e sociais desde a redemocratização, especialmente com a Constituição de 1988, mas também por meio de melhorias ocorridas em diversos mandatos. Ainda havia uma grande agenda de modernização pela frente, só que o bolsonarismo interrompeu este processo civilizatório e se corre o risco agora de sobrar apenas um Estado destruído e uma sociedade dominada pela lógica da violência.

A modernização brasileira ocorreu em múltiplas dimensões desde o final do regime militar. O primeiro ganho foi político. O país tornou-se democrático, realizando oito eleições presidenciais livres e com alternâncias de poder. Houve uma ampliação dos mecanismos de participação popular e fiscalização dos governantes, de modo que o Estado se tornou mais aberto à sociedade e transparente. A democracia brasileira tinha ganhado uma forma inédita, pois escolhia livremente os seus representantes por um método limpo de seleção e podia controlá-los para evitar o arbítrio, o pior dos males de qualquer regime político.

O segundo ganho desse processo civilizatório foi social. Houve enormes avanços em indicadores de saúde, num país historicamente marcado pela desassistência aos mais pobres, especialmente as crianças, mulheres e idosos. Sinal disso foi a melhora substancial nas taxas de mortalidade infantil, expectativa de vida, saúde materna, entre outros.

Tão ou mais expressivo foram as conquistas educacionais, uma vez que antes da Constituição de 1988 boa parte da população infantil e juvenil estava fora da escola ou era expulsa dela ao longo dos anos. O conjunto dos mais vulneráveis começou a completar o ensino fundamental e chegar ao ensino médio, coisa muito rara até a década de 1980.

A inclusão chegou a grupos como as pessoas com deficiência e fez-se uso de políticas afirmativas no acesso à universidade, gerando a primeira geração de negras e negros que em larga escala podem ocupar empregos e lideranças dos quais foram alijados desde o final da escravidão.

A redução da miserabilidade foi outra conquista social significativa. O Brasil reduziu em duas décadas a fome, que era endêmica no país, e o percentual de pessoas em situação de pobreza absoluta. Políticas como o Plano Real, o Bolsa Família, o BPC, o crescimento dos equipamentos da assistência social, entre os principais fatores, foram essenciais neste processo civilizatório, ao que se soma uma maior articulação do Estado com a sociedade e do governo federal com as prefeituras.

No campo econômico os avanços foram menores, mas não podem ser desprezados. Em primeiro lugar, o país foi, pouco a pouco, até a rebelião do Centrão, arrumando o orçamento público. Os gastos até o regime militar tinham poucas amarras institucionais e se podia ter, inclusive, orçamentos paralelos como a Conta Movimento do Banco do Brasil - imagine se o presidente Bolsonaro pudesse hoje utilizar esse tipo de recurso, que provavelmente ainda seria secreto por 100 anos...

Muitas reformas institucionais das contas públicas foram feitas e pouca gente lembra disso hoje. Tudo isso foi relevante para o combate à inflação, uma praga que assolou o Brasil por mais de 20 anos. Houve sim alguns sobressaltos depois do Plano Real, mas de magnitude bem menor do que na época áurea de instabilidade. Também ocorreram modernizações no campo das concessões, das privatizações, da legislação de parceria público-privado, da regulamentação do crédito e mais recentemente com a Lei das Estatais.

O maior problema dessa era de reformas foi, sem dúvida alguma, a combinação de crescimento econômico com garantia de emprego de qualidade. É verdade que em certos momentos conseguiu-se esse resultado virtuoso, com mais vigor durante quase dez anos desse século (2004-2013), que foi um período áureo de ascensão social mais ampla no Brasil. Entretanto, esses espasmos não foram suficientes para gerar um ciclo duradouro de desenvolvimento.

Boa parte dos analistas debita os fracassos da redemocratização ao pacto dos governantes eleitos com o atraso, representado não só por congressistas geralmente vinculados ao Centrão, mas também por grupos sociais e econômicos que parasitam o Estado.

Essa visão ajuda a entender a manutenção de proteções e privilégios, a continuidade de bolsões de clientelismo e corrupção, a ausência de reformas em áreas estratégicas. Porém, pelo menos desde Itamar Franco e ao longo da era tucano-petista, os governos tinham, com maior ou menor sucesso, uma perspectiva de modernização do país, de modo que procuravam barganhar com os setores atrasados, mas lutavam para não ser comandados por eles.


Bolsonaro acabou com essa era de modernização fazendo um casamento perverso entre o atraso e a barbárie. A junção com o patrimonialismo arcaico (e arcaizante) tem seu símbolo máximo na aliança com o Centrão, numa mistura diferente das anteriores por duas razões.

A primeira é que o comando da pauta legislativa e do orçamento livre foi dado integralmente ao presidente da Câmara, Arthur Lira. Nem FHC, nem Lula e mesmo Temer, que deu os primeiros passos neste sentido, não chegaram nunca a esse ponto. Lira manda e desmanda na República como nem Eduardo Cunha conseguira.

Ele pula todos os ritos processuais básicos da democracia para aprovar temas de interesse comum para a reeleição de seus pares e do presidente da República, recebendo de presente a chave de um cofre com mais de R$ 30 bilhões - um valor anual maior do que dez anos de petrolão!

Mas é a segunda especificidade do pacto macabro de Bolsonaro com o Centrão a mais relevante. Essa aliança tem gerado uma enorme desestruturação do Estado brasileiro, num processo de enfraquecimento de políticas públicas vitais como saúde, educação, meio ambiente e direitos humanos, além de desinstitucionalizar regras básicas de governança das instituições democráticas. O cenário é de terra arrasada, com a Federação vilipendiada, o sistema de controle dominado ou colocado sob fogo cruzado, a politização e redução da autonomia da burocracia federal e um aumento descomunal da opacidade dos atos governamentais.

O desespero em relação à reeleição presidencial levou a um comportamento ainda mais predatório na busca por recursos públicos. Lira e Bolsonaro perderam qualquer pudor que porventura tivessem e não estão se importando se vão quebrar e destruir o Estado.

Vão tirar dinheiro dos estados, dos municípios, da educação, da saúde, da segurança pública, da Eletrobras vendida, do BNDES e de onde mais for possível, inclusive descumprindo a legislação eleitoral. A aliança com o atraso chegou ao seu ponto máximo: não há mais modernização possível enquanto estiverem juntos os atores principais da novela bolsonarista.

O mais impressionante é que o pacto macabro com o atraso não é a pior característica do bolsonarismo. O seu caminho orientador é alimentar a barbárie na sociedade. Isso passa tanto pelo apoio a soluções violentas frente aos conflitos públicos, como pela disseminação do ódio contra grupos e atores sociais considerados inimigos.

