quinta-feira, 14 de dezembro de 2023

Israel está perdendo a guerra

Pode parecer absurdo sugerir que um bando heterogêneo de homens armados, em número de poucas dezenas de milhares, sitiados e com muito pouco acesso a armamentos avançados, seja páreo para um dos exércitos mais poderosos do mundo, apoiado e armado pelos Estados Unidos. E ainda assim, um número crescente de analistas estratégicos do establishment alertam que Israel poderá perder esta guerra contra os palestinos, apesar da violência cataclísmica que lançou após o ataque liderado pelo Hamas a Israel, em 7 de outubro. E ao provocar o ataque israelita, o Hamas pode estar dando materialidade a muitos dos seus próprios objetivos políticos.

Tanto Israel como o Hamas parecem querer redefinir os termos da disputa política para uma posição distinta do status quo anterior a 7 de outubro, mas para a de 1948. Não é claro o que virá depois, mas não haverá como voltar ao estado anterior.

O ataque surpresa neutralizou as instalações militares israelitas, arrombando os portões da maior prisão ao ar livre do mundo e provocando uma violência horrível em que cerca de 1.200 israelenses, pelo menos 845 deles civis, foram mortos. A chocante facilidade com que o Hamas rompeu as linhas israelenses em torno da Faixa de Gaza trouxe para muitos a memória da Ofensiva de Tet de 1968 [episódio da Guerra do Vietnã, em que o exército vietcongue atacou de surpresa instalações estadunidenses]. Não literalmente – existem grandes diferenças entre uma guerra expedicionária dos EUA numa terra distante e a guerra de Israel para defender uma ocupação interna, travada por um exército de cidadãos motivado por um sentimento de perigo existencial. A utilidade da analogia reside na lógica política que molda uma ofensiva insurgente.

Em 1968, os revolucionários vietnamitas perderam a batalha e sacrificaram grande parte da infraestrutura política e militar subterrânea que construíram pacientemente ao longo dos anos. No entanto, a Ofensiva de Tet foi um momento chave na derrota dos Estados Unidos – embora com um custo enorme em vidas vietnamitas. Ao realizarem simultaneamente ataques dramáticos e de alto perfil a mais de 100 alvos em todo o país num único dia, os guerrilheiros vietnamitas levemente armados destruíram a ilusão de sucesso que estava a ser vendida ao público dos EUA pela administração Lyndon Johnson. Sinalizou aos americanos que a guerra pela qual lhes era pedido que sacrificassem dezenas de milhares dos seus filhos era invencível.

A liderança vietnamita mediu o impacto das suas ações militares pelos seus efeitos políticos e não por medidas militares convencionais, tais como homens e material perdidos ou território ganho. Daí a lamúria de Henry Kissinger em 1969: “Lutamos uma guerra militar; nossos oponentes lutaram contra uma guerra política. Procuramos desgaste físico; nossos oponentes visavam nossa exaustão psicológica. No processo, perdemos de vista uma das máximas fundamentais da guerra de guerrilha: o guerrilheiro vence se não perder. O exército convencional perde se não vencer.”

Essa lógica levou Jon Alterman, do não exatamente pacifista Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais em Washington, D.C., a ver Israel como estando em risco considerável de perder para o Hamas:

O conceito de vitória militar do Hamas […] tem tudo a ver com a condução de resultados políticos a longo prazo. O Hamas vê a vitória não em um ou cinco anos, mas sim no envolvimento em décadas de luta que fortalecem a solidariedade palestina e acentuam o isolamento de Israel. Neste cenário, o Hamas reúne em torno de si uma população sitiada em Gaza, com raiva, e ajuda a derrubar o governo da Autoridade Palestina, garantindo que os palestinos a vejam ainda mais como um inútil coadjuvante da autoridade militar de Israel. Entretanto, os Estados árabes afastam-se fortemente da normalização, o Sul Global alinha-se fortemente com a causa palestina, a Europa recua perante os excessos do exército israelense e irrompe um debate nos EUA sobre Israel, destruindo o apoio bipartidário neste país, do qual Israel desfruta desde o início da década de 1970.

O Hamas, escreve Jon Alterman, procura “usar a enorme superioridade militar de Israel para derrotar Israel. A força de Israel permite ao país matar civis palestinos, destruir infraestruturas palestinas e desafiar os apelos globais à contenção. Tudo isso promove os objetivos de guerra do Hamas.”

Tais advertências foram ignoradas pela administração Biden e pelos líderes ocidentais, cujos abraço incondicional à guerra de Israel está enraizado na ilusão de que Israel era apenas mais uma nação ocidental que cuidava pacificamente de seus assuntos antes de sofrer um ataque não provocado em 7 de outubro – é uma fantasia reconfortante para aqueles que preferem evitar reconhecer uma realidade de que foram cúmplices na criação.

Esqueça as “falhas de inteligência”; o fracasso de Israel ao não ser capaz de antecipar o dia 7 de outubro foi um fracasso político em compreender as consequências de um sistema violento de opressão, qualificado pelas principais organizações internacionais e israelenses de direitos humanos como um apartheid.

Há 20 anos, o ex-presidente do Knesset [o parlamento de Israel], Avrum Burg, alertou sobre a inevitabilidade de reações violentas. “O que fica é que a luta de 2 mil anos pela sobrevivência judaica se reduz a um Estado de assentamentos, dirigido por uma camarilha amoral de infratores da lei e corruptos, que são surdos tanto para os seus cidadãos como para os seus inimigos. Um Estado sem justiça não pode sobreviver”, escreveu ele em The International Herald Tribune.

Mesmo que os árabes baixem a cabeça e engulam a vergonha e a raiva para sempre, isso não funcionará. Uma estrutura construída sobre a insensibilidade humana irá inevitavelmente desmoronar sobre si mesma.… Uma vez que Israel deixou de se preocupar com os filhos dos palestinos, o país não deveria se surpreender quando eles vierem tomados de ódio e se explodirem nos centros do escapismo israelense.

 

Israel poderia matar mil homens do Hamas por dia e não resolver nada, advertiu Burg, porque as próprias ações violentas de Israel seriam a fonte de um reabastecimento das fileiras de seus inimigos. Suas advertências foram ignoradas, embora tenham se justificado muitas vezes desde então. Essa mesma lógica está agora a ser aplicada com esteroides na destruição que está a ser infligida a Gaza. A torturante violência estrutural que Israel esperava que os palestinos sofressem em silêncio fez com que a segurança israelense fosse sempre ilusória.

As semanas que sucederam a 7 de outubro deixaram claro que não pode haver regresso ao status quo anterior. Este foi provavelmente o objetivo do Hamas ao realizar os seus ataques mortais. E mesmo antes disso, muitos líderes de Israel pediam deslavadamente a consecução da Nakba, a limpeza étnica da Palestina; agora essas vozes foram amplificadas.

A pausa humanitária mutuamente acordada no final de novembro resultou na libertação de alguns reféns pelo Hamas em troca de palestinos detidos nas prisões israelenses e um aumento no fornecimento de suprimentos humanitários que entram em Gaza. Quando Israel retomou o seu ataque militar e o Hamas voltou a lançar foguetes, ficou claro que o Hamas não foi derrotado militarmente. O massacre e a destruição em massa que Israel causou em Gaza sugerem uma intenção de tornar o território inabitável para os 2,2 milhões de palestinos que lá vivem – e de pressionar pela expulsão através de uma catástrofe humanitária militarmente planeada. De fato, a própria estimativa da Força de Defesa de Irsael (FDI) é que até agora eliminou menos de 15% da força de combate do Hamas. Isto numa campanha que matou mais de 21 mil palestinos, principalmente civis, sendo 8.600 crianças.

7 de Outubro e a política palestina

É quase certo que os militares de Israel expulsarão o Hamas do governo de Gaza. Mas analistas como Tareq Baconi, que estudou o movimento e o seu pensamento nas últimas duas décadas, aponta que já há algum tempo que o grupo procura libertar-se das amarras de governar um território separado do resto da Palestina, nos termos estabelecidos pela potência colonial ocupante.

Há bastante tempo, o Hamas vem mostrando o desejo de romper o seu papel de governar Gaza, desde os desarmados protestos em massa chamados de Marcha do Retorno, em 2018, violentamente reprimidos por franco-atiradores israelenses, até os frustrados esforços dos Estados Unidos e de Israel de transferir o governo de Gaza para uma Autoridade Palestina reformada, por um acordo de tecnocratas, ou um governo eleito, enquanto o Hamas se concentrava em reorientar a política palestina tanto em Gaza como na Cisjordânia para a resistência, em vez da custódia, ao status quo da ocupação. Se a consequência do seu ataque for a perda da responsabilidade de governar Gaza, o Hamas pode considerar isso vantajoso.

O Hamas tentou empurrar o Fatah para um caminho semelhante, instando o partido no poder na Cisjordânia a pôr fim à colaboração de segurança da Autoridade Palestina (AP) com Israel e a confrontar mais diretamente a ocupação. A perda do controle municipal de Gaza está, portanto, longe de ser uma derrota decisiva para o esforço de guerra do Hamas: para um movimento dedicado à libertação das terras palestinas, governar Gaza começou a parecer um beco sem saída, tal como o autogoverno permanente e limitado em ilhas descontíguas do Ocidente. O banco tem sido para o Fatah.

O Hamas, diz Baconi, provavelmente se sentiu compelido a fazer uma aposta de alto risco para destruir um status quo que considerava uma morte lenta para a Palestina. “Tudo isto ainda não significa que a mudança estratégica do Hamas será considerada bem-sucedida no longo prazo”, disse ele. escreveu emPolítica estrangeira.

A violenta ruptura do status quo por parte do Hamas poderia muito bem ter proporcionado a Israel a oportunidade de levar a cabo outra Nakba. Isto poderá resultar numa conflagração regional ou causar aos palestinos um golpe do qual poderá levar uma geração a recuperar. O que é certo, porém, é que não há retorno ao que existia antes.

