quarta-feira, 9 de setembro de 2015

Corrupção: crime de alta traição

Há uma crença generalizada na América segundo a qual a gripe, a varíola e a corrupção chegaram junto com as grandes descobertas.

Gerações e gerações de americanos têm convivido com a corrupção como quem vive diariamente com o cumprimento das funções orgânicas do corpo humano. Pois ser poderoso e corrupto tem sido quase tão inevitável quanto comer e respirar.

A corrupção faz parte do decálogo das promessas de dois séculos.


Enquanto corria atrás da democracia, a América não conseguia encontrar tempo a não ser para lamentar, abstratamente, o quanto a corrupção fazia parte de sua existência.

Otto Pérez Molina, ex-presidente da Guatemala, experimentou aquilo que muitos devem ter sentido durante as grandes turbulências da época do Terror, quando se dormia em um palácio e se acordava em uma cela.

E, se foi assim, é porque a corrupção deixou de ser um mal inevitável. Assim como deixou de ser uma parte das necessidades orgânicas dos políticos, para se transformar em um crime de alta traição que afeta igualmente a todos os cidadãos. No México, as crianças cresceram aprendendo que “quem não engana, não avança”.

E na Espanha, todos os casos de corrupção envolvendo os catalães do Governo de Convergência Democrática, além dos do PSOE e do PP no restante do país, lançando contra as cordas aquilo que foi, em seu tempo, um processo bem-sucedido de transformação política, constituem, agora, sinais inequívocos de uma doença social, a mesma que neste momento sofre, na América, uma curiosa transformação.

Antes, a corrupção era um problema isolado, quando alguém se aproveitava de seu poder cometendo abusos, roubando, apropriando-se e enfiando no próprio bolso o que não era seu, prejudicando, dessa forma, toda a população.

Hoje, porém, é causa direta, não apenas da perda do vigor moral de um país, mas também da má qualidade da construção de estradas, das mortes por causa de medicamentos vencidos, do ensino ruim nas escolas e da incapacidade de romper com o círculo vicioso da pobreza estrutural.

No Brasil, a corrupção já não é mais um crime individual. Constitui, efetivamente, um golpe de Estado contra a moral e os princípios da população brasileira.

O mais surpreendente, hoje, porém, é o efeito contagioso da punição indiscriminada que se exige que seja aplicada contra os corruptos.

Pois, agora, a corrupção se tornou a questão maior para milhões de pessoas que nunca saíram da pobreza extrema. Agora, ela é vista nos pilares que sepultaram milhares de cidadãos no terremoto de 1985 no México. E está presente, também, no sentimento de saturação de um povo que vive sob uma democracia formal na qual vigora muita injustiça e onde é muito limitada a vontade real de superar as disparidades sociais.

Esse salto qualitativo, que estabelece uma diferença entre a corrupção para os corruptos e a corrupção como um crime de alta traição, é um fenômeno relativamente novo.

O problema mais grave é que a luta contra a corrupção na América Latina não chega a ser exatamente uma primavera árabe. E que, agora, a América, tão frágil institucionalmente, depende do poder judiciário, o qual, em que pese o conjunto de citações universitárias a Montesquieu, esteve sempre a serviço do primeiro poder. Ou seja: os magistrados recebem as esmolas que lhes são dadas pelos parlamentares a serviço do poder Executivo.

Por essa razão, o grande perigo, agora, reside em que, uma vez iniciado o resgate moral, se ignore que não se trata apenas de um problema de punição, mas também de estrutura legal, e não se assegure que aquilo que hoje derruba presidentes, acalenta esperanças e anuncia primaveras não se torne futuramente a melhor maneira de voltar a povoar as Américas com novos pinochets.

Dilma é o bode: ruim sem ela, pior com ela

Charge O Tempo 09/09Adaptada aos primórdios da União Soviética, a fábula do bode na sala tem tudo que ver com nossa atualidade: incomodados com o excesso de pessoas num apartamento coletivo, seus moradores se queixaram a um comissário do povo, que os aconselhou a pôr um bode em casa. Uma semana depois voltou ao local e, ao retirar o bode, melhorou a situação, que, é claro, tinha piorado muito.

Esta terra do samba, do frevo e do futebol tornou-se pátria do incômodo de 1 milhão de desempregados, previsto para 2015. E, talvez, ainda viverá funestas consequências nos próximos “meses” (apud Joaquim Levy), com mais empresas falindo e menos serviços funcionando, sob a égide de uma destrambelhada que assiste, aparentemente impávida, à degeneração econômica, política, social e, sobretudo, moral deste “país do pixuleco”. Neste, bandidos são bajulados como heróis que empregam trabalhadores e guerreiam pelo povo e vilões são apenas seus ex-sócios que colaboram com a Justiça ao denunciá-los.

Neste atual descalabro, uma nobreza nada nobre se protege atrás de um vergonhoso muro da ira da plebe espoliada.

Antigamente a corrupção era um empreendimento pessoal e assim foi até chegarmos a este século 21, quando virou projeto sistêmico partidário de poder para enriquecer uma súcia que se pretende monopolista de todas as virtudes e benesses.

Protegida por placas de metal na festa da Independência, que deveria ser de todos, a capitã da nave à deriva pratica o voo da barata tonta, que não é aleatório, como querem fazer crer sócios e cúmplices, mas método de embromation. A “gerenta”, posta no poder pelo padim, joga contra o bolso esvaziado do pobre, que finge representar, cartadas de um pôquer funesto. No ano passado conseguiu da base genuflexa no Congresso autorização para burlar a lei, ao não cumprir a obrigação precípua e intransferível de produzir saldo nas contas públicas. Ainda assim, recorreu a “pedaladas”, atropelando de novo a mesma lei para fechar balanço mentiroso.

Neste ano recorreu a um providencial ministro neoliberal para tranquilizar seus clientes com banco. Este chegou prometendo a volta do superávit primário para, em seguida, mandar para o Legislativo um Orçamento deficitário. A obrigação de só gastar o que é capaz de arrecadar não é apenas a pedra de toque da Lei de Responsabilidade Fiscal, mas também a regra fundamental de qualquer gestão que se preze, no lar ou na República. Só que a corrupção sistêmica aparelhou e emparedou Poderes e instituições em postos-chave, capazes de sustentar o insustentável peso de um Estado estroina e de uma casta cujas máculas fazem apodrecer nossa democracia, para gáudio do bando que continua no comando.

Será esta democracia apenas um jogo de poder sem regras do voto conquistado com dinheiro desviado do bolso do próprio cidadão enganado? Voto nem sempre bem contado...

Edinho Silva, tesoureiro da campanha da “presidenta” reeleita, é acusado pelo empreiteiro Ricardo Pessoa, da UTC, de tê-lo ameaçado de suspender seus contratos privilegiados com sobrepreço em estatais se não doasse para cobrir despesas da reeleição de Dilma. Licitação viciada e lavagem de propina pela Justiça Eleitoral são crimes graves e, no caso, sobrepostos. “Eu segui as orientações da presidenta Dilma, ou seja, conversei com empresários brasileiros seguindo os princípios éticos e morais”, ele garantiu. Se for verdade, por que ela não o afasta até provar que o colaborador (antes da campanha e agora da Justiça) mentiu ao juiz e é, então, mentalmente incapaz, única condição para explicar atitude de quem agrava a própria pena?