Daí o apoio a garimpeiros ilegais que destroem a Amazônia e assassinam seus defensores, a haters misóginos e racistas da internet, a juízes e ocupantes de cargos públicos que pregam a desobediência às leis em nome da pureza moral, a políticos que defendem a repressão da criminalidade matando indiscriminadamente os pobres e pretos, a pastores de araque que saqueiam o orçamento público tirando dinheiro das crianças e jovens que ficaram sem educação remota por quase dois anos.

Essa selvageria é o núcleo das ideias de Bolsonaro, e o atraso trazido pelo Centrão é apenas um meio para se garantir o poder de disseminação da barbárie. Na verdade, ter mais dinheiro para jogar pelo helicóptero por alguns meses, procurando eleitores que aceitem migalhas, é um instrumento secundário na lógica política bolsonarista. O discurso principal não será esse. O radicalismo será a tônica da campanha de reeleição, e os coronéis da política, sempre patrimonialistas, mas geralmente moderados, foram engolidos, inadvertidamente ou não, pelo bolsonarismo.

Agora, o Centrão estará ao lado de um palanque que defende a humilhação e a violência contra crianças e mulheres estupradas, o assassinato dos muitos heróis como Marielle, Dom e Bruno que defendem os mais vulneráveis, o desprezo em relação aos indígenas e negros, a falta de empatia com os mortos pela covid-19.

Toda vez que um político aliado de Lira - ou ele próprio - for pedir voto, poderá ser lembrado dos vários episódios nos quais o bolsonarismo espalhou o ódio e a violência contra os mais diversos grupos sociais. O peso negativo de curto prazo do apoio de Bolsonaro pode estar mais na economia, mas essa companhia pode afetar mais profundamente a imagem dos políticos tradicionais.

De todo modo, a manutenção do casamento do atraso com a barbárie torna impossível o retorno ao caminho da modernização do país. É preciso que a sociedade brasileira perceba logo isso, antes que a lógica da violência bolsonarista enterre qualquer possibilidade civilizatória.

'Força' eleitoral


Sem auditoria dos votos, não tem eleição
General Walter Braga Netto (PL), pré-candidato a vice de Jair Bolsonaro

Bolsonaro derrete

Os marqueteiros de Jair Bolsonaro devem estar cortando os pulsos. Seu candidato se dedica a melar a imagem que tentam vender dele, baseada na potoca de 2018 e que poderia dar certo de novo: seus discursos sobre Deus, pátria, família e corrupção. Todas essas palavras já derreteram. Os profissionais se desesperam, porque o Bolsonaro de comício é um fantasma diante do Bolsonaro real.

Deus, por exemplo. Seu nome disputa em incidência com "porra" na boca de Bolsonaro. Às vezes Bolsonaro usa "porra" no lugar do ponto e outras no lugar da vírgula. Antes dele, nunca houve um presidente, nem João Batista Figueiredo, o mais grosso até então, que concluísse suas manifestações públicas com "porra". Sendo "porra" o chulo de "esperma", imagina-se como reagem as famílias católicas e evangélicas que se pautam por certo recato. E como estará Deus se sentindo nessa vizinhança verbal? Não esquecer que Ele ainda é um poderoso cabo eleitoral.


Quanto à pátria, é um território a ser distribuído entre os amigos: os estranhos ao serviço a quem ele entrega as tetas dos ministérios (não apenas o da Saúde e o da Educação) e os que visam zerar as reservas verdes, minerais, animais e aquáticas do Brasil (e, se isso exigir o extermínio dos povos indígenas, não é com ele). O problema é o rabo de Bolsonaro —está sempre de fora. Como esconder suas íntimas ligações com aqueles elementos?

E há a família, que, para ele, consiste exclusivamente dos filhos e de seus amigos sarados, carecas e bons de tiro. Mulheres não fazem parte, exceto para deboche, assédio e estupro, embora, neste último caso, só as que valham a pena. Dica para as próximas pesquisas: a quantas casas de família Bolsonaro seria hoje convidado?

É intrigante como ele trabalha contra si mesmo às vésperas da eleição. Só pode estar convicto de que, se não ganhar, tem, literalmente, bala para levar assim mesmo.

O poder paralelo e do avesso

O assassinato do indigenista Bruno Araújo Pereira e do jornalista Dom Phillips mostrou-nos que, na estrutura social e política da sociedade brasileira, transformados, persistem dois Brasis. O Brasil legal, que é aquele em que supomos viver e do qual supomos ser cidadãos, e o Brasil paralelo e clandestino, das formas disfarçadas de violação das leis e de minimização adaptativa das instituições aos requisitos de preservação e reprodução do atraso.

As eleições de 2018 acordaram e deram força ao Brasil retrógrado e sobrevivente de todos os nossos atrasos acumulados e represados desde as escravidões, a indígena formalmente encerrada em 1755 e a africana, em 1888. Esse Brasil acordou pós-moderno, na definição de Néstor García Canclini, sem moderno ter sido.

Arcaica concepção de poder e cômica tirania desenham um modelo de atraso lucrativo, o do poder pessoal e dos misticismos híbridos que desaguaram nas seitas e religiões de negócio. Nossas misérias se juntaram numa conspiração alienadora para usurpar o direito de expressão democrática do povo.

Eleitos e não eleitos, toscos, sem discernimento democrático, entenderam que bastava fazer o contrário do institucionalizado para que um projeto político de direita se definisse. Para devolver o Brasil aos órfãos do protagonismo da ditadura militar e da violência ditatorial lucrativas. Na lógica política invertida, o novo autoritarismo brasileiro, de moto ou a cavalo, pela violação de princípios e valores, desmontaria o Brasil da Constituição de 1988.


É esse o Brasil das concepções e ações residuais que não se enquadram nos padrões e valores da civilização, que trata os brasileiros de verdade e de direito como estrangeiros e inimigos. Esse Brasil paralelo já se tornou uma outra sociedade e já declarou guerra ao Brasil constitucional. Os dois mortos são vítimas dessa guerra e se juntam a um extenso número de cidadãos de bem vitimados pela morte ou por uma variedade de formas de violência simplesmente porque eram o que eram ou são o que são.

A declaração de que uma das vítimas era malvista na região em que os dois foram mortos e, portanto, não devia estar lá, vários jornalistas destacaram, foi interpretada como um ato de legitimação de que vasta área do território brasileiro é tutelada por gentes que não representam o Brasil oficial.

Os envolvidos em atividades econômicas ilegais: garimpo, madeireiros, pesca e, também, invasão de terras indígenas, grilagem e devastação ambiental, são indicações de que o Estado brasileiro pode ter perdido o controle de uma parte do território nacional. É ali cerceado e sobrepujado por poderes antagônicos aos da defesa nacional, inspirados e motivados pelos lucros ilegais da pirataria e do saque da nação.

Falou-se na possibilidade de existirem mandantes do crime. E depressa demais a polícia descartou essa hipótese, antes mesmo de localizar e deter todos os suspeitos e realizar as investigações necessárias. Talvez mandante nem exista e quem agiu o fez induzido por outros estímulos e certezas. Territórios e situações anômalas de poder paralelo, no Brasil, não só os da Amazônia e não só rurais, também em grandes cidades, são aqueles de presença de indivíduos espontaneamente agentes de uma suposta vontade dos donos do poder.

