quarta-feira, 8 de junho de 2022

Um dia na vida de um vagabundo

Em primeiro lugar, o que é um vagabundo?


O vagabundo é uma espécie nativa inglesa. Estas são as características que o distinguem: ele não tem dinheiro, veste-se com andrajos, caminha cerca de vinte quilômetros por dia e nunca dorme duas noites seguidas no mesmo lugar.

Em suma, ele é um andarilho que vive de caridade, perambula dia após dia durante anos e atravessa a Inglaterra de ponta a ponta muitas vezes em suas andanças.

Ele não tem emprego, lar ou família, nada de seu no mundo, exceto os farrapos que cobrem seu pobre corpo; vive às custas da comunidade.

Ninguém sabe de quantos indivíduos é composta a população de vagabundos. Trinta mil? Cinquenta mil? Talvez cem mil na Inglaterra e no País de Gales, quando o desemprego é particularmente alto.

O vagabundo não perambula para se divertir, ou porque herdou os instintos nômades de seus ancestrais; antes de mais nada, ele tenta não morrer de fome.

Não é difícil ver por quê: o vagabundo está desempregado em consequência da situação da economia inglesa. Assim, para existir, ele precisa apelar à caridade pública ou privada. Para ajudá-lo, as autoridades criaram asiles (albergues) onde os destituídos podem encontrar alimento e abrigo.

Esses lugares estão a vinte quilômetros uns dos outros e ninguém pode ficar em um deles mais que uma vez por mês. Daí as peregrinações sem fim dos vagabundos, que, se quiserem comer e dormir embaixo de um teto, precisam buscar um novo lugar de repouso todas as noites.

Essa é a explicação para a existência dos vagabundos. Agora, vejamos que tipo de vida eles levam. Será suficiente examinar um dia apenas, pois os dias são sempre iguais para esses desafortunados habitantes de um dos países mais ricos do mundo.

Tomemos um deles no momento em que sai do albergue, por volta das dez da manhã.

Ele está a cerca de vinte quilômetros do próximo albergue. Levará provavelmente cinco horas para caminhar essa distância e chegará ao seu destino por volta das três da tarde.

Ele não descansará muito no caminho, porque a polícia, que vê com suspeição os vagabundos, tratará de mandá-lo logo embora de qualquer cidadezinha ou aldeia onde possa tentar parar. É por isso que nosso homem não se demorará no caminho.

Como dissemos, são cerca de três horas da tarde quando ele chega ao albergue. Mas o albergue só abre às seis. Três horas desgastantes para esperar em companhia dos outros vagabundos que já estão esperando. O bando de seres humanos, extenuados, barbas por fazer, sujos e maltrapilhos, cresce a cada minuto. Logo há centenas de homens desempregados que representam quase todas as profissões.

Mineiros e fiandeiros de algodão, vítimas do desemprego que grassa no norte da Inglaterra, compõem a maioria, mas todas as profissões estão representadas, especializadas ou não.

A idade deles?

Dos dezesseis aos setenta.

Sexo? Há cerca de duas mulheres para cada cinquenta homens.

Aqui e ali, um imbecil matraqueia palavras sem sentido. Alguns vagabundos estão tão fracos e decrépitos que nos perguntamos como podem caminhar vinte quilômetros.

As roupas impressionam pelo grotesco, esfarrapadas e de imundície repugnante.

Os rostos nos fazem pensar no focinho de um animal selvagem, talvez não perigoso, mas que se tornou ao mesmo tempo selvagem e assustadiço, por falta de descanso e cuidado.

Lá eles esperam, deitados na relva ou agachados na terra. Os mais corajosos rondam o açougue ou a padaria, na esperança de catar algum resto de comida. Mas isso é perigoso, porque mendigar é proibido por lei na Inglaterra; então, na maior parte do tempo eles se contentam em ficar ociosos, trocando palavras vagas numa gíria estranha, a língua especial dos vagabundos, cheia de palavras esquisitas e pitorescas e expressões que não se encontram em nenhum dicionário.

Eles vieram de todos os cantos da Inglaterra e do País de Gales e contam uns aos outros suas aventuras, discutindo sem muita esperança sobre a probabilidade de encontrar trabalho no caminho.

Muitos já se encontraram antes em algum albergue do outro extremo do país, pois seus passos não param de se cruzar nas perambulações sem fim.

Esses albergues são hospedarias deploráveis e sórdidas, onde os peregrinos ingleses miseráveis se reúnem por algumas horas antes de se espalhar novamente em todas as direções.

Todos os vagabundos fumam. Como é proibido fumar dentro do albergue, eles aproveitam ao máximo as horas de espera. Seu tabaco consiste principalmente em baganas de cigarro que catam nas ruas. Eles as enrolam em papel ou enfiam em cachimbos velhos.

Quando um vagabundo consegue algum dinheiro, ganho num trabalho ou por esmola, seu primeiro pensamento é comprar fumo, mas na maior parte do tempo ele tem de se satisfazer com baganas apanhadas da calçada ou da rua. O albergue lhe dá apenas comida: para o resto, roupas, tabaco etc., ele tem de se virar.

Mas está quase na hora de o portão do albergue se abrir. Os vagabundos se levantaram e fazem fila junto ao muro do enorme prédio, um desprezível cubo amarelo de tijolos, construído em algum subúrbio distante e que pode ser confundido com uma prisão.

Mais alguns minutos e os pesados portões se abrem e o bando de seres humanos entra.

A semelhança entre um desses albergues e uma prisão é ainda mais notável depois que se passa pelos portões. No meio de um pátio vazio, cercado por muros altos de tijolos, encontra-se o prédio principal que abriga celas de paredes nuas, um banheiro, as dependências administrativas e uma sala minúscula mobiliada com bancos de madeira simples que serve de refeitório. Tudo é tão feio e sinistro quanto se possa imaginar.

A atmosfera de prisão está em todo canto. Funcionários uniformizados intimidam os vagabundos e os empurram, sem esquecer de lembrar-lhes que, ao entrar no albergue, eles abriram mão de todos os seus direitos e de sua liberdade.

O nome e a profissão do vagabundo são escritos num livro de registros. Depois, ele é obrigado a tomar um banho e suas roupas e pertences pessoais são levados embora. Então, dão-lhe um camisão de algodão ordinário para passar a noite.

Se por acaso ele tiver algum dinheiro, será confiscado, mas, se ele admitir que tem mais de dois francos [quatro pence], não será aceito no albergue e terá de encontrar uma cama em outro lugar.

Em consequência, os vagabundos que têm mais de quatro pence — não há muitos deles — se esforçaram para esconder o dinheiro em suas botas sem que fossem vistos, pois essa fraude poderia ser punida com prisão.

Após o banho, o vagabundo, cujas roupas lhe foram tomadas, recebe sua ceia: meia libra de pão com um pouco de margarina e meio litro de chá.

O pão feito especialmente para os vagabundos é terrível. É cinzento, sempre dormido e tem um gosto desagradável que faz a gente pensar que a farinha de que é feito vem de grãos estragados.

O chá não poderia ser pior, mas os vagabundos o tomam de bom grado, pois os aquece e conforta depois da exaustão do dia.

Essa refeição insossa é engolida em cinco minutos. Depois disso, os vagabundos recebem ordens para entrar nas celas onde passarão a noite.

Essas celas, verdadeiras celas de prisão de tijolos ou pedras, têm cerca de três e meio por dois metros. Não há iluminação artificial — a única fonte de luz é uma janela estreita e gradeada no alto da parede e um olho mágico na porta que permite que os guardas fiquem de olho nos internos.

Às vezes, as celas têm uma cama, porém o mais comum é que os vagabundos tenham de dormir no chão, com apenas três mantas para se proteger.

Não costuma haver travesseiros, e por esse motivo os desafortunados têm permissão para ficar com seus casacos, os quais enrolam e põem sob a cabeça.

Em geral, o quarto é terrivelmente frio e as mantas, devido ao tempo de uso, são tão finas que não oferecem nenhuma proteção contra o rigor da temperatura.

Assim que os vagabundos entram nas celas, as portas são firmemente trancadas por fora: só se abrirão às sete horas da manhã seguinte.

Em geral, ficam dois internos em cada cela. Murados em sua pequena prisão por doze horas desgastantes sem nada para se proteger do frio exceto um camisão de algodão e três mantas finas, os pobres miseráveis sofrem cruelmente com o frio e a falta do conforto mais elementar.

Os lugares estão quase sempre infestados de percevejos, e o vagabundo, vítima da praga, com os membros exaustos, passa horas e horas se virando e revirando, numa vã espera pelo sono.

