quinta-feira, 27 de abril de 2023

Deu a louca nos advogados e porta-vozes que defendem os Bolsonaro

Em menos de 48 horas, eles ofereceram duas saídas bizarras para os perrengues que enfrentam o ex-presidente e a ex-primeira dama, ambos às voltas com o escândalo das joias milionárias ofertadas pela ditadura da Arábia Saudita; e no caso específico de Bolsonaro, também com a tentativa de golpe do 8 de janeiro.

As joias de Michelle, no valor de 16,5 milhões de reais, foram apreendidas pela Receita Federal. As de Bolsonaro, que entraram ilegalmente no país, apareceram dentro de um pacote entregue nas mãos de Michelle no Palácio da Alvorada. E o que seu porta-voz disse depois de ela ter dito que desconhecia as joias?

Que o pacote, cujo conteúdo Michelle ignorava, ficou fechado dois ou três dias, abandonado sobre uma pia da cozinha do palácio. Mais tarde foi aberto. Foi quando ela soube das joias presenteadas ao marido. Quanto às joias destinadas a ela, Michelle só ouviu falar por meio da imprensa. Não as pediu, nem recebeu.


A segunda explicação bizarra: foi “sem querer”, e sob efeito de morfina, que Bolsonaro, internado em um hospital americano, postou um vídeo no Facebook de estímulo tardio ao golpe que fracassara. Com a palavra, Paulo Cunha Bueno, um dos advogados que acompanhou o depoimento de Bolsonaro à Polícia Federal:

“Esse vídeo foi postado na página do presidente no Facebook, quando ele tentava transmiti-lo pro seu arquivo de WhatsApp para assistir posteriormente. […] A postagem foi feita de forma equivocada, tanto que pouco tempo depois, duas ou três horas depois, ele foi advertido e imediatamente a retirou”.

Postado em 10 de janeiro, o vídeo questionava a lisura e a confiabilidade das eleições presidenciais de 2022. Acusava Lula de não ter sido eleito de maneira legítima pela população, mas sim por um conluio entre ministros de tribunais superiores. Bolsonaro recuperava-se de uma obstrução intestinal.

A Procuradoria-Geral da República (PGR) afirmou à época que a conduta de Bolsonaro poderia ser enquadrada no delito de incitação ao crime, previsto no artigo 286 do Código Penal e cometido por quem estimula a prática de infrações. E que tinha “o poder de estimular novas ações” contra os Poderes da República.

Ao incluir Bolsonaro nas investigações em torno do golpe, Alexandre de Moraes destacou um trecho da manifestação da PGR que diz que ele disseminou falsas informações “sobre as instituições judiciárias responsáveis pela organização dos pleitos, alegando que tramavam contra sua reeleição”.

Morfina não combina com obstrução intestinal, segundo médicos consultados pelo O Globo. É um medicamento usado contra diarreia e tem potencial de agravar o quadro de obstrução intestinal de Bolsonaro. Além disso, ela não provoca um quadro de confusão mental, a não ser se ministrada em doses elevadas.

Para a professora de farmacologia e ex-reitora da Universidade Federal de São Paulo, Soraya Smaili, a alegação é “estranha”:

“É uma argumentação ruim porque a morfina causa mais constipação, ao provocar uma diminuição na motilidade gastrointestinal.”

“Em relação ao sistema nervoso central, a morfina causa principalmente sonolência, uma certa depressão. Agora, confusão mental, só numa concentração muito alta”.

Bolsonaro já havia recebido alta do hospital quando postou o vídeo.

quarta-feira, 26 de abril de 2023

O que há de real por trás de tantos filtros e selfies?

A sueca Liv Strömquist é quadrinista e estudante de sociologia e ciências políticas. Seu trabalho é uma bênção na vida de pessoas que, como eu, amariam ter tempo de ler todos os ensaios fundamentais sobre estruturas sociais e comportamentos humanos e, portanto, jamais dispensam a chance de um excelente resumão.

As obras de Liv são compilados brilhantes de teses e pensamentos de filósofos, pensadores, psicanalistas, sociólogos e feministas. É admirável a capacidade da autora de narrar histórias, tantas vezes densas e terríveis, na forma de quadrinhos acessíveis e divertidos. Um caso raro e necessário de conteúdo intelectual com transmissão generosa.

Publicados aqui pelo selo Quadrinhos na Cia., da Companhia das Letras, seus livros trazem temas provocativos, necessários e urgentes, sobretudo para mulheres.

Em “A Origem do Mundo” (2018), compreendemos melhor o apagamento da vulva ao longo dos séculos (como complemento, ouça aqui pela Folha o podcast “Meu Inconsciente Coletivo” com a participação da psicanalista Alessandra Affortunati Martins). Em “A Rosa mais Vermelha Desabrocha”(2021), uma apaixonada que acabou de levar um pé na bunda tem a sensação, ainda que ilusória, de que finalmente entendeu tudo sobre relações amorosas.

Agora, em “Na Sala dos Espelhos“, seu livro recém-lançado no Brasil, Strömquist examina, com a ajuda de Susan Sontag, Naomi Wolf, Simone Weil e Eva Illouz, o poder das redes sociais e das influencers de moda e beleza. Para tal, analisa o mito bíblico de Jacó; a madrasta da Branca de Neve; Sissi, a bela imperatriz Isabel da Áustria, a morte de Marilyn Monroe e até a beleza zilionária de Kylie Jenner, a mais linda das irmãs Kardashian.


Num país onde poucas pessoas têm o hábito semanal de comprar livros e a maioria da população curte mesmo é uma rede conhecida de roupas fast fashion (à custa de trabalhos análogos à escravidão), seria interessante discutir o que mais alimenta hoje o nosso gasto desenfreado e por impulso: o instinto competitivo gerado pelas redes sociais.

Segundo Liv (e o antropólogo René Girard), nos livramos de tantas restrições do passado (religiosas, por exemplo) e temos tanta liberdade para desejar que muitas vezes não sabemos o que escolher.

E é aí que entra o “prestígio de um mediador”, o qual, através de seu status (de pessoa bonita, amada e bem-sucedida), passa para qualquer objeto a sua fake luz divina e gera o “desejo mimético” de ser copiado, imitado, ainda que muitos seguidores nem gostem tanto daquela pessoa e muitas vezes a esculachem em posts cheios de bile: “O sujeito nutre sentimentos conflitantes por seu modelo, um misto de admiração submissa e rancor intenso”.

Outra maluquice, amplificada perigosamente pelo vício nas redes, é a necessidade que temos de nos manter o mais longe possível do nosso complexo de inferioridade e, para tal, de nos considerarmos “magros” e “sexies” o tempo todo.

Isso é fácil de entender quando pensamos nas pessoas que consideram a beleza dita padrão “a principal segurança contra a solidão” e que, dependentes de namoros e casamentos, fogem “da ameaça de morte metafórica, isto é, do abandono”.

Mas, para Strömquist, “muita gente nem está interessada em viver um relacionamento”. E se comportam como adictas da sensualidade apenas porque tal performance no capitalismo tardio (sobretudo nas telas do celular) “se desvinculou da função de atrair um parceiro e virou uma qualidade em si mesma, indicadora de status ou, se poderia até dizer, de seu valor como ser humano”.

A conclusão mais importante ao final desse livro riquíssimo de informações é que, na falta de projetos coletivos para um país, o que resta a cada indivíduo é ser orientado por desejos robóticos e mecânicos, nos quais ele, invejoso e competitivo, copia o desejo de uma pessoa que é paga para convencer alguém de que sabe desejar. E nisso compramos e compramos. Nos deprimimos mais e mais. Nutrimos uma obsessão primitiva por celebridades. Fazemos mais e mais selfies. E seguimos nos perguntando, ao final do dia, quem somos e o que queremos.

Genocídio no Paraguai

Soldadinho paraguaio
Que luta terrível entre a piedade cristã e o dever militar! Nossos soldados diziam que não lhes dava gosto lutar contra tantas crianças.

