segunda-feira, 12 de março de 2018

A esquerda diante da democracia

“Este nosso encontro talvez fosse improvável”, sugeriu Guilherme Boulos no lançamento de sua pré-candidatura presidencial, diante de Caetano Veloso e um cortejo de celebridades. Improvável por quê? “O que nos uniu foi o avanço do conservadorismo, que nos forçou a buscar alianças novas”, explicou o candidato pelo PSOL. De acordo com a narrativa que vai sendo alinhavada pela esquerda, o Brasil já não vive numa democracia. O “golpe do impeachment” abriu uma fase de “autoritarismo” que equivale a “voltar 50 anos atrás” (portanto a 1968, segundo Boulos) e se destina a “retirar direitos” trabalhistas e previdenciários. Não é um bom caminho para enfrentar os desafios do ciclo pós-Lula.

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Boulos subordina o PSOL a uma narrativa que nasceu como tática do PT para conservar a hegemonia lulista sobre a esquerda na sequência da desmoralizante derrota representada pelo impeachment. Do ponto de vista petista, a denúncia do “golpe de 2016” não passa de um expediente oportunista — e a prova disso é que o PT já anunciou a retomada da política de coligações eleitorais com os “golpistas” do MDB e do “centrão”. Mas aquilo que serve ao lulismo não serve à esquerda pós-lulista.

Taticamente, a denúncia do “autoritarismo” implica a “unidade das esquerdas” — isto é, uma frente formal (como quer Tarso Genro) ou informal (como prefere Boulos), no modelo da aliança de resistência à ditadura militar. Na prática, monta-se uma camisa de força eleitoral: após o primeiro turno, os partidos e movimentos de esquerda devem se juntar às candidaturas remanescentes do “campo da esquerda”, que tendem a ser aquelas patrocinadas pelo PT.

No caso da disputa presidencial, a esquerda fica virtualmente comprometida com o candidato ungido por Lula (seja ele Jaques Wagner, Fernando Haddad, Ciro Gomes ou outro). “Jamais vou pedir para você não ser candidato”, garantiu Lula em mensagem exibida no lançamento da campanha de Boulos, explicitando o sentido da parceria. Por essa via, o lulismo sobrevive ao ocaso político de Lula, ancorando as forças de esquerda ao redor de um cais em ruínas.

Estrategicamente, a negação da realidade é a pior das bússolas políticas. No Brasil, estão ausentes todos os traços clássicos dos regimes autoritários. As liberdades públicas não foram tocadas. A separação de poderes ficou comprovada pelo próprio impeachment e, no governo Temer, pelo fracasso do projeto de reforma previdenciária, dois lances de confronto do Congresso com o Executivo. A independência do Judiciário é atestada pelos inquéritos e denúncias contra Temer. O voto de Gilmar Mendes decidiu o habeas corpus a favor de José Dirceu. Lula está solto; Eduardo Cunha, preso. Apesar do que se propaga falsamente a partir do PT e do PSOL, os militares não são (nem poderiam ser) usados para reprimir manifestações políticas.

O Boulos que fala em retorno a 1968 — assim como as celebridades (devo dizer “intelectuais”?) que o cercam — reflete a dificuldade da esquerda pós-lulista de encarar os dilemas reais de nossa democracia bastante imperfeita. A narrativa farsesca, que soa como música aos ouvidos de convertidos, tem o efeito de isolar seus arautos numa redoma folclórica. Lula qualificou Boulos como “pessoa de muito futuro na política”. O dúbio elogio equivale a excluí-lo do presente.

A fonte de inspiração de Boulos e de boa parte do PSOL é o espanhol Podemos, fundado em 2014 sob o influxo das manifestações anti-austeridade. Atraído pelo castrismo e pelo chavismo, o partido esquerdista classificou a monarquia parlamentar espanhola (o “regime de 1978”) como uma versão amenizada do franquismo. Nutrindo-se da recessão e dos escândalos de corrupção, o Podemos decolou como um míssil, chegando perto de ultrapassar o Partido Socialista para figurar como segundo partido do país. Contudo, entrou em declínio após as eleições gerais de dezembro de 2015, vitimado por seu próprio discurso de negação da democracia.

O ato desastrado inicial foi a recusa de um pacto de governo com os socialistas, o que propiciou a recondução dos conservadores ao poder. O ato seguinte foi uma aliança tácita com os nacionalistas catalães, que o conduziu a repetir o epíteto de “bloco monárquico” usado pelos separatistas contra todos os partidos constitucionalistas. A reação do eleitorado, expressa nas pesquisas de opinião, já empurrou o Podemos à condição de quarto partido do país. Farsas têm consequências — eis a lição espanhola.