Aquela reunião do governo, de 22 de abril de 2020, em que o ministro do Meio Ambiente se referiu à mídia distraída com a pandemia de covid como fator propício a deixar passar a boiada de ações do governo que eram consideradas impróprias e ilegais, diante do silêncio do presidente, do vice, dos ministros, foi do tipo a induzir essas populações envolvidas com a economia clandestina a acreditar que o atual governo é seu aliado.

A apologia do uso de armas como instrumento de uma concepção antissocial de liberdade individual e de um presumível direito à violência, paralelo ao Estado, na questão da ordem, o favorecimento da compra de armas e de munição, as falas belicosas frequentes, a satanização das instituições, especialmente a Justiça, como inimigas de uma equivocada concepção de poder do presidente da República, tudo isso legitima a violência privada e autoriza a prática de ações que, à luz das regras do Brasil legal, são crimes.

As irracionalidades, desconstrutivas da organização política da sociedade brasileira, explodem todos os dias diante de todos. Tão acostumados estamos com elas, que mal notamos o que acontece em detrimento de todos nós enquanto brasileiros. São irracionalidades reveladoras do que somos e dos nossos limites como nação.

As eleições deste ano são mais do que confronto entre blocos ideológicos. Evidenciam cansaço. Há nelas um profético retorno à terra prometida.

quinta-feira, 30 de junho de 2022

Uma BIC na sala de tortura

Sou o poeta dos torturados/ dos desaparecidos/ dos atirados ao mar/ Sou os olhos atentos/sobre o crime
Pedro Tierra

Uma caneta BIC esquecida pelo torturador fez o preso torturado se animar no meio das maiores dores que sofrera em seus 24 anos de vida. Lentamente chegou até a BIC que brilhava na sala meio escura onde se sentia cheiro de suor e sangue, e logo escondeu-a, pois os torturadores voltariam. Quando foi levado a sua cela, dolorido com hematomas e sangrando aqui e ali, se sentia vitorioso com a caneta, era sua taça, seu troféu, e dias depois catava papel de cigarro, papel higiênico, para escrever. Foi assim que começou a nascer o poeta Pedro Tierra, que viveu cinco anos em várias prisões sendo interrogado, torturado, convivendo com mortes de companheiros. Decidiu viver para escrever poesias e homenagear tanto os amigos como os desconhecidos presos e torturados que não tiveram sua sorte de viver. Entrou no cárcere como Hamilton Pereira da Silva e ao sair era Pedro Tierra, o poeta que nasceu na prisão graças a uma BIC esquecida pelo torturador.

Nas poesias estão presentes os choques elétricos, cadeira do dragão, espancamentos e mais e muito mais poesias sobre suplícios, sangue, gritos, coragem, povo, liberdade. É um espanto tudo isso se transformar em poesia. Essa poesia silenciada mais aqui que no exterior começa a ser mais conhecida através de muitos, mas especialmente do professor e poeta Alberto Pucheu. Aliás, agradeço a ele a primazia de ler seu impactante ensaio que será publicado em livro, Pedro Tierra: esta obstinada vontade de resistir. As poesias de Pedro Tierra começaram a ser publicadas no exterior traduzidas primeiro ao espanhol por Dom Pedro Casaldáliga. Vencedor de muitos prêmios, Pedro Tierra se integrou nas lutas sociais ao sair da prisão, tendo sido um dos fundadores do Partido dos Trabalhadores. Ocupou cargos no Ministério da Cultura, em Secretaria de Cultura, integrou o MST, teve a coragem de seguir sua vida na política mesmo após cinco anos de tortura e prisão. Nunca esqueceu seus amigos que morreram, e dedicou suas poesias aos que conheceu e aos que não conheceu. Nome e sobrenomes que precisam ser recordados e que Pucheu nomeia um a um no seu emocionante ensaio com quase oitenta laudas.

Impactante foi o encontro de Pedro Tierra com o imigrante judeu Mayer Kucinski que buscava Ana Rosa, sua filha desaparecida e integrante da ALN como o poeta. “Desejava, para seguir vivendo, ver o rosto de Ana Rosa. Varava meus olhos com o cravo dos seus e me pedia, patético – a mim, que àquela altura cumpria já o terceiro ano de prisão –, uma palavra, ainda que fosse a notícia de sua morte. Eu não tinha nenhuma palavra para lhe dar.” Não tinha palavras para dizer ao velho pai Mayer, pai também do escritor Bernardo Kucinski, que escreveu o romance “K” sobre a busca do pai pela sua irmã Ana Rosa. Minha irmã mais velha, a Bluma, conheceu a adolescente Ana Rosa num Movimento Juvenil Judaico na década de 50 do século passado, e isso me aproximou dessa tragédia.

Escolhi parte do “Poema-Prólogo”, no qual Pedro Tierra sintetiza sua missão:

Fui assassinado.
Morri cem vezes
e cem vezes renasci
sob os golpes do açoite.
Meus olhos em sangue
testemunharam
a dança dos algozes
em torno do meu cadáver.
Tornei-me a mineral
memória da dor.
Para sobreviver,
recolhi das chagas do corpo
a lua vermelha de minha crença,
no meu sangue amanhecendo.
Em cinco séculos
reconstruí minha esperança.
A faca do verso feriu-me a boca
e com ela entreguei-me à tarefa de renascer.
Fui poeta
do povo da noite.

Se tivesse a capacidade de fazer um filme sobre Pedro Tierra, começaria filmando a sala de interrogatório, os torturadores e a BIC que o torturador esqueceu. Esse foi o momento em que começou a nascer Pedro Tierra, que precisamos conhecer mais, como conhecer nosso Brasil invadido. Invadido por enlouquecidos em busca de lucros. Nesses dias traumáticos que o País vive, será preciso passar o inverno, muitos invernos num só, sabendo que a primavera vai chegar.

Brasil ocupa último lugar em educação, entre 63 países

Desde 1989 o International Institute for Management Development (IMD), sediado na Suíça, publica um ranking anual de competitividade. Para tal, o IMD World Competitiveness Center entrevista empresária/os, investidora/es e gerentes de 63 países sobre diversos critérios.

No relatório mais recente, a América Latina se saiu especialmente mal. Excetuado o Chile, todos os demais seis grandes Estados ocupam os últimos postos entre as economias examinadas. O Brasil está em 59º lugar; numa das rubricas – relativa à educação de crianças e adolescentes e à formação profissional – aparece até mesmo na última posição.

Isso é uma catástrofe que não se limita à miséria educacional sob Jair Bolsonaro. O governo do populista de direita não está interessado em melhorar o nível dos escolares e universitários brasileiros. Os sucessivos ministros da Educação – até agora quatro – são notórios principalmente por suas excentricidades e seu óbvio desconhecimento da área.