A aposta do Hamas, então, pode ter sido sacrificar o governo municipal de uma Gaza sitiada para consolidar o seu estatuto de organização de resistência nacional. O Hamas não está tentando enterrar o Fatah: os vários acordos de união entre o Hamas e o Fatah, particularmente aqueles liderados por prisioneiros de ambas as facções, demonstram que o Hamas procura uma frente unida. A AP é incapaz de proteger os palestinos da Cisjordânia da crescente violência dos colonos israelenses e do controle arraigado, e muito menos de responder de forma significativa ao derramamento de sangue em Gaza. Sob o pretexto do apoio ocidental a Gaza, Israel matou centenas de palestinos, prendeu milhares de pessoas e deslocou aldeias inteiras na Cisjordânia, ao mesmo tempo que recrudescia os ataques dos colonos patrocinados pelo Estado. Ao fazê-lo, Israel minou ainda mais a legitimidade do Fatah junto à população, que se viu empurrada na direção do Hamas.

Durante anos, os colonos protegidos pelas FDI atacaram aldeias palestinas com o objetivo de forçar os seus residentes a partir e de reforçar o controle ilegal de Israel sobre o território ocupado – mas a expansão deste controle desde 7 de Outubro está fazendo com que até mesmo os cúmplices de Israel nos EUA recuem para uma neutralidade. A ameaça de Biden de proibir os vistos contra colonos envolvidos na violência contra os palestinos da Cisjordânia é diversionismo: esses colonos estão longe de serem atores individuais que faltam com a honestidade; estão armados pelo Estado e agressivamente protegidos pelas FDI e pelo sistema jurídico israelense, porque estão implementando uma política de Estado. Mas mesmo a equivocada ameaça de Biden deixa claro que Israel está em desalinho com sua administração.

O Hamas tem uma perspectiva pan-palestina, não uma específica de Gaza, e por isso pretendia que o 7 de Outubro tivesse efeitos transformadores em toda a Palestina. Durante a “Intifada de Unidade” de 2021, que procurou ligar as lutas dos palestinos na Cisjordânia e em Gaza com as lutas dentro de Israel, o Hamas tomou medidas em apoio a esse objetivo. Agora, o Estado israelita está a acelerar essa ligação com uma paranoica campanha de repressão contra qualquer expressão de dissidência entre os seus cidadãos palestinos. Centenas de palestinos na Cisjordânia foram detidos, incluindo ativistas e adolescentes que postavam no Facebook. Israel está perfeitamente consciente do potencial de escalada na Cisjordânia. Nesse sentido, a resposta israelense apenas aproximou os povos da Cisjordânia e de Gaza.

É claro que Israel nunca pretendeu aceitar um Estado palestino soberano em qualquer lugar a oeste do rio Jordão. Em vez disso, Israel intensifica antigos planos de garantir o seu controle do território. Isso e a crescente invasão israelense na Mesquita de Al Aqsa são um lembrete de que Israel está alimentando ativamente qualquer revolta que se siga na Cisjordânia, em Jerusalém Oriental, e mesmo dentro das linhas de 1967.

Ironicamente, a insistência dos EUA de que a Autoridade Palestina seja colocada no controle de Gaza depois da guerra de devastação de Israel – e os seus avisos tardios e débeis sobre a violência dos colonos – reforça a ideia de que a Cisjordânia e Gaza são uma entidade única. A política de 17 anos de Israel de separar uma Cisjordânia flexível, dirigida por uma AP cooptada, de uma “Gaza governada por terroristas” fracassou.

Israel depois do 7 de Outubro

O ataque liderado pelo Hamas destruiu os mitos da invencibilidade israelense e a expectativa de tranquilidade dos seus cidadãos, mesmo quando o Estado sufoca a vida dos palestinos. Poucas semanas antes, o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu vangloriava-se de que Israel tinha “gerido” com sucesso o conflito, ao ponto de a Palestina já não figurar no seu mapa de um “novo Oriente Médio”. Com os Acordos de Abraão e outras alianças, alguns líderes árabes abraçaram Israel. Os EUA promoviam o plano, com os presidentes Donald Trump e Joe Biden ambos focados na “normalização” de suas relações com regimes árabes, e estavam dispostos a deixar os palestinos sujeitos ao cada vez mais rigoroso apartheid israelense. O dia 7 de Outubro serviu como um lembrete brutal de que isto era insustentável e que a resistência dos palestinos constitui uma forma de poder de veto sobre os esforços de outros para determinar o seu destino.

É demasiado cedo para medir o impacto do 7 de Outubro na política interna israelense. O acontecimento tornou os israelenses mais agressivos, mas ao mesmo tempo mais desconfiados de sua liderança nacional após o fracasso colossal da inteligência em prevenir e da resposta militar. Foi necessária uma mobilização em massa significativa contra o governo por parte das famílias dos israelenses mantidos em cativeiro em Gaza para conseguir uma pausa na ação militar e garantir um acordo de libertação de reféns. A dramática dissidência interna de alto nível em relação aos reféns e o que é exigido de Israel para garantir o seu regresso poderia aumentar a pressão para novos acordos de libertação e até mesmo um cessar-fogo total, apesar da determinação de continuar a guerra entre grande parte dos políticos e dos líderes militares. A opinião pública israelense continua confusa, irritada e imprevisível.

Depois, há o impacto da guerra na economia de Israel, cujo modelo de crescimento se baseia em atrair elevados níveis de investimento direto estrangeiro em seu setor tecnológico e outras indústrias de exportação. O protesto social do ano passado e a incerteza sobre a disputa constitucional já vinham sendo citados como razão para a queda anual de 68% no IDE reportada durante o Verão. A guerra de Israel, para a qual foram mobilizados 360 mil reservistas, acrescenta um novo nível de choque. O economista Adam Tooze escreveu em seu Substack:

O lobby tecnológico em Israel estima que um décimo da sua força de trabalho foi mobilizada. A construção está paralisada pela quarentena da força de trabalho palestina na Cisjordânia. O consumo de serviços entrou em colapso à medida que as pessoas se afastam dos restaurantes e as reuniões públicas são limitadas. Os registos dos cartões de crédito sugerem que o consumo privado em Israel caiu quase um terço nos dias após o início da guerra. Os gastos com lazer e entretenimento caíram 70%. O turismo, um dos pilares da economia israelense, foi interrompido abruptamente. Voos são cancelados e as cargas transportadas são desviadas. No mar, o governo israelita ordenou à Chevron que suspendesse a produção no campo de gás natural de Tamar, custando a Israel US$ 200 milhões por mês em receitas perdidas.

Israel é um país rico com recursos para enfrentar parte desta tempestade, mas com a sua riqueza vem a fragilidade – e tem muito a perder.
Gaza depois do 7 de Outubro

As forças israelenses invadiram Gaza com um plano de batalha, mas nenhum plano de guerra claro para Gaza após a sua invasão. Alguns líderes militares israelenses pretendem manter o “controle de segurança” do tipo que desfrutam no domínio da AP na Cisjordânia. Em Gaza, isto faria o país enfrentar uma insurgência mais bem treinada e apoiada pela maior parte da população. Muitos nos círculos do governo israelense defendem o deslocamento forçado de grande parte da população civil de Gaza para o Egito, arquitetando uma crise humanitária que torne Gaza inabitável. Os EUA afirmam que descartam essa possibilidade, mas nenhum ator inteligente descartaria a possibilidade de os israelenses procurarem perdão em vez de permissão para uma maior limpeza étnica em grande escala, em linha com os objetivos demográficos de longo prazo do país, que se traduzem em reduzir a população palestina entre o rio e o mar.

As autoridades estadunidenses recorreram aos antigos receituários, e sugerir a falar com esperança em colocar Mahmoud Abbas, de 88 anos, o chefe da Autoridade Palestina, de volta ao comando de Gaza, com a promessa de alguma busca renovada pela quimérica “solução de dois Estados”. Mas a AP não tem credibilidade nem mesmo na Cisjordânia devido à sua aquiescência cada vez maior em relação à crescente ocupação de Israel. Então, há a realidade de que impedir a verdadeira soberania em qualquer parte da Palestina histórica tem sido há muito tempo um ponto de consenso na liderança israelense em grande parte do espectro político sionista. E os líderes de Israel não têm necessidade de respeitar as expectativas de uma administração dos EUA que pode muito bem ser tirada da Casa Branca no próximo ano. E eles têm uma capacidade comprovada de abanar o cachorro (em vez do rabo), mesmo que Biden fosse reeleito. Os EUA optaram por andar de rifle na máquina de guerra de Israel, cujo destino pode não ser claro, mas certamente não é qualquer tipo de Estado palestino.

O impacto global do 7 de Outubro

Israel e os Estados Unidos podem ter-se convencido de que o mundo “seguiu em frente” da situação palestina, mas as energias libertadas pelos acontecimentos desde 7 de Outubro sugerem que o oposto é verdadeiro. Os apelos à solidariedade com a Palestina ecoaram pelas ruas do mundo árabe, servindo em alguns países como uma linguagem codificada de dissidência contra o autoritarismo decrépito. Em todo o Sul Global e nas cidades do Ocidente, a Palestina ocupa agora um lugar simbólico como avatar da rebelião contra a hipocrisia ocidental e uma ordem pós-colonial injusta. Desde a invasão ilegal do Iraque liderada pelos EUA, não se via tantos milhões de pessoas em todo o mundo saindo às ruas para protestar. Os trabalhadores organizados exercitaram sua força internacionalista para contestar as entregas de armas a Israel e lembraram-se do seu poder de mudar a história, e mecanismos legais como o Tribunal Penal Internacional, o Tribunal Internacional de Justiça e até mesmo os tribunais dos EUA e da Europa estão sendo usados ​​para desafiar políticas governamentais que permitem os crimes de guerra de Israel.

Em pânico com um mundo horrorizado com as suas ações em Gaza, Israel e os seus defensores voltaram a acusar de antissemitismo aqueles que desafiaram a sua brutalidade – mas tudo, desde as marchas em massa até a ativa oposição judaica e as pesquisas de opinião sobre a forma como Biden lidou com a crise indicam que equiparar a solidariedade ao antissemitismo não é apenas factualmente errado; não convence ninguém.

