quinta-feira, 17 de agosto de 2023

A ironia de Bolsonaro que está se afogando no escândalo das joias

Na história grotesca de Jair Bolsonaro, que colocou o Brasil à beira de um golpe militar e tentou promover uma guerra civil na ânsia de armar o país para lutar contra o espectro de um comunismo que não existe, um imponderável inesperado se fez presente. Esta é uma nova faceta que pode acabar com ele na prisão, algo que mais de uma dúzia de processos judiciais em andamento muito maiores não conseguiram fazer.

Desta vez é sobre o chamado escândalo do tráfico de joias de ouro e diamantes que ele e sua esposa Michelle receberam de presente dos Emirados Árabes Unidos, avaliadas em mais de três milhões de dólares, que deveriam ter ido para o patrimônio nacional e acabaram no bolso do então presidente da República.

A história dessas joias daria um filme cômico sobre pequenos traficantes, como tê-las trazido escondidas no fundo de uma mochila militar e que parte desses objetos preciosos, como um colar todo de diamantes para a mulher de Bolsonaro, continua detido na alfândega do São Paulo sem que se consiga recuperá-lo.

A notícia da venda de valiosos relógios Rolex e Pateck Philippe feitos de ouro e pedras preciosas vendidos silenciosamente nos Estados Unidos e que foram parar no bolso da família Bolsonaro é ainda mais grave porque altos funcionários dos três corpos do Exército, aparentemente, são cúmplices do ex-presidente.

Estamos diante de um histórico de tráfico de joias preciosas que deveriam ser propriedade do Estado e que têm sido vendidas secretamente, o que já está trazendo o maior descrédito a Bolsonaro e sua família, principalmente em seu eleitorado mais pobre e fiel, como o das igrejas pentecostais. Acontecimentos muito mais graves, como a tentativa de golpe ou o seu escárnio da epidemia de covid que provocou perto de um milhão de mortos, afetam-no menos do que o de ladrão de joias.


Para seu eleitorado mais fiel, nada poderia ser mais devastador do que ver seu ídolo, considerado um messias e enviado por Deus, com a Bíblia sempre em mãos para combater comunistas corruptos como Lula, acusado de ser um “ladrão”. Isso é demonstrado pelo fato de que imediatamente sua presença nas redes sociais, que foram o fulcro de sua eleição, desmoronou e até mesmo os políticos que até ontem lhe eram fiéis começam a dar sinais de distanciamento e se aproximam de Lula e do seu governo .

A isso se soma que o Exército, que havia sido o maior baluarte do governo Bolsonaro, já que foi ele quem o trouxe de volta ao poder sem a necessidade de golpes, acabou encurralado e desacreditado até mesmo popularmente, sendo visto como cúmplice na venda das já lendárias joias.

O curioso de toda essa história é que de repente um punhado de ouro e diamantes passou a ser o pior veneno não só para Bolsonaro como para o Exército, tanto que ele começa a se ver nu perante a opinião pública como cúmplice de mais uma pequena empresa do que altos comandantes militares.

Nada poderia ser mais negativo para os milhões de pobres e evangélicos que votaram em Bolsonaro para se livrar do “corrupto Lula”; Bolsonaro, aquele que hoje é seu ídolo, escolhido por Deus que o salvou da morte após o atentado sofrido em plena campanha eleitoral, aparece à vista da opinião mundial como um simples ladrão de bicicletas.

E não apenas para os pobres. Também para o mundo dos negócios e os mais ricos que votaram em Bolsonaro para colocar com ele uma extrema-direita liberal no poder, o seu apoio está a revelar-se um espinho no sapato do qual não sabem como se livrar. Daí a queda vertical nos dias de hoje nas redes sociais de tudo relacionado ao bolsonarismo e o inesperado apoio ao novo governo progressista de Lula até mesmo de partidos de direita que lutam para participar do governo com seus próprios ministros.

Alguns dizem, meio brincando e meio sério, que um dia o Brasil terá que agradecer aos países árabes pelos presentes de ouro e diamantes dados ao então presidente Bolsonaro, já que eles estão fazendo o milagre de conter o movimento bolsonarista que ameaçava se militarizar no país.

Para entender a força e a importância dessa nova denúncia contra Bolsonaro, é preciso lembrar que ele, da nulidade que era como político, chegou à Presidência graças à guerra desencadeada contra os então supostos escândalos de corrupção política que recaíram sobre Lula, que estava na prisão, e sobre a maioria das forças políticas. O capitão sem histórico no Exército que o expulsou e no Congresso, no qual passou por nove partidos diferentes e nenhum de peso, chegou ao ápice do poder devido à rejeição geral à época da esquerda como protagonista da corrupção no escândalo da Lava Jato.

A história tem suas ironias e se Bolsonaro fosse parar na cadeia nas próximas semanas por ladrão de joias e não por suas tentativas de golpe, o Brasil poderia transformar toda essa história curiosa e ao mesmo tempo dramática em um bom roteiro para os próximos carnavais. O famoso antropólogo Roberto DaMatta situa, com efeito, a alma dos carnavais nos aspectos mais interessantes, originais e criativos da alma brasileira.

República da Muamba e dos Camelôs está cada vez mais com medo

O que foi pior para os envolvidos no roubo das joias do Estado brasileiro vendidas no exterior para enriquecer ainda mais o ex-presidente Jair Bolsonaro, e recompradas para tentar salvá-lo da acusação por mais um crime?

O pior foi a confissão do muambeiro assumido Frederick Wasseff, ou Wasséfalo, como passou a ser chamado o estridente advogado de Bolsonaro e dos seus filhos? Ou pior foi a incisiva entrevista concedida pelo novo advogado do tenente-coronel Mauro Cid?

Wasséfalo tentou explicar sua participação no episódio amplamente documentado pela Polícia Federal – e deu-se mal. E deixou em maus lençóis os que imaginavam até outro dia que dormiam em berço esplêndido, a salvo de processos e de prisão.


Em nota distribuída no domingo, primeiro Wasséfalo disse:

“Nunca vendi joia, ofereci ou tive posse. Nunca participei de nenhuma tratativa, e nem auxiliei nenhuma venda, nem de forma direta ou indireta. Jamais participei e ajudei de qualquer forma qualquer pessoa a realizar nenhuma negociação ou venda”.

Segundo, no mesmo dia, ele acrescentou:

“Nunca vi esse relógio. Nunca vi joia nenhuma”.


Na terça-feira, confessou ter comprado por 49 mil dólares o Rolex de Bolsonaro que fora vendido em Nova Iorque:

“Usei do meu dinheiro para pagar o relógio. O meu objetivo, quando comprei o relógio, era cumprir a decisão do Tribunal de Contas da União”.

Não foi porque o tribunal ordenou a devolução das joias que Wasséfalo, com dinheiro do próprio bolso (é o que ele diz), recomprou o relógio. Foi para inocentar Bolsonaro no caso de roubo. Wassélo, portanto, mentiu novamente.

Há anos, teve a cara de pau de afirmar que Bolsonaro não sabia que ele escondia em sua casa Fabrício Queiroz, gerente da rachadinha. A Bolsonaro, não faltou cara de pau para dizer que desconhecia o paradeiro de Queiroz, procurado pela polícia.

O segundo abalo sofrido pela República da Muamba e dos Camelôs deveu-se a Cezar Bitencourt, recém-contratado para defender Mauro Cid, ex-ajudante de ordens de Bolsonaro. Bittencourt disse que seu cliente era apenas um assessor e cumpria ordens:

“Não sei se Jair Bolsonaro tinha, por exemplo, um vice-presidente, um secretário, um ministro que dava essas ordens. Temos que verificar de quem vinham essas ordens que eram dadas a Mauro Cid”.

Sobre uma eventual delação do militar, o advogado respondeu:

“Não está no nosso horizonte”.

Mas se ela se tornar necessária para tirar Mauro Cid da prisão? O advogado respondeu:

“[Nesse caso] vamos conversar”.

Uma delação de Mauro Cid detonaria de vez a República da Muamba e dos Camelôs e mandaria para a cadeia os golpistas do 8 de janeiro.

Caso das joias: ‘Militares estão sujeitos a punições severas’

A graça irresistível revelava antes o ceticismo de quem não se deixa conduzir por grupos ou arautos da salvação. Despir o rei e exibi-lo é uma das mais velhas funções da crônica política. Gregório de Matos escolheu a poesia, Millôr Fernandes, a frase lapidar. Nesta quarta-feira, o escritor que golpeou como poucos o mundo político brasileiro completaria cem anos.

É impossível não lembrar dele diante do escândalo da venda de joias da Presidência. É já sabido o impacto do caso na caserna. E continuará tendo a partir dos desdobramentos do que foi apreendido com o general Mauro Cesar Lourena Cid.


Diante da barafunda do bolsonarismo, o brigadeiro Sérgio Xavier Ferolla, ex-presidente do Superior Tribunal Militar, lembra ter alertado no passado para “a violação dos pilares ‘hierarquia e disciplina’, base de sustentação da instituição militar e dogma sagrado do enaltecido mito de Caxias”. E prossegue: “O presidente (Bolsonaro), um capitão que não teve condição de prosseguir na carreira militar, exatamente por ter, rotineiramente, violado esses dogmas, se valeu das motivações originadas pela execrável política partidária brasileira para mobilizar radicais e chegar à Presidência”.

