quinta-feira, 10 de março de 2022

Legenda

Os tiranos destroem mas não vencem,
Os pequenos morrem mas prevalecem
E, imortais, erguem-se do monturo!

Eugénio Lisboa

O reles mundo global contra o poder individual

A carne dos dianteiros do boi é de segunda. Os italianos criaram um processo eletromagnético que realinha as fibras duras e emaranhadas dessas carnes e elas ficam semelhantes ao filé mignon. Isso já aconteceu faz tempo. Mas pode passar agora na televisão e tem gente que vai se espantar, achando um crime. São essas mesmas pessoas que, de tão absorvidas pela vida cotidiana, não percebem o quanto estão sendo alinhadas para consumo mais fácil.

Os artistas de antigamente tinham o poder de criar estranhamentos e sacudir os pacatos cidadãos quando eles estavam alinhados demais. Este sacudão mostrava que a sobrevivência estava ameaçada pela inércia. Uma grande dose de ar puro (arte) era injetada de tempos em tempos nos pulmões das pessoas comuns. Os artistas eram incomuns. Hoje, somos todos artistas.


Logo, somos todos comuns. E todos enfileirados, alinhados. Nesta toada vem a contradição: criou-se o mundo da individualidade (o artista para si, o homem comum para si) mas, ao mesmo tempo, o mundo tecnocomputadorizado em escala mundial urra logo ali na porta e obriga a participar. Um individualista ferrenho usa cartão de crédito aceito em todo mundo, em todas as lojas. A propaganda individualiza o cidadão para que ele seja global. O cartão que ‘só você tem’ é o cartão de milhares de pessoas. Perplexidade a toda prova! O sonho de um mundo não linear (o linear era o da escrita pura) transformou-se num pesadelo. Porém, estranhamente, é um pesadelo do qual ninguém quer acordar. É o primeiro pesadelo quentinho, com música ambiente e cheirinho de sabão em pó com aloé vera.

Antes da chegada da era eletroeletrônica, o ser humano tinha um roteiro de vida: uma geração levava à outra. Hoje, as mudanças culturais são muito rápidas, minimizando as mudanças genéticas. Não temos mais começo, meio e finalidade. Apenas fazemos conexões e vamos indo. Se não cair, estamos ‘conectados com o mundo’. Mas não há no break para garantir a estabilidade emocional.

'Deixei a Rússia a pé para voltar a Berlim durante a guerra'

Clack! O carimbo vermelho de saída em meu passaporte abre o caminho para deixar a Federação Russa em direção à União Europeia (UE). Pouco antes da meia-noite, sou autorizado a sair do território russo. O jovem guarda de fronteira me dá um sorriso amigável. "Tenha uma boa viagem de volta para casa! Acho que você não pode mais voar", diz. Não, não podemos. Não diretamente, pelo menos. Mas podemos atravessar a pé.

Passamos por uma pequena barreira, e depois por um grande portão de ferro e sobre uma ponte rodeada por uma cerca. Um vento frio noturno me acompanha enquanto arrasto minhas duas malas por cima do rio Narva, que delimita a fronteira entre a cidade russa de Ivangorod e a cidade estoniana com o nome do rio. São 162 metros de terra de ninguém. À esquerda, uma faixa de veículos para caminhões; à direita, abaixo de mim, está a água escura. O castelo medieval de Narva, iluminado, brilha na margem oposta. Atrás de mim está um país cuja política medieval enfrenta a resistência de boa parte do mundo.

Uma caminhada de cinco minutos sobre a Ponte da Amizade me leva não apenas à outra margem, mas a outro mundo. A amizade que outrora existia entre a Rússia e a União Europeia não existe mais.

A Ponte da Amizade conecta a Rússia à Estônia sobre o rio Narva

Antes da travessia, fiz uma viagem de trem de dez horas de Moscou e São Petersburgo até a fronteira com a Estônia. Depois de uma noite em Narva, passarei mais quatro horas em um ônibus até a capital estoniana, Tallinn, e duas horas em um voo de lá para Berlim. Enquanto trabalhava como correspondente na Rússia, nos últimos sete anos, eu podia completar essa viagem em duas horas e meia com um voo direto de Moscou para Berlim. Desta vez, levou um dia e meio.

A rota que fiz a pé através da fronteira não é a única maneira de deixar a Rússia. Ainda há voos disponíveis. No entanto, qualquer um que queira voar para o Ocidente nestes dias deve estar preparado para desembolsar muito dinheiro, e para esperar. Neste momento, os voos via Turquia, Emirados Árabes Unidos, Azerbaijão e Armênia são exorbitantemente caros, e mais procurados do que nunca. O espaço aéreo da UE está fechado para aviões russos, e o espaço aéreo russo está fechado para os aviões do Ocidente.

Há também riscos se você decidir voar. Algumas companhias aéreas russas não estão mais autorizadas a utilizar aviões alugados no Ocidente. Há, portanto, pelo menos um risco teórico de que os passageiros das companhias aéreas possam ficar presos no solo em um terceiro país se o avião fizer uma escala e for apreendido lá. A Airbus, sediada na Holanda, e a americana Boeing também suspenderam seu serviço de suporte técnico para aviões de propriedade de companhias aéreas russas.

Não há nenhum êxodo em massa da Rússia no momento. À luz das sanções impostas pelo Ocidente, não há muitas pessoas que possam sequer se dar ao luxo de deixar o país, de qualquer forma. Nem mesmo temporariamente, porque ninguém sabe o que vai acontecer em seguida. Há rumores de que algumas estrelas do pop famosas fugiram do país. Algumas delas criticaram publicamente o ataque russo à Ucrânia, e há rumores de que elas têm medo de ser alvo dos serviços de segurança.

Muitas pessoas que permanecem na Rússia temem a alta da inflação, o aumento do desemprego e a piora dos padrões de vida. O rublo vem caindo há dias, e as taxas de juros estão subindo. Alguns analistas econômicos advertem que a economia russa pode encolher até 10% neste ano.

Mas em Narva, do outro lado da Ponte da Amizade, os estonianos também estão preocupados que sua situação econômica se agrave. Todos aqui estão falando sobre o preço da gasolina, ele vem subindo há dias.

