quinta-feira, 17 de novembro de 2022

Uma voz nova no planeta

Dois Brasis fazem parte da numerosa delegação que foi a Sharm El-Sheikh, no Egito, para a COP27 (27ª Conferência das Partes). Patrocinado pela ONU, o encontro reúne lideranças dos quatro cantos do mundo para discutir o desafio comum das mudanças climáticas. O Brasil do presidente vencido nas urnas, nos estertores de seu desgoverno, foi cumprir tabela, encerrando, com um murmúrio, quatro anos de desmantelamento da imagem da nação.

O outro Brasil, representado por governadores e demais autoridades subnacionais; personalidades ligadas à defesa do meio ambiente; organizações da sociedade civil; empresários e — sobretudo — pelo presidente eleito, compareceu para mostrar o quanto se avançou na percepção dos inúmeros riscos ambientais aqui presentes e nas propostas para enfrentá-los. Desde 2019, amadureceu a consciência da importância da defesa do patrimônio ambiental para o desenvolvimento e a projeção externa do país.


No último ano, multiplicaram-se estudos e propostas para lidar do ponto de vista brasileiro com o que a ONU considerou serem as dimensões da tríplice crise planetária: mudança climática, poluição e perda da biodiversidade. A peça mais abrangente e ambiciosa se intitula "Clima e estratégia internacional — novos rumos para o Brasil". O documento, prefaciado pelo ex-chanceler Celso Amorim, de autoria da socióloga Adriana Abdenur, da ex-ministra do Meio Ambiente Izabella Teixeira, do ex-governador da Bahia, hoje senador Jacques Wagner, e do advogado Pedro Abramovay, foi levado por seus redatores para a COP27.

Proposta inovadora, instala o meio ambiente no centro da política externa brasileira, entrelaçada à busca de formas sustentáveis de desenvolvimento interno. E tem como premissa que a distribuição dos custos e responsabilidades da defesa do planeta há de estar baseada na chamada "justiça climática’’: o imperativo de garantir os direitos de pessoas, populações e países mais vulneráveis.

Com os seus limitados recursos econômicos e militares, o Brasil possui poucos trunfos no jogo duro da política internacional. Não é assim na esfera climática. Nela o país é crucial para o destino da vida na Terra. Eis por que é impossível subestimar a importância da proposta que reestrutura as prioridades da ação externa em torno às saídas para a crise do clima e as lastreia em uma variedade de políticas domésticas. Já a proximidade dos autores com o PT é auspiciosa pela mudança que poderá acarretar à agenda partidária. Que o poderoso discurso do presidente eleito Lula tenha ido no mesmo diapasão mostra que o país volta ao mundo com nova voz.

Mercadinho Brasil

 


O lábaro estiolado

No feriado de 15 de novembro, data da Proclamação da República, subiu um pouco o número de pedestres que se concentram em frente a quartéis de algumas cidades brasileiras para requisitar um golpe de Estado. Tem sido assim desde que o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) proclamou o resultado das urnas, dando a vitória a Luiz Inácio Lula da Silva. A turma que não se conforma exige que as baionetas anulem a eleição. Uma das faixas desfraldadas em São Paulo, diante da sede do Comando Militar do Sudeste, ao lado da Assembleia Legislativa, anteontem, resumiu bem o espírito do pessoal: “Nação brasileira implora por socorro – SOS Forças Armadas”.


Como nomear esse tipo de coisa? Com acerto, a imprensa vem se valendo de adjetivos precisos: “atos golpistas”, “manifestações antidemocráticas” ou “inconstitucionais”. É o que são, de fato. Na linguagem do jornalismo, o emprego de qualificativos criteriosos dá mais objetividade, e não menos, ao que se descreve. Um ato público que solicita uma ruptura violenta da ordem democrática só pode ser definido como golpista, assim como um cidadão que tem nacionalidade brasileira e dispõe de passaporte brasileiro só pode ser definido como um cidadão brasileiro. As aglomerações às portas dos quartéis trazem uma pauta de reivindicações inconstitucionais e ilegais. Logo, são golpistas. Dar o devido nome aos fatos, com substantivos e adjetivos, é um dos deveres mais valiosos da imprensa – e é exatamente esse dever que a imprensa está cumprindo quando chama de golpistas as manifestações golpistas.

Não adianta dizer que são apenas reuniões “pacíficas” e “ordeiras”. Não são, não senhor. Do mesmo modo que uns minguados caminhoneiros bloquearam estradas pelo País afora, num levante criminoso e até agora muito mal explicado, esta turma quer estrangular as vias do Estado Democrático de Direito. Mais do que os caminhoneiros sabotadores, querem inviabilizar o País. O seu propósito não tem nada de “pacífico”, não tem nada de “ordeiro”. Quanto aos quartéis, em vez de se esgueirar na ambiguidade melíflua, deveriam se considerar ofendidos com o assédio da barbárie que se amontoa ao redor de seus muros.

O que mais chama a atenção, contudo, é o mau gosto infantiloide que há nisso tudo. As imagens mostram adultos em trajes auriverdes perfilados sobre o asfalto para brincar de “marcha-soldado”. O golpismo da temporada tem uma nota pueril, por mais que seja perverso. Uns batem continência. Outros marcam passo, desengonçados e balofos, como escoteiros da terceira idade. Sempre aparece alguém tocando corneta (e mal). Como crianças amedrontadas, pedem “socorro” à força bruta para dar cabo de assombrações que não existem. Um lá fez discurso e disse que os apartamentos de mais de 60 metros quadrados serão ocupados e repartidos pelo novo governo. Delírios imobiliários. O atual presidente (agora empenhado no abandono de emprego) se reuniu com Geraldo Alckmin e pediu a ele que ajudasse a livrar o Brasil do “comunismo”. Delírios reacionários. Um fantasma ronda a imaginação devastada dos crianções envelhecidos: o fantasma do fantasma do fantasma do comunismo.

A vestimenta dos circunstantes também merece registro. O pendão nacional virou um adereço prêt-à-porter que as senhoras mais ricas usam como um lenço, uma écharpe tropical. Os homens tendem a vestir a mesma peça como se fosse uma capa de super-herói, e há os que improvisam um capuz quando chuvisca. O lábaro emoldura o bárbaro estrilado.

Que espetáculo desconcertante. Quando vemos as vagas em verde-amarelo pela televisão, a cena parece saída de um daqueles filmes de zumbis. Os tipos que se movem na tela, implorando a intercessão da brutalidade, lembram mortos-vivos políticos adornados pelo estandarte pátrio e armados de telefones celulares. Deserdados pela ditadura militar extinta, transitam num limbo entre a tirania defunta e a ordem democrática em formação. Eles não souberam se desprender do que a História já cuidou de sepultar e não se sensibilizam com o que a Nação presente tenta construir.

Com ares de comédia, o que vem se desenrolando é uma tragédia. Seria um erro zombar da situação. Dia destes, em Nova York, ao ser importunado por alguém que o perseguia na calçada com um celular dizendo frases de morto-vivo político, o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Luís Roberto Barroso virou o rosto para trás, sem diminuir o passo, e disparou: “Perdeu, mané. Não amola”. A tirada do magistrado soa sardônica, mas o impasse é grave. As forças que procuram fazer regredir a roda da História nacional não estão aí a passeio. Por um triz, não ganharam as eleições. Suas performances são cafonas, sua estética é jeca e seu discurso, infantil, mas nunca, desde a redemocratização, estiveram tão organizadas e tão determinadas como agora.

As pequenas multidões de camisa amarela que agora acampam nas cercanias da soldadesca têm lá o seu quê de ridículo, mas o que elas expressam é mais profundo e ameaçador. Os golpistas que sequestraram e estiolaram as cores 
nacionais ainda vão dar muito trabalho. As instituições que se preparem.

O novo Brasil de Lula e sem Bolsonaro

O turbulento Brasil de Bolsonaro com suas conotações fascistas desapareceu? O Brasil luminoso de Lula voltou com suas conquistas sociais? Existe hoje um Brasil novo, sem precedentes, cujo objetivo final ainda é desconhecido? Essas são algumas das perguntas feitas por brasileiros que tremiam diante de um possível golpe militar.