Se consegue adormecer por alguns minutos, o desconforto de dormir sobre o chão duro logo o desperta de novo.

Os vagabundos antigos e espertos, que estão nessa vida há quinze ou vinte anos e, em consequência, ficaram mais filosóficos, passam as noites conversando. No dia seguinte, descansarão por uma ou duas horas num campo, sob alguma cerca viva que julguem mais acolhedora do que o albergue. Mas os mais jovens, ainda não endurecidos pela familiaridade com a rotina, lutam e gemem na escuridão, esperando com impaciência que a manhã lhes traga alívio.

E no entanto, quando o sol afinal brilha dentro de sua prisão, eles consideram com desânimo e desespero a perspectiva de outro dia exatamente igual ao anterior.

Por fim, as celas são destrancadas. Está na hora da visita do médico: com efeito, os vagabundos não serão libertados enquanto essa formalidade não for cumprida.

O médico costuma se atrasar, e os vagabundos têm de esperar por sua inspeção, em fila e seminus num corredor. Nesse momento, é possível ter uma ideia da condição física deles.

Que corpos e que rostos!

Muitos têm malformações congênitas. Vários sofrem de hérnias e usam cintas. Quase todos têm pés deformados e cobertos de feridas em consequência das longas caminhadas com botas inadequadas. Os velhos não passam de pele e ossos. Todos têm músculos caídos e a aparência miserável de homens que não têm uma refeição decente do início ao fim do ano.

Seus traços emaciados, rugas prematuras, barbas por fazer, tudo neles fala de alimentação insuficiente e carência de sono.

Mas eis que chega o médico. Sua inspeção é tão rápida quanto superficial. Afinal, ela se destina apenas a detectar se algum dos vagabundos mostra sintomas de varíola.

O médico olha rapidamente para cada um deles, de cima a baixo, frente e costas.

Ora, a maioria deles sofre de uma ou outra doença. Alguns, imbecis quase completos, mal conseguem cuidar de si mesmos. No entanto, serão soltos desde que estejam livres das temíveis marcas da varíola.

As autoridades não se importam se estão bem ou mal de saúde, desde que não sofram de uma moléstia infecciosa.

Depois da inspeção médica, os vagabundos se vestem de novo. Então, na luz fria do dia, é possível ter realmente uma boa visão das roupas que os pobres-diabos usam para se proteger dos estragos causados pelo clima inglês.

Esses artigos disparatados de vestuário — a maioria esmolada de porta em porta — não servem nem para a lata do lixo. Grotescos, mal-ajambrados, longos demais, curtos demais, grandes demais ou pequenos demais, a esquisitice deles nos faria rir em qualquer outra circunstância. Aqui, sentimos uma enorme piedade ao vermos essas roupas.

Elas foram consertadas até o limite do possível, com todos os tipos de remendos. Cordões substituem botões. As roupas de baixo não passam de farrapos imundos, os buracos tapados pela sujeira.

Alguns deles não têm roupa de baixo. Muitos não têm sequer meias; depois de enrolar os pés em trapos, enfiam-nos em botas cujo couro, endurecido pelo sol e pela chuva, perdeu toda a elasticidade.

É uma visão terrível observar os vagabundos se aprontando para sair.

Depois de vestidos, eles recebem o desjejum, idêntico à ceia da noite anterior.

Então, são perfilados como soldados no pátio do albergue, onde os guardas os põem a trabalhar.

Alguns lavarão o chão, outros cortarão lenha, quebrarão carvão, farão uma variedade de tarefas até as dez horas, quando é dado o sinal para partir.

Eles recebem de volta os pertences pessoais confiscados na noite anterior. A isso acrescentam meia libra de pão e um pedaço de queijo para a refeição do meio-dia, ou às vezes, mas com menos frequência, um tíquete que pode ser trocado em cafés específicos do caminho por pão e chá, no valor de três francos [seis pence].

Um pouco depois das dez horas, os portões do albergue se abrem para deixar sair um bando de destituídos miseráveis e imundos que se espalham pelo campo.

Cada um deles parte para um novo albergue, onde será tratado exatamente da mesma maneira.

E durante meses, talvez décadas, o vagabundo não conhecerá outra existência.

Em conclusão, devemos observar que a comida para cada vagabundo consiste, no total, em cerca de 750 gramas [duas libras] de pão com um pouco de margarina e queijo, e um litro de chá; isto é, sem dúvida, uma dieta insuficiente para um homem que deve percorrer vinte quilômetros por dia a pé.

Para suplementar sua dieta, obter roupas, fumo e as mil outras coisas de que possa precisar, o vagabundo precisa mendigar quando não consegue achar trabalho (e ele dificilmente o encontra) — mendigar ou roubar.

Ora, mendigar é proibido por lei na Inglaterra e muitos vagabundos conhecem as prisões de Sua Majestade por causa disso.

É um círculo vicioso: se ele não mendiga, morre de fome; se mendiga, infringe a lei.

A vida desses vagabundos é degradante e desmoralizadora. Em muito pouco tempo pode transformar um homem ativo em eterno desempregado e parasita.

Além disso, é extremamente monótona. O único prazer deles é obter alguns xelins inesperados; isso lhes dá a chance de comer à farta por uma vez ou tomar uma bebedeira.

O vagabundo está isolado das mulheres. Poucas mulheres entram nessa vida. Para suas irmãs mais afortunadas, o vagabundo é objeto de desprezo. Assim, a homossexualidade não é um vício desconhecido para esses eternos andarilhos.

Por fim, o vagabundo, que não cometeu nenhum crime e que, no fim das contas, não passa de uma vítima do desemprego, está condenado a levar uma vida mais miserável que a do pior criminoso. Ele é um escravo com uma aparência de liberdade que é pior do que a mais cruel escravidão.

Ao refletirmos sobre seu destino miserável, que é compartilhado por milhares de homens na Inglaterra, a conclusão óbvia é que a sociedade o trataria melhor se o trancasse pelo resto de seus dias na prisão, onde ao menos ele desfrutaria de um relativo conforto.
George Orwell, "Como morrem os pobres e outros ensaios"

Brasil das festas quadrilheiras

 


Miséria

Convencido de que a miséria está intimamente ligada à existência, não posso aderir a nenhuma doutrina humanitária. Elas me parecem, em sua totalidade, igualmente ilusórias e quiméricas. O próprio silêncio me parece um grito. Os animais - que vivem de seus próprios esforços - não conhecem a miséria, pois eles ignoram a hierarquia e a exploração. Este fenômeno somente aparece junto ao homem, o único que submeteu o seu igual; e somente o homem é capaz de tanto desprezo por si.

Toda a caridade do mundo não faz nada mais do que destacar a miséria, e rendê-la ainda mais revoltante do que a angústia absoluta. Frente à miséria, assim como frente às ruínas, nós deploramos uma ausência de humanidade, nós lamentamos que os homens não mudem radicalmente o que está em seu poder de mudança. Este sentimento mistura-se ao da eternidade da miséria, de seu caráter inelutável. Mesmo sabendo que os homens poderiam suprimir a miséria, nós estamos conscientes da sua permanência e acabamos por provar uma inabitual e amarga inquietude, um estado de alma perturbado e paradoxal, no qual o homem aparece em toda a sua inconsistência e pequenez. A miséria objetiva da vida social é, com efeito, apenas o pálido reflexo de uma miséria interior. E, só de pensar nisso, perco a vontade de viver. Eu deveria lançar minha pluma para chegar a um casebre em ruínas. Um desespero mortal me toma assim que evoco a terrível miséria do homem, sua decrepitude e gangrena. Em vez de elaborar teorias e de se apaixonar pelas ideologias, este animal racional faria melhor oferecendo tudo ao outro, até sua camisa - gesto de compreensão e de comunhão. A presença da miséria aqui embaixo compromete o homem mais do que tudo e faz compreender que este animal megalomaníaco é devotado a um fim catastrófico. Frente à miséria, tenho vergonha até da existência da música. A injustiça constitui a essência da vida social. Como aderir, sabendo disso, a qualquer doutrina?

A miséria destrói tudo na vida; rende-a infecciosa, hedionda e espectral. Existe a palidez aristocrática e a palidez da miséria: a primeira vem de um refinamento, a segunda de uma mumificação. Pois a miséria faz de todos um fantasma, ela cria sombras da vida e aparições estranhas, formas crepusculares como se saídas de um incêndio cósmico. Não há o menor traço de purificação em suas convulsões; somente o ódio, o desgosto e o azedume da carne. A miséria não concebe nada mais do que a doença numa alma inocente e angelical - e sua humildade não é imaculada; ela é venenosa, cruel e vingativa, e o compromisso ao que ela conduz esconde chagas e sofrimentos aguçados.