E, na minha curta noite em um hotel estoniano em meio ao inverno europeu, não posso deixar de notar que a temperatura no meu quarto é consideravelmente mais baixa do que na Rússia. O gás é caro aqui.

quarta-feira, 9 de março de 2022

Pensamento do Dia

 


Não existe motivo para nascer como vassalo de Putin

Há quinze dias, o ditador Vladimir Putin conclamava o exército ucraniano a dar um golpe, para depor o presidente Volodymyr Zelensky. Ele também afirmava que o país vizinho simplesmente não existia como nação. Que era uma invenção desastrada do camarada Vladimir Lenin. Hoje, o Kremlin já diz que os seus objetivos “não incluem nem a ocupação da Ucrânia, nem a destruicão do seu estado, nem a derrubada do governo atual”. Quer apenas, e coloquemos muitas aspas nesse advérbio, que a Crimeia seja reconhecida como parte da Rússia e que as separatistas Donetsk e Luhansk sejam consideradas independentes. A palavra de Vladimir Putin vale tanto quanto uma garrafa de vodca vazia, mas a mudança de discurso deixa claro que a invasão da Ucrânia não está sendo aquele passeio imaginado por Vladimir Putin.

Até o momento, o exército russo tomou, de fato, uma única grande cidade ucraniana, Kherson. E os invasores vêm enfrentando lá protestos da população, que não tem medo de se manifestar contra a agressão que o país sofre da parte de Moscou. No restante da Ucrânia, a resistência militar ucraniana é forte, apesar da precariedade de meios, e ela conta com o apoio ativo de milhares de cidadãos. Basta ver o que ocorre em Kiev, a capital, que está repleta de barricadas construídas por civis. O avanço da coluna de blindados russos é vagaroso e, desse modo, ela vem se mostrando uma presa fácil para o exército da Ucrânia. Ontem, o Pentágono estimou que de 2 mil a 4 mil soldados das forças invasoras foram mortos. Uma enormidade. Para se ter um ideia, no atoleiro do Afeganistão, morreram 15 mil soldados de Moscou, em dez anos de guerra. Além disso, de acordo com o governo da Ucrânia, mais de 20 mil estrangeiros, de 52 países, devem se juntar às suas tropas regulares, para defender o país.

No intuito de abalar a moral dos ucranianos, o exército russo comete seguidamente crimes de guerra, bombardeando casas, hospitais, escolas e edifícios administrativos e pilhando o comércio em zonas nas quais consegue entrar. Em Mariupol, a população continua cercada, com Moscou anunciando a abertura de “corredores humanitários” que, na verdade, são verdadeiras armadilhas, da mesma forma que ocorreu em Alepo, na Síria. Hoje, um hospital pediátrico foi bombardeado. A iniquidade é tamanha que até cidadãos pró-Rússia, aqueles que seriam defendidos do “nazismo” de Kiev, mudaram de posição e já não aprovam a invasão. Ou seja, a cada crime perpetrado, mais a moral dos ucranianos aumenta.


A Ucrânia é uma democracia onde a vontade popular é respeitada, dentro dos limites de uma Constituição moderna e que garante os direitos das minorias. A Rússia está se tornando cada vez mais uma prisão cujo diretor comete toda sorte de abusos. Há desrespeito a minorias, repressão à liberdade de manifestação, censura à imprensa e prisão e assassinato de adversários de Vladimir Putin, escolhidos a dedos para servir de exemplo. Em 2020, a Constituição foi reformada para atender única e exclusivamente às conveniências do ditador cínico. A contagem de mandatos presidenciais foi zerada, para permitir que ele permanecesse no cargo até 2036. Como se não bastasse, um novo artigo lhe garante imunidade eterna, assim como o cargo de senador vitalício, quando e se sair do poder. A estrovenga foi aprovada num referendo fajuto, sem nenhum controle externo para fiscalizar os locais de votação, que incluíam barracas de quermesse e casas lotéricas.

Em termos de liberdade política, portanto, Vladimir Putin não tem nada a oferecer aos russos e muito menos aos ucranianos ou qualquer outro povo que queira conquistar. Do ponto de vista econômico, a “grande Rússia” glorificada pelo ditador cínico é um fracasso. A compilação feita pela jornalista Isabelle Mandraud e o cientista político Julien Théron impressiona. Se for mantido o ritmo atual de exploração de gás e petróleo, principal fonte de financiamento do estado, as reservas conhecidas se esgotarão em pouco mais de 20 anos, até 2044. A renda per capita é menos de um terço da média dos países da União Europeia. O índice de desenvolvimento humano é inferior ao de 31 países europeus, incluindo ex-integrantes da União Soviética, império que Vladimir Putin quer reconstituir. Entre 180 países, a Rússia é o 137º com o maior índice de percepção de corrupção, atrás do Mali. A expectativa de vida, em 2019, era de 72,4 anos, praticamente 10 menos do que a média da União Europeia, o que colocava a Rússia entre Líbia e Bangladesh. A vice-primeira-ministra russa, Tatiana Golikova, um dos capachos de Vladimir Putin, disse há três anos que a diminuição da população do país era “catastrófica”. Ela poderá passar de 145 milhões de pessoas para menos de 100 milhões, no final deste século, se não houver mudança no padrão demográfico.

Não existe motivo nenhum para alguém nascer como vassalo de Vladimir Putin, seja ele russo ou não. E, vítimas de uma agressão brutal, os ucranianos estão dispostos a deixar o ditador cínico completamente despido das ilusões que quer vender ao mundo. Como a de que vale a pena, igualmente, morrer por ele.

A barbárie da civilização

Suspeito que falta ainda muito para se inscrever nos dicionários o exato sentido da palavra civilização.
Carlos Drummond de Andrade

O não-país

Nos últimos tempos, tenho a impressão de viver em um não-país. Nada parecido com a destemida Ucrânia que o tirano Vladimir Putin taxa como um não-país. Até porque lá a resistência forjou um líder, enquanto por aqui a mediocridade de populistas domina. Habitamos um Brasil regido por um desconcertante pouco caso com as aflições humanas, dúbio, que emite sinais confusos, ressuscita corruptos e joga no lixo boa parte de suas virtudes. E isso não é de hoje, começou muito antes da covarde invasão de Putin à Ucrânia.

Diante da guerra, somos Dois Brasis. Não só os de Jacques Lambert, com as latentes desigualdades sociais sintetizadas por ele e que continuam se aprofundando há mais cinco décadas, mas em uma esfera em que o país sempre fora referência: a política externa.


Na ONU, o Brasil condena Putin, enquanto o presidente Jair Bolsonaro o adula. Uma barafunda apelidada de “posição de equilíbrio”, embora não pare em pé.

Bolsonaro, diga-se, é um dos maiores propagandistas do nosso não-país. Mergulha em desatinos de que nações ricas querem a Amazônia ao mesmo tempo que impulsiona a destruição da floresta. Reduz a fiscalização do Ibama, faz vista grossa aos desmatamentos e às queimadas, estimula o garimpo ilegal que deseja ver se esparramar por terras indígenas.