O ex-ministro Milton Ribeiro chegou a ser preso preventivamente por corrupção – e acabou solto no dia seguinte. Abraham Weintraub só se salvou do mesmo destino graças à transferência para o exterior, a serviço do Banco Mundial. Um ministro nomeado não pôde assumir por ter alegado ter um título de doutor que não possuía. O atual ministro, ninguém conhece.
Futuro sem capital humano

No entanto, as consequências da miséria educacional, que o IMD provou tão claramente agora, vão muito além da política insuficiente do governo no ensino: elas estão profundamente enraizadas na sociedade brasileira. Sejam ricos ou pobres, em todas as camadas do Brasil a educação é considerada secundária, algo mais ou menos supérfluo, que é nice to have.

Muitos pobres não entendem que a educação possa ser uma possibilidade de ascensão social, pois praticamente não conhecem ninguém que tenha conseguido. As escolas públicas são tão ruins que até mesmo os mais pobres, se podem, enviam seus filhos para as particulares. Mas os diplomas só valem no papel.

"No Brasil, a educação se resume a uma situação em que uns fingem que ensinam, outros fingem que aprendem, e tudo termina em diploma", disse recentemente o filósofo Eduardo Giannetti em entrevista ao jornal Valor Econômico.

Grande parte dos jovens de classe média não possui a qualificação em matemática e português atestada em seu certificado de ensino médio, como têm mostrado repetidamente os estudos Pisa da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), que reúne os países industrializados desenvolvidos. Muitos são lançados como analfabetos funcionais e sem domínio das operações aritméticas básicas no mundo do trabalho, onde são proporcionalmente mal pagos.

Contudo, muitos brasileiros de classe média a alta também pensam que, ao colocar seus filhos em escolas caras, já fizeram o suficiente por sua formação. Não se ensina a pensar, mas a aprender de cor. Um indício é que no Brasil não se leem nem presenteiam livros. Também nas casas dos que poderiam comprá-los, livros são artigo raro. Onde há aula de música na escola? Que crianças ou adolescentes já foram a um museu ou exposição?

Para o Brasil, esse último lugar em relação ao nível educacional da população é um mau presságio, pois compromete seu futuro. Giannetti explica: "Porque a formação de capital humano é o que define a vida de um país. Nenhum local prospera, encontra o seu melhor, se não der a cada cidadão a capacidade de desenvolver o seu potencial humano. E o Brasil está muito longe de alcançar essa realidade."

A isso, não há nada mais a acrescentar.

Bolsonaro aguou o Bicentenário

O repórter Lauro Jardim deu uma pequena notícia ruim que reflete o tamanho do atraso em que o Brasil está metido. Os presidentes do Supremo Tribunal Federal (STF) e do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) estão tomando providências para proteger os dois prédios no dia 7 de setembro. O ministro Luiz Fux coordenou a formação de três anéis de proteção e, no dia do Bicentenário da Independência, isolará uma área de 1,5 quilômetro de raio. Ele teme a repetição das provocações do ano passado, quando caminhoneiros furaram o bloqueio da Esplanada dos Ministérios. Caravanas de ônibus levaram manifestantes que criticavam o tribunal e defendiam a cloroquina.

Na manhã do dia 7, Jair Bolsonaro discursou na Esplanada e ameaçou:

— Ou o chefe desse Poder enquadra o seu (ministro do STF) ou esse Poder pode sofrer aquilo que nós não queremos.

À tarde, na Avenida Paulista, foi adiante:

— Tem tempo ainda de arquivar seus inquéritos. (...) Sai, Alexandre de Moraes! Deixa de ser canalha, deixa de oprimir o povo brasileiro.

Há 200 anos, o 7 de Setembro é uma festa de todos. Não tem o clima festivo do 14 de Julho francês nem do 4 de Julho americano, mas nenhum governo fez do 7 de Setembro um dia de vulgar mobilização partidária e divisiva.

As ditaduras promoviam patriotas, sempre com algum conteúdo cívico. Há um século, o presidente Epitácio Pessoa trabalhou e comemorou o Centenário com uma grande exposição internacional, congressos e visitas ilustres. Em São Paulo, inaugurou-se o monumental Museu do Ipiranga, com seus jardins. Cinquenta anos depois, o presidente Emílio Médici passeou pelo país os restos mortais de Dom Pedro I e promoveu uma dezena de louváveis iniciativas culturais.

Em plena ditadura, Médici fez do 7 de Setembro um dia de congraçamento. Segundo o Ibope, 84% dos brasileiros diziam-se satisfeitos com a situação do país. O presidente cavalgava a própria popularidade, mas cortou as manobras que lhe permitiriam uma reeleição. No dia 6, proibiu-se a transcrição do decreto de Dom Pedro abolindo a censura.

(Durante o mês de setembro de 1972, no Araguaia, a ditadura matou pelo menos nove militantes do PCdoB, e os guerrilheiros mataram um sargento e um camponês. No Rio, foi morto um bancário durante um assalto a banco na Penha.)

A essência do 7 de Setembro divisivo de 2022 partiu do Planalto. Pena que este mesmo governo não tenha feito da data um momento de reflexão histórica. Salvo uns poucos eventos de abnegados, o Bicentenário da Independência será lembrado pela reinauguração do Museu do Ipiranga, obra de governos paulistas, com a ajuda de empresários, valorizada por João Doria.

Pelo menos nesse evento, os brasileiros estarão juntos, tendo o que festejar, pois o museu foi reerguido depois de décadas de decadência. Bolsonaro, seus ministros da Educação e secretários de Cultura reclamam da influência esquerdista nos currículos. A celebração de personagens e datas é uma das joias do pensamento conservador, e no Centenário a República Velha deu ao país o Museu do Ipiranga. Felizmente o museu será devolvido ao público.

Como ensinava Sérgio Buarque de Holanda, conservador é uma coisa, atrasado é outra.

Amazônia, uma colônia do Brasil

É curioso que na Amazônia (e outras florestas) se mantenha o modelo de governança colonial espoliativo que inaugurou o Novo Mundo no século XV. Ao que parece, a descolonização nessas áreas não se completou.

Há uns vinte anos vi algo parecido no México. Fui conhecer um projeto indígena que exportava café gourmet para consumidores solidários europeus. A região, infestada por grileiros, latifúndios e criminosos, lembrou a nossa Amazônia.

Subimos a selva montanhosa durante muitas horas em estrada intransitável, entre as regiões de Chiapas e Oaxaca. O clima na vila era tenso. O tráfego de jipes militares com suas Browning .50 era ostensivo.

Assim como no México, o enredo amazônico é secular. A degradação gradual do tecido legal e social segue uma ‘crônica de uma morte anunciada’.


Na Amazônia, como em outras florestas, o interesse privado juntou-se ao desinteresse público, para lucrar com a pobreza humana e a riqueza natural (nesses lugares, o abandono tornou-se a principal política pública).