Hipnotizada pelo passado, a esquerda pós-lulista ainda cultua a Cuba dos Castro, jura fidelidade ao regime agonizante de Nicolás Maduro, recusa-se a admitir o fiasco da política econômica dilmista, traça paralelos delirantes entre o governo Temer e o regime militar e, sobretudo, vira as costas ao diálogo democrático. Três décadas atrás, o PT rejeitou assinar a Constituição de 1988, a mesma que lhe permitiu governar o Brasil por 13 anos. Hoje, imitando o Podemos, seus presumíveis sucessores crismam todos os demais atores políticos como um “bloco autoritário”.

2018 não é 1968. Alguém precisa dizer isso a Boulos.

Demétrio Magnoli

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CENA LINDA DE UMA MULHER  GUERREIRA

A palavra 'mal' foi abolida do nosso vocabulário covarde

Ficar sem palavras é a pior coisa que pode acontecer a quem vive delas. Mas há sempre uma primeira vez.

Amigos sábios tinham feito um ultimato: ou eu assistia a "O Ato de Matar", o premiado documentário de Joshua Oppenheimer, ou eles cortavam relações comigo.

Cedi. Tinham razão. É talvez a mais radical e perturbadora experiência cinematográfica dos meus últimos longos anos.

Cenário: Indonésia, dias de hoje. Tema: as matanças organizadas por milícias pró-Suharto depois do golpe militar de 1965 para limpar o país de "comunistas" (um termo suficientemente vago que tanto se aplica a militantes marxistas como a imigrantes chineses).

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Mas o melhor de tudo são os atores principais: nada menos que os próprios carrascos, hoje envelhecidos, e que partilham com Oppenheimer lembranças e técnicas com uma naturalidade que está para lá do bem e do mal. E, quando digo "atores", a palavra é exata: eles não apenas falam abertamente dos seus crimes como encenam os crimes para explicar melhor.

O caso de Anwar Congo merece destaque. No início do documentário, encontramos a lenda (tradução: mais de mil vítimas). E o que impressiona no velho Anwar é a sua alegria –não a alegria de viver, mas a alegria que sente na evocação da matança.

Eu sei, eu sei: a palavra "mal", hoje, foi abolida do nosso vocabulário covarde. O mal nasce da pobreza, da ignorância, da doença. Ou, melhor ainda, é um resquício lamentável de fantasias religiosas.

Para Anwar, o mal é uma afirmação da existência. Os detratores das milícias gostam de usar a palavra "gangsters". Mas Anwar gosta dessa palavra: "gangster", diz-nos ele com a sabedoria de um filólogo, significa "homem livre". E os "homens livres" criam as suas próprias leis.

Anwar é uma espécie de existencialista do açougue que aprendeu tudo com o cinema americano. A pose, os ternos, os gestos. E, claro, as técnicas.

Com ele visitamos o terraço de uma casa que servia de matadouro nos anos loucos de 1965 e 1966. Era uma terrível sujidade –o sangue, o cheiro. Quem aguentava aquilo?

Poucos. Ninguém. Os nazistas, que eram os nazistas, só optaram pelas câmeras de gás porque os fuzilamentos em massa andavam a perturbar a saúde psíquica dos soldados do Reich.

Então o nosso "gangster" começou a estrangular com arame, o método mais barato e eficaz. Ele próprio, com um amigo, mostra-nos como a coisa funcionava. É tão fácil como andar de bicicleta –e ele conta tudo como quem fala de uma bicicleta.

E a consciência? Haverá uma consciência que tudo vigia e condena?

Boa pergunta. Uma pergunta que os carrascos fazem uns aos outros. O nosso Anwar, apesar da alegria, confessa a um deles que ainda tem pesadelos. O outro desvaloriza: diz-lhe que é uma questão de nervos mas que um bom médico cura tudo.

Depois, em momento que parece ter sido escrito por Dostoiévski "lui même", ainda aconselha: o segredo de matar com a consciência tranquila é encontrar uma boa desculpa para o ato.

E para quem pensa que existem leis internacionais –ou, jocosamente, "direitos humanos"– que impedem esse ato, um dos carrascos decide filosofar: a Convenção de Genebra foi escrita por vencedores. Ali, na Indonésia, eles são os vencedores. O código que interessa é outro: a Convenção de Jacarta, digamos.

Era Adam Smith, na sua "Teoria dos Sentimentos Morais", quem dizia que só somos verdadeiramente humanos quando temos a capacidade de nos imaginarmos no lugar do outro.

"O Ato de Matar" apresenta-nos o resultado dessa "falha de imaginação": a transformação do ato de matar em simples rotina cotidiana. Como escovar os dentes, comer, fumar.

Terminei o documentário sem palavras. E depois, consultando as notícias do dia, lá encontrei as polêmicas do momento. Como, por exemplo, as acusações pungentes de que os filmes de James Bond são "sexistas" e merecem boicote.

Em condições normais, tanta estupidez teria o dom de me enervar. À luz do documentário, olho para elas com uma brandura paternal. As cabecinhas vazias do Ocidente que perdem tempo com essas coisas são, afinal, crianças brincando no jardim.