O campo ficou repleto de mortos e feridos do lado inimigo, entre os quais nos causava muita pena, pelo número elevado, os soldadinhos, cobertos de sangue, com as perninhas quebradas, alguns nem sequer haviam atingido a puberdade
General  Dionísio Cerqueira, que participou da batalha  de Acosta Ñu, "uma das mais terríveis  da história militar do mundo", no século XIX contra o Paraguai 

Congresso dá largada à CPI para provar que a Terra não é plana

A eleição de Jair Bolsonaro em 2018 instalou no Brasil a infeliz necessidade do gasto rotineiro de tempo e recurso para debates sobre temas os mais desmiolados possíveis.

Se em um passado não tão distante as tolices eram descartadas em segundos, apenas assentindo com a cabeça ou soltando um "complicado", um "que coisa", ou algo que o valha, a técnica ficou mais "complicada" em se tratando de um presidente da República.

Com isso, organizaram-se debates, simpósios, palestras, congressos, campanhas, investigações, relatórios, dossiês, reportagens, documentários e um sem-fim de esforços humanos para provar que jamais houve fraude comprovada em urnas eletrônicas, que remédio para malária e lombriga não cura a Covid e que o nióbio não é a chave para transformar o Brasil no novo El Dorado mundial.


Apesar de Bolsonaro não ser mais presidente, seu legado continua vivo, prova é que nesta quarta (26) o Congresso dá início a uma CPI mista para investigar as responsabilidades pelo 8 de janeiro.

Obra do bolsonarismo, que pretende emplacar a desavergonhada tese de que não foram eles quem entupiram QGs de Exército de golpistas, criados e cultivados após anos de meticulosa pregação antidemocrática, nem os moveram rumo ao golpe —haveria um sujeito oculto por trás da tramoia, e veja só, é o atual governo.

Mais uma vez mover-se-ão incalculáveis recursos humanos para "provar" em até 180 dias —o possível prazo da CPI— que a Terra não é plana, ou seja, que não há responsável maior pela lambança toda do que ele mesmo, Jair Messias Bolsonaro.

Qualquer outro erro de segurança no 8 de janeiro é gota d'água no oceano de culpa do ex-presidente.

Todo esse trabalho, porém, de nada adiantará para o bolsonarismo. Dialogar com esse grupo, como ensina a conhecida metáfora, é como jogar xadrez com pombos. Eles defecarão no tabuleiro, derrubarão as peças e ainda sairão batendo asas gritando vitória.

Casal que mente unido, como os Bolsonaro, acaba desmascarado

É sobre contrabando, não sobre joias presenteadas pela ditadura da Arábia Saudita a Jair Bolsonaro enquanto ele era presidente, e à mulher dele, Michelle, a primeira-dama.

A lei diz que presentes caros ofertados por um governo ao outro devem ser incorporados ao acervo do Estado brasileiro. As joias sauditas, a preços de mercado, valem cerca de 20 milhões de reais.

O presente de Michelle foi apreendido pela Receita Federal do Aeroporto de Guarulhos, em São Paulo, por não ter sido declarado. Entrara no país no fundo da sacola de um militar.

O de Bolsonaro driblou a atenção dos agentes da Receita e entrou ilegalmente no país; contrabando, que foi parar nas mãos de Bolsonaro e levado por ele ao deixar o governo.

O casal mentiu do começo ao fim do episódio. Ao fim, não, porque o episódio ainda será melhor contado. A Polícia Federal (PF) já ouviu Bolsonaro, que mentiu à farta. Falta ouvir Michelle.

A servidora Marjorie de Freitas Guedes, do Gabinete Adjunto de Documentação Histórica da presidência, era responsável por catalogar todos os presentes oferecidos a Bolsonaro.

Ela disse à PF que, em novembro de 2022, um pacote com as joias de Bolsonaro (um relógio raro, uma caneta, um par de abotoaduras e um rosário árabe) foi entregue a Michelle no Palácio da Alvorada.


O pacote, em outubro de 2021, entrou escondido no país dentro da mala do então ministro das Minas e Energia, o almirante Bento Albuquerque, de volta de uma viagem oficial à Arábia Saudita.

Marjorie disse que antes mesmo do retorno do almirante, fora aberto um processo no sistema do governo informando a chegada de um presente para Bolsonaro: um cavalo de ouro.

De fato, um cavalo de ouro também fora entregue a Albuquerque; chegou com as pernas quebradas e foi apreendido pela Receita junto com o conjunto de joias para Michelle.

A ex-primeira-dama sempre disse que nunca ouvira falar das joias destinadas a ela, somente a partir de 3 de março último quando o caso foi descoberto pelo jornal O Estado de S. Paulo.

Naquela ocasião, ela declarou: “Não pedi e nem recebi”.

Em resposta ao que revelou Marjorie, Michelle, ontem, afirmou:

“Essas joias que chegaram no Alvorada foram as joias masculinas. Então, estão me associando ao primeiro caso, quando eu não sabia, e eu não sei mesmo. […] O que eu tenho a ver com isso?”

Repórter: Então a senhora recebeu [as joias masculinas] em mãos?

Michelle: Eu não, elas estavam no Alvorada. Elas foram passadas pela administração.

Repórter: Não entregaram nas mãos da senhora?

Michelle: Não, elas estavam no Alvorada. Eu morava onde? No Alvorada. Não é verdade?

Para socorrer o casal que mente unido, o ex-secretário de Comunicação do governo Bolsonaro, Fabio Wajngarten, mentiu também em entrevista à CNN Brasil.

Por 13 meses, ele disse, Bolsonaro e Michelle não souberam que havia joias à sua espera – as de Bolsonaro, guardadas no prédio do Ministério das Minas e Energia, as de Michelle, apreendidas.

Quando Michelle recebeu no Palácio da Alvorada o pacote com as joias de Bolsonaro, ela os deixou “por dois ou três dias” na pia da cozinha por não saber do que se tratava, segundo Wajngarten.

Casal e ex-assessor que mentem unidos, permanecerão unidos para a eternidade. A não ser que a ação da justiça os separe por qualquer razão. Aí será um salve-se quem puder.

terça-feira, 25 de abril de 2023

Pensamento do Dia

 


Ladrões

A precaução tomada contra ladrões que abrem cofres, examinam sacolas ou saqueiam gavetas, consiste em mantê-los com cordas e trancá-los com fechos e cadeados.É a isso que o mundo chama de sagacidade. Porém, chega um ladrão musculoso e leva a gaveta nos ombros, com o baú e a sacola, e foge, levando tudo nas costas. Seu único receio é que as cordas, fechos e cadeados não sejam bastante fortes. Por conseguinte, o que o mundo chama de sagacidade não é simplesmente assegurar as coisas para um ladrão musculoso?

E atrevo-me a afirmar que nada daquilo que o mundo chama de sagacidade é outra coisa senão poupar para os ladrões fortes. E nada do que o mundo chama de prudência é outra coisa senão entesourar para os ladrões fortes.

Chuang Tzu, 300 a. C.

Entre a fome e o gato

Já pensou no que você faria se tivesse de escolher entre comprar comida e pagar a conta de um serviço essencial como o fornecimento de energia elétrica? Esse é o tipo de dilema que assombra cotidianamente a vida de milhões de brasileiros privados de direitos básicos.

A pobreza é um fenômeno complexo, que sustenta a exclusão e a vulnerabilidade e ultrapassa a questão da renda. Não por acaso a chamada "pobreza energética" remete à insegurança alimentar, falta de acesso à informação e à educação – entre outros direitos da cidadania.


Considerando que a perspectiva interfere no diagnóstico de problemas sociais, a Rede Favela Sustentável e o Painel Unificador das Favelas decidiram assumir o controle da narrativa sobre esse tema nas comunidades do Rio de Janeiro.

Assim surgiu o primeiro relatório Eficiência Energética nas Favelas, que expõe detalhes até então inéditos a respeito do impacto da ineficiência do serviço e do uso de luz sobre a pobreza e o aprofundamento das desigualdades. No cenário retratado, as políticas públicas não chegam aos destinatários de maneira eficiente.

A maioria (55,2%) das famílias representadas encontra-se abaixo da linha da pobreza (vive com renda per capta mensal de até R$ 497), sendo que 68,7% dizem desconhecer a Tarifa Social de Energia Elétrica. O que faz com que 90,4% dos que atendem ao critério de renda para ter tarifa social não recebam o benefício.