Ainda não é fácil responder com certeza a essas perguntas, já que a situação no Brasil se desenvolve sob as areias movediças da incerteza. Bolsonaro perdeu as eleições, mas seus anfitriões continuam ferozes e não se contentam com a derrota. Isso é demonstrado pelas manifestações das centenas de caminhoneiros acampados em Brasília em frente ao reduto militar exigindo o golpe.


É verdade que os militares, dos quais mais de 6.000 foram colocados no governo por Bolsonaro, aceitaram a derrota do ex-capitão de extrema-direita, mas continuam mantendo uma atitude um tanto ambígua.

Os seguidores do líder de direita estavam confiantes de que a vigilância que o Exército mantinha antes das eleições, mesmo contra a Constituição, poderia levar à anulação do plebiscito que conferia a derrota do mito.

A reação dos militares era a última esperança de Bolsonaro e seus seguidores. Esperavam ter encontrado algum meio para contestar o resultado da derrota eleitoral. Isso não aconteceu, pois o documento de 70 páginas elaborado pelas Forças Armadas revelou que não foram encontradas falhas importantes para anular o resultado das urnas. Os seguidores de Bolsonaro não se conformaram e exigiram um novo posicionamento dos militares, mobilizando centenas de caminhoneiros em Brasília.

Em um segundo documento, o Exército quis presentear os bolsonaristas revoltados e declarou que, embora não tenham sido detectadas falhas nas urnas, isso não significava que não pudessem ser vulneráveis. Foi uma resposta diplomática, que não disse nada.

Tudo isso deu à equipe vitoriosa de Lula, amparada por dez partidos que vão da extrema esquerda à direita liberal não golpista, uma nova força para se mostrar eufórica e com mãos livres para realizar as reformas, especialmente as sociais. Assim, as verdadeiras lágrimas de Lula foram vistas com bons olhos quando ele afirmou que seu sonho é que ao final de seu mandato não haja um único brasileiro que não consiga comer três refeições por dia.

Não há dúvidas de que o novo governo Lula será fortemente marcado por seu caráter social e não ideológico. Onde a polêmica ainda pode irromper é na formação de seu novo governo, que pode não ser fundamentalmente de seu partido, o PT, mas de uma gama de partidos que vão da esquerda ao centro e à direita liberal.

Daí as dificuldades que Lula está tendo para escolher alguns de seus principais ministros, da Economia ao Meio Ambiente e ao Itamaraty, já que pretende restabelecer as relações do Brasil com o resto do mundo após o isolamento a que Bolsonaro o condenou.

Daí a importância da recepção que Lula começou a ter na Cúpula do Meio Ambiente, no Egito. Será seu primeiro teste internacional, já que nessas cúpulas Bolsonaro foi bastante evitado pelos demais chefes de Estado para não se comprometer com suas alucinações do golpe e da extrema-direita fascista.

Tudo isso é importante neste momento para Lula, que não pode se enganar nem esquecer que não foi eleito apenas pela força de seu partido, mas porque criou um bloco de forças, todas elas democráticas, capazes de enfrentar o bolsonarismo em suas raízes.

Como destacou Catarina Rochamonte em sua coluna no jornal O Globo: “Não há carta branca para o novo governo. Se a maioria dos brasileiros fez uma varredura dos enormes erros cometidos pelos governos petistas, não foi por amor a Lula, mas por horror a Bolsonaro”.

De fato, é uma verdade que começa a se mostrar importante na formação do novo governo Lula. O que talvez menos importe agora é que o PT aproveite a ocasião para colocar na nova administração o maior número possível dos seus quadros, mas sim que contribua na montagem de uma frente forte contra o bolsonarismo, que é a grande ameaça à democracia.

São aqueles momentos da história em que surgem verdadeiros estadistas, capazes de afugentar os monstros da desintegração política e das tentações autoritárias. A verdade é que para Lula, que jura que esta será sua última aventura política, pode ser o momento em que se firme como um verdadeiro estadista capaz de tirar o Brasil do inferno.

Os novos subversivos

É tocante: homens, mulheres e crianças fantasiados de verde-amarelo e enrolados em bandeiras, ajoelhados e de mãos postas diante dos quartéis, implorando que os militares salvem o Brasil. Esta salvação consiste em impedir, a sabre e cavalo, a posse do presidente eleito e manter no poder o derrotado, parece que ainda em exercício. Como a alternância do poder pelo voto direto é uma condição da democracia e, segundo a Constituição, o Brasil é um estado democrático de direito, é acintoso que se pregue aberta e impunemente um golpe de Estado. Mas o que espanta é que os quartéis ouçam toda essa subversão e fiquem em silêncio.


A palavra subversão já foi mais bem cotada na tropa. No dia 13 de março de 1964, uma multidão diante do antigo Ministério da Guerra, na avenida Presidente Vargas, no Rio, exigia que o presidente da República, João Goulart, desse um golpe preventivo contra as forças que, todos sabiam, se aglutinavam para derrubá-lo. Os generais de então viram naquele apelo uma "subversão da ordem" e derrubaram Goulart.

Hoje, os subversivos usam o sinal trocado, mas a soma é igual: a subversão da ordem democrática, pregada diante de prédios militares. A diferença é que, para as atuais Forças Armadas, isso não é mais subversão, mas "liberdade de expressão".

Para os fardados de 1964, os subversivos eram financiados por Moscou. Em 2022, Moscou tem mais o que fazer do que financiar subversões no Brasil. E nem os atuais subversivos precisam de apoio externo — são bancados por brasileiros mesmo, como empresários do agro e do tiro, pastores, políticos e policiais, que lhes fornecem segurança, transporte, comida, água, abrigo, bandeiras e as frases, inclusive em inglês, para as faixas que eles desfraldam em praças e estradas.

E, quem sabe, uma diária para fazê-los expressar com mais fervor essa liberdade que soa como música para os militares.

quarta-feira, 16 de novembro de 2022

Brasil bolsonarista

 


O general e a gênese do golpismo castrense

Desde de 1964, nunca houve tanta agitação a favor de um golpe militar como a que estamos assistindo desde a eleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Ontem, Dia da Proclamação da República, seria apenas mais um dia em que gente muito fanática, defensora de uma intervenção militar, protestasse à porta dos principais comandos militares do país, entre os quais os do Planalto, em Brasília — onde reside a maioria dos generais de quatro estrelas —, e no Rio de Janeiro, que abriga o maior contingente militar do país. Seria apenas mais um dia de vigília bolsonarista, não fosse o Twitter do general Eduardo Villas Boas, uma indiscutível liderança militar, endossando as manifestações golpistas e pondo mais lenha na fogueira.

O ex-comandante do Exército poderia ter ficado na dele, mas não: decidiu surfar os protestos para reafirmar sua liderança junto aos descontentes com a derrota do presidente Jair Bolsonaro e, talvez, na tropa que está na ativa. “A população segue aglomerada junto às portas dos quarteis pedindo socorro às Forças Armadas. Com incrível persistência, mas com ânimo absolutamente pacífico, pessoas de todas as idades, identificadas com o verde e o amarelo que orgulhosamente ostentam, protestam contra os atentados à democracia, à independência dos poderes, ameças à liberdade e as dúvidas sobre o processo eleitoral”, afirma.


Com isso, o velho general alimentou ainda mais as infundadas críticas e maliciosas suspeitas ao resultado das urnas, com a mesma ambiguidade com que Bolsonaro silencia diante do resultado oficial da eleição, e não reconhece publicamente a inequívoca vitória de Lula. Pelo custo e envergadura da mobilização, que ontem completou duas semanas, é evidente a existência de um forte movimento de extrema-direita, organizado com o propósito de melar a posse do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Villas Boas critica a imprensa por não dar aos manifestantes a importância que gostaria: “Talvez nossos jornalistas acreditem que ignorando a movimentação de milhões de pessoas elas desaparecerão. Não se apercebem eles que ao tentar isolar as manifestações podem estar criando mais um fator de insatisfação. A mídia totalmente controlada nos países na Cortina de Ferro não impediu a queda do Muro de Berlim. A História ensina que pessoas que lutam pela liberdade jamais serão vencidas”, afirma.