A mesma testemunha privilegiada acusou dois varões do Senado de crimes semelhantes: o chefe da Casa Civil da reeleita, Aloizio Oliva, e o candidato derrotado a vice pelo principal partido da oposição, Aloysio Ferreira. Ambos garantem que as doações foram legais.

Mas o mantra petista não ganha foros de verdade por ser repetido pelo PSDB. A doação somente é legítima se sua origem for limpa. Cabe aos agentes da Operação Lava Jato provar se é ou não. Se não for, Pessoa terá as penas agravadas e Suas Excelências, a reputação recuperada. Até se esclarecer isso, porém, eles teriam de se licenciar de seus cargos para não atrapalharem as investigações – dois usando poder de governo e o terceiro dificultando a oposição a se opor.


Mas os tucanos ficam de bico fechado. E madame “gerenta” permite que seu anspeçada solape o que ainda resta ao próprio governo do mínimo de credibilidade com lances geniais no xadrez político, tais como o que provocou a ida de Eduardo Cunha para as hostes inimigas e o abandono da coordenação política pelo vice, Michel Temer. Isso sem falar nos roques que ela empreendeu ao aceitar o superávit primário; tentar ressuscitar imposto renegado em época de presidente popular (Lula) e maioria de fato; encaminhar Orçamento deficitário e, portanto, irregular para o Congresso; anunciar que mandaria suplemento equilibrando as contas; e cobrar pela “travessia” (sem Moisés).

Com a oposição sem rumo nem projeto, não é de prever bonança para o Brasil, ainda que dona Dilma venha a ser deposta. Mas também não é difícil verificar que, ao apostar na fábula do bode com que o comissário do povo driblou os incomodados, a “presidenta” de Edinho e Oliva não faz o papel que se atribui de malandrinha que indica a solução errada para vender o falso alívio da retirada do bode malcheiroso, barulhento e bagunceiro da sala da “minha casa, minha vida”. Ela, ao contrário, é o bode propriamente dito. Ou seja: se pode vir a ser ruim sem Dilma, pior será que ela continue protegendo seus suspeitos do peito. E nos dando a certeza, que se confirma a cada dia, de que ou é incapaz de sentir o fedor que lhe entra pelas narinas ou é cúmplice de quem produz todo esse material orgânico que torna insuportável a vida de seus desditados condôminos.

No lombo do Brasil

Acomodo-me no vagão nem luxuoso nem simples do trem que me levará do interior de Minas a Florianópolis ou, via Pantanal, de Quixeramobim ao último povoado ocidental do extremo sul. Mas não existe essa possibilidade. Poderia existir, não fosse a falsa modernidade à qual nos agarramos ao longo do século XX e que sepultou os trens, sem que ninguém soubesse ou saiba quem garfou os trilhos.


Estou bem instalado no trem inexistente, e de sua janela num instante passo a contemplar o sertão árido, o resto de mata atlântica, o cerrado. (O Pantanal, preso num poema de Manuel de Barros, não pode ser mais visto, apenas lido, mas lemos pouco.) E sobe montanha e desce montanha. E margeia rio e se afasta de rio. Café com pão, café com pão. Bandeira, sedento de Brasil, invade o vagão e me sequestra.

No Brasil ninguém diz “eu digo”, ninguém diz “eu roubo”. (Tampouco eu.) Aqui, a esquerda benze meia dúzia de empresários: mais-valia pura pra quê se cinco letras em forma de banco abastecem os ungidos com dinheiro barato e pedalado? Aqui, a direita tem nostalgia da palmatória, mas investe mesmo é em arma pesada e sonha com um sistema prisional lucrativo: menino preso é capital sadio e, por isso,bom reprodutor.

O trem parece andar fora dos trilhos. Virge Maria, que foi isso, maquinista? Nada de susto, ele avisa pelo sistema de alto-falante, estamos apenas passando por cima de um rol de Adílios. No trem da Central,continua em tom muito formal, a operação de passar sobre o corpo de Adílio Cabral dos Santos ocorreu por necessidade: Quem seria o doido de tumultuar a vida daquele que precisa chegar ao trabalho na hora? Apesar do improviso, a profanação foi um ato de humanismo, ápice da consciência coletiva. Agora, —a voz soa bonita e cheia de si — produzimos Adílios em prostíbolatórios de última geração e os jogamos já mortos sobre os dormentes. O trem que conseguir esbarrar no menor número deles ganha um prêmio. Qual? Dizer que foi ideia do outro. No Brasil gostamos de apontar o dedo e dizer “foi ele”, “foi ela”. Precavidos, não afirmamos coisa alguma defronte do espelho. Quanta sabedoria a desse homem!

O trem-bala já contornou o Chuí e, não tarda muito, desceremos em Manaus para, de acordo com o cardápio, comer carne de índio tucunaré. Sou repreendido pelo vizinho de assento: Não seja inocente, o índio é haitiano ou guianense, ninguém sabe ao certo. E não vem ao caso. Nunca vem ao caso, e ninguém jamais sabe ao certo. O tempero vai ser nativo, corre de boca em boca, para dar sabor à nossa eterna vingança pelo que fizeram ao bispo Sardinha.

Há pela frente o Pico da Neblina. O trem não está preparado para tamanha escalada, mas uma voz prática convoca homens de fome eterna para empurrá-lo até o cume. Lembro-me de Fitzcarraldo, o lunático filmado por Herzog, cineasta idealista que fez subir um navio pela montanha, uma linda imagem à custa da vida de outros famintos nativos dessas mesmas bandas amazônicas. Agora, são índios e negros — outra vez escravos, se é que algum dia deixaram de sê-lo — os que, tropeçando em Adílios, cumprem a missão. Ninguém poderia imaginar que ainda houvesse relho, chibata e cipó de aroeira, mas eles estão lá, troando no lombo de quem nunca mandou dar —tamanha violência cujo efeito colateral inesperado é deixar cada um de nós nu e, com isso, nu e transparente o próprio Brasil. Um rápido olhar para os lados é suficiente para se perguntar: onde foi parar a África nos machos, a Europa nas fêmeas? Quem lavou nossa miscigenação com água oxigenada e óleo de peroba?

Para cruzar o pico e depois descer, o governo empenhou no orçamento do ano que não vem dinheiro insuficiente e desnecessário, diz uma voz que não é a do maquinista, sabe-se lá se de um Adílio, de um Herzog, de um Deus dessas tantas butiques da fé espalhadas pelo Brasil. Outra frase brota no ar: No alto do morro, passa boi, passa boiada, só não passa solução já pronta para tormenta encomendada. Quem diz é ele, o do lado ou aquele mais adiante, mas, segundo ele, fui eu quem disse.

Em terras tropicais, odiamos o outro.