Promessa não mata fome

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Um povo já não acredita nas promessas dos governantes, porque perdeu a vontade fanática que o levava a acreditar e a tecer razões para isso 
Agustina Bessa-Luís

Aos infiéis, os milhões

Começou na quinta-feira e vai até 7 de abril o leilão eleitoral que deve arrematar mais de 50 dos 513 deputados federais e uma centena dos 1.024 estaduais do país. Ainda que amparado por lei, aprovada pelos próprios beneficiários no ano passado, o troca-troca é um dos absurdos do sistema brasileiro. Um desrespeito desmedido ao eleitor.

E não é o único: somam-se a ele os fundos públicos (o eleitoral, de R$ 1,7 bilhão, e o partidário, de R$ 888 milhões), o privilégio para os ricos, que poderão empenhar suas fortunas pessoais na campanha, o conto da carochinha de que o caixa 2 foi excluído com o advento do financiamento do Tesouro. E ainda a permissão para coligações de conveniência ou os olhos vesgos para os palanques antecipados – sabe-se lá custeados por quem -, visíveis a olho nu e sem qualquer punição.

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A janela da infidelidade, que há dois anos mexeu com a filiação de 90 deputados federais, é um escândalo. Contraria o princípio da proporcionalidade, critério pelo qual, goste-se ou não, os parlamentares são eleitos. Por ele, candidatos com poucos votos chegam ao Olimpo puxados por campeões, e votos conferidos só à legenda contam para aumentar a bancada do partido.

A família e apoiadores do deputado-candidato Jair Bolsonaro inauguraram a janela 2018, levando sete parlamentares para o minúsculo PSL, que pulou de três para 11 deputados e imagina fechar a vidraça com pelo menos 20. O DEM elegeu 31 federais em 2014, tem 33, e sonha entrar abril com 45. O PR quer pular dos atuais 37 para 42, e o PP, hoje com 45, sete a mais do que elegeu há quatro anos, imagina chegar a 60 deputados.

As perdas devem sobrar para o PT e o PSDB, que de 2014 para cá já viram suas bancadas serem reduzidas de 68 para 58 e de 54 para 46, respectivamente.

A pulação de galho em galho sempre foi uma excrecência, mas hoje a barganha é ainda mais desavergonhada.

Até 2014, a corrida atrás dos deputados de outras siglas se dava, basicamente, para ampliar segundos no horário de propaganda eletrônica dito gratuito. Não raro – e nada garante que não irá se repetir – utilizavam-se também coligações com partidos de aluguel para satisfazer a mesma cobiça.

Agora, além do rádio e TV, o argumento é dinheiro vivo de fundos pagos por todos os brasileiros – R$ 1,5 milhão ofertam o PT, MDB e PSDB, R$ 1,8 milhão a R$ 2 milhões cobre o PTB, R$ 2,5 milhões grita o DEM.

Lances feitos e administrados diretamente pelos donos dos partidos.

Em pleno século XXI, o Brasil caminha firme e forte para institucionalizar o coronelismo. Só terá dinheiro na campanha eleitoral quem o chefe mandar. Ou os ricos e muito ricos, o que no es lo mismo pero es igual.

Só o eleitor, negando votos aos oportunistas, pode consertar esse descalabro.

Mary Zaidan

domingo, 11 de março de 2018

Desigualdade maior

A concentração aguda de riqueza em mãos privadas veio acompanhada de uma perda do poder da população geral. As pessoas se sentem menos representadas e levam uma vida precária, com trabalhos cada vez piores. O resultado é uma mistura de aborrecimento, medo e escapismo
Noam Chomsky

Paisagem brasileira

Serro, Minas Gerais - Brasil
Serro (MG)

Covil de pilantras

Tem uma cabeça de burro enterrada no Ministério do Trabalho. Quem o diz é o ex-deputado Roberto Jefferson, presidente do PTB, que entende de cabeça de burro, de PTB e de Ministério do Trabalho.

Foi um funcionário indicado pelo PTB para a empresa dos Correios que em 2005 desatou o escândalo do mensalão do PT. Ele pediu e foi filmado recebendo uma “merreca” de propina, como diria Lula.

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Recentemente, Jefferson tentou emplacar a filha Cristiane Brasil como ministra do Trabalho. Compreensível. No loteamento da administração pública, governo após governo, o ministério sempre coube ao PTB.

Deu no que deu: Cristiane foi vítima da cabeça de burro por lá enterrada. Acabou sem tomar posse porque foi alvo de uma ação trabalhista. Depois de muito desgaste, desistiu da nomeação.

Descobriu-se agora que um rapaz chamado de “inexperiente” por Jefferson, de apenas 19 anos de idade, foi empregado pelo PTB no estratégico cargo de gestor financeiro de uma área do ministério.

No seu primeiro dia de trabalho, ele liberou o pagamento de R$ 22 milhões à uma empresa de tecnologia ligada ao deputado Jovair Arantes, líder do PTB na Câmara. Deveria gerir cerca de meio bilhão de reais.