Com fina ironia, inverteu o significado histórico de um velho bordão das esquerdas contra as ditaduras: “O povo unido jamais será vencido!”. No dia 29 de outubro, véspera da eleição, Villas Boas havia publicado um tuíter no qual traçou um cenário catastrófico em caso da vitória de Lula, o quem tudo a ver com a sua manifestação de ontem.

Não poderia haver data mais simbólica para a manifestação e a posicionamento de Villas Boas. A Proclamação da República foi um golpe militar, que se apropriou do movimento republicano com o propósito de implantar uma ditadura, como acabou ocorrendo por duas vezes, na Revolução de 1930 e no golpe militar de 1964. O Marechal Deodoro da Fonseca (1827-1892), principal chefe do Exército brasileiro, foi praticamente arrancado da cama, em 15 de novembro de 1889, para destituir a Monarquia.

Fora escolhido para liderar o levante militar pelos jovens oficiais liderados por Benjamin Constant (1836-1891), professor da Escola Militar da Praia Vermelha e expoente do Positivismo no Brasil, a doutrina que impregnou de tal forma a política brasileira que sua síntese até está bordada na bandeira nacional: “Ordem e Progresso”.

Democracia não é um valor universal no ideário positivista. O golpe foi rocambolesco. Reunidas as tropas no Campo de Santana, onde hoje está localizada a Praça da República e o Quartel General do Comando do Leste, Deodoro derrubou o gabinete do Visconde Ouro Preto e voltou para casa. Somante mais tarde, o velho e adoentado marechal foi convencido a assinar o documento que extinguiu a monarquia, que durava já 70 anos.

O imperador Dom Pedro II foi banido do Brasil com a família, e embarcou rumo à Europa na madrugada do dia 17 de novembro, sem entender direito as razões de sua queda. A população somente soube mais tarde desses acontecimentos. Para evitar uma guerra civil, dom Pedro II não quis resistir, após 49 anos de reinado. Sabia que elite brasileira estava insatisfeita desde o fim da escravidão, em 1888.

Entretanto, não acreditava que os militares (irritados com os salários e desprestígio desde a Guerra do Paraguai) e os cafeicultores (que exigiam indenizações pela abolição da escravatura) o destituíssem. Muito menos a Igreja Católica, apesar de insatisfeita com o padroado (sua prerrogativa de preencher os cargos eclesiásticos mais importantes) e o seu beneplácito (aprovação das ordens e bulas papais para que fossem cumpridas, ou não, em território nacional), que já haviam provocado uma crise com o Vaticano, de 1872 a 1875. É que os sacerdotes eram tratados como funcionários públicos, recebendo salários da Coroa — teoricamente não apoiaram um Estado laico, republicano.

Destruição menor

Seria conveniente, por ainda ser chefe da nação brasileira, que Bolsonaro cumprisse as funções que o cargo demanda neste mês e meio que ainda lhe resta no poder.
Ou, pensando melhor, talvez não. Quanto menos o capitão fizer, menor o poder de destruição final

Pisos e tetos

Piso para os necessitados e teto para os privilegiados

Lula tem razão quando lembra que muitos defendem o teto de gastos para evitar a volta da inflação, sem defesa de piso social, para assegurar todo brasileiro com alimentação satisfatória, escola de qualidade, atendimento de saúde, moradia com saneamento, garantia de emprego e renda com moeda estável. Tanto quanto a desigualdade como a educação de base é oferecida, a maior causa da pobreza é a desvalorização da moeda que rouba o valor dos salários pagos aos trabalhadores. Há décadas a inflação faz parte da arquitetura de concentração de renda, que os economistas, empresários e políticos impõem ao povo brasileiro. Mas a estabilidade da moeda é insuficiente se os governos não fizerem os investimentos sociais necessários.


O Brasil precisa definir políticas sociais e de crescimento econômico que atendam às necessidades básicas da população e promovam emprego. Lula lembra que um gasto que salva vida ou constrói infraestrutura é investimento. Para tanto, o Estado precisa investir o que for necessário, tendo consciência de que esses investimentos exigem gastos no momento que são realizados e que não devem ser financiados pelos próprios pobres ao receberem salários e bolsas com moeda desvalorizada e sofrerem as consequências do endividamento, juros elevados, preços inflacionados e consequente recessão e desemprego.

Além do piso social, é preciso haver teto em gastos desnecessários, mordomias, desperdícios e privilégios: ineficiência, ostentação, prioridades e política fiscal que concentram. O Brasil precisa também definir um limite ao uso de seus recursos naturais, para evitar a depredação que sacrifica as gerações futuras. Os dois governos Lula praticaram essa ideia de pisos e tetos: criaram programas sociais, foram responsáveis fiscalmente e comprometidos com o meio ambiente. Precisa-se de uma reforma fiscal que permita financiar as necessidades dos pobres, eliminando desperdícios e ineficiências, para manter a estabilidade da moeda em benefício do povo e do país.

Em vez do nervosismo por uma fala improvisada de Lula enfatizando mais o piso social do que o teto de gastos, os agentes econômicos — compradores e investidores — deveriam observar os atos de Lula, nos seus oito anos de governo e sugerir formas para financiar os gastos sociais com uma política fiscal responsável, capaz de barrar excessos de gastos e de subsídios dirigidos à parcela rica e à indústria ineficiente. Para assegurar o piso social que atenda às necessidades e retome o crescimento, é preciso impor tetos aos privilégios. Romper o teto de gastos com os pobres e impor teto de benefícios aos privilegiados.

Tudo indica que Lula vai manter seu compromisso social e repetir a responsabilidade fiscal de seus dois governos, com orçamentos equilibrados. Ele tem manifestado a importância do fator confiança e da previsibilidade como condição ao bom desempenho da economia e já demonstrou saber que a responsabilidade fiscal é determinante para que os agentes econômicos tomem decisões corretas. Por isso, a necessidade de piso social e de limites em gastos supérfluos.

Ao longo de décadas, economistas e políticos optaram pela ideia de que a pobreza decorre da falta de crescimento e justificaram ostentação, gastos supérfluos, desperdícios e ineficiências como ferramentas para superar a pobreza. Iludiram os pobres cujo trabalho era pago com a falsa moeda da inflação. Usaram a inflação para que os pobres financiassem o progresso para os ricos, agravando a pobreza enquanto o país crescia. Foi graças à maldade da inflação que o Brasil conseguiu estar entre os países mais ricos e aqueles com maior concentração de renda e número de pobres e de famintos.

Nossos economistas, empresários e políticos precisam perceber que a permanência da pobreza é um dos maiores entraves ao progresso nacional e sua superação promove o crescimento e o desenvolvimento. O mercado deve entender que os investimentos sociais impactam positivamente sobre a economia e levar em conta que parte do bom desempenho da economia nos anos de Lula veio dos resultados do que se investiu em educação, saúde, Bolsa Família. E muitos ao redor do Lula esquecem que isso foi possível graças à estabilidade monetária. Sem os investimentos sociais o crescimento fica limitado, sem a estabilidade monetária os benefícios sociais são corroídos.

Lula precisa aumentar gastos sociais e manter equilíbrio fiscal, reduzindo privilégios, desperdícios, ineficiências: piso para os necessitados e teto para os privilegiados.

O que faz de José Bonifácio patriarca não só da Independência, mas das florestas do Brasil

"Destruir matas virgens, como até agora se tem praticado no Brasil, é crime horrendo e grande insulto feito à mesma natureza. Que defesa produziremos no tribunal da Razão, quando os nossos netos nos acusarem de fatos tão culposos?" 

O texto, de 1821, um ano antes da Independência do Brasil, mostra que a preocupação com a destruição de florestas no território nacional é mais antiga do que o próprio Estado brasileiro.

O autor do alerta contra o desmatamento, redigido há quase 200 anos, não entraria para a História como ecologista, e sim como um dos fundadores do Estado brasileiro: José Bonifácio de Andrada e Silva, o chamado Patriarca da Independência.

Nas escolas, estudantes aprendem que José Bonifácio, filho de uma família abastada e nascido em 1763 na cidade de Santos (SP), é considerado um dos mais importantes estadistas brasileiros e personagem fundamental no processo de Independência do Brasil. Mas a biografia dele vai além da política: ele é também um dos precursores na defesa das florestas no território nacional.