Segundo ele, “enaltecendo interesses patrióticos, mobilizou seguidores que execravam verdadeiro mar de lama dentre os quais, infelizmente, militares da ativa e da reserva que, se esquecendo dos compromissos assumidos em juramento solene ao ingressarem na carreira das armas, se associaram e apoiaram inimagináveis ações de afronta e desrespeito às instituições e solapando, inclusive e principalmente, a nobreza presidencial”.

Ferolla é duro: “Com as fardas contaminadas pela hipocrisia e dejetos da baixa política, tentaram envolver as Forças Armadas que imaginavam liderar”. Mas, segundo ele, predominou “a inabalável estrutura das instituições democráticas e, no momento, a caserna luta para recuperar o tradicional e histórico respeito do povo brasileiro, origem dos abnegados servidores e combatentes profissionais”.

Agora é a vez de o Judiciário se manifestar. O brigadeiro conclui: “Quanto aos militares envolvidos nos delitos, se condenados e sem qualquer alusão às origens profissionais, caberá à Justiça Militar julgar e aplicar o estabelecido no Código Penal Militar, estando sujeitos, inclusive, a severas penas que incluem a perda de posto e patente”.

Após o relato de Ferolla, impossível não lembrar a reação de Millôr diante da conta bilionária pendurada no erário para pagar indenizações às vítimas da ditadura. Tal como então, pode-se aplicar agora a mesma pilhéria à turma que pregava o golpe. “Quer dizer que aquilo não era ideologia, era investimento?”

terça-feira, 15 de agosto de 2023

Pensamento do Dia

 


Esse diabo de patriotismo!


O homem de hoje vacila entre a pátria e a humanidade e é raro que ele possa ser humano e patriota ao mesmo tempo. Cada bem traz sua antinomia do mal e decerto o patriotismo é um dos aspectos demoníacos da civilização
João Ribeiro

Somos uma pátria ?

No final deste texto, o leitor poderá responder à pergunta-título acima. Abro a reflexão com o escritor argentino, José Ingenieros, discorrendo sobre a visão de Pátria, em O Homem Medíocre:

– Os países são expressões geográficas, e os Estados formas de equilíbrio político. Uma Pátria é muito mais do que isso, e é outra coisa: sincronismo de espíritos e de corações, têmpera uniforme para o esforço, e homogênea disposição para o sacrifício, simultaneamente na aspiração à grandeza, no pudor da humilhação e no desejo da glória… é preciso que haja sonhos comuns, anelos coletivos de grandes coisas…Pátria está implícita da solidariedade sentimental de um povo, não na confabulação dos politiqueiros que medram à sua sombra.

Somos um país tomado por dúvidas. Duas bandas separam o território, uma acusando a outra, uma caminhando no canto esquerdo do arco ideológico, tentando vestir o manto do progresso, outra ostentando os valores do conservadorismo, com ênfase na defesa da família. Ambas destilando ódio e desfechando ataques recíprocos sobre as posições polarizadas.

O tom ácido da expressão de alguns protagonistas da política, que bebem água na fonte da “confabulação dos politiqueiros”, acirra a animosidade das bandas, fazendo emergir a ideia maluca de separatismo em um país que tem elevado ao alto a bandeira da unidade nacional, sob a manutenção de uma mesma língua e preservação dos eixos de uma democracia, mesmo incipiente.



Desenvolve-se no espaço da instituição política um intrincado jogo de poder, que procura repartir cartas com um complexo partidário de cerca de 25 siglas, entidades que nunca chegam ao consenso sobre questões centrais. E esse fenômeno ocorre com a participação de um considerável número de congressistas, 513 na Câmara e 81 no Senado, inseridos numa equação que carrega uma dissonância sobre sua efetiva representatividade. Um Estado pequeno, como Roraima, com 8 parlamentares e um eleitorado de menos de 500 mil eleitores, tem os mesmos direitos que um Estado como SP, com seu eleitorado de 36 milhões de eleitores e uma conta de 70 deputados, com defasagem de mais de cerca de 30 parlamentares, debitada ao princípio federativo.

O Poder Judiciário até parece um juizado de pequenas causas, quando adentra o terreno da criminalidade e passa a exercer funções de investigação. O Ministério Público, que deveria ser a muralha de defesa da sociedade, politiza sua ação, escancarando a parcialidade de posições adotadas. Briga-se ali pelo poder de mando.

O Poder Executivo quer se transformar no poder do “faz tudo”. Que pode se intrometer na seara de outros poderes, senão diretamente, mas indiretamente, usando o “mando imperial” para nomear juízes para as cortes superiores e até para a Suprema Corte, sob o desígnio do comandante da tropa governista. Um descalabro.

O ambientalismo ganha lugar de destaque no discurso. Uma Cúpula que abriga os países amazônicos mostrou a divisão de opiniões. O Brasil de Lula quis aparecer com as vestes de preservação do bioma, mas deixou aberta a porta para exploração de petróleo na região, contrariando outros países. Fugiu, ainda, de uma meta que já esteve na ponta de seu discurso: o desmatamento zero até 2029.

Apesar do combate ao garimpo em terras indígenas, a ilegalidade e a ação de garimpeiros continuam a devastar a reserva dos yanomamis.

Para todos os lados que olhemos, vê-se uma disfunção, um ato ilícito, mortes de soldados e bandidos, discussão se foram assassinados por fulano ou sicrano, rapinagem e tomadas de praças públicas por drogados, como é o caso da Cracolândia, em São Paulo, capital.

A indagação é pertinente: estamos no meio do caos, no princípio da crise, no fim do túnel ou na rota dos horizontes de progresso? Ninguém sabe. Uns e outros divergem sobre essa interrogação. Cada qual quer expressar e garantir suas verdades. Porque o Brasil é um país de versões. Um país lúdico que ri da tragédia e se comove com a comédia. Comédia e tragédia, aqui, se fundem num amálgama que traduz falta de essencialidade e racionalidade.

O fato é que a improvisação, o gosto pela aventura e a alma criativa provocam um sentimento de estágio em uma cultura pré-civilizatória. E esse viés faz com que desprezemos o conceito de Pátria. Para boa parcela, o que importa é o bem material, dinheiro, levar vantagem em tudo.

Pátria, reafirme-se, é um conjunto de valores, reunindo amor ao espaço físico e espiritual, solidariedade, orgulho pelo país, civismo e atavismo. Onde estão as bandeiras brasileiras nas portas das casas? Quem conta histórias sobre os nossos antepassados?

Multidões ruminam desconfianças, afastam-se das instituições e de seus representantes, afogam-se em mágoas, perdem-se em ilusões.

O país está expandindo a velhice. Os aposentados crescem assustadoramente, carregando a angústia de a qualquer hora, deixarem de receber os proventos. Brasileiros de todos os rincões temem os impactos da reforma tributária, apesar da promessa de muitos parlamentares em garantir justiça na arrecadação dos tributos. Surpresas e medos se expandem.

Volto à pergunta: somos uma Pátria?

Nada fica escondido para sempre

O golpe de Estado era uma etapa do golpe das joias. Não por acaso a investigação sobre os atos antidemocráticos levou à descoberta da organização criminosa ligada a Bolsonaro. Esqueça Deus, pátria, família: o negócio era grana. A quadrilha fez de tudo —até transformar o avião da Presidência em mula de muamba— para manter-se no poder e continuar faturando.

É espantoso pensar na facilidade com que o ex-presidente corrompeu as instituições, a começar pela Polícia Federal, que hoje o desmascara com a Operação Lucas 12:2. Na reunião ministerial de 2020, aquela da boiada, ele admitiu ter um sistema particular de informações e, para não ser surpreendido, iria intervir nas agências de segurança. Na PF, trocou o diretor-geral, em média, a cada 12 meses e afastou dezenas de delegados; a PRF foi entregue a um assecla, Silvinei Vasques, que dificultou o trânsito de eleitores.


O procurador-geral da República, Augusto Aras, escolheu ser amigo de Bolsonaro, não da Constituição. Ao lado de seu braço direito, a vice-procuradora Lindôra Araújo, Aras manteve agendas privadas, à noite, no Alvorada, com o ex-presidente, sempre antes de manifestações favoráveis a ele. Os encontros não foram divulgados pelo governo nem pelo MPF.

Em matéria de favores monetários, nada se compara à atuação das Forças Armadas. Além dos militares do alto escalão golpista, todos recebendo supersalários, outros 18 integrantes da caserna que tinham cargos na gestão Bolsonaro estão na mira de diferentes inquéritos. No caso das joias —cujas transações podem ter superado R$ 1 milhão— estão citados um almirante (Bento Albuquerque) e um general (Lourena Cid).

A PF pediu a quebra dos sigilos bancário e fiscal de Bolsonaro e da ex-primeira-dama Michelle. Difícil será mapear a movimentação em dinheiro vivo, que, como se sabe, é a preferida do capitão. Mas nada permanece escondido para sempre.

‘Bolsonaro era um mau militar’; e não era o único

O ano era 1993 e Jair Bolsonaro ainda estava no primeiro de seus sete mandatos como deputado federal. O capitão da reserva havia chegado a Brasília três anos antes, apoiado por 67.041 eleitores. Foi a sexta maior votação no Rio de Janeiro.

Afastado da política desde 1979, quando passou a faixa para João Figueiredo, o general Ernesto Geisel, quarto presidente depois do golpe militar de 1964, concedeu naquele ano uma série de entrevistas para os pesquisadores Maria Celina D’Araújo e Celso Castro, do CPDOC da Fundação Getúlio Vargas.

A certa altura da conversa, refletindo sobre as relações entre os militares e a política, Geisel chamou a atenção para a baixa influência que os fardados exerciam naquele momento, oito anos após a redemocratização.