Segundo o relatório, 41,5% das famílias que ganham até meio salário mínimo e 23% das que recebem de dois a três mínimos ficaram sem luz por mais de 24 horas no último trimestre! Ainda assim, poucas formalizam reclamações, pois o recurso usado para ter acesso à energia elétrica é, muitas vezes, uma conexão irregular.

Longe de mim fazer apologia da fraude, mas, aos olhos de quem tem de escolher entre comer e pagar a luz, o famoso "gato" pode ser mais um mecanismo de luta pela sobrevivência do que um pressuposto de desonestidade.

segunda-feira, 24 de abril de 2023

CPI ou furdunço?

O Gonçalves Dias da vez é de uma pátria longe da edênica de sabiás e palmeiras. Sua imagem na invasão do Planalto abre-se a interpretações —agiu em suporte ou desbaratamento? O tempo da política é o instantâneo e, na dúvida, a cabeça do general, que não é poeta, rolou.

A celeridade do gesto governista não conteve a sanha da oposição em alongar o problema. Aí vem CPI (ou CPMI, o "m" indica o misto de senadores e deputados). O objetivo, em princípio, é esclarecer o 8 de janeiro. Mas, dada a polidez e o autocontrole dos oposicionistas, explicitados em sessão recente pelo deputado 03, pode desandar para outro propósito.

Reconstruir os fatos e responsabilizar os envolvidos, direta ou indiretamente, é imperativo. Já se investigou muito, mas também é muito o que falta. O evento ainda nem tem nome próprio. Prevalece o desnorteio nominativo: invasão, atos antidemocráticos, intentona, terrorismo, golpe. Nomear é delicado porque encaixa o acontecimento num molde, encaminha uma leitura.

Os nomes provisórios convergem, contudo, em indicar que se tratou de uma ação organizada. Quanto mais informações emergem, mais o ponto se comprova. Organização, no entanto, não quer dizer complô superplanejado, como nas teorias da conspiração. A realidade é mais complicada, com gente dando tiro no pé e iniciativas produzindo o oposto do esperado.


Acontecimento do porte do 8 de janeiro não se resume a um vilão no centro do PowerPoint. Resulta de atos de muitos grupos, nem sempre com mesmos objetivos e líderes, que se cruzam. É um mar de ação coletiva, no qual deságuam muitos pequenos afluentes.

Entender o ordenamento requer coletar e checar consistência e confiabilidade de documentação farta e variada. Não é para amadores. Uma CPI séria terá de fugir da areia movediça das impressões e se fincar em pesquisa robusta.

Assim como o janeiro trumpista deu o modelo para o nosso, a comissão de investigação da Câmara dos Deputados norte-americana dá exemplo de relatório potente. O comitê de nove parlamentares, entre democratas e republicanos, depois de ano e meio de trabalho, soltou catatau de 845 páginas. Chama-se Final Report. Select Committee to Investigate the January 6th Attack on the United States Capitol.

Ficou enorme porque detalha minuciosamente a maquinação e os fatos, acompanhado de links para documentos, uma felicidade para historiadores do futuro. Mas traz no início um sumário de 130 páginas, para dar o sumo aos cidadãos do presente.

Quatro capítulos se detêm na preparação e escancaram o tamanho da culpa presidencial no cartório. Depois vem um descritivo da invasão tim-tim por tim-tim. Identificam-se responsabilidades e omissões de agentes institucionais, os movimentos sociais convocadores (o mais conhecido é o Proud Boys) e os líderes no curso da invasão.

A leitura é alucinante, mas desvela personagens menos alucinados do que se suporia. Mostra que o caos aparente tem sua lógica. Houve quem concebesse, recrutasse, pusesse em marcha. A coordenação se exibiu até enquanto a ação transcorria.

O relatório gringo seria um bom modelo para a CPI. Contudo, tomar essa trilha demandaria empenho coletivo —não apenas do governo, como da oposição— em punir os culpados pelo ataque à democracia. Bem conduzida, a CPI poderia ser um acerto de contas da nação consigo mesma. Mas, se adentrar o estilo bolsonarista de debate, será só furdunço mesmo.

O peregrino

Aquele que possui verdadeiro
valor,
Que toma a linha de frente;
E nela assim permanece
Contra o vento, contra a
tempestade
Nenhum temor o esmorecerá
Ou fará com que desista
Do seu primeiro e
confirmado intento
De ser um peregrino.

John Bunyan

'Burnout' cívico

Prensados pelas redes sociais, a gente se vê obrigada a se posicionar o tempo todo, grande parte das vezes sobre assuntos leves ou absolutamente fora de nossa área de conhecimento ou curiosidade. O que pensamos a respeito do ajuste fiscal; da reforma do ensino; da permanência daquele ministro reconhecidamente ficha-suja; do tal novo arranjo do futebol, a sociedade anônima do futebol (SAF); da internação compulsória dessa gente perdida de si que circula pelas cidades; da mudança de sexo na infância; da inteligência artificial? Houve uma época em que, reconhecendo nossa ignorância, procurávamos ler algum artigo para pelo menos entender o que estava em jogo. Agora vem tudo num vapt-vupt de um post, sem contar a lavagem cerebral das mensagens capciosas que pousam na tela do celular – preparadas com o intuito único de angariar devotos a causas escusas.


Estou sofrendo um burnout cívico. Tomo chá de camomila? De cogumelo? Passo a andar de olhos vendados? Me chafurdo na leitura de entretenimento? Ouço apenas os discos da Xuxa? Entro com uma ação pedindo ressarcimento por assédio moral? Me entoco no meio do mato?

Ô Brasil difícil! Melhor pensar que é assim em tudo quanto é canto. Viver em comunidade, por menor que ela seja, significa embates, lutas por espaço; no fundo, disputa de poder. Tudo bem, mas, aqui na terrinha, estamos caprichando. Não é mais uma questão de participação política ou alienação, é o excesso. Sei da importância de ninguém soltar a mão de ninguém, mas, por favor, soltem a minha, preciso sair correndo. Doutor, vou ter um troço.

Corro, mas do Brasil não saio e continuarei a lutar por ele. Só que estou doente dessa contenda na qual entro com a impressão de ser um inocente útil, o zé-mané cansado. Vejo que muitos brasileiros, atrasados, decidiram pelo deixe-o do ditatorial “Brasil, ame-o ou deixe-o”. Se debandaram para Portugal, Estados Unidos, Austrália, não sei mais onde, com a esperança de fugir de nossas mazelas. Essa turma se esquece de que, num mundo globalizado, o Brasil enviará, via TV, streaming etc., sua dose diária de racismo, homofobia, misoginia e entornará o caldo sujo da injusta distribuição de renda na cara de todos, todas e todes (abraçado à erudição, rechaço o novo pronome, ou, fiel à urgência do agora, abraço-o?). Não se pode esquecer do tio do zap e seu empenho em compartilhar absurdos de toda espécie. De um jeito ou de outro, como o Brasil fincará as garras nos que se ausentaram, cair fora não resolve nada. Pelo menos com isso me consolo.

Então dou de ombros? Bebo o bar da esquina? Todos os bares da rua? Os da cidade? Me caso com vinte mulheres? Assalto um banco? Vou curar berne de bois soltos em pastos abertos pela grilagem no Pará?

Talvez eu melhore fugindo das tretas impostas pelos outros e inventando as minhas. Sertanejo universitário não é nem sertanejo nem universitário. Goiabada é o melhor doce do mundo (seguido de perto pelo arroz-doce), mas nem pensem na cascão, que não chega aos pés da lisa. Os grandes designers criam coisas estupendas, lindas e cheias de sabedoria, mas ninguém até hoje fez nada tão simples e tocante quanto a estrela solitária do Botafogo. Para cada xícara de arroz, duas e meia de água quente; qualquer coisa diferente disso é embuste e má culinária. Não fosse o chifre, o de Capitu em Bentinho, o Brasil nem teria uma literatura nacional.

Ando me identificando com a galinha-d’angola: Tô fraca!, tô fraca!, tô fraca! Que canseira.
Alexandre Brandão

domingo, 23 de abril de 2023

Cadê o Disque-Denúncia?

Onde está o general Heleno? Alguém sabe? Cadê o general? O general Heleno desapareceu. Um homem público, ministro de Estado, que sai das eleições e desaparece. Quem explica o sumiço dele? Onde é que está a valentia do general Heleno?