"Bonifácio foi um personagem muito importante, apesar de ainda pouco reconhecido, na construção dessa preocupação com o ambiente e o futuro das florestas em escala mundial", diz o historiador José Augusto Pádua, professor do Instituto de História da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), onde é um dos coordenadores do Laboratório de História e Natureza.

Filho de uma família rica - seu pai era importante funcionário da Coroa portuguesa - o jovem Bonifácio foi estudar na Universidade de Coimbra, onde teve uma sólida formação em Direito, Filosofia Natural e Matemática. Um de seus professores em Portugal foi o italiano Domênico Vandelli, especialista em História Natural e Botânica e que exerceu forte influência sobre o estudante brasileiro, que se tornou pesquisador naturalista, mineralogista e professor em Portugal durante muitos anos, além de exercer cargos públicos no governo português. Entre eles, a direção dos bosques nacionais.

"Ele explicava com detalhes sobre a importância de preservar os bosques do Reino. Isso não era nada comum nos tempos dele", explica o historiador Jorge Caldeira, organizador da biografia José Bonifácio de Andrada e Silva, da Coleção Formadores do Brasil. "Era um ecologista prático, bastante apurado para os dias de hoje. Tanto é que seu primeiro trabalho científico foi em defesa da preservação das baleias", completa Caldeira.

O texto citado por Caldeira foi publicado por José Bonifácio em 1790. Trata-se do Memória sobre a pesca da baleia e a extração do seu azeite, publicado pela Academia das Ciências de Lisboa. No texto, o político e estudioso alertava para o pouco retorno econômico da atividade de caça à baleia para extração do óleo, frente ao poder destrutivo do meio ambiente e a consequente redução do número de baleias na costa brasileira.

"Dentre outros naturalistas da época, José Bonifácio criticava a caça predatória da baleia, por julgá-la antieconômica, assim como as grandes propriedades monocultoras. Apreciador das matas e madeiras brasileiras, alinhava-se com estudiosos que, desde a fundação dos primeiros jardins botânicos no século 18, valorizavam o plantio de espécies raras", explica a historiadora Mary Del Priore, autora do livro As Vidas de José Bonifácio (Estação Brasil), que retrata a vida do Patriarca da Independência. "Ele era também favorável à inserção de índios e negros na sociedade depois de 'civilizados'", completa a historiadora.

De volta ao Brasil, em 1819, José Bonifácio tornou-se ministro e conselheiro do Príncipe Regente e futuro imperador D. Pedro 1º. Foi ele quem incentivou o monarca a proclamar a Independência do Brasil, em 1822, e integrou o primeiro escalão de dirigentes da nova nação. Entre outras atribuições, organizou a resistência do novo governo independente aos movimentos contra a separação de Portugal que surgiram na época em várias partes do país.

Apenas alguns meses após seu retorno ao Brasil, Bonifácio embrenhou-se nas matas do Estado de São Paulo junto com seu irmão, Martim Francisco, para aprofundar seus estudos naturalistas, em especial na Mata Atlântica que na época dominava o território paulista, mas já sofria os efeitos do desmatamento para expansão das lavouras e da pecuária.

Logo nos primeiros dias de expedição, o viajante lamenta o "miserável estado em que se acham os rios Tietê e Tamandataí, sem margens nem leitos fixos, sangrados em toda parte por sarjetas, que formam lagos que inundam essa bela planície." Nos arredores da Vila de Itu, observa que "todas as antigas matas foram barbaramente destruídas com fogo e machado."

Em 1821, quando o Brasil estava na condição de Reino Unido a Portugal, Bonifácio defendeu, em um artigo chamado Lembranças e Apontamentos do Governo Provisório para os Senhores Deputados da Província de São Paulo, a criação de uma "Direção Geral de Economia Política", que seria responsável por obras públicas, minas, bosques, agricultura e fábricas.

Essa política integrada desenhada por José Bonifácio para a administração do Brasil, na sua visão, seria responsável pela preservação das riquezas naturais brasileiras, em especial os rios, matas e densas florestas que, na opinião do político e naturalista, eram fundamentais para a saúde do território nacional. Seria um grande ministério reunindo as áreas de meio ambiente, infraestrutura e agricultura. A proposta, porém, nunca saiu do papel e o Brasil tornou-se independente de Portugal em 1822.

"As preocupações e propostas ambientais de José Bonifácio estavam inseridas na discussão geral sobre o futuro do Brasil. Creio que ele propunha um ministério de planejamento geral da economia no sentido de uma relação mais racional com a natureza. Ou seja, todas as atividades econômicas estariam conectadas com o objetivo de acabar com a devastação e o desperdício, tratando o mundo natural de uma maneira mais cuidadosa e cientificamente inteligente", diz Augusto Pádua.

"Mesmo que o contexto atual seja tão diferente, creio que seria um grande avanço se pudéssemos retomar, ou de fato reinventar, essa maneira de enxergar o cuidado ambiental como eixo de todas as ações de governo relativas às atividades produtivas", completa o historiador da UFRJ.

Na Assembleia Constituinte de 1823, Bonifácio, eleito deputado constituinte, levou ao Parlamento ideias e emendas muito avançadas para a época, como o fim da escravidão, instituição de uma reforma agrária, preservação das matas e rios brasileiros, obrigação de conservar uma parte das propriedades rurais com florestas nativas, direito de voto aos analfabetos e até a mudança da capital do país para o Planalto Central, algo que só se tornaria realidade mais de um século depois, em abril de 1960, no governo do presidente Juscelino Kubitschek.

Para Bonifácio, a criação de uma grande nação só seria possível caso fossem superados problemas estruturais herdados do passado colonial. O principal deles era a escravidão. "Uma novidade muito interessante no seu pensamento foi justamente estabelecer uma relação de causalidade entre o domínio da escravidão e as dinâmicas de desflorestamento, degradação dos solos e destruição da fauna e da flora, diz Augusto Pádua.

"Ele não via a escravidão apenas como uma técnica, mas sim com algo parecido com o que veio a ser chamado mais tarde de modo de produção. A continuidade da escravidão levaria à destruição do grande trunfo com o qual o Brasil poderia contar para o seu progresso, que era a riqueza natural", completa o professor da UFRJ.

Ideias tão avançadas para a época custaram a José Bonifácio muitas inimizades entre os poderosos da época, principalmente a elite agrária e política conservadora, e o rompimento com o próprio imperador D. Pedro 1º. Após ser demitido do governo, Bonifácio é exilado e parte para uma longa temporada na Europa, de onde só retornaria em 1829, após se reaproximar do imperador e ser nomeado tutor do seu filho, D. Pedro 2º.

De acordo com os especialistas, em textos publicados ao longo de sua carreira na Europa e no Brasil, em especial entre 1790 e 1823, Bonifácio construiu o que hoje chamaríamos de agenda ambiental e são importantes para entender a história do meio ambiente no Brasil.

"Ele foi, sem dúvida, um homem muito preocupado com os recursos naturais, isto em um tempo que praticamente não existia consciência de preservação ambiental", diz o desembargador aposentado e professor de Direito Ambiental na PUC-PR, Vladimir Passos de Freitas. "Eu não posso afirmar que foi o único, porque antes dele Portugal criou em Ilhéus, na então província da Bahia, um cargo de Juiz Conservador das Matas. Mas posso dizer que foi o primeiro a aprofundar-se em temas ambientalistas variados", completa Passos de Freitas.

Um dos artigos mais famosos de José Bonifácio, de 1823, atesta que, caso o Brasil não tomasse providências para preservar suas florestas, rios e demais recursos naturais, em menos de dois séculos estaria convertidos nos "páramos e desertos áridos da Líbia". "Virá então este dia, (dia terrível e fatal), em que a ultrajada natureza se ache vingada de tantos erros e crimes cometidos", escreveu o Patriarca da Independência. Há quase dois séculos.

domingo, 13 de novembro de 2022

Falta ao mercado saber que Lula não foi eleito para servir à camadinha especulativa

Ah, que horror! Lula disse que prioritário é acabar com a fome, não a contenção de gasto social, o tal teto de gastos! A Bolsa caiu! Reação imediata do mercado (nome de guerra dos que não produzem, não se incluem na infraestrutura econômica, e ganham no jogo financeiro das Bolsas). E tome de manchetes em primeiras páginas e comentaristas do "mau passo" com que "Lula já começou". Todos sempre reforçando a exigência reiterada pelo mercado: "Lula tem que indicar logo o novo ministro da Economia".