Ao mundo, já havia provado sua absoluta incapacidade em fóruns internacionais e nos pouquíssimos encontros bilaterais, um deles com Putin, a quem prestou solidariedade dias antes de o russo iniciar a matança de ucranianos. Por aqui, o presidente já havia dado mostras incisivas de sua indecência, escancarada no descaso e empatia zero no trato com a pandemia que tirou a vida de mais de 650 mil brasileiros, no acobertamento dos malfeitos de sua prole, na obsessão pela reeleição.

No âmbito da Justiça, o Brasil condenou meio mundo de políticos e empresários no Mensalão e Petrolão, recuperou recursos milionários desviados para financiar campanhas e engordar bolsos. Tudo anulado pelo não-país.

Não por inocência dos réus, mas por “suspeita de suspeição” do juiz da primeira instância e tecnicismos como foro de origem, que acabaram por anular todas as provas contra o ex Lula e que, agora há pouco, “perdoaram” as rachadinhas de Flávio Bolsonaro. Nas eleições de outubro, além de Lula, outras figurinhas carimbadas por condenações suspensas no nosso não-país devem disputar votos.

Na Procuradoria-Geral de Augusto Aras nada contra Bolsonaro anda e no STF, o aliado Nunes Marques garante a paralisia de todos os julgamentos de interesse de bolsonaristas. Uma maravilha de não-país.

Lula, candidato à Presidência e líder em todas as pesquisas de opinião, também aposta no não-país. Insiste nos laços com ditadores ditos de esquerda, repudia, mas com moderação excessiva, a guerra insana de Putin. Chega ao cúmulo de pedir que os dois lados baixem as armas, equiparando a vítima ao agressor. Exala dubiedade, tibieza.

Ao mesmo tempo que se move para marcar posição frente a Bolsonaro, tem de agradar aos seus, que, para condenar o imperialismo norte-americano, entregam-se à cegueira. Fecham os olhos para a frieza assassina de Putin, as prisões de opositores, a narrativa mentirosa que só se mantém com censura férrea aos meios de comunicação.

A loucura é tamanha que na mesma sexta-feira leio o petista frei Leonardo Boff reclamar que a guerra ofuscou a visita de Lula ao México nas “TVs corporativas”, e o ex-bolsonarista deputado Arthur do Val, candidato ao governo de São Paulo pelo Podemos de Sérgio Moro, dizer que as ucranianas “são fáceis, porque são pobres”.

Chega de não-pais. Quero o Brasil de volta.

A conspiração da ignorância

A realidade não nos tem dado sossego. O mundo avança por caminhos imprevistos. Há muito tempo que a energia motriz das nossas sociedades não é o petróleo, o carvão ou, mesmo, a eletricidade. O combustível com que atestamos a cabeça e o ânimo é a informação. É ela que nos põe em movimento. Com inúmeras formas, a informação chega de todos os lados, catalisada pela internet, multiplicada por mil. Talvez essa avalanche de perspetivas e interpretações, ajude a explicar esta situação. Talvez as extremas guinadas da atualidade noticiosa contribuam para a ideia de que tudo é possível.


Uma pandemia mundial, quem poderia imaginar? Para lá da quantidade considerável de epidemiologistas, tanto profissionais, como amadores, duvido que alguém conseguisse prever o que temos atravessado desde o início de 2020. Perante tal surpresa, não admira que haja quem duvide. Os já famosos negacionistas são gente com uma grande confiança nos seus sentidos, na sua experiência pessoal e nas suas fontes informativas.

Com ou sem pontuação, com ou sem maiúsculas, exprimem-se nas redes sociais e, às vezes, na rádio ou na televisão, naqueles programas que recebem telefonemas do público. Manifestam-se de peito feito, desafiantes, destemidos perante nenhuma ameaça percetível. Quando dizem eles referem-se ao mundo inteiro. Quando expõem ideias sobre a pandemia, o principal argumento que apresentam é de que não viram e não conhecem ninguém que tenha visto.

Suponho que não tenham amigos entre a comunidade de trabalhadores das análises clínicas. Para além desse detalhe, aquilo que me parece mais interessante é esta forma extravagante de analisar e avaliar o mundo: apenas existe aquilo que já se viu e experimentou. Consideremos por um instante a imensa quantidade de assuntos que nunca vimos à nossa frente, mas que acreditamos existir, contamos com eles na nossa conceção da existência.

No entanto, não é possível dizer apenas que não. Sempre que se nega alguma coisa, está implicitamente a afirmar-se o contrário ou uma variação daquilo que se nega. Quando avaliados a partir de outro ângulo, os negacionistas são muito mais afirmacionistas do que se poderia julgar numa primeira e apressada leitura.

Por espantosa ironia, os mesmos indivíduos que nos encorajam a desdenhar daquilo que não testemunhámos, pedem-nos para acreditar em conspirações secretas internacionais, em extraterrestres que ocuparam o planeta e se fazem passar por seres humanos, em seitas satânicas que controlam as elites mundiais, que praticam a pedofilia e se alimentam de sangue para rejuvenescer. Nenhum deles testemunhou realmente estes terríveis factos, apenas os encontraram descritos na internet por alguém que viu, foram-lhes enviados numa corrente anónima de mensagens nas redes sociais.

Ou seja, chegámos ao ponto em que, abertamente e sem pudor, se escolhe aquilo em que se acredita. Basta que exista um fluxo contínuo de “informação” a abastecer e a desenvolver essas ideias e, também, que exista uma comunidade disposta a acolher quem chega, a tratá-lo como um dos seus. Dá um certo conforto acreditar em conjunto, independentemente da crença em causa.

Antes, estas pessoas já existiam. Eram o maluco da aldeia, o excêntrico rancoroso. Agora, a tecnologia deu-lhes a oportunidade de comunicarem, de alimentarem em conjunto a sua mania, criaram associações e federações. E há muitas aldeias no mundo, mesmo muitas, cada uma com o seu maluco.
José Luís Peixoto

segunda-feira, 7 de março de 2022

Política e patologia no planeta em crise

O que extraio de verdadeiro dessa gritaria nas ruas é uma frase que sobrevive na velhice: “O povo, unido, jamais será vencido”. Um país pode ser invadido por forças militares superiores, o governo pode ser desfeito, mas, no médio e longo prazos, essa verdade essencial acabará se impondo.