Vários países da América Latina e da África simbolicamente cortaram laços com Israel, e o bombardeio deliberado de uma população civil e o bloqueio do acesso a abrigo, alimentos, água e cuidados médicos deixaram até mesmo muitos dos aliados de Israel horrorizados. A extensão da violência que o Ocidente está disposto a tolerar contra um povo cativo em Gaza oferece ao Sul Global uma dura lembrança das contas não resolvidas com o Ocidente imperial. E quando o presidente francês Emmanuel Macron e primeiro-ministro canadense Justin Trudeau imploram publicamente a Israel para parar de “bombardear bebês”, Israel corre o risco de perder até mesmo o apoio de partes do Ocidente. Tornou-se difícil, a curto prazo, para os países árabes e muçulmanos manter, e muito menos expandir, seus laços públicos.

Manter-se ligado à resposta de Israel ao 7 de Outubro também estourou a bolha de fantasias dos EUA de recuperar a hegemonia no Sul Global sob o lema de “nós somos os mocinhos”. O contraste entre as respostas às crises de Rússia-Ucrânia e Israel-Palestina, respectivamente, produziu um consenso de que há hipocrisia no próprio cerne da política externa dos EUA, produzindo espectáculos tão extraordinários como Biden sendo castigado, cara a cara numa cúpula do Fórum de Cooperação Econômica Ásia-Pacífico (APEC), pelo primeiro-ministro da Malásia, Anwar Ibrahim, pelo seu fracasso em se levantar contra as atrocidades de Israel

Ibrahim alertou especificamente que a resposta de Biden a Gaza levantou um grave déficit de confiança com aqueles que os Estados Unidos esperam cortejar como aliados na sua competição com a Rússia e a China. Ter demonstrado aos aliados árabes que o seu patrono de Washington ficará do lado de Israel, mesmo quando este bombardeia civis árabes, irá provavelmente reforçar a tendência dos Estados do Sul Global de diversificarem os seus portfólios geopolíticos.

A questão política

Ao destruir um status quo que os palestinos consideram intolerável, o Hamas voltou a colocar a política na agenda. Israel tem um poder militar significativo, mas é politicamente fraco. Grande parte do establishment dos EUA que apoia a guerra de Israel assume que a violência que emana de uma comunidade oprimida pode ser reprimida através da aplicação de uma força militar esmagadora contra essa comunidade. Mas mesmo O secretário de Defesa, Lloyd Austin, sinalizou ceticismo em relação a essa premissa, alertando que os ataques de Israel que matam milhares de civis correm o risco de os levar “para os braços do inimigo [e trocar] uma vitória tática por uma derrota estratégica”.

Os políticos e os meios de comunicação ocidentais gostam de fantasiar que o Hamas é um quadro niilista ao estilo do ISIS, que mantém a sociedade palestina como refém. O Hamas é, de fato, um movimento político multifacetado, enraizado na estrutura e nas aspirações nacionais da sociedade palestina. Incorpora uma crença, severamente afirmada por décadas de experiência palestina, de que a resistência armada é central para o projeto de libertação palestina, devido aos fracassos do processo de Oslo e à hostilidade intratável do seu adversário. E a sua influência e popularidade cresceram à medida que Israel e os seus aliados continuaram a frustrar um processo de paz e outras estratégias não violentas para prosseguir a libertação palestina.

A campanha de Israel diminuirá a capacidade militar do Hamas. Mas mesmo que matasse os principais líderes da organização (como já fez anteriormente), a resposta de Israel ao 7 de Outubro está reforçando a mensagem do Hamas e a sua posição entre os palestinos em toda a região e fora dela. Os grandes protestos na Jordânia com cantos pró-Hamas, por exemplo, são eventos sem precedentes. Não é necessária qualquer aprovação ou apoio às ações do Hamas do 7 de Outubro para reconhecer o apelo duradouro de um movimento que parece capaz de fazer Israel pagar algum tipo de preço pela violência que inflige aos palestinos todos os dias, todos os anos, geração após geração.

A história também sugere um padrão em que representantes de movimentos considerados “terroristas” pelos seus adversários – na África do Sul, por exemplo, ou na Irlanda – aparecem, no entanto, à mesa de negociações quando chega o momento de procurar soluções políticas. Seria a-histórico apostar contra o Hamas, ou pelo menos contra alguma versão da corrente político-ideológica que representa, fazendo o mesmo se e quando uma solução política entre Israel e os palestinos for revista com seriedade.

O que acontecerá depois da violência brutal está longe de ser claro. Mas o ataque do Hamas no 7 de Outubro forçou o reinício de uma disputa política à qual Israel parece não estar disposto a responder para além da força militar devastadora contra civis palestinos. E observando como as coisas estão oito semanas após a vingança, não se pode dizer que Israel esteja vencendo.
Tony Karon, chefe-editorial do AJ+ da Al Jazeera / Daniel Levy, o presidente do Projeto EUA/Oriente Médio e ex-negociador israelense sob o primeiros-ministros Ehud Barak e Yitzhak Rabin

segunda-feira, 11 de dezembro de 2023

Pensamento do Dia

 


Jornal, o fole incansável que assopra a vaidade humana

Pelo jornal, e pela reportagem que será a sua função e a sua força, tu desenvolverás, no teu tempo e na tua terra, todos os males da Vaidade!

Como a reportagem hoje se exerce, menos sobre os que influem nos negócios do Mundo, ou nas direções do pensamento, do que, como diz a Bíblia, sobre toda a sorte e condições de gente vã, desde os jóqueis até aos assassinos, a sua indiscriminada publicidade concorre pouco para a documentação da história, e muito, prodigiosamente, escandalosamente, para a propagação das vaidades! O jornal é com efeito o fole incansável que assopra a vaidade humana, lhe irrita e lhe espalha a chama. De todos os tempos é ela, a vaidade do homem! Já sobre ela gemeu o gemebundo Salomão, e por ela se perdeu Alcibíades, talvez o maior dos Gregos. Incontestavelmente, porém, meu Bento, nunca a vaidade foi, como no nosso danado século XIX, o motor ofegante do pensamento e da conduta.

Nestes estados de civilização, ruidosos e ocos, tudo deriva da vaidade, tudo tende à vaidade. E a forma nova da vaidade para o civilizado consiste em ter o seu rico nome impresso no jornal, a sua rica pessoa comentada no jornal! Vir no jornal! Eis hoje a impaciente aspiração e a recompensa suprema! Nos regimes aristocráticos o esforço era obter, senão já o favor, ao menos o sorriso do Príncipe. Nas nossas democracias a ânsia da maioria dos mortais é alcançar em sete linhas o louvor do jornal. Para se conquistarem essas sete linhas benditas, os homens 
praticam todas as ações—mesmo as boas.

Eça de Queirós, "A Correspondência de Fradique Mendes"

A cidade por um fio

Semanas atrás, em plena luz do sol que cozinhava a cidade como panela de pressão, um homem dependurava-se na fiação elétrica da avenida de um bairro carioca. Nenhuma exibição atlética, mas tentativa de roubo. Insólita foi a hora, a prática é comum: neste ano, já se roubaram mais de mil quilômetros de fios. Do mesmo modo, sumiram centenas de toneladas de cabos subterrâneos, artefatos de bronze de estátuas e edifícios, luminárias e caixas de lixo, que, segundo consta, são cortadas e refeitas como pás de limpeza.

Para os mais afeitos a explicações estruturais, o que acorre à primeira vista é a desigualdade socioeconômica. Há bastante tempo, durante o comício das Diretas Já, chamou a atenção de um dos organizadores a presença de um homem de aparência humilde à frente dos assistentes. Puxou conversa e perguntou-lhe o que achava da manifestação. A resposta, inequívoca: ele estava interessado apenas no que poderia sobrar das madeiras do palanque.


Isso se explicaria por desigualdade de cidadania, mas fica aquém do fenômeno das depredações. De fato, na Cidade do México, uma das maiores metrópoles mundiais, onde igualdade não é apregoada como virtude, não se depreda nem se picha. Existe a hipótese de que o local se orgulha de seu patrimônio. Nada que se correlacione com a violência extrema dos cartéis nem com o tráfico humano. Mas os equipamentos urbanos parecem escapar.

Uma cidade pode ser apreendida no imaginário coletivo, ao modo do que foi na Antiguidade, como um corpo humano, com cabeça, tronco e membros. O sentimento gerado por analogias dessa ordem corresponde a pulsões variadas, inclusive à de fome, como já especulou Carl Jung. No limite da obtenção de recursos pelos desfavorecidos, a cidade se destrói, autodevorando-se.

Isso pode também corresponder aos efeitos de uma guerra civil molecular travada à revelia dos poderes constituídos. A metrópole carioca é laboratório de gestões brutalistas em territórios predados por formas novas de colonialismo interno. O corpo da urbe sofre, por um lado, de amputações espaciais por empresas vorazes. Por outro, de regimes ditatoriais nos enclaves controlados por facções criminosas. Enorme é o sofrimento moral, sobrevoado por abutres religiosos.

Na prática, para o cidadão que das Diretas Já aspirava só à madeira do palanque, a militarização não acabou, as armas dos tiranos apenas mudaram de mãos. E o capital intensificou a depredação, reservando às elites os experimentos de cidade inteligente. Em certos estados, o furor extrativista parece abstrato, menos no que deixa: lama, mortos, crateras. No Rio, é mesmo concreto o desamparo físico e moral. Mas a ironia objetiva dos estratos subalternos, ao modo de cupins demolidores, é a devoração do corpo funcional da cidade.

Desumanização


A desumanização dos palestinianos permitiu à comunidade internacional suportar os contínuos ataques israelitas em Gaza
Philippe Lazzarini, chefe da agência da ONU para os refugiados palestinos

Dores do mundo

O vídeo dura menos de um minuto e meio. Quem a ele assiste torna-se, para sempre, condenado a ser testemunha do horror. Não há escapatória, impossível “desver”, inútil buscar racionalidade à cena. Ela ultrapassa qualquer régua moral, política ou religiosa. É, em essência, o retrato da guerra captada pelo fotojornalista de Gaza Motaz Azaiza. Há quase dois meses, Azaiza registra o que vê à sua volta, e posta o que viu nas redes sociais. Na semana passada, quando novo bombardeio israelense atingiu seu bairro e vizinhos, Azaiza estava a postos. É esse minuto e meio que precisa ficar registrado aqui. Não fazê-lo seria silenciar o horror.