Tem que? Ainda falta ao mercado a informação de que Lula foi eleito para presidir um país de mais de 215 milhões de habitantes, não para servir à camadinha especulativa. A decisão eleitoral completa neste domingo duas semanas, apenas. Nas quais o mercado se fez de inquieto porque este é um método eficaz para acionar o sobe-desce lucrativo da especulação financeira. E de quebra dizer quem manda, para ver no que isso dá. Nenhuma empresa séria depende da urgência de um nome de ministro.


Expoente dos chamados investimentos financeiros, Arminio Fraga deu a Lula, na Folha, a resposta do mercado: "Estabilidade fiscal (...) gera mais investimento e mais crescimento. Simples assim. E (...) aumenta a chance de os recursos beneficiarem os mais pobres". Parece falar de economia, mas é de políticas que trata.

O crescimento não depende necessariamente de estabilidade financeira, e o Brasil tem no inflacionário governo Juscelino um dos seus tantos exemplos de desvario financeiro e crescimento. O governo da mediocridade desleal, de Michel Temer, até criou o "teto de gastos", mas daí não vieram "mais investimento e mais crescimento". Recursos, provenientes de estabilidade ou não, só "beneficiam os mais pobres" se esta for a política do governo. O que só por um breve período aconteceu no Brasil —e nem digo qual.

O batido tema da estabilidade fiscal ao gosto da especulação provocou, afinal, algo positivo. E assombroso. Em discreto pé de página, uma entrevista ao jornal O Globo (11 novembro) revelou uma franqueza nunca vista aqui, para divulgação pública, por parte de um economista, digamos, bem aceito.

Muito reverenciada por seus colegas destacados na imprensa brasileira, carioca que leciona na Johns Hopkins University, Monica de Bolle foi direta e clara desde o início. Sobre a reação do mercado a Lula: "O mercado (...) faz esses movimentos de Bolsa e dólar para ganhar dinheiro. Esses movimentos não querem dizer nada. Os economistas do mercado têm uma visão míope e estão com ela há muito tempo". Eles e os jornalistas que os ecoam.

Mais: "O teto de gastos já não existe há bastante tempo, basicamente desde que foi criado. Foi modificado em praticamente todos os anos do governo Bolsonaro. (...) Foi uma regra fiscal para jogar no lixo. (...) O momento é de revogar e fazer um teto novo".

A complacência utilitária do mercado com Bolsonaro e Paulo Guedes sufocou as reações a desatinos como a PEC Kamikaze, "a coisa mais populista e gastadora" (de Bolle), o orçamento secreto ainda vigente, o gasto eleitoreiro pró-reeleição. E tantas outras causas do rombo já estimado em prováveis R$ 400 bilhões, a ser deixado para o novo governo.

O que deveria inquietar o mercado e o empresariado bolsonarista é o risco decorrente de esperáveis investigações sobre os pagadores de atos golpistas contra o resultado eleitoral. Esses fatos que se espalham pelo país alertam para o rigor necessário à escolha dos futuros dirigentes da Polícia Federal, das demais polícias federais e da Abin. E, mais adiante, de quem restaure a moralidade na Procuradoria-Geral da República.

A quem pertencem os símbolos nacionais?

Passadas as eleições presidenciais, parte dos apoiadores de Jair Bolsonaro, derrotado nas urnas, continua se manifestando de verde e amarelo, as cores nacionais – atitude consolidada nas duas campanhas disputadas pelo atual presidente. Entre o eleitorado do mandatário eleito, Luiz Inácio Lula da Silva, surgem paralelamente tentativas de resgatar os símbolos do país.

Mas o que leva, afinal, uma agremiação política a disseminar as cores que simbolizam um país como próprias de sua plataforma?

"Em sua gênese no século 18, os símbolos nacionais de Estados contemporâneos nasceram à esquerda, para usar a terminologia da Revolução Francesa. E nasceram no setor democrático, para representar o povo acima de qualquer rei, imperador, senhor feudal, autoridade religiosa tradicional", destaca Manuel Loff, professor do Departamento de História e Estudos Políticos e Internacionais da Universidade do Porto.

O que tem acontecido no momento, aponta, "é uma apropriação desavergonhada desses símbolos por parte da extrema direita". "Ela cria um confronto, e os símbolos nacionais perdem o significado unificador que pretendem ter."


O bolsonarismo, segundo o historiador, apresenta um agravante: a associação desses símbolos nacionais a práticas de violência e ideais religiosos.

"É uma das raras situações em que um ato agressivo, bélico, que é simular com a mão um revólver, é acrescentado à simbologia política. Como se arma, cruz e bandeira pudessem se fundir", afirma Loff.

Especialistas questionam se o Brasil deveria ter trabalhado melhor as marcas deixadas pela ditadura militar (1964-1986), durante a qual o usar as cores da bandeira era uma forma de mostrar apoio ao regime.

"As memórias subterrâneas retornam à superfície quando não são tratadas em políticas públicas", aponta Michel Gherman, professor do Departamento de Sociologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro.

"O que aconteceu na ditadura militar e o que voltou a acontecer nesses últimos anos, inclusive com o retorno do discurso pró-ditadura, é que essa bandeira mais uma vez se tornou propriedade do Estado", analisa Ana Caroline Almeida, especialista em Comunicação e professora da Universidade Federal de Alagoas (Ufal).

"Nesses contextos ultranacionalistas, não só a bandeira do Brasil, como várias outras bandeiras de Estados-nação tendem a se tornar metonímia não de um país, mas de partidos da extrema direita, que se apropriam e sequestram símbolos nacionais e, curiosamente, com isso, ferem a própria ideia de nação como constituição de um 'espírito coletivo'", constata.

Comum nas ditaduras militares da América Latina e também nos regimes stalinistas, a apropriação desses símbolos está também associada ao catálogo de medidas dos fascismos do século 20, aponta Francisco Palomanes Martinho, professor de História Ibérica da Universidade de São Paulo (USP).

"Na chamada crise dos liberalismos do período que sucedeu à Primeira Guerra Mundial, essa apropriação ganhou contornos muito próprios: ela se dá na afirmação do 'nacional' em detrimento do 'outro'. É nesse contexto que ideias de 'raça' ou 'espírito nacional' ganharam espaços cada vez maiores. Os símbolos nacionais, assim, se tornaram absolutos, inquestionáveis. Questioná-los seria questionar a própria existência da nação", pontua Martinho.

No entanto, pondera Odilon Caldeira, professor de História Contemporânea da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), "os movimentos fascistas, no século 20, não somente se apropriavam de uma determinada simbologia nacional, como também subvertiam em certa medida essa simbologia ou criavam novos símbolos".

"Hoje, o extremismo e o radicalismo de direita utilizam sobretudo os símbolos nacionais dentro de uma, digamos, matriz republicana", diz o professor, que coordena o Observatório da Extrema Direita.

"Eles fazem uso de uma simbologia pré-existente, dando a ela um novo sentido, um novo caráter, uma nova leitura, mais do que necessariamente criar uma nova simbologia tal qual o fascismo no século 20 fazia", conclui.

Na Europa, aponta Loff, hoje é comum haver normas legais e regulações sociais sobre a utilização política desses símbolos. "Em Portugal, por exemplo, nenhum partido pode usar, segundo a Constituição, a bandeira nacional como símbolo próprio, justamente porque se considera que ela é um símbolo unificador e não divisório."

Durante as seis primeiras décadas que se sucederam à Segunda Guerra Mundial, a relação dos alemães com os próprios símbolos nacionais era considerada complexa – em uma rejeição coletiva explícita a qualquer demonstração que pudesse deixar suspeitas de nacionalismo exacerbado.

Quando o país sediou a Copa do Mundo de 2006, começou um processo de relativização, encabeçado pelas gerações mais jovens, do desconforto frente a símbolos como a bandeira e o hino.

No livro Wie der Fußball Deutsche macht (Como o futebol transformou os alemães, em tradução livre), publicado em 2016, Sven Ismer analisa detalhadamente essa mudança de comportamento da população ao longo das últimas décadas. Se no contexto do futebol tornou-se normal balançar bandeiras, fora dele "a moderação continua, felizmente, existindo", diz o autor – exceto entre círculos minoritários de extrema direita.