Um governo que se diz sério como o de Michel Temer (é verdade que todos se dizem sérios) não deveria assistir calado a mais um escândalo. Porque é disso que se trata: um escândalo de bom tamanho.

Se foi capaz de intervir num estado como o do Rio, apesar do risco de fracassar, Temer deveria intervir no Ministério do Trabalho e limpá-lo dos pilantras que o tomaram de assalto. Seria menos arriscado. Ou não seria?

Partidos mudaram de ramo e viraram prostíbulos

Os partidos políticos brasileiros, como se sabe, estão em crise. Perderam a função. A própria política caiu em descrédito. Não há mais debate de ideias. Pouco importa que legenda está no poder. Muita gente pedia uma reforma política. Pois ela chegou. Os partidos legalizaram a infidelidade, instalaram uma porta giratória na entrada, reservaram R$ 2,6 bilhões do Tesouro Nacional para a compra de mandatos e mudaram de ramo. Os partidos viraram prostíbulos.

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A expressão decoro parlamentar frequenta as constituições brasileiras desde 1946. O primeiro caso de cassação de mandato por falta de decoro ocorreu em 1949, contra o deputado Barreto Pinto, por ter posado de cuecas para uma revista. Hoje, essa expressão “falta de decoro” parece insuficiente para descrever a atual fase pornográfica da política. Decorosa ao extremo, a Constituição não contém palavra mais forte para descrever a sem-vergonhice que tomou conta da Câmara. Os parlamentares estão nus.

Eles se autoconcederam um prazo de 30 dias para o livre exercício da infidelidade. Até o dia 6 de abril, está liberado o troca-troca partidário. Vale tudo. E ninguém será punido. Para aumentar suas bancadas e, com isso, elevar sua cota de dinheiro público, ampliar sua vitrine eletrônica e aumentar seu poder de chantagem sobre o governo, os partidos compram deputados por até R$ 2,5 milhões —dinheiro para a campanha, dizem.

Costuma-se afirmar que a política é a segunda atividade mais antiga do mundo. Mas ela ficou muito parecida com a primeira. Com uma diferença: quem paga o michê é o déficit público.

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Going back to the corner where I first saw you.

Um dia vou pescar no Tietê

Para José de Souza Martins e German Lorca

Há na mídia assuntos periódicos, constantes nas pautas como presentes e frutas de Natal; material escolar em fevereiro; ovos de chocolate na Páscoa; flores no Finados; bacalhau na Semana Santa, fantasias no carnaval (certa época, um tema era o lança-perfume, mas o Jânio Quadros estragou a festa). Desde que entrei em jornal, em 1957, sigo uma reportagem recorrente, repetitiva, a despoluição do Rio Tietê. Volta e meia ela agita, brigam os ambientalistas, os burocratas inertes e os políticos ávidos por propinas. A limpeza do Tietê se eterniza, assim como se adia a abertura da estação do metrô Oscar Freire, já apelidada pelo povo de “estação virtual.”

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O rio continua a correr grosso, viscoso. Triste cartão de visita. Passar pelas avenidas marginais devia nos valer uma taxa de insalubridade, a ser acrescentada a nossas minguadas aposentadorias. Esta abertura me veio a propósito de uma deliciosa cançonetinha que me foi enviada por Hélio Ziskind. Se você conhece o Hélio está bem, sabe do que falo, o talento que ele tem. Se não conhece, é pena, principalmente para seus filhos e netos.

Um dos formadores do Grupo Rumo, ícone da “vanguarda paulista” nos anos 80, Hélio passou pela TV Cultura de São Paulo produzindo, entre mil coisas, os programas infantis Glub Glub, X-Tudo, Lá Vem História e Rá-Tim-Bum. Um prêmio Sharp de Música de melhor disco infantil e melhor canção por A Noite no Castelo, em 1987 e outro em 1995 com a Sono de Gibi, melhor canção infantil. Em 1997, lançou seu primeiro disco solo, Meu Pé, Meu Querido Pé, pela MCD. Consultor Pedagógico do programa Castelo Rá-Tim-Bum. Ah, as trilhas sonoras do Museu do Amanhã, no Rio de Janeiro, são dele.

Essas são mínimas coisas entre as centenas que sei do Hélio, de quem me aproximei quando vi o musical O Gigante na Floresta criado por ele, que narra a história verídica do Jequitibá de Carangola, Minas Gerais, uma árvore histórica de 1.500 anos, 54 metros de altura e 13 de largura, que foi vítima de um incêndio criminoso. Belíssimo tema. Ora, tínhamos tudo a ver um com outro, tendo eu escrito Não Verás País Nenhum e O Manifesto Verde, com temas ambientais. Hélio e eu frequentamos um a casa do outro, afinal ele é meu concunhado, ainda que cunhado não seja parente.