Cadê eles [os generais Braga Neto e Luiz Eduardo Ramos, ex-ministros de Bolsonaro]? Cadê o Braga Neto, o fortão? Desapareceram! Por quê? Cadê a valentia deles? Contra as instituições, contra o Brasil!

Parte da imprensa decidiu apontar a cumplicidade da vítima com o estuprador

Que coisa!

Setores da imprensa, nesse episódio do vazamento do vídeo sobre o 8 de janeiro —cuidadosamente editado (por quem?) para transformar o agredido em responsável pela agressão que sofreu —, aderiram à lógica absurda da cumplicidade da vítima com o seu algoz.

Demorou um tempo até que um padrão civilizatório mínimo criasse uma interdição legal e moral que impede que se culpe, ainda que de modo oblíquo, a pessoa estuprada pelo estupro. Não é prudente circular em áreas desertas e mal iluminadas, certo? Mas essa é uma postura preventiva contra qualquer tipo de agressão, note-se. Ainda que não observada, seria uma monstruosidade moral atribuir à vítima algum grau de cumplicidade ou colaboração com o seu agressor. Fazê-lo corresponde a legitimar um suposto lugar do estuprador na ordem das coisas.

A normalização do estupro produziu, a propósito, frases que ainda estão por aí. “Prendam suas cabras que o meu bode está solto”. Você é pai ou mãe de meninas? Guardem-nas, pois. Os genitores de bodes, nessa perspectiva, entendem que seus potenciais violadores cumprem ou uma determinação da natureza ou ocupam seu lugar social.

Em matéria de pântano moral, como deixar Jair Bolsonaro de fora? Em 2018, o então candidato à Presidência, em sabatina na Globonews, tentou explicar declaração misógina dada em 2017, em palestra na Hebraica do Rio — a mesma em que disse que um quilombola se pesava em arrobas e nem servia mais para a reprodução. Afirmou, naquele evento, que, depois de quatro filhos homens, deu uma “fraquejada”, e “veio uma mulher”.

Na entrevista, ele tentou consertar assim a estupidez: “Fiz uma brincadeira. É comum entre nós homens… O elemento é muito namorador, por exemplo, daí vem [nasce] uma menina, e ele fala: ‘Eu vou ser fornecedor, não vou ser mais consumidor’. É uma brincadeira.” Nesse mundo de “fornecedores” e “consumidores”, cada um tem reservado o seu lugar, excluindo-se, por exemplo, o consentimento. É a lógica do estupro! Saia curta, decote, roupa justa… Melhor não provocar os bodes.


Tenho afirmado aqui e em toda parte que o bolsonarismo não contaminou e corroeu apenas as instituições de Estado, como revelam a inércia e a conivência de servidores do GSI, entre outros entes, com os golpistas. O estrago provocado na imprensa é muito maior do que se percebe à primeira vista. Houve avarias importantes — e não sei se sanáveis — nos radares morais e nos sensores que identificam ameaças à ordem democrática. O mais relevante consiste em considerar que o bolsonarismo, a despeito de tudo o que já disse e fez, é uma corrente de pensamento e militância política como outra qualquer e causaria espécie porque não tem vergonha (e como!) de se dizer de direita. Não! Essa é uma bobagem e uma mentira perigosas. Como escrevi em uma coluna da Folha, inexiste virtude nos territórios da morte. Apenas ilustro um dos danos. O objeto deste texto é outro. Adiante.

DE VOLTA AO VÍDEO

Leio em reportagens e em textos de colunistas — com algumas decepções maiúsculas –considerações que vão muito além de recomendar que se evitem ruas desertas mal iluminadas, e até isso teria de ser feito com muito cuidado. O flerte com a culpa da vítima é mais do que uma sugestão. Há até quem infira que Lula experimenta agora uma forma de reverso da fortuna, como se as ações do governo a partir do dia 9 tivessem sido orientadas pelo oportunismo, não por fundamentos que orientam o estado de direito. Teria chegado a hora de pagar a conta.

O flerte com teorias conspiratórias espalhadas nas redes é, muitas vezes, explícito. Quando não, a vítima é vergastada por sua imprudência: “Quem mandou andar naqueles lugares? Onde já se viu sair com essa roupa? Vocês não sabiam que eles eram capazes de coisas assim? Por que não apoiou de cara a CPMI?” Uma pergunta grita o seu silêncio: quem editou o vídeo e com que propósito?

É evidente que o episódio pode e deve suscitar questionamentos e que houve erros grotescos: a mentira contada sobre as câmeras quebradas do terceiro andar, que quebradas não estavam, como se vê; a imposição de sigilo para as imagens; a manutenção no GSI da mesma equipe que serviu a Jair Bolsonaro; quem sabe uma certa subestimação do risco, ainda que a área adjacente ao QG do Exército de Brasília seguisse ocupada.

Que se façam as devidas restrições, admoestações e reparos. Mas cumpre, parece-me, não perder o foco, inclusive o dessa segunda investida — refiro-me, obviamente, ao vazamento do vídeo. A Polícia Federal não tem de correr atrás das fontes da CNN ou de qualquer outro veículo de imprensa. Mas tem de procurar identificar a origem do vazamento. Caso consiga, também se chegará ao propósito. Essa é uma imposição legal.

Ademais, o governo, pela voz de seu líder maior, o presidente da República, jamais descartou a conivência com a barbárie daqueles que, em tese, o serviam, nos limites da lei. Em café da manhã com jornalistas no dia 13 de janeiro, Lula foi explícito:

“Eu ainda não conversei com as pessoas a respeito disso. Eu estou esperando a poeira baixar. Quero ver todas as fitas gravadas dentro da Suprema Corte, dentro do palácio. Teve muita gente conivente. Teve muita gente da PM conivente. Muita gente das Forças Armadas aqui dentro conivente. Eu estou convencido que a portado Palácio do Planalto foi aberta para essa gente entrar porque não tem porta quebrada. Ou seja, alguém facilitou a entrada deles aqui”.

Não se trata de gostar do governo ou não; de aprovar as suas escolhas ou não; de considerar que Lula tem feito as escolhas corretas ou não. Estamos falando dos fundamentos do estado de direito e da democracia. Creio que os registros estão se confundindo. Poderia enumerar aqui os textos que juntam os erros do governo no caso do vazamento com o inconformismo do seu escriba com o arcabouço fiscal ou com as declarações do presidente sobre a Ucrânia. É uma insanidade. É a avaria nos radares morais e nos sensores que identificam ameaças à ordem democrática.

POR QUE É ASSIM?

Por que é assim. Há várias respostas, que requerem muitos outros textos, e não fugirei deles. Uma delas está enunciada no parágrafo anterior: não se está sabendo a fronteira entre a reprovação a medidas do governo — coisa absolutamente legítima — e a tolerância com ameaças às instituições. De novo! Já passamos por isso a um custo gigantesco.

Pesa também o fato de que certos setores da imprensa, identificados com o que dizem ser “liberalismo” ou com a direita democrática se ressentem do que julgam ser falta de voz no governo e no debate público. Os conservadores que compõem o arco de alianças de Lula não os representam. A ojeriza da imprensa ao tal “centrão”, por exemplo, é gigantesca. Falta ao grupo aquele espírito doutrinário do antigo udenismo.

Há mais: dão esses de barato, coisa em que absolutamente não acredito, que o bolsonarismo já está inviabilizado como alternativa de poder. As circunstâncias que o levaram ao poder não se repetirão, e sua notável desorganização política não será capaz de guindar, de novo o grupo ao poder. Assim, exterminada essa vertente do extremismo como alternativa de poder, restaria fulminar a outra: isso a que chamam “lulismo” ou “lulopetismo”. E, assim, combater-se-iam os dois polos considerados nefastos em benefício do centro perdido… Ocorre que o bolsonarismo é, sim, de extrema-direita, mas o petismo não é de extrema-esquerda.

Chega-se mesmo a ver no país um tipo realmente autóctone, inencontrável em qualquer outro lugar: o “extremista de centro”. Mas isso, de fato, será matéria para outros artigos.