No massacre do Hamas contra civis israelenses, em 7 de outubro, os momentos mais sórdidos da infâmia foram mano a mano, com o algoz terrorista inebriado pelo terror da vítima em suas mãos. Missão cumprida. No caso dos bombardeios punitivos de Israel, o disparo vem à distância, não tem autoria, e as mortes que provoca não têm rosto. Os ainda vivos, em fuga, também não. Missão em curso.


Psicólogos sociais esquadrinham pesquisas atestando quanto o ser humano procura encontrar alguma coerência, propósito ou significado à vida, ao ato e ao fato de viver. Neste fim de 2023, os tempos são de desnorteamento e dor — uma dor, ora individual, ora coletiva, que não usa máscara. De qualquer ângulo que se olhe, o que se vê é um vácuo — vácuo de compaixão, excesso de certezas vazias. Tomar conta deste mundo dá trabalho e exige paciência, já sabia Clarice Lispector.

Em tempos assim, é um deleite inofensivo e terno frequentar o site The Red Hand Files, criado por Nick Cave cinco anos atrás. O extraordinário músico australiano, que frequentou os cantos mais escuros da alma humana, havia perdido dois filhos (o adolescente Arthur caiu de um precipício na Inglaterra, e Jethro, aos 31 anos, sofreu morte súbita). Cave conseguiu se reerguer abrindo um canal de comunicação direta com a vida, na pessoa de sua legião de fãs. Passou a responder, pessoalmente, à enxurrada de perguntas que lhe chegam por escrito — até o ano passado elas somavam mais de 50 mil. Suas respostas são singelas e profundas, nunca impensadas ou insinceras.

Uma alma inquieta chamada Raymond, de Dallas (Texas), queria saber se o cantor se considerava otimista. Recebeu a seguinte resposta:

— Esperança e otimismo podem ser forças diferentes, quase opostas. A esperança brota de um sofrer sentido. É a centelha desafiadora e dissidente que se recusa a ser extinta. O otimismo pode ser o negacionismo do tal sofrer, o medo de encarar a escuridão, a ausência de percepção, uma espécie de cegueira do real. Esperança é amadurecimento e desobediência. Otimismo pode ser temeroso e falso.

Outro seguidor, da Eslovênia, perguntou se a inteligência artificial seria capaz de criar o sublime (na canção ou em música). Cave primeiro citou o autor de “Sapiens”, Yuval Noah Harari, para quem a IA será capaz de criar músicas ainda melhores que os humanos, pois conseguirá mapear o estado d’alma de quem faz o pedido. Um algoritmo sob medida para satisfazer à necessidade emocional do cliente — se está sentindo alegria, tristeza, saudade, desejo.

— Só que músicas fazem bem mais que isso — esclareceu o cantor. — Uma canção excepcional nos inunda de assombro, e essa sensação deriva exclusivamente de nossos limites como seres humanos. Tem a ver com a audácia humana de ir além de nosso potencial.

Ou, como definiu Franz Kafka, música é o som da alma, a voz direta do mundo subjetivo.

Até mesmo à pergunta raiz das civilizações:

— Deus existe?

Ele respondeu de forma franca:

— Não tenho nenhuma evidência num sentido ou noutro, mas talvez essa não seja a pergunta correta. Para mim, a questão é “o que significa crer?”. Mesmo contra a vontade, acho impossível não crer ou, pelo menos, não se envolver com a busca por uma resposta, o que no fundo dá no mesmo. Minha vida está dominada pela noção de Deus, seja por sua presença ou ausência.

São muitas as dores do mundo, e neste período de festas judaico-cristãs parece até imperativo embalar-se em crenças. Só que elas de pouco ou nada adiantam quando o ser humano perde contato com a humanidade.

domingo, 10 de dezembro de 2023

Pensamento do Dia

 


Quem se importará quando pouco ou nada mais restar de Gaza?

Uma vez, no fim dos anos 1980, em Hamburgo, durante entrevista coletiva, perguntei ao presidente do Banco Central da Alemanha sobre as chances de os países africanos se desenvolverem. Não lembro por quê, mas a África estava na moda naquela ocasião.

Ele me olhou surpreso e respondeu? “África? A África não tem a menor importância. Próxima pergunta.” Tinha pressa, e dali a duas horas uma reunião com diretores do banco em Berlim. Não perderia tempo a conversar sobre o continente mais pobre do mundo.

Esta é uma das vantagens do mundo globalizado e digital: há mais de 60 dias conversamos sem cessar sobre a carnificina promovida por Israel na miserável e superpovoada Faixa de Gaza. O legítimo direito de Israel à defesa escalou para o ilegítimo direito ao massacre.


O show de cinismo dos líderes das principais potências mundiais é vergonhoso e dá asco. Ante o crescente número de palestinos mortos, cerca de 18 mil a essa altura, 70% deles mulheres e crianças, renovam a todo instante seu apoio a Israel, mas sugerem moderação.

Israel agradece o apoio e continua a matar inocentes onde quer que estejam a pretexto de que os terroristas do Hamas se escondem por trás deles. É como se dissesse: sinto muito, mas vou matá-lo porque na sua cidade, no seu bairro, no seu prédio pode haver terroristas.

Pode haver, não obrigatoriamente há. Mas, na dúvida, que morram todos. O Hamas, enquanto grupo organizado e bem armado, é cria de Israel, que imaginou corrompê-lo como fez com a Autoridade Palestina, que finge governar a Cisjordânia, suposto território palestino.

Para vingar-se da invasão sangrenta do 7 de Outubro e demonstrar suas boas intenções humanitárias, Israel ordenou aos palestinos de Gaza que se mudassem do Norte do enclave para o Sul. Mais da metade deles obedeceu para salvar a pele. Israel, agora, os mata no Sul.

Nesse ritmo, não ficará pedra sobre pedra em Gaza, e a população que restar quando a guerra chegar ao fim não terá onde viver, o que comer, onde se tratar. Dependerá da caridade internacional, e essa da pressão da volúvel opinião pública sempre ávida por novidades.

No mesmo dia em que orientou o embaixador do seu país no Conselho de Segurança da ONU a vetar mais uma resolução que pedia novo cessar-fogo em Gaza, o presidente americano, Joe Biden, voltou a pedir a Israel que proteja os civis palestinos.

Como seus apelos repetidos dia sim e outro também esbarram em ouvidos moucos, por que Biden não suspende a venda de armas de destruição em massa a Israel? Não: Biden briga com o Congresso para que libere mais uma ajuda de 14 bilhões de dólares a Israel.

Assim caminha a desumanidade.

A cura

Acho que precisamos nos unir coletivamente e vivenciar isso juntos. Acho que precisamos nos emocionar com as histórias dos outros. E acho que precisamos nos abrir para a catarse... se pudermos fazer isso, então poderemos começar a nos curar

O artifício é todo nosso

Gostava de ser tão velho que me lembrasse do burburinho que foi quando se inventou a fotografia, mas é como se fosse.

Lembro-me do terror que acompanhou o aparecimento da televisão, das casetes de áudio e vídeo, do computador pessoal, da Internet, e dos computadores de bolso a que chamamos “telemóveis”.

Agora é a inteligência artificial (IA). É diferente? Sim, diz-se sempre que é diferente. Mas a história é sempre a mesma: o roubo da nossa alma, acompanhado pelo desaparecimento de uma coisa que nos faz bem à alma.


A fotografia roubava-nos a alma, estampando com ela num papel. Fazia desaparecer os retratos feitos pelos pintores. A televisão roubava-nos a alma, enchendo-nos de lixo e fixando-nos em casa. Fazia desaparecer o teatro, a rádio e o cinema.

Confundimos sempre os nossos medos com as nossas percepções. Continuamos nas cavernas, a dar os primeiros passos para nos transformarmos em camponeses.

Cada coisa nova que aparece parece que nos vem comer.

A IA parece que vai comer trabalhadores, mas a única coisa que vai comer é trabalhos que ninguém gosta de fazer. Vai ser como a invenção da roda ou da máquina de lavar roupa: o ser humano passa a poder fazer um trabalho de que goste mais.

A IA é um retrato, uma imitação do cérebro humano. Assim como o retrato só dá mais valor à pessoa que foi retratada – mexe-se e fala e dança e faz amor –, a IA só chama a atenção para a maravilha que é o cérebro humano.

Veja-se tudo o que a Disney faz para imitar o movimento dos animais – e depois olhe-se para um gatinho a brincar com uma tampa de esferográfica. Não é espantoso o que um gatinho consegue fazer com uma simples tampa de esferográfica?

Ontem deliciei-me a ver em 3 minutos faz-te-foruardados, um filme chamado Bad CGI Gator em que se exagera a rasquice dos efeitos especiais para salientar o ridículo de um jacaré obviamente fictício.

É o que se está a fazer com a IA, esquecendo o que o artificial faz ao que é natural: endeusa-o.

Canibalismos

Em tempos diluvianos, éramos animais. O primeiro canibalismo veio com a “alma” ou com a consciência, facultada pela linguagem articulada, que separou o vivido do explicado. Ela engendrou o cisma entre bicho e humanidade nas suas variadas encarnações no “bicho-homem” engendrado entre nós.

Um segundo canibalismo veio alimentado pelo controle do fogo, que, como mostrou Lévi-Strauss, criou a oposição complementar entre o cru (natureza) e o cozido (pacto social ou cultura). Dualidade que consolidou a diferença entre a animalidade governada por instintos inseparáveis de seus portadores do bicho-homem administrado por regras, mandamentos, códigos e crenças. Pelo que os antropólogos chamam de “cultura”, que, como as múltiplas línguas, é imposta, varia de grupo a grupo e chega de fora para dentro.