Para Ismer, esse comedimento é positivo, visto que "o nacionalismo alemão devastou a Europa duas vezes, deixando milhões de mortos". "Portanto, uma conduta atenta frente à simbologia nacional continua adequada", considera.
Após 

Ulrich Wagner, professor de Psicologia Social da Universidade de Marburg coordenou dois estudos sobre nacionalismo, patriotismo e xenofobia. Em um deles, aplicou dois tipos de questionários entre grupos específicos, a fim de averiguar tendências xenófobas. No primeiro deles, usou formulários "limpos"; no segundo, fez uso dos mesmos formulários acrescidos de uma bandeira da Alemanha no campo superior direito.

"Fomos capazes de demonstrar que, quando confrontadas com símbolos nacionais, as pessoas se revelam de fato um pouco mais xenófobas", relata Wagner.

No Brasil, o processo de uso indevido dos símbolos nacionais não poderá ser facilmente revertido, considera Caldeira: "Da mesma maneira que a apropriação foi longa, construída antes mesmo da gestação do próprio bolsonarismo, o processo do esvaziamento desse sentido não se dará da noite para o dia."

A partir da década de 1930, o futebol se tornou um elemento importante na construção das diversas identidades nacionais, visto que foi o primeiro esporte de massa com dimensão planetária. Hoje, a Copa do Mundo até poderá ajudar a sociedade brasileira, a retomar, de forma mais ampla, o uso dos símbolos e das cores nacionais, mas isso não bastará, considera Caldeira.

"Há um esforço no sentido dessa retomada, mas me parece que esse fenômeno não vai ser resolvido exclusivamente por conta do processo eleitoral e tampouco pelo Mundial", avalia.

"A camisa amarela ainda remete ao bolsonarismo, a atos antidemocráticos e bloqueios de estrada. Pode haver uma refundação dessa relação, mas vai levar tempo", concorda Gehrman.

Loff aponta haver na Europa uma grande atração não só pelo futebol brasileiro, mas pela cultura do país de forma geral. Segundo ele, era comum até poucos anos atrás ver pessoas vestindo a camisa verde e amarela nas ruas de países europeus, mas não está claro que destino terá essa predileção de agora em diante.

"Culturalmente o Brasil tem uma grande capacidade de atração em todo o mundo, mas o bolsonarismo pôs isso em causa", conclui o historiador.

O Conto do Vigário

Conta a estória que na maestral Ouro Preto do século XVIII, o vigário da Nossa Senhora do Pilar e o vigário da Nossa Senhora da Conceição disputavam uma imagem da Virgem Santa para as suas igrejas. O vigário do Pilar propôs então que amarrassem a Santa no lombo de um burro, e para onde o burro fosse a paróquia ficaria com a imagem. E em assim acordado, o burro dirigiu-se, de pronto, para a basílica do Pilar. É que o burro era do vigário do Pilar, o que ficou conhecido como o Conto do Vigário! Outra estória é a do Santo do Pau-oco, levado por tropas de mulas para a venda no Rio de Janeiro como expressão do barroco mineiro, mas ocos por dentro e recheados de ouro. Ou seja, santo por fora, não tão santo por dentro.


Bolsonaro se divide em dois. O que nos tirou o fôlego colocando nossos corações para fora da boca com sustos diários da iminência da quebra institucional, e o que compõe politicamente na busca de seus interesses imediatos ou pela maior segurança do que acha que possa vir a lhe acontecer. Os caminhoneiros param as estradas; a população urge à frente dos quartéis; cidadãos se mataram na anteposição ideológica. “Se pegar, quem sabe, leva; se não pegar, simplesmente se compõe”. Não era bomba, era traque, e como traque se dissipou. Como atribuído a De Gaulle após sua visita ao Brasil, como figura retórica, “ce n’est pas un pays sérieux”.

Diz Wright Mills que manda o poder econômico, garante o poder militar, executa o poder político. Diz Phillipe Schmitter, brasilianista, que o Brasil é um dos casos mais bem sucedidos de controle da população por uma elite, que não muda ao longo do tempo, onde mudam apenas as siglas. E diz Maquiavel que manter o principado é mais difícil do que ganhar o principado; não que ganhar seja fácil. Daí, a predominância do econômico sobre as sociedades, e as possíveis composições ao nível político. Ainda bem que existe a política! Os partidos que se uniam em torno de Bolsonaro, unem-se hoje, em um piscar de olhos, em torno de Lula. O acordo tácito entre as partes foi selado por cardeal católico, não por pastor, nem ortodoxo. Ou ainda, como se diz na gíria, “se colar, colou, se não colar, deixa prá lá”. Ninguém morre pelos seus liderados.

No total do eleitorado, Bolsonaro teve 33% dos eleitores no 1º turno, 37% no 2º turno, o representante dos 1/3. 20% formam seu núcleo duro eleitoral. 1% é radical, autodenominados de “patriotas”. É uma minoria pequena, mas barulhenta. As fake-news são ainda mais intensas. As Forças Armadas, a Polícia Federal, e as Polícias Militares, órgãos de Estado, seguem na normalidade democrática. Datas de possíveis conturbações: 15 de novembro no Dia da República; 19 de dezembro na Diplomação dos Eleitos pelo TSE; 1º de janeiro na Posse do Presidente Eleito. Mas sem riscos à estabilidade do país. O fascismo era pífio, e se esvaiu. Bolsonaro será líder de somente uma minoria dos que nele votaram.

Dinheiro é droga

O Capitalismo começa como uma espécie de realismo pragmático, mas depois de um certo ponto degenera em delírio quantitativo. No começo, ele é materialista até a medula. Escarnece da religião, faz pouco das ideologias, torce o nariz para a arte, dá um chega-pra-lá em todos os subjetivismos e diz que no mundo somente as coisas materiais contam. Só conta o que dá resultado, o que gera riqueza, o que produz. É nessa fase, por exemplo, que as manifestações artísticas são enxotadas para o sótão dos “Passatempos Para Gente Desocupada”. Por que perder tempo com coisas que provocam apenas prazer estético e enriquecimento espiritual? Já que ninguém pode quantificar prazer estético, ninguém pode lucrar planejadamente com ele. Quanto ao enriquecimento espiritual, pra começo de conversa não existe essa coisa chamada espírito.


Na sua fase produtiva, o capitalismo impõe um culto à produção, à matéria, às transformações das matérias primas em produtos. Esse culto é tão forte que contaminou o próprio comunismo, em suas tentativas falhadas de substituir o adversário. Estatizando o Capital e glorificando o Trabalho, o comunismo perpetuou e ampliou as ladainhas à máquina, à indústria, à produtividade, à transformação da natureza. Materialista por definição, o comunismo foi, neste aspecto, uma mutação avançada do capitalismo. Só existe o que é “material”.

O que destruiu o capitalismo e vai destruir o mundo (não se enganem) é o estágio seguinte, em que a Matéria cede lugar ao Símbolo. O capitalismo deixa de ser concreto e passa a ser abstrato. Já não conta mais quantas moedas de ouro você possui, e sim quantos zeros você acumula em suas contas bancárias. O Capitalismo Financeiro sucedeu ao Capitalismo Produtivo e começou a tirar milhões de coelhos virtuais de dentro da inesgotável cartola das manipulações bancárias. É irônico que um sistema de pensamento tão voltado para o que é sólido tenha se desmanchado no ar com tanta facilidade; e que as “águas glaciais do cálculo egoísta” tenham se evaporado nessa neblina impalpável, nessa nuvem dos trilhões de dólares inexistentes que são negociados todos os dias nos mercados mundiais.

Trilhões de zeros que bancos, empresas e países vendem, compram, revendem, emprestam, dividem, partilham, multiplicam, como se esses zeros todos valessem alguma coisa, como se existisse algum lastro produtivo (ouro, prata, grãos, capim, sei lá, qualquer coisa que servisse para algo no mundo real). O Capitalismo embebedou-se de Capital, passou a se alimentar não de produção mas de ficções financeiras, como um drogado que deixa de comer e de beber água, para poder continuar se drogando.

sexta-feira, 11 de novembro de 2022

Pensamento do Dia

 


O perigo da multidão irracional

As semanas que antecederam o primeiro e o segundo turno das eleições de outubro de 2022 acrescentaram revelações sobre o estado de anomia em que se encontra a sociedade brasileira. Indicaram qual é de fato o legado politicamente enfermo do presidente que em dois meses deixará o poder, porque em confronto com a Constituição e a democracia.