Pude ver o mesmo na Colômbia, transbordando a violência da guerrilha e do tráfico nas florestas para cidades, como Medellín. A solução exigiu investimento vultoso e planejamento inovador.

Outro exemplo é o das selvas africanas, onde novos colonizadores estimulam o desvio de minerais valiosos, para produção de celulares e artefatos nucleares da China e Coreia do Norte (novas tecnologias, antigos métodos).

Por sua vez, o Brasil insiste no eufemismo do bandeirante herói, romantizado, que agia nos sertões sem lei até o século XVIII, subjugando índios, tomando terras, traficando ouro, diamantes e escravos, sob a leniência de Lisboa.

Ainda no século XVIII, o Marquês de Pombal oficializou a dilapidação da Amazônia, criando a Companhia Geral de Comércio do Grão Pará e Maranhão (também para vender escravos e raspar o tacho das riquezas locais).

Nessa toada, a floresta amazônica vive, ainda hoje, um prolongamento daquela ocupação, ora ilegal, ora ‘legalizada’, que fincava os marcos da soberania portuguesa, enquanto o governo não chegasse.

Porém, na Amazônia atual, não se justifica que permaneça a tolerância com os bandeirantes de hoje (grileiros, garimpeiros, madeireiros e outros). As fronteiras estão consolidadas e, bem ou mal, o Estado brasileiro em suas diferentes formas já está na Amazônia, apoiado pela Segurança Pública e a Defesa. Resta governá-la.

A esse cenário, adicione-se os agravantes da mudança climática em curso. É inadiável deixarmos de tratar a Amazônia como colônia do Brasil e integrá-la a um projeto de país, antes que a soberania escorra rio abaixo, como em outras florestas pelo mundo.

quarta-feira, 29 de junho de 2022

Brasil do Sem

 


Domingo a gente não tinha nada para comer

Assim dona Janete Evaristo expôs sua fome na TV. Moradora de Andaraí, no Rio de Janeiro – viúva, desempregada, responsável por cinco pessoas – era mais um na fila de um dos programas que distribuem refeições aos muitos que, hoje, têm fome e não têm o que comer. Fez chorar a repórter que a entrevistava. E fez chorar quem soube ou viu a cena na TV.

Deveríamos falar mais, falar muito sobre a fome. Ela é visível. Tem cara e corpo, magro e triste. É parte do cotidiano de todos que se movimentam por ruas, praças, parques, estradas, becos, favelas.

O pintor de paredes traz na marmita arroz, um pouco de feijão, ovo. Às vezes, só arroz e feijão – pouco.

A diarista, agradece o prato bem servido. Olha e faz o pedido. Posso levar um pouco pra janta da minha filha?

Cabeça baixa, explica. Tô quase sem nada em casa. O da mão pra boca ta cada vez mais curto, menor. Há humilhação na confissão da carência.

Como não sentir essa dor tão perto?

São trabalhadores que, ainda que tenham serviço remunerado, por ele não recebem mais o suficiente para ter a certeza da comida do dia seguinte.

Como dona Janete do Andaraí, país afora, 33 milhões de brasileiros sofrem a dor, a angústia da fome. Quase 7% desses vivem no estado Rio de Janeiro. O que significa, ali, hoje, há 1,2 milhão de famintos.

Há gente por trás dos números e dos percentuais. São pessoas, com a diária necessidade básica e fundamental de comer. Muita gente. Pouca comoção com a tragédia desses tantos sem comida no país que produz e exporta muito alimentos.

O Brasil, desanda no quesito responsabilidade social.

Não há decreto de sigilo que esconda a fome no Brasil de agora. Anos e anos para reduzir essa vergonha. Pouco tempo para tirar prato cheio da mesa de 1/5 dos brasileiros.

Há fome no mundo. A pandemia agravou. Sim. Mas, no Brasil, antes da pandemia, a fome já ganhava fôlego.

Nos derradeiros 10 anos, a insegurança alimentar galopou na direção de 58% da população brasileira. Gente de carne e osso que, em algum grau, convive com falta de alimentos. Leve, moderada ou grave, de novo, a fome retornou ao cotidiano da população brasileira.

A fome é uma indignidade. Permitir seu avanço é desumano.

O Brasil oficial de 2022 não tem envergonha pela fome de milhares. Não tem piedade.

O Brasil oficial, com apoio de 20% da população, prega o retorno do Deus, Pátria e Família – aí só cabendo o seu modelo de Deus, de pátria e de família.

Na arrogância de suas certezas, além de promover e embalar a fome, insistem em tomar direitos expressos na Constituição.

Loura, bela e arrogante, a juíza nega direito ao aborto a uma criança estuprada.

Na mesma semana, desumana inconsequência de muitos, expõe a vida e a dor de outra mulher estuprada – jovem atriz, de 21 anos, que, em silêncio, carregou o drama da gravidez advinda do abuso.

E Klara Castanho, a atriz, foi mais uma vez estuprada. Agora em praça pública e por duas mulheres – uma enfermeira, uma youtuber. Zero sororidade. Compaixão nenhuma. Máxima e inconsequente invasão de privacidade.

Dali pra frente, Klara, exposta em postas, foi mais notícia do que a fome. Sem direito a decreto oficial de sigilo – esse que costuma oferecer esconderijo de largo tempo aos mal-feitos de pequenas e grandes autoridades da República atual.

O Brasil real tem fome de comida, de respeito humano. De luz e lucidez. O Brasil oficial carece de vergonha moral.

Lira jantando

Não é normal que presidente da Câmara — ou do Senado — ofereça jantar em honra a ministros do Supremo. Qualquer que seja o ministro; qualquer, a razão. Não é normal que político — de alto ou baixo clero — convide juiz para convescote em casa; qualquer que seja o tempo. A razão para recusar sem ser deselegante é a prudência que oferece: não existe refeição grátis em Brasília.

Fulanizemos: o que pretenderá alguém como Arthur Lira ao promover celebração a ministro do STF, no caso Gilmar Mendes, senão demonstrar Poder? Seria gesto para comprometer miudamente, não fosse sobretudo um comprometimento ao exercício impessoal do poder na República. Com todas as vênias: não pode um juiz aceitar afago daquele cujo foro tem lugar no tribunal que compõe.

Se os ministros do Supremo erram nos convites oficiais que fazem, vide a infiltração militar golpista no TSE, quanto errarão nos informais que aceitam?

Não é normal — não se for a República — que juiz de tribunal superior transite naturalmente entre políticos. Não é normal que ministro de Corte constitucional seja articulador-formulador de soluções para impasses políticos.

Sacrifica-se a percepção de Estado de Direito quando os mais poderosos, inclusive os guardiões da Constituição, concertam-se em confrarias.