Tal é o desconjuntado conjunto do “bicho-homem” — expressão que, no Brasil, muito sabiamente, caracteriza a condição humana, pois não são poucas as situações em que o bicho canibaliza o homem, como testemunha a História.

Não custa muito imaginar que nossas crenças se transformem em dogmas e determinismos legitimadores de abomináveis opressões e preconceitos que levam à morte, à destruição e à guerra. O bicho-homem morre, mas sua voz — centrada naquilo que lhe foi dado a acreditar — fica como prova dessa combinação intrigante e insolúvel.

O bicho faz perna com o homem. O homem canibaliza o bicho, mas é eventualmente por ele canibalizado.

Bicho faz sistema com o cru e o homem com o cozido. O fogo e a palavra são os mediadores dessa humanização, mas nem sempre, como experimentamos recorrentemente, o cozido é saboroso. Ou melhor: quem foi eleito como cozido é cru e, pior, rejeitava as canibalizações habituais.

Eleição faz perna com rebelião e revolução. Felizmente, a violência do autocanibalismo negativo é sublimada pela democracia.

Todo candidato representa uma alternativa a quem governa. Mesmo não sendo dogmático, ele configura opções e, assim, propõe uma transformação do statu quo. Com isso, fica à esquerda e desloca até mesmo os mais notórios populistas-esquerdistas que se transformam em conservadores ou reacionários.

O espírito da democracia tem o pendor de desarticular e relativizar extremos, pois ela se concretiza canibalizando o cru que vira cozido e o cozido, que, reitero, pode se transformar em cru. Num certo sentido, o canibalismo democrático nivela ou desilude os que pensam ter balas de prata e soluções finais para os problemas. Daí a dificuldade de praticar democracia em estruturas sociais de fundo histórico aristocrático, escravista — obviamente racista — e elitista. Em sistemas fundados nas hierarquias do “sabe quem está falando?” e do “esse eu conheço!”...

Todo candidato eleito num sistema democrático sabe que será canibalizado por diversas ondas de poderosos agentes sociopolíticos.

Em primeiro lugar, chega o cargo com seus encargos práticos, seu fascínio litúrgico e seu potencial de mando e negociação que imediatamente equaciona limites e fronteiras.

Em seguida, chega o partido, com suas demandas e cobranças. E, finalmente, chega o enxame dos elos pessoais. As dívidas da reciprocidade, do “dar para receber”, quase sempre divergente dos projetos políticos mais racionais e impessoais. Com isso e a seu lado, há o peso do parentesco, do compadrio e das amizades para as quais nada pode ser negado.

Todos esses canibalismos da “casa” se igualam às racionalidades da “rua”. Elas praticamente anulam o universo público em que vive a política.

Essa constelação de canibalismos — do rebelde e revolucionário ao negociador malandro e populista que muda para não mudar — produz uma gramática histórica cuja ambiguidade é irritante. Nela, cada passo adiante promove um retorno. Não é o fim do mundo, porque o novo é inevitável, mas requer muita paciência dos canibais, que, afinal, são velhos amigos e eleitores.

P.S.: Veremos como a “maluquice” de Javier Milei reage à “fritura” canibal portenha.

sábado, 9 de dezembro de 2023

Pensamento do Dia

 


Israel reabre a válvula de gás

Após uma trégua de sete dias, os céus de Gaza estão repletos dos projéteis da morte. Aviões de guerra. Helicópteros de ataque. Drones. Bombas de canhão e de tanque. Granadas. Mísseis. Gaza é uma cacofonia de explosões e gritos perdidos de ajuda, sob edifícios desabados. Os tentáculos do medo, outra vez, estão avançando sobre os corações, no campo de concentração de Gaza.

Só na sexta-feira à noite, 184 palestinos — incluindo três jornalistas e dois médicos — foram mortos por ataques aéreos israelenses no norte, sul e centro de Gaza, e pelo menos 589 ficaram feridos, de acordo com o Ministério da Saúde. Em maioria, são mulheres e crianças.


Israel não será dissuadido. Planeja concluir o trabalho, destruir o que resta no norte de Gaza e dizimar o que permanece no sul. Tornar Gaza inabitável. Ver seus 2,3 milhões de habitantes expulsos em uma campanha maciça de limpeza étnica por meio de fome, terror, massacre e doenças infecciosas. Os comboios de ajuda, que levaram quantidades simbólicas de alimentos e remédios — o primeiro lote era de mortalhas e testes de coronavírus, segundo o diretor do hospital al-Najjar — foram interrompidos. Ninguém, principalmente o presidente Joe Biden, planeja intervir para impedir o genocídio.

O secretário de Estado Antony Blinken visitou Israel na semana passada e, ao pedir que Tel Aviv protegesse civis, recusou-se a estabelecer condições que pudessem interromper os 3,8 bilhões de dólares que o país recebe dos EUA em assistência militar anual, ou o pacote adicional de US$14,3 bilhões. O mundo assistirá passivamente, murmurando lugares-comuns inúteis sobre mais ataques cirúrgicos, enquanto Israel gira sua roleta da morte.

Quando terminar, a Nakba de 1948, quando os palestinos foram massacrados em dezenas de aldeias e 750 mil foram expulsos etnicamente por milícias sionistas, parecerá um relicário pitoresco de uma era mais civilizada. Nada está fora dos limites. Hospitais. Mesquitas. Igrejas. Residências. Edifícios de apartamentos. Campos de refugiados. Escolas. Universidades. Escritórios de mídia. Bancos. Sistemas de esgoto. Infraestrutura de telecomunicações. Estações de tratamento de água. Bibliotecas. Moinhos de trigo. Padarias. Mercados. Bairros inteiros. A intenção de Israel é destruir a infraestrutura de Gaza e matar ou ferir diariamente centenas de palestinos. Gaza está destinada a se tornar uma terra devastada, uma zona morta incapaz de sustentar a vida.

Não é uma guerra contra o Hamas. É uma guerra contra os palestinos. Israel começou a bombardear de novo Khan Younis na sexta-feira (1º/12), depois de lançar folhetos advertindo civis para correr mais ao sul, para Rafah, localizada na fronteira com o Egito. Centenas de milhares de palestinos deslocados buscaram refúgio em Khan Younis. Uma vez que os palestinos forem empurrados para Rafah, restará apenas um lugar para fugir — o Egito. O Ministério de Inteligência de Israel, em um relatório vazado, pede a transferência forçada da população de Gaza para a Península do Sinai, no Egito. Um plano detalhado para deslocar intencionalmente os palestinos em Gaza e empurrá-los para o Egito está incorporado na doutrina israelense há cinco décadas. Dos palestinos em Gaza, 1,8 milhão já foram expulsos de suas casas. Uma vez que os cruzarem a fronteira para o Egito — algo que o governo egípcio e os líderes árabes estão tentando evitar, apesar da pressão dos EUA —, eles nunca mais voltarão.

Os ataques israelenses são gerados a uma taxa vertiginosa, muitos deles a partir de um sistema chamado “Habsora” — O Evangelho —, construído em inteligência artificial que seleciona 100 alvos por dia. O sistema de IA é descrito por sete oficiais de inteligência israelenses atuais e antigos em um artigo de Yuval Abraham nos sites israelenses +972 Magazine e Local Call, como facilitador de uma “fábrica de assassinatos em massa”.

Uma vez que Israel localiza o que presume ser um operativo do Hamas — a partir de um telefone celular, por exemplo –, bombardeia e atinge uma ampla área ao redor do alvo, matando e ferindo dezenas, e às vezes centenas de palestinos, afirma o artigo. “De acordo com fontes de inteligência”, diz a matériaa, “o Habsora gera, entre outras coisas, recomendações automáticas para atacar residências particulares onde vivem pessoas suspeitas de serem operativos do Hamas ou da Jihad Islâmica. Israel, então, realiza operações de assassinato em larga escala através do intenso bombardeio dessas casas”.

Cerca de 15 mil palestinos, incluindo 6 mil crianças e 4 mil mulheres, foram mortos desde 7 de outubro. Mais de 30 mil ficaram feridos. Mais de seis mil estão desaparecidos, muitos enterrados sob os escombros. Mais de 300 famílias perderam 10 ou mais membros. Mais de 250 palestinos foram mortos na Cisjordânia desde 7 de outubro, e mais de 3 mil ficaram feridos, embora a área não seja controlada pelo Hamas. O exército israelense afirma ter matado entre mil e 3 mil dos cerca de 30 mil combatentes do Hamas — um número relativamente pequeno, dada a escala do ataque.

A maioria dos combatentes da resistência se abriga em seu vasto sistema de túneis. O manual de Israel é a “Doutrina Dahiya”. A doutrina foi formulada pelo ex-chefe do Estado-Maior do exército de Israel (IDF), Gadi Eizenkot, que é membro do gabinete de guerra, após a guerra de 2006 entre Israel e o Hezbollah no Líbano.

Dahiya é um subúrbio ao sul de Beirute e uma fortaleza do Hezbollah. Foi bombardeado por jatos israelenses depois de dois soldados israelenses terem sido feitos prisioneiros. A doutrina postula que Israel deve empregar uma força maciça e desproporcional, destruindo infraestrutura e residências civis, para garantir a dissuasão.

Daniel Hagari, porta-voz das IDF, admitiu no início do ataque mais recente de Israel a Gaza que o “ênfase” seria “nos danos e não na precisão”. Israel abandonou sua tática de “bater no telhado”, onde um foguete sem carga explosiva pousava em um telhado para alertar aqueles dentro para que a deixassem. Israel também encerrou suas ligações telefônicas alertando sobre um ataque iminente.

Agora, dezenas de famílias em um prédio de apartamentos ou bairro são mortas sem aviso prévio. As imagens de destruição em massa alimentam a sede de vingança dentro de Israel após a humilhante incursão de combatentes do Hamas em 7 de outubro e o assassinato de 1.200 israelenses, incluindo 395 soldados e 59 policiais.