Ainda uma semana depois do reconhecimento do resultado da votação, definido o nome do eleito, ajuntamentos estão ocorrendo em praças e portas de quartéis, os agitadores pedindo ditadura militar. Estranhamente, os comandantes militares, cujos quartéis são assediados, estão calados.

São decorrências da política de desmonte do Estado, das instituições e da própria sociedade pelo regime de 1º de janeiro de 2019, nas ameaças subversivas à ordem política.

Estamos em face de ameaças a uma inevitável e decisiva mudança social e política, cujos fatores vinham sendo gestados e acumulados desde o golpe de 1964. Bolsonaro, tenha ou não consciência disso, personifica o momento final de decadência do tenentismo.


Foram esses fatores atenuados com a redemocratização e a Nova República, e não suprimidos. Voltaram à superfície com o bolsonarismo na suposição falsa de que na eleição de 2018 a população pedia a volta da ditadura militar.

A anomia desta etapa da história brasileira expressa-se na desorganização social decorrente da desregulamentação política das relações sociais. Os regimes políticos repressivos, que expressam momentos como este, são criadores de situações de insegurança e medo que arrastam consigo para a nulidade da ineficácia e anulam valores e normas de conduta e de sociabilidade. A sociedade ficou confusa e desorientada, não só o presidente da República.

A tendência autoritária do governo que termina tem tido como característica a transgressão do que é próprio de mandato obtido de forma legal e constitucional. Porém indevidamente assumido como renúncia do eleitorado ao que é próprio de suas atribuições, no questionamento do pressuposto da alternância dos partidos no poder, em que se empenhou o governo nestes quase quatro anos.

O aparelhamento das instituições para consumar a tirania do poder pessoal tornou-se entre nós uma forma patológica de corroer as bases do que é propriamente a realidade social e política. Um meio de inviabilizar a vida coletiva e anular a competência dos cidadãos para reconstruir o tecido social em face da desordem personificada pelo próprio governante.

No limite, desordem instrumentalizada pelo oportunismo do consórcio de outro poder no poder, resultante dos fatores de tensão, de crise e de ruptura que nestes anos comprometeu a continuidade da sociedade que pedia socorro político urgente. O resultado da eleição foi um indicativo.

A questão é muito mais complicada do que a muitos parece. Na transição, disfarçada por algumas medidas protocolares, o governo que termina continuará ativo e barulhento no poder paralelo das redes, dos grupos de ativistas, como o dos caminhoneiros e o dos manifestantes de porta de quartel. Mas o ativismo antidemocrático persistente indica que Jair Messias manda muito menos do que supõe. Quando muito faz teatro de uma proximidade e de uma conivência que os militares não podem assumir porque funcionários do Estado, sujeitos às normas e aos rigores da lei. Nem o povaréu da agitação tem qualquer competência para levar o país à insurreição.

Fora do poder e por isso politicamente fraco, Bolsonaro dividirá o bolsonarismo. Os que parasitaram o Estado, avulsos e parentes, militares e civis, serão mandados de volta ao lugar de onde vieram. Sobrará a turba dos bajuladores e paus mandados de rua, fora do controle do governo oculto e do próprio Bolsonaro. As multidões reacionárias poderão gerar instabilidade. Para elas haverá a lei.

Os ajuntamentos subversivos de rua, dos inconformados, contra a vontade majoritária do eleitorado, dá cara e voz ao Brasil paralelo e ilegal instigado por ações e omissões do próprio presidente da República. O Brasil oculto da balbúrdia tem feito demonstrações agressivas e mesmo violentas, indicativas de um período de inconformismo intolerante que pode comprometer a democracia que tenta renascer. Tem características de comportamento de multidão, como o define Le Bon, o do sujeito coletivo divorciado da razão, de certo modo enlouquecido, como nos linchamentos.

As classes e os setores sociais mais incapazes de participar do processo de regeneração social e política, porque menos identificados com a sociedade a que pertencem sem querer pertencer, são os que com mais facilidade se empenham em transformar a anomia em identidade coletiva da minoria de que fazem parte.

O ódio começa em casa

Há pouco, jovens enrolados em bandeiras do Brasil em São Miguel do Oeste (SC) puseram-se em formação e fizeram a saudação nazista. Há uma célula nazista na cidade, que produz panfletos e bandeiras com a suástica. Dias depois, alunos de uma unidade da UFSC picharam suásticas e frases contra judeus nos banheiros. E meninos de um colégio em Valinhos (SP) postaram mensagens em louvor a Adolf Hitler, propondo que se fizesse com os petistas "o que Hitler fez com os judeus."


Numa escola em Presidente Prudente (SP), um aluno de 10 anos foi fantasiado de Hitler a uma festa da instituição. Em Curitiba, estudantes vestidos com a camisa da seleção hostilizaram com violência colegas favoráveis à vitória de Lula. As alunas não foram poupadas: "Vamos encher as meninas petistas de porrada." Em várias escolas, professores também são ameaçados. Um deles teve de ouvir: "Meu pai vai f... com você."

Esses agressores são garotos em idade escolar e não nasceram assim. Foram ensinados a odiar e a discriminar — por sua cidade, pelos grupos que frequentam ou, bem provável, em casa. Quantos pais e mães, hoje no Brasil, não estarão inoculando o preconceito e o nazismo em seus filhos?

Nada disso parece estar provocando indignação nos militares. Estão mudos a respeito. Em 1942, o Brasil declarou guerra ao nazifascismo e, em 1944, mandou para a Europa uma força expedicionária de 25.000 homens. Os pracinhas, como eram chamados, enfrentaram a inexperiência, temperaturas de 15 graus abaixo de zero e soldados alemães que atiravam neles de cima para baixo. Mas os brasileiros foram bravos, heroicos e vitoriosos.

Os restos dos 467 rapazes mortos em combate descansam no Monumento aos Pracinhas, aqui no Rio. Há uma pira eternamente acesa para eles e todo ano faz-se uma bela homenagem. Mas omitir-se diante de arroubos neonazistas é o mesmo que cuspir nesta pira.

Sobreviventes do Holocausto alertam para antissemitismo

Sobreviventes do Holocausto alertaram nesta quarta-feira para o ressurgimento do antissemitismo. O alerta foi feito no aniversário de 84 anos do pogrom nazista da "Noite dos Cristais", que ocorreu na Alemanha e na Áustria.

Marco vergonhoso da história alemã, em 9 de novembro de 1938, o regime nazista instigou a população a aterrorizar e agredir os judeus, em pogroms generalizados. A data é considerada um prelúdio ao Holocausto, uma nova e violenta escalada na perseguição nazista aos judeus, visando sua expulsão e extermínio.

No alerta, vários sobreviventes do Holocausto contam em vídeos como discursos antissemitas levaram a ações que culminaram no extermínio em massa dos judeus. Durante a Noite dos Cristais, mais de 1.400 sinagogas foram incendiadas e cerca de 30 mil homens judeus foram presos.

O alerta da campanha digital #ItStartedWithWords (Começou com palavras), promovida pela Conferência sobre Reivindicações Materiais Judaicas contra a Alemanha, ressalta que o Holocausto não começou com os guetos, deportações e campos de concentração, mas sim com o discurso de ódio.

Patrulhas antissemitas, lideradas pela força paramilitar
de Hitler (SA), atacaram sinagogas e lojas de judeus

"Com a crescente prevalência do negacionismo do Holocausto, da distorção e do discurso de ódio nas redes sociais, a campanha #ItStartedWithWords se torna mais importante", salientou Greg Schneider, vice-presidente da organização baseada em Nova York.

Num dos vídeos, Eva Szepesi, de 90 anos, conta seu choque quando os amigos de infância passaram a tratá-la mal, pouco antes de ela ser capturada e deportada para o campo de extermínio de Auschwitz, com apenas 12 anos: "Começou quando eu tinha oito anos, e eu não conseguia entender por que meus melhores amigos estavam me insultando." Os pais e irmãos de Szepesi foram mortos em Auschwitz.