É a percepção de ministros da Corte constitucional como agentes políticos — negociadores junto aos Poderes, ao mesmo tempo que tomadores de prerrogativas do Parlamento e do Executivo — que faz ascender figuras como Kassio Nunes Marques e André Mendonça; porque ao presidente de turno, tanto mais um para quem a República é empecilho, sempre será tentador ter os seus homens num tribunal onipresente, que se lança a agir de ofício, a interferir, não raro provocador, em vez de responder a provocações.

Por que não ter o meu ministro, os meus? — projetará. Quão atraente será possuir — sob a vara de um togado de confiança — os instrumentos com que se concebeu, em nome da virtude, o inquérito das fake news, que já censurou uma revista?

A gente sabe como o arreganho começa, e até avalia que virá para o bem, mas nunca sabe aonde vai. Acabada a Lava-Jato, resta o lavajatismo como Zeitgeist.

O Supremo que se admite como engenheiro constrói arapuca contra si. O tribunal que se põe a andar — mesmo a legislar — em nome de causas virtuosas é o mesmo cuja atividade expansiva cria as condições para o contra-ataque reacionário quando mudada sua composição. Aquele que não se equilibra se oferece aos ventos. Última palavra, o STF deveria zelar por não abusar desse apanágio, especialmente no momento em que não faltam candidatos a Poder Moderador.

Lira mesmo, ou não será um dos patrocinadores da PEC que pretende transformar o Congresso em instância revisora de decisões do STF? O presidente da Câmara é senhor do Orçamento cuja gestão secreta e arbitrária — para a qual o Supremo faz vista grossa — consiste na própria ainda existência competitiva do governo do autocrata Jair Bolsonaro. Não dá para fazer discurso pela democracia e depois ir beber o vinho na casa do sócio-investidor do projeto bolsonarista.

Lira, com seus modos autoritários, é fiador legislativo — associado também nos costumes — de um presidente cujo populismo se exerce numa geração permanente de conflitos artificiais que erodem a República. O presidente da Câmara está muito à vontade nisso, conjugando a aplicação patrimonialista para o que seja harmonia entre Poderes. Estão — estavam — à vontade os ministros do Supremo?

Fico aqui pensando em como reage o cidadão brasileiro cada vez que escuta ou lê a pregação sobre balanço republicano e separação entre Poderes.

Ministros do Supremo — cujas canetas podem distribuir decisões monocráticas que, afinal, beneficiam um ou outro — precisam evitar que o tipo de vida social que têm os coloque sob desconfiança; coloque as decisões que tomam sob suspeita. A descrença é grande e vai profissionalmente explorada. E não importa que Bolsonaro também estivesse no jantar. O bolsonarismo explorará a promiscuidade caracterizada na ideia de um sistema — aquele (de que faz parte) que não o deixaria governar — que se resolve na mesa, à noite, sem os freios da impessoalidade de uma agenda pública.

Mas, sim, Bolsonaro estava lá, o herói que só quer mesmo salvar a própria pele e a dos filhos. Há relatos de que esteve a portas fechadas com Alexandre de Moraes. Gostaria de entender a validade — em junho de 2022, depois de tudo quanto já barbarizado — de conversas secretas com o capitão, senão ofertar as circunstâncias-armadilhas para que ele, sem deixar de atacar o Supremo, fale em acordos de alcova não cumpridos por ministro da Corte. Foi o que ocorreu após o 7 de Setembro. E já vem outro aí.

É hora de menos papinho e de mais plenário.

Fome dos que comem

Há duas fomes no Brasil de hoje: a fome de comida, que maltrata e mata, e a fome da moral, dos que assistem à tragédia sem indignação com o sofrimento dos outros, nem inteligência para perceber o custo social e econômico para todo o país.

Assistimos constrangidos aos 33,1 milhões de brasileiros dormindo, acordando e sobrevivendo sem se ter o que comer, ao mesmo tempo que sabemos que essa fome não decorre da escassez de alimentos no país. Nosso território não é desértico, não estamos vivendo uma guerra, não fomos invadidos. É vergonhoso que a fome ocorra num país que está entre os maiores exportadores do mundo, onde o agronegócio produz safras recordes sucessivas, em que os supermercados estão sempre abastecidos, e a televisão divulga dezenas de publicidades para vender comida e apresenta horas por dia de programas realities com concursos, lições e turismo de gastronomia.

Alguns países, mais populosos, também têm contingentes de famintos, mas nenhum deles tem tanta comida disponível, tanta propaganda de alimento, nem tanta apologia à gastronomia ao lado dos noticiários da fome na televisão. A fome de alguns não vem, também, da disputa pela comida que é suficiente para alimentar muitos brasis; a falta de educação também não decorre da necessidade de negar a educação a alguns para oferecer a outros. Ambas as fomes, de comida e de educação, são resultado da maldade, da insensibilidade e da estupidez.


A fome africana ocorre por falta de comida no país, a fome brasileira é por falta de acesso dos famintos à comida que existe disponível ao redor. Nossa vergonha vem da falta de solidariedade com os que passam fome e de competência para levar a comida de onde sobra para onde falta. A fome é causada pela insensibilidade social e por prioridades equivocadas na política. Nossa vergonha vem da banalidade de como vivemos em um mesmo país com falta para alguns e com excesso de comida para outros. Há um constrangimento pelas notícias da fome e vergonha por não termos justificativa para que ela ocorra. A única explicação está na indiferença diante dela e na incompetência para evitá-la.

Se o faminto contaminasse as pessoas alimentadas, como o vírus faz ao passar de um indivíduo doente para um saudável, certamente já teríamos aplicado a vacina disponível: garantindo acesso de todos à comida que sobra, construindo uma economia dinâmica para gerar emprego, assegurando renda suficiente ou simplesmente distribuindo comida diretamente a quem precisa. O mesmo acontece com o analfabetismo: se os cerca de 13 milhões de adultos analfabetos contaminassem aqueles que já aprenderam a ler, rapidamente surgiria a vacina: escola para todos desde a primeira infância e programas para a erradicação entre os adultos.

As fomes brasileiras, de comida e de educação, são resultado da insensibilidade daqueles que comem em relação aos que não comem e dos educados diante dos que não sabem ler. Insensibilidade e estupidez, porque o Brasil seria muito mais rico, mais belo e melhor para viver se não houvesse fome e se todos fossem satisfatoriamente educados. Alimentar os 33 milhões que passam fome não apenas reduziria o sofrimento dessas pessoas e suas famílias, mas melhoraria imediatamente a vida de todos nós, sem a vergonha que sentimos, e beneficiaria a todos com o trabalho produtivo dessas pessoas.