Adoro ouvir as conversas dele que vão de bactérias à física quântica, das propriedades dermatológicas do óleo de abacate à ficção científica e computação. A partir de março, no primeiro domingo do mês, todos poderão rever na Pinacoteca o Pinacanção: Uma História Cantada, desvendando o mundo da pintura, que mexe com a garotada.

Voltando ao abandonado infame rio. Dia desses, recebi o vídeo Utopia do Tietê, que adorei pela singeleza, humor, pela utopia e otimismo. Tomara as minhas distopias ambientais não se realizem, mas gostaria de viver a do Hélio. Ainda iremos para as margens do rio? Vejam só o que Hélio canta:

Um dia vai ter peixe no Tietê
um dia eu vou poder ir lá pescar
Eu vou chegar
pedalando a bicicleta
deito na grama
na beira do rio
Se der jogo
um futebol
dou uma nadadinha
me seco no sol

À tardinha vem peixe na beira do rio
Fico pescando, olhando o céu
e a cidade se acender

Eu pego um barco-bar vou
navegando pelo rio
Passo por baixo
da ponte do Limão
vou tomando meu suquinho
cantando uma canção
abacaxi (sh sh)
com hortelã (sh sh)

Tietê até’manhã
Um dia vai ter peixe no Tietê
um dia eu vou poder ir lá pescar
Sábado à tarde, na marginal
o rio vai trazer o meu jantar.


Um presente para a cidade na berlinda. Vale tentar acesso pelo link 

Funcionalidade criminosa

Há três facções no Rio de Janeiro, grandes compradoras de armas pesadas em virtude dos entreveros entre elas ou de cada facção com as forças policiais. O CV foi criado dentro de prisão federal em 1977, para assegurar aos assaltantes de bancos, enquadrados na Lei de Segurança Nacional, respeito à sua integridade física, ameaçada por prisioneiros ou por agentes do Estado. Depois, passaram a cobrar contribuição dos assaltantes que estavam na rua como garantia de respeito na prisão. Só em 1986 perceberam que havia outra atividade criminosa mais lucrativa e contínua (tráfico de drogas) e que traficantes já haviam iniciado uma corrida armamentista para proteger as bocas de fumo nas favelas. Começaram então a aliciá-los para o CV, espalhando o controle territorial pela cidade. Só que o dono da boca se estabeleceu no local onde cresceu, onde conhecia e era conhecido pelos vizinhos, ou seja, era “cria” da favela. Esse caráter de pequeno negócio local, no varejo das drogas, baseado nas relações de reciprocidade dentro ou entre favelas, vai marcar as facções cariocas que nunca chegaram a ser empresas modernas.

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O PCC foi fundado em 1993, também dentro da prisão, usando o mesmo lema e código de conduta do CV. O recrutamento, ao contrário, se deu pela indicação de um membro que se tornaria o “padrinho” do novo adepto, como na máfia italiana. O PCC logo assumiu um caráter empresarial com complexa hierarquia de decisões, em diferentes setores de atuação (sintonia geral e final, sintonia dos gravatas, uma sintonia para cada crime, uma sintonia para cada estado da Federação, sintonia dos presídios subdividida por unidades, sintonia do PCC no Paraguai e na Bolívia). No código atualizado, qualquer pessoa que prejudique os negócios do crime, ou por traição ou por incompetência, recebe um “salve”, tem o seu caso discutido nas sintonias a que está conectada e será punida com a morte. Apenas os casos mais difíceis de decidir chegam até a sintonia geral final, que dá a permissão para matar ou expulsar.

Foi assim que o PCC ajudou a controlar a taxa de homicídios em SP, tornando-se uma organização mais eficiente e capaz de monitorar as ações de seus membros. Além disso, enquanto o tráfico de drogas permaneceu durante muitos anos como o negócio do CV, complementado por assaltos feitos por iniciativa pessoal, o PCC coordenou várias atividades criminosas, tais como tráfico de armas e de drogas no atacado, roubo de cargas, roubo a bancos, assaltos milionários a carros forte e transportadora de valores, explosão de terminais eletrônicos. Essas ações espetaculares e de grande apropriação de dinheiro são motivo de orgulho dos que se aliam ao PCC e escrevem nas várias páginas de notícias das facões na internet. Mais claramente contra o Estado e as empresas, foram se espalhando por outros estados da Federação, acompanhando a expansão do PCC.

A partir de 2010, houve aumento crescente do roubo de cargas, que passou de 12.300 nesse ano para 17.500 em 2014, e também do prejuízo dado às empresas: R$ 800 mil em 2010, R$ 1 bilhão em 2014. Em 2011, os casos no RJ (3.073) eram menos da metade dos casos de SP (6.958). Em 2014, segundo a Firjan, 48% dos roubos de carga ocorreram em SP e 33% no RJ. Em 2017, já era mais do que o triplo (9.862) do que no início da década. Juntos, os dois estados respondem por 87,8% dos roubos no Brasil, que é o oitavo país em risco no transporte de carga em 2017, perdendo apenas para os países em guerra no Oriente Médio ou da África.