“Presentemente, o que há de militares no Congresso?”, questionou Geisel. “Não contemos o Bolsonaro, porque é um caso completamente fora do normal, inclusive um mau militar”.

A reputação do ex capitão paraquedista na cúpula das Forças Armadas e entre os generais reformados do Círculo Militar era a pior possível. Em 1986, Bolsonaro havia desrespeitado a hierarquia dos quartéis ao reclamar da situação financeira de praças e oficiais num artigo publicado na revista “Veja”. Um ano depois, a imprensa revelou que Bolsonaro estaria por trás de plano de atentado a bomba para pressionar por aumentos.

Os dois eventos levaram à abertura de processo contra o capitão, mas a leniência corporativista acabou falando mais alto, e Bolsonaro foi absolvido pelo Superior Tribunal Militar em 1988. Além de escapar da punição, Bolsonaro alcançou uma popularidade tão grande entre seus colegas de farda que resolveu pedir transferência para a reserva e lançar-se na política, primeiro como vereador do Rio e depois, como deputado federal.

Ao longo de 28 anos no Congresso Nacional, Bolsonaro comportou-se como um sindicalista das corporações militares e de segurança. A maior parte dos projetos propostos tratava de reajustes dos soldos, melhorias no sistema de pensões, anistia de penalidades e outras regalias para militares. Nenhuma das suas propostas, porém, chegou a ser aprovada.

A carreira legislativa de Bolsonaro foi totalmente irrelevante, nunca tendo ocupado cargos de liderança ou relatorias de projetos importantes. Pulando de partido em partido, Bolsonaro se reelegia a cada quatro anos graças a um eleitorado cativo, mas nunca deixando de ocupar o baixo clero da política nacional.

Seu tino pela polêmica e a adoção de posições extremistas, porém, foram sendo aperfeiçoados ao longo do tempo e começaram a ecoar fora dos círculos militares. Em 2014, num prenúncio do tsunami que se abateria sobre a política brasileira, Bolsonaro obteve seu sétimo mandato na Câmara com expressivos 464.572 votos, a terceira maior votação do país, atrás apenas do apresentador de TV Celso Russomano e do humorista Tiririca.

De lá até as eleições de 2018 as cenas se sucedem em modo acelerado. De um lado, as várias fases da Lava-Jato, Eduardo Cunha, impeachment de Dilma, Temer e Joesley se encontrando no Palácio do Jaburu, prisão de Lula. De outro, exposição maciça nas redes sociais, Bolsonaro carregado nos aeroportos de todo o país, discurso com citação a Brilhante Ustra na votação contra Dilma, “mito! mito! mito!” e o apoio de 57,8 milhões de brasileiros o levaram ao posto mais alto da República brasileira.

A cúpula das Forças Armadas entrou de cabeça no novo governo. Três generais (Heleno, Santos Cruz e Azevedo e Silva) e um almirante (Bento Albuquerque) assumiram altas posições no Ministério, sem falar no vice Hamilton Mourão. Muitos outros vieram depois, assim como centenas de oficiais e milhares de praças, da ativa e da reserva, ocupando órgãos públicos e estatais.

O alto comando do Exército, da Marinha e da Aeronáutica conhecia Bolsonaro, suas limitações intelectuais e personalidade difícil. Também tinha total ciência de seu passado de “mau militar”, como diria Geisel, e de parlamentar medíocre.

A cúpula das Forças Armadas brasileiras tinha plena consciência do risco de aderir ao governo de Bolsonaro. Se a gestão fracassasse, a reputação das três Forças seria gravemente contaminada. No entanto, se deixou inebriar pela perspectiva de voltar a comandar o país e pelas inúmeras benesses financeiras que a vitória do capitão reformado poderia oferecer à classe.

Das cinco linhas de investigação abertas atualmente pela Polícia Federal contra Bolsonaro, todas têm militares como protagonistas: ataques virtuais a opositores, campanha contra as urnas eletrônicas, tentativa de golpe de Estado, gestão da pandemia e fraudes com vacinas e o caso das joias.

De Eduardo Pazuello, que no auge da pandemia enviou vacinas do Amazonas para o Amapá porque confundiu as siglas dos Estados, a Mauro Cid pai, que negociou joias roubadas da Presidência da República enviando foto com seu rosto no reflexo, ambos generais, o governo Bolsonaro expôs a mediocridade das nossas Forças Armadas.

Os militares criminosos precisam ir para a prisão. E os demais, voltar urgentemente para os quartéis.

segunda-feira, 14 de agosto de 2023

Brasil infanticida

 


Nossos alunos precisam de livros?

Nosso sistema educacional não tem oferecido muitos motivos de orgulho para os brasileiros. Nossos resultados em rankings internacionais e a perda de qualidade, a pretexto da universalização, são fatos conhecidos. É necessário, ainda, registrar certo marasmo da máquina pública educacional, algo facilmente percebido por todos os que já tentaram colaborar no aperfeiçoamento do sistema educacional e tiveram de enfrentar marasmo, má vontade e burocracia sem fim. Ideias novas, olhares diferentes e quebra de rotina parecem ameaças para muitos ocupantes de cargos de relevo nessa máquina emperrada. Dogmas e acomodação se unem para manter o mesmo, por pior que pareça.

Diante dessa realidade, poderia parecer que a reação à decisão do governo de São Paulo de abrir mão da verba do Ministério da Educação (MEC) para a compra de livros e a decretação do fim do livro didático impresso em papel não passam de reação do marasmo contra o dinamismo, da mesmice contra o novo. Só que não. Desta vez, temos algumas coisas muito sérias e até assustadoras aparecendo no horizonte, e é necessário falar sobre elas com clareza.


No fim das contas, ficamos com a impressão de que, no frenesi de apresentar novidades – e haveria muitas para serem apresentadas com o objetivo de melhorar a educação em nosso Estado –, o governo estadual está errando o alvo pelo simples motivo de desconhecer o assunto. Na melhor das hipóteses.

O governo fez um movimento só, mas está atacando em duas frentes: liquida com o livro impresso em papel e acaba com a possibilidade da escolha do livro pelo professor. Vou tratar das duas.

Por mais que tenha jeito de coisa moderninha, já há um consenso científico contrário à ideia de que o digital substitui o impresso em todas as situações, em todos os tipos de texto. Nada contra o digital, desde que bem utilizado. Eu mesmo tenho um aparelho leve que carrega bom número de livros e não deixo de leválo comigo quando viajo e não posso transportar todos os livros físicos que lerei durante o período em que estiver fora. Também leio mensagens no celular, embora me recuse a estabelecer relação de dependência com ele. Mas sou um adulto, e estamos falando de crianças e adolescentes em fase de formação. E aí, prezado governador, temos de ouvir quem sabe, não quem simplesmente quer inovar.

Uma das mais importantes e respeitadas especialistas, a americana Maryanne Wolf, em seu livro O cérebro no mundo digital, deixa isso bem claro, particularmente quando demonstra que a leitura em papel permite maiores concentração e aproveitamento, menos interferência de fatores externos e, com isso, provoca um desenvolvimento cerebral mais intenso, duradouro e consequente. Se o objetivo dos educadores e administradores do setor de educação for – como deveria ser – a formação de gente qualificada, capaz de pensar por si própria, a partir de um repertório sólido de informações, o texto escrito e impresso em papel é fundamental. Nada contra o uso de material digital mais tarde, nada contra a utilização de material digital complementar, mas não como material exclusivo, particularmente no período de formação. De resto, é uma falsa novidade. Até quem fez isso há algum tempo já voltou atrás.

No entanto, a meu ver, este não é sequer o problema mais grave. O projeto apresentado pelo governo estadual vai na contramão do seu apregoado liberalismo, de sua suposta visão democrática. Vai, inclusive, na contramão de algo que o governador Tarcísio de Freitas gosta de alardear, principalmente quando quer mostrar seu distanciamento com relação aos demais políticos: a prioridade que dá à competência.

O projeto prevê a aplicação de um conceito perigoso, o da existência da verdade única, uma vez que sugere existir um grupo de sábios, donos da Verdade (essa mesma, com V maiúsculo), que produziriam um assustador livro único, que substituiria todos os livros escritos e publicados por todas as editoras especializadas existentes no Brasil (a propósito, não estou ligado a nenhuma editora de livros didáticos). Assustador, sim. Se o governo federal falar em livro único, os liberais protestarão. Livro único existiu na União Soviética stalinista. Livro único, queridos liberais, era o que circulava na Alemanha nazista. Livro único cheira a pregação ideológica.

No sistema atual, o Ministério da Educação banca os livros escolhidos por cada professor, em cada escola de cada um dos Estados do País (e esperamos que não mude de rumo). É muito razoável que o professor seja a pessoa mais indicada para escolher o livro mais adequado para seus alunos. Ele sabe os alunos que tem na classe, o potencial de cada um deles, o universo em que vivem, suas referências culturais. Ou devo entender que o senhor secretário de Educação, que teve sucesso como empresário, sabe melhor do que o professor qual o livro que este deve utilizar com seus alunos?

Jeito batráquio de ser

Desde os meus 20 anos me assaltou o pessimismo incurável com que vou atravessando esta existência no pior dos piores países possíveis e imagináveis… A atmosfera moral é magnífica para os batráquios… e é nefasta a política que nos desgoverna
Euclides da Cunha

Desarmando um vexame

"La putenza caca n'muca alla giustizia". A tradução literal deste provérbio sardo talvez seja por demais chula, mas o dialeto torna ao menos pitoresco o significado: o poder faz algo execrável na boca da Justiça. É o que se depreende do vexaminoso inquérito do Exército sobre os atos golpistas de janeiro. Internamente, angélica paz. Fora, no acampamento protegido, havia furtos, denúncia de estupro e porte ilegal de armas, mas militarmente "não foram identificados aspectos que pudessem comprometer a segurança orgânica dos aquartelamentos". Logo, nenhuma responsabilidade pelo exterior dos quartéis.