Da mesma forma, a educação de todos não apenas daria nova vida a esses analfabetos, mas também elevaria a produtividade do trabalhador brasileiro, a renda social, a riqueza de todos. A fome e o analfabetismo são prova de insensibilidade, mas também de estupidez nacional, porque atingem diretamente os que não comem e não sabem ler, mas também indiretamente os que comem e os instruídos. A fome está no estômago de quem não tem comida, mas também no coração e na mente dos que comem, especialmente aqueles que têm poder para mudar a realidade, criar mecanismos para que o excesso chegue aos que têm escassez de comida. Mas para que isso ocorra é preciso matar a fome dos que comem: fome de indignação e de inteligência.

terça-feira, 28 de junho de 2022

Brasil no prato

 


O drama da fome

Temos hoje 125,2 milhões de brasileiros em situação de insuficiência alimentar. O problema não se resolverá com providências tópicas e emergenciais.

Entre o acúmulo de dramas que se tornaram visíveis na sociedade brasileira nos últimos dias, está o não pequeno drama da fome. O país do futuro está sendo devorado pelo presente.

Os dados mais recentes sobre a fome, divulgados pela Rede Brasileira de Pesquisa em Soberania e Segurança Alimentar, colhidos em entrevistas realizadas em 12.745 domicílios, dão um retrato objetivo da situação em todas as regiões do país, na zona urbana e na zona rural. Constituem indicadores de uma parte do que é a nossa pobreza, pois se referem apenas à situação alimentar. Haveria que levar em conta o restante do que é a pobreza entre nós quanto à moradia, ao consumo não alimentar, à saúde, à educação.

A porcentagem dos que em 2004 viviam em situação de segurança alimentar era de 64,8%; em 2020/2021 caíra para 41,3%. Mesmo que se considere, como é necessário, a situação anômala criada pela pandemia, a intensidade de sua influência nos números foi agravada pela vulnerabilidade da sociedade brasileira ao impacto de desastres de todos os tipos, incluídos os decorrentes da incapacidade dos governos para lidar com situações excepcionais em todos os campos.

Entre o final de 2020 e o início de 2022, o número de pessoas em situação grave de fome saltou de 19,1 milhões para 33,1 milhões, 15,1% da população. Em pouco mais de um ano, 14 milhões de brasileiros passaram a viver em situação de fome, a forma mais acentuada de decadência social da pessoa. Temos hoje 125,2 milhões de brasileiros em situação de insuficiência alimentar.


O socorro tópico e emergencial oferecido pelo governo, melhor que nada, como se diz, tem pouco efeito no incremento da segurança alimentar. Tomando como referência a categoria dos que recebem 1/4 de salário mínimo per capita ou menos, a relação, nos três meses anteriores à coleta dos dados, entre o recebimento da Bolsa Família ou do Auxílio Brasil, dos que recebem, 8,1% estão em situação de segurança alimentar e 44,3% em insegurança alimentar grave. Entre os que não recebem, 9,9% estão na primeira situação e 56,7% estão na segunda.

O problema não se resolverá com providências tópicas e emergenciais. Elas se baseiam num pressuposto que vai se revelando completamente falso. O de que a situação adversa, do desemprego à fome, é transitória, de que o crescimento econômico sem desenvolvimento econômico e social se resolverá com a insistência na opção pelo modelo econômico problemático e pelo neoliberalismo econômico sem resultados sociais na proporção necessária à solução de todos os problemas que cria. O modelo econômico aqui adotado vai se revelando o do beco sem saída.

Sem programas de crescimento econômico com desenvolvimento social que criem lugares permanentes de integração social e de pertencimento, nenhum programa de combate à fome dará certo. Qualquer “acidente”, como este da covid, pode comprometer tudo.

O impacto desses programas na fome é limitado. E quando sua motivação é subornar a consciência política dos pobres e deles fazer cúmplices eleitorais do modelo iníquo e da política econômica equivocada o resultado é o que Edgar Morin define como efeito bumerangue da comunicação imprópria. Estamos vendo isso diariamente.

Esses dados da situação alimentar devem ser tomados não só como indicação de gravíssimo problema social, mas também como evidência de um modelo econômico derrotado, de uma economia que cresce e se desenvolve muito menos do que pode. O Terceiro Mundo, e o Brasil com destaque nele, vem sendo tangido por influências e políticas econômicas que de fato o afastam do capitalismo.

O Brasil montou um sistema repressivo e uma cultura de intolerância política para combater o comunismo, mesmo já não existindo ele, para supostamente defender o capitalismo. Mas cadê a defesa do capitalismo? Capitalismo se defende e se justifica com medidas concretas que lhe corrijam as irracionalidades antes de incrementar-lhe os lucros.

Na prática essa economia só pode se realizar fazendo-o ser o capitalismo que aqui não é. Governantes e capitalistas parecem bem distantes da realidade do que é propriamente o tipo de economia que lhes compete defender, dinamizar e fazer crescer. Não é o que estamos vendo nem o que indica essa pesquisa sobre a fome.

Os famintos e miseráveis da sociedade brasileira são o capital social não utilizado que poderia promover um grande desenvolvimento econômico com desenvolvimento social num país como o nosso.

O Estado brasileiro foi capturado por gestores que optaram por uma versão tosca e anticapitalista de capitalismo. É o poder de técnicos e políticos alienados. Em decorrência, as vítimas se arrastam nas insuficiências de uma situação que bloqueia o país inteiro.

Combinação perversa

Com a costumeira empatia zero, o presidente Jair Bolsonaro usou uma menina de 11 anos, vítima de estupro, para criticar o direito ao aborto legal. Bem que tentou desviar as atenções do escândalo envolvendo o seu ex-ministro da Educação, por quem ele já colocou a cara no fogo, e agora, arrependido, só põe a mão. Mas desta vez não deu muito certo. No meio da tarde da sexta-feira, a suspeição de que ele interferiu nas investigações o empurraram para as cordas.

Ainda que a combinação perversa – sigilo do que importa e palavrório polêmico para abafar os temas que incomodam – tenha falhado, Bolsonaro aposta na fidelidade canina (ou será bovina?) dos seus e na memória fraca do público em geral. Isso explicaria o efeito tefal observado nas pesquisas de opinião, que, a despeito do cenário adverso para o presidente, o deixam no mesmo lugar – não sobe, mas também não despenca.

Mesmo evidenciando a gravidade do recuo civilizatório do país, a avalanche de ocorrências escabrosas ironicamente contribui para colocá-las no esquecimento. O arremedo golpista de 7 de setembro do ano passado, por exemplo, quase eclipsou o genocida da pandemia, aquele que corria da raia dizendo que não era coveiro. E assim vai.

A farra dos pastores no MEC, denunciada pelo Estadão há menos de três meses, só voltou à tona com a prisão de Milton Ribeiro, que começa a fazer sombra às mortes cruéis de Bruno e Dom, responsáveis por escancarar o domínio da Amazônia pelo crime organizado. Concorrem ainda com as notícias da fome afligindo 33% da população, com a procuradora espancada por colega e a juíza que tenta induzir uma criança vítima de estupro a abrir mão do direito de aborto. E Genivaldo de Jesus Santos? Quem se lembra?