Os roubos de carga não cresceram espontaneamente no Rio. Foram resultado da presença do PCC e suas preferências sobre o modo de conseguir mais dinheiro rapidamente. Notícias sobre sua expansão no país tornam-se corriqueiras. O projeto da sintonia final é chegar a 40 mil membros em 2018, afrouxando os protocolos da inclusão, sem a necessária indicação de um padrinho já membro da facção com a aprovação de mais dois outros membros. Só então aparecem fissuras na forma de controle e críticas aos padrinhos que trouxeram novos membros vacilões ou traidores. O PCC se expandiu, mas afrouxou o controle interno sobre seus membros. Daí tantos assassinatos recentes, que revelam uma feroz luta interna pelo poder dentro e fora da prisão.

Sem resolver a questão penitenciária nem desmantelar a companhia do crime organizado que se expande por todo o Brasil, não há solução para a violência no país.

Alba Zaluar

sábado, 10 de março de 2018

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Canal Bridge, Annecy   France
 Annecy (França)

Por que a liturgia bélico-religiosa de Bolsonaro me dá calafrios

Muitos jovens brasileiros terão dificuldade em entender o arrepio que me produziu a cerimônia de filiação do deputado e ex-militar Jair Bolsonaro ao PSL e a liturgia que o acompanhou, em que se mesclaram orações, armas, alusões ao derramamento de sangue, gestos fascistas e a autoproclamação: “Eu sou o Messias”. É preciso ter sido filho de uma ditadura militar de 40 anos, aquela que vivemos os espanhóis sob o cristianíssimo general Franco, para analisar friamente essa cerimônia.

Na Espanha, durante a ditadura, os republicanos e antifranquistas eram chamados de “vermelhos”. Na quarta-feira passada, Bolsonaro, que se apresenta como paladino da antiesquerda, tomando a bandeira do Brasil nas mãos, declarou: “Só tem uma maneira dessa bandeira ficar vermelha: com o meu sangue.” Ao seu lado, o Delegado Waldir profetizou: “Quando este homem subir a rampa do Planalto, as crianças voltarão a cantar o hino nacional nas escolas e o Brasil voltará a ser um país cristão”. Jair Messias Bolsonaro, fazendo um jogo de palavras com seu segundo nome, proclamou: “Eu sou o Messias”. E todos se puseram a rezar.

Se o único vermelho que Bolsonaro suporta é o do seu sangue, e sendo o PSL o nono partido pelo qual já transitou, caberia perguntar quais são as cores de sua bandeira e de seu deus. Sabemos que, no pensamento de Bolsonaro e seus satélites, a ideia de crianças cantando o hino nacional nas escolas e o Brasil “voltando a ser cristão” significa nostalgia de uma teocracia em que se governa mais com a bíblia que com a constituição. Durante o franquismo dizia-se que se era espanhol “pela graça de Deus” e também o único vermelho suportado era o do sangue dos torturados e fuzilados.

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Bolsonaro, que sonha em colher alguns despojos do PT de Lula, mas prefere morrer a ver a bandeira brasileira se tornar vermelha, poderia, por um cruel paradoxo, estar reforçando essa esquerda que ele demoniza. A esquerda brasileira, de fato, apesar de suas corrupções e do afastamento dos ideais, acaba sendo menos indigesta que essa mistura explosiva de extrema direita com a Bíblia em uma mão e a metralhadora na outra. E, no meio, o desprezo pela mulher e o pânico ao que aparenta ser diferente.

Também durante o franquismo, o generalíssimo Franco, por privilégio concedido pelo Vaticano, saía de manhã em procissão pelas ruas, cercado de bispos e cardeais sob o baldaquim litúrgico usado para levar a Eucaristia, e à tarde preparava a lista dos que deviam morrer por serem “vermelhos”. Nas escolas, como na de meus pais, as crianças, fazendo a saudação fascista, cantavam obrigatoriamente o hino nacional enquanto se hasteava a bandeira e gritavam o nome de Franco. É aquela lúgubre lembrança de uma Espanha que eu sempre quis esquecer que gostaria de evocar aos jovens brasileiros a quem desejo que nunca tenham de bater continência a nenhum messias e a nenhuma outra bandeira que não a da democracia. Nem a outras cores que não as da liberdade.

A última esperança

Ninguém sabe o seu nome real.

Conheci pelo apelido do bar, que pegou: Brasílio.

Brasílio é o último brasileiro que ainda tem esperança no Brasil.

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Esperança mesmo. Inabalável.

E não é de hoje, vou dar uns exemplos.

Quando Tancredo foi internado, Brasílio garantiu:

– ‘Ces sabem o que é isso? Apendicite. Meu primo teve. Em uma semana está de volta à ativa. — explicando porque tinha comprado uma passagem para Brasília para assistir à posse.