Sete de Setembro à moda neopetista

As cenas que vi, com cercas e tapumes metálicos, faziam lembrar um campo de concentração, onde as autoridades se protegiam no lado de dentro e a população era mantida no lado de fora. Foi um Dia da Pátria em estilo neopetista. Com efeito, durante décadas, o Partido dos Trabalhadores vendeu-se como um partido popular e diferente dos tradicionais. Pé no barro e cheiro de povo.Você lembra? Pois é, acabou.

7 de setembro

Não preciso descrever, aqui, a vertiginosa ascensão social das lideranças do partido. Quanto mais habilmente escalavam o pau de sebo da prosperidade, mais tênue se tornava a relação do partido com a sociedade. E à medida que se faziam conhecidas as escabrosas formas de subvenção dos interesses partidários e pessoais do grupo governante e seus associados, firmou-se a convicção de que o PT era um partido diferente. Diferente demais.

Se formos pesquisar além dos equívocos ideológicos, dos usos e abusos do populismo e do patrimonialismo, das más companhias; se deixarmos de lado o péssimo recrutamento dos próprios quadros entre setores corrompidos do sindicalismo; se esquecermos o deslavado aparelhamento das instituições de Estado e da administração pública, veremos um partido que se afogou em banheira de champanhe. Sim, o borbulhante PT dos anos dourados, até a segunda metade do governo Lula, acreditou que as vacas seriam sempre gordas, os ventos favoráveis e o povo sempre parvo. Creu, o partido do senhor Lula, que a China cresceria eternamente, que o petróleo jamais perderia preço, que a política era um grande negócio. E vice-versa. Convenceram-se, nossos governantes, de que o país enriquecera e de que para acabar com a pobreza bastava, então, distribuir dinheiro aos pobres. Ora, nem o mais piedoso pároco acredita nisso. Após 13 anos de governo, o PT nada fez do que prometera. Encheu a banheira de champanhe e afundou na miserável abundância dos anos de esbanjamento.

Surgiu, assim, a governança em estilo neopetista. É uma governança que se esconde, que não sai às ruas. Lula importou ao custo de R$ 28 bilhões o brinquedinho da Copa de 2014. E não compareceu a um único jogo porque não quis se expor ao que aconteceu com Dilma. É uma governança que cumpre a solenidade do Sete de Setembro por dever de ofício, de cara amarrada, que se oculta do povo, dos fatos, das notícias. O estilo neopetista não dá entrevista, não fala à nação, se reúne nos porões e confabula. Dá a vida por um grande acordo que o sustente. É uma governança que, embora se esconda, cedo ou tarde acaba encontrada pelos oficiais de justiça.
Percival Puggina

Responda rápido

  1. Por que num país com tanta miséria, onde os salários são tão baixos, empresas encontram meios de doar bilhões a políticos e a partidos?
Joaquim Barbosa, ex-ministro presidente do Supremo Tribunal Federal

Povo bate panela e o governo bate cabeça

O tempo passa, o tempo voa, mas o governo não consegue se entender, tenta ir em frente sem o menor planejamento, num amadorismo brutal e perigoso. O país tem muitos problemas, mas o principal, do qual os demais derivam, é a dívida pública. Portanto, todos os esforços precisam estar voltados nesta direção, e a evolução da dívida depende diretamente de dois fatores – o superávit primário e a taxa de juros, que se tornaram os dois pontos mais fracos de um governo por si só fraquíssimo.

Já se passou mais de meio ano, estamos em meados de setembro, e a incompetência segue reinando absoluta, enquanto os ponteiros da bomba-relógio da dívida giram cada vez mais rapidamente.


Hoje, precisamos entender que ainda estamos numa boa, vamos sentir saudades desses dias de 2015, porque gráfico da projeção de nossa economia indica um viés de baixa tão sinistro que chega a ser o cúmulo do otimismo dizer que a crise será resolvida até 2018. Para que isso aconteça, seria preciso tomar medidas imediatas, mas isso o governo não sabe nem consegue fazer. Vai empurrando com a barriga.

Qualquer pessoa medianamente instruída nota que a presidente Dilma não sabe administrar nem conhece nada de Economia, embora se jactasse de um “doutorado” em Campinas que jamais existiu, pois nem mestrado fez. Sua dificuldade em desenvolver raciocínios exige rigoroso tratamento médico e psicológico, mas ela não se submete a terapia, prefere fazer dieta e pedalar.

O que causa surpresa é o fracasso completo de Aloizio Mercadante, que funciona no Planalto como uma espécie de Rasputin em nova versão. Economista de renome, embora seu doutorado tenha sido bastante controverso, ostenta um belo currículo e chegou a trabalhar com Henrique Meirelles no Banco de Boston. Aliás, foi Mercadante quem apresentou Lula e Meirelles, para assumir o Banco Central e acalmar o mercado.

Antes disso, tinha sido um deputado muito atuante, com belos discursos contra a política econômica de FHC. Em 2002, elegeu-se ao Senado e foi líder do Governo no primeiro mandato de Lula, que não lhe ofereceu lugar no ministério.

Mas esse excelente currículo de Mercadante não serviu para nada. Como homem-forte do governo, revela um despreparo só comparável à incompetência da própria Dilma, com a qual ele forma uma dupla do tipo Debi e Lóide, que está levando o Brasil à loucura.

Nesta terça-feira, após mais uma reunião da coordenação política do governo, o ministro Ricardo Berzoini (Comunicações) foi o porta-voz e disse que programas de transferência de renda, como o Bolsa Família, serão “absolutamente preservados”, mas aqueles com investimentos físicos, como educação, saúde e habitação (Minha Casa, Minha Vida), terão que passar por um realinhamento.

Ficou patente que o governo não sabe o que cortar, porque ao mesmo tempo o ministro da Fazenda Joaquim Levy dizia que poderia aumentar o Imposto de Renda e o vice-presidente Michel Temer falava em elevar a CIDE (contribuição sobre combustíveis), possibilidade também aventada por Levy.

Quanto a cortar os cargos comissionados, os cartões corporativos, o Fundo Partidário, o festival das ONGs e outras despesas injustificáveis, nem pensar.

Tradução simultânea: o povo fica batendo panelas, enquanto o governo bate cabeças.

'Unidos e coesos'

Na época do regime militar, tornaram-se famosas as notas oficiais das Forças Armadas alardeando que estavam “unidas e coesas” em torno dos ideais revolucionários. O pau cantava nos quartéis onde militares da linha dura e distensionistas se digladiavam para definir se endureciam mais ainda o regime ou se faziam um mínimo de abertura.

Para o consumo externo, oficiais de alta patente vendiam a imagem da união de propósitos. Diziam que as notícias de forte luta interna nos meios castrenses não passavam de fofocas e de intrigas insufladas pela subversão e por uma imprensa maledicente, interessadas em promover a cizânia no seio das gloriosas Forças Armadas.

Em um país de imprensa amordaçada, era essencial saber interpretar as entrelinhas dos comunicados militares, não deixar se iludir. Nas fotos do 7 de Setembro os três ministros militares apareciam no mesmo palanque para dar uma demonstração de sua unidade e patriotismo.