Escrevo num momento de transição. Sei que o mundo mudou e seguirá mudando. Mas a simples eclosão da guerra não consegue ofuscar, para mim, o novo relatório dos cientistas da ONU mostrando como avançam o aquecimento global e o perigo de tragédias climáticas.

Do nível nacional ao internacional, o instinto de morte parece estar numa ofensiva sem precedentes. Não pretendo abordá-lo com mais uma análise da correlação de forças, nem das negativas consequências econômicas. Essa tarefa, já a cumpri durante a semana, analisando o papel estratégico dos fertilizantes no agronegócio e, consequentemente, na economia e na segurança alimentar do Brasil.

Ao encerrar meu trabalho noturno, tenho visto uma série chamada “Mind hunters”. É a história de agentes do FBI que, no fim do século passado, percebem que os crimes não se explicam mais pelos velhos motivos: ciúmes, dívidas a cobrar. Eles se interessam por criminosos em série, cujas razões só podem ser entendidas com um mergulho nas suas mentes doentias.

Lembrei-me disso ao ler um artigo em que o autor cita o escritor alemão Hans Magnus Enzensberger, para quem, no período pós-Guerra Fria, a violência já não se explicaria mais por razões ideológicas, ela se autonomizou das clássicas justificativas.

Gosto da capacidade de previsão de Enzensberger porque, há 30 anos, li um livro dele, “Política e delito”, em que, em vários ensaios, ele mostrava como boatos foram capazes de derrubar governos. Era uma antecipação do poder corrosivo das modernas fake news.

Pode parecer audacioso dizer que a violência se libertou da justificação ideológica. Putin afirma que atacou a Ucrânia para livrá-la do nazismo. Mas como aceitar que o país seja nazista se é presidido por um judeu?

O próprio Putin parece não acreditar no seu argumento. Tanto que acrescenta uma nova acusação: nazistas e consumidores de droga.

Existe algo de patológico nos argumentos de Putin e, infelizmente, não é tão raro assim. Logo após a revolução bolchevique, Lênin defendeu que a Ucrânia fosse um país, falasse sua própria língua e ensinasse sua História nas escolas.

Para ele, que já estava um pouco doente, a Ucrânia não era uma mentira. O problema é que foi sucedido por Stálin, precisamente o comissário das nacionalidades, que queria centralizar tudo na Rússia, a despeito de sua origem georgiana.

Essa recusa à diversidade não existe apenas no stalinismo que sobrevive na cabeça de Putin. Ela é também uma presença nos argumentos da extrema direita. Guardadas as proporções, quantos não afirmam que nossas populações indígenas deveriam abrir mão de suas terras, costumes e cultura, para desaparecer no todo nacional?

Steve Bannon, um dos teóricos que influenciam a família Bolsonaro, chegou a dizer que a Rússia era digna de apoio porque o Exército americano tolera transgêneros.

Circula nas redes, a partir de Bolsonaro, um manifesto contra o Ocidente, para ele dominado pelo comunismo. Em quem se apoiar contra o comunismo europeu? Na Rússia, na China e nos países árabes.

Assim como na década de 1960 o crime passou a ser visto de uma outra maneira, talvez agora a política também só será apreendida a partir da patologia. Não há dúvida de que intelectuais alemães de Frankfurt, psicólogos como Erich Fromm, fizeram um trabalho profundo no Pós-Guerra, a partir do estudo do nazismo.

Mas tudo isso poderia ser enriquecido e atualizado num planeta que se esforça para destruir a vida humana, seja pela poluição, seja pela guerra, seja por políticas locais de armamentos e gabinetes de ódio.

Com todo o respeito pela análise política pura, talvez fosse interessante considerar a hipótese de que muitos seres humanos no topo do poder simplesmente enlouqueceram.

Guerra semeia morte, destruição e miséria. Alguém discorda?

Envergonhada, a esquerda que admira a Rússia deixa a guerra de escolha de Putin de lado e culpa por ela o imperialismo americano. Esquece, porém, que a Rússia sempre foi imperialista.

Mais honestos são os extremistas de direita que dão razão à Rússia porque Bolsonaro e Putin compartilham as mesmas ideias; são dois fanáticos nacionalistas que ambicionam o poder solitário.

Não é sobre o PT, que até aqui não condenou a invasão da Ucrânia por Putin, nem antes quando ele invadiu a Geórgia e a Crimeia. Guerras só interessam aos radicais de qualquer cor.

A agência de refugiados das Nações Unidas atualizou a contagem de civis que fugiram da Ucrânia desde o início da guerra. Agora são impressionantes 1,5 milhão de pessoas, de uma população de 43 milhões.

Esta é a crise de refugiados que mais cresce na Europa desde a Segunda Guerra Mundial. Como quase todos eles são louros de olhos azuis, a Europa dará um jeito de acolhê-los. Já os ciganos…



Pergunte aos russos se são a favor da invasão? Leve em conta que na Rússia não há liberdade de imprensa; a mídia chama a invasão de “operação especial em defesa da Rússia”.

Quem insistir em chamar a invasão pelo próprio nome, ou de guerra contra a Ucrânia, ou referir-se às mortes como “massacre”, está sujeito a 15 anos de cadeia por crime de lesa pátria.

Mãe e dois filhos mortos na Ucrânia quando fugiam do bombardeio russo

Somente ontem, a polícia de Putin prendeu cerca de 4 mil pessoas em Moscou e em outras cidades por protestarem contra a guerra. (Êpa, perdão! Contra a “operação especial em defesa da Rússia”).

A primeira vítima da guerra é a verdade, a segunda, a língua. A verdade requer poucas palavras; a mentira, muitas. “Danos colaterais”, por exemplo, significa a morte de civis.

Quando não é possível ocultar a morte de inocentes, como os quatro de uma mesma família assassinados por soldados russos perto de Kiev, joga-se a culpa em nacionalistas ucranianos.

Semear a dúvida é uma poderosa arma de guerra. Com as redes sociais, a verdade passou a ser uma questão de escolha. Fatos objetivos influenciam menos que apelos às crenças pessoais.

Donald Trump deu uma sugestão incomum para combater o avanço russo na Ucrânia: trocar bandeiras de aviões americanos, adesivar com a bandeira da China e atacar os russos.

Não foi piada (o cômico é o presidente da Ucrânia). Trump não estava de porre, falava em um evento do Partido Republicano. Metade dos americanos costuma acreditar no que ele diz.

Aqui, 30% dos eleitores brasileiros ainda acreditam no que diz Bolsonaro; ele, ontem, taxou de “asquerosas” as confissões sexistas do deputado Mamãe Falei sobre as mulheres ucranianas.