O bar, alias, é o palanque do Brasílio.

É ali que, nos finais de tarde, ele divide sua esperança infindável no País.

Os amigos, claro, já sabem e se divertem.

Fazem perguntas justamente para provocar.

Como o dia que perguntaram para ele o que achava do período da ditadura militar.

– Olha, a gente tem sempre que ver o lado bom, por exemplo…

Percebem?

Brasílio é assim. Tem esperança no futuro e até no passado!

Tem fé. Não só em Deus, mas nas coisas e nas pessoas.

Nas diretas já, Brasílio dormiu com a cara pintada por duas semanas.

– Tem de apostar, gente. Tem que se comprometer. Senão a vida não muda!

Foi fiscal do Sarney.

Tanto que o gerente do supermercado do bairro proibiu sua entrada, de tão chato que era.

Na época do Collor, quando a Zélia arrancou o dinheiro de todo mundo, ele mandou essa:

– Se precisam de dinheiro, nada mais justo que nós colaborarmos.

Quando a inflação era de quatro dígitos, Brasílio foi visto comprando uma geladeira à prazo.

– É simples: se a gente parar de consumir, aí é que o País para mesmo.

Desemprego, corrupção, segurança não é problema para o Brasílio.

– Sabe o que é isso tudo? Dores do crescimento. Um sinal de que o País está crescendo.

Não importa o assunto, Brasílio sempre tinha uma palavra de otimismo.

De crença num futuro melhor.

No Maracanã, quando estava cinco a um para a Alemanha, ele, na arquibancada, levantou para puxar o coro:

– Vai virar! Vai virar! Vai virar!.

Tomou um copo de urina na nuca.

No dia que Lula afirmou que a crise de 2008 era só uma marolinha, Brasílio comprou ações da Petrobras.

Mas não achem, por isso, que Brasílio é petista ou mesmo de esquerda.

Brasílio nunca teve uma posição política clara.

– Eu voto no candidato que está na frente das pesquisas. Eleição não é jogo. Se o povo aposta, eu aposto também.

Veio o Mensalão e o Petrolão.

Veio a Dilma.

Nada do Brasílio desanimar.

Para ele o importante não eram os problemas.

– Mas gente, não estão investigando? Não estão prendendo? Então, pô. Democracia é isso mesmo. Um processo. Leva tempo mas a gente chega lá.

Faz um tempão que eu não via o Brasílio.

Essa semana meio desanimado com tanta bandalheira e principalmente com a frase que mais se ouve: “o pior é que não tem em quem votar, é ou não é?”, resolvi passar pelo bar para ouvir o que ele tem a dizer.

Quem sabe, né?

Cheguei lá e encontrei a turma toda reunida, como sempre.

Menos o Brasílio.

Sentei, pedi uma cerveja, esperei uma brecha no papo e perguntei:

– E o Brasílio, hein pessoal? Por onde anda?

– Como assim? Você não sabe o que aconteceu com o Brasílio??? — o Gordo perguntou.

– Nossa…não sei…coisa grave, morreu?

Não tinha morrido.

O Gordo mesmo respondeu.

– Quem dera tivesse morrido. Muito pior. Mudou para a Argentina.

Aí complicou.

Onze candidatos e nenhuma ideia

Será que somente o reduzido grupo dos que defendem e valorizam a necessidade de uma nova pactuação democrática consegue ver o tamanho do buraco em que caiu o País?

A fragmentação continua a avançar, trazendo consigo a sensação de que o próximo governo será marcado pela inoperância, pelo artificialismo da concorrência político-partidária e pela tensão ideológica. Ninguém parece se preocupar com o quadro e todos continuam a correr rumo ao precipício, que a cada dia fica mais próximo.

Cada candidato faz de conta que o problema não é com ele, mas com os outros, sempre tidos e havidos como “inimigos” e adversários.


Por enquanto são onze, que a preguiça analítica distribui entre esquerda, centro e direita, mas que a rigor pouco se diferenciam entre si, a não ser pelo tamanho da língua e pela volúpia de chegar ao poder. Outros mais deverão aparecer e embolar ainda mais a corrida. Como não há ideias postas na mesa, a atribuição do lugar que cada candidato ocupa no tabuleiro político e ideológico não passa de exercício classificatório desprovido de sentido. Serve tão-somente para que se delineie uma situação “ideal”, com polos que se contradizem. As contradições, porém, não são explicitadas. Nem as diferenças.

Dizem que é cedo para que pense em coligações. A incerteza geral, a fragilidade das postulações e a inexistência de conteúdos programáticos claros impediriam que se cogitasse, no momento, da formação de frentes políticas desenhadas para maximizar o poder de fogo de propostas perfiladas no mesmo espaço político-ideológico. A hora é de cada um testar sua densidade.