CONCLUO

Sim, estou, e deixo claro com frequência, entre aqueles que consideram virtuoso o governo em seus menos de quatro meses — e não quatro anos — de mandato. É evidente que é matéria para controvérsia. E isso nos coloca a todos, entendo, no terreno dos embates democráticos.

O que me incomoda, nessa tentativa de reeditar o golpe — porque o objetivo é evidenciar uma suposta e absurda cumplicidade do governo com o ataque golpista para inviabilizá-lo —, é a imprudência com que imprensa e colunistas passaram a dar piscadelas para o perigo, indagando à pessoa estuprada se, na verdade crua, não acabou sendo cúmplice do estuprador.

Antes que os idiotas sugiram que comparo crimes distintos, relembro: trato de posturas morais e éticas diante do agressor e do agredido. É indecente que jornalistas, que têm um compromisso necessário com a liberdade e a com democracia, digam a Lula que ele não soube cuidar direito das suas cabras, mesmo sabendo que o bode do bolsonarismo estava solto. Trata-se de um comportamento liberticida.

Linguagem emprestada

Os homens fazem sua própria história, mas não a fazem como querem; não a fazem sob circunstâncias de sua escolha e sim sob aquelas com que se defrontam diretamente, legadas e transmitidas pelo passado. A tradição de todas as gerações mortas oprime como um pesadelo o cérebro dos vivos. E justamente quando parecem empenhados em revolucionar-se a si e às coisas, em criar algo que jamais existiu, precisamente nesses períodos de crise revolucionária, os homens conjuram ansiosamente em seu auxílio os espíritos do passado, tomando-lhes emprestado os nomes, gritos de guerra e as roupagens, a fim de apresentar-se nessa linguagem emprestada

Karl Marx, “O 18 Brumário de Luís Bonaparte”

Uma pausa

Hoje em dia é difícil encontrar fôlego para pensar no ontem. Simplesmente não sobra espaço para o passado. Nossa tão fragmentada atenção é disputada o tempo todo por notícias, fatos e factoides — e estes, já no instante seguinte, são atropelados por mais notícias, mais fatos e mais factoides. Não espanta que vivamos num acelerado estado de inútil combustão mental, física, afetiva. Na semana passada, para o 80º aniversário do Levante do Gueto de Varsóvia, nem mesmo a imprensa europeia conseguiu deter-se com o merecido vagar sobre efeméride tão marcante para a Humanidade. Uma lástima, considerando a selvageria da atual guerra na Ucrânia, logo ali ao lado, e o ressurgimento do neonazismo acoplado ao antissemitismo por toda parte.

Foi num 19 de abril de 1943 que os judeus aprisionados feito gado num pedaço da capital da Polônia pegaram em armas. Do total inicial de 400 mil socados naquele gueto, mais de 250 mil já haviam sido deportados para os campos de extermínio nazistas. O levante destinava-se a tentar interromper as deportações. Os insurgentes sabiam que jamais venceriam as tropas nazistas. Também sabiam ser quase impossível sobreviver ao levante. Mas queriam, pelo menos, ser os donos do que lhes restava de vida. E ser donos da escolha de onde e como morrer.


Nas comemorações deste 19 de abril de 2023, que começaram com sirenes uivando por toda Varsóvia, os três chefes de Estado alinhados no pódio eram um retrato das idas e voltas da História.

— Todo aquele que semeia o ódio e pisoteia as pessoas também pisoteia os túmulos dos heróis do Gueto de Varsóvia (...) e de quem os ajudou — discursou o ultraconservador presidente polonês Andrzej Duda, cujos patrícios antepassados ajudaram, e não foi pouco, a insânia de Hitler.

— É imperativo lembrar que este trágico capítulo da História (...) oferece a plataforma para um importante diálogo entre a Polônia e Israel — pontuou o presidente de Israel, Isaac Herzog, sinalizando quanto ainda há pela frente.

O presidente Frank-Walter Steinmeier, em sintonia com uma Alemanha que há décadas encara seu passado, foi o mais direto:

— Cada crime cometido pelos alemães precisa ter espaço em nossa memória — disse.

Os três estadistas traziam um narciso em papel amarelo colado na altura do peito. Outros 400 mil narcisos haviam sido distribuídos entre moradores da capital para ser portados com sentimento. O número faz referência aos 400 mil judeus do gueto. A flor amarela simboliza o levante desde que Marek Edelman, último sobrevivente da resistência, passou a receber em casa, pontualmente a cada 19 de abril, um misterioso buquê de narcisos amarelos. Edelman morreu em 2009, aos 90 anos. O remetente das flores permanece anônimo até hoje. Culpa? Fraternidade? Demônios interiores? Toda guerra tem sua cota de continuidade indelével.

Logo à entrada do que é hoje o Memorial de Auschwitz, do lado direito do infame letreiro Arbeit Macht Frei, um imenso salgueiro plantado muito antes da Segunda Guerra Mundial continua de pé. Está intacto e saudável, ao contrário de três álamos históricos de mais de 90 anos que tiveram de ser derrubados na década passada. Segundo levantamento da entidade de conservação, restam do antigo complexo Auschwitz I, Auschwitz-Birkenau e Auschwitz III apenas duas castanheiras, oito álamos, dois carvalhos e menos de 20 bétulas de mais de 90 anos. Testemunhas silenciosas dos crimes ocorridos naquele chão, essas árvores são reverenciadas em prosa e verso por sobreviventes. “Muitos, como eu, queríamos escalar até o cume e sair voando.../As árvores viram tudo, ouviram tudo,/e como é seu costume,/cresceram, abriram folhas, e permaneceram em silêncio”, escreveu em poema Halina Birenbaum.

Também o 11 de Setembro de 2001, que fez ruir não só as Torres Gêmeas de Nova York, mas todo um mundo que parecia ordenado, tem uma testemunha fincada no solo. Foi encontrada entre as montanhas de ruínas, um mês depois do atentado. Tinha o tronco quase carbonizado, as raízes esmigalhadas e o DNA incerto. Ainda assim, foi depositada como porcelana rara aos cuidados do Departamento de Parques da cidade. Nove anos depois de arrancada pela força do ódio, ainda magrela, porém sadia, pôde ser replantada no local onde nascera. Hoje, essa pereira vistosa e abundante, rebatizada de Árvore da Sobrevivência, vive rodeada de visitantes. A cada ano, também fornece três plantas para comunidades que sofreram alguma tragédia recente, como a cidade de Parkland, onde foram mortas 17 pessoas em chacina escolar em 2018, ou Porto Rico, onde o Furacão Maria deixou um saldo de quase 3 mil mortos.

Hoje sendo domingo, cabe uma pausa na tirania do ininterrupto ser-estar-fazer-postar-ouvir-reagir-clicar. Dar tempo à poesia, à arte, ao pensar solto. No inverno mais amargo de 1916, com a Europa afundada no horror da Grande Guerra, imensas lonas de camuflagem militar começaram a pontilhar uma região campestre do conflito. Destinadas a esconder peças de artilharia do Exército Imperial Alemão, elas destoavam do protocolo bélico. Tinham coloridos ardentes e formatos inesperados, de beleza absurda. Foram criadas pelo então soldado, mas já mestre do expressionismo alemão, Franz Marc. O artista morreu nas trincheiras um mês depois de “tentar pintar o lado espiritual da natureza” em lonas de guerra. Soube viver.

sábado, 22 de abril de 2023

Brasil esquecerá?


É muito importante a gente não deixar o que foi plantado nos últimos quatro anos seja esquecido
Jair Bolsonaro em teleconferência para evento em Mato Grosso

O que faltou dizer sobre Janja e a gravata que comprou para Lula

Onde está escrito que a imprensa tradicional, dita séria, que antes não se rendia amiúde à frivolidade, tenha hoje que estar a reboque das redes sociais, na maioria das vezes a repercutir o que ali se publica primeiro e quase sempre com estardalhaço?

Janja, a primeira-dama, assim que o marido presidente se instalou no confortável Hotel Tivoli, em Lisboa, para sua primeira visita de Estado a Portugal, saiu por uma porta lateral e foi a uma loja de roupa masculina comprar uma gravata para ele.

É uma loja de grife na Avenida da Liberdade, a poucos metros do hotel, da marca italiana Ermenegildo Zegna. Na pressa insana para competir com as redes, os primeiros relatos da imprensa deram conta de que mal chegara de viagem, Janja fora logo às compras.