Alguém se recorda de Bolsonaro condenar declarações machistas? Logo ele que disse a uma deputada que ela não merecia ser estuprada porque é feia? Ano eleitoral é uma beleza…

Os mais instruídos devem recordar que o papa Pio XII, nos anos 1930, saudou Mussolini, o fascista governante da Itália, como “o homem da Providência”, porque ele era contra o comunismo.

Mussolini aliou-se a Hitler e foi à guerra para dominar a Europa. Capturado pela resistência italiana, acabou fuzilado; seu corpo foi exposto de cabeça para baixo em uma praça, em Milão.

Peço sua compreensão por ser contra guerras, qualquer uma. Que bem me lembre, a última que se justificou foi quando grande parte do mundo se uniu para derrotar o nazismo.

A Pio XII e outros papas tão autocratas quanto ele, prefiro Francisco, que, no domingo, ao pregar para uma multidão na Praça de São Pedro, no Vaticano, bateu de frente com Putin e disse:

“Na Ucrânia, correm rios de sangue e lágrimas. Esta não é apenas uma operação militar, mas uma guerra que semeia morte, destruição e miséria”.

Pensamento do Dia

 


As ideologias jogam bombas

Neste espaço, dia 24 janeiro de 2021, publiquei artigo intitulado O pesadelo. Tema: livro Guerra Pela Eternidade (Ed. Unicamp, 2020). Destaquei a análise do autor Benjamim Teitelbaum sobre o Tradicionalismo, fonte de inspiração ideológica dos populismos de extrema-direita como ameaça real às democracias liberais do ocidente.

Persistente, o autor ouviu três ideólogos do Tradicionalismo: o americano Steve Bannon, o brasileiro Olavo de Carvalho e o russo Aleksandr Dugin a partir da obra do patriarca René Guénon (1886-1951) e Julius Evola (1898-1974).

Descontadas divergências pontuais, todos exerceram real influência sobre governantes de três grandes países: EUA, Trump; Brasil, Bolsonaro; Rússia, Putin, cada qual com estilos e estratégias distintas.

Bannon ajudou a eleger Trump; indicou secretários de Estado em áreas estratégicas. (O conflito com a filha e o genro do Presidente causou uma demissão humilhante). Fortaleceu a direita americana com o legado do trumpismo; teve decisiva participação no resultado do Brexit: segue dando conselhos a peso de ouro.


O autor aproximou-se do ideólogo de Bolsonaro, Olavo de Carvalho a quem definia como um Tradicionalista heterodoxo. Língua solta e agressiva gerou frequentes atritos. Indicou Velez Rodriguez e Ernesto Araújo, genuíno tradicionalista, em áreas estratégicas para uma frustrada revolução cultural.

Dugin é o intelectual de maior densidade e ativista/guerreiro presente na brutalidade do conflito entre a Ossétia do Sul e a Geórgia. Rebelde e ousado, se movia no espaços de poder, lembrando Gregori Rasputin. Não tinha relacionamento oficial com o governo Putin.

Expressava o ódio às democracias ocidentais, em especial aos EUA, com a frase: “Tudo que é antiliberal é bom”. No seu livro, Fundamentos da geopolítica, encoraja os russos “a introduzir a desordem na atividade interna americana”. O secularismo corrompido era o grande adversário espiritual da guerra pela eternidade.

O objetivo estratégico Tradicionalista é a destruição dos valores iluministas: estado-nação, secularismo, direitos humanos, ciência, feminismo, instituições, globalismo. A proposta se alicerça no tempo cíclico e na hierarquia: a Idade do ouro (sacerdotes), prata (guerreiros), bronze (mercadores), sombria (escravos). A motivação central: a espiritualidade. Eles veem caos na estrutura, ordem nas ruínas e o passado no futuro.

A regeneração do tempo como um fim em si mesma é violenta. Múltiplas causas estão por trás dos bombardeios. A ideologia é o gatilho. Em 2014, Dugin convocou, em entrevista, os ouvintes a “matar, matar e matar” os leais a Kiev. Sonha com a unipolaridade eurasiana.

O cleptocrata Putin, hoje, obedece a voz cruel que ordena os crimes de guerra.

Desabituamos do trabalho de verificar

Todos nós hoje nos desabituamos, ou antes nos desembaraçamos alegremente, do penoso trabalho de verificar. É com impressões fluídas que formamos as nossas maciças conclusões. Para julgar em Política o facto mais complexo, largamente nos contentamos com um boato, mal escutado a uma esquina, numa manhã de vento. Para apreciar em Literatura o livro mais profundo, atulhado de ideias novas, que o amor de extensos anos fortemente encadeou—apenas nos basta folhear aqui e além uma página, através do fumo escurecedor do charuto. Principalmente para condenar, a nossa ligeireza é fulminante. Com que soberana facilidade declaramos—"Este é uma besta! Aquele é um maroto!" Para proclamar—"É um génio!" ou "É um santo!" oferecemos uma resistência mais considerada. 

Mas ainda assim, quando uma boa digestão ou a macia luz dum céu de Maio nos inclinam à benevolência, também concedemos bizarramente, e só com lançar um olhar distraído sobre o eleito, a coroa ou a auréola, e aí empurramos para a popularidade um maganão enfeitado de louros ou nimbado de raios. Assim passamos o nosso bendito dia a estampar rótulos definitivos no dorso dos homens e das coisas. Não há ação individual ou coletiva, personalidade ou obra humana, sobre que não estejamos prontos a promulgar rotundamente uma opinião bojuda E a opinião tem sempre, e apenas, por base aquele pequenino lado do fato, do homem, da obra, que perpassou num relance ante os nossos olhos escorregadios e fortuitos. Por um gesto julgamos um carácter: por um carácter avaliamos um povo.
Eça de Queirós, "A Correspondência de Fradique Mendes"'

Um novo modo de ver as coisas

A invenção da imprensa, no século XV, mudou o mundo. Sobretudo porque o conhecimento passou a ficar ao alcance de todos, independente do nível cultural, social ou financeiro de cada um. A imprensa acabou sendo crucial para a multiplicação de tendências surgidas com o Renascimento e o fim político do domínio da Igreja sobre a humanidade civil. Curiosamente, o Papa Pio II, ao ser posto diante da invenção, ficou encantado com ela e a saudou como instrumento futuro de registro e cobrança das benesses da Igreja a seus fiéis.