Há um prazer sádico verbalizado por muitos israelenses, quando falam sobre o genocídio e um aumento nos apelos pelo assassinato ou expulsão de palestinos – incluindo os que vivem na Cisjordânia ocupada e os que possuem cidadania israelense. A selvageria dos ataques aéreos e dos ataques indiscriminados, o corte de alimentos, água e medicamentos, a retórica genocida do governo israelense, tornam isso uma guerra cujo único objetivo é a vingança.

Nada disso será bom para Israel ou para os palestinos. Tudo alimentará uma conflagração geral no Oriente Médio. [O presidente francês Emmanuel Macron alertou no sábado que o objetivo de Israel de eliminar o Hamas podia desencadear uma década de guerra.] O ataque de Israel é a última medida desesperada de um projeto colonial que, tola e arrogantemente, pensa que pode esmagar a resistência de uma população indígena com genocídio.

Mas mesmo Israel não escapará das consequências de massacre nessa escala. Uma geração de palestinos, muitos dos quais viram a maioria (ou todos) dos membros de suas famílias serem mortas e suas casas e bairros destruídos, carregará consigo sede de justiça e retaliação ao longo da vida. Esta guerra não acabou. Ela nem sequer começou.

Mais frágil

Não sou melhor que
uma pedra, uma folha,
a madeira de uma ponte,
o pó das estradas.
Sou apenas mais frágil,
Senhor, pisa-me
com carinho.

Jamil Snege, "Senhor"

O sofrimento “intolerável” de Gaza

Não há que ter medo das palavras: o sofrimento humano em Gaza é “intolerável”. O que a presidente do Comité Internacional da Cruz Vermelha, Mirjana Spoljaric Egger, nos veio recordar é o óbvio: é inaceitável que os civis não tenham um local seguro para onde irem, que o cerco militar não permita assistência humanitária e que a população esteja condenada a morrer de fome, de falta de cuidados médicos ou num bombardeio ditado por inteligência artificial.

Sem locais seguros para se refugiar, a população de Gaza continua encurralada, obrigada a fugir de um lado para o outro, sem poder confiar nas indicações israelitas. A entrada dos tanques na Faixa de Gaza levou a uma fuga desesperada para o sul da região, junto à fronteira com o Egipto, mais uma vez sem garantias de protecção.

O governo israelita comprometeu-se a eliminar o Hamas, um objectivo inatingível, que pode traduzir-se pela eliminação da sua hierarquia. Mas qual é o preço que Israel está disposto a pagar por isso? Eliminar o Hamas não pode confundir-se com a eliminação da população de Gaza.


Nesta guerra, fala-se de “danos colaterais” como se os mesmos fossem inevitáveis. O bombardeio de duas escolas, nesta segunda-feira, onde se abrigavam habitantes deslocados, terá feito, pelo menos, 50 mortos. A confirmar-se, não há argumento militar que o justifique. O desejo de criar estragos tem-se sobreposto ao dever de precisão.

O secretário da Defesa dos EUA disse, lucidamente, que Telavive pode sofrer uma “derrota estratégica” se não limitar ao mínimo as baixas civis desta guerra porque, mesmo que a vença e atinja os seus objectivos, corre o risco de uma condenação generalizada. E Recep Tayyip Erdogan já deu um passo em frente, ao chamar a Benjamin Netanyahu o “assassino de Gaza” e ao falar em nome do povo muçulmano. De resto, Ancara já alertou para as “consequências graves” que podem resultar da tentativa israelita de capturar membros do Hamas em território turco.

Não será fácil a Netanyahu agir internamente em todas as frentes. O primeiro-ministro de Israel vai ter de responder a vários processos judiciais, nos quais está indiciado pela prática de corrupção, gerir a pressão para que se demita, por isto e pela alegada negligência ao desvalorizar os planos do Hamas para 7 de Outubro, enfrentar uma crescente onda de protestos para continuar a negociar o resgate dos reféns ainda nas mãos do Hamas e atingir os objectivos militares a que se propôs. Acossado por este lado e acossado pelo outro; por aliados e por uma base de apoio que tudo fará para levar esta guerra às últimas consequências, mesmo que o sofrimento que implique torne tudo isto ainda mais intolerável.

A Europa, que começou por passar um cheque em branco a Netanyahu após a barbaridade do Hamas, exibindo a sua indiferença perante qual seria a reacção israelita, começa agora a evidenciar sinais de maior sensatez. A presidente do Parlamento Europeu chamou a atenção, em Lisboa, para a necessidade de protecção de todos os civis no conflito e disse que a forma como Israel respondeu aos ataques do Hamas “importa”.

O Presidente francês, Emmanuel Macron, avisou que uma operação militar para eliminar o Hamas pode demorar uma década, pelo que é favorável a um reatamento do cessar-fogo, e Josep Borrell, o alto representante para a Política Externa e de Segurança da União Europeia, defendeu que a solução para o conflito entre Israel e o Hamas só pode ser política, pelo que pediu ao Irão que use a sua influência para impedir “uma nova escalada na região”.

Mas é possível uma solução política com os actuais intervenientes, que nunca estiveram disponíveis para outra solução que não fosse de cariz militar? Veremos até onde irão os tanques israelitas, se irão ocupar o território e o que virá a seguir. São demasiadas incógnitas para provocar esperança.

A única esperança possível, neste momento, é persuadir as duas partes a suspenderem os combates, a retomarem negociações e a trocarem mais prisioneiros por reféns. Uma tarefa, essencialmente, para os EUA, a Casa Branca admitiu que estava a fazer um “esforço imenso” nesse sentido. Falta saber se serão ouvidos.

Dois meses depois do início da guerra, e quase 16 mil mortos depois, as conversações para um eventual cessar-fogo não podem ser interrompidas de forma irremediável, sob pena de o mesmo se prolongar até ao colapso total de Gaza.

Quem se importará quando pouco ou nada mais restar de Gaza?

Uma vez, no final dos anos 1980, em Hamburgo, durante uma entrevista coletiva, perguntei ao presidente do Banco Central da Alemanha sobre as chances dos países africanos se desenvolverem. Não lembro por quê, mas a África estava na moda naquela ocasião.

Ele me olhou surpreso, e respondeu? “África? A África não tem a menor importância. Próxima pergunta”. Tinha pressa, e dali a duas horas uma reunião com diretores do banco em Berlim. Não perderia tempo a conversar sobre o continente mais pobre do mundo.

Esta é uma das vantagens do mundo globalizado e digital: há mais de 60 dias conversamos sem cessar sobre a carnificina promovida por Israel na miserável e superpovoada Faixa de Gaza. O legítimo direito de Israel à defesa escalou para o ilegítimo direito ao massacre.

O show de cinismo dos líderes das principais potências mundiais é vergonhoso e dá asco. Ante o crescente número de palestinos mortos, cerca de 18 mil a essa altura, 70% deles mulheres e crianças, renovam a todo instante seu apoio a Israel, mas sugerem moderação.

Israel agradece o apoio e continua a matar inocentes onde quer que estejam a pretexto de que os terroristas do Hamas se escondem por trás deles. É como se dissesse: sinto muito, mas vou matá-lo porque na sua cidade, no seu bairro, no seu prédio pode haver terroristas.


Pode haver, não obrigatoriamente há. Mas na dúvida, que morram todos. O Hamas, enquanto grupo organizado e bem armado, é cria de Israel que imaginou corrompê-lo como fez com a Autoridade Palestina, que finge governar a Cisjordânia, suposto território palestino.

Para vingar-se da invasão sangrenta do 7 de outubro e demonstrar suas boas intenções humanitárias, Israel ordenou aos palestinos de Gaza que se mudassem do Norte do enclave para o Sul. Mais da metade deles obedeceu para salvar a pele. Israel, agora, os mata no Sul.

Nesse ritmo, não ficará pedra sobre pedra em Gaza, e a população que restar quando a guerra chegar ao fim não terá onde viver, o que comer, onde se tratar. Dependerá da caridade internacional, e essa da pressão da volúvel opinião pública sempre ávida por novidades.

No mesmo dia que orientou o embaixador do seu país no Conselho de Segurança da ONU a vetar mais uma resolução que pedia um novo cessar-fogo em Gaza, o presidente americano Joe Biden voltou a pedir a Israel que proteja os civis palestinos.

Como seus apelos repetidos dia sim e outro também esbarram em ouvidos moucos, porque Biden não suspende a venda de armas de destruição em massa a Israel? Não: Biden briga com o Congresso para que libere mais uma ajuda de 14 bilhões de dólares a Israel.

Assim caminha a desumanidade.

sexta-feira, 8 de dezembro de 2023

Pensamento do Dia

 


A confusão é geral

Há, por toda parte, uma incompreensão absoluta, um mal-estar indisfarçável, uma desconfiança geral e, enquanto os povos se olham com animosidade, os indivíduos se entreolham com desconfiança. Ninguém acredita em ninguém. As palavras, dia a dia, perdem o seu sentido natural, etimológico, e as próprias ações humanas vão indo pela mesma trilha. O que era bom ontem, hoje não o é mais; o que era mal passou a ser bom. A virtude ingressou no rol das coisas imprestáveis e a honestidade é atributo dos ‘trouxas”.
Benedito Carneiro Bastos Barreto (Belmonte)

Cabe a Lula e moderados encontrar o idioma para tratar com a oposição

Os estudos sobre o populismo de extrema direita têm crescido na mesma medida do reconhecimento de sua presença perturbadora nas democracias atuais.

Os especialistas divergem tanto em identificar suas causas quanto ao seu poderio de destruir os sistemas democráticos. Concordam, porém, que líderes populistas promovem a polarização política afetiva e dela se nutrem. O que, por sua vez, torna mais crispada a livre competição por votos e mais difícil a construção posterior de convergências que facilitem a vida dos eleitos.

A profunda fenda política aberta pela vitória de Bolsonaro e ampliada sob o seu infausto mandato é o tema da obra "Biografia do Abismo", do cientista político Felipe Nunes e do jornalista Thomas Traumann, a caminho das livrarias.

Nutridos por uma fartura de pesquisas, sustentam que nos últimos anos a natureza da polarização mudou.