Não quero uma revolta relativa contra a injustiça. Admito apenas a revolta eterna, pois eterna é a miséria da humanidade.
Emil Cioran, "Nos cumes do desespero"

Dignidade humana depende da natureza digna

Qualquer que seja a definição de “dignidade”, é óbvio que para os humanos viverem vidas dignas há que se manter a natureza saudável, viçosa, digna. Degradando-a, degradamo-nos. Mas a dependência não é recíproca: desaparecendo os humanos, a natureza seguirá seu curso.

Uma série chamada “O mundo sem nós”, no History Channel, mostra como a natureza seguirá, sem os humanos, recuperando progressivamente os espaços que nós lhe tomamos: cidades, estradas, represas, pontes…

A série explora a ideia de desaparecimento súbito dos humanos. Mas, salvo grande reviravolta no curso da história, o mais provável é o lento desaparecimento dos humanos, com número crescente de vítimas dos desastres que se dizia serem naturais, mas que cada vez mais, sabemos, decorrem de ações humanas. Desaparecer lentamente amplia a possibilidade de alguns humanos culparem outros por seu sofrimento, gerando mais ódio e suas nefastas consequências.


O futuro que queremos para nossos filhos, netos e bisnetos não é esse, progressivamente sem nós e também sem eles. Sem futuro ou, mesmo, um futuro de crescentes conflitos. Queremos que eles vivam vidas saudáveis, assim como seus filhos, netos, bisnetos, trinetos e descendentes. Legar essa possibilidade aos que virão depois de nós exige pensarmos 100 anos adiante e, ao mesmo tempo, para que nós, nossos pais, irmãos e amigos tenhamos vidas saudáveis temos que pensar no aqui e agora, orientando nossas decisões com tal amplitude temporal, hoje, amanhã e daqui a um século!

A lógica da política dificulta pensar além de quatro anos – quando muito! – o que compromete o futuro das próximas gerações e, cada vez mais, também o nosso. Por outro lado, a lógica do eleitor – que é cidadão ou cidadã, mãe ou pai e avô ou avó – , exige pensar no curto e no longo prazo. No entanto, os políticos não oferecem tal possibilidade, presos que estão na busca de seus interesses eleitoreiros. Como superar essa deficiência da democracia?

Não se trata de pleitear uma nova Constituinte, ou o voto distrital, puro ou misto, ou o desconhecido semipresidencialismo, ou o parlamentarismo ou seja o que for. Todos esses pleitos carecem de objetividade e cada um deles comporta interpretações as mais diversas, contraditórias até.

O avanço da democracia, essencial para construir a dignidade dos humanos e recuperar o viço da natureza, depende de objetivos bem mais concretos, precisos, que as pessoas percebam como válidos, desejáveis para o seu dia a dia e pelos quais valha a pena se esforçar. Objetivos que sejam ambiciosos mas factíveis, gerais e locais, e que as pessoas sintam que suas vidas melhoram conforme se avança rumo a alcançá-los. Um longo caminho começa com os primeiros passos.

Carecemos de agentes que transformem esse desafio em propostas claras e mobilizadoras. Surgindo tais propostas, começaremos uma profunda e há muito necessária e desejável reforma política democratizante.

Mamateiros do Jair votam para defender a economia deles

O Datafolha apontou a ligação estreita entre economia e eleição. Os brasileiros esqueceram o kit gay e estão consultando o bolso antes de decidir o voto. A situação vale tanto para quem sofre com o desemprego e a carestia, maioria da população, quanto para os privilegiados que vivem na aba do governo.

Menos que largar mão de um projeto de poder autoritário e condenado ao fracasso, Bolsonaro ressente-se da possibilidade de curtir sua preguiça —esticar feriados, enforcar segundas, trabalhar três horas por dia e passar noites em claro conferindo as redes do ódio— longe do cartão corporativo, cujos gastos somam mais de R$ 21 milhões. Adeus, vida boa.


Aqueles que o sustentam e o manipulam —e em troca aturam humilhações públicas— podem perder as mordomias. Sob Bolsonaro, os militares, ativos e inativos, escaparam do aperto salarial aplicado ao funcionalismo. Mais de 6.000 fardados ocupam cargos civis, alguns acumulando salários e aposentadorias. Generais que fazem a cabeça do capitão recebem até R$ 100 mil em um único mês.

Na lista vip de favorecidos, estão parlamentares que refocilam na lama do orçamento secreto; milicos de pijama que fazem lobby para mineradoras; empresários que bancam o desmatamento; garimpeiros que movimentaram R$ 200 milhões em dois anos; médicos que arranjam boquinhas em órgãos brasileiros nos EUA; cantores preferidos da PM mineira; advogados que não sabem onde fica o Fórum e compram mansões.

A fauna da mamata se renova velozmente. Agora surgiu em cena o Queiroguinha, filho do ministro da Saúde, que aproveita eventos oficiais para alavancar sua candidatura a deputado. E o que dizer dos militantes bolsonaristas que, impulsionando a circulação de notícias falsas e teses conspiratórias sobre o processo eleitoral, faturam R$ 1 milhão com a reprodução de vídeos no YouTube? Para estes, a economia vai muito bem, obrigado.

Um país que um dia teve um futuro

Tive a sorte de pertencer a uma geração de brasileiros que tinha muitos motivos para se sentir feliz com o seu país, mas contemplo hoje uma nova geração que tem muitas razões para o desânimo e o cinismo. Para quem nasceu e vive na periferia do mundo desenvolvido a única maneira de estar contente com a vida é a esperança de progresso e de um futuro melhor. Foi esta a experiência vivida pelos que, como eu, cresceram nos anos 50 do século passado. Nós tínhamos um futuro.


Durante os anos 40 e 50 do século XX o Brasil crescia rapidamente, mais do que o resto do mundo, e ao mesmo tempo se urbanizava e se industrializava, dando a todos a impressão de que não haveria limite para o desenvolvimento. Vivíamos cada dia com a convicção, quase a certeza, de que os amanhãs seriam cada dia melhores. Na política quem encarnou este estado de espírito e esta confiança foi Juscelino, desde seus tempos de prefeito revolucionário de Belo Horizonte até a Presidência da República. Os anos JK não são um mito nem uma simplificação histórica, eles existiram de fato, mesmo admitindo-se que processos históricos são experiências complexas.

Refletindo sobre Juscelino penso que dois traços de sua personalidade foram decisivos para o papel que ele desempenhou. Um traço era sua fixação no futuro, um olhar sempre fixado no mais longe horizonte, que lhe permitia transpor as armadilhas do presente e o peso do passado, sem vacilações ou dúvidas. O outro, igualmente poderoso e transformador, era a disposição fraterna e pacífica do seu espírito, que não alimentava ódios ou ressentimentos e esfriava a oposição num ambiente da mais ampla liberdade. Na política absorvia todos os golpes, até os mais extremos , e estava sempre pronto para o perdão. Não há exemplo similar em nossa história republicana, em que a regra é o conflito e a retaliação.

Apesar desta lembrança do passado, sei muito bem que a nostalgia não resolve problemas nem muda as coisas na vida real. A história é para a frente que anda, mesmo quando parece retroceder. A principal herança dos anos JK não é certamente o apelo à saudade, mas a insistência em olhar sempre para a frente e para o futuro. Pensando exatamente no futuro, o que se pode dizer da política brasileira neste momento?

Raras vezes o Brasil terá vivido um tempo tão difícil e amargo como o que estamos vivendo hoje. Parecemos condenados à pobreza, mesmo cercados de todas as riquezas. Dados oficiais nos dão conta que cresceu o número de brasileiros vivendo na pobreza absoluta. Quase 30 milhões de pessoas vivem com fome, enquanto somos a terceira potência agrícola do mundo. O centro das grandes cidades, mesmo das mais ricas, está tomado por milhares de pessoas sem teto, vivendo em barracas e da caridade alheia. Mais de 90% dos brasileiros vive em situação econômica precária e sem muitas expectativas para si e para os seus filhos. Tudo isto poderia ser visto com algum conformismo se fôssemos um país pobre, privado de tudo. No entanto, somos um país rico e cheio de todos os recursos.

A política, com seu gosto pela manipulação da realidade, procura confundir a natureza da nossa crise. Ela não é obra do governo de hoje, mas dele e de governos anteriores e, até mais do que deles, das nossas instituições políticas que não funcionam mais em benefício da população e que tornaram o Estado a propriedade privada de grupos políticos e de interesses privados a eles associados. A agenda da política não trata do futuro dos brasileiros.