Mas quem ficou ligado para sempre à invenção da imprensa, além de Johannes Gutemberg, seu criador técnico, foi Martinho Lutero que produziu o primeiro livro impresso, a Bíblia traduzida do latim chique para um alemão popular. Essa Bíblia de Lutero, com 641 páginas, seria inspiradora e guia da Reforma Protestante, um dos acontecimentos mais importantes do Renascimento que, por enquanto, talvez seja o momento mais radical na transformação da humanidade no que ela é hoje.

Esse pequeno conto acima, sobre a imprensa e o que ela provocou de mudança no mundo do conhecimento, serve também para ilustrar o que tem se passado nas relações humanas desde o nascimento da cultura digital. Nunca mais fomos os mesmos. E, agora, quando uma guerra pouco convencional explode na Europa, podemos avaliar o que se passa de um modo inédito entre os envolvidos.

Não se trata mais de só saber quem está ganhando a guerra e quem a vencerá, no final das contas. Não se trata mais de avaliar o número de batalhas vitoriosas, ou de simplesmente saber como julgá-las vencidas ou perdidas, para estabelecer um placar que nos permita reconhecer quem tem mais chances de ganhá-la no final do jogo no tempo convencional. É claro que o embate entre Rússia e Ucrânia pode ser avaliado ainda hoje e agora mesmo, mas na verdade só ousamos fazê-lo relativamente. As regras da guerra talvez sejam mais ou menos as mesmas. Mas aferir o resultado delas já é outra ciência. 

Assim como a invenção da imprensa foi parte de uma mudança radical do espírito humano, capaz de orientar seu século e o que veio depois dele em uma inesperada direção, vivemos hoje um momento semelhante de compreensão da realidade. O que acontece no campo de batalha entre Ucrânia e Rússia não pode ser julgado apenas pelo número de perdas de lado a lado. Não é mais o número de baixas que determina a vitória final, não são mais as baixas que servirão como critério de julgamento do resultado da partida.

A Rússia pode destruir fisicamente a Ucrânia, acabar com todos os móveis e imóveis militares ou não do inimigo, que ainda restará aos defensores do aparente derrotado o direito de se proclamar vencedor de uma outra ideia de ser na História, de estar no mundo em defesa de outro modo de vida, revelado por uma permanente e extensa difusão audiovisual que seus principais representantes aprenderam a produzir durante a própria guerra. E isso, além do valor do pensamento, graças ao que esses ucranianos aprenderam a fazer através dos meios de difusão audiovisual.

Parece que o “livro” mais antigo da humanidade é o “I Ching”, o Livro das Mutações, que com cerca de 3 mil anos de existência, se baseia na mudança contínua das forças cósmicas do yin e do yang, a sombra e a luz. Como não havia ainda a imprensa, o “I Ching” não teve edições multiplicadas, mas seu sentido e valor nunca foi totalmente dispensado. Até o que a imprensa acabou por nos proporcionar, foi esse o modo de pensar o mundo de todas as culturas intermediárias.

É mais ou menos o que pode acontecer com certas visões de mundo divulgadas pelo mundo da difusão audiovisual e da cultura digital. O registro visual da internet não vai desaparecer nunca mais. Ou, se preferirmos, o filme da internet.

Ocidente impotente perante campanha assassina de Putin

Se fosse possível transformar manifestações de solidariedade em tanques blindados, lança-mísseis ou aviões de combate, talvez a situação da Ucrânia fosse menos desesperadora. Como está, vemos um excesso de grandes palavras e uma carência de ajuda militar efetiva. E nossos políticos nos preparam para aceitar que as atuais imagens de horror do país invadido são apenas o começo.

Após seu telefonema mais recente com Vladimir Putin, a formulação do presidente francês, Emnanuel Macron, foi quase literalmente a mesma que a do secretário-geral da Otan, Jens Stoltenberg, na sexta-feira (04/03): "Vai ficar ainda pior."

Os militares partem do princípio que em breve o exército russo intensificará os bombardeios e os disparos contra a população civil. Pessimistas temem que Putin vá reduzir Kiev a destroços e cinzas, seguindo o modelo da destruição total de Grozny, em 1999, quando, sob comando do senhor de guerra, as forças armadas russas transformaram da capital tchetchena num deserto de ruínas.


Com esse pesadelo perante os olhos, o presidente ucraniano, Volodimir Zelenski, tem apelado repetidamente por uma zona de exclusão aérea sobre a Ucrânia. E a Otan repetidamente tem que responder: "Não podemos!" Isso significaria a confrontação militar direta com a Rússia, e eclodiria a Terceira Guerra Mundial.

Putin já nos lembrou de suas armas nucleares e insinuou que talvez chegue às últimas consequências para tornar realidade seu desvario de um reino pan-russo, com a anexação da Ucrânia. No entanto, a aparente irracionalidade do chefe do Kremlin, sua loucura real ou fingida, não passa de mais um recurso para nos deixar inseguros.

Alguns observadores acham até que a aliança ocidental deveria se comportar com cautela ainda maior, a fim de evitar o apocalipse nuclear. Putin poderia interpretar até mesmo o fornecimento de armas como uma ultrapassagem da "linha vermelha", dizem.

Em contrapartida, os Estados Unidos creem ser preciso deter o lider russo agora, para que ele não abra a "caixa de Pandora", com ainda mais guerra e instabilidade, como disse o secretário de Estado Antony Blinken. Do mesmo modo que muitos europeus, ele parte do princípio que Putin atacará ainda outros países europeus: Geórgia, Modávia e os Estados bálticos.

As nações ocidentais reagiram com as sanções econômicas mais duras e mais imediatas de sua história. Mas se quisermos deter a campanha de destruição de Putin, vai ser preciso apertar mais ainda os parafusos. Para o início da segunda semana de fevereiro, a União Europeia anunciou a suspensão de ainda mais bancos, do tráfego marítimo e de diversas importações.

Depois disso, como último recurso, só restará sustar as importações de petróleo, gás e carvão mineral russos, No entanto, a medida abalará tanto as economias nacionais quanto a paz social de nossos países. Mas em caso de dúvida, teremos que encarar isso, já que todas as outras opções são piores.

Pois, continuando a comprar petróleo e gás russos, estamos financiando a guerra de Putin. Mesmo que a primeira rodada de sanções já tenha paralisado o Banco Central da Rússia, Moscou embolsa centenas de milhões de dólares por dia em seus negócios conosco.

Só se fecharmos essa torneira, deixando Putin sem nenhuma fonte de divisas e sem acesso a suas reservas, talvez ele se sente à mesa de negociações. Entretanto nem mesmo tais sanções extremas servirão à Ucrânia no curto prazo.