Neste 7 de Setembro a presidente da República e seu vice estiveram no mesmo palanque em Brasília para demonstrar o quanto estão “unidos e coesos”. Michel Temer foi mais longe: divulgou uma nota oficial para vociferar contra as “intrigas” e dar uma resposta dura a quem lhe chamou de golpista, acusando-o de conspirar contra Dilma Rousseff.

De novo, é preciso não se iludir pela foto meramente protocolar. E saber interpretar o texto de Temer. Sua afirmação de que trabalhará com Dilma até que 2018 os separe poderia ser entendida como tautológica. Mas não é. Ela é a própria confissão do fosso que há entre a presidente e o seu vice, a cada dia mais profundo.

Não se trata de atribuir incursões conspiratórias a ninguém. Mas é inegável que vivemos uma situação esdrúxula, para dizer o mínimo.

De um lado, temos uma presidente extremamente enfraquecida, quase clandestina, separada do povo por muralhas, até de metais como se viu no feriado; com uma base balcanizada e uma equipe ministerial semelhante à Torre de Babel. Cada ministro fala a própria língua e ninguém se entende.

De outro, nunca vimos um vice-presidente tão proativo, operando à revelia e com autonomia de sua superior hierárquica. Quanto mais Dilma se enfraquece, mais Michel Temer opera no limite da liturgia do seu cargo, apresentando-se como porta-voz do empresariado, como o avalista da estabilidade e da institucionalidade.

Ao mesmo tempo, Temer é semi-governista e semi-oposicionista, ainda que de uma oposição leal à sua majestade.

O vice-presidente ofusca a primeira mandatária. Constrói uma imagem antagônica à de Dilma. Está sempre na mídia de forma positiva, como o ponderado, como o construtor de pontes, com vistas a se viabilizar como polo aglutinador de um novo bloco de poder, para o pós-Dilma.

Já a presidente é aquela reclusa contraditória. Não pode, sequer, falar em rede nacional de TV, sob pena de ser alvo de imenso panelaço. E quando aparece na mídia é de forma negativa, tendo de praticar contorcionismos para explicar os ziguezagues de seu governo e o “pega pra capar” de sua equipe econômica.

Para desgraça de Dilma, seu vice é muito mais articulado do que boa parte dos políticos que a cercam. Em certo sentido, expressa a média do PMDB, essa espécie frente de caciques regionais. Tem ainda a simpatia das chamadas forças produtivas, particularmente da indústria paulista. Sabe fazer política, essa arte que não foi feita para amadores.

Pode ser o fator de desequilíbrio do jogo. É isto que a presidente mais teme, sem nenhum trocadilho com o nome do vice. Daí aceitar bailar com Michel Temer.

Nessa dança, ela engole sapo e ele estica a corda o máximo possível. Um finge que apoia o governo e a outra finge que acredita. O minueto caboclo tem tudo para acabar em divórcio, apesar das juras do casal de que estão unidos e coesos.

Alimentando a fogueira com gasolina

Vale pegar carona com o Tiririca e concluir que a presidente Dilma, quanto mais se explica, pior fica. Foi lamentável sua mais recente intervenção, fugindo da televisão e apelando para as redes sociais, dia 7. Disse ser possível que tenha cometido erros na condução da economia, mas errou para preservar empregos. Acrescentou não ter percebido que a situação era tão ruim como se descreveu.

Madame deixou de perceber por falta de observação ou, como parece mais provável, errou para garantir a reeleição? Agora, apela para a redução de direitos trabalhistas, retira benefícios que não deveria ter concedido ao empresariado e anuncia aumento de impostos. Resultado: desemprego em massa e elevação do custo de vida. Tudo ao contrário.

A gente fica pensando no dia seguinte, que sempre consegue ficar um pouquinho pior do que a véspera. A recessão é um fato, a inflação também. Enquanto isso, continuamos sem um projeto estratégico. Como ao PT também falta uma visão nacional, a principal colaboração do partido é pedir a cabeça do ministro da Fazenda. Para convocar quem? Aloísio Mercadante, com certeza.

Com atraso de alguns anos, no fim do mês a presidente vai enxugar o ministério. Mas continuará privilegiando os partidos, aceitando indicações fisiológicas e ministros sem competência. Alimentar a fogueira com gasolina virou moda.

No País das Maravilhas

Alice ─ Poderia me dizer, por favor, onde está a saída?
─ Isso depende muito de para onde quer ir ─ responde o Gato de Cheshire.
Alice ─ Para mim, acho que tanto faz… – disse a menina.
─ Nesse caso, qualquer caminho serve ─ afirmou o Gato.
Lewis Carrol

Momento político atual lembra 'Angústia', de Graciliano Ramos

A política é uma ciência para profissionais, portanto, os amadores se surpreendem a todo momento com as artimanhas dos políticos. Temer é um profissional e com a vantagem de conhecer o Congresso como ninguém. O vice-presidente bebeu na fonte limpa de Ulysses Guimarães, este sim um verdadeiro político com P maiúsculo.

O político profissional não conhece a palavra fidelidade. A lealdade ocorre até o momento em que o céu se torna nublado, sujeito a chuvas e trovoadas.

Realmente, a economia resume tudo na sociedade, quando “ela” vai bem os governos navegam em mar de almirante. Quando a economia vai mal, o desemprego desponta no horizonte das famílias, desesperando os eleitores e o arco da sociedade. Consequentemente, a popularidade do governo e dos governantes cresce igual ao rabo do cavalo.

Este é o cenário atual do Brasil, ou seja, um travamento da atividade econômica. As concessionárias de automóveis não estão vendendo quase nada, porém, os preços dos automóveis continuam nas alturas, na contramão do capitalismo e da lei da oferta e da procura. Os supermercados permanecem vazios e observamos todos os dias as caixas de supermercados sem filas. Podemos agora escolher a caixa de preferência, tal a falta de compradores, mesmo nos primeiros dias do mês.

O humor do carioca está por um fio, por qualquer coisa querem briga, no ônibus, no BRT, no trânsito e também nos supermercados. O mar não está para peixe.

Voltando ao tema principal, o PMDB não é um partido fiel. A legenda presidida por Ulysses Guimarães, o Sr.Diretas, na verdade só obedecia a um Senhor, o eleitor. Depois vem a briga por um naco do poder, lógico, para assim sustentar a máquina partidária. Na oposição, fica-se a pão e água, perdendo a capilaridade para crescer nas próximas eleições. Este é o drama para 2016 e 2018. Continuar apoiando o PT, lançar candidatura própria ou se inscrever como segundo do PSDB.

O que fazer com diante dessa encruzilhada política? Para começar, a leitura do livro “Angústia”, de Graciliano Ramos. Depois a ficha cai.

terça-feira, 8 de setembro de 2015

Dilma Discurso pulpito microfone nao gosta da CPMF so do dinheiro que ela arrecada

Que tal destituir os políticos acusados de mentiras graves?

Antes de chegar à Presidência da República, o então sindicalista Lula da Silva chegou a defender que a “salvação do país” seria que o povo que escolhesse um político “pudesse destituí-lo” se não cumprisse o que havia prometido.