Antigamente, dava-se ao repórter o tempo necessário para que apurasse uma história e a escrevesse com algum primor. Agora, deve apurar e escrever rapidamente mesmo que a história esteja incompleta. Janja voltou com uma sacola, disseram alguns.

Só mais tarde souberam que dentro da sacola havia uma gravata. E que sua estadia na loja durou apenas 20 minutos. A maioria omitiu que Janja não pagou a gravata com o cartão corporativo. Significa que pagou com seu próprio dinheiro ou com o do marido.

Mas registrou-se, em espaço generoso, o que àquela altura os bolsonaristas nas redes sociais diziam a propósito: “A mãe dos pobres foi às compras em loja de luxo”; “Essa mulher é uma vergonha nacional”; “Será que ela pagou com Pix?”.

O “outro lado da questão” não pode ser uma camisa de força. O jornalismo independente nada tem a ver com isso. Uma imprensa digna de respeito não deveria comportar-se como mera extensão das redes onde Sua Excelência, O Algoritmo, é quem manda.

Bumba-Meu-Poeta

Tomemos conta depressa

deste reino universal
antes que alguém mais esperto
passe na frente da gente.

Tomemos conta depressa
deste reino universal
Eletrifiquemos o reino;
distribuiremos chuchus
aos pobres e torcedores,
bananas aos discordantes
Murilo Mendes, "O menino experimental"

A chibata

– Vovô, eu estava trabalhando, para sustentar meus três filhos. Aquela mulher veio e me bateu com a coleira do cachorro. Me tratou como menos que o cachorro dela. Tomei chicotada que nem escravo. Por que essas coisas acontecem, Vovô?

– Ai, se um dia nóis se respeitasse! Dum jeito assim qui nem qui a gente faz com quem gosta… Num precisa de chamego pra gostá. Mais precisa gostá pra tê chamego. Pra gostá só carece respeito. Pur isso o respeito é qui se tem que querer, qui é pra gente se gostá.

Hoje, a gente num se respeita. A gente bate e apanha e batê e apanhá num é coisa de gente. Nem de bicho. Mas é o que a gente, qui num é bicho, faz cum gente. E faz dum jeito qui tem uns qui só bate e otros que só apanha. Uns qui sabe qui pode batê e otros qui já sabe qui vai apanhá sem recramá. Purqui si recramá, apanha mais duma vez.


Quem bate tem dinhêro e istudo. Sabe falá umas coisa com palavra difícil de se falá e mais difícil ainda de intendê. A gente diz que é gente qui fala bonito e chama de dotô. Mais num tem beleza no qui fala não. Falta uma coisa assim de música no falá. E a gente tumbém sabe qui nem é dotô di sabê tudo, mais de sabê dumas coisa qui ninguém dêxa a gente sabê. Purqui si a gente sabê, vai querê falá disso tumbém. E ninguém qué qui a gente fala nada. Só qué qui nóis trabaia. E se num trabaiá, apanha.

Di nós, eles só qué sabê no trabaio. Tudo quieto. Dócil, eles diz. Purqui p`rêles nóis é até doce quando fica quieto rino fazendo di conta qui num vê que ninguém vê nóis di verade. Vê como coisa. Di si compra, vendê ou quebrá. E eles inté briga entre eles quano um deles vê a gente e fala da gente feito gente. É gostoso de se ouvi. É o gosto do respeito. Nóis pode ser dócil, mais queria memo era ter o gosto de respeito.

Eu passei minha vida assim, fio, trabaiano, apanhano e às veiz cantano. I quando cantava era um furdunço! Eles num sabia se dançava o si batia de vê nóis cum aligria! Eles num pudia si alegrá com o que nóis fazia e nem dexá nóis ficá alegre. Alegria era ruim naquele tempo. Mas no fundo era o que todo mundo, nóis i eles quiria. Daquela tristeza, nóis tudo era escravo.

Mais agora, fio, eu fiz minha passage. Num tô mais nesse mundo e só venho aqui assim, muntado nesse cavalo pra falá cum os fio qui nem vóis. Eu até achei qui esse mundo ía dexá a vida di escravo pra trás. Mais eu fico numa tristeza grande quano vejo os fio de hoje, cês qui tão vivo, qui dizem qui num são mais escravo, apanhano qui nem nóis apanhava. Eu fico triste di vê qui ainda tem gente qui pensa qui pode batê. E bate nos fio. Dispois, fala cumas palavra difícil qui tá duente da cabeça. Tão duente é do coração, qui num vê ocêis qui nem gente. Duente dos ovídu, qui num iscuta o que cêis fala, só purque cêis fala errado. O mundo docês, fio, inda tá duente qui nem o meu tava. I só vai curá quano curá os coração dos fio qui bate e o coração dos qui apanha.

– Obrigado Vovô!

– Vai cum a bênção de Zambi e di Nosso Sinhô Jesus Cristo, qui sempre insinô qui nóis tudo é irmão…

E no terreiro de Umbanda, a gira seguiu noite adentro com fumaças, cantos e atabaques. Assustando uma vizinhança branca que se acha “do bem” e acha “do mal” qualquer coisa que venha de gente preta.

Da matança nas ruas à das escolas

A camiseta, anunciada no Mercado Livre, custa R$ 66,90. Na descrição das características do produto, consta que é “100% algodão”, “silk screen”, masculina, com gola redonda e manga curta. A camiseta preta, estampada de ódio em vermelho, já vendeu mais de 100 unidades. Ainda está disponível nos tamanhos P e GG e é enviada em até um dia útil depois do pagamento. Numa das dez fotos do anúncio, o autor de um massacre escolar nos Estados Unidos posa com uma camiseta igual.

O vendedor, do interior de São Paulo, tem o perfil mais qualificado do site pelo bom atendimento que presta e pela entrega dos produtos no prazo. Coloca-se à disposição para eventuais dúvidas. Toma a iniciativa de esclarecer a primeira delas: “Aviso à patrulha do politicamente correto, não incitamos, não fazemos apologia, somos contra qualquer tipo de violência, seja essa física ou verbal! Assim como somos contra bullying e a favor da livre manifestação de toda e qualquer forma de expressão, menos apontamentos e terceirização de culpa”.


O anúncio é apenas um dos indícios do culto, originado nos Estados Unidos e replicado no Brasil, à dupla que perpetrou o ataque na escola em que estudava no estado americano do Colorado. Outros se seguiram nos Estados Unidos com um número ainda maior de vítimas, mas é a dupla de Columbine que segue sendo reverenciada. O mercado atende aos fãs com jogos eletrônicos e sites com fotos, passagens dos diários que ambos mantiveram nos anos em que planejaram o ataque e vídeos caseiros da dupla que foram apreendidos, mas seguiram em circulação.

A efeméride de 20 de abril, não por coincidência, dia do nascimento de Adolf Hitler, cultuado pela dupla, foi identificada pela equipe montada pelo Ministério da Justiça reunindo a Polícia Federal e policiais civis de todos os estados como responsável pela inflação de ameaças nas redes. Em dez dias, foram registrados mais de 1,5 mil boletins de ocorrência e 965 intimações para adolescentes prestarem informações.

As operações foram mantidas em sigilo para não aumentar o clima de pânico entre pais e alunos depois da morte de uma professora e quatro crianças em atentados que ainda deixaram outras 11 crianças e 5 professoras feridas. Os ataques ocorreram em apenas duas semanas, em uma escola estadual em São Paulo, numa creche municipal em Blumenau, numa escola adventista em Manaus e numa escola municipal no Ceará.

Das grandes crises que mobilizaram o aparato de segurança do Estado desde a posse de Lula - a invasão dos Poderes em 8 de janeiro, o combate ao garimpo ilegal na reserva dos Yanomamis e os ataques do crime organizado no Rio Grande do Norte -, esta é a mais disruptiva. E também aquela que o Ministério da Justiça considera a mais difícil de ser debelada porque não tem uma única causa.

Entre o bullying e o culto ao neonazismo, crianças e adolescentes viveram uma pandemia em que não apenas foram confinadas em ambientes familiares muitas vezes dominados por tensões e tragédias, como foram empurradas para a internet e para as redes sociais.