Sempre foram tênues os limites entre sentimento e realidade. A imprecisão é mais acentuada no plano individual, mas se manifesta em nível coletivo, sobretudo em instituições com forte autopreservação corporativa. Um estado real de coisas, ou seja, um fato, pode estar à frente, mas o sentimento ilhado recusa-se a aceitá-lo. Assim, um grupo em cima do muro protege-se de sua própria indecisão com o desconhecimento como álibi para irresponsabilidade moral. Isso ocorre às vezes como mecanismo de defesa, já que o perigo de incorrer em algum malefício parece ser menor quando dele se está inconsciente.

Mas quando esse grupo é instituição de Estado, democraticamente sustentada pelo povo, inconsciência não se caracteriza como desculpa, e sim como delito. O acampamento dos descontentes com democracia tem precedente histórico na "Strafexpedition" (expedição punitiva), popular no começo do nazismo: maltas flutuantes que não sabiam se a solução para seus problemas pessoais estaria na política ou no crime. Entre nós, eram incubadoras de caos golpista, evidente a quaisquer observadores.

Um Exército a que se possa apor o adjetivo "nacional" não é mero corpo técnico de segurança. É instituição no rigor sociológico do termo, ou seja, transmissão de saberes, além de práticas de preservação territorial e demográfica do país. Armamento, claro, mas principalmente uma formação compatível com a totalidade nacional e não com o imaginário de casa-grande das classes dirigentes. E nada de soberana força moderadora: soberano é o povo transcrito na Constituição.

Num país onde guerra é peça retórica há quase dois séculos, jamais caberia às Forças Armadas fomentarem algo como "valentia inquebrantável dos cidadãos" (programa de Goebbels na Alemanha nazista), mas a coragem ética de ver o real dentro e fora de si mesmas. Logo, outro tipo de formação humana, centrada em pesquisa tecnológica e avessa a rescaldos ditatoriais ou ensaios práticos de cegueira como o relatório da intentona de janeiro, que faz com a Justiça o execrável do provérbio sardo. Vexame verde-amarelo. Valeria escutar a ética: "O que não se pode falar, deve-se calar" (Ludwig Wittgenstein).

O Grande Mudo (leia-se: o Exército) cala-se para esconder a verdade

Convenientemente, o Exército, chamado de O Grande Mudo, perdeu a voz. Digo que perdeu porque todas as vezes que lhe pareceu conveniente, falou, falou alto, causando graves danos à democracia. Sim, pois apesar de se dizer mudo, o Exército fala.

Revisite a história do país e conte o número de vezes que o mudo falou. Cito de memória: falou para pôr fim ao Império e dar início à República. O marechal amigo do Rei o traiu. A Proclamação da República foi um golpe que a população assistiu bestificada.

Falou para levar Getúlio Vargas ao poder em 1930. Vargas governou como ditador até 1945. Acabou deposto pelos militares. Acabou voltando em 1950 nos braços do povo. Matou-se quatro anos depois sob pressão de O Grande Mudo para que renunciasse.

Juscelino Kubitschek, eleito presidente em 1956, enfrentou duas rebeliões militares. Dele, Carlos Lacerda, líder da direita armada e desarmada, disse que não poderia ser candidato; se fosse, que não poderia se eleger; se eleito, não deveria governar.

Foi um Jânio Quadros de porre que renunciou à Presidência com apenas seis meses de mandato. Diante da oposição militar à posse do vice, foi preciso trocar o presidencialismo pelo parlamentarismo. João Goulart foi derrubado três anos depois.


Este país viveu 21 anos sob uma ditadura militar. A democracia foi suprimida a pretexto de defendê-la do comunismo. Torturou-se e matou-se adversários do regime. O Grande Mudo negou que houvesse tortura e matança. Farta documentação prova que houve.

Com o fim da ditadura, o Exército passou a falar em voz baixa. Mas nunca parou de falar. Falou sobre o tamanho do mandato do presidente José Sarney: queria cinco anos e a Constituinte só queria dar quatro; deu cinco, para afastar a ameaça de golpe.

Falou contra a instalação da Comissão da Verdade para apurar os crimes da ditadura. Falou contra a concessão de habeas corpus a Lula que estava preso e poderia ser solto – e por 4 votos contra 3, o Supremo Tribunal Federal negou o habeas corpus.

Falou, fingindo que era mudo, para eleger Bolsonaro presidente. E a favor dele, falou nos últimos quatro anos para respaldá-lo e, se possível, reelegê-lo. Não perdeu a voz sequer quando Bolsonaro foi derrotado, abrigando à sua porta os golpistas do 8 de janeiro.

Se o Exército é devoto da Constituição, se falou quando não deveria, por que não fala agora sobre a participação de diversos dos seus membros na tentativa mais recente de golpe e na roubalheira das joias presenteadas ao Brasil e surrupiadas por Bolsonaro?

Não vale a desculpa de que não fala em casos sob investigação. É mentira. No 1º de maio de 1981, militares plantaram bombas para matar quem assistia a um show de música no Riocentro. Uma bomba explodiu no colo de um dos terroristas, matando-o.

O Grande Mudo montou um falso inquérito para concluir que a culpa era da esquerda. Outro falso inquérito de 1975 concluiu que o jornalista Vladimir Herzog se enforcou numa dependência do Exército, em São Paulo. Mentira. Ele morreu sob tortura.

Por que o Exército, no mais das vezes, só fala para esconder ou mentir? E por que ignora ocasiões em que poderia falar a verdade? A doutrina da mudez política do Exército, uma invenção francesa do início do século passado, nunca prosperou por aqui.

O grito oficial de guerra do Exército brasileiro é: “Braço forte, Mão amiga”. Grande Mudo: cadê a mão amiga da verdade? Foi amputada? Nunca existiu? Seu patrono, Duque de Caxias, sentiria vergonha se fosse vivo.

A casa caiu

Lá pelos idos de 1940, a mineradora sul-africana De Beers Consolidated lançou aquela que é considerada a campanha publicitária mais bem-sucedida do século XX:

— A diamond is forever.

Seja pela pegada sentimental (como prova de amor), seja por sugerir valor monetário eterno, a campanha em 23 línguas faz sucesso até hoje. E a pedra, sem nunca perder o brilho, afaga corações e bolsos. É na política que ela causa estragos, por não ser ali seu lugar. Foi numa manhã de outubro de 1979 que o presidente da França, Valéry Giscard d’Estaing, no poder havia cinco anos e com o horizonte acenando para uma futura reeleição, viu-se fulminado pela manchete do satírico parisiense Le Canard Enchaîné:

— Quando Giscard embolsava os diamantes de Bokassa.

Logo abaixo, o fac-símile da ordem de entrega de um mimo faiscante de 30 quilates, emitida em 1973 pelo déspota da República Centro-Africana, Jean-Bedel Bokassa. Destinatário: Giscard, então ministro das Finanças. A ordem estipulava inclusive o valor do regalo: 1 milhão de francos, algo como US$ 4,4 milhões em dinheiro de hoje. Foi uma bomba de que ele nunca mais se recuperaria. Perdeu a pose e a reeleição para o socialista François Mitterrand.


A bomba que desde a manhã de sexta-feira choca o país, atordoa Brasília e humilha as Forças Armadas deixa no chinelo o caso Giscard. Desencadeadas logo cedo por equipes da Polícia Federal (PF) com autorização do Supremo Tribunal Federal (leia-se, ministro Alexandre de Moraes), no âmbito do inquérito sobre milícias digitais, foram realizadas variadas ações de busca e apreensão. Entre outros, em endereços associados a um general do Exército — da reserva, porém com quatro estrelas na farda e prestígio na Força. Quem achou extrema a ação contra o general Mauro Cesar Lourena Cid, pai do ex-ajudante de ordens de Jair Bolsonaro e tenente-coronel Mauro Cid, atualmente preso, precisa debruçar-se sobre o relatório das investigações que embasam a decisão do ministro. Excepcionais pelo escopo, detalhamento e gravidade, as 105 páginas do despacho de Moraes estarrecem.

Daí o acerto da decisão, “diante de inúmeras publicações jornalísticas com informações incompletas da decisão proferida em 10/8/2023”, de quebrar o sigilo de operação tão cabeluda. Seria um dano irreparável manter fora da vista da sociedade a investigação que classifica como “organização criminosa” uma penca de aliados civis e militares do ex-presidente da República, suspeitos de envolvimento em pelo menos “cinco eixos principais” de atuação criminosa. Quanto maior a transparência na investigação, menor a chance de “narrativas alternativas” conseguirem alterar a realidade dos fatos apurados.