Hoje, a sociedade se pergunta também, como Lula se perguntava então, por que as mentiras graves e comprovadas dos políticos não podem ter efeitos legais que os obriguem a abandonar o mandato concedido pelos eleitores com seu voto.

A possibilidade de precisar deixar o cargo “por mentir” poderia ser tema, por exemplo, de um projeto de lei de autoria popular, como o da Ficha Limpa.

As mentiras na política atualmente não podem ser castigadas, apesar de serem perigosas para a sociedade e a democracia.

E, entretanto, o uso da mentira para enganar, e com isso ganhar, por exemplo, eleições, pode prejudicar gravemente o futuro do país. Hoje se exalta uma espécie de sacralização do voto conquistado nas urnas, sem que os eleitores que o emitiram possam revogá-lo, mesmo que o eleito faça algo moralmente indigno com esses votos.

Mentira política não é só o apresentar como verdade o que se sabe ser falso, mas também prometer algo sabendo que não poderá cumprir; desenhar um país próspero quando se sabe que está quebrado, ou prometer a realização de programas que se sabe de antemão que nunca serão realizados, assim como estigmatizar o adversário político com acusações graves sabendo que são falsas.

Nas grandes religiões, a mentira é considerada a antítese de Deus. Nos evangelhos cristãos, Satanás é chamado de “pai da mentira”. Só a verdade salva.

No entanto, existe a impressão entre muitos cidadãos de que a mentira é inata aos políticos. Eles sabem disso e a usam com desenvoltura.

Mas chegou a hora em que os cidadãos começam a se cansar desse passaporte de impunidade que permite aos políticos mentir sem consequências jurídicas.

Talvez por isso, a sociedade parece cada vez mais disposta a exigir que, quando os políticos mentirem, quando for provado seu pecado, possam pagar por ele.

Quando se fala de reforma política, por que não introduzir algo que já existe parcialmente em alguns países, como a possibilidade de que as pessoas que deram seu voto a um candidato possam retirar sua confiança quando esse político ainda estiver exercendo o cargo, caso fique comprovado que ele foi gravemente infiel ao que havia prometido para ser eleito?

No Brasil, foi o então sindicalista Lula da Silva quem defendeu que os cidadãos pudessem revogar o voto do político apanhado em mentira flagrante, com estas palavras textuais que aparecem em um vídeo da época: “Nós defendemos que na hora em que o povo vota em um político, se depois de um determinado tempo ele não estiver cumprindo aquilo que prometeu no programa da campanha, os mesmos que o elegeram possam destituí-lo”. E acrescenta: “Se conseguíssemos isso, seria a salvação do Brasil”. Lula na época estava na oposição, ainda não havia chegado ao poder.

Não poderia ser esse um dos temas da reforma política proposta por diversos movimentos de protesto popular?

Se as mentiras, desde as do presidente da República até as do último prefeito, tivessem consequências legais que permitissem a quem os elegeu apeá-los do cargo, os candidatos ficariam mais atentos na hora de fazer suas promessas eleitorais.

A política, hoje tão denegrida, mas que é uma arte indispensável para assegurar a democracia e a organização da vida social, se veria menos estigmatizada, e os jovens, sobretudo, poderiam voltar a se apaixonar por ela.

Muitos jovens que ainda não envelheceram precocemente por causa da desilusão ou do contágio dos mais velhos adoram os desafios e a novidade. São criativos e ainda capazes de conceber ideais desinteressados. Prova disso são os quase 10.000 jovens que dias atrás enlouqueceram de entusiasmo no Rio do Janeiro com as palavras do vovô José Mujica, ex-presidente do Uruguai, só porque este lhes disse que “quem quer enriquecer não deve entrar na política”, e que os políticos “devem viver como a maioria do povo, não como ricos”.

Os jovens são mais sensíveis à autenticidade que nós, os adultos. Mais intransigentes. E têm razão, porque são eles as primeiras vítimas das nossas mentiras que comprometem o futuro que lhes caberá viver e sofrer.

Memórias do futuro

Anos atrás publiquei um artigo em “science fiction” sobre o que nos aconteceria em nosso futuro desesperançado. Republico-o hoje porque pode denotar a loucura do nosso destino sem luz e sem túnel. Aqui vai:

Estou na clínica especial do Nada aqui neste ano remoto do futuro. Futuro de quê? Futuro de um futuro que o Brasil esperava havia vários séculos. Essas clínicas são chamadas hoje de “zonas de esquecimento”; viraram “hype” há mais de um século e hoje abundam. Os sujeitos entram para perder todos os sentidos. Fica apenas a memória, que, aos poucos, sem ajuda de tato, gosto, cheiro, visão e audição, vai se transformando numa leve fonte de murmúrios, em lapsos de visões, em tênue brilho de lembranças, e depois, o silêncio do nada. Muitas clínicas são arapucas, e as mais baratas apenas jogam os pacientes numas salas vazias e deixam-nos na mistura de restos de comida e excrementos. Ninguém reclama. Mas eu vivo na melhor: “Le Néant”, que as famílias visitam para verificar o tratamento – é impecável no trato dos corpos sorridentes, murchos e mudos.
Hoje, inexplicavelmente, me encontro na rua com sol batendo em meus olhos, e volta a mim uma enxurrada de memórias que eu sempre evitara. Como saí? Em que ano estou? Minha lembrança mais antiga jaz no deserto, quando o Califado Islâmico tomou conta do Oriente Médio, chegando até as bordas de Israel-Palestina, já considerada “área insolúvel” e que virou parque temático.
Muitas terras viraram temáticas também: a desolação de Nueva Iork, depois das nuvens de “antrax” na Broadway, o Buraco Iraque, depois da bomba do ex-Paquistão – hoje Talibânia –, e o deserto de Tokyorama, província da China...

Mas vou me ater às memórias do Brasil.

Sei que há muitos anos o futuro do país se delineou. Foi logo depois da reeleição de uma mulher...
Esqueço-lhe o nome... Sei que, depois, o famoso Lula sucedeu-lhe em 2018, continuando em 2022, criando uma dinastia de si mesmo, reeleito em vários mandatos, até 2034, quando ele já não falava mais e tinha sido mumificado num carro móvel de vidro que desfilava entre a multidão de fiéis ajoelhados. A maioria do povo semianalfabeto celebrava a realização do projeto do seu partido, uma espécie de populismo pós-moderno (como chamavam) feito de pedaços de getulismo, chavismo e outras religiões. Quando se iniciou a decomposição, seu corpo foi entronizado no Museu Bolívar, um palácio de mármore vermelho desenhado por Oscar Niemeyer, tendo como curador Gilberto Carvalho, 108.

Nesta época, o velho Brasil tinha renascido como rabo de lagarto. Voltara a correção monetária sob uma inflação de 2.200%, um flashback do período Collor, agora representado por seu neto na grande aliança ainda presidida por Sarney, 117, que visava unir partidos no programa nacional de “decrescimento”, já que a democracia se revelara um antigo sonho grego impossível. Todo o projeto do “lulismo” tinha dado frutos depois de tantos anos no poder. “Podres poderes!” – rosnavam alguns poucos inimigos, urubus complexados. Tinha-se atingido o sonho glorioso de socialismo “puro”, onde só havia o Estado sem sociedade em volta. Era assim.