A democracia brasileira sobrevive hoje, à semelhança do que observou a filósofa Hannah Arendt num outro contexto, graças à silenciosa tolerância e aprovação dos setores indiferentes e desarticulados do povo, tanto quanto das instituições articuladas e visíveis do país. Quando este silêncio se romper veremos que a maioria absoluta da população não se sente representada pelos partidos políticos nem pelo Parlamento. Neste momento nada mais estará em segurança.

Nossos líderes mais influentes e mais populares parecem passageiros indiferentes nesta marcha da insensatez.

segunda-feira, 6 de junho de 2022

O Brasil que trabalha

 


Um novo Nero entre nós?

As Forças Armadas sempre cumpriram papel crucial, de organismo de defesa do País, protegendo nossas fronteiras e, nas últimas décadas, apoiando o Estado Democrático de Direito. Nossa Constituição coloca o presidente na posição de chefe das Forças Armadas com a clara expectativa de que exerça esse poder pelo povo, para o povo e em nome do povo – jamais permitindo a instrumentalização e o abuso. Aliás, o respeito à Constituição e aos princípios da separação dos Poderes e da prevalência do interesse público é compromisso visceral republicano.

Mas nem sempre foi assim, pois já vivenciamos momentos em que nossos presidentes do passado usaram as Forças Armadas com fins políticos, rompendo a ordem democrática e institucional. O marechal alagoano Deodoro da Fonseca instalou a República por golpe militar em 15 de novembro de 1889. O ex-sargento gaúcho Getúlio Vargas, em 1937, implantou o Estado Novo, governando de forma ditatorial até 1945; e o marechal cearense Castelo Branco foi o escolhido pelos golpistas militares de 1964 para assumir o primeiro governo federal do período da ditadura, que duraria 21 anos.

Eis que, passados 37 anos do fim da ditadura, o capitão paulista reformado, hoje presidente Bolsonaro, tem sinalizado na direção da tirania, ao reapresentar a tese do voto impresso auditável, já examinada pelo Congresso Nacional e rechaçada – parecendo desprezar a votação ocorrida. É ato totalitário pôr em dúvida a realização de eleições em 2 de outubro, assim como questionar a confiabilidade do sistema de urnas eletrônicas, utilizado em mais de 40 nações do mundo, por meio do qual ele mesmo foi eleito oito vezes, sem nunca ter reclamado antes.


Tenta-se construir a teratológica hipótese da apuração eleitoral paralela pelas Forças Armadas, ao arrepio da Constituição, já que a atribuição é exclusiva do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), cuja criação foi de importância capital para reduzir a corrupção eleitoral reinante no Brasil e que o projeto de Código Eleitoral em discussão no Senado pretende enfraquecer significativamente. Acaso o presidente da República admitiria que outra autoridade pudesse exercer paralelamente seu poder exclusivo, como o de indicar ministros do STF, do STJ e o procurador-geral da República ou de conceder indultos, como ele propõe ao TSE em relação à apuração dos votos?

Não é a primeira vez que são praticados movimentos em direção a uma hipertrofia militar, neste mandato. Desde o início, seguidores presidenciais repetem à exaustão, sem embasamento constitucional, a tese insustentável de que as Forças Armadas seriam o Poder Moderador, que houve no Brasil, durante o Império, e depois deixou de existir, dando lugar à tripartição do poder: Executivo, Legislativo e Judiciário.

As Forças Armadas e seus líderes evoluíram ao longo de nossa história republicana e têm como norte o respeito à Constituição. O mesmo vale para a segurança pública, comandada pelos governadores dos Estados, cujos integrantes não se deixarão levar por blefes golpistas nem por narrativas elaboradas a partir de referências apontadas por algoritmos de redes sociais, descoladas do mundo real, para justificar eventual derrota. O compromisso de militares e do corpo da segurança pública é com o respeito à soberania do voto do povo no próximo dia 2 de outubro.

Faltam quatro meses até lá, mas o presidente acaba de se posicionar no sentido de que não comparecerá aos debates de primeiro turno, secundado por Lula, caso aquele efetivamente não compareça. A exemplo das eleições de 2018, os eleitores poderão ser privados do confronto de ideias de todos os candidatos.

Negar informações não surpreende, porque o presidente abusou do poder de tornar sigilosos documentos que deveriam ser públicos, mandando cidadãos aguardarem por cem anos o fim do sigilo – é grave nosso declínio em transparência pública.

O presidente fala em defesa da liberdade, mas tudo não passa de embalagem falsa, narrativa enganosa. Roberto Jefferson e Daniel Silveira, para ficarmos em apenas dois exemplos, pregaram contra o Estado Democrático de Direito, e, obviamente, a imunidade parlamentar não os blinda sem limites – não podem dizer o que quiserem. Da mesma maneira, se um parlamentar for à tribuna e pregar pela morte de judeus, negros ou pessoas homoafetivas, jamais se poderá argumentar que estão cobertos pela inviolabilidade da imunidade parlamentar, que lhes garantiria liberdade de expressão. Pregar pela morte da democracia é conduta ainda mais grave. Conceder o presidente indulto após condenação pelo STF por este crime é estopim incendiário à democracia, ato violador da separação constitucional dos Poderes.

Temos assistido ao triste espetáculo diário do incentivo ao conflito e ao armamentismo irresponsável da população, sob o mantra de que “povo armado não é escravizado”. Muitos obedecem como zumbis ao chamamento, que utiliza linguagem que obscurece verdades e semeia a ideologia de um quase fanatismo. Consegue-se arregimentar, via redes sociais, uma matilha de vândalos que idolatram cegamente seu líder, dispostos a tudo, sob seu comando. Seria ele um novo Nero, retratado em Quo Vadis, de Henryk Sienkiewicz, que ateia fogo em Roma apenas para se inspirar, pelo ardor das labaredas, tocando sua lira?

A morte

A morte é o destino dos seres humanos, ao fim de um ciclo natural de vida, que se apresenta como uma espécie de enigma da condição humana. De toda maneira, as pessoas se acostumam gradativamente com essa ideia através da idade e de doenças sucessivas. Logo, passa a ser tida por normal, embora essa normalidade seja a do corpo inerte tomado por bactérias e vermes. A religião veio a ser uma forma de conforto, graças a ideias como a de “salvação”, “outro mundo” e “vida eterna”, entre outras acepções. Pascal, célebre filósofo católico, dizia que a vida era uma forma de “distração”, de “divertimento”, usufruída pelas pessoas procurando esquecer a morte inexorável.

Estados totalitários, aqui, inovaram. Tiraram a morte do seu ciclo natural e conferiram-lhe uma significação propriamente política, de poder, submetendo agrupamentos humanos por raça, religião ou mera diversidade à violência extrema. No nazismo, seres humanos, como judeus, homossexuais, ciganos e testemunhas de Jeová, considerados como “subumanos”, terminaram, por via de consequência, seus dias em câmaras de gás e nos crematórios. Extirpados da categoria dos humanos, a morte violenta lhes foi imposta.


Os comunistas não ficaram atrás, decretando a morte violenta pela fome orquestrada, imposta pela violência política a aproximadamente 3,2 milhões de ucranianos num evento que passou a ser denominado de Holodomor, morte por inação, num episódio da fome planejada pela polícia política stalinista nos anos 30 do século passado, com homens e mulheres esquálidos, cadáveres ambulantes, tendo o canibalismo como um de seus efeitos.

O processo civilizatório tem se caracterizado por prolongar a vida, por evitar a morte violenta, em sociedades que se organizam pela segurança pública, por sistemas de saúde públicos e privados, pelo avanço científico e tecnológico. As pessoas se sentem assim seguras, reconfortadas e evitam a morte, tida por uma forma arbitrária e injustificada de violência. Coisas tão simples como remédios e vacinas, além da integridade física que estaria ao abrigo do arbítrio, são manifestações deste progresso, considerado, então, como algo normal. O que ocorre, porém, se cenas de violência, patrocinadas inclusive por forças policiais, põem em xeque tal concepção?