Por ora, o foco principal está na mirabolante ocultação e tentativa ilegal de venda, por parte dos envolvidos, de objetos presenteados a Bolsonaro na Presidência. São caudalosas as evidências de participação na trama de bolsonaristas raiz, como o general Mauro Cid, seu filho, o segundo-tenente da ativa Osmar Crivelatti (a serviço do chefe até hoje) ou o homem de todos os rolos Frederick Wassef, que faz as vezes de advogado da família Bolsonaro. Coadjuvantes com indícios de se verem encrencados também não faltam, assim como cenas, situações e diálogos absurdamente farsescos, não fossem eles alarmantes pelo grau de delinquência. Relógios cravejados de diamantes, joias e rosários islâmicos idem viajaram como clandestinos no avião presidencial para Orlando. Pelo relato substantivo das investigações, o esquema milionário de subtrair da República o que a ela pertence começou, no mínimo, já em meados de 2022. Acelerou com afoiteza e risco pouco antes e nas semanas que se seguiram à derrota eleitoral do chefe. Segundo mensagens eletrônicas recuperadas pela investigação, o surrupio do público para o privado incluiu até mesmo o filho Zero Quatro do presidente, Jair Renan. O caçulinha, depreende-se de e-mails dos auxiliares de Bolsonaro, se interessou por alguns itens e, com o beneplácito do pai, serviu-se no acervo da Documentação Histórica em julho do ano passado.

Daqui para a frente são só notícias amargas para o capitão que o Brasil manteve por quatro intermináveis anos no poder. Além de inelegível, Jair Bolsonaro provavelmente será chamado a depor sobre o imbróglio das joias; é possível que logo mais seu passaporte seja retido; provável que venha a ser indiciado, denunciado, julgado, quiçá condenado — não só pelo rastro de ladroagem deixado. Talvez ainda não saiba, mas sua casa já caiu.~

quinta-feira, 10 de agosto de 2023

Gambiarras literárias

Trocar inteiramente livros didáticos físicos por produtos digitais nunca foi uma boa ideia. Ainda que a tecnologia possa tornar as aulas mais atraentes, incorporando rico material de apoio, há uma montanha de evidências empíricas mostrando que a leitura em papel é mais eficaz do que a em tela. No suporte tradicional, o leitor dedica mais atenção à atividade e retém melhor as informações aprendidas.

Não é um efeito muito forte, mas ele aparece de forma consistente na maior parte dos estudos. Os livros da neurocientista Maryanne Wolf sobre o assunto são uma excelente fonte de dados e interpretações.

Uma parte do problema é fácil de explicar. O sujeito que vai ler um livro no computador ou no celular facilmente se deixa distrair pelas múltiplas tentações da internet. A luz oscilante das telas também torna a tarefa mais cansativa.


Quando passamos das telas para dispositivos de leitura como o Kindle, em que a internet não está tão disponível e que trocam a luz azul pela tecnologia do papel líquido, os efeitos adversos se reduzem, mas não desaparecem. Uma hipótese para explicar a persistência da diferença é que há fisicalidade na leitura.

Virar páginas e monitorar pelos olhos o avanço do processo ajudam o cérebro a montar os mapas mentais em que ele se apoia para realizar tarefas e memorizar informações. No caso da escrita, o vínculo entre a parte motora (desenhar as letras) e o aprendizado já está bem estabelecido.

Essas conexões inesperadas se tornam menos misteriosas se considerarmos que a leitura e a escrita, ao contrário da linguagem falada, são novidades em nossa história evolutiva. Ainda não desenvolvemos estruturas cerebrais especializadas para lidar com elas. O que fizemos foi cooptar outras estruturas. O reconhecimento de letras, por exemplo, se dá na mesma área que reconhece rostos. Desse amontoado de gambiarras e puxadinhos, aparecerão mesmo algumas surpresas.

O semelhante cura o semelhante

Adeptos da homeopatia, a Rainha Elizabeth, Paul McCartney e Bill Clinton são sua melhor propaganda. Tente supor quais as principais manchetes médicas da última edição da imprensa mundial com o necrológio da vida na Terra derretida pelo calor. Certamente, se resumiriam a cinco boas notícias sobre saúde dos últimos 3 mil anos: Nasceu a acupuntura; Descobriram a homeopatia; Inventaram a psicanálise; Criaram a penicilina ; Transplantaram um coração.

Originado em sistemas humanistas cuja vocação é se dedicar a escutar o sofrimento e ajudar as pessoas a restabelecer a saúde, sem as distrações que a medicina biotecnológica produziu no corpo e na mente, só deveria ser permitido o exercício da medicina a quem confia na energia vital do corpo posta em liberdade para agir sobre as moléstias. A pretensão obsessiva de curar você de si mesmo que a medicina industrial pratica é uma boa oportunidade para se decepcionar com quem a defende. Médico é quem se recusa a ver um só sintoma e não anula a missão do corpo e do desejo de viver e vencer os fenômenos mórbidos que cercam nossa vida.


A esperança de viver é mais forte do que pode imaginar a má medicina, e em muitos casos morre-se primeiro na UTI. Mas o jeito Revista Caras da inteligência atual está com a corda toda e faz crescer a disposição para falar bobagens e embarcar no élan de conquistar e destruir do cavador. Desfalecido de rir, aguarde o pau na fonoaudiologia, gelo na contusão, dedo no pulso para medir pressão, emplastro de tofu. A isca da denúncia não desmoraliza o anzol da criação nem confere ao boato a cortesia da verdade da opinião. A ciência poderia anunciar uma exuberante persistência vital, mas o uso torto do seu nome faz a vitalidade e a alegria desaparecerem dos corações. As ambições da ciência são indiferentes sobre o que será do mundo. Aborrecida com o espírito de liberdade e a perigosa aventura da ideia natural, ela vê o diferente como antagonista do progresso. E se coloca acima da vida do outro, por não estar à altura dela.

Há um quê de deleite em falar mal do que não é carceral, interdição e poder. E há um aspecto sombrio nos estudos que exalam raiva da liberdade afrouxando as exigências da medicina sobre si mesmo. Em qualquer profissão, conselhos corporativos sem controle externo são cartórios privados.

Vítimas conhecem melhor o que se fez delas. Estão aí as mortes provocadas por drogas legais e erro médico. Um escárnio que se tornou a parte que o povo menos vê e o que mais sente.

O que é a vida, o que é a matéria médica, Deus que nos acorde de tirar proveito de distorcer o direito. De onde vem esta condenação sem apelo às sessões demoradas de anamnese, médicos relíquia que tocam nos pacientes, acompanham famílias, crianças, idosos, seus odores, alucinações do olfato e dos humores. Acreditam no tratamento conservador das fraturas, conhecem os meridianos do corpo, sabem por que alguém tombou do lado errado, médicos que não são sócios de laboratórios e cirurgias. É carnavalesco não serem considerados ciência doses fracas, diluídas, agulhas, pomadas, infludo, alimentos convenientes – sólido na moléstia crônica, líquido nas agudas –, defesa intransigente da higiene. Dinamizações variadas, embrocações, talcos, supositórios, dietas. Uma equilibrada dose de nux vômica ajuda bem aos impulsivos temerosos de fracasso.

A homeopatia não está na farmácia popular pelo mesmo motivo que os ansiolíticos, anticonvulsivantes, antidepressivos e antipsicóticos também não estão. As práticas integrativas e complementares ameaçam a farmacoeconomia e irritam seus sócios prêt-à-porter. O que precisa ser preservado é a alta costura da saúde da população, a avant-garde de quem sabe do sucesso do diagnóstico que transcende a medicina que não foi sequestrada pela ciência.

A gloriosa inventividade da medicina popular não é cativa do jugo bruto do poder médico, embora sofra ataque de quem se dispõe a desmoralizar a medicina milenar. Não é para impedir, é para tirar a confiança. Profissão e vocação são coisas diferentes, confusão de quem quer encantonar o Ministério da Saúde para tentar desmoralizar a liderança do não médico, como foi José Serra e, agora, é Nísia Trindade.

Disparates? Com tantas coisas para enriquecer nosso povo, como se não as tivesse, o Brasil verídico é um estrondoso sucesso de fraudes encaixadas no baralho do poder. Objeto cobiçado, a sabedoria popular e dos menos deslumbrados com antibiótico e bisturi não perdeu seu atrativo. Não é dos consagrados saberes medicinais que o povo usa que o crítico não gosta, é do povo mesmo. Estudo médico com tom de julgamento civil aponta para doença das condutas, insinua interdição e perda de direitos.

Na riqueza das farmácias se descobre o segredo dos críticos da medicina milenar. Na vida real de quem precisa e recorre sem preconceito aos dois modelos de medicina, a balança nos diz que os defeitos da qualidade da alopatia, drogaria e psiquiatria são maiores que a qualidade dos defeitos da homeopatia, acupuntura e psicanálise.

Estamos condenados à barbárie?

Entre o final de julho e o começo de agosto, somaram 45 os mortos em operações policiais contra o tráfico de drogas na Bahia, em São Paulo e no Rio de Janeiro. Do total, uma vítima era agente da lei. A tragédia escancara a brutalidade em que estamos imersos.

Em 2019, segundo o Observatório Global da Organização Mundial da Saúde, só dez países tinham taxas de homicídio maiores do que o Brasil. Formávamos um time da pesada com países a que não costumamos nos comparar: África do Sul, Lesoto e oito vizinhos latino-americanos ­—El Salvador, Honduras, Colômbia e Venezuela, além de quatro nações caribenhas.



No ano passado, a violência tirou a vida de cerca de 48 mil brasileiros. Em média, polícias foram responsáveis por 17 mortos a cada dia, informa o Anuário do Fórum Nacional de Segurança Pública. Como seria de prever, a barbárie não se distribui igualmente pela federação. Amapá, Bahia, Sergipe, Pará e Goiás lideram o rol de homicídios; somados ao Rio de Janeiro, também o do uso abusivo da força policial. Tampouco a matança atinge todos na mesma proporção: de ambos os lados do tiroteio, homens negros, jovens e pobres correm risco sempre maior.