É difícil apagar da mente a cena da asfixia de Genivaldo no camburão, empurrado violentamente por fardados armados, com fumaça saindo por todos os lados.

Mas aqui, além dos horrores de hoje suplantarem os do dia anterior, provocando o esquecimento, conta muito a escola bolsonarista do manter tudo escondido, travar qualquer possibilidade de transparência no que possa causar prejuízos. Utilizando-se de uma interpretação absolutamente torta da Lei de Acesso à Informação, a Polícia Rodoviária Federal impôs sigilo de até 100 anos sobre os processos administrativos dos agentes envolvidos na ação. Ao Metrópoles, alegou que seriam “informações pessoais”.

A PRF só decidiu ler a lei a seu bel prazer por ter costas largas. Bolsonaro já determinou sigilo de até 100 anos no processo contra o ex-ministro da Saúde Eduardo Pazuello, sobre as visitas de seus filhos – todos parlamentares – ao Palácio, incluindo seus acompanhantes, de seu cartão de vacinação. Até tentou, sem sucesso, impedir que as 35 entradas dos pastores lobistas do MEC no Planalto ficassem lacradas por um século.

Além de ecoar polêmicas aderentes aos seus fiéis só para tergiversar, e da absurda prática do segredo de estado em questões em que a norma não se aplica, a cartilha de Bolsonaro para tentar se livrar dos perrengues do seu desgoverno tem outras vertentes. Apoia-se ainda na mentira – expressa cotidianamente nas redes sociais – e no afrouxamento amplo, geral e irrestrito de qualquer fiscalização, aquelas organizações com letrinhas chatas que perturbam sua família, seus amigos e aliados. E, claro, na gastança eleitoral com dinheiro dos impostos dos brasileiros e na campanha permanente.

Já no primeiro ano de mandato, injuriado com as diligências da Coaf nas contas de seu rebento Flávio, enrolado com as rachadinhas, o papai presidente decidiu mudar a gerência, a vinculação e até o nome do Conselho, que passou a chamar Unidade de Inteligência Financeira (UIF). Movimento tão fake que nem o novo nome colou. Mas serviu para assustar servidores, reorientar e apagar investigações.

Não há um só órgão de fiscalização que tenha saído ileso. Sob Bolsonaro, todos, absolutamente todos perderam poder de investigação. Ibama, Funai e Inpe lideram o rol de organizações dinamitadas, que ainda inclui vítimas de assédio institucional como o ICMBio e o IBGE e várias universidades federais, acusadas de proselitismo de esquerda.

Esse enredo macabro de bravatas, mentiras, destruição e sigilo ainda pode fazer sucesso. Mas deveriam se limitar à seara do entretenimento, novelões e filmes B. O repertório do Brasil tem de ser outro.

Sempre dá para piorar

Qual é o papel dos agentes do Estado num país democrático? Uma série de acontecimentos recentes destaca a pertinência e a urgência da questão no Brasil.

A PRF, por exemplo, resolveu liberar uma nuvem de fumaça sobre o caso Genivaldo de Jesus Santos, o homem negro morto por asfixia e insuficiência respiratória na espécie de câmara de gás improvisada numa viatura em Sergipe. Acionada por meio da Lei de Acesso à Informação, a corporação impôs sigilo secular sobre os processos administrativos que investigam a conduta dos agentes envolvidos.


No Rio, a vereadora Benny Briolly denunciou nova ameaça de morte, segundo ela "desta vez enviada do e-mail oficial do gabinete do deputado estadual Rodrigo Amorim". Foi registrada ocorrência por racismo e transfobia contra o parlamentar. "É um atentado ao meu corpo e à democracia. Sou travesti eleita pelo povo dentro dos marcos da Constituição", disse Benny.

E, em meio ao alvoroço causado pela decretação da prisão preventiva do ex-ministro Milton Ribeiro e de quatro envolvidos no escândalo de corrupção no MEC, a denúncia do delegado federal Bruno Calandrini de que "houve interferência na condução da investigação", com prejuízo aos trabalhos, elevou o grau da fervura. Embora a manifestação tenha sido inicialmente categorizada pela PF como "boato", a interceptação de ligação telefônica na qual o ex-ministro revela ter sido prevenido sobre possível operação de busca e apreensão determinou a escalada do caso.

Quando a finalidade dos agentes do Estado é desvirtuada, forças de segurança se tornam matriz de violência contra o cidadão, deixando de proteger; prerrogativas básicas são descumpridas; e decisões passam a ser tomadas com parcialidade. Nesses casos, a repressão passa a responder a impulsos contrários ao interesse público, em prejuízo da defesa de direitos e garantias fundamentais e do Estado democrático de Direito. Como diz o ditado: nada é tão ruim que não possa piorar.

É preciso desligar a violência

A notícia já era repugnante por escrito: um procurador espancou a colega de trabalho. Não vieram, porém, só palavras, tinha mais: o vídeo registrando de forma explícita a covardia.

Me desculpem, mas, para mim, foi demais.

As notícias abomináveis têm aparecido em sequência: a câmara de gás portátil em Sergipe, o assassinato de Bruno Pereira e Dom Phillips, o estupro da menor em Santa Catarina. A gente sabe que não vai parar por aí. Como reagir? O quanto podemos tolerar? Quando o vídeo covarde e violento começou, parei no primeiro soco.

Já não consigo.

Sim, sei que a indignação pública é fundamental e que sem ela a Justiça não vai para a frente. Deixar quieto é garantia de impunidade. Também sei que sou um privilegiado, dos que têm contato com a violência muito mais pelas telas do que ao vivo.

Sim, tenho consciência.


Porém, de tão informado, de tantas notícias trágicas nas palmas das mãos e imagens violentas ao alcance dos olhos, de tanto ver o que não gostaria de ter visto, ando querendo desligar a realidade. Ao menos essa da desgraça e dor em 4k e 120Hz. Às vezes me sinto como aquele personagem de “Laranja mecânica”, obrigado a ver cenas violentas até não aguentar mais.

O quanto a gente consegue aguentar? Vale a pena?

Talvez esteja me juntando aos que evitam notícias ruins. São cada vez mais, diz uma pesquisa do Instituto Reuters feita em vários países. Sim, o Brasil está na frente. Talvez não se trate de alienação, muito menos desinteresse, mas de sobrevivência. Buscar abrigo para o excesso de maldade e estupidez. O leitor deve estar se perguntando se funciona, se não é tapar o sol com a peneira ou enterrar a cabeça na areia. É sensato ignorar o horror?

Quando era adolescente e ouvia minha avó reclamar das notícias ruins nas páginas, na TV, achava que isso era uma atitude sem sentido, coisa de velho. Hoje percebo a antiga sabedoria. Não dá para viver cercado de crueldade e selvageria. Mais cedo ou mais tarde você acaba se tornando indiferente à barbárie. Quando se dá conta, virou um daqueles haters que apareceram na coluna da semana passada. Melhor não.