Um cidadão normal, chamado Genivaldo, foi gasificado num porta-malas de uma viatura da Polícia Rodoviária Federal no Estado de Sergipe. O espetáculo do horror introduz a morte violenta patrocinada pelo Estado, cuja função – convém sempre lembrar – consiste em proteger a vida e o patrimônio dos cidadãos. Hobbes já dizia que essa é sua função essencial, sem a qual a sociedade recairia num estado de selvageria, denominado por ele de guerra de todos contra todos. A justificativa inicial utilizada pelo arbítrio foi a de um “mal súbito” sofrido pela vítima, expressão que só pode ser considerada como uma piada macabra. Mal, sim, existe, mas o de uma sociedade que começa a se acostumar com tal tipo de arbitrariedade. Súbito, sim, o descaramento e a ausência de compaixão.

A chacina no Rio de Janeiro, com forças policiais agindo impunemente, matando inocentes no máximo arbítrio, expõe essa faceta de uma sociedade que perde controle de si. A polícia, pilar da organização estatal, abandona sua função, fazendo com que pessoas pereçam pela morte violenta. A segurança dos cidadãos não é mais assegurada de uma forma aberta. Nem o disfarce é utilizado. Se o Estado não cumpre mais sua missão, o que podemos esperar, senão a irrupção da crueldade, da selvageria? Há justificativa para isso?

Em Pernambuco, mais de uma centena de pessoas foi vítima de inundações e desabamentos, em outro teatro do horror que apenas escancara o que já vem acontecendo em outras cidades. Nada disso é normal, na acepção de que seria inevitável. Calamidades naturais fazem parte do mundo, mas o que diferencia um Estado de outro são a prevenção e a forma de enfrentamento desse tipo de fenômeno. Sismógrafos foram inventados para prevenir as consequências desastrosas de terremotos, com operações de defesa civil e afastamento da população atingida para outras regiões. Habitações em zonas de risco podem ser solucionadas por políticas habitacionais e outras ações estatais. Foi mais uma vez desastroso o discurso presidencial, ao considerar as catástrofes como “naturais”. Seus efeitos não o são, se houver políticas sociais ancoradas na ciência e na tecnologia.

O Brasil vive um período particularmente delicado, pois estas formas de “morte social” passam a ser tidas por normais. Nem a compaixão se faz mais presente nas ações governamentais. Se o Estado não se impõe, protegendo os malfeitores e relegando os policiais honestos e conscientes, é porque se encaminha para formas autoritárias. Trata-se, na verdade, de um jogo político com a morte. A sociedade não pode pactuar com tal tipo de “brincadeira macabra”.

Amazônia: o boi-bumbá e o zebu da Volkswagen

Afinal, o que o boi legou à Amazônia? No campo da cultura, o bumba-meu-boi diverte e liberta numa ópera performática com música, coreografia, artes plásticas, teatralização e contação de histórias. Em contrapartida, no pasto da economia o boi zebu explora, escraviza e envenena, como na antiga fazenda da Volkswagen e empresas afins. Um celebra a vida, o outro a despreza. Olelê, olalá, olha o boi, o que te dá?

As toadas do boi bumbá ecoam em junho nas ruas, praças, terreiros e bumbódromos da Amazônia, numa explosão da festa coletiva de criação popular. Já o boi que pastou na fazenda da Volkswagen vai “dançar” em Brasília na próxima semana, em apenas um dia (14/06), quando a empresa, em audiência extrajudicial do Ministério Público do Trabalho, em Brasília, deve responder denúncias recentes repercutidas na mídia alemã sobre a escravização de 900 trabalhadores ocorrida há 50 anos.

O crime está documentado no livro “Volkswagen in the Amazon” escrito pelo historiador da Universidade de Zurique, Antoine Acker. Ele consultou os papéis do padre Ricardo Rezende, coordenador no Pará da Comissão Pastoral da Terra da CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil), nos anos 1970, e vasculhou os arquivos da Volkswagen na Alemanha. Lá encontrou um documento no qual a matriz pergunta a sua filial: “Por que criar gado na Amazônia?”

A pergunta foi retomada há dias pelas emissoras alemãs NDR, SWR e no domingo passado (29/05) pelo jornal Süddeutsche Zeitung: por que uma fábrica de carros alemã, sem experiência agropecuária, derruba a floresta e planta capim para o gado, cujos arrotos e peidos produzem gás metano e, com isso, aumentam o efeito estufa e o aquecimento global? O então presidente da VW, Wolfgang Sauer considerou “um grande negócio” e aproveitou as vantagens indecentes oferecidas.

Veja - 31/03/1971

Essas vantagens eram divulgadas nas publicidades dos jornais. O anúncio “Volkswagen produzido na Amazônia” traz a foto de um boi zebu (ou Belzebu?). Lá a Superintendência do Desenvolvimento da Amazônia (SUDAM), criada pela ditadura militar, prometia mundos e fundos para garantir o lucro fácil sem qualquer risco dos – digamos assim – “investidores”:

– “O Banco da Amazônia dá toda a cobertura financeira. Nada de pagar Imposto de Renda durante dez anos. Você não paga nem impostos estaduais, nem municipais e até o terreno você pode receber de graça. Se for preciso importar equipamentos, você não paga taxas nem impostos de importação”.

“Você” não é você, leitor (a), eram “eles”. Isso fica claro no outro comercial de 1971 – “Toque sua boiada para o maior pasto do mundo” – onde a SUDAM informa que “mais de 250 empresas agropecuárias já estão se instalando na Amazônia”. E assegura cinicamente que “essa gente foi para lá movida por um forte impulso pioneiro patriótico empresarial”. Juro que escreveram isso, invertendo o lema da ditadura: “Entregar para não integrar”. Entreguismo agora camuflado no slogan “Brasil acima de tudo”.

Patriotismo, quantos crimes se cometem em teu nome! Os anúncios omitiam a maior vantagem oferecida: a força de trabalho também gratuita de peões, vaqueiros e outros escravizados pela Companhia Vale do Rio Cristalino (CVRC), conhecida como Fazenda Volkswagen, de 139 mil hectares, com cerca de 300 trabalhadores registrados. O padre Ricardo Rezende calcula que outros 600 recrutados pelos “gatos” na região trabalhavam ali sob regime de cativeiro. O gerente suíço da fazenda chegou a estimar em 7.000 os trabalhadores terceirizados.

Autor de vários livros sobre a escravidão moderna, o padre, que é professor de Direitos Humanos na UFRJ, “ouviu muitas histórias sobre a fazenda”, mas demorou a dar um flagrante, o que ocorreu na visita à fazenda em julho de 1983, em companhia de deputados de São Paulo. Na estrada a caminho da sede da fazenda, a comitiva cruzou com uma caminhonete com alguns trabalhadores aprisionados e amarrados dentro da caçamba. Ao ser questionado, o capataz afirmou que se não fossem amarrados, não trabalhariam direito

O padre conversou com o gerente suíço Friedrich Georg Brügger que, contratado pela Volks, definiu como “o emprego dos meus sonhos” seu cargo de administrador exercido de 1974 a 1986, ano em que a fazenda foi vendida por US$ 20 milhões, sem julgamentos ou indenizações. O suíço viveu quatro décadas no Brasil e só retornou à terra natal em 2017.

O que para ele era “sonho”, para os peões era pesadelo. Lá se trabalhava sete dias por semana, mais de dez horas por dia, sem qualquer pagamento, com alojamentos em locais insalubres, alimentação precária, sem assistência médica e sem acesso à água potável. Os trabalhadores submetidos a violência, espancamento e cárcere privado, com registro até de estupros e assassinatos, permaneciam em cativeiro, impedidos de sair por causa dos “débitos contraídos”, como no sistema de endividamento dos seringais.

– “Era uma forma de escravidão moderna” – denuncia o promotor encarregado do caso, Rafael Garcia. Confrontado pelo Süddeutsche Zeintung, Brügger se justifica:

– “Quando mil homens estão aglomerados, é óbvio que as coisas nem sempre são tranquilas. Especialmente no meio da selva”. O jornal editado em Munique detalha as reações do entrevistado: “Às vezes, ele contesta tudo, às vezes culpa as circunstâncias da época. Às vezes faz piadas de escravo, às vezes se mostra agressivo, às vezes é educado e cordial”.

Ele é um “homem impulsivo” na avaliação do padre Ricardo, que intercedeu por um trabalhador com malária, ardendo em febre, mas foi repelido aos berros por um descontrolado Brügger, sendo depois convidado para jantar com ele, que lhe ofereceu de presente um cálice e uma patena talhados em pau-brasil, árvore protegida por lei nacional e ilegalmente derrubada.

O suíço reconhece que a VW se apropriou de terra indígena. Ele certamente merece uma parte do boi morto desossado pelo Pai Francisco com a faca amolada na bunda da Catirina, que ganhou a tripa fina. Em homenagem ao novo sanduíche de picanha sem picanha da rede McDonald`s, Pai Francisco entoaria:

– A picanha do hamburger, dou pro Georg Brügger, olelê olalá, olha o boi, o que te dá.