As estatísticas ajudam a perceber o tamanho da catástrofe, mas não dão a medida do sofrimento das famílias atingidas, nem do medo dos ameaçados mais de perto, nem do sentimento difuso de insegurança dos que temem a violência letal, ainda quando é menor o risco de vir a sofrê-la. Também não medem o impacto da violência sobre a vida política democrática.

A direita há muito descobriu que a exploração do medo —diariamente cevado pela mídia sensacionalista— e a defesa da força bruta contra suspeitos rendem votos. A cada eleição cresce a "bancada da bala" na Câmara dos Deputados, assim como o número de eleitos saídos dos aparatos policiais nos estados. Para os paulistas, a defesa brandida pelo governador Tarcísio de Freitas dos desmandos cometidos pela Operação Escudo, em Guarujá, exuma os tempos de Paulo "bandido bom é bandido morto" Maluf.

Bolsonaro e seus seguidores não fizeram mais que entoar aos berros refrão bem conhecido.

Os democratas comprometidos com o social têm o desafio —e o dever moral— de recorrer às experiências bem-sucedidas de governos subnacionais e de organizações da sociedade, além dos confiáveis dados disponíveis, para implantar formas civilizadas de garantir a segurança pública.

Nos 14 anos em que governou o país, a centro-esquerda não se destacou por inovar nessa matéria. Tem agora nova oportunidade de mostrar que não estamos condenados à barbárie.

quarta-feira, 9 de agosto de 2023

Nunca recicle

 


Zema exumou velhos sentimentos preconceituosos e separatistas

O brasileiro é uma invenção dos mineiros. Seu mito fundador é a Inconfidência, em 1789, ou seja, vem de antes da Independência, que só viria a ocorrer em 1822, cujos protagonistas se dividiram em dois partidos: o dos brasileiros e o dos portugueses. O Partido dos Brasileiros já nasceu dividido entre democratas, liderado por Gonçalves Ledo, que defendia um regime parlamentarista, e aristocratas, tendo à frente José Bonifácio, que defendia um Executivo forte, com medo da fragmentação territorial.

O risco de fragmentação, como aconteceu em toda a América Latina, era real. Viria a se expressar com muita força, por exemplo, na Confederação do Equador, em 1824, tendo à frente Pernambuco. A república seria formada também pelas províncias de Piauí, Ceará, Rio Grande do Norte, Paraíba, Sergipe e Alagoas, mas nenhuma delas aderiu ao movimento separatista. E, também, na Revolução Farroupilha (1835-1845), com a formação da República Rio-Grandense e da República Juliana. No primeiro caso, os líderes foram executados, entre os quais Frei Caneca, arcabuzado; no segundo, os que negociaram a paz foram anistiados e incorporados ao Exército, com suas patentes.

Com a dura repressão das revoltas, entre as quais a Balaiada (MA) e a Cabanagem (PA), manteve-se a integridade territorial do país e a centralização do poder do imperador Pedro II, para o qual foram fundamentais o Senado, com sua política de conciliação, e a magistratura togada, nomeada pelo Imperador. O Exército e a Marinha foram constituídos nesse processo. A construção da identidade do povo brasileiro, porém, foi muito mais lenta, para o qual teve papel decisivo a Revolução de 1930.

Nela, houve choque de concepções: de um lado, os setores da elite que adotaram as teses de Oliveira Vianna, para o qual as estruturas políticas republicanas eram artificiais e o Brasil meridional, liderado pela elite agrária e os militares, seria a matriz da formação do novo Estado brasileiro; de outro, setores castilhistas que tinham identidade com as massas trabalhadoras, liderados por Alberto Pasqualini. A elite paulista, com concepções liberais, tentou retomar o poder em 1932 e fracassou, mas cultivou com êxito a ideia de que São Paulo é a locomotiva do país. O Rio de Janeiro fazia o contraponto, era o “tambor do Brasil”.

Coube, mais uma vez, aos mineiros, com Juscelino Kubitschek, o projeto de integração e combate às desigualdades regionais, cujo âncora geopolítica foi a construção de Brasília, para onde foi transferido o Distrito Federal. Essa ideia-força viria a ser a bandeira legitimadora do regime militar, cujo lema era Segurança e Desenvolvimento, uma leitura autocrática do lema positiva da bandeira nacional: Ordem e Progresso.


Mas a ideia de que somos um só povo e uma só nação não foi monopolizada pelos militares, apesar do Pra frente, Brasil da Copa do México, em 1970. Na letra de Para Todos, Chico Buarque sintetiza as características do núcleo familiar que resulta do fluxo migratório, juntamente com a miscigenação, e sedimenta união dos brasileiros: “O meu pai era paulista/ Meu avô, pernambucano/ O meu bisavô, mineiro/ Meu tataravô, baiano”. O compositor foi um ferrenho oposicionista ao regime, tendo amargado o exílio por causa de suas canções.

Entretanto, não devemos acreditar que as nossas contradições regionais e preconceitos étnicos e sociais tenham deixado de existir. Em São Paulo, todo nordestino é baiano; no Rio, paraíba. Todo louro é galego ou gaúcho; no Araguaia, todo forasteiro era paulista. O governador de Minas, Romeu Zema, com seu sincericídio, exumou sentimentos negativos em relação ao Nordeste e despertou o ressentimento ideológico dos que venceram as eleições nos estados do Sul e do Sudeste, mas não reelegeram o ex-presidente Jair Bolsonaro, devido à grande votação do presidente Luiz Inácio Lula da Silva no Nordeste. Não devemos subestimar as implicações que isso terá daqui para a frente.

Há uma articulação de governadores do Sul e do Sudeste contra os estados do Norte e Nordeste na reforma tributária, por causa da mudança da arrecadação dos tributos da origem para o destino das mercadorias. Essa articulação foi bem-sucedida na Câmara, mas está inferiorizada no Senado, no qual a federação está representada de forma igualitária: três senadores para cada estado. Celso Furtado, entre os intérpretes do Brasil, foi dos mais preocupados com o papel do federalismo. Advertia que essa bandeira estava condenada a reencarnar ciclicamente, em todos os momentos críticos, que colocassem em tela o contrato social e a reformulação do arranjo de poder. A reforma tributária é isso.

Sua grande preocupação era arquitetar um “federalismo regionalizado cooperativo” como instrumento para impedir a exclusão do Nordeste e evitar a implosão da nação pela radicalização de suas disparidades regionais. Com sinal trocado, o histórico unitarismo da esquerda brasileira, desde os antigos PCB e PTB, dificulta esse federalismo cooperativo.

Mas há uma questão ainda mais séria. Um dos ingredientes da globalização vem sendo o enfraquecimento da identidade nacional e a sua fragmentação. O sujeito e a identidade na modernidade tardia e pós-moderna foram fragmentados; nas redes sociais, isso é evidente. Historicamente, as identidades étnicas e regionais foram abrigadas sob o teto do Estado-nação, numa comunidade estável, com território próprio e idioma comum, mas isso está mudando no mundo. A nação é uma construção imaginária, que não pode ser subalternizada por sentimentos culturais e étnicos regionais. O que o governador Zema fez foi apartar os brasileiros do Sul e do Sudeste dessa comunidade imaginária. Seríamos dois Brasis, um moderno, produtivo e autossuficiente; outro atrasado e improdutivo, que precisa ser carregado nas costas. É aí que mora o perigo.

Sachs: pioneiro de ideias

Em cada pessoa, a maneira de pensar depende de encontros marcantes ao longo da vida com professores, parentes, amigos; no meu caso, tive a sorte de encontrar Ignacy Sachs. Na semana passada, o mundo perdeu esse importante pensador. Por quase 60 anos ele fez parte daqueles que iniciaram a reflexão sobre os limites do progresso identificado com aumento da produção industrial e elaboraram propostas para uma reorientação no rumo da civilização em direção ao desenvolvimento sustentável, que, ainda em 1970, ele definiu como ecodesenvolvimento.

Foi um dos primeiros desbravadores da ideia de entender e cuidar do progresso levando em conta os limites ecológicos e o valor da biodiversidade. Sendo, por isso, necessário livrar a civilização da ânsia de aumentar a produção industrial e da voracidade por consumir produtos. Além de pensador e estrategista, Sachs foi um economista pragmático que ofereceu propostas concretas sobre como fazer funcionar economias sustentáveis em diversas regiões do mundo, inclusive na Zona da Mata e na Amazônia brasileiras. As mudanças climáticas fizeram suas ideias inovadoras serem aceitas, meio século depois de formuladas.


Mas essas não foram as únicas contribuições de seu pensamento pioneiro. Enquanto as ideias sociais e políticas eram polarizadas pela Cortina de Ferro, Sachs percebia e denunciava o capitalismo ocidental e o socialismo soviético como filhos da revolução industrial: produtos da arrogância antropocêntrica, irmãos siameses na construção da catástrofe ecológica. Enquanto a imensa maioria dos pensadores embarcava no delírio do poder ilimitado do avanço técnico, ele alertava para os riscos do descontrole da técnica sem valores éticos. Antes de quase todos, ele viu o planeta e a humanidade como mais importantes do que os países isoladamente. Sachs nos fez perceber que houve um tempo em que o mundo era a soma de países, mas no presente, cada país é um pedaço do mundo.