O MST tinha finalmente desmontado a maldita agroindústria, as manifestações de junho viraram uma data popular, como festas juninas animadas por black blocks, considerados agora “guarda revolucionária”; a imprensa tinha acabado, graças à proibição de papel, enquanto ex-jornalistas gritavam nas ruas e distribuíam panfletos mimeografados.Arnaldo Jabor

Foi nessa fase que houve o Segundo Crash da Bolsa de Nueva Iork, entre nuvens de suicidas e filas de desempregados.

Aqui foi uma surpresa. O Brasil quebrou, e nada aconteceu. Houve, claro, legiões de famintos atacando os supermercados, mas logo ficou claro que a miséria é autorregulável. Muito simples: a fome diminui a população, dado benéfico para a incrível falta de comida, provocada pela decisão do governo de jamais cortar gastos fiscais. Nossos aviões e navios passaram a ser confiscados regularmente pelos países do Império Neoliberal, o que foi bom para desonerar gastos de manutenção.

Foi então que se começou a falar em um novo lema: “Ordem sem Progresso”, no seio de um novo movimento de salvação nacional: o “Recua Brasil!”. Entendêramos finalmente que o Brasil é um “acochambramento” secular e que isso não é um defeito, é nossa grandeza fabricada por séculos de escravismo, de burocracia e de corrupção endêmica.

A nova “república” proclamava: “Vamos assumir nosso atraso, chega de progresso!”. Foi outro grande alívio o fim da angústia de progresso que oprimia os brasileiros: a Paz é a desistência dos sonhos de felicidade.

Daí, veio o movimento “Desiste Brasil”, organizando o antigo caos em ilhas, em zonas de atraso. Um dos sucessos foi o PEP, “Plano de Extermínio de Periferias”. No início, alguns humanistas protestaram, mas, depois, se acostumaram com o fechamento das favelas com muros de concreto, como em Gaza-Auschwitz. Outro grande programa foi o PROCU (Projeto de Criminalidade Unificada), que mapeou as máfias todas, a evangélica, a ruralista, a hospitalar, a de traficantes, formando um arquipélago de áreas exclusivas com regras de matança mais controláveis. Sem falar em iniciativas de vanguarda moral como a COPUT (Cooperativa de Prostituição Infantil), que organizou as meninas de rua e incentivou o turismo sexual de que tanto dependemos.

Isso, além do PROCRACK e do PROMERD (cagadas genéricas) e a PROLIM (venda de liminares “a priori”). Criou-se o “Orçamento Espoliativo”, que os congressistas adoraram, com sete novos necrotérios em Alagoas e nove clínicas essenciais de cirurgia plástica no Piauí, de onde veio também a bela ideia da “Comunidade Sossegada”, que distribui Lexotans aos retirantes da seca.
Mas foi aí que comecei a tremer. Olhava os outros do meu canto: pareciam tão felizes...

Sim, mas de vez em quando eles entravam num choro meloso, um uivo desesperado como as sirenes que circulavam em Nueva Iork, no século XXI. Meu terror foi aumentando. Eu estava só, mas via o repulsivo Futuro brasileiro, preparado por séculos de atraso. Corri de volta à minha “zona de esquecimento”, a “Le Néant”, mergulhei no silêncio dos cinco sentidos e cego, surdo e mudo, pude finalmente descansar no nada.

Esperança ou morte


Um espectro ronda o Brasil. O espectro do pessimismo e da falta de modéstia. Diante do enigma que virou a vida pública, pergunte à autoridade se ela é honesta. Se disser sim, é desonesta; se disser não, pode ser honesta. Todos receberam cargos sem o direito de o exercerem em seu próprio beneficio. Nenhum deles mentiu para a sociedade quando mudou de comportamento. Mentiu para si mesmo. Mas todos têm direito de se arrepender. Uma dúzia de opiniões independentes para um país trancado em sua própria mente.

1 — Todo ministro será vacinado contra os humores da presidente da República. Seu antecessor se compromete a não ajudar a aumentar, com sua volúpia, a bagunça governamental da escolhida por seu gosto.

2 — O pensamento será considerado uma atividade da razão. O capitalismo passará a ser um sistema econômico, e não mera opinião política.

3 — Chamar o erro de erro, divulgar o mal como o mal, não será considerado traição. “Só quem ama pode tornar-se um traidor. A traição não é o contrário do amor, é uma das suas opções”. Entre fanáticos, “traidor é aquele que muda aos olhos dos que não podem mudar e não podem conceber a mudança com exceção de que sempre querem mudar você”.


4 — Quem perceber que seu talento não corresponde às necessidades atuais irá para casa estudar mais um pouco. O poder é uma finalidade mais do que uma prerrogativa. Relativizar seu peso costuma ser mais útil do que valorizar a ambição de servi-lo.

5 — Nenhum juiz ou delegado injuriará um rico por delito passível de perdão. Nem humilhará um pobre por imaginá-lo imperdoável. Não vestirá toga por gosto da pecúnia nem a abandonará para fazer sua carreira.

6 — A honestidade será considerada uma habilidade essencial para o mundo do trabalho. O senso de interesse não prevalecerá sobre o senso de dever. Os desejos das corporações não serão superiores aos desafios da nação. Todos farão um esforço para aceitar e compreender o caráter socialmente útil da virtude.

7 — Quem quiser ser rico não servirá ao Estado. Nenhum homem público receberá além do razoável. Quem exigir na Justiça, ou levar os tribunais a concederem verbas ou privilégios de algum tipo, será acusado de enriquecimento ilícito e terá que indenizar a sociedade pela frustração que é ver a autoridade cuidar primeiro de seu próprio caso.

8 — Não haverá direito adquirido contrário ao interesse publico. Ninguém amará mais seus privilégios do que as carências da maioria.

9 — Fica proibido às autoridades insistirem na tal “vontade política” e na mania de “fazer um gesto”. Está suspensa, por cem anos, a relação da política com carismáticos, gestores, interesseiros, demagogos, marqueteiros, moralistas. “Desgraçado o mortal audacioso que finge saber o que ignora e empreende o que ultrapassa o seu poder”.

10 — Nenhum governante vai se concentrar no que é bom para ele. Todos vão se dedicar ao que realmente Deus lhes pede.

11— Ninguém, analfabeto ou estudado, terá orgulho de ter ido tão longe se seu horizonte é estreito.

12 — Ainda é tempo de explorar a força moral da esperança. 

Brasil aspira por um estadista

genildo

O Brasil precisa urgentemente de um estadista, que, na definição de Houaiss, é pessoa versada nos princípios ou na arte de governar, ativamente envolvida em conduzir os negócios do governo e em moldar a sua política; ou, ainda, pessoa que exerce liderança política com sabedoria e sem limitações partidárias.