A toada prossegue:

– Eu cortei a chã, é pra SUDAM, olelê olalá, olha o boi o que te dá.

Graças à sua atuação, a SUDAM merece a chã de fora, por sua subserviência às multinacionais, mas também a chã de dentro pelo desvio de verbas públicas, favorecimentos de políticos e empresários locais, liberação de verbas para projetos superfaturados, fraudes em contratos e notas fiscais de compras. Que o diga o senador Jader Barbalho, que renunciou ao mandato em outubro de 2001 e foi preso sob acusação de corrupção e libertado no mesmo dia.

Olelê, olalá, olha o boi, o que te dá. Pai Francisco doaria a tripa cagaiteira pra toda essa bandalheira.

Atenção jovens do meu Brasil varonil, fiquem de olho na audiência da terça-feira, 14 de junho. A escravidão da Volks pode mostrar como a ditadura empresarial-militar, cujo modelo de “progresso” reaparece nos discursos atuais, beneficiou centenas de empresas através da SUDAM. “Fazei isso em memória de mim” – dirão os herdeiros dos escravizados, que fazem a fila do osso, diante do preço abusivo da carne, sem medo do boi da cara branca. Olelê, olalá, olha o boi, o que não te dá.

domingo, 5 de junho de 2022

Brasil desigual

 


Novas astúcias para novos golpes

Interlocutor expressivo de filósofos europeus contemporâneos, o argentino-mexicano Enrique Dussel é um dos maiores pensadores vivos da América Latina.

Extensa para um resumo, sua obra poderia, porém, ser caracterizada como uma reinterpretação dos Evangelhos pelos pontos de vista do que chama genericamente de "pobres", isto é, não apenas os destituídos de bens, mas também os que foram postos à margem das decisões constitutivas da história. Dussel enuncia agora, em termos bem claros, uma hipótese politicamente delicada: os evangélicos seriam a nova arma dos EUA para golpes de Estado na América Latina.

Isso viria de um novo tipo de olhar para a periferia dependente latino-americana após o fracasso das tentativas de dominação americana no Oriente Médio. Exemplo da mudança teria sido dado na Bolívia com a derrubada de Evo Morales.

Apesar de ter superado índices históricos de pobreza por meio de governos progressistas, o país também despertou para outras aspirações, que, para Dussel, confluem para uma mudança na subjetividade: "Passa-se à subjetividade consumista, que acredita que certos projetos de direita poderiam solucionar suas novas aspirações".


Para certos setores emergentes, não se trata apenas de aumento de renda, mas de um rearranjo da consciência social, cujas linhas ideológicas mostram afinidade com as interpretações bíblico-evangélicas das seitas norte-americanas.

Assim, nos países andinos, as tradições ancestrais (aymaras, incas), que têm ainda enorme força popular entre indígenas e cholas, deveriam ser rigorosamente substituídas por uma espécie de reinterpretação neoliberal do cristianismo. O mesmo pode-se dizer naturalmente de tradições afros ou originárias presentes em quase todas as regiões latino-americanas.

Toda religião compõe-se de fé individual e de cultura, sua parte coletiva, que pode hipertrofiar-se, afetando ou neutralizando a primeira como se fosse mero protocolo de adesão a dogmas. Isso já aconteceu e acontece hoje no fenômeno de disseminação das seitas integristas, cujo pano de fundo é uma ecologia mental perpassada pela lógica financeira implícita na "teologia da prosperidade". Na prática, um agregado de estímulos oriundos de marketing empresarial, literatura de autoajuda e doutrinação pseudocientífica relativa tanto à aquisição de riquezas como à gerência da vida pessoal, tudo respaldado pelos protocolos do culto.

Nesse modelo se esboçam as variações de passagem para um novo sujeito histórico do capital, em que a pretensa religião (mais mobilização neural e conduta do que fé) assegura a previsão dos comportamentos nas classes populares. Em suma, um totalitarismo "soft”.

A república hipócrita

Por quase toda história da escravidão, o senhor podia, legalmente, matar ou torturar seu escravo, mas não se conhece manifestação favorável a estes gestos por parte de qualquer dos dois imperadores que governaram o Brasil naquele tempo. Depois de 133 anos de República, 37 de democracia cidadã, ainda vemos licença para maus ou incompetentes policiais assassinarem descendentes sociais dos escravos, quase todos descendentes também biológicos; e o Presidente, eleito por 56 milhões de cidadãos, manifestando simpatia pelos que matam, com o argumento de que estão defendendo a ordem, mesmo argumento dos escravocratas. A maldade do governante aumentou, apesar de eleito.

 v

Diferentemente, porém, dos brasileiros livres de antes, que aceitavam o direito de matar para alguns, agora a população se divide entre os que defendem este direito como parte da tarefa de policiais e muitos que se manifestam contra por considerá-los maus ou incompetentes para cumprirem suas obrigações. Incapazes de serem bons policiais, como seus colegas, sem atirar balas perdidas matando crianças, sem assassinar cidadãos decentes, cujo crime é o endereço em que mora ou passava, ou mesmo matar bandidos, em um país sem pena de morte.

Mas para os que se indignam com a maldade ou a incompetência de alguns policiais, a hipocrisia cresceu nestes 133 anos. Porque se indignam depois de cada violência física, tortura ou morte, mas toleram o sofrimento e a morte de milhões de brasileiros pela fome, a sobrevivência precária de muitos milhões na pobreza, a violência permanente sobre 12 a 14 milhões de adultos brasileiros analfabetos.

Genivaldo de Jesus foi asfixiado com uma bomba de gás dentro do camburão da polícia, e o Presidente justificou. Milhões de analfabetos estão permanentemente submetidos a asfixia intelectual ao longo de suas vidas, diante do silêncio dos governantes, dos oposicionistas, de juízes e procuradores e da população em geral. Que tampouco se manifesta diante das milhões de crianças que estão esperando para ampliar este exército de analfabetos, e os muitos milhões que frequentarão a escola, mas não serão alfabetizados para os desafios na vida contemporânea. E cairão na penúria, onde arrastarão a sobrevivência, candidatos a Genivaldo de Jesus.

Nos indignamos com as barbaridades de maus policiais e com declarações do presidente, mas aceitamos hipocritamente um sistema escolar que prepara candidatos a camburão e gás, pela pobreza que vem da falta de educação. Indignados, mas elegendo presidente que justifica a barbaridade.

Boca da morte


Não é a primeira vez que morre alguém com gás lacrimogêneo no Brasil
Jair.Bolsonaro

Bolsonaro e Juan Rulfo: comício ao pé da tragédia

Depois de mais um fim de semana de passeios de moto, provocações e inércia, diante do desastre das chuvas no Nordeste, o presidente Jair Bolsonaro chegou de avião em Recife, segunda-feira (30/5), quando os pernambucanos choravam seus mais de 100 mortos, e removiam escombros em busca de desaparecidos. Um ambiente de dor e desolação semelhante ao do conto famoso de “A Planície em Chamas” (Llanto en Llamas), do notável escritor Juan Rulfo, no México dos Anos 50.

Nosso mandatário – candidato à reeleição – desembarcou à semelhança do chefe político da narrativa de Rulfo: com ministros e seguranças, na cidade atingida por um terremoto. E, depois de um dia de discursos, promessas vãs, bebedeira, banquetes, tomam os carros oficiais de volta à capital, sem resolver nada. Alguns ainda levam o pouco que restara do desastre – galinhas e ovos recebidos “de presente” das vítimas do sismo.

Desgraças diferentes na forma e moldura (o tremor de terra na província mexicana e os temporais na capital pernambucana), cuja essência no conteúdo é a mesma: a arrogância do poder, a impiedade dos senhores do mando, a crença ingênua das vítimas. Além da insidiosa teia de enganos decorrentes da utilização política das tragédias, sobretudo se elas acontecem em períodos eleitorais.


Transmitida quase em tempo real pelas redes sociais, nos blogs e sites dos principais veículos de imprensa regionais e do país, o jogo de cena do “mito” e seus acompanhantes se deu desde o “sobrevôo nas áreas alagadas”, mas ganhou tons surreais na entrevista coletiva na cidade destroçada. Sem pisar na lama, na visita a título de “levar assistência e solidariedade” às vítimas, o “mito” fez da coletiva, um palanque de campanha.