Em todos os outros aspectos, a UE, com frequência tão conflituosa, supera todas as expectativas: sem burocracia, ela oferece proteção a todos os refugiados, e a gigantesca solidariedade humana é emocionante e afetuosa. Os europeus fornecem dinheiro, armas e prestam ajuda humanitária ao povo do país vizinho sob ataque.

Nos limites do possível, as cidadãs e cidadãos da Europa fazem tudo, também por perceber que essa guerra é um ataque contra todos nós, nossa forma de vida liberal, democrática. E porque a inimaginável valentia dos ucranianos sacode quem acredita que a partir do sofá da sala possa dar a sua contribuição pela segurança do nosso futuro.

Contudo, se a intenção de Putin for, de fato, arrasar à base de bombas a capital ucraniana, com suas cúpulas douradas, seu palácio do governo, o heroico presidente Volodimir Zelenski e seus mais de 3 milhões de cidadãos, no fim de contas só vamos mesmo poder assistir.

E essa sensação de nossa impotência, de sermos observadores de mãos atadas da campanha assassina de Putin... vai ser terrivelmente amargo.

domingo, 6 de março de 2022

Pensamento do Dia


 

Das crianças e a guerra


Estas imagens são tão chocantes que não seriam necessárias mais palavras para as legendar. Uma criança com medo de uma guerra que descobriu da maneira mais violenta: os bombardeios aéreos. Não sei como se apazigua o coração de uma criança nesta situação. Não sei como alguém pode provocar tal sofrimento. Não sei como existem ambições desmedidas que levam à destruição indiscriminada do ser humano. Aquelas bombas trazem a mais horrenda mensagem de um vil e mais horrendo ditador: bombardear para ocupar. Matar para reinar.

As crianças não a entendem. Apenas descobrem o medo. Um medo sufocante que não acaba. Um medo que nasce e vem de dentro . Um medo que nem os gritos ou o choro são capazes de estancar. Dilacera e esmurra o coração.

E a história repete-se . A sede de totalitarismo de que fala Arendt é inesgotável. Há sempre um déspota sequioso.

Pude constatar esta verdade. O sofrimento que estes actos abomináveis da guerra causam nas crianças.

Na década de cinquenta, quando os tanques e a força aérea militar russa metralharam a Hungria , muitas crianças húngaras foram evacuadas e acolhidas em alguns países . Famílias portuguesas também as receberam. Essas crianças traziam consigo a memória terrível da guerra. Guerra que se repete agora e é, de novo, o terror de outras crianças. Nas minhas memórias de infância , tenho , nitidamente presente, uma criança húngara que conheci na praia , onde a minha família , pais e cinco irmãos , passava as férias de Verão.

Eis um excerto de um apontamento que fiz, há alguns anos, num irrelevante registo memorialístico.

A parceira que mais nos impressionou foi uma refugiada húngara. Teria uns seis ou sete anos. Tinha sido acolhida por uma família amiga dos meus pais. Nos primeiros anos , falava mal o nosso idioma, passando com o decorrer do tempo a dominá-lo com brilhante segurança e correcta articulação.

Não recordo, com total certeza , o seu nome, mas creio ser Judit. Pois a Judit tinha uma estatura muito mais volumosa que a nossa. Quase nos dominava em tamanho e peso. Era , porém, uma menina doce e afável que participava em todas as brincadeiras que eram muitas. (...)

A Judit entrava em tudo, com elegância e gentileza. O que mais me confundia nesta menina era o pavor que a acometia, quando, muito raramente, nos sobrevoava um avião e se ouvia o ruído do motor. Atirava-se para o chão , tapava os ouvidos, gemia e agitava-se como estivesse a ser vítima de uma convulsão.

Atentos, os familiares adoptivos vinham , de imediato, com uma manta em que a enrolavam e levavam-na para o interior da barraca. À medida que fui crescendo, fui entendendo que tinha havido uma nefasta guerra que marcara profundamente aquela menina. Os aviões, que despejaram bombas sobre o seu país, vinham em som e ruído até ali, sempre que passava qualquer um.

Naquele tempo, não havia psicólogos e , por tal, não se atribuía apoio psicológico como hoje tão apraz fazer. As sequelas eram tratadas dentro de casa. Com carinho e muito afecto familiar. Creio que muitas delas ficaram para sempre e que a Judit, esteja onde estiver, ainda convive com elas.Que Deus não salve Putin.
 

Maria José Vieira de Sousa

O 'não' do Ocidente

Nunca na minha vida vi uma crise internacional onde a linha divisória entre o certo e o errado tenha sido tão nítida, enquanto a máquina de guerra russa desencadeia sua fúria sobre uma democracia legítima.

Já fizemos o suficiente pela Ucrânia? A resposta honesta é não. O ato de agressão de Vladimir Putin deve fracassar e ser visto como um fracasso. Não devemos permitir que ninguém no Kremlin escape impune
Boris Johnson, primeiro-ministro do Reino Unido

Os mesmos cães da Aclimação

Eles não escolhem mais hora, uivam de madrugada, uivam sob o sol matador desses dias. Esse concerto canino de vozes, que deixou Cecília Meireles insone e assombrada em sua primeira noite na Aclimação, esse mistério de cantores “meio sobrenaturais”, que ela ouvia sem ver, tentando alcançar a mensagem (pois alguma devia de haver que lhe valesse a noite em claro), é mistério que continua onde ainda existe o anfiteatro dos velhos quintais abertos para o céu, em casinhas com hera grimpando os muros.

Sim, os cães da Aclimação continuam a uivar por aqui, modulando um coro de azuis, os mesmos cães do passado, apenas agora em voz mais encovilada, trabalhada pelo século. Continuam também invisíveis, embora uivando à luz do dia. Começam à hora deles, sem aviso – outro mistério –, e, um puxando o choro, jamais os outros se omitem, cada um dá seu timbre, sua cor, sua alma, para essa vaga que se alteia sobre as casas e que nos leva.

Cecília foi levada por esse canto até eras e lugares remotos, num sonho de poeta próprio da insônia. Agora sonho eu, a bordo desse choro, e vou até os cães mudos de pânico, abrigados nos metrôs de uma Ucrânia bombardeada, depois até o silêncio de morte do velho Azorka, pobre companheiro estendido no chão, aos pés do velho dono, o focinho coberto pelas patas, Azorka intacto em sua solidão, cumprindo sua sina envolto em asco.