Aristóteles ensinava que o estadista anseia mais produzir certo caráter moral nos seus concidadãos, particularmente uma disposição para a prática de ações virtuosas. James Freeman Clarke distinguia: um político pensa nas próximas eleições, um estadista pensa nas próximas gerações. Mikhail Gorbachev sentenciava que a diferença entre um estadista e um político está em que um estadista faz aquilo que pensa ser melhor para o seu país; um político faz aquilo que pensa ser melhor para ser reeleito. Um biógrafo de Alexander Hamilton escreveu que o estadista pratica a política da colmeia, ao passo que os políticos praticam outra política – a da abelha. No primeiro, tudo se subordina ao interesse coletivo. Nos segundos, tudo se subordina ao interesse individual.
Um confronto entre personalidades desse jaez mostra que alguns deles eram pobres de encantamento, outros com excesso de magia, uns mais democratas que outros, alguns mais egocêntricos, outros menos, mas todos punham a nação acima de qualquer proveito político. Tinham seus partidos, mas nem sempre seguiam sua diretiva, quando chocava com a concepção pessoal. Concisos no falar, tolerantes ao ponto, sem paixão ideológica, na eleição de seu sucessor não tomavam posição, agiam como magistrados. Usavam linguagem verdadeira, mesmo que dolorosa.

Normalmente ocorre de o estadista ser incompreendido, pois se preocupa com o longo prazo e toma decisões impopulares em curto prazo, enquanto a maioria dos políticos preocupa-se com resultados imediatos de suas ações.

A história conhece muitos estadistas: Winston Churchill, Clemenceau, De Gaulle, Abraham Lincoln, Konrad Adenauer, Franklin Delano Roosevelt, Nelson Mandela.

O Brasil os teve e tem: no geral, todos os presidentes do conselho de ministros do Império do segundo reinado e quase todos os presidentes da República Velha. Washington Luís, barão do Rio Branco, Rui Barbosa, Fernando Henrique, Juscelino, Castelo Branco, Campos Sales.

Milton Campos, ele mesmo um estadista, dizia que o verdadeiro homem público defende a posição de sua ideia, e não a ideia de sua posição. Estava sempre acima dos partidos, conduzia os negócios do Estado segundo seu convencimento e, antecipando-se à sucessão dos fatos, levava-os na direção do que desejava. A leitura de sua biografia, de seus discursos e pronunciamentos é catecismo de honradez, probidade e competência, virtudes que aqui e por toda parte andam vasqueiras.

Talvez importe, no Brasil, acender a lanterna de Diógenes em busca de quem seja capaz de desempenhar a função e esperar que um milagre o eleja presidente.

Sintomas do nosso mal-estar espiritual

Os sintomas do nosso mal-estar espiritual são demasiados familiares. Incluem: a dimensão da corrupção, tanto no setor público como no setor privado, onde cargos e posições de responsabilidade são tratados como oportunidades de enriquecimento pessoal; a corrupção que ocorre no seio do nosso sistema de justiça; a violência nas relações interpessoais e nas famílias, em particular, o vergonhoso recorde de abuso de mulheres e crianças; e a dimensão da evasão fiscal e a recusa em pagar pelos serviços utilizados.
Nelson Mandela

Brasil falha em políticas de inclusão, que vão além dos programas sociais

Levantamento do Fórum Econômico Mundial mostra que transferência de renda não é eficaz o suficiente para resgatar população da pobreza


O Fórum Econômico Mundial divulgou um estudo em que analisa o que os países têm feito para implementar políticas inclusivas que não só resgatem pessoas da pobreza, mas também tragam crescimento e desenvolvimento. O levantamento The Inclusive Growth and Development Report reúne dados de uma pesquisa feita anualmente pelo Fórum, e que mostra o desempenho de diferentes países em quesitos como educação, empreendedorismo, corrupção e transferência de renda. Entre as economias de renda média-alta, grupo de 26 nações do qual o Brasil faz parte, o país se encontra abaixo da média em praticamente todos os quesitos. Em corrupção, está em 25º lugar, enquanto em educação, 24º. O único item em que o país teve bom desempenho é o de transferência de renda: 7º entre 26.

O estudo aponta que o Brasil está abaixo da média se comparado aos países correlatos, como Argentina, China, Rússia e África do Sul. O levantamento sugere, ainda, que mesmo que o país retome o caminho do crescimento, uma parcela ampla da população não deverá ver os benefícios desse avanço por um longo período. "O desenvolvimento é um processo multidisciplinar e complexo. Por isso, elevar a renda não deve ser a única política de inclusão. É preciso melhorar instituições como os sistemas públicos de educação, o judiciário, o mercado de trabalho, a competição e o investimento", afirma o documento.

Segundo um dos autores do estudo, Richard Samans, que também é um dos diretores do Fórum, as políticas de transferência de renda deveriam ser parte da estratégia de inclusão, mas não o centro. "Depender de transferências não é o suficiente. É preciso um modelo institucional e econômico que trabalhe em prol da inclusão. Fazer as coisas em dimensão única não resolve. É preciso pensar de forma sistemática, não singular", afirma.
 Sobre o péssimo desempenho do Brasil no quesito 'corrupção', Samans explica que o Fórum chegou a essa classificação com base em uma pesquisa feita com executivos de todo o mundo, anualmente. A constatação, diz ele, é de que a corrupção, segundo os empresários, é uma parte relevante dos negócios tanto públicos quanto privados no Brasil. "Isso é ruim porque a corrupção rouba o incentivo de o empreendedor criar seu próprio negócio, pois ele sabe que terá de desembolsar propina para funcionar e isso é desestimulante", afirma. Ao agir contra o empreendedorismo, a corrupção funciona como uma espécie de antídoto à vontade dos indivíduos de criar a própria riqueza, aponta Samans. "Criar empresas é uma forma essencial de ajudar as pessoas a evoluírem para a classe alta e, neste caminho, receber sua fatia do progresso. A corrupção mata essa vontade".

O estudo ressalta ainda o que é ponto pacífico entre economistas: somente o crescimento econômico pode melhorar o padrão de vida dos indivíduos. O Fórum reconhece que, ao analisar o Produto Interno Bruto de um país, é impossível garantir que ele será repartido igualmente entre a população. Mas argumenta que somente o crescimento pode aumentar a soma de riqueza disponível em cada nação para que a população tenha ao menos a oportunidade de buscar sua fatia.

Nepotismo e clientelismo na administração pública

Ácidas críticas têm coibido o nepotismo, recurso de autoridades para proporcionar a seus parentes ótimo emprego e montar uma engrenagem política em benefício próprio. Os obstáculos criados são conquista recente, mas há outra tática perversa para controlar o Estado, porque permanecem os princípios das relações de patronagem-clientelismo para que magistrados, parlamentares e governantes nomeiem ocupantes de inúmeros cargos de confiança no serviço público.

Esses postos de trabalho formam seara preferencial nos conchavos políticos, porque envolvem privilégios na hierarquia administrativa, trânsito com outros órgãos, controle de verbas, mordomias e gratificações especiais. O problema é imenso, porque os protegidos não se tornam servidores públicos, permanecendo como prepostos do patrono na máquina do Estado, sem elos objetivos para medir sua lealdade ao protetor.

Esses afilhados viram gestores de qualquer coisa, e a mobilidade pelos diversos cargos mostra que sua qualificação profissional não corresponde ao conhecimento técnico indispensável em cada departamento. Ou seja, mudam de função ou repartição ao sabor das negociações de seus patronos com outras autoridades para servir apenas àqueles que lhes garantiram um bom emprego.