Pode ser. Mas nunca é cedo para se fazer o certo. A ideia de se levar o eleitor ao limite e de conclamá-lo a pensar no país só no segundo turno é uma opção suicida, que pode implicar a organização de uma disputa desconectada dos interesses populares e nacionais: daquilo que precisa ser feito.

A sociedade não merece ser tratada como se fosse uma coisa qualquer, menos importante que os caprichos, os interesses e as manias dos políticos.

A articulação dos democratas entre si, feita com generosidade, sem vetos e com programas claros, é uma saída tão evidente e tão plena de possibilidades que chega a surpreender que poucos se deem conta dela.

Paisagem brasileira

Amazônia
Revoada de guarás

Nada para nada

Dia desses lia - em publicação estrangeira - uma notícia que deveria nos encher a todos de orgulho. Uma brasileira, Nadia Ayad, venceu uma competição de nível mundial, a "Graphene Challenge". Trata-se de um certame destinado a selecionar os melhores projetos de uso de um novo material, o grafeno.

Trata-se de uma forma cristalina do carbono, cuja utilização pode promover uma revolução tecnológica superior até à que a humanidade alcançou com o plástico e o silício. Até onde estudei, o grafeno é mais forte que o aço, porém muito leve e quase transparente, além de excelente condutor de calor e eletricidade.

Nadia, estudante de engenharia de materiais do IME (Instituto Militar de Engenharia), foi convidada a visitar centros de pesquisa sobre o grafeno em funcionamento na Suécia. Seu projeto, qual o de utilizar este material para filtrar e dessalinizar a água do mar, tornando-a potável, certamente renderá boas conversas durante as visitas.

Meu primeiro pensamento, ao ler esta notícia, foi o de lamentar o quão pouco divulgado foi este feito aqui no Brasil! Coloquei o nome da nossa conterrânea no "Google", e na primeira página de resultados apenas apareceram, quanto ao Brasil, referências quase que pessoais - nenhuma matéria de grande envergadura por um grande veículo. Passei para a segunda página, e nada! Somente lá pela terceira página começaram a aparecer algumas poucas reportagens.

Minha segunda reflexão foi dirigida ao Professor César Grisólia, do Departamento de Genética da Universidade de Brasília. Há alguns anos foi adquirido, para o laboratório daquele instituto, um potente microscópio norte-americano - os recursos vieram do CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico).

Tão logo aportou por estas bandas, o instrumento foi retido pela alfândega. Ao longo de cinco meses, o professor tentou liberá-lo, sem sucesso. Houve a necessidade de se contratar um despachante - que o professor teve que pagar do próprio bolso, pois a universidade não dispõe de verba para tal fim.

Dizia Câmara Cascudo que o melhor produto do Brasil é o brasileiro. Quão bom seria que, do governo à imprensa, da burocracia às instituições, todos percebêssemos isso - à semelhança dos estrangeiros, que tantos cérebros brilhantes levam daqui, junto com nosso futuro.

Pedro Valls Feu Rosa

Cravos da nossa cruz

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A ditadura calou à baioneta a liberdade.
A demagogia populista roubou a riqueza e a dignidade
A república dos investigados reescreve a Justiça segundo o Privilégio
Luiz Gadelha

Gleisi prova que, no Brasil do PT, é o bandido que procura o juiz

Bandidos profissionais guardam distância de camburões, delegacias, tribunais e outros veículos ou imóveis que abrigam homens da lei. É assim em qualquer país. Mas o Brasil não é um país qualquer, confirmou a segunda invasão do Supremo Tribunal Federal por Gleisi Hoffmann, afundada até o pescoço em maracutaias descobertas pela Lava Jato.

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No mundo inteiro, são os juízes que fecham o certo aos delinquentes. Aqui, meliantes protegidos pelo foro privilegiado sitiam juízes, desembargadores ou ministros de instâncias superiores. Na terça-feira, ao aparecer no STF à caça de uma reunião com a ministra Cármen Lúcia, Gleisi mostrou que nem a mais alta autoridade do Judiciário está livre da inversão inverossímil.

Afundada em bandalheiras multimilionárias, a tuiteira sem cérebro, conhecida nos meios policiais pelos codinomes Amante e Coxa, deveria estar concentrada na busca da vaga no Congresso que talvez adie por alguns anos aquelas batidas na porta às seis da manhã. Mas Gleisi prefere fazer o diabo para livrar Lula do “boi” e do beliche.

No dia seguinte, Gleisi reincidiu no espetáculo da insolência e tornou a invadir o STF, de novo à procura de Cármen Lúcia. Como a ministra tinha mais o que fazer, a visitante sem convite teve de contentar-se com Dias Toffoli, o ex-advogado do PT permanentemente à disposição dos antigos e eternos chefes.

A dupla transformou o que deveria ser uma audiência num animado reencontro de discípulos de Lula. Trocaram lembranças, trocaram elogios, trocaram gentilezas. Só não trocaram ideias. Nenhum deles tem ideias para trocar.