A campanha trancorre num momento em que se registra o aumento de incidentes antissemitas no mundo. Somente na Alemanha, mais de 2.700 incidentes foram registrados em 2021, incluindo 63 agressões e seis casos de violência extrema. Cerca de 6 milhões de judeus foram assassinados no Holocausto.

O presidente da Alemanha, Frank Walter-Steinmeier, afirmou nesta quarta-feira que o 9 de Novembro sempre lembrará na Alemanha a ruptura da civilização no Holocausto: "Nesta data sempre vamos urgir à luta contra o antissemitismo", declarou na abertura de uma conferência em Berlim.

Steinmeier destacou que a perseguição dos judeus não começou nessa data, "mas o que aconteceu nesse dia de violência escancarada foi a emersão visível da subsequente privação dos direitos, que foi meticulosamente planejada e conduzida com consequências brutais, rapto e extermínio dos judeus na Alemanha e Europa".

Brutalidade da eleição brasileira como artigo de exportação?

Vitória da democracia no Brasil mostra a resiliência das instituições, mas também desperta o temor de que as virulentas estratégias de campanha vistas durante o pleito possam encontrar imitadores no resto do mundo.

As eleições no Brasil detiveram por enquanto a crescente tendência de erosão das democracias no Ocidente. Esse é um sinal importante vindo do quinto maior país do mundo. Apesar da campanha eleitoral brutal, dos campos adversários irreconciliáveis e das muitas tentativas de declarar de antemão a invalidade das eleições, as instituições democráticas do Brasil resistiram. Logo após o fechamento das urnas, o resultado da eleição já era conhecido. Em comparação: nas eleições de meio de mandato nos EUA, o resultado final só deve ser conhecido dias depois.

No Brasil, logo após a divulgação dos resultados, os líderes da Câmara dos Deputados, do Senado e do Supremo Tribunal Federal declararam que a eleição ocorreu de forma limpa e que não havia motivos para contestar o resultado. Os militares se comportaram de forma neutra. Ao mesmo tempo, as burocracias e os políticos de Brasília começaram tranquilamente a se preparar para a transferência de poder.


Mesmo que os radicalizados apoiadores de Bolsonaro continuem acreditando em fraude eleitoral, os políticos eleitos do campo bolsonarista não os levam tão a sério. Inúmeros apoiadores influentes do presidente derrotado, dos setores político, econômico e social – mesmo as eminências pardas evangélicas – pediram o fim dos protestos.

Mesmo que a transição de poder até 1º de janeiro de 2023 ainda possa ser acidentada, a democracia brasileira provou ser dinâmica. A guinada à direita que ocorreu na sociedade brasileira nos últimos anos agora também chegou ao Congresso e às instituições.

Diferente do que pode ser observado em algumas democracias ao redor do mundo – na Europa, por exemplo – o sistema político do Brasil está se mostrando integrador. Novos protagonistas têm a chance de ganhar o controle do poder político por meio de eleições democráticas. A democracia brasileira mostra uma permeabilidade que não muitos sistemas possuem.

No entanto, essa eleição me preocupa: temo que estrategistas eleitorais da nova direita em todo o mundo olhem de perto a campanha eleitoral de 2022 no Brasil – para copiá-la no futuro. O uso das mídias sociais tanto pela equipe de campanha de Bolsonaro quanto pela de Lula atingiu um novo nível de agressividade e brutalidade, inimaginável pouco tempo atrás.

Sobretudo os 28 dias que antecederam o segundo turno mostraram um uso assustador de fake news nas mídias sociais difícil de imaginar na Europa e nos EUA. As autoridades eleitorais tentaram aplicar as lições das últimas eleições. O Judiciário agiu com mais rapidez e veemência do que até pouco atrás se esperaria. Nas últimas semanas, no entanto, mostrou-se parcialmente impotente nas reações à campanha eleitoral suja.

Todos os partidos tradicionais europeus, os órgãos judiciais relevantes e a mídia não só da Europa como também da América Latina devem estudar cuidadosamente as estratégias de campanha das últimas semanas no Brasil. É previsível que as próximas eleições também sejam brutais em outros Estados democráticos.

Os males que tiraram Bolsonaro de circulação depois da derrota

Erisipela é uma infecção cutânea causada geralmente pela bactéria Streptococcus pyogenes do grupo A, mas pode também ser causada por Haemophilus influenzae tipo B.

As bactérias penetram através de um pequeno ferimento na pele ou na mucosa, disseminam-se pelos vasos linfáticos e podem atingir o tecido subcutâneo e o gorduroso.


Pessoas com excesso de peso, portadoras de diabetes não compensado, de insuficiência venosa nos membros inferiores, cardiopatas com baixa imunidade são mais vulneráveis.

Senhora de um casarão próximo ao Colégio Salesiano, no Recife, viúva e religiosa que passava o dia rezando, Dodô sofria de erisipela e a tratava com remédios caseiros à base de ervas.

Nunca se curou. Mantinha no banheiro um cágado. E quando a dor excedia determinado limite, ela virava o cágado de pernas para o ar e amarrava uma fita vermelha na cabeça. Dizia que melhorava.

Bolsonaro deve ter outros meios de enfrentar a doença que o tirou de circulação depois de ser derrotado por Lula no último dia 30. Mas não padece só desse mal. Há outros tão ou mais dolorosos.

Ele sofre por ter perdido uma eleição que julgava ganha por pouco; sofre por não ter se oposto quando consultado sobre a decisão da justiça de soltar Lula, pois imaginou que o venceria.

E sofre com o processo em curso de lavagem de roupa suja que divide seus familiares mais queridos – de Michelle, a mulher, a Jair Renan, o filho Zero Quatro, e o mais distante deles.

Ana Cristina Valle, advogada e mãe de Jair Renan, lançou-se candidata a deputada pelo Distrito Federal, arrecadou dinheiro, perdeu e mandou-se para o exterior sem prestar contas.

Michelle nunca mais apareceu em público ao lado de Bolsonaro. Dizem que foi porque brigou com Carlos, o Zero Dois, e o marido tomou partido do filho, dono de suas senhas nas redes sociais.

Carlos nunca gostou de Michelle, que jamais gostou dele e que se recusou a abrigá-lo no Palácio da Alvorada porque Bolsonaro temia que Carlos fosse preso pelo ministro Alexandre de Moraes.

Houve tapas e não houve beijos no meio dessa quizila. Carlos afastou-se do pai, que se desentendeu com Eduardo, o Zero Três, que se escafedeu para os Estados Unidos onde tem amigos.

Flávio, o Zero Um, não abandonou o pai, mas está de mal com Eduardo e com Carlos. Cada um joga no outro a culpa pela má condução da campanha de Bolsonaro.

Para completar a desdita do clã, Bolsonaro cobra de Valdemar Costa Neto, presidente do PL, muito mais do que ele tem para lhe oferecer. Quer casa, comida, roupa lavada e dinheiro para viagens.

Ao mesmo tempo, queixa-se dos políticos que se elegeram às suas custas e que não se mostraram agradecidos. É muita dor que ele é obrigado a suportar, além do medo da volta do comunismo.

quarta-feira, 9 de novembro de 2022

Brasil em transição

 


O Brasil respira melhor desde que Bolsonaro foi derrotado

Recluso no Palácio da Alvorada desde a eleição de Lula em 30 de outubro e após quase uma semana de silêncio, Bolsonaro voltou a trabalhar? Não, postou uma foto em suas redes sociais.

Uma foto de julho, quando sua candidatura à reeleição foi lançada durante a convenção do PL no Rio de Janeiro. Ele acreditou até o último momento que venceria Lula – decepcionou-se.

Calou-se desde então e só apareceu duas vezes no Palácio do Planalto. A primeira no dia seguinte à derrota, e por poucas horas. A segunda na última quinta-feira, por meia hora, se tanto.

Fez falta? A impressão é que não. O país respira melhor. Bolsonaro nunca foi de pegar no pesado. Não será agora que vai pegar. O Brasil só tem a ganhar se ele se mantiver inativo até o fim.