O nome Ignacy Sachs continuará vivo, como precursor, seja sinalizando os riscos que levarão à catástrofe civilizatória, seja como desbravador das ideias que permitirão a sobrevivência da humanidade. Essa mente brilhante e pioneira foi formada graças à vida cosmopolita de quase um século entre 1927 e 2023. Judeu, nascido na Polônia, pouco antes da ascensão do nazismo, veio refugiado para o Brasil com a família no início dos anos 40, onde fez o curso secundário e se formou em economia. Depois, optou por retornar ao seu país socialista, onde trabalhou com alguns dos mais importantes economistas marxistas.

Sachs fez doutorado na Universidade de Nova Délhi, na Índia dos anos 1950, primeiros anos de independência, onde teve acesso a grandes mestres e a um momento histórico do pensamento e da prática do desenvolvimentismo, em uma economia mista, capitalista, com forte participação do Estado. Retornando à Polônia, trabalhou como professor e planejador na construção da economia socialista sob orientação marxista. Até que, em 1968, nova perseguição antissemita promovida então pelo partido comunista, obrigou-o a asilar-se na França. Em Paris, como professor, tratou os brasileiros que chegavam no exílio como compatriotas, e em muitos deles deixou a marca de seu pensamento pioneiro, heterodoxo, cosmopolita, despertando em todos a visão crítica ao desenvolvimento depredador e inspirando o compromisso com o desenvolvimento sustentável.

Devemos a ele não apenas a orientação em nossos doutorados, mas sobretudo a mente livre de preconceitos ideológicos ou teóricos e comprometida com valores humanistas, na defesa do equilíbrio ecológico e da justiça social com democracia. Direta ou indiretamente, ele esteve por trás da filosofia que levou ao Proálcool, que criou o CDS da UnB, que promove o microcrédito, que busca combinar grandes e pequenas empresas, encontrar soluções simples para problemas complexos, adaptar modernas tecnologias importadas à realidade dos países pobres, construir economias mistas, onde a eficiência do setor privado combine com o planejamento e com o atendimento social graças ao Estado. Até mesmo a cooperação entre Índia, Brasil e África do Sul, que levou ao BRICS, tem a ver com uma estratégia proposta por ele há mais de 50 anos.

Sachs alertou para o mal que o crescimento econômico provocou sobre a Terra e inspirou como reorientar o progresso. Morreu dormindo, mas suas últimas palavras poderiam ter sido “valeu a pena para mim” e “ainda é tempo para a humanidade”. Por tudo isso, o 2 de agosto de 2023 foi um dia em que a Terra chorou, com esperança.

Hatuey

Nestas ilhas, nestes humilhadeiros, são muitos os que escolhem sua morte, enforcando-se ou bebendo veneno junto aos seus filhos. Os invasores não podem evitar essa vingança, mas sabem explicá-la: os índios, tão selvagens que pensam que tudo é comum, dirá Oviedo, são gente de natural ociosa e viciosa, e de pouco trabalho... Muitos deles por ser passatempo, se mataram com peçonha para não trabalhar, e outros se enforcaram com suas próprias mãos.

Hatuey, chefe índio da região da Guahaba, não se suicidou. Em canoa fugiu do Haiti, junto aos seus, e se refugiou nas covas e montes do oriente de Cuba.

Ali apontou uma cesta cheia de ouro e disse:

– Este é o deus dos cristãos. Por causa dele nos perseguem. Por ele morreram nossos pais e nossos irmãos. Bailemos para ele. Se nossa dança o agradar, este deus mandará que não nos maltratem.

É agarrado três meses depois.

E amarrado em um pau.

Antes de acender o fogo que o reduzirá a carvão e cinza, um sacerdote promete-lhe glória e eterno descanso se aceitar batizar-se. Hatuey pergunta:

– Nesse céu estão os cristãos?

– Sim.

Hatuey escolhe o inferno e a lenha começa a crepitar.

Eduardo Galeano, "Os Nascimentos"

O que sumiu e o que voltou

Começou há algumas semanas, quando me gabei de ter sido um grande chutador de tampinhas, daquelas de refrigerante, soltas nas calçadas. Dias depois, um leitor perguntou se eu era capaz de dar o piparote com o sapato na borda da tampinha, fazê-la subir e matá-la no peito do pé. Humilhado, tive de confessar que não. E, agora, outro leitor, para meu opróbrio supremo, escreve para dizer que no peito do pé era fácil - ele queria ver era se o sujeito fazia, como ele, a tampinha pousar no lado do pé. Tudo isto porque observei que, por falta das próprias, ninguém mais chuta tampinhas pelas ruas.

Muita coisa deixou de existir por falta de matéria-prima. Por exemplo, ninguém mais escorrega em cascas de banana. Continua a chover, mas não se usam mais galochas. Ninguém mais cheira rapé ou sopra chicletes de bola. Ninguém mais usa boina, só boné, e, mesmo assim, ao contrário. Artigos de primeira necessidade como o pote de goma arábica, o mata-borrão e a espátula para abrir cartas deixaram de existir. Ninguém mais lambe selos para pregar no envelope. Eu próprio há anos não lambo um selo e não escrevo ou recebo uma carta.

Velhos hábitos desapareceram. Desaprendemos, por exemplo, a aplaudir sentados. Qualquer showzeco nota 3, se aplaudido, é hoje aplaudido de pé. Em breve, teremos de plantar bananeiras para premiar uma performance verdadeiramente genial. E perdeu-se de vez a arte de bater carteiras. Os atuais meliantes não se valem mais de dedos leves e hábeis para subtraí-las de nossos bolsos. Vão direto de trabuco no nariz, até porque, com o celular e o pix, já quase não se usam carteiras. .

Em compensação, coisas há muito dadas como extintas estão voltando espetacularmente. Uma delas é o bigodinho, fora de moda há uns 70 anos. Os garotos voltaram a jogar bafo com as figurinhas. E até o estrogonofe voltou.

Mas preocupante mesmo é a volta do nazismo.

Ruy Castro

domingo, 6 de agosto de 2023

A polícia letal de estados opostos na política

Mês de Julho se foi, na Bahia e em São Paulo, como o diabo gosta (para citar a canção de Belchior e versos de cordéis, vendidos nas feiras do Nordeste, com narrativas do tempo das “volantes” das polícias estaduais da região, no combate ao cangaço comandado por Virgulino Ferreira, o Lampião), em termos de letalidade na atuação das PMs. 36 pessoas morreram – 20 no estado nordestino e 16 (ao menos, até quinta-feira, (3) na principal unidade da federação, no sudeste do País – em operações que resultaram em “confrontos com o crime organizado e o tráfico de drogas”, segundo comunicados das corporações, nos temerários últimos dias da passagem de julho para agosto. Fatos de imagens pesadas de grossa selvageria e denúncias de torturas, feitas por promotorias públicas, ONGs locais e estrangeiras, e até do setor de defesa dos direitos humanos na ONU, e de expressivas personalidades democráticas, sobre o estado de coisas que mexe com os nervos, nacionalmente, e levanta protestos no exterior.

Já são conhecidos dados que vão além da curva da razoabilidade: mesmo quando comparados com países em guerra declarada, ou republiquetas de bananas. Desperta especial preocupação, em núcleos democráticos e humanitários do pensamento e ação, o fato desta letalidade brutal explodir em dois ressonantes estados do País, ao mesmo tempo. Unidades federativas de governos opostos – política e ideologicamente – cujas forças de segurança parecem tecer macabra e desgovernada disputa, de qual é mais letal em suas ações. Governos que divergem nos discursos, igualmente confusos na forma e mambembes, no conteúdo intelectual e nos projetos de gestão. Até aqui, as atuações policiais são semelhantemente desastrosas – tal qual as falas de seus chefes, de governo e de polícia –, e praticamente os mesmos pífios resultados.

Na Bahia, do governo de Jerônimo Rodrigues (PT), segue o curso da letalidade policial de cada dia – herdada da gestão Rui Costa (atual ministro chefe da Casa Civil do governo Lula) durante seus dois mandatos seguidos, entre 2015 e 2022:, marcado pelo tristemente famoso “massacre do Cabula” (de repercussão até na ONU), quando 12 jovens de idades entre 18 e 23 anos foram encurralados e mortos em ação da tropa de elite da PM. A partir daí, o estado viu as mortes nos “confrontos” com as forças de segurança subirem 313% e baterem recorde, ano passado, segundo o Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2022. Quando pela primeira vez, a polícia baiana aparece como a mais letal do País, tomando o lugar antes ocupado pelo Rio de Janeiro.

Em São Paulo, do governador Tarcísio de Freitas (Republicanos) – nome de proa da chamada nova direita brasileira, ligada ao ex- ocupante de triste memória do Palácio do Planalto, Jair Bolsonaro, defensor da teoria de que bandido bom é bandido morto o tiroteio de uma operação d grupo especial da ROTA tem saldo –até 3/8, de 16 mortos, em Guarujá, antigo balneário da elite paulista. No caso atual, a “Operação Escudo”, que tem características mais nítidas de vingança que de combate inteligente e efetivo ao crime – como destacado por juristas e analistas especializados na imprensa br asileira e estrangeira – o atirador confesso, contra o soldado Patrick, se entregou à Polícia Civil, e está preso. Tarcisio de Freitas já anunciou que a operação vai continuar no Guarujá até o fim de agosto. O resto a ver.

Corações de ferro.

Heitor sempre foi Totô. Apelido de infância que passou da casa à rua e dela à escola. Durou até virar o soldado Heitor. O semblante que harmonizava com a farda tornava esquisito para os amigos continuar chamando Heitor de Totô. Metido numas bermudas, quem sabe? Mas os amigos há muito não o viam mais de bermudas. Totô mudou. Sumiu sem mudar-se de rua. Transformou-se em Heitor, soldado Heitor.