A extrema direita bolsonarista alçou ao topo do embate político a defesa de valores próprios da vida privada —modelos de família, crenças religiosas, educação dos filhos— em detrimento de questões socioeconômicas mais aptas e gerar convergências, como o papel do Estado e o combate à pobreza. Facilitou assim a decantação de identidades políticas de natureza afetiva e, por isso mesmo, virtualmente irredutíveis e inegociáveis.

A explosão do uso e abuso das redes sociais, onde as informações circulam a jato em grupos homogêneos de opinião, só reforçou o processo pelo qual a polarização foi dando lugar ao enrijecimento de posições que os autores denominam "calcificação política". Ela teria extravasado da velha disputa pelos corações e mentes do eleitor para invadir relações pessoais e familiares, entre colegas de trabalho e até nas escolhas de onde fazer compras.

Entre os petistas raiz teria ocorrido algo semelhante, de tal forma que, segundo os autores, o conflito calcificado poderá ter vida longa.

Se depender da extrema direita, a tendência se manterá, pois só a beneficia. Mas, a julgar pelas sondagens, nada indica que os eleitores de Bolsonaro sejam todos feitos da mesma matéria rija e impermeável. Ou que o petismo puro-sangue seja majoritário. Até porque o seu mentor maior sempre foi pragmático e afeito a buscar consensos.

Assim, dependerá dele e dos moderados que se agrupam em torno do seu governo reconhecer as diferenças no campo adversário e encontrar o idioma comum do reconhecimento e do diálogo.

Em alguns casos, isso poderá levar à ampliação de espaços na administração federal. Ou, como se viu há pouco, à nomeação de um procurador-geral de passado conservador.

Uma história de envergonhar

Gabriela Torquato Fernandez, presidente do Instituto XP, órgão dedicado à educação financeira, passou nesta semana por um monstruoso constrangimento. Numa escala de um voo de trabalho, no aeroporto de Campina Grande (PB), o raio-x acusou a presença de metal em seu corpo e mostrou o que era evidente à simples constatação visual: Gabriela é portadora de uma prótese. Duas funcionárias disseram que ela deveria retirá-la para ser submetida à inspeção. Gabriela explicou sua condição, mas elas foram inflexíveis —eram "ordens". Foi então encaminhada a um reservado para realizar a operação, que, mesmo em sua casa, não é das mais simples.


Gabriela teve má formação congênita. Nasceu sem os ossos do quadril do lado esquerdo e sem o membro inferior. Sua prótese fica em contato direto com a pele, que tende a se ferir e sangrar, e é amarrada na cintura. Sem ela, Gabriela tem certa dificuldade de se equilibrar. O auge da humilhação foi ao voltar ao saguão carregando a enorme e pesada prótese, para que ela passasse pelo raio-x, direto na esteira imunda porque não cabia na bandeja.

Tudo isso aconteceu no domingo último, 3 de dezembro —por acaso, o Dia Internacional da Pessoa com Deficiência. A rigidez desumana de certas normas e o despreparo de funcionários para lidar com situações incomuns parecem ser nossas especialidades.

É terrível imaginar quantos brasileiros já não foram submetidos a tais humilhações por serem "diferentes". A própria Gabriela às vezes tem vontade de pedir desculpas por sua deficiência —que não a impede de ser uma das mais reconhecidas profissionais do país numa atividade de crescente importância.

Gabriela tem 31 anos. Usa prótese desde um ano de idade. Passa grande parte do ano em viagens no exterior e já embarcou e desembarcou em aeroportos de todos os continentes. "Só vivi semelhante experiência uma vez, na Etiópia", disse.

terça-feira, 5 de dezembro de 2023

Pensamento do Dia

 


Democracia, República e o povo

Em linhas gerais, República é definida como forma de governo fundada na igualdade formal das pessoas, em que os detentores do poder político o exercem em caráter eletivo, representativo (de regra), transitório e com responsabilidade.

A democracia é a prática que garante aos cidadãos o poder de participar das decisões políticas de seu país.

Com base na compilação de 15 anos de pesquisa acadêmica no campo de desenvolvimento econômico, economia institucional e história econômica, o livro dos economistas Daron Acemoglu e James Robinson intitulado “Por que as nações fracassam” buscou explicar o motivo do desenvolvimento econômico distinto dos países. Segundo os autores, a prosperidade das sociedades está ligada às instituições produzidas por elas, especialmente as instituições políticas, que têm capacidade de moldar as demais.


A tese usada afirma que existem dois tipos de instituições: inclusivas e extrativistas. As “instituições econômicas inclusivas são aquelas que possibilitam e estimulam a participação da grande massa da população em atividades econômicas que façam o melhor uso possível de seus talentos e habilidades”. As “instituições políticas extrativistas concentram poder nas mãos de uma pequena elite e impõem poucas restrições ao exercício do poder. As instituições econômicas são então, em geral, estruturadas por essa elite, de modo a extorquir recursos do restante da sociedade”.

O que isso tem a ver com o Brasil? Absolutamente tudo.

O país já passou por governos de esquerda, de centro e de direita e, quando falamos das pessoas pobres, historicamente excluídas, nada mudou significativamente. Seguimos com o mesmo nível de produtividade da década de 1980, com os mesmos costumes sociais e de mercado, seja do ponto de vista do empreendedor, seja do ponto de vista do trabalhador.

Por que isso acontece? É simples. Não importa seu viés ideológico, a sociedade continua sendo vítima da classe política, que se perpetua no poder, como se fosse no tempo das capitanias hereditárias.

Temos visto neste ano diversas ações em todos os Poderes da República para evitar qualquer perda de privilégios. A mais gritante de todas é a PEC 09/23, por meio da qual se pretende dar anistia a todos os partidos que não cumpriram regras para realizar eleições realmente justas, com igualdade de oportunidade a todos os candidatos.

A concepção atual do Estado de Direito exige que todos sejam tratados segundo um parâmetro comum das leis, aplicado a todas as pessoas e a todos os casos nele enquadrados, seja para obrigá-los juridicamente, seja para protegê-los diante de terceiros. As leis também precisam ser estáveis, sem exceções, porque a sociedade precisa de previsibilidade para seu funcionamento constante.

Muito se falou em democracia nos últimos anos, mas também tem faltado República no país. Para que essa situação mude, precisamos abrir mão de nossos interesses individuais nas pautas públicas, para que nasça uma centelha de esperança em cada um. Até lá, o povo seguirá apanhando de cima para baixo.

Seis ideias para o G20 e a COP30

Faz anos, esta coluna levantou a ideia de que, se eleito em 2022, Lula seria o estadista capaz de oferecer alternativas às crises maiores do mundo: pobreza persistente, desigualdade abismal, aquecimento global, migração em massa, desemprego estrutural. Seu desempenho no primeiro ano do mandato reforçou esta vocação. Agora, na qualidade de Presidente do G20, em 2024, e anfitrião da COP 30, em 2025, terá chance de apresentar propostas concretas para esforço mundial diante destas crises.


1) Conselho da Terra e Órgãos para Governança Mundial –– As Nações Unidas têm o Conselho de Segurança para zelar pela paz entre países, embora sem muito sucesso, também tem a Conferência sobre Mudanças Climáticas, um fórum que se reúne uma vez por ano para definir intenções raramente realizadas. O mundo precisa de um Conselho da Terra que tenha presença permanente no diagnóstico e enfrentamento das crises maiores, com poder de intervir com força moral e governança internacional dando racionalidade planetária e de longo prazo para controlar os impactos ecológicos decorrentes da economia em cada país.

2) Bolsa Família Internacional –– Há quase 30 anos, o Brasil tem exemplo do impacto de transferência de renda na redução da penúria e da migração interna. Lula tem toda legitimidade para propor aos países do G20 a criação de um programa Bolsa Família Internacional que além de reduzir pobreza sirva para evitar a tragédia da migração em massa, não mais por impedir a imigração com mediterrâneos naturais, construídos ou armados, mas oferecendo os meios para as pessoas sobreviverem em seus países sem necessidade de emigrar.

3) Criação da Taxa Tobin –– Há 50 anos o economista James Tobin propôs uma taxação sobre os imensos movimentos financeiros internacionais. Com a taxação sobre investimentos brasileiros offshore, o Presidente Lula está mostrando que é capaz de usar seu poder político para taxar estes movimentos internacionais como forma de financiar as prioridades que ele próprio definiu para seu período como presidente do G20.

4) Centros para Estudo da Pobreza, da Desigualdade e do Desenvolvimento Sustentável –– Os governos gastam bilhões de dólares em pesquisas científicas para atender a ânsia humana de observar e entender o espaço sideral, mas os esforços para entender e combater a pobreza têm sido deixados a ONGs e academias, quase sempre sem recursos. O G20 precisa criar instrumentos para estudar a tragédia da pobreza, a vergonha da desigualdade e o desafio do desenvolvimento sustetável, com uma rede de observatórios e centros unindo universidades, governos e bancos nacionais e internacionais, inclusive o BNDES e o Banco dos BRICS.

5) Internacionalização da Infância e Educação para a Sustentabilidade –– O mundo moderno já globalizou o comércio, a cultura, as estatísticas, o ensino superior, mas trata as crianças como se fossem assunto apenas nacionais, municipais ou até mesmo restrito a suas famílias. O presidente Lula tem sido porta-voz das crianças vítimas de guerras, deve ser o propositor do compromisso do G20 para programas internacionais visando proteger e dar futuro às crianças do mundo, independentemente da nacionalidade. Na COP deve lembrar que as grandes vítimas da crise ecológica serão as crianças ou serão elas que construirão um futuro sustentável. Para tanto, é precisa apoiar os programas já existentes de educação ambiental visando formar a mentalidade necessária para que os acordos internacionais saiam da inoperância.

6) Troca da Dívida Externa dos Países Pobres –– O Presidente Lula defendeu a necessidade de aliviar os países pobres da escravidão da dívida. Na presidência do G20 ele pode articular para fazer viável um plano de alívio desta dívida, comprometendo países beneficiados a usarem os recursos liberados em benefício de seus povos, especialmente na segurança alimentar, na educação e na saúde.