Entregando a direção de instituições a pessoas estranhas ao serviço público, retira-se dos funcionários de carreira, admitidos por concursos, a possibilidade de ocupá-los. Eles se sentem desmotivados para melhorar seu desempenho, porque não ascendem aos postos de comando em que estão o poder e os melhores salários. Acomodam-se, então, em sua função obscura para que ninguém os desaloje até a aposentadoria.

Esse preenchimento de cargos por indicação de patronos compromete a administração pública, porque a instabilidade na cúpula leva a um eterno recomeçar. Ela fica sem memória, pois não é possível criá-la quando chefes são substituídos a cada mandato e os funcionários permanentes nada podem decidir.

Assim, muitos projetos em execução são abandonados, porque a nova autoridade, especialmente quando não gosta do antecessor, ignora o que existia para viabilizar seus planos com os seus protegidos. Os agentes de antigos projetos são demitidos ou vão para outros cargos, sem transferir experiências para eliminar erros e manter acertos.

Essa tradição de nomear estranhos ao serviço público para cargos estratégicos impede a modernização do Estado, porque não se cria um corpo técnico cujos membros tenham compromissos com a instituição, e não com as pessoas a quem devem o emprego. A administração pública precisa superar a transitoriedade dos mandatos com a formação de equipes permanentes que construam bases sólidas para prestar serviços à sociedade porque se adaptam aos órgãos em que estão lotadas.

Cabe, então, concluir que o sistema de patronagem-clientelismo, sustentado na rede dos cargos de confiança ajustados à politicagem, é mais grave que o nepotismo.

Gestão Dilma está na UTI e Lula diz que é febre

A plateia pouco pode fazer contra o derretimento econômico e moral da administração pública. Isso não significa que, além de ser tapeada, tenha que ser tratada como uma plateia estúpida. A presidência de Dilma encontra-se na UTI. Deve-se a Lula boa parte da septicemia que paralisou o governo. Foi ele quem criou a fábula da gerentona. Foi nos governos dele que nasceram o mensalão e o petrolão.


A despeito de tudo isso, Lula acha que não deve nada a ninguém. Muito menos explicações. E ainda se julga autorizado a fazer o papel de clínico geral. Afirma que a roubalheira não pode afetar a “governabilidade do país.” E sustenta que a ruína econômica é banal: “É como uma febre de 39 graus. Alguém morre por causa disso? É só tomar um remédio e pronto!”

Lula fez o diagnóstico numa entrevista ao jornal argentino Pagina 12. Nela, disse que o impeachment não é remédio adequado. Até porque a crise política também lhe parece trivial: “Não é difícil encontrar uma saída. Hoje temos uma certa insegurança na base de sustentação do governo, por divergências entre a Câmara e o governo, entre os partidos políticos. Mas, se recuperarmos a harmonia política, também poderemos resolver os problemas econômicos.”

Ainda que a plateia fosse estúpida e que Dilma virasse a gestora impecável do fabulário petista, Lula ainda teria de responder às seguintes perguntas: o que madame pretende fazer? O que o governo dela tem a oferecer além de mais impostos?

Ninguém lembra o que Dilma propunha na campanha do ano passado. Ainda que lembrasse, não adiantaria. Era empulhação. Fingir que não tem nada a ver com a encrenca pode auxiliar na desconversa de Lula, mas não é uma solução. Se o criador acha que ajuda sua criatura mantendo-se desconectado da realidade, problema dele.

Como diz o vice-presidente Michel Temer, “ninguém vai resistir três anos e meio com esse índice baixo. Se a economia melhorar, acaba voltando um índice razoável. Mas, se ela continuar com 7% e 8% de popularidade, fica difícil.” Só há uma maneira infalível de um governante alcançar a popularidade: a prosperidade.

Um esquerdista acusa covardia na esquerda

Intelectuais brasileiros, inclusive alguns escritores, sem que estejam sob ataque, contra-atacam o escritor peruano (Nobel de Literatura) Mario Vargas Llosa; isso porque ele é dos poucos, entre literatos, que têm lucidez e coragem para denunciar o cruel autoritarismo do regime chavista, que hoje infelicita a Venezuela. Agora, Janio de Freitas, notório esquerdista e um tanto leniente com as patuscadas petistas, faz adequada crítica à vergonhosa omissão do governo brasileiro diante dos obscenos abusos do chavismo. parece concordar com o peruano.

Vargas Llosa denunciou a violência do governo de Nicolás Maduro contra manifestantes nas ruas (dezenas de mortos pela ação da polícia do regime). Denunciou a arbitrária prisão do prefeito de Caracas, Antonio Ledezma, um dos principais líderes da oposição, detido quando se completava um ano da igualmente arbitrária prisão de Leopoldo López (outro destacado opositor) e meses depois da abusiva cassação do mandato da deputada María Corina Machado, submetida a uma perseguição judicial sistemática, só por ser figura de relevo entre os adversários do chavismo.

Em frequentes manifestações públicas - inclusive em sua coluna em La Nación (Buenos Aires), Vargas Llosa tenta abrir os olhos da América Latina, desmascarando o regime venezuelano - que nossos principais jornais, quando se dignam a noticiar, tratam com muita cerimônia. A Venezuela hoje é uma terrível ditadura que se inclina para o totalitarismo: tortura, presos políticos, supressão das liberdades individuais, cerceamento da imprensa livre, um desastre político e econômico (até papel higiênico falta no supermercado. Claro, não falta o discurso governista, acusando inimigos externos para justificar o desastre.

Entrementes, o governo de Dilma Rousseff, a exemplo do que fez Lula, não apenas argumenta em favor de uma suposta legitimidade daquele regime, mas também presta alguns favores (a CPI do BNDES há de informar em pormenores alguns destes).

Pois Janio de Freitas, que tantas vezes tem sido criativo para encontrar atenuantes para os erros petistas, critica em sua coluna na Folha (30/08/2015) o horror a que estão sendo submetidos colombianos pelo regime chavista, e aponta a omissão do governo brasileiro. Descreve ele: "Colombianos expulsos da Venezuela às correrias, com seus pertences miseráveis às costas, cruzando riachos a pé, filhos pendurados no corpo, enquanto seus casebres são incendiados, são parte de um quadro de perversidade intolerável do governo venezuelano." 

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E assevera que "é intolerável a indiferença com que os demais países sul-americanos, sobretudo o Brasil, testemunham" aquela ignomínia - que ele, Janio, diz ser uma "reprodução cucaracha, criada pelo destrambelhado Nicolás Maduro, do horror de expulsos e fugitivos do Oriente Médio". E termina com acerto advertindo: "A indiferença, no caso, é conivência."

Pronto. Não é um representante "das elites de olhos azuis", mas um rematado esquerdista quem o diz. E só nos resta acrescentar: a diplomacia brasileira, outrora uma das mais admiradas e respeitadas do mundo, adquiriu a cara vulgar da incompetência e do desvario que caracteriza o governo atual.