Sempre foi aventureiro. Criança de subir e cair das árvores mais altas, de se arrebentar nas manobras mais ousadas de bicicleta e também de se levantar logo em seguida para tentar novamente a façanha e, novamente, estatelar-se. Corajoso, carinhoso e aventureiro, não foi surpresa para ninguém quando decidiu tornar-se policial. Mas surpreendeu até a seus pais quando, tornado policial, transformou-se. “Totô tem um coração de ouro!”, repetia com insistência sua mãe, Dona Helena. Agora, diz que é um bom rapaz.

Na formação, conheceu o sargento Aquiles. Especialista na arte de endurecer corações. “Na rua, se você vacila, morre”, dizia o tempo todo para justificar a brutalidade das lições. Num treino, Heitor cochilou. Acordou com um tapa e dois chutes do sargento Aquiles. “Animal que dorme é abatido, entendeu seu merda!”. “Sim senhor!”, disse maquinalmente enquanto se recompunha.


Os amigos de lá ele chama de companheiros. Irmãos de farda. De uma amizade que não é como a dos amigos da rua, surgida de brincadeiras e jogos, mas parida entre os tapas e suplícios do sargento Aquiles. Amizade forjada, como se tratasse de metalurgia e não de afetos. Forjada em corações de ferro, endurecidos para sobreviverem à dureza das ruas. Tornados indiferentes à brutalidade para serem brutais para com vagabundos.

Um destes companheiros era o soldado Páris. Um irmão, ele dizia. Dele e dos demais. Sujeito curioso cujo coração de ouro não se transformou em coração de ferro na forja do sargento Aquiles. Talvez tenha sido justamente seu coração de ouro mole que o fez vacilar e ser atingido fatalmente por um tiro. Morreu a caminho do hospital, entre os gritos de raiva e desespero de seus companheiros cujos corações de ferro foram endurecidos para tudo, exceto para a morte de um dos seus.

A notícia da morte de Páris espalhou-se rápido pelo WhatsApp da tropa. Mensagens cheias de tristeza e raiva inflamadas. Narrativas e especulações que terminavam sempre com a mesma conclusão. “Esse vagabundo tem que ir pra vala!”.

Os oficiais não perderam tempo em montar a operação. Heitor foi com seu coração de ferro vermelho. Quente como ferro de marcar a pele de escravos. Arremessou o cobre de seu fuzil com a concentração e indiferença de quem só vê o alvo preto pela frente. Sabe que matou, pelo menos, um. Que viu bem enquanto atirava. Em outros, não atirou sozinho. Ele e seus companheiros deixaram para trás 16 mortos e outros tantos com seus corações de ferro incandescentes de ódio, a espalhar mensagens de ódio aos policiais. Alimento de uma guerra sem fim.

Heitor sentiu-se estranho ao fim do dia. Aliviado e feliz pela missão cumprida e injustiçado por chamarem seu trabalho de chacina. Fez apenas o que seu coração fora forjado para fazer. O que os mesmos que em público vaiam, aos sussurros aplaudem. Mas isto o incomoda pouco. Acostumou-se com a hipocrisia e sabe que o espetáculo da notícia não durará mais que dois dias.

Mais do que isso, durará em seu peito um sentimento desgostoso. Ranger esquisito no seu coração de ferro. Endurecido para a morte, mas ainda regado pelo sangue que correu um dia pelo coração de ouro de Totô.

São Paulo usa receita para manter o racismo de vento em popa

No Brasil, o livro didático é o principal, quando não o único livro ao qual a maior parte das crianças tem acesso. Essa é uma realidade amplamente conhecida e estudada. De tal modo que o Programa Nacional do Livro Didático (PNLD), promovido pelo Ministério da Educação (MEC), é uma política pública de alcance material e simbólico absurdamente significativo. Nos rincões e regiões periféricas do Brasil, onde água encanada ainda é artigo de luxo, o livro é um objeto tão valioso que pode não ter sentido algum.

O PNLD funciona tendo as secretarias estaduais de educação como pontes, por meio das quais professores e educadores de escolas públicas adotam livros do catálogo do programa. Pois bem, nesta semana o governo do estado de São Paulo decidiu recusar os livros oferecidos pelo MEC.

O argumento oferecido pelo secretário da educação é que o estado de São Paulo deseja abolir o uso de material impresso, substituindo-o pelo conteúdo digital. Em que pese o fato de São Paulo ser o estado mais rico da nação, as experiências mais recentes de ensino remoto durante a pandemia atestaram que as escolas públicas do estado não têm condições materiais para um ensino embasado em plataformas digitais.

Faltam computadores e redes cabeadas nas escolas. Falta formação para os professores que precisam se "adaptar" às ferramentas digitais. Além disso, a imensa maioria dos estudantes não teria meios de acessar esses conteúdos fora do espaço escolar, porque não tem notebooks, chromebooks ou até mesmo rede Wi-Fi para acessar esses conteúdos.


Desse modo, a pretensa ousadia digital da secretaria do estado de São Paulo em "modernizar" a educação das escolas, abrindo mão dos livros didáticos antes mesmo de ter meios para garantir o acesso às plataformas digitais para os estudantes e professores da rede, nada mais é do que a "boa" e velha política de precarização do ensino público. Uma política que há décadas vem transformando a educação pública num grande esquema de reprodução acrítica de conteúdos e informações, além de uma máquina de moer professores e educadores.

E como não acredito em coincidências, não posso deixar de fazer a leitura conjunta dessa medida com as recentes ações da Polícia Militar de São Paulo na cidade do Guarujá. Uma das ações mais letais da história da corporação e que foi comemorada pelo governador do estado.

O que me deixa impressionada é que não há novidade alguma nessa conjunção.

O sucateamento da educação e a ação violenta dos órgãos de repressão funcionam, há décadas, como uma espécie de fórmula eficaz da manutenção e perpetuação do racismo à brasileira. São as faces da mesma moeda.

De um lado, dificultam ao máximo que a juventude pobre e negra (na sua maioria) tenha acesso a uma educação básica de qualidade. E educação de qualidade invariavelmente é sinônimo de uma educação transformadora. Por outro, as ações violentas do braço armado do Estado seguem violando os direitos civis da mesma população pobre e negra – que, por conta da estrutura racista que nos ordena, não teve e nem terá chances de "subir na vida" –, deixando bem claro quais são as regras do jogo.

Essa é uma receita que só faz o racismo crescer.

Até quando?

Mauro Cid, retrato dos militares bolsonaristas que se corromperam

O que mais faltava para emporcalhar de vez a reputação do tenente-coronel Mauro Cesar Barbosa Cid, filho de general e ex-ajudante de ordem do pior presidente da história do Brasil?

Designado por Bolsonaro, o pai de Mauro Cid chefiou nos últimos quatro anos o escritório, em Miami, da Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (APEX)

O general e Bolsonaro, afastado pelo Exército nos anos 1980 por planejar atentados terroristas a quartéis, são amigos dos tempos da Academia Militar das Agulhas Negras.

Mauro Cid está detido desde o dia 3 de maio no Batalhão do Exército de Brasília, unidade comandada por um amigo dele, o tenente-coronel Bruno Fett. É acusado de cometer vários crimes.

A Polícia Federal o investiga por realizar saques de recursos com cartões corporativos da Presidência. Mauro Cid também pagou despesas de Michelle com cartão de crédito de uma amiga dela.


Foi ele que tentou resgatar um estojo de joias sauditas retido pela Receita Federal ao entrar no país escondido na mala de um auxiliar do almirante Bento Albuquerque, ex-ministro das Minas e Energia.

Mauro Cid fez parte do grupo que falsificou os cartões de vacinação contra a Covid-19 de Bolsonaro e de Laura, sua filha, para que eles pudessem circular livremente nos Estados Unidos.

Além de ter participado das tratativas de golpe para impedir a posse de Lula na presidência. No celular de Mauro Cid foi encontrada uma minuta do golpe, e mensagens a respeito.

A mais nova anotação na folha corrida de Mauro Cid foi a descoberta de que ele quis vender por 60 mil dólares (cerca de 300 mil reais) um Rolex que o rei da Arábia Saudita deu a Bolsonaro.

Mauro Cid trocou mensagens em inglês com Maria Farani, que assessorou o Gabinete Adjunto de Informações do gabinete pessoal de Bolsonaro até janeiro de 2023:

Maria Farani: Olá Mauro, obrigada pelo interesse em vender o seu Rolex. Tentei falar com você por telefone, mas não consegui. Pode por favor me falar se você tem o certificado de garantia original do relógio?

Maria Farani: Quanto você espera receber por essa peça? O mercado para Rolex usados está em baixa, especialmente para relógios cravejados de platina e diamante (já que o valor é tão alto).

Mauro Cid: Nós não temos o certificado do relógio, já que foi um presente recebido em viagem oficial de negócios. O que temos é o selo verde de certificado superlativo, que acompanha o relógio. Além disso, posso certificar que o relógio nunca foi usado.

Explicação dada por Maria Farani depois do estouro do caso:

“A pedido de Mauro Cid, por falar inglês, realizei uma pesquisa na internet para identificar possíveis compradores de relógio. Apenas enviei os e-mails e, ao receber respostas, retransmiti ao endereço eletrônico de Mauro Cid. Não tive conhecimento do desfecho de uma eventual negociação.”

Explicação dada pela defesa de Mauro Cid: ela preferiu não dar nenhuma, por enquanto.