Atacou o governador Paulo Câmara (PSB) que, sem ser avisado da visita presidencial ao estado, recebeu ofensas do mandatário. “Ele (o governador Câmara, aliado de Lula), preferiu ficar em casa, dormindo na cama, debaixo de lençol quentinho, em lugar de estar aqui, ouvindo as medidas e providências que estamos anunciando para o povo de seu estado”, disse, irritado, ao responder pergunta de uma repórter, ao lado dos ministros Marcelo Queiroga (Saúde) e Daniel Ferreira (Desenvolvimento Regional). “O momento não é de fazer política”, disse. E seguiu nas ofensas, tendo em sua companhia o prefeito de Jaboatão dos Guararapes , Luiz Medeiros, colega de partido, convidado ao ato. O prefeito de Recife, João Campos (PSB), a exemplo do governador, aliado e amigo do peito do presidenciável petista, também não participou do comício de Bolsonaro, no auge da maior tragédia em Recife, desde o desastre das cheias do Capibaribe, em 1975. “O prefeito de Jaboatão, meu amigo, conhece a região, e vai falar o que o governo federal tem feito, não só para seu município, independente da coloração partidária”, disse, antes do abrir o microfone às perguntas dos jornalistas. Depois pegou o avião de volta à Brasília.

No dia 31, antes de junho chegar, desceu no oeste da Bahia, a pretexto de participar da abertura da “Bahia Farm Show”, uma das mais importantes feiras do agronegócio no país. O presidente em campanha participou de motociata pela cidade, levando na garupa seu ex-ministro da Cidadania, João Roma, candidato a governador da Bahia, pernambucano de nascimento que não esteve na Recife devastada, na visita da véspera. Resta o pensamento do grande Juan Rulfo, antes do ponto final:”Vivemos em um terra onde tudo acontece graças à Providência, mas tudo acontece com acidez. Estamos condenados a isso”.Que venha então a Providência. E breve.

Pequeno canalha

O pior canalha é o pequeno canalha. O anão moral. Medíocre, dissimulado, frustrado, morre de inveja dos que têm atributos que lhe faltam, o que é muito comum. Perdedor em tudo e inconformado com a sua sina de perdedor faz-se canalha para purgar os pequenos demônios da inveja que corroem suas entranhas.

É capaz de cometer todas as pequenas perversidades que conhece para sublimar o sofrimento que o destino biológico lhe impõe. A falta de neurônios acompanhada da indigência cultural do meio são condições ideais para o surgimento do pequeno canalha.

Um homem sem atributos, fisicamente mal dotado, de inteligência mediana, desagradável no aspecto e na voz metálica, compreende a sua limitação e se rebela contra todos que lhe pareçam mais aquinhoados pela sorte.


Imaginem um professor de literatura que almeja a glória do grande escritor. Ele tenta realizar seu sonho, escreve contos e os transforma em livro. Espera aplausos e o máximo que colhe é a indiferença. Agastado com as críticas que lhe revelam a absoluta falta de talento, devolve na mesma moeda. Transforma-se em crítico e produz laxativas apreciações sobre a literatura alheia.

Tenta mais uma vez. Produz um romance. Vira motivo de chacota. Seus personagens são pífios, tão vazios e desinteressantes quanto ele. Vai à loucura e chega a pensar no suicídio. Mas o pequeno canalha não tem coragem nem dignidade para tanto. Logo atribui ao mundo as suas mazelas. Ou seria a síndrome de Adison a responsável pela sua falta de inspiração? Não. A síndrome de Adison só explica a impotência sexual e manchas na pele que parecem vitiligo.

Fracassado, aposta tudo em relatos sobre a vida doméstica e as agruras de sua mãe no segundo casamento. Quer provocar lágrimas, só consegue o riso dos poucos leitores que imaginam a pobre senhora em esforços para cumprir os deveres sexuais exigidos por um marido de hábitos toscos da vida rural. Há nobreza no sofrimento dessa mulher que se submete de todas as formas para garantir proteção ao filho.

À noite, insone, atormentado, pergunta-se porque é assim piegas e medíocre. Põe em dúvida sua convicção religiosa. Deus não pode ter sido tão cruel ao lhe dar menos em tudo, do tamanho do pênis aos neurônios da região frontal.

O pequeno canalha sofre. Gostaria de se diferenciar na multidão. Ser reconhecido por algo que só ele tenha produzido. Nada. Aos poucos só é notado pelas pequenas canalhices que cometeu. Resta-lhe a fuga. Covarde para encerrar sua grotesca participação de forma definitiva, procura um lugar onde possa parecer mais culto para satisfazer o pequeno ego com as glórias da província. E se distrai em exercícios para conceber um epitáfio que lhe louve na morte o que gostaria de ter realizado em vida.
Fábio Campana

sábado, 4 de junho de 2022

Pensamento do Dia

 


Pedagogia da subordinação

A morte por tortura de Genivaldo de Jesus Santos não constitui um incidente isolado na relação entre a população negra e as polícias brasileiras. Nos últimos cinco anos, mais de 18 mil pessoas foram mortas pela polícia, sendo 78,9% negras. Muitas com indícios de tortura e sinais de execução.

O que distingue o caso de Genivaldo, portanto, foi a improvisada câmara de gás montada em plena via pública pelos policiais rodoviários federais para torturar uma pessoa acusada de dirigir uma motocicleta sem o uso de capacete.

Como no caso de Cesar Baptista, recentemente submetido à violência por membros da Guarda Civil Metropolitana, no centro da cidade de São Paulo, as câmaras de celular não tiveram a capacidade de inibir a brutalidade por parte de agentes do Estado. Como se a tortura, tradicionalmente praticada às escondidas, estivesse agora autorizada a ocorrer em público, como alerta de que pretos e pobres jamais terão os seus direitos respeitados nesta terra. Difícil não associar esse recrudescimento da violência de Estado à recorrente apologia de torturadores e regimes que torturam pelo presidente e seus apoiadores.


A tortura transformada em espetáculo nada mais é do que uma forma de pedagogia macabra voltada a assegurar a subordinação racial. Seu objetivo é deixar explícito a todos que as vidas negras não importam. Como nas operações policiais em comunidades, chacinas ou mesmo na manutenção de altíssimos padrões de violência que afetam desproporcionalmente as populações negras (77% das vítimas de homicídios são negras), é a própria humanidade o que se está negando às vítimas.

Mesmo que em alguns estados da Federação, como São Paulo, avanços significativos na qualificação das polícias tenham sido implementados, resultando na redução de índices de homicídios e diminuição da violência policial, o número de pessoas mortas pela polícia no Brasil tem crescido nos últimos anos, conforme dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública. As mais de 40 chacinas registradas durante a gestão do governador Cláudio Castro, no Rio de Janeiro, ajudam a explicar esse crescimento.

A superação dessa pedagogia de subordinação racial, baseada na violência, que se reproduz desde as nossas origens, exigirá não apenas a ampliação de uma consciência antirracista, mas também profundas reformas no aparato de justiça e segurança. O fato, porém, é que essas transformações somente ocorrerão como decorrência de um alargamento da participação de pessoas negras nas diversas esferas de poder político, econômico e cultural.

Se as ações afirmativas abriram espaço para que a população negra pudesse gozar de um bem antes reservado prioritariamente aos brancos, que é a educação, o movimento negro tem deixado claro que é necessário avançar muito mais na construção de uma sociedade mais justa e igualitária.

Nesse sentido é necessário destacar a importância da iniciativa da Coalizão Negra por Direitos de promover e apoiar mais de 50 candidaturas negras ao Congresso Nacional e Assembleias Legislativas ao redor do país, que ocorrerá no próximo dia 6 de junho, em São Paulo.

Sem que pessoas negras venham a ocupar de maneira ampla e efetiva espaços de poder, a democracia brasileira continuará incompleta, e o Estado de Direito, incapaz de assegurar que todas as pessoas, independentemente de sua cor, sejam tratadas com igual respeito e consideração.

A vida em papelão

“Dormir em caixa custa R$ 2,00 por dia em São Paulo.”
Cotidiano, 6 dezembro 1998

A ideia lhe veio ao observar a quantidade de gente dormindo na rua no centro da cidade.

Existe aí uma demanda potencial, pensou. E como estava, ele próprio, desempregado, resolveu arriscar a sorte em um novo negócio: o aluguel de caixas de papelão.

O que não seria nada difícil. Caixas poderiam ser obtidas em lojas, supermercados, fábricas. E os sem-teto aceitariam com entusiasmo a possibilidade de dormirem menos expostos aos elementos – e aos olhares alheios.