Adeus aos quintais e à memória urbana

Para Thiago de Mello

Em Recife e Manaus — metrópoles do Norte e Nordeste — o quintal das casas está sendo substituído por um piso de cimento ou lajotas. Em Boa Viagem, bairro recifense, uma muralha de edifícios projeta uma extensa área de sombra na praia, de modo que os banhistas têm que se contentar com estreitas línguas de sol. No país tropical, luz e sombra projetam-se em lugares trocados.

Ainda mais grave é o caso de Manaus, onde o apagamento da memória urbana parece irreversível. Na década de 1970, um coronel do Exército, nomeado prefeito, mandou derrubar mangueiras centenárias que sombreavam ruas e calçadas. Como se isso não bastasse, esse prefeito, talvez possuído pelo espírito demolidor do barão Haussmann, destruiu praças da cidade para abrir avenidas.

O mais irônico, tristemente irônico, é que a imensa maioria dos prefeitos e vereadores da era democrática não pensa na relação da natureza com a cidade. Hoje, em certas horas do dia, é quase impossível caminhar em Manaus. Não há árvores, e as calçadas são estreitas e esburacadas. Até mesmo os feios oitizeiros, que Mario de Andrade detestava, têm seus dias contados.

Em 1927, quando o autor de Macunaíma passou por Belém, hospedou-se no Grande Hotel, em cuja varanda chupitou, extasiado, um sorvete de bacuri. Esse imponente edifício neoclássico da capital paraense — uma joia arquitetônica do Brasil — também foi demolido durante o governo militar. Um prédio feio de doer os olhos substituiu o Grande Hotel no coração de Belém, essa bela cidade evocada em poemas de Manuel Bandeira e Max Martins.

Quase toda a arquitetura histórica das nossas cidades foi devastada. O centro de São Luiz, pobre e abandonado, é uma promessa de ruínas. Vários casarões e edifícios de Santos, erguidos durante o fausto da economia cafeeira, foram demolidos. Até a belíssima paisagem em relevo do Rio está sendo barrada por edifícios altíssimos. Na cidade de São Paulo, pouca coisa restou da história urbana. E em vários bairros paulistanos de classe média há inúmeros edifícios e calçadas sem uma única árvore.

O desprezo à natureza e à memória das nossas cidades se acentuou a partir da década de 1960, quando a industrialização e o adensamento urbano adquiriram um ritmo acelerado e caótico. Essa urbanização selvagem destruiu edifícios históricos de quase todas as cidades brasileiras. Penso que isso alterou para sempre nossa relação com a natureza e com a própria história das cidades.


Paradoxalmente, proliferam bairros pobres e favelas com nomes de Jardim, como se essa palavra atenuasse a feiura da paisagem e a vergonhosa arquitetura dos conjuntos de habitação popular.

Poucos monumentos e áreas históricos sobreviveram à voracidade dos construtores de caixotes verticais com fachadas de vidro fumê: uma arquitetura de fisionomia funérea, tão medonha que é melhor olhar para as nuvens, ou fechar os olhos e sonhar com Buenos Aires.

Talvez alguns políticos e donos de empreiteiras sintam ódio ao nosso passado: ódio inconsciente, mesmo assim verdadeiro; ou talvez não sintam nada, e toda essa barbárie seja apenas uma mistura de ganância, ignorância e desfaçatez.
Outro dia uma amiga me contou que havia sonhado com o futuro das nossas metrópoles e florestas.

“Foi um pesadelo”, ela disse. “As cidades e florestas inexistiam ou eram invisíveis. A visão do futuro era um monstro bicéfalo: eclipse solar e deserto.”

Milton Hatoum, "Um solitário à espreita"

segunda-feira, 4 de dezembro de 2023

Pensamento do Dia

 

Kahn Yunis no 59º dia de bombardeio em Gaza

O sobrevivente

A forma mais baixa do sobreviver é o matar. Assim como o homem mata o animal de que se alimenta; assim como este jaz indefeso diante dele, que pode cortá-lo em pedaços e reparti-lo, na qualidade da presa que incorpora para si e para os seus, assim também ele quer matar o ser humano que lhe atravesse o caminho, que o enfrente e que, ereto, se apresente como seu inimigo. Quer matá-lo para sentir que segue existindo, ao passo que ele não mais. O morto, porém, não deve desaparecer por completo: sua presença física como cadáver é imprescindível a esse sentimento de triunfo. Agora pode-se fazer com ele o que se quiser, sem que ele seja capaz de fazer mal algum. O morto jaz e jazerá para sempre; jamais tornará a levantar-se. Pode-se tomar-lhe a arma; podem-se cortar fora pedaços de seu coro e conservá-los para sempre como troféus. Esse momento da confrontação com aquele a quem matou impregna o sobrevivente de uma espécie de força bastante singular, não comparável a nenhum outro tipo de força. Não há momento que mais clame por seu próprio retorno.


E isso porque o sobrevivente sabe de muitas mortes. Se esteve presente a uma batalha, assistiu aos outros tombando à sua volta. Partiu para a batalha com o propósito muito consciente de afirmar-se perante os inimigos. Seu objetivo declarado era abater o maior número possível deles, e somente logrará vencer se consegui-lo. Para ele, vitória e sobrevivência são uma só coisa. Contudo, também os vitoriosos têm seu preço a pagar. Em meio aos mortos, jazem muitos dos seus. O campo de batalha compõe-se de uma mescla de amigos e inimigos; o amontoado de mortos é um só. Nas batalhas, por vezes ocorre de não se poder separar os mortos de ambos os lados: uma vala comum reunirá, então, os restos de todos.

A esse amontoado de mortos que o cerca, o sobrevivente contrapõe-se como o felizardo e o preferido. Que ele disponha ainda de sua vida, quando tantos outros que o acompanhavam momentos antes já não a têm mais, constitui um fato monstruoso. Os mortos jazem desamparados; dente eles, ereto, ergue-se o sobrevivente; é como se a batalha houvesse sido travada para que ele sobrevivesse. A morte foi desviada para os outros. Não que ele houvesse evitado o perigo; em meio a seus amigos, ele enfrentou a morte. Aqueles tombaram; ele permanece de pé, e se gaba.

Todos os que já estiveram numa guerra conhecem esse sentimento de grandeza diante dos mortos. O luto pelos camaradas pode ocultá-lo; mas destes há poucos, ao passo que os mortos são sempre muitos. A sensação de força por, contrariamente a estes últimos, se estar vivo e de pé é, no fundo, mais vigorosa do que qualquer pesar; trata-se do sentimento de se ter sido eleito dentre muitos cujo destino é manifestamente idêntico. De algum modo, e simplesmente pelo fato de ainda estar vivo, o sobrevivente sente-se o melhor. Ele provou o seu valor, pois vive ainda. E provou-o dentre muitos, pois todos quantos jazem no chão não vivem mais. Aquele que obtém êxito frequente nesse sobreviver é um herói. Ele é mais forte. Possui mais vida em si. Os poderes superiores lhe têm afeto.
 Elias Canetti, "Massa e Poder"

Enquanto houver carne...


Não podemos ver mais crianças com as feridas da guerra, com as queimaduras, com os estilhaços espalhados pelo corpo, com os ossos partidos. A inação dos que têm influência está a permitir a morte de crianças. Esta é uma guerra contra as crianças
James Elder, porta-voz da UNICEF no hospital Nasser, em Gaza

Fundo para pobres? Nem pensar

Discute-se a destinação de recursos para um fundo e o senador Meira de Vasconcelos intervém:

“Agora não é possível fazer mais, no estado em que se acha o orçamento.”

Volta-se a discutir a criação de um fundo, desta vez para incentivar a permanência de estudantes pobres no ensino médio, pois é lá que mora a maior taxa de evasão escolar. Os jovens teriam acesso a um pé de meia ao fim de cada ano, depois de terem sido aprovados.

A Medida Provisória que cria esse programa saiu na semana passada e já está debaixo de chumbo. Ectoplasmas da ekipekonômica reclamam da metodologia aplicada à despesa, e papeleiros chegam a falar em “contabilidade criativa”.

Tudo bem, mas a fala do senador Meira de Vasconcelos nada tem a ver com a MP patrocinada pelo MEC. Ela aconteceu em 1883, quando o visconde de Paranaguá tratava da necessidade de um reforço para o Fundo Emancipador dos Escravos. (Burlado, esse fundo pouco funcionou. Cinco anos depois a abolição libertou os escravizados, sem qualquer indenização.)


Meira de Vasconcelos havia governado Minas Gerais e batalhado pelo progresso da agricultura. Não integrava a tropa de choque escravagista. Sabia fazer contas e por isso protegia o orçamento. Só não percebia que estava na maior nação escravista do mundo, com os dias contados.

No tiroteio contra a MP ninguém tratou do alcance social da medida. Em 2010 ninguém falou contra a anabolização do Fundo de Financiamento Estudantil, o Fies. Ele se destinava a custear as anuidades de estudantes das universidades privadas, sem fiador real e a juros baixos.

Em tese, foram dois fundos. Na vida real, o programa do MEC põe dinheiro no bolso de quem precisa e foi aprovado ao fim do ano letivo. Já o Fies punha dinheiro no bolso das faculdades privadas, que transferiram para a Viúva suas carteiras de inadimplentes.

O Fies fez a alegria dos papeleiros e deixou um calote de R$ 54 bilhões. O programa do MEC instituído pela MP do governo deve custar até R$ 20 bilhões e já se articula o seu encolhimento, como encolheu-se o Fundo de Emancipação dos Escravos. Afinal, Meira tinha alguma razão, pelo estado em que se encontrava o orçamento.

Numa crueldade dos deuses, o ministro da Educação ao tempo em que foi bombado o Fies era o atual ministro da Fazenda, Fernando Haddad.

O debate em torno da criação do fundo de bolsas para alunos pobres do ensino médio começou da pior maneira possível.

A janela aberta pelo ministro da Educação, Camilo Santana, permite que a iniciativa privada entre na dança. Ela pode participar desse programa de bolsas patrocinando cinco, cinquenta ou quinhentos jovens nos municípios ou nos estados, com direito à divulgação publicitária de cada iniciativa.