Se o antissemitismo foi cultivado por séculos antes de eclodir com o nazismo, a cultura da intolerância ganhou tração com o algoritmo. No levantamento do Instituto Sou da Paz, entre mortos e feridos de 2002 a 2022, identificaram-se 93 casos, excluindo-se os anos de 2020 e 2021, quando as escolas, em grande parte, funcionaram remotamente. O ano de 2022, com o retorno das aulas presenciais, trouxe um quarto dos ataques com armas de fogo desse período. No momento em que as escolas poderiam funcionar no acolhimento das agressões vividas durante a pandemia, acabaram por se transformar nos lugares em que a violência encontrou vazão.

Junto com o ano de 2023 chegou a onda de ataques com armas brancas - quatro, em duas semanas. A matriz de sua violência tem sido associada ao 8/1 não apenas pelo entorno do presidente Luiz Inácio Lula da Silva quanto pelo ministro do Supremo Tribunal Federal, Alexandre de Moraes. Se a intentona levou a um cerco crescente por maior regulação das redes sociais, o ataque nas escolas acabou por torná-lo inevitável. Em ato no Palácio do Planalto, Moraes se indagou por que a inteligência oficial não poderia ser usada para identificar e remover das plataformas as mensagens de ódio.

As plataformas resistem não apenas a investir em alternativas capazes de impor barreiras a um modelo de negócios que potencializa a audiência de conteúdos extremistas como até mesmo a exigir a simples identificação dos usuários. No embate provocado pelos ataques às escolas, porém, nenhuma foi tão longe quanto o Twitter, que desafiou o MJ antes de voltar atrás na disposição ao diálogo.

O apelo da liberdade de expressão é usado tanto pela base bolsonarista como por parlamentares governistas contra a regulação das redes. Argumenta-se que a atuação do MJ faculta ao Executivo de plantão a discricionariedade da punição das redes sociais. As mortes, porém, podem levar o Congresso a sair da letargia e votar, ainda em abril, restrições e punições mais efetivas no projeto de lei das “fake news”.

Para pressionar o Congresso, o MJ resolveu editar uma portaria que permite a instauração de processo administrativo para apurar a responsabilidade das plataformas na propagação de conteúdos que incentivem ataques contra o ambiente escolar ou que façam apologia a esses crimes. Escudou-se na Lei de Defesa do Consumidor para livrar-se da acusação de que uma portaria não se sobrepõe a uma lei.

Esta lei é o Marco Civil da Internet, de 2014. Seu artigo, em nome da liberdade de expressão, condiciona a responsabilização de redes sociais por danos de conteúdo gerado por terceiros ao descumprimento de ordem judicial. A este artigo atribui-se parte da leniência das redes sociais na moderação de conteúdo.

A portaria ainda prevê que as plataformas sejam orientadas a impedir a criação de novos perfis a partir de endereços virtuais em que já tenha sido detectada a disseminação de conteúdo extremista. A resistência do Twitter, que alegou a inexistência de previsão legal para a portaria, só aumentou a disposição do STF de levar a julgamento a constitucionalidade do artigo 19 do marco civil. Os ministros estão determinados a pautar o tema - ou pelo menos assim se anunciam para pressionar o Congresso.

Quando Columbine apareceu no mapa-múndi, as redes sociais ainda engatinhavam nos EUA em plataformas restritas. Não por acaso, como contou Dave Cullen em “Columbine” (Darkside, 2019), foi em seu diário que um dos assassinos registrou: “Nos vingaremos [da sociedade] e então poderemos existir num lugar atemporal, num lugar cheio de alegria e de felicidade”.

A epidemia de assassinatos em escolas que tem invadido o Brasil demonstra a atualidade desse comportamento de matar para existir perante uma comunidade da qual se sentem alijados. São crimes anunciados e, muitas vezes, reproduzidos nas redes.

Este é um fenômeno que não existia no Brasil no início quando Lula chegou pela primeira vez ao poder. O paradigma da crueldade juvenil àquela época foi estabelecido por quatro jovens, que tinham entre 17 e 19 anos, quando atearam fogo e mataram o pataxó Galdino dos Santos num abrigo de ônibus em Brasília.

Pretendiam ser esquecidos pelo crime quando fugiram, mas a placa do carro em que estavam foi anotada. Eles foram presos, julgados e condenados, mas cumpriram metade da pena prevista. Vinte e seis anos depois, retomaram sua vida em liberdade.

O país voltou a ser sacudido em 2004, quando o país era governado por Lula, São Paulo, por Geraldo Alckmin, e a capital, por Marta Suplicy. Na madrugada de 19 de agosto daquele ano, dez pessoas que dormiam enroladas em cobertores no centro de São Paulo foram golpeadas na cabeça. Quatro morreram na hora e duas, no hospital. Três dias depois, um novo ataque contra cinco moradores de rua, também na capital paulista, matou um.

Em pesquisa sobre o tema, o antropólogo Daniel De Lucca registrou o esforço de moradores de rua da região em identificar os corpos e evitar a indigência. De um deles ouviu que, pelo menos na hora de morrer, dada a atenção despertada pela violência, eles poderiam ser tratados como gente com enterro em caixão de madeira. Deparava-se com a inserção social pela morte.

Em artigo para a coletânea “Novas faces da vida nas ruas” (Edufscar, 2016), organizada por Taniele Rui, Mariana Martinez e Gabriel Feltran, De Lucca recupera a pedregosa investigação que levou um ano e dois meses para pedir a prisão preventiva de cinco policiais militares e um segurança clandestino que teriam sido motivados ao crime por queima de arquivo. Até uma testemunha do crime foi morta durante a investigação. O caso até hoje perambula sem decisão definitiva no Judiciário.

O desfecho das mortes nas escolas não poderia ser mais distinto. Os três adolescentes foram presos em flagrante e o jovem de 25 anos que matou as crianças na creche de Blumenau se dirigiu até a delegacia para se entregar.

Mendigos nunca deixaram de ser mortos num país que renova a licença da coabitação do crime organizado com a multidão de indigentes que vagueia pelas grandes cidades. Criança assassinada em escola também não chega a ser novidade no país da bala perdida. O que parece diferenciar a conjuntura é que, além da violência gerada pelos extremos da degradação social, o país importou crimes de ódio potencializados pelas redes sociais.

Entre os assassinatos de moradores de rua e aqueles de crianças nas escolas está uma fração das mudanças pelas quais o Brasil passou. Das vítimas cuja existência foi reconhecida pela morte à leva de jovens que almeja reconhecimento pelo assassinato de semelhantes, as redes sociais aumentaram o alcance do macabro espetáculo da polarização.

sexta-feira, 21 de abril de 2023

Brasil Grande


O Brasil é realmente muito amplo e luxuoso. O serviço é que é péssimo
Millôr Fernandes

Pedagogia como prática de segurança

Fazia poucos anos que Paulo Freire havia retornado do exílio quando, em um almoço de família na casa de minha sogra, o próprio professor nos disse que gostaria de ter dado mais ênfase, em sua pedagogia, aos aspectos da educação relacionados com geração de renda e inclusão econômica.

Considerando a importância que o problema da segurança pública alcançou ultimamente no Brasil, não seria exagero imaginar que, se aquele almoço acontecesse hoje, Paulo falaria, quem sabe, do seu interesse em associar uma ‘pedagogia da paz’ ao seu método educativo.

Por coincidência, Paulo Freire era filho de um policial militar de Pernambuco, o capitão Joaquim Temístocles. Ainda assim as influências da infância pobre e do testemunho da vida nordestina difícil pesaram mais na sua ‘educação como prática de liberdade’.


Por isso mesmo, é possível imaginar uma reflexão sobre a promoção da paz nas áreas urbanas sob a ótica do educador pernambucano. A ideia de que “as pessoas se educam entre si mediadas pelo mundo” coincide com a visão do urbanismo social de que a convivência humana diária nos espaços públicos é um pilar de uma sociedade segura.

Afinal, o mundo é cada vez mais urbano. No Brasil 85% da população vivem nas mais de 5.500 cidades. Imagine a intensidade dos contatos, relações, laços, conflitos, enfim, da convivência entre esses cento e setenta milhões de pessoas nas cidades.