O negócio deu certo, e ele foi sofisticando a oferta. Dispunha de caixas em vários tamanhos, algumas acolchoadas, outras pintadas em cores alegres, várias com rádio e TV. Os preços subiam progressivamente, de acordo com a dimensão da caixa e o conforto desta.

Escusado dizer que, durante esse tempo, morava numa caixa, ele também – inclusive para fiscalizar a clientela. E fiscalizar era uma coisa que sabia fazer. Era um cobrador implacável e não hesitava em ameaçar os devedores relapsos: se não pagassem, botaria fogo nas caixas: eram dele, poderia queimá-las se e quando quisesse. Se houvesse alguém dentro, azar.

Ganhou muito dinheiro, encontrou uma linda mulher que aceitou viver com ele. Não numa caixa, naturalmente: ela queria uma casa. Uma casa muito grande e muito bonita.

E uma casa ele fez. Uma casa muito grande e muito bonita, num bairro elegante. É uma casa que chama a atenção de todos, não só pelo design arrojado, como também por uma peculiaridade: é feita de papelão. Papelão especial, muito espesso e impermeável, mas papelão.

Nessa casa de papelão ele vive feliz com a mulher. Só uma coisa o preocupa: tem medo de que algum invejoso bote fogo na casa. O papelão é um grande material, mas, infelizmente, não resiste às chamas. Nada é perfeito.

Moacyr Scliar

Bolsonaro não tem o que fazer nos debates

Bolsonaro diz que só deve participar de debates no segundo turno. Nem o mais fanático dos fanáticos da seita ficou surpreso. O presidente, coitadinho, não quer levar "pancada" dos adversários. Esquece que o terceiro colocado nas pesquisas, Ciro Gomes, tem poupado o governo. Só bate em Lula, o líder das intenções de voto. E que Luciano Bivar, da União Brasil, representa um saco de gatos, uma candidatura de mentirinha, uma linha auxiliar do bolsonarismo e do centrão.

É uma estratégia como outra qualquer. FHC e Lula já fizeram isso —e foram elogiados por analistas políticos. Mas, tomada por alguém que se considera o Destruidor, uma espécie de super-herói ungido por Deus, e ainda por cima com histórico de atleta, a decisão revela fraqueza, além de surpreendente franqueza. Para fugir da salutar troca de ideias, Bolsonaro tem preferido as desculpas esfarrapadas ou engolir camarões com cabeça e tudo e se internar em hospitais.


Antes, porém, é necessário que Bolsonaro vá ao segundo turno. A ânsia golpista, usada para desviar a atenção do desastre econômico, não melhora sua imagem. Ao contrário: piora. O mito insiste no discurso que agrada e mobiliza suas bases radicais, mas que ao mesmo tempo afasta mulheres e evangélicos. A impressão é que, fora dos cercadinhos, não há o que dizer ou explicar. O Destruidor só pode propor mais e maior destruição.

Em sua campanha baseada nas mentiras da rede, o presidente costuma repetir que povo armado é povo livre. A população não pensa assim. Segundo o Datafolha, 72% discordam da frase "a sociedade seria mais segura se as pessoas andassem armadas para se proteger da violência"; 71% discordam de que é "preciso facilitar o acesso às armas"; 69% discordam do conceito (de cunho fascista, aliás) segundo o qual "o povo armado jamais será escravizado".

Bolsonaro não convence. Nem se comparecer aos debates exibindo uma escopeta.

Crueldade

Não será fácil desaprender o mal que se espalhou no espírito de parcela dos brasileiros nos anos do governo Bolsonaro.

Especialmente em tempos cinzentos, é preciso “ter medo do guarda da esquina, mais do que do general”, como alertou Pedro Aleixo quando da instauração do AI-5. Os subordinados adotam com facilidade o abuso do poder se os desmandos não são reprimidos, mas dados como positivos pelos superiores.

Segundo a teoria da aprendizagem formulada por Gabriel Tarde e, depois, estudada por Sutherland, a conduta delitiva se aprende em associação com as pessoas que a consideram positiva, gerando o convencimento de estar a agir de maneira certa. Mesmo em face de condutas cruéis, os freios inibitórios são anulados em decorrência do aplauso ao comportamento malvado vindo de autoridades.

Seria a crueldade inerente à pessoa humana, cujo primitivismo deve ser burilado pelos limites impostos pelo processo educacional? Ou a malvadeza é aprendida nas relações sociais, de acordo com o meio social no qual se está inserido?

Indo mais a fundo: o mal é inerente ao exercício do poder? Será um ingrediente ou um meio pelo qual obrigatoriamente o titular do poder se manifesta para mantê-lo ou para afirmá-lo? Haveria até mesmo com gosto pelo mal?



Essas perguntas tocam no fulcro da questão da violência policial.

As perspectivas – a individual, congênita, e a social – combinam-se, mas sem dúvida têm grande peso o incentivo e o elogio a valores negativos vindos dos superiores. A probabilidade de punição (ou, ao menos, a certeza da reprovação moral da conduta nociva) é essencial para o exercício do poder se dar no limite do respeito aos demais.

Por isso a relação do governante com as polícias que atuam com a força na rua é fator relevante, pois a forma de agir do policial decorrerá do quadro de valores transmitido pela autoridade estatal.

Foi marcante o privilégio com que Jair Bolsonaro tratou a Polícia Rodoviária Federal. Aumentou seu efetivo, garantiu proventos na aposentadoria iguais ao do último salário, compareceu a inaugurações de sedes e visitou postos policiais. Neste ano, repetidamente, mencionou que o aumento salarial da Polícia Rodoviária Federal teria tratamento especial, inclusive equiparando a remuneração de seus quadros superiores à dada à Polícia Federal. A proximidade entre o presidente e a Polícia Rodoviária Federal é manifesta.

A tornar mais significativa essa ligação, Sergio Moro, no Ministério da Justiça, estendeu, inconstitucionalmente, a atribuição da Polícia Rodoviária Federal para além das rodovias, quando é claro o § 2.º, artigo 144 da Constituição, que edita: “§ 2.º A polícia rodoviária federal, órgão permanente, organizado e mantido pela União e estruturado em carreira, destina-se, na forma da lei, ao patrulhamento ostensivo das rodovias federais”. Assim, por portaria ministerial, reiterada em grande parte por André Mendonça como ministro da Justiça, deu-se atribuição para a Polícia Rodoviária Federal atuar em ação conjunta com as polícias militares na área urbana. Ao mesmo tempo, eliminaram-se as aulas de Direitos Humanos previstas no currículo de formação do concursado.

Em consequência, a Polícia Rodoviária Federal, sem expertise para agir em operação policial nas favelas, passou a ser chamada a participar de ações de repressão com o Batalhão de Operações Especiais da PM do Rio de Janeiro. Veio, destarte, a integrar as forças policiais em duas chacinas na mesma Vila Cruzeiro, na zona norte do Rio, em 11 de fevereiro deste ano, com 8 mortos; e recentemente, em 24 de maio, com o saldo aterrorizador de 23 mortos, sendo metade dos assassinados sem antecedentes criminais.

O presidente da República festejou a ação militar, cumprimentando os policiais pelo morticínio, que “neutralizou vinte”. Negou-se a recriminar, contudo, a crueldade praticada por três policiais rodoviários em Sergipe, que malvadamente lançaram gás lacrimogêneo e de pimenta no porta-malas onde aprisionaram Genivaldo de Jesus Santos, que morreu por asfixia, após ter sido seviciado e empurrado com brutalidade para dentro da viatura.

Esses maus policiais, aos gritos e palavrões, agiram com obsessão para afirmar sua superioridade diante de um pobre cidadão, negro, tido por desprezível: uma pessoa “a ser neutralizada”, como disse o presidente em face dos mortos da Vila Cruzeiro.

Assim, Genivaldo de Jesus Santos, parado pelos policiais por trafegar na moto sem capacete, foi cruelmente morto pela soberba do poder sem controle, em boa parte fruto do aplauso às violências anteriores da corporação.

O poder pessoal do “guarda da esquina” deve estar sob monitoramento, contido por lição de respeito ao direito dos cidadãos, pois, do contrário, abre-se a possibilidade de vir a ser cruel ao ter o mal como meio de afirmação de “autoridade”.

Assim, o exercício do poder, sem o bom exemplo e a fiscalização vindos de cima, viabiliza a instauração do instinto de desumanidade, tendo por consequência a crueldade, que, ensina Montaigne, é o extremo de todos os vícios, a nefasta ausência total de piedade.

Não será fácil desaprender o mal que se espalhou no espírito de parcela dos brasileiros nos anos Bolsonaro.