E assim, inesperadamente, tal como vem, esse coro de azuis também se vai. Ele se vai e nos traz de volta. As noites, e agora os dias, os recolhem, a esses azuis, e quem sabe alguns de nós também recolham qualquer coisa dessa obscura mensagem. É uma emergência, eles deixam saber enquanto choram. Depois, o silêncio é uma vaga maior e nós afundamos, desassombrados, ficamos surdos de novo, cegos de novo, de novo nos empanturramos de palavras.
Mariana Ianelli

O desmundo

A ordem emitida sugeria apenas um deslocamento forçado: todos os judeus da cidade de Kiev e vizinhanças deveriam se apresentar às 8 da manhã do 29 de setembro de 1941 na esquina de duas ruas específicas, munidos de documentos, dinheiro e pertences valiosos; além de roupas quentes e lençóis. Quem não obedecesse seria encontrado e fuzilado. O comando nazista que ocupara a cidade uma semana antes esperava atrair não mais de 5 mil vítimas, uma vez que 70% dos 225 mil judeus da cidade já haviam fugido. Restavam, portanto, entre 60 mil e 70 mil, e boa parte deles compareceu ao local.

A logística montada para ludibriá-los foi eficiente, tipo linha de montagem. Mal chegavam, entregavam primeiro os pertences, depois capotes e sapatos, em seguida as roupas do corpo. Até ficarem nus. Tudo muito rápido e atordoante. Quando, finalmente, se aproximavam do ponto em que se ouviam disparos de metralhadora, já era tarde para recuar. Um barranco de 150 metros de comprimento, 30 metros de largura e 15 de profundidade os aguardava. Obrigados a deitar em fila sobre os já executados, cada nova fileira recebia uma rajada de tiros no pescoço. Não é fácil fuzilar individualmente 33.771 mulheres, crianças e homens. Os SS de Hitler e seus colaboradores locais precisaram de 46 horas para completar o massacre de Babi Yar.

Babi Yar, Amy Shapiro

Enquanto a Ucrânia esteve sob domínio soviético, e mesmo após a independência, em 1991, inúmeras foram as tentativas de erguer um monumento oficial aos fuzilados. Mas só em outubro do ano passado o imponente memorial que faz jus à História foi inaugurado em Babi Yar. Na presença de três presidentes: da Alemanha, de Israel e o ucraniano Volodymyr Zelensky —o mesmo que o líder russo Vladimir Putin pretendeu esmagar feito pulga com a invasão desencadeada em 24 de fevereiro.

Nesta segunda semana de guerra, o memorial aos fuzilados em 1941 permanece milagrosamente de pé, apesar de o país estar em via de esmagamento físico pela Rússia. Também Zelensky continuava vivo à frente de sua já histórica resistência cívica. Onipresente, ora em bunkers, ora entre escombros da capital, ele angariou respeito mundial na marra e no improviso da necessidade. Calouro imprensado entre os interesses da Otan e do poderio militar da Rússia, optou pelo risco de resistir com seu povo. Em apenas uma semana de guerra, tornou-se estadista de uma terra arrasada, órfã de mães, avós e crianças em fugas dilacerantes, que deixam nas trincheiras da pátria seus maridos, pais e filhos entre 18 e 60 anos.

Tudo indica que “o pior ainda está por vir”, como disse o presidente da França, Emmanuel Macron, após seu enésimo telefonema com o homem entrincheirado no Kremlin. Das 15 usinas nucleares operacionais distribuídas em quatro regiões do país, a maior delas, Zaporijia, espalhou calafrios mundo afora ao sofrer um ataque e ocupação russos que resultaram num incêndio. Espera-se que pelo menos o medo do imaginado “inverno nuclear” resista como linha vermelha a não ser atravessada pelos dois principais atores por trás dessa guerra: os países da Otan e a Rússia de Putin. Seria este o “iremos até o fim”, anunciado pelo chanceler Sergey Lavrov? Com cinzas a preencher a atmosfera, o bloqueio do nosso sol e o consequente colapso de nossos ecossistemas e da produção alimentar? Nunca é bom sinal quando o chefe da diplomacia de uma superpotência fala em “terceira guerra mundial nuclear e devastadora”.

Mesmo o uso de bombas de fragmentação, não nucleares porém estraçalhantes, além de proibidas por uma convenção da ONU de 2008, é capaz de transformar as cidades ucranianas em cemitérios físicos e humanos. Apesar de a convenção ter sido assinada por mais de 111 países, foi solenemente desprezada por Estados Unidos, Rússia, Brasil e Arábia Saudita, entre outros, e faz parte do arsenal destinado a dobrar a resistência ucraniana. Um segundo tipo de bomba proibida, a de vácuo, capaz de sugar o ar e sufocar suas vítimas, também está a bordo do comboio bélico adentrando a Ucrânia pela fronteira norte. Ao longo de toda a primeira semana da guerra, o veterano Fred Pleitgen, um dos 75 profissionais da rede CNN americana (entre jornalistas, motoristas e intérpretes) atuando no front, conseguiu filmar a entrada desse material a partir do território russo.

Cabe aqui abrir um meritoso parágrafo para o peso duplo de uma cobertura jornalística de guerra em país sem censura. Para a Ucrânia, o influxo de repórteres e cinegrafistas sustentados por sólidas estruturas planetárias foi uma dádiva. Enquanto a população russa vem sendo servida com açucaradas cenas da “operação militar especial” (o termo “guerra” continua proibido), intercaladas por coreografadas reuniões de Putin com assessores, os combatentes ucranianos extraem coragem da ininterrupta cobertura do que estão vivenciando. Graças à imprensa, sabe-se hoje que crematórios móveis fazem parte do arsenal russo enviado à Ucrânia para que seus mortos não sejam fotografados no abandono, nem sejam devolvidos às famílias quando a verdade se impuser.

Mesmo que Putin consiga domínio sobre o território ucraniano, os russos pouco a pouco começarão a conhecer o tamanho do estrago. Virão à tona a extensão do despreparo de suas tropas e as humilhantes falhas iniciais da estratégia de ocupação. Será sentido com impacto pleno o encolhimento drástico da décima potência econômica mundial. Isso sem sequer ainda levar em conta um eventual confronto direto com o poderio assanhado da Otan.

Putin prometeu a seu povo reconquistar a Ucrânia que lhe seria devida e convocou a alta cúpula do país invadido a decapitar o governo “neonazista” do judeu Zelensky e a implantar um novo, livre de “marginais drogados”. Contudo, caso o mundo continue de pé, é Putin que corre o risco não impensável, embora longínquo, de vir a ser ele o destronado pelos seus. O fim deste desmundo não está à vista.