Ao longo dos dias e noites, encontros e desencontros servem para formar condutas, princípios, personalidades, cultura, negócios e política. Nesse cenário, para ‘se educarem entre si’, as pessoas contam com a mediação de um mundo no qual a oferta de espaços públicos e de serviços pelo Estado é determinante do nível de segurança cidadã que se consegue obter.

As cidades brasileiras são multiplicadoras de desigualdade social, mesmo nas regiões metropolitanas que contam com melhor infraestrutura, mobilidade e segurança do que os municípios remotos. Prevalecem os espaços de convivência degradados, feios, escuros, quer sejam praças, calçadas, escolas, paradas de ônibus, quadras esportivas, postos de saúde, hospitais ou ruas (indutores do medo, rejeição e distanciamento social, favorecendo a vulnerabilidade ao crime).

Em outras palavras, os espaços públicos decadentes provocam uma sensação de insegurança nos cidadãos que inibe o seu exercício de direitos e liberdades. Ao mesmo tempo, esses vazios urbanos favorecem a perspectiva de êxito e impunidade para a prática de delitos e abusos.

Ao contrário, uma bela praça, conservada e iluminada, serviria como um ambiente mediador de relacionamentos pacíficos, que estimulem a solidariedade e a segurança. Já existem diversas experiências de espaços públicos que Paulo Freire certamente consideraria bons mediadores da educação recíproca entre seus habitantes.

No Brasil, temos exemplos que seriam aprovados pelo professor, como o COMPAZ, as Usinas da Paz, o CEU das Artes, as Praças de Esportes e a Rede de Bibliotecas Pela Paz. Mundo afora há os exemplos colombianos de Medellín e Bogotá e as Utopias em Iztapalapa, México.

A explicação de fatalidades no Brasil

A cultura popular brasileira tem um conjunto extenso de desculpas para explicar o aparentemente indesculpável. Há um esboço de linguagem para eximir de responsabilidade os prováveis responsáveis pelo inexplicável.

Em 2017, o ministro das Minas e Energia, em entrevista em Nova York, explicou como fatalidade o pavoroso desastre que atingiu a pequena localidade de Bento Rodrigues, no município de Mariana, em Minas Gerais, em 2015.

Foi quando a lama de uma barragem de dejetos de mineração, que se rompera, a recobriu em poucos minutos. Morreram 19 pessoas, uma área extensa no Vale do Rio Doce foi afetada, com água contaminada, abastecimento de cidades comprometido, solo afetado, grande número de pessoas desabrigadas, o meio ambiente danificado, a vida colocada entre parênteses. A maior tragédia ambiental da história do país.

A palavra fatalidade para explicar o que aconteceu pode ser utilizada no deciframento do acontecido como palavra analisadora-reveladora, que na sociologia de Henri Lefebvre é o atributo de palavras com força metodológica para desvendar acontecimentos da realidade social. Por que “fatalidade”? A barragem foi obra de engenharia, tudo calculável e previsível: a carga de rejeitos, seu peso, sua força, a capacidade da barragem para aguentá-la e, portanto, o limite de seu enchimento. O próprio risco para as 600 e tantas famílias do povoado abaixo da barragem.

Sendo tudo calculável e tendo ocorrido o desastre é ele indício de uma hierarquia de riscos por ele revelado. Sem o desastre, os riscos passariam para a história como riscos possíveis mas não prováveis, equitativamente distribuídos.

O desastre, como em outros casos, indicou que os riscos estavam desigualmente distribuídos. As pessoas, o ambiente natural, a vida, o outro e o que é do outro, desvalorizados em relação ao que interessava, que não eram eles. Essa hierarquia está presente na consciência social profunda da sociedade brasileira. Evidencia-se cada vez que ocorre um fato anômalo, previsível mas não esperado.


Muito mais grave do que o que aconteceu em Mariana foi o do número de mortos em decorrência da pandemia de covid-19, mais de 700 mil. Pesquisadores dos Departamentos de Física das Universidades Federais do Rio Grande do Norte e da Universidade Federal de Pernambuco desenvolveram um método para calcular a distribuição não homogênea dos efeitos da politização na fatalidade da covid-19.

Os pesquisadores levaram em conta 350 mil óbitos até o final de 2021 e calcularam a correlação entre óbitos e a votação nas eleições de 2018, tendo em conta que o candidato vencedor e seu governo perfilharam um discurso peculiar em relação à pandemia em oposição às recomendações da ciência e dos cientistas.

Roraima, Rondônia e Mato Grosso foram estados com níveis altos de votação em favor do que veio a ser eleito para a Presidência da República. Foram também os estados em que foi alta a fatalidade. Piauí, Bahia, Maranhão, Paraíba e Ceará, estados do Nordeste, onde o eleito não foi majoritário, foi menor a taxa de fatalidade.

Onde a retórica oficial sobre a pandemia foi hostil à ciência, os indícios são de que a população foi menos sensível aos esclarecimentos e aos apelos da ciência, o que provavelmente foi influente nas causas de maior letalidade decorrente. E vice-versa. Onde a prévia opção ideológica e eleitoral não se alinhou com a proposta vencedora, a população, sendo menos vulnerável à retórica anticientífica da direita, ficou mais protegida contra os riscos da doença. De certo modo, o problema já havia aparecido nas reuniões, denúncias e conclusões da eficiente CPI da Covid.

Em momento mais recente, o secretário da Educação do Estado de São Paulo definiu como fatalidade o assassinato de quatro crianças numa escola da zona oeste da capital por um adulto que a invadiu.

Todas essas fatalidades e muitas outras mais, como o brutal linchamento de uma mãe de família, no Guarujá, em São Paulo, há poucos anos, em princípio, tem uma explicação. A sociedade brasileira está cada vez mais mergulhada num profundo estado de anomia, na definição da sociologia. A sociedade já não dispõe, na extensão necessária, de normas e valores sociais de referência para nortear a conduta individual e a conduta coletiva.

Em graus variáveis, a anomia existe em todas as sociedades, em níveis compensáveis pela vontade coletiva em favor de elementos de identidade e de concepções relativas ao primado do bem comum. O que vem sendo chamado de política do ódio tem o deliberado propósito de dividir a sociedade, criar insegurança e medo, tornar a fatalidade mais do que um pretexto, um instrumento de controle social e político. A fatalidade se tornou um poder.

Carta a um otário do 8/1

Se você participou como estrategista, financiador, agente operacional, terrorista ou simplesmente otário na intentona bolsonarista de 8/1 em Brasília, parabéns. Candidata-se a uma temporada numa colônia de férias do Estado, com três refeições diárias, tempo de sobra para ler e banho de sol uma vez por semana, tudo grátis. E, se for um general ou agente público que se omitiu na proteção dos Três Poderes ou apoiou os acampamentos diante do Q.G. do Exército, talvez possa desfrutar também dos confortos da nossa hotelaria prisional.

Tudo dependerá do STF, órgão que você tanto combateu. Os ministros acataram as denúncias oferecidas pela PGR e estão votando para decidir se o tornam réu, assim como a outros 99 dos seus colegas. Se forem aceitas as denúncias —o que você acha?—, serão abertas ações penais e, a partir daí, o STF o considerará apto para o julgamento final. E não fique mascarado, mas você fez por merecer essa distinção. Duvida?

Propagar ideias antidemocráticas, empregar substância inflamável contra o patrimônio da União, deteriorar e inutilizar patrimônio tombado, incitar animosidade das Forças Armadas contra os poderes constitucionais, promover associação criminosa, participar de ação armada para a abolição violenta do Estado Democrático de Direito —leia-se golpe de Estado— e muito mais. Tudo isso é crime, imagine. Coleta de provas? Facílima: você mesmo se fotografou, filmou e gravou abundantemente com seu celular.

Mas eu concordo: é injusto que currículo tão rico seja exclusivo de vocês do 8/1. Todas essas façanhas poderiam ser atribuídas também a Bolsonaro, sem cuja pregação intelectual, psicológica ou de planejamento elas não teriam acontecido.

Em vez disso, enquanto você vê o sol nascer quadrado, Bolsonaro continuará à solta, serelepe, grana no bolso, feliz da vida e tão aí para você quanto esteve para os